Às vezes descobrimos certas coisas tão bizarras e tão esdrúxulas, o nonsense cada vez mais nonsense a invadir cada página, tela, cada ouvido, olho, até anestesiar completamente a consciência e a razão, e torná-las em fetiche, que temos de nos beliscar para certificar-nos de não estar em um pesadelo, digno dos trens fantasmas dos circos mambembes de antigamente.
Ouvi a notícia, tardia, diga-se, talvez porque a mídia em geral não se preocupou em alardear o fato, de uma americana que se considera “transracial”. Isso mesmo. Já não bastam os transplantados, transgênicos, transviados, trânsfugas, transumanos, transloucados, transgênero e transxexelentos, agora somos contemplados com a glória do transracial.
Se não bastassem essas esquisitices, a Espanha, aquele país que no passado gerou Cervantes, Unamuno, Lorca e Cela, entre outros, concedeu recentemente licença remunerada para mulheres que têm cólicas menstruais. Se por um lado isso é positivo, ao afastá-las de potenciais vítimas, por outro deveria se estender tal privilégio aos homens: os flatulentos, fedidos e com bafos. Com sorte, as repartições públicas, fábricas, lojas e similares se tornariam em depósitos e armazéns sem viva alma a habitá-los; o que já acontece em maior ou menor número nas burocracias em geral, e especificamente nos gabinetes privados.
Quanto à transracial, a proeminente ativista dos direitos negros, Rachel Dolezal, literalmente se travestiu de negra, defendia a causa negra, era membra da Associação Nacional pelo Avanço das Pessoas de Cor, e considerava-se afro-americana de fato e de direito: falsificou currículos e inventou uma herança africana para obter vantagens profissionais, além de se maquiar, fazer apliques nos cabelos e escurecê-los, vestir-se e portar-se como tal; hollywood perdeu uma atriz mas ganhamos outra charlatã. Entretanto, havia um pequeno problema ou dilema ou impasse: Rachel era branca; e sempre existem pais insatisfeitos com as atitudes de seus rebentos, os vulgarmente chamados “estraga prazeres”, que a denunciaram publicamente por negar as suas verdadeiras origens: era de ascendência alemã e tcheca, com uma chance mínima, na verdade praticamente impossível, de ter traços nativos americanos.
Odiada por brancos, negros, amarelos, vermelhos, sálvias e grenás, Rachel se diz injustiçada, especialmente pela acusação de ferir os sagrados preceitos da “apropriação cultural” (não me perguntem que raios venha a ser isso, pois mesmo entendendo a intenção, é-me simplesmente inconcebível a razão ou lógica dessa estrambótica expressão). Em entrevista, se pronunciou: “A raça também não é um fator biológico - na verdade, a raça é ainda menos biológica do que o próprio gênero, se você pensar na história e nos nossos corpos. Temos sangue tipo A ou tipo O, não há nada como sangue branco ou negro e nenhuma parte do nosso corpo que designe isso"[1]
A justificativa que encontrou para tentar escapar da fraude, e da pecha de impostora, foi declarar-se transracial e denunciar a própria cara-de-pau, pois se “nenhuma parte do nosso corpo” pode designar a cor, por que ela precisava escurecer a pele, tingir os cabelos ou usar peruca?... Mas, convenhamos, ela não é de toda parva, pois, afinal, como mesmo disse, se a pessoa de um sexo pode se considerar de outro, de nenhum, ou múltiplos ao mesmo tempo, por que ela não pode sentir-se negra mesmo sendo originalmente branca? Dentro deste mundo de ponta-cabeça, até que não está de todo errada, na lógica tão somente ilógica e irracional. Mas se a moda pega...
Já imaginou alguém com pretensões de ser o Pelé, mesmo sendo ruivo, ter sardas e pernas-de-pau? E defender a sua “transpelezice”? E se aquela vizinha histérica, balofa e aversa a banho, destitui o John Travolta de ser o John Travolta e, em sua “transtravoltice” assume o lugar ao lado da Kelly Preston? E, pior, ganham o direito de ser o que imaginam ser e ainda condenam os verdadeiros por preconceito e intransigência trans ou coisa que o valha?
É como abrir a porta de um banheiro de rodoviária: não espere perfumes, flores e bichinhos fofos. Mas vai que os doidivanos resolvem arrancar todas as bocas de lobo e abrir as comportas dos vertedouros... Acostume-se, ou compre uma máscara de gases, pois, ao que tudo indica, não estamos distantes desse futuro... ah, que se dane!... o futuro já chegou!
[1]
Entrevista ao programa “NewNight”, da BBC Two
Texto publicado originalmente na Revista Bulunga com o título: "O futuro é hoje"
Jorge F. Isah

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