29 abril 2026

Estudo sobre a Confissão de Fé Batista de 1689 - Aula 46: "Uma marca cristã desprezada"








Jorge F. Isah
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A Bíblia aponta-nos vários dos nossos deveres como cristãos e como membros do corpo local:

- Orar uns pelos outros [Tg 5.13-16];

- Exortar e edificar uns aos outros [1Ts 5.11, Hb 3.12-14] - Exortar é uma palavra que traz vários significados, como: Aconselhar, persuadir; animar, encorajar, incitar; sempre em relação à uma vida de fé genuína e santa ao serviço de Deus;

- Levar as cargas uns dos outros [Gl 6.2];

- Sujeitar-nos uns aos outros [Ef 5.14-21].

Estes são princípios estabelecidos por Deus para que o seu povo caminhe em unidade e santidade, cumprindo o mandamento do Senhor de amar ao próximo como a si mesmo. Na verdade, o ensino que temos é até superior, de amar o próximo mais do que a nós mesmos, pois foi assim que Cristo agiu ao entregar-se por nós. Ele nos amou com um amor superior, levando-o à cruz para que fôssemos libertos do pecado e condenação, a morte eterna e definitiva. Devemos ter em mente sempre o outro, especialmente o irmão, caminhando com ele, lado a lado, em meio às tribulações, tristezas, sofrimentos e dores que o mundo nos infringe, sustentando-nos mutuamente. Por isso somos admoestados a orar, exortar, instruir-nos reciprocamente; a carregarmos os fardos duros e pesados uns dos outros, de forma que ele se torne mais leve para o irmão, o qual também auxiliar-nos-á a diminuir o peso das nossas cargas.

Sabemos que é pelo poder de Cristo, por sua bondade e misericórdia, que recebemos o consolo e o alívio nas atribulações, pois, sem ele, nada seríamos ou poderíamos realizar. Contudo, é estimulante saber que os irmãos se interessam pelo nosso sofrimento e dores, e esteja, cada um segundo o dom que o Senhor dá, disposto a reconhecê-las como também suas, já que os membros colaboram, cada um, para o bem do corpo. Creio que o Senhor nos deu essas orientações para não nos preocuparmos além da conta, além do necessário, com os nossos problemas, também. Este é o caráter pedagógico do auxílio, não nos deixar entristecer exageradamente, mais do que a tristeza convém e, de certa forma, alegrar-nos no zelo e sustento para com o irmão aflito [parece contraditório, mas o sofrimento do outro pode nos "tirar" do círculo vicioso em que muitas vezes nos encontramos, em meio aos problemas triviais e corriqueiros do dia-a-dia. E a nossa tristeza com a aflição alheia pode tornar-se na alegria dele, de não se reconhecer sozinho e abandonado em sua luta, fortalecendo-o, de forma que ele também nos fortalecerá. Na física esse princípio seria chamado de "lei da ação e reação", em que o amor e a piedade atribuídas retornam-nos de forma equivalente].

Acredito que esses são pontos que não suscitam muitos debates, gerando divergências. Normalmente são esquecidos ou relegados ao nível do desinteresse, seja por considerá-lo algo trivial, reles, sem muita importância, ou por certa soberba de se achar que já o alcançou e de que as etapas a serem vencidas são outras. Ledo engano! Em um mundo cada vez mais individualista e rebelde, a igreja também tem se individualizado e se rebelado contra os preceitos divinos. Igualmente, cada vez mais, os crentes se consideram autônomos e donos dos seus narizes, de forma que o sustento, auxilio e piedade se tornam escassos, quase invisíveis. Não que devemos alardear aos quatro cantos o auxílio ou consolo ou sustento que devotamos ao próximo, mas é que o próprio estado de coisas tem revelado o quão distantes estamos de viver uma vida verdadeiramente cristã, aos moldes bíblicos. Quase ninguém se interessa mais por uma prática cristã, no sentido de fidelidade à Escritura e de dar os frutos que o Espírito produz no homem regenerado. Os holofotes estão ligados e cada um quer a sua porção de luz, sem se preocupar em ser ele próprio a luz. Muitos reduzem a vida cristã a falar de Cristo para as pessoas, e eu já vi incrédulos repetirem versículos, referirem-se a Jesus, como muito crente não é capaz de fazer. Mas, então, tem-se um detalhe: ele fala bem, até mesmo com probidade e correção, mas a sua vida pessoal não espelha sequer um milímetro do que diz. E é este o ponto principal do qual não podemos nos esquecer, e do qual o Senhor alertou-nos: pode uma árvore má dar frutos bons e vice-versa? [Mt 7.17-20].

