26 dezembro 2017

SERMÃO EM MARCOS 10.43-44: AQUELE QUE SERVE!





Jorge F. Isah








“Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal;

E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos.” Marcos 10:43,44



INTRODUÇÃO:

- Vivemos em um mundo onde o poder, a influência, a dominação, o sucesso, e o controle são características vistas como desejáveis, como meta a ser perseguida.
- O homem, desde o Éden, se considera não somente o senhor da sua vida, mas também dos outros.
- Filosofias como o utilitarismo e o pragmatismo, que afirmam os fins justificarem os meios, e o êxito em qualquer empreitada, ou ação, como a prova da verdade. Ou seja, a verdade somente pode ser medida como tal se ela obtiver sucesso prático, ou for útil para se alcançar a felicidade.
- Em linha gerais, seria verdade tudo aquilo que, de alguma maneira, colabore ou contribua para determinado objetivo pelo êxito ou sucesso, ou que leve à felicidade.
- É claro que os critérios de êxito, sucesso e felicidade são algo subjetivos dentro da posmodernidade e do poscristianismo ao qual o mundo tem se embrenhado.
- Muito disso decorre do fato de não ser crer em uma verdade, ou na verdade, mas de que o conceito de verdade é completamente íntimo, e algo pode ser verdadeiro para um, mas não para outro.
- As pessoas, de um modo geral, tendem a reduzir o sucesso e a felicidade ao seu caráter material, de que aquilo que se pode ver, tocar, possuir ou comprar é a prova ou não do sucesso e felicidade.
- Para muitos, a exposição na mídia, o acumulo de riquezas, e o poder para controlar um maior número de pessoas, são as diretrizes que identificarão se uma pessoa alcançou ou não o sucesso e a felicidade.  
- O materialismo, aquela velha ideia de que tudo pode ser medido apenas pelo que se vê ou se toca, de que a realidade, e suas nuances, somente podem ser explicadas pela matéria.
- Fama, dinheiro e poder normalmente são os elementos materiais que identificarão aquele que deu certo, caso as consiga, ou aquele que deu errado, caso não as alcance.
- Por causa dessa visão distorcida e diabólica, a maioria dos crimes são praticados; e eles suscitam tanto a inveja, o orgulho, a cobiça, como o roubo e o assassínio.
- O mundo, portanto, caminha na contramão da vida, ao dar importância a um conjunto de substâncias que, antes de promove-la, tratam de aniquilá-la.


OS PRIMÓRDIOS DA HUMANIDADE



“E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor.

E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta.

Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante.

E o Senhor disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante?
Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar.
E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou.”


- O primeiro exemplo, do conflito permanente entre os homens, se deu no início da humanidade. Como lemos no relato de Gênesis, Caim se irou, e matou, o seu irmão Abel por pura inveja, por se sentir desprezado.
- Sendo arrogante, orgulhoso e vaidoso, não suportou a rejeição de Deus à sua oferta; não aceitou os méritos do seu irmão em agradar a Deus, e, por esse sentimento de insatisfação, de revolta, e insubordinação a Deus (não são esses os elementos a marcarem o “vitimista” moderno, assim como marcou o “vitimista” pós-Éden?), deu cabo da vida do seu irmão.
- Antes de entender a sua missão, de agradar a Deus, preocupou-se em ser reconhecido (e este parecia o seu objetivo), em alcançar os méritos sem se preocupar, efetivamente, em cumprir correta e adequadamente a sua tarefa; achava-se tão autossuficiente em si mesmo, que a ideia da vitória, ou seja, ser reconhecido por Deus (ao invés de querer agradá-lo), levou-o a produzir deficitariamente, não cumprindo o real intento da sua vocação ou chamado. Cheio de si, olhava para si, e considerava suficiente o seu amor-próprio para alcançar os louros divinos.
- Entretanto, o fim de todo o homem é glorificar a Deus, sendo esta a mais sublime de todas as vocações, de todos os desejos, o real significado da vida. Qualquer homem que prive a si mesmo dessa busca, está morto. Qualquer homem que não veja isso como a meta primordial e necessária da sua existência, não vive, e está fadado ao fracasso.
- Caim não aceitou o fracasso; em sua soberba, e não servindo o fracasso como experiência, aprendizado, a fim de compreender, mas de também corrigir os erros, e aperfeiçoar-se, preferiu matar Caim, e encobrir o seu insucesso.
- Creio que o pensamento de Caim foi o seguinte: se não posso ter o sucesso que o meu irmão Abel, ele também não o desfrutará!
- Na verdade, Caim se considerava injustiçado por Deus, e de que merecia o seu reconhecimento. Deus havia falhado em aceitar a oferta de Abel, e ele, Caim, estava disposto a reparar esse erro: se não podia ser honrado, Abel também não. Afinal, o direito lhe pertencia muito mais do que ao seu irmão.
- O caráter humano passou a ser moldado pela ambição.


