16 agosto 2019

A vida por um fim em "A vida peculiar de um carteiro solitário"





Jorge F. Isah



O livro trata de assuntos ada vez mais inseridos no mundo moderno: a solidão, a perda, ou a confusão, de identidade, abstração e uma boa dose de voyeurismo. O protagonista é um carteiro solitário, Bilodo, que preenche o seu vazio lendo as correspondências dos clientes e exercitando a arte da caligrafia. Especialmente, agrada-lhe muito as correspondências de uma professora residente em Guadalupe, Ségolène, endereçadas a Gaston, professor e poeta, morador em Quebec, como Bilodo. Entretanto, o único conteúdo são haikais, um a cada carta enviada, o que acaba por levar o carteiro ao mundo da literatura, diga-se, japonesa.

Em meio a uma reviravolta na história (algo previsível, ao menos para mim, que imaginava o desfecho), Bilodo assume a identidade de Gaston, mantendo a troca de missivas com Ségolène. Neste ponto, a paixão pela professora havia se instalado no seu coração, e a única forma de sustentar o seu deleite platônico era manter a troca de correspondências. 

É possível perceber como em um mundo digital, onde as comunicações estão ao toque dos dedos, as pessoas encontram-se mais solitárias, deprimidas, vulneráveis e, em alguns casos, suicidas. O suicídio tem sido a “saída” para a debilidade dos homens modernos, assim como os prazeres fugazes (sexo inconsequente; drogas; álcool; “adrenalina”; e tantas outras “loucuras” que tentam mostrar aos seus praticantes que estão vivos, ainda que por alguns minutos ou horas) são placebos a aplacar a angústia e dor na alma. 

Ele vê nos seus poucos amigos e colegas um espirito vil, desprezível, mantendo-se ainda mais distante deles, em suas compulsões pela degradação e libertinagem. A sua ordem interior é quase ascética, se não fossem os seus “arroubos” em furtar o conteúdo das cartas. Para ele, os demais encontram-se em um estado de constante imoralidade e exibicionismo (outro ponto notadamente “moderno”). Prefere o lirismo dos haikais, a sutileza das palavras singelas, a esperança no sonho, e a alma preenchida pelo belo, inocente, puro. 

Entretanto, o homem é um ser pecaminoso, e ele o sabe, ao ponto de quebrar regras, infringir leis, para satisfazer os desejos mais íntimos. Contudo, a paz, a ordem e a harmonia são rompidas, quando o amor platônico e diáfano entre a professora e o carteiro toma cores reais, invadindo a privacidade de Bilodo, na iminente exposição da sua trapaça. Ele vai ao desespero. Neste intercurso, sofre as consequências do seu plano, descoberto pelo melhor amigo, Robert, expondo-o sorrateiramente. Bilodo vê o seu mundo desmoronar por completo, e a única pessoa que o amava, como realmente era, Tania, torna-se também inimiga (por causa de uma trapaça de Robert). 

O final, com elementos fantásticos e místicos, provavelmente resultante do “espírito” da poesia japonesa, era um dos desfechos que considerei possível, quando Bilobo assume uma dupla identidade (quase o levando a anular a verdadeira). 

Muitos consideram este livro um romance, pequeno, mas romance. Eu o tenho como uma novela: personagens sem muita profundidade, trama simples, narrativa rápida, ações essenciais dos personagens para a trama, unicidade e linearidade no enredo. 

“A vida peculiar de um carteiro solitário”, escrita por Denis Theriault, é um livro leve, com uma linguagem etérea, quase sublime, onde o amor pode ser incomparavelmente puro, casto, podendo descambar, a qualquer momento, para os vícios comuns do homem. 

O livro foi um frescor, ainda que tenha me dado a impressão de ser voltado para um público mais juvenil e feminino, em meio a aspereza e acidez das últimas leituras. 