A parábola dos talentos assevera mais fortemente este ponto [Mt 25.14-30 cf. Lc 12.42-48]; no sentido de que somos mordomos do que Deus nos dá, e quanto mais ele nos dá, mais devemos honrá-lo, produzindo os frutos proporcionais à sua dádiva. Ou seja, somos ordenados a cuidar com amor, empenho e dedicação de tudo o que dispomos e que nos foi ofertado graciosamente. Não fazê-lo implicará em omissão, negligência e desobediência, resultando na ordem que o Senhor profere: "Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos. Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado".

Assim devemos proceder em tudo, na vida pessoal, profissional, e na igreja. Há os que pensam ser possível uma vida aparente ou "mínima" no corpo de Cristo. Penso que se enganam a si mesmos os que assim agem. A vida cristã tem de ser intensa em seu zelo, amor, e em produzir os frutos para a glória de Deus. É claro que tudo isso é proporcional ao que Deus nos deu e capacitou-nos a gerir. Ele não dará mais do que podemos suportar, como está escrito: "Não veio sobre vós tentação senão humana, mas fiel é Deus que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar" [1Co 10.13]. O verso se refere diretamente à tentação para o pecado, mas podemos, por princípio, levá-lo a todos os aspectos da vida, pois Deus não dá um fardo maior do que podemos carregar, já que, com o fardo, nos dá juntamente os meios de suportá-lo.

Voltando à parábola dos talentos, um servo ganhou cinco talentos, enquanto o outro dois, e o último um. Quando o Senhor voltou, os servos foram prestar-lhe contas. O primeiro devolveu-lhe dez talentos, o segundo quatro, e o último o mesmo talento que recebeu. Ou seja, este não soube o que fazer com o que Deus lhe dera, não soube aplicar o seu dom, ao contrário dos demais. Por isso foi reconhecido como mau e negligente servo, e lhe foi tirado o dom. A parábola nos remete a reconhecer Deus como o doador de tudo, inclusive dos nossos talentos e dons. Aquele que não sabe aplicá-los correta e convenientemente é como se não os tivesse; como um cego que quer ver ou um surdo que quer ouvir, com o agravante de que ele tem olhos e ouvidos bons, mas não sabe usá-los ou não os quer usar [Rm 12.4-8].

Na igreja do Senhor, devemos sempre buscar o melhor para nós e os demais irmãos e sermos o melhor que podemos ser, inclusive para nós mesmos, sem nos esquecer de que maior amor tem aquele que dá a vida por seu irmão. Parece um refrão de um cântico antigo ou um slogan, mas para nós tem de ser uma bandeira pela qual vivamos.

Este preâmbulo tem o objetivo de se chegar a dois outros pontos, que considero mais polêmicos e problemáticos dentro da igreja:

1) A autoridade eclesiástica – [1Ts 5.12-13, Hb 13.17]. Os oficiais da igreja governam não para si mesmos, nem a partir de autoridade própria, mas a autoridade investida por Deus, como servos [1Pe 5.1-5, conf Mt 20.26-27];

2) Sustento pastoral - 1Tm 5.17; Lc 10.7; At 28.8-10.

Os quais serão expostos e discutidos nas próximas aulas.
 

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ÁUDIO DA AULA 46:

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Notas: 1)   Aula realizada na EBD do Tabernáculo Batista Biblico 

22 abril 2026

Ele & Ela - Antídoto para uma série ruim

 




Jorge F. Isah

 

 

                Este mês, motivado pela ausência da minha esposa, pois estava a visitar seus parentes em B.H., resolvi assistir a uma das novas séries da Netflix — não sei se nova para a grade ou apenas para mim, já que raramente me arrisco a séries atuais, salvo indicação de amigos confiáveis. Sim, sou arredio com as novidades por vários motivos. E podem me chamar de velho e antiquado, porque não estou nem aí, e não faço qualquer questão de ser moderninho ou descolado — e, digamos, me surpreendi.

      A princípio, chamou-me a atenção a presença de Jon Bernthal, ator acima da média. Esse foi o principal chamariz. E, também a possibilidade de não me ver maratonando por horas a fio, algo que não tenho me entregado desde que descobri “Downton Abbey”— talvez seja o maior estímulo: uma minissérie em seis capítulos.

      A história não tem nada de novo: um crime, seguido de outro crime, e outro, um detetive que era amante da primeira vítima, um casal em crise, amizades tóxicas, garotas perversas, hipocrisia, etc, etc, e toda aquela lenga-lenga da qual já estamos acostumados.