O QUE PLEITEARAM OS APÓSTOLOS DE CRISTO?

- Voltemos ao texto de Marcos 10.32-45. Do que ele trata?
- Resumidamente, o Senhor Jesus fala aos seus discípulos do que o aguardava, do sofrimento que estava por vir, e de que ele sofreria.
- Sendo o Filho de Deus, ele não deveria passar por isso, certo?
- Errado! Ele mostrava a eles que mesmo sendo o Filho de Deus estava disposto a se sacrificar pelo seu povo. Estava disposto a padecer. A se humilhar. Ser rejeitado. E condenado como um criminoso.
- Sendo ele santo, perfeito e imaculado, se sujeitaria a cumprir a vontade do Pai, por amor a ele, e por amor às suas ovelhas.
- É o que ele diz nos versos 33 em diante:



“Eis que nós subimos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e o condenarão à morte, e o entregarão aos gentios.

E o escarnecerão, e açoitarão, e cuspirão nele, e o matarão; e, ao terceiro dia, ressuscitará.”




- Ele afirma que será zombado, desprezado, açoitado, cuspido, maltratado e morto.
- Mas, a despeito de tudo, ele ressuscitará ao terceiro dia, mostrando que a morte não exerce poder sobre ele.
- Então, como se nada do que ele estivesse dizendo importasse ou comovesse Tiago e João, eles se aproximam e lhe perguntam:



“Mestre, queremos que nos faças o que te pedirmos.

E ele lhes disse: Que quereis que vos faça?

E eles lhe disseram: Concede-nos que na tua glória nos assentemos, um à tua direita, e outro à tua esquerda.”


  - Parece estranho que os apóstolos, após a descrição do que esperava o Senhor, no futuro, tenham se preocupado estritamente consigo mesmos, e não atentaram para o que viria a acontecer com o Senhor. Parece insensibilidade, descaso, mas é apenas o egoísmo humano, o desejo de destacarem-se, como se houvesse neles mérito para ocuparem lugares de destaque no Reino de Cristo.
- Outro ponto interessante é que o pedido é quase uma ordem: “queremos que faças o que te pedirmos”, tem o caráter de uma imposição, de uma exigência, como se o homem pudesse se aproximar de Deus e dizer o que ele deve ou não fazer.
- Nessa situação, parece que os apóstolos estão muito distantes de compreenderem a missão de Cristo e a deles próprios, ao colocarem-se diante do Senhor com tamanha arrogância e presunção.
- É claro que não há de se demonizar os dois apóstolos, no sentido de que eles não tivessem se apercebido da honra que teriam caso ocupassem esses postos. O problema é que não deixaram essa decisão para o Senhor, mas arvoraram-se a pleiteá-la, reivindicando-a imperiosamente, ordenando-lhe o que fazer, quando não lhes pertencia essa prerrogativa, ainda mais da maneira desonrosa contida nela.
- Cristo os inqueriu, e respondeu, pacientemente:



“Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis; podeis vós beber o cálice que eu bebo, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?

E eles lhe disseram: Podemos. Jesus, porém, disse-lhes: Em verdade, vós bebereis o cálice que eu beber, e sereis batizados com o batismo com que eu sou batizado;

Mas, o assentar-se à minha direita, ou à minha esquerda, não me pertence a mim concedê-lo, mas isso é para aqueles a quem está reservado.”