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Título: A vida peculiar de um carteiro solitário

Autor: Denis Thériault

Editora: Leya

No. Páginas: 128

Avaliação: (***)

Sinopse:

"Bilodo vive a tranquila vida de um carteiro sem muitos amigos nem grandes emoções. Completa diariamente seu percurso de entrega e retorna sempre à solidão de seu pequeno apartamento em Montreal. Mas ele encontrou uma excêntrica maneira de fugir dessa rotina: aprendeu a abrir as correspondências alheias sem deixar rastros e passou a ler as cartas pessoais com as quais se depara. E foi assim que ele descobriu o primeiro grande amor de sua vida: a jovem professora Ségolène, que mantém uma misteriosa correspondência com o poeta Gaston, composta somente por haicais. Instigado pela elegância e simplicidade de seus versos, Bilodo se vê cada vez mais fascinado por essa forma de poesia. Mas quando é confrontado com a perspectiva de se ver privado das cartas de Ségolène, ele precisa tomar uma decisão que pode levá-lo mais longe do que podia imaginar. Talvez seja hora de compor seus próprios poemas de amor. “Peculiar e charmoso com um desfecho bem executado , esta novela traz à mente nada menos do que um Kafka apaixonado” The Guardian Sobre o autor: Nascido na costa norte do Golfo de St. Lawrence, Quebec, Denis Thériault tem licenciatura em psicologia, é um roteirista premiado e vive com sua família em Montreal. Seu primeiro romance, L'iguane, foi publicado com grande aclamação da crítica e ganhou os prêmios literários France-Québec 2001, Anne-Hebert 2002 e Odyssée 2002. Este é seu segundo romance."







08 agosto 2019

O algoz de todo homem em "O Juiz e o seu Carrasco"





Jorge F. Isah


Este livro me caiu no colo, quase por acaso. Estava procurando algumas novelas policiais, já que Cormac McCarthy está me consumindo com o seu “Meridiano de Sangue”, e pensei em ler algo, digamos, mais leve. E gostei do título: "O Juiz e o seu carrasco". Procurei um exemplar físico, mas encontrei apenas na Estante Virtual, então optei por comprar o ebook na Amazon. E o livro me surpreendeu. Uma história curta, pouco mais de noventa páginas, trouxe mais surpresas do que muito calhamaço famoso por aí. Dürrenmatt é pouco conhecido no Brasil. Praticamente, a sua única obra traduzida para o português é esta.

O assassinato de um policial é o mote para a vingança do inspetor Bärlach, que aguarda há 30 anos concretizar-se. A narrativa é fluída, simples, e reverencia o gênero “noir”, com um policial solitário, enigmático, que vara as noites insone ou cruzando as ruas e estradas atrás das pistas a desvendarem o crime. Para complicar, Bärlach é um velho, sexagenário e doente. Mas nada o impede de traçar um plano para finalmente vingar-se e ainda solucionar o crime. A luta que ele trava com o seu oponente é mais ou menos a batalha entre Davi e o Golias, sem que evoque o nome de Deus. Bärlach não tem amigos, mas uma grande lista de inimigos e desafetos.

Pouco depois da metade do livro dá para deduzir quem é o verdadeiro criminoso, se houver a atenção devida na narrativa. Não é surpreendente, mas está em perfeita harmonia com as pistas lançadas alhures pelo autor; nesse tipo de livro a atenção e observação são tudo.

Questionamentos sobre a justiça, seu significado em um mundo injusto, onde facínoras vivem ostensivamente no glamour, seguros da impunidade e perpetuação dos seus malefícios, levam o protagonista a descrer que ela possa se realizar “oficialmente”, restando-lhe trazê-la à realidade de maneira informal, porém, minuciosamente planejada.
Em meio à sua luta por justiça, ou vingança, ele lutará pela vida, e guardará cada momento de lucidez no esforço (mais físico que intelectual) de levar a cabo o seu projeto.