      As pistas, inicialmente, se voltam para Anna — interpretada pela mediana para baixo, Tessa Thompson — esposa do detetive Jack Harper — Bernthal —, que também é um dos primeiros suspeitos. O roteiro privilegia os clichês, não tem personagens profundos e bem caracterizados, muitas cenas soam artificiais ou incoerentes — como as de Harper soltando provas para todos os lados, enquanto realiza inquéritos nos balcões de bares e estacionamentos — mas a direção consegue manter o clima de suspense e a produção não precisou criar nada mirabolante para suster a atenção.

      Harper é o marido traído, com o casamento destruído pela morte da filha recém-nascida, mora com a irmã alcoólatra e tem uma sobrinha pequena. Quer mais?... Anna é uma jornalista que perdeu o cargo de âncora na TV, pelo sumiço de um ano sem deixar rastros, após a morte da bebê. Mesmo assim, é readmitida na emissora e começa a trabalhar no caso dos assassinatos imediatamente, protegida do chefão Jim Pruss, personagem criado apenas para respaldar a nova ascensão na carreira de Anna.

      Como em todo suspense policial, as pistas apontam ora para um, ora para outro, ora para aquele, e, sabemos, no fim, haverá uma reviravolta e aquele personagem que ninguém imagina é o verdadeiro criminoso. Tudo se encaminha para Catherine, mas quando o desfecho acontece e percebe-se que ainda faltam quase trinta minutos da série, a pergunta vem: qual será a surpresa mirabolante para enganar o espectador?

      Nos livros e na dramaturgia, salvo raras exceções, as pistas levam quase inevitavelmente ao algoz e, no final, temos confirmada a autoria. Bons escritores e dramaturgos não estão preocupados com “final apocalíptico”, mas com o enredo, em produzir bons personagens, em desenvolver a trama de tal maneira que ela sustente o livro ou peça, sem precisar de malabarismos e invenções. Não sei quando as coisas mudaram e a necessidade de uma reviravolta épica — na maioria das vezes sem sentido, como a explosão do carrinho de cachorro-quente no parque de diversões espalha pétalas e balõezinhos coloridos ao invés de salsicha e molho de tomate.

      Aqui, a despeito de haver alguns bons atores — Bernthal, Crystal R. Fox, Marin Ireland — o roteiro é tão pobre e a caracterização tão superficial que escorregam, e o chão é o lugar de todos. Tentarei não dar spoiler, mas não sei se conseguirei.

      Alice, uma anciã com Alzheimer, aparece secundariamente na história. Aquele drama pessoal e familiar da protagonista, Anna, que, contudo, não a impede de negligenciá-lo, preocupada com a carreira e as disputas internas no trabalho. Em momento algum, existe empatia entre mãe e filha, e a importância da relação se dá apenas pelas sequelas do passado.

      Como disse, lá em cima, os clichês são abundantes. E o fim é o ápice deles. De uma inverossimilhança patética e irrealizável, com justificativas saídas da boca de um infante assustado com a história do “Chapeuzinho Vermelho” — escrita por Perrault e não a versão dos Irmãos Grimm — e que decidiu estragá-la completamente.

      Lembrou-me, um pouco, Tarantino, “o rei da vingança” — mas com talento — onde nada importa, apenas pagar com a mesma moeda, se possível, com juros. E os laços entre mãe e filha se reatam ou se amarram em um final feliz, sorridente, sem culpas ou desculpas.

      Talvez, esteja se perguntando: “por que raios, no início, você se surpreendeu?”

      Vou lhe dizer claramente: percebi o quanto a minha esposa faz falta. Peguei o telefone, liguei para ela, e ordenei o seu retorno imediato, ou faria uma besteira. Quando ela me perguntou qual besteira, disse que, além de cancelar a assinatura da Netflix, iria desaparafusar a TV da parede e jogá-la no lixo.

      No dia seguinte, estávamos juntos, e assistimos “Ele & Ela”. E não é que gostei?


15 abril 2026

Nelson Rodrigues - o maldito mais amado do país

 





Jorge F. Isah



Nelson Rodrigues é um dos maiores, senão o maior dramaturgo moderno do Brasil. Escreveu de tudo um pouco: artigos, contos, romances, crônicas, mas, especialmente, peças de teatro. Foi nessa seara que se notabilizou e ganhou fama. Visto por uns como conservador, por outros liberal, às vezes um maluco indomável, e, para muitos que não leram seus livros e assistiram às suas peças, não passava de um imoral, depravado e grotesco, quando não vulgar e sensacionalista. Havia quem o amava e aqueles a destilar-lhe ódio. Havia quem o lesse às claras, e havia leitores ocultos. Contudo, quem era realmente Nelson Rodrigues?