- Primeiro, Cristo pergunta se eles beberão do mesmo cálice que ele beber, significando o sofrimento, dor e humilhação que advirão, ao que respondem com um “podemos”; e se serão batizados com o mesmo batismo em que ele será batizado, significando a morte, para a glória de Deus, o que respondem: “podemos”.
- Não sei se Tiago e João compreendiam corretamente as implicações daquilo que afirmavam, do que os esperava, as dores e angustias e perseguições que sofreriam no futuro. Cristo afirma eles não saberem o que estão a pedir. Por isso, penso que não. Que suas respostas continham um elemento de orgulho incapaz de reconhecer o perigo a que estariam expostos, em breve.
- Segundo, Cristo afirma que eles beberão e serão batizados da mesma forma que ele beberá e será batizado. O Senhor não nega a afirmação deles, ainda que eles não tenham a real compreensão daquilo que estão dizendo.
-Terceiro, ele diz que a prerrogativa de determinar quem estará à sua direita ou esquerda compete ao Pai. E de que já está determinado, ou em suas palavras, reservado, àqueles que o Pai escolher.
- Do ponto de vista prático, Tiago e João tiveram o seu pedido negado; não alcançaram o que almejavam, como se o Reino de Cristo fosse equiparado a um reino terreno, onde os homens têm preeminência e ascendência sobre outros homens, numa nítida disputa de poder.
- Estavam equivocados em relação ao mérito pessoal, às suas exigências, e quanto ao modelo de Reino que Cristo lhes apresentava.
- Ao invés de poder, honrarias e triunfos, dentro de uma visão humanizada, eles, para alcançar o Reino, teriam de se sujeitar a Deus, e à guerra protagonizada contra Satanás, seus demônios e servos.


 A REAÇÃO DOS DEMAIS APÓSTOLOS

- Entendendo que ali, no circulo do Senhor Jesus, estava a igreja, diante da pretensão de Tiago e Pedro, como os demais apóstolos agiram?
- O trecho nos revela:



“E os dez, tendo ouvido isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João.”



- A palavra indignação significa irar-se, revoltar-se, zangar-se, indispor-se, revelando que eles ficaram muito bravos com a atitude dos dois.
- Eles perceberam a presunção, arrogância, orgulho, e superioridade deles. Entenderam que Tiago e João se consideravam melhores do que os demais, e seguindo esse espírito, sentiram-se traídos pelos “filhos do trovão”. Era como se, adiantando-se em reivindicarem ao Senhor uma posição de destaque no Reino, estivessem “passando a perna” nos demais apóstolos.
- Tal qual os dois, os outros dez, agindo carnal e impensadamente, hostilizaram Tiago e João. É provável que os tenham xingados.
- É assim que se deve agir na vida, de um modo geral, e na igreja de maneira especial? Claro que não!
- Como está escrito (Rm 12.9-21):



“O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem.

Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros.

Não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor;

Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração;
Comunicai com os santos nas suas necessidades, segui a hospitalidade;
Abençoai aos que vos perseguem, abençoai, e não amaldiçoeis.
Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram;
Sede unânimes entre vós; não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes; não sejais sábios em vós mesmos;
A ninguém torneis mal por mal; procurai as coisas honestas, perante todos os homens.
Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens.
Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor.
Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça.
Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.”


- As exortações são claras, no sentido de apartamos do mal, mas de não reagirmos na exata medida do mal, vingando-nos da ofensa sofrida.
- Os dez tinham todo o direito de se exasperarem e tirarem satisfações com os outros dois, mas agindo assim demonstravam apenas terem, em si mesmos, a aptidão tão comum ao homem natural, aquela a revelar o homem carnal, que deseja fazer justiça com as próprias mãos, e por tudo a termo alheio à vontade de Deus, mas satisfazendo-se a sua natureza caída.
- O Senhor, chamando-os para junto de si, repreende-os:



“Mas Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios, deles se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre eles;

Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal;

E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos.”