O Juiz e o seu Carrasco foi uma grata surpresa, não necessariamente por sua história que, se não é banal não é também original. Vale as muitas reflexões sobre a vida, os objetivos e o desenrolar de uma obsessão por justiça, como se fosse realmente um juiz, e poder se entregar definitivamente ao seu carrasco, à espera de ser retirado deste mundo, no golpe fatal da foice do algoz de todo homem.

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Livro: O Juiz e o seu Carrasco

Autor: Friedrich Durrenmatt

No. Páginas: 108

Editora: L&P Pocket

Sinopse:

"Em uma cidadezinha suíça, um policial exemplar é encontrado morto. Bärlach, um velho e doente comissário, amante de cigarros, de vodca e da boa mesa, investiga essa morte – ao mesmo tempo em que luta contra a sua própria, que parece cada vez mais próxima. Enquanto a polícia se vê às voltas com figurões locais, oficiais oportunistas tentam subir na carreira, e Bärlach faz as suas arriscadas jogadas. Na sombra, o assassino, um tipo maquiavélico, disserta sobre o bem e o mal, que ele considera possibilidades iguais...

Tendo como mote principal uma intriga policial, O juiz e seu carrasco, uma das obras mais conhecidas do escritor suíço Friedrich Dürrenmatt (1921-1990), trata, na verdade, num tom sarcástico, da tragédia da morte e da doença, da risível comédia humana. Uma pequena obra-prima à altura dos mestres Dashiell Hammett, Rex Stout, Raymond Chandler e Georges Simenon."

Avaliação: (***)

Conclusão Final: Recomendado



05 agosto 2019

Sermão em Lucas 1.11-13: Aquele que fez o ouvido não ouvirá?






Jorge F. Isah


**Para ouvir o áudio da pregação acesse: Tabernáculo Batista Bíblico 


1) Sabemos que o Senhor ouve orações. 

- Há vários relatos bíblicos mostrando o clamor dos servos ao Senhor, e a sua resposta atendendo-as. 

- O Salmos 94.9 diz: “Aquele que fez o ouvido não ouvirá?”

- Sim, é claro que o Senhor ouve!


2) Como ilustração, citarei alguns exemplos similares ao de Zacarias e Isabel, sobre promessas cumpridas. Leiam os textos indicados!

- Abrão e Sara, em Gênesis 18:9-14

- Isaque e Rebecca, em Gênesis 25:20-21

- Ana, em 1 Samuel 1:10-11, 17 -20.

- Agora temos o relato de Lucas acerca de Zacarias: Lucas 1:11-13

- Estes homens e mulheres clamaram ao Senhor insistentemente, como os casos de Isaque, Ana e Zacarias. Abraão já estava conformado em deixar os seus bens para um herdeiro nascido em sua casa, seu servo e mordomo Eliezer (Gn 15:2-4) . 

Por que estou fazendo essas comparações e distinções?


3) Existem estudos que apontam para a não insistência na oração. Dizem que devemos pedir a Deus apenas uma vez e confiar que ele ouviu e nos atenderá. Não devemos “molestar” o Senhor com súplicas repetitivas, incomodando-o. 

- Outros apelam para o poder da fé, no sentido em que, se nos investirmos da autoridade de Cristo (que nos é imputada), “determinando” que tal coisa aconteça, e não vacilarmos, todos os nossos pedidos serão atendidos (mesmo aqueles gastos com os nossos prazeres e deleite). 

- Outros mais, se rebelam à menor contrariedade, amaldiçoando e imputando a Deus a não realização do desejo, como se ele fosse um “gênio da lâmpada” e o evangelho “a lâmpada”, que esfregada obriga o gênio a realizar não apenas três, mas todos os desejos “ordenados” (o significado de determinar é o mesmo de ordenar, não somente pôr em ordem, mas instituir, estabelecer, decretar. Esta é uma prerrogativa divina, e jamais as criaturas, ainda que filhos e filhas, possam reconhecer como seu atributo). 