Nascido em 1912, em Recife, mudou-se com a família ainda criança, aos 5 anos, para o Rio de Janeiro. O pai, Mario Rodrigues, fundou em 1925 o jornal “Manhã”, posteriormente o “Crítica”, e Nelson, aos 14 anos, iniciou a carreira de repórter policial. Algumas tragédias depois, o assassinato do irmão Roberto Rodrigues em 1929 (era ilustrador e pintor), pela escritora Sylvia Seraphim, após a reportagem sobre o seu adultério (apoiada por feministas e parte da imprensa contrária ao jornal Critica, Sylvia foi absolvida do crime); o pai enveredar no alcoolismo e morrer em 1930, o “Critica” foi censurado e fechado pelo então presidente Getúlio Vargas.

Em 1936, outro irmão de Nelson morreu vítima de tuberculose, doença que o afligiria também por várias anos.

Talvez, por isso, migrou gradativamente para as colunas esportivas, mormente o futebol, onde descrevia os jogos como batalhas épicas, exacerbando ao máximo jogadas e jogadores, muitos deles retratados heróis. A experiência jornalística aliada à vida suburbana na parte norte carioca, foram os elementos de formação da sua carreira literária.

Em 1941, ocorre o seu debut teatral com a peça “A mulher sem pecado”. Entretanto, o sucesso viria em 1943 com “Vestido de noiva”, encenada no Teatro Municipal e dirigida pelo polonês Ziembinski, à frente do grupo “Os comediantes”. Tornou-se um marco no teatro brasileiro, pela maneira pouco usual de se fazer dramas. Era a oxigenação, ou melhor, a renovação definitivamente incorporada aos palcos nacionais.

Teve peças censuradas: “Álbum de família”, em 1946, por causa do tema polêmico do incesto, e “Casamento” em 1966.

Escreveu folhetins sob o pseudônimo “Susana Flag”, em publicações para os Diários Associados, nos anos 1940, alavancando as vendas dos jornais da organização pelo Brasil.

Casou-se com Elza Bretanha, colega de redação, em 1940, com quem teve 2 filhos. Era mulherengo e homem de muitas amantes e filhos de relações extraconjugais, bem ao estilo dos seus personagens: adúlteros, amorais e hedonistas. Por fim, ironicamente, retornou ao casamento com Elza após a promulgação da lei que legitimou o divórcio, e assim viveu os últimos dias, numa espécie de “autorredenção”.

Foi ainda crítico cultural, comentarista de futebol no rádio e TV, e editor em vários momentos de sua carreira.

O gênio dado à autopromoção, polêmicas e temática que o próprio Nelson qualificava de “desagradável”, chocou plateias e, se levou à admiração, também promoveu aversão e furor: jamais atitudes apáticas ou desinteressadas.

Morreu em 1980, aos 68 anos, e definiu-se assim:

“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino).”

Um menino travesso, diga-se de passagem.

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Frases polêmicas, mas nem tanto...


“Toda unanimidade é burra.”

“Invejo a burrice, porque é eterna.”

“Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista.”

“Só o inimigo não trai nunca.”

“A liberdade é mais importante do que o pão.”

“A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.”

“A plateia só é respeitosa quando não está a entender nada.”

“A televisão matou a janela.”

“Amar é dar razão a quem não tem.”

“Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.”

“Qualquer indivíduo é mais importante do que toda a Via Láctea.”

“Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.”

“Deus está nas coincidências”

“Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.”

“Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem.”

“Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.”

“Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia.”

“Jovens: envelheçam rapidamente!.”

“Nem toda mulher gosta de apanhar. Só as normais.”

“Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias.”

“O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.”

“O biquíni é uma nudez pior do que a nudez.”

“O brasileiro é um feriado.”

“O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.”

“O morto esquecido é o único que repousa em paz.”

“Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas.”

“Se os fatos são contra mim, pior para os fatos.”

“Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta.”

“Amar é ser fiel a quem nos trai.”

08 abril 2026

Manda-Chuva

 







Jorge F. Isah


  
Na infância, lembro-me de um desenho, entre outros, que passava no horário nobre da tv, lá pelos idos dos anos 1970 (como o tempo voa!), onde eu, meu pai e meu irmão, assistíamos à gangue de gatos mais malandra e frustrada da história: “Top Cat” ou “Manda-Chuva”. Se não me engano, e a memória não me traí, passava às quartas-feiras, em horário nobre, e foi um campeão de audiência por longos anos. A série consistiu em 30 episódios repetidos exaustivamente por diversos canais, nas décadas seguintes, seguidas de várias edições em quadrinhos e aparições em outras séries animadas.