- Ele nega a ideia de Tiago e João de que o Reino de Cristo seja comparado a um reino terreno, onde as autoridades e governantes dominam, subjugam e conquistam o povo.
- A mesma passagem é descrita por Lucas, no cap. 22.25:



“Mas eis que a mão do que me trai está comigo à mesa.

E, na verdade, o Filho do homem vai segundo o que está determinado; mas ai daquele homem por quem é traído!

E começaram a perguntar entre si qual deles seria o que havia de fazer isto.

E houve também entre eles contenda, sobre qual deles parecia ser o maior.
E ele lhes disse: Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores.
Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve.
Pois qual é maior: quem está à mesa, ou quem serve? Porventura não é quem está à mesa? Eu, porém, entre vós sou como aquele que serve.
E vós sois os que tendes permanecido comigo nas minhas tentações.
E eu vos destino o reino, como meu Pai mo destinou,
Para que comais e bebais à minha mesa no meu reino, e vos assenteis sobre tronos, julgando as doze tribos de Israel.


- Durante a última ceia, antes da crucificação, o Senhor diz que seria entregue aos seus algozes por um dos doze. Então, os apóstolos se perguntaram, entre si, qual seria ele, dentre eles.
- Em seguida, a partir da inquirição de quem seria o traidor, eles passam para qual deles seria o maior. Sem obterem a resposta para a primeira dúvida, abandonam-na, e passam para a disputa orgulhosa de qual deles é o maior, como a nova disputa anulasse a primeira.
- O Senhor então mostra-lhes que o Reino de Cristo é diferente do que eles imaginam, e daquilo que o mundo estabeleceu como honraria e sucesso.
- Ao invés de dominar, o crente deve ser dominado; ao invés de ser servido, o crente deve servir; ao invés de mandar, o crente deve obedecer; ao invés de ser o maior, ser o menor; ao invés da pompa, de gabar-se e honrar-se a si mesmo, ele deveria humilhar-se.
- O Reino de Cristo era feito por servos, sendo ele, o Filho de Deus aquele que mais serviu.
- Por isso, ele os exorta a seguirem o seu exemplo; servindo, seja na vida, seja na morte, a fim de que Deus seja glorificado em cada um deles, mesmo nas situações mais angustiantes, dolorosas, mesmo nas piores perdas.
- Um parênteses:
- Uma das doutrinas bíblicas mais desprezadas, a da expiação limitada, é anunciada aqui pelo Senhor, ao final do verso 45, quando ele diz que veio para servir, “e para dar a sua vida em resgate de muitos”.
- A morte de Cristo não é uma mera possibilidade, uma hipótese improvável de que o homem pode colaborar, de alguma forma, com a sua salvação. A morte de Cristo não deu “uma chance” ao homem de ser salvo, como muitos afirmam, e de que a morte de Cristo criou a possibilidade de o homem vir a se salvar, precisando que ele “aceite” a salvação.
- Assim, tem-se em voga hoje o conceito de que Cristo morreu por todos, mas nem todos serão alcançados por sua morte, pois muitos serão condenados e irão para o inferno. Ao ver deles, Cristo criou a condição para que todo homem se salve, não houve a salvação efetiva, de fato, por ato, significando que a maioria se perderá, a despeito do esforço do Filho de Deus.
- Se essa afirmação não é uma blasfêmia, o simples fato do Senhor afirmar que veio para servir e dar a sua vida em resgate de muitos, não significando todos, anula-a.
- A morte de Cristo tem de ser efetiva, resgatadora, em todos os seus objetivos, pois do contrário ele não poderia afirmar: está consumado!! Dependeria ainda de cada um, a seu bel-prazer, querer ser salvo ou não.
- Não entrarei em todos os pormenores deste debate; este não é o caso, nem o texto se propõe a isso, no momento, mas para o leitor se aperceber de inexorabilidade da doutrina da Expiação Limitada. Qualquer afirmativa contrária significará o universalismo, se não em princípio, o será em finalidade, como consequência.
- Fecha-se o parênteses.