- E existem, ainda aqueles, que sequer creem no que oram, e não acreditam que o Deus pessoal está a ouvi-los. 

- Voltando aos textos sagrados, eles nos mostram a perseverança de alguns quanto ao pedido de oração, em clamar a Deus repetidas vezes pelo mesmo desejo. Mas também da simples disposição divina em atender-lhes, mesmo não pedindo algo específico, como o caso de Abraão.

- Caminhemos mais um pouco...


4) Tiago, por outro lado, nos diz que se pedir sem fé não receberemos o que pedimos (Tg 1.5-8). 

- Seria fé a certeza do que pedir, e de que Deus o atenderá? Ou a fé na certeza de que Deus está ouvindo? E o responderá positiva ou negativamente? Já que, para nós cristãos, o pedido não atendido é também resposta do Senhor para algo que não está em conformidade com a sua soberana vontade.

(Pensamento dobre: uma hora quer uma coisa, outra hora quer outra, não sabe ao certo o que quer ou pedir. Seria isso? Ou as dúvidas quanto o ouvir de Deus ao pedido?)


5) Por mais que se apontem “formas” para uma oração ser atendida, um tipo de oração bíblica, o fato é que Deus não age conforme os ideais e limites impostos pelo homem, mas sem sua infinitude e perfeição e sabedoria segundo o seu santo conselho. 


6) Paulo, por exemplo, pediu três vezes que Deus tirasse o espinho da sua carne. – 2 Co 12.8

- O que disse o Senhor ao apóstolo? “A minha graça basta!”

- O suficiente para trazer paz a Paulo, porque a graça é tudo o que o cristão necessita em sua totalidade. Foi assim com os patriarcas, profetas, apóstolos e cristãos em todos os tempos e lugares. 

- A aflição e inimizade do mundo para com os crentes é muito mais viva e real do que os favores ou benefícios que porventura nos dê. O sofrimento, por amor de Cristo e o evangelho, é a regra entre os cristãos. A exceção seria o reconhecimento e o favor do mundo. 


7) A oração antes de ser uma petição é intimidade com Deus, revelando a nossa dependência e sujeição a ele, e submissão à sua vontade.

- Deus sempre responderá às nossas petições, quer positiva ou negativamente. Atendendo ao pedido ou não, Deus está sempre a nos ouvir, e agirá segundo o seu santo conselho. 

- Ao não nos atender é sinal de que Deus não se compadece de nós? Nos abandonou? Deu-nos as costas? Certamente, não!


8) Vejamos o exemplo de Jó, homem reto e justo, ao ponto de aguçar a ira de Satanás, que pediu a Deus permissão para molestá-lo, de maneira terrível; primeiro tirando-lhe os bens e os servos, depois a casa e os filhos, por fim, a sua saúde. 

- Qual foi a sua resposta? Praguejar, insultar, amaldiçoar a Deus? Não: “Então Jó se levantou e rasgou o seu manto, e raspou a sua cabeça, e prostrou-se em terra e adorou; e disse: Nu saí do útero de minha mãe, e nu retornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou. Abençoado seja o nome do Senhor. Em tudo isto Jó não pecou, nem culpou Deus de maneira tola.” ( Jó 1:20-22)

- Mas, o que fez a mulher de Jó? “Aconselhou-o” desgraçadamente: “Então disse a sua mulher a ele: Ainda reténs a tua integridade? Amaldiçoa a Deus, e morre. Mas ele lhe disse: Como costumam falar as mulheres tolas, hás falado tu. Se receberemos o bem da mão de Deus, não receberemos o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios” (Jó 2:9-10)


9) Lembre-se do que o Senhor disse a Paulo, e que aquietou-o, e deu paz à sua alma: 

“A minha graça lhe basta!”

- Oramos com essa certeza? Ou nos primeiras dificuldades nos sentimos injustiçados, desgraçados, sem graça?


10) Voltando a Lucas 1.18-20, mesmo o anjo aparecendo a Zacarias, ele duvidou e pediu-lhe provas. 