Estreou na América em 1961, criado pelos estúdios Hanna-Barbera, e vendidos posteriormente ao canal ABC; teve apenas uma temporada. Não sei dizer os motivos a levar à descontinuidade da série, mas o simples fato de estrelar o disputadíssimo horário nobre leva-me a crer em problemas com os custos de produção ou um certo esgotamento, já que se inspirara em outra sitcom, “The Phil Silvers Show”, exibida entre 1955 e 1959.

Basicamente, a trama se resumia à tentativa, sempre sem sucesso, dos gatos aplicarem golpes a fim de enriquecer e ganhar fama. Quando tudo parecia dar certo, eis que surgia um problema: normalmente a consciência a fazê-los desistir, ou a força da lei (o íntegro, atrapalhado e êmulo do bando, o guarda Belo), ou porque eram enganados por outros mais espertos e ardilosos.

Há quem entenda-o como uma crítica social, ao identificarem-no com pobres, desfavorecidos e os marginalizados dos guetos, algo comum e recorrente na Big Apple (Brasília, por aqui) ou em qualquer metrópole mundo afora. Seriam eles, e seus infortúnios, os perdedores de sempre? Entretanto, é uma visão reducionista e estereotipada, não somente da animação quanto à comparação social, visto os pobres em sua maioria não serem ociosos ou trambiqueiros, para dizer o mínimo. A meu ver, o aspecto moral está mais em evidência, e a mensagem de que, mesmo divertida e a suscitar cenas hilárias, a vadiagem e a patifaria caracterizadas nos episódios não levaria ninguém ao êxito; mesmo os mais ladinos acabariam acertando-se com a justiça.

Por outro lado, o probo guarda Belo, em sua inabalável integridade, não galgaria promoções, e ainda por cima se veria envolvido nas tramoias da turma... Mas eles desconheciam as intricadas esferas sempre muito bem lubrificadas dos cambalachos e manobras tupiniquins, do contrário, a temática e os resultados seriam muito, mas muito diferentes, bem ao estilo de House of Cards (mais apropriado, mas ainda aquém das “travessuras” brasileiras).

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PERSONAGENS:

a) Manda-Chuva - Malandro, líder da gangue; o primeiro a inventar e se meter em encrencas. No Brasil, foi dublado pelo ator Lima Duarte.

b) Batatinha - O mais amável dos gatos. Dócil, gentil e incapaz de fazer mal a quem quer que seja. Nunca age com malícia (uma espécie de consciência benigna do chefe, o “anjo bom”).

c) Chuchu - O gato cor-de-rosa e o braço direito do Manda-Chuva; também o mais alto; usa camisa branca de gola alta. Chuchu está sempre de vigia para ver se alguém se aproxima quando a turma está executando seus trambiques.

d) Espeto - De estilo próprio, ganhou o forte sotaque nordestino no Brasil (também dublado por Lima Duarte).

e) Bacana - O galã da turma, além de esbanjar classe. Sempre envolvido com o sexo oposto. É o namorado da gatinha Trixie.

f) Gênio - Baixinho, laranja e cujo nome contratava com a sua personalidade, já que era o mais bobo e ingênuo do bando.

g) Guarda Belo – Um policial de rua, amigo da vizinhança e que tenta, sem muito esforço, fazer com que Manda-Chuva pare com suas traquinagens (especialmente ao utilizar o telefone da polícia, frequente e gratuitamente, para os seus planos, fazer apostas e jogar conversa fora, deixando o guarda irritado e indócil).
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“Manda-Chuva” foi uma sitcom sofisticada e capaz de agradar a gregos e troianos, sem distinção. Mesmo sendo produzida há mais de 60 anos, é possível se identificar com um e outro personagem em sua universalidade tão característica.

Para muitos, diante dos noticiários, conspirações e trapaças perpetradas à luz do dia, sem que autores e colaboradores sequer se envergonhem, antes se exaltam no descaramento abjeto e cínico, parecerá cândido e recatado. Se nas telas de antigamente (e para os que assistem ainda hoje) era a mais pura diversão, os holofotes atuais não são capazes de denunciar as trevas e as particularidades obscuras do verdadeiro submundo, a atuar em recintos aparentemente garbosos, mas a exalar o enxofre dos infernos. Se os gatos do passado eram cômicos e faceiros, dos gatunos da atualidade não se pode dizer o mesmo, onde larápios e quadrilheiros se multiplicam mais do que cuspe de bêbado.

Resta-nos tão somente nos deliciar com a inocência e as trapalhadas dos felinos de ontem, porque os de hoje...