CONCLUSÃO:

- Os apóstolos disputavam, entre si, a primazia que cada um exigia receber no Reino de Cristo. Achavam que o certo seria um se sobrepor ao outro, exercendo o seu poder e dominação como os reis, príncipes e autoridades o fazem.
- Por não terem a real compreensão do Reino divino, julgavam que o lugar a ocuparem no Reino era fruto dos méritos pessoais de cada um, e de que cada um tinha mais méritos que o outro; quando, na verdade, o Reino de Cristo é uma dádiva, uma concessão, um presente de Deus para os seus eleitos.
- Não alcançado pelo esforço humano, mas pela obra divino-humana do Filho de Deus. Apenas Cristo poderia fazer entrar pecadores em seu celestial reino, ao fazê-los santos, resgatando-os, transformando-os, e tornando-os semelhantes a si.
- Então, como ele serviu, aqueles que são chamados de cristãos (semelhantes, seguidores de Cristo) são ordenados a servirem a Deus,  e ao próximo, colocando-o acima de si mesmo.
- Para terminar, o texto em Filipenses 2.3-11:



“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.

Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros.

De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,

Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus,
Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;
E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.
Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome;
Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra,
E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.




- O Pai nos abençoe, capacite e fortaleça, a fim de que o sirvamos, tal qual o seu Filho o serviu, para que o seu nome seja glorificado e exaltado acima de tudo, mas especialmente por nossa sujeição e obediência, em fazê-lo crescer enquanto diminuímos, em glorifica-lo enquanto nos humilhamos, por amor do seu nome. 

Amém!


30 novembro 2017

Sermão em João 10.9: A Porta aberta para a vida, e fechada para a morte!




Jorge F. Isah





“Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens.” João 10:9


INTRODUÇÃO:

- Deus usa de uma linguagem figurada, metafórica ou simbólica, para descrever verdades tanto relativas a Si, a sua criação e a realidade.

- Muitas vezes, ele é chamado de Rocha, Rochedo ou Fortaleza, como, p. ex., em 2 Samuel:

“Vive o Senhor, e bendito seja o meu rochedo; e exaltado seja Deus, a rocha da minha salvação” 2 Samuel 22:47
E em Salmos:

“Porque tu és a minha rocha e a minha fortaleza; assim, por amor do teu nome, guia-me e encaminha-me”. Salmos 31:3

- Ele é também chamado de Pastor, como no próprio Cap. 10 de João, e no Salmo 23.

- Também se autointitula o “pão da vida”:


“Eu sou o pão da vida.
Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram.
Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra.
Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo.


- São imagens e alusões, como uma ilustração (é como se Deus desenhasse) a facilitar a nossa compreensão daquilo que ele nos revela de Si, como ele age junto aos seus filhos.

- Tudo isso é necessário por causa da Queda, que contaminou o intelecto, a razão e alma do homem.

- Deus cuidadosamente, como um pedagogo, nos ensina o “Beabá” da sua revelação por meio de ilustrações, possíveis ao entendimento, em princípio de qualquer um. São associações que Deus utiliza para nos levar ao conhecimento.

- Tal qual uma professora junta as letras e ensina as crianças a lerem e formarem as palavras.

- Entretanto, sabemos que somente aqueles que são chamados por ele, e capacitados por ele, podem alcançar a compreensão tanto das coisas simples como das complexas.

- Para um doutor em teologia, mas inconverso, até as referências mais básicas lhe escaparão o sentido, enquanto para o crente, aquele transformado pelo Espírito de Cristo, as mais profundas tramas da revelação lhe serão patentes e claras.

- Com isto, não estou a dizer que todo o crente pode entender tudo aquilo revelado por Deus, nem de que alcançará a sabedoria plena de toda a revelação; mas certamente terá a medida exata daquilo que Deus lhe der, segundo a sua santa vontade.

- Entretanto, são verdades apresentadas, e que não devem ser alvo de dúvidas ou imprecisões.

- P. Ex., em Isaías, lemos a afirmação da eternidade divina:


“Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos fins da terra, nem se cansa nem se fatiga? É inescrutável o seu entendimento.” Isaías 40:28

E ainda:


“Mas o Senhor Deus é a verdade; ele mesmo é o Deus vivo e o Rei eterno; ao seu furor treme a terra, e as nações não podem suportar a sua indignação.” Jeremias 10:10


- A eternidade talvez seja um dos atributos divinos mais difíceis de se entender, exatamente por estarmos no tempo, e por sermos temporais. Muitos entendem a eternidade como uma sucessão de momentos, uma sequência de “tempos”, quando ela não pode ser compreendida a partir do temporal, da sucessão de instantes, mas como sendo o próprio Deus, que é eterno.