- Mesmo tratando com um incrédulo, Deus atendeu o seu pedido, segundo o conselho do seu Espírito, dando-lhe o filho insistentemente clamado: João o Batista. 


11) Então, que nos resta fazer?

- Fazer escolhas corretas e santas antes de orar, sabendo que o Senhor está ouvindo, confiantes nesta promessa. Depois, devemos orar, crer, esperar, e confiar que, qualquer que seja a decisão de Deus, ela será perfeita, santa e justa, pois contemplaremos a sua vontade. 

- Não duvidemos, portanto, de que ele ouve, nem do seu poder em atender o nosso pedido, mas se não o temos atendido, não saímos a blasfemar ou insultá-lo, porque, como Paulo bem o experimentou, a graça do Senhor é bastante para nós, hoje e sempre! 


Amém!

29 julho 2019

Judas, o Obscuro: O autonomismo por um fio




Jorge F. Isah



Judas é um tipo literário muito próximo de Jó, o personagem bíblico, em suas agruras, aflições e dor. Se ao passo em que Jó sofre exatamente por sua fidelidade a Deus, e pelo desejo sincero de retidão e justiça (o que acaba por despertar a maldade objetiva de Satanás), Judas deseja apenas se ver livre das amarras sociais, numa espécie de autonomismo e independência, acreditando que suas decisões cabem apenas e exclusivamente a si mesmo, sem se importar, ou vislumbrar, com as consequências dos seus atos. A liberdade de Judas é pueril e enganadora. E arrasta-o para dentro do “Mal”, que acredita jamais tocá-lo.

O livro de Thomas Hardy (um entusiasta apaixonado pelas ideias de Darwin) foi escrito em 1895, e carregado do naturalismo em voga, que não deixou de influenciar a literatura. De tal forma que Judas, por mais que tente, ao seu jeito, fugir do destino que lhe é traçado, sucumbe à sua inexorabilidade. 

Como não sou de fazer resumo dos livros, também não o farei neste. Apontarei, contudo, o que mais me chamou a atenção, sem fazer spoilers, e sem desestimular o futuro leitor: 

1) Judas tenta “mudar” o seu destino, algo que os naturalistas, e, em especial Hardy, não crê possível. Para ele, Judas será o que é, nascido um pária, morrerá como tal. 

2) Ciente do que lhe espera, Judas apela para um autonomismo impossível, como se pudesse viver no mundo alheio ao mundo, sem que seus atos trouxessem consequências para si e seus queridos. Especialmente, pouco a pouco, no decorrer da história, parte para a negação de Deus, fazendo do Cristianismo o “bode expiatório” do seu sofrimento. Em uma sociedade cristã, a culpa de todas as convenções e males se deve portanto ao Cristianismo, num apelo transloucado à razão, como sendo-a santa, pura e perfeita, de maneira que, se todos os homens a aplicassem por completo, negando suas crenças e fé, todos seriam felizes. Acaba-se por criar e defender um dualismo “fé x razão” no enredo, o que é, no mínimo, reducionista. 

3) Hardy não escreveu uma única linha em que não destilasse a sua aversão ao Cristianismo, se não explicitamente (como em muitos diálogos e pensamentos), deixou-os subliminarmente evocados em ações e comportamentos. Porém, o Cristianismo descrito pelo autor é o que podemos chamar de “cristianismo secular” ou “nominal”, onde a aparência cristã é utilizada para justificar o farisaísmo e a hipocrisia do homem. Veja bem, farisaísmo e hipocrisia não são, nem de longe, aspectos do verdadeiro Cristianismo, mas a “máscara” daqueles que o próprio Senhor Jesus denunciou a seu tempo. Talvez, por isso mesmo, o autor escolheu o nome “Judas” para o seu protagonista que, mesmo vivendo por mais de três ano na companhia do Cristo, não se furtou a traí-lo

4) Ao fugir das convenções e de aspectos morais que “regulavam” o convívio social, se viu pagando um preço alto, vivendo como um “cigano” juntamente com a sua família. O capricho de não querer se enquadrar ao escopo da sociedade, colocou-o na situação mais miserável que o enquadramento social lhe destinaria. Em sua rebeldia juvenil e ingênua, acreditava possível passar ileso, sem traumas, quebrando regras. Judas acredita no inimigo a destruir-lhe a felicidade: a sociedade; enquanto ele mesmo acaba por cavar para si, e os seus, um caminho para a ruina. Este é um aspecto. 

5) Outro, antecedente ou derivado, é de que não se pode negar haver nele, e em sua esposa, Sue, o orgulho e a presunção de, ao não se curvarem aos hábitos da sua época, serem superiores aos seus concidadãos. A prova estava nas inúmeras vezes em que exaltavam suas inteligências, raciocínios e um apelo à razão como a essência de todas as virtudes. 

6) Nem mesmo o sacrifício pessoal, como o do prof. Richard, parece um ato isento de soberba, de autoexaltação obstinada, dominada pela “pureza” racional. 

7) Entretanto, não há como não se compadecer da “má-sorte” com que os rumos das suas vidas tomaram. Ao ponto em que, sem qualquer esperança, sobram-lhes a loucura e o definhamento. 

Judas, o obscuro, é um livro pessimista, áspero, quase inóspito. Mesmo nos momentos mais ternos e belos a angústia, dúvidas e desespero estão entranhados nas palavras, sentimentos e reações dos personagens. Não é um livro fácil de se ler, pois os lampejos de esperança são quase imediatamente dizimados por uma realidade sufocante e cruel, pela teimosia de não mudar ou ceder. 

Entretanto, é possível encontrar momentos de ternura, elegância, acabando por tornar verossímil os personagens e o enredo como um todo. A linguagem é simples, sem rebuscamentos. A narrativa parece se arrastar um pouco, especialmente na primeira metade do livro. Contudo, em sua bissecção final, ela flui sem delongas. 

Judas, o obscuro é um bom livro? Sim, sem dúvidas. Para estar no rol dos melhores de todos os tempos, como comumente é apontado entre as grandes listas? Tenho dúvidas. Talvez eu precise ruminar ainda um bom tempo a história, e, quem sabe, fazer uma nova leitura, no futuro. Certo é que, tirando a defesa “intransigente” do racionalismo e a “aversão” ao Cristianismo (criando um estereótipo), o livro se sai bem.


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Livro: Judas, o Obscuro

Autor: Thomas Hardy

Editora: Abril

No. Páginas: 464

Nota: (***)

Sinopse da Editora: 


"Um livro que retrata uma época onde a ascensão social era quase impossível, a não ser por golpes de sorte. Judas passa sua juventude estudando e sonhando em sair de seu povoado para ir para Christminster City, local que acredita concentrar grandes estudiosos. Sem recursos, sem ajuda, sem guia, sem escola e sem apoio. Mas Judas é obstinado e estuda sozinho, guarda tudo que ganha para comprar livros e os lê e relê sozinho. Aprende outras línguas (sozinho). O roteiro de uma história como essa geralmente mostra o protagonista conseguindo superar as adversidades e ser reconhecido pelo seu esforço e talento. Aqui temos uma realidade mais dura e mais próxima do mundo no final do século XIX. Judas acaba se envolvendo com uma mulher somente interessada em arranjar um marido e não em compartilhar de seus sonhos (grande erro de muitos casamentos, aliás). E é esorraçado em todas as suas tentativas de ser admitido em universidades. Decepções seguidas e críveis, que tornam o livro pesado, sofrido. Li com o coração oprimido pelo sentimento de impotência contra o mundo. Judas se afasta de tudo que ama em busca de tudo que sonha."