- Mas este não é o nosso foco, falar da eternidade, apenas afirmar que, mesmo não a entendendo por completo ou mesmo o suficiente, importa que a Escritura afirma a seguinte máxima:

“DEUS É ETERNO!”

- Ou seja, a nossa ignorância ou incapacidade ou incompreensão não devem ser justificativas para a incredulidade e a falta de fé. Se Deus disse que ele é eterno, Deus é eterno, e ponto final!

- Da mesma forma, neste verso 9, o próprio Senhor Jesus se autodenomina “a Porta”.


CRISTO: A PORTA!! MAS EM QUAL SENTIDO?

- “Eu sou a porta”, afirma o Senhor.

- Primeiro, devemos ressaltar que Cristo não se intitula “uma” porta, mas a porta. Não existe outro meio ou forma de o homem se salvar sem ele, ao contrário do que boa parte da humanidade defende e preconiza.

- Sabemos que ele não é, também, uma porta no sentido literal, uma peça de madeira, vidro ou metal de fato. Seria loucura pensar isso.

- Mas, de imediato a ideia de Cristo como uma porta nos remete a elementos característicos dela, e que estão presentes na pessoa e ministério do Senhor. 

Vejamos alguns:

1- Cristo, como porta, abre-nos o caminho santo que nos levará a Deus.
- Uma porta é utilizada para abrir um local, permitindo que pessoas a atravessem e entrem ao recinto antes impenetrável.

- Não é difícil a alusão à nossa condição de impossibilitados, incapacitados, impedidos de entrar em comunhão com Deus, e de entrar no gozo eterno nos céus. Havia uma parede intransponível que nos impedia o acesso a Deus, por isso precisamos de uma porta.

- Deus nos propiciou Cristo e o seu sacrifício na cruz, a porta pela qual somos transportados e postos no lugar que Deus reservou para o seu povo.

- Sem Cristo, como a porta, o homem estaria irremediavelmente perdido, sem qualquer possibilidade de haver salvação. É o que Paulo nos diz:


“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.” 1 Timóteo 2:5

- E Pedro o confirma:


“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.” Atos 4:12


2-Cristo, é a porta que, fechada, nos protege, preserva e guarda.

- Quando uma porta se fecha, estamos seguros. É uma analogia, mas ela serve muito bem para nos mostrar o cuidado que o Senhor tem pelo seu povo.

- Todas as nossas casas têm portas, para nos manter seguros. Elas nos livram e protegem de predadores, das intempéries, e das investidas dos salteadores, ladrões e assassinos.

- Mantemos as nossas portas fechadas por segurança, para não sermos molestados, termos os bens roubados, sermos feridos ou mortos.

- Cristo é a porta que, fechada, nos assegura o refúgio e segurança imprescindíveis, mantendo-nos em paz, aconchegados, nos livrando das artimanhas e investidas do Maligno e de seus servos.

- O próprio Senhor nos disse, um pouco mais abaixo, neste mesmo evangelho de João, que:


“O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.” João 10:10


- Cristo é a única porta capaz de nos proteger, impedindo que Satanás cumpra o seu propósito de nos arrolar para o fogo do inferno para o qual foi preparado, e que o espera.

- Então, além de Cristo nos dar acesso a Deus e ao seu reino de glória, ele é aquele que nos preserva em seu amor e graça, mantendo-nos livre da condenação.

3- Cristo é a porta fechada para o satanás e o mal.

- Ele nos impede de “voltarmos ao vômito”, de sermos novamente aquilo que éramos sem ele, de que o velho homem renasça, aquele mesmo mortificado pelo Espírito, mas cujas lembranças nos atemorizam ainda.

- Ele é ainda a porta que, fechada, não permite que saímos do seu arraial ou curral, e sejamos novamente presas fáceis para o pecado e o mal. Ele nos protege de nós mesmos, daquele velho homem que, morto, teima ainda ressurgir em nossas vidas.