23 julho 2019

A Estrada: Luz em meio as trevas







Jorge F. Isah






Este é um daqueles livros que, após terminá-lo, gastamos um bom tempo ruminando...

Tenho a mania de tentar resumi-los, ao final, em, no máximo, uma palavra ou frase. Pode ser interpretado como uma heresia para muitos, mas, no meu caso, a síntese demonstra o quanto compreendi ou não deles... Quanto mais palavras, mais distante do entendimento. 

Quebrei a cabeça com A "Estrada", e ao estilo de McCarthy, suscito, não pude desvencilhar-me do termo "esperança". Mesmo nas situações mais dramáticas (e o livro é um grande drama a perpassar por cada uma das páginas) há um sussurro, quase inaudível, a lembrar personagens e leitores de que nem tudo está perdido. 

Como vocês sabem, não sou de contar a história, senão alguns poucos detalhes, para não tirar o gosto e o prazer do futuro leitor; no caso deste livro, posso dizer que pai e filho, os personagens centrais da história (os quais não são nominados, e cujo passado é minimamente revelado nas lembranças do "homem"), vivem em um mundo apocalíptico, onde a vida foi praticamente extinta... Não há animais, plantações, as instituições se desfizeram, o canibalismo está em voga, a barbárie se apresenta como o único estilo de vida, onde a moral não passa de um entrave à sobrevivência, tão dependente da destruição alheia e do próximo (se o mundo pós-moderno fosse uma construção real, os relativistas se vergariam, no primeiro instante, diante da realidade; associando-se, ou sendo posto fora dela pelo extermínio). 

O mundo é um campo minado; e as pessoas, inimigos terríveis, dos quais se deve afastar e temer. O homem se encontra despido de qualquer sentimento que não seja o de não sucumbir, pouco importando os meios pelos quais isso aconteça. É o mundo do vale-tudo; onde o mal não tem freios nem pode ser freado. 

Neste contexto, encontramos no "filho" um coração ingênuo, puro, amoroso e fraterno (uma referência de Cormac ao Cristo, o Filho Unigênito do Pai?), o qual é o "freio" do homem (a sua consciência perdida; o imago dei a lembrá-lo de quem é), disposto a tudo para salvaguardar a própria vida e a do seu rebento. O garoto, diante de um universo frio, cruel, egoísta e sanguinário, não se adapta as consequências naturais do "novo mundo", por não entender ser necessário abrir mão, por completo, da compaixão, da piedade. Ele vai na contramão, no caminho inverso em que todos os demais parecem se dirigir; e, nesse aspecto, apresenta uma força interior muito maior do que a do Pai, o qual reage como o protetor, disposto a fazer o preciso para sobreviverem, mas como uma reação natural da própria debilidade. 

Talvez, por isso, o menino seja descrito como uma alma agoniada, inconformada com a perversidade, sempre a questionar (respeitosamente, diga-se de passagem) as atitudes dos outros e, mesmo, do seu pai. Em muitos momentos, as respostas lacônicas e pouco interessadas do homem não o satisfazem, mas ele se resigna as vezes, ou reage através do choro e da tristeza para fazer o pai ver, mesmo minimamente, a beleza quase impossível das relações humanas. O desejo arraigado de conhecer os "homens bons", de acreditar na existência deles, se encontrado, seria o bálsamo a provar ao pai que nem tudo precisa ser do jeito que é. 

Não há como não se emocionar ao vê-lo conduzir o homem a mudanças de atitudes, quebrando-lhe a rudeza e deixando-lhe brotar sentimentos de fraternidade; ainda que se perceba um certo agastamento nele, em algumas situações. 

O mundo está cheio de almas aflitas, perdidas, deslocadas em meio à selvageria, mas dispostas a tudo para manterem-se livres dela. Não há providência, nem algo a se construir; sobram apenas os movimentos repetitivos como os de uma aranha tecendo a sua teia. 

Podemos chamá-lo de um "livro de emoções"; e elas brotam a cada página, numa simplicidade nada reducionista, mas enxuta, onde não há lugar para o supérfluo, o verborrágico, mas a concisão. 

A descrição do novo mundo é como assistir a "Mad Max", mas, de alguma maneira, a realidade entre pai e filho está mais próxima do "Senhor dos Anéis", onde há uma luta pelo bem, a fim de fazer o homem ressurgir das cinzas. 

Há redenção. Há esperança. Há solidariedade. Há uma força conduzindo o caos para a ordem, assim como em José do Egito, o mal se tornará em bem, pelas mãos de Deus. 

A morte do homem não está decretada, nem ele sucumbirá à própria depravação; e o filho, assim como o verdadeiro Filho, é o único capaz de juntar os pedaços, emanando bondade, e tornando zumbis em homens de verdade; fazê-los voltar à vida. 

E essa me parece a conclusão de McCarthy, a despeito de sua ligação com as trevas; uma vítima da Síndrome de Estocolmo, na qual o ofendido nutre um afeto doentio pelo ofensor. Mas entendo McCarthy, e o admiro por isso, pois ele é capaz de ver a luz em meio a mais densa escuridão. 

Leitura altamente recomendada



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Avaliação: (****)
Livro: A Estrada
Autor: Cormac McCarthy
Editora Alfaguara

240 Páginas

19 julho 2019

Uma curva no rio






Jorge F. Isah

Muitos consideram este livro o novo "Coração das Trevas", de Conrad. Bem, entendo que preciso ler novamente o "Coração...". Tenho cá comigo que fiz uma análise rápida, superficial e, mesmo, incompreensível do livro. Estava tão envolvido com o debate ideológico, que vi ideologia por todo os lados, o que é, no mínimo, sinal de deficiência cognitiva, ao qual faço o meu "mea-culpa". 

Se em Conrad existe a denúncia do colonialismo europeu, em parte, e da ignorância, servilismo e jogo de interesses dos nativos africanos (lembre-se de que a minha impressão pode não ser a melhor, por causa do que disse no primeiro parágrafo), na obra de Naipaul existe uma denúncia ainda maior da leniência, indolência dos nativos para com os seus "senhores". Em especial, o presidente/ditador do "Domínio", uma faixa de terra subjugada pela guerra civil, a tirania governamental, o culto idólatra ao líder, e a passividade da população, dividida entre a exploração e à veneração doentia ao caudilho. 

O pano de fundo, portanto, é a África Tropical, dominada pela ignorância e pela rixa entre suas tribos e povos, até as raias do ódio mais insano. Em um momento no qual o continente via os últimos estertores dos colonizadores e havia um espírito de independência, tantos os brancos como outros imigrantes (indianos, árabes, etc) eram vistos como inimigos, causadores de todas as mazelas dos nativos, e, por causa disso, deveriam ser perseguidos e mortos. Havia um levante, um insuflar governamental para que os pretos não somente sufocassem mas destruíssem os brancos, para assim serem libertos, ou a fim de manterem a "liberdade". 

Salim é um muçulmano de origem indiana (ele considera a sua família mais hindu do que muçulmana, em suas tradições e comportamento), que tinha por servo (escravo mesmo, no sentido exato da palavra) um africano de nome Metty, um garoto que chegou à casa da família de Salim, no literal, e quando este partiu para o interior, para um tipo de independência, em busca da sua própria identidade, Metty seguiu-o. A despeito de Salim desejar a todo custo "dar" a liberdade a Metty, ele, mesmo com seus melífluos desejos, não queria abandonar a proteção do seu senhor. 

Sobre o assunto da escravidão, Naipaul escreveu: 
"A escravidão na costa leste não era como a escravidão na costa oeste. Lá, ninguém era embarcado para grandes plantações no além-mar. A maioria daqueles que deixavam nosso litoral ia para casas árabes, para o serviço doméstico. Alguns se tornavam membros da família a que se haviam agregado; uns poucos se tornavam