- Creio que todos os crentes temem recair nas velhas práticas do homem natural, daqueles que são inimigos de Deus. Pois é Cristo quem nos assegura que nunca mais seremos aquele homem, novamente. 

- Esta é uma das certezas que temos quando Cristo diz: “Eu sou a porta”.

- Outra certeza é de termos alimento em abundância.

- Suas ovelhas nunca terão fome, e se alimentarão nas abundantes pastagens.

4- Cristo é a porta que impedirá Satanás e seus servos de entrarem e nos arrastarem para fora. Ele não permitirá que o sirvamos de novo, e que ele tente nos “sequestrar” de suas mãos.

- Estamos firmes, seguros e protegidos no lugar em que Cristo nos colocou, reservando-nos eternamente para a sua glória, e para a comunhão perfeita que temos consigo, o Pai e o Espírito.


CONCLUSÃO:

- Cristo é a porta que manterá as suas ovelhas sob a sua guarda, condução, proteção.

- Cristo é aquele que ajunta as suas ovelhas, reunindo-as nas “terras” do Pai.

- Ele é quem as dá vida, garantindo que jamais vejam a morte.

- Ele é quem impede que elas se dispersem, enfraqueçam, e sucumbam a própria inépcia.

- Ele é quem as preserva para a vida eterna.

- Quem as livra da condenação e do inferno.

- Cristo é a única, suficiente, e verdadeira porta. É ele quem nos atrai, preservando e garantindo a nossa segurança, mantendo-nos santos e imaculados diante do Pai.


- Cristo é tudo!

- E assim, sendo tudo em nós, para sempre estaremos com ele, e o nosso gozo será completo!

SOLI DEO GLORIA!


21 novembro 2017

When Calls the Heart: Encontre os valores perdidos neste mundo.




Jorge F. Isah


Há algumas semanas, descobri "When Calls the Heart" no NetFlix, quase por acaso. Como não assisto TV aberta há uma década, mais ou menos, e a TV a cabo tem-se tornado insistentemente repetitiva e banal, vou direto à plataforma de Streaming em busca de alguma diversão, diga-se, nem tão frequente assim. Então, meio que "tropecei" na série.

Em princípio, ela me lembrou, já nos créditos iniciais, "Os Pioneiros", porque o produtor, idealizador e diretor é o filho do Michael Landon (O “Little Joe”, de Bonanza; e idealizador, produtor, diretor e ator principal de Os Pioneiros), além de uma série dos anos 1970 que marcou a minha adolescência, "Os Waltons". Mas a semelhança não para por aí. Não sei dizer se o Landon, pai, era cristão, muito menos se o Landon Jr. o é, mas a temática das histórias centra-se exatamente nos valores e princípios emanados do Cristianismo: fraternidade, amor, solidariedade, fidelidade, coragem, hombridade, etc. 

É claro que nenhuma série refletiria a realidade se não tivesse as suas porções de egoísmo, inveja, orgulho, ciúmes, cobiça, traição, e outros pecados comumente manifestados pelos homens. O diferencial é que nela não existe nenhuma exaltação dos erros, nem a contemporização com eles, antes são tratados como devidamente são: falhas, equívocos; há o chamado ao arrependimento, o estímulo às virtudes, e a uma vida permeada pelo favor divino (mesmo nas tragédias). Sim, você encontrará orações, pregações, diálogos e um sem número de referências a Deus e à Bíblia. É pouco? Para mim, não é de se desprezar. 

Bem, não farei uma resenha da série, nem entrarei em seus pormenores, porque o meu objetivo é indica-la para os desconhecidos que, como eu, talvez viessem a conhecê-la por um “acaso”, fortuitamente. Sei que muitos torcerão os narizes, pela simplicidade da narrativa e dos personagens, mas exatamente por isso, por serem comuns mortais, gente como a maioria de nós, está o seu encanto, quando nos vemos em muitas das situações narradas, criando uma empatia, até mesmo pela nostalgia de tempos vividos, e que estão muito distante das misérias que cercam as relações pessoais em nossos dias.  Para mim, tem sido um “oásis” em meio às programações e noticiários hodiernos, a toda a psicopatia reinante nas várias mídias.

Gostaria, sinceramente, que houvessem mais “Landons” na televisão e no cinema, e que as pessoas não se entregassem às distrações que as conservam em um quase estado de paralelismo existencial.

É o olhar do mundo imperfeito, mas descansando na esperança de que, Aquele que é perfeito, o transformará e o restaurará.


Nota: 1-A série pode ser assistida no NetFlix, que já teve quatro temporadas concluídas. A quinta temporada será lançada em breve. É uma produção do estúdio Hallmark Movies, pródigo em fornecer ficção baseada em livros autobiográficos, e que estão completamente "fora da curva" do que o cinema e tv andam realizando atualmente, com raras e providenciais exceções. 

2-Pesquisando, na Web, encontrei a apresentação do Allan dos Santos à série, disponível no Youtube no link abaixo. Aos interessados, mais um depoimento de quão boa, e surpreendente,  é essa novela: 

"Dica de seriado", no Terça Livre

15 outubro 2017

Moby Dick: Muito mais do que uma aventura



Jorge F. Isah

Em meio a outras leituras, ainda lendo "A Baleia. Estou na metade final do livro, mais ou menos o seu último quarto.

Muitos acham se tratar de um livro de aventuras, o que não é mentira; mas considera-lo apenas como tal é não compreender toda a trama intrincada e, muitas vezes trabalhosa, que é decifrar a escrita de Melville. Ela transcende em muito esta ideia. Há de tudo um pouco, metafísica, religião, psicologia, historia, biologia, ódio, vingança, amizade, e tudo o mais que faz um grande romance, e muitas descrições em detalhes minuciosíssimos. 

É um livraço; mas não é leitura para todos. Há momentos em que, não raro, se pensa em desistir ou pular trechos inteiros (como as descrições sobre a natureza dos cachalotes ou barcos). Muitas vezes percebi-me perguntando: por que o autor está dando essas descrições? E, um pouco mais adiante, compreender que era necessário, pois Melville queria que "víssimos" claramente tudo o que ele via, e não escapássemos ao seu realismo e à verdade da sua narrativa, entrando nela como um partícipe, não como um mero espectador ou leitor. De certa forma, o domínio e o conhecimento de cada particularidade da história, por menor que seja, conferi-lhe autoridade e factualidade, e nos faz cúmplices da narrativa. Não sei se foi esta exatamente a sua intenção, mas pareceu-me claro como objetivo, e parte do estilo a desenrolar-se nas centenas de páginas.

Certo é que abandonar livro tão precioso será um dissabor para o bom leitor, ainda que ele não o perceba, se optar pela interrupção. Neste caso, tem de se ter persistência e insistência, para alcançar a recompensa. E ela não tarda em chegar; e chegará, para deleite e satisfação daqueles que não querem apenas
uma aventura marítima, mas um mergulho na alma humana.

Dados Técnicos:
Título: Moby Dick
Autor: Hermann Melville
Editora: Landmark (Edição Bilíngue) 
No. de Páginas: 528

Sinopse da editora: 
"Moby Dick” foi escrito pelo escritor norte-americano Herman Melville e publicado originalmente em três fascículos com o título “A Baleia”, em Londres, em 1851, e ainda no mesmo ano em Nova York em edição integral. Somente a partir de sua segunda edição que ganha seu título definitivo, “Moby Dick”.
A obra foi inicialmente mal-recebida pela crítica literária, assim como pelo público, mas com o passar do tempo tornou-se uma das mais respeitadas obras da literatura em língua inglesa. Inspirado pelas experiências pessoais do autor e por outros acontecimentos que marcaram o período, Moby Dick representa, além de uma complexa narrativa de ação, uma profunda reflexão sobre o confronto entre o homem e a natureza, ou segundo alguns especialistas, entre o homem e o Criador, reforçada pela ‘universalidade’ dos tripulantes do navio “Pequod”, o que sugere uma representação da Humanidade. Obra de profundo simbolismo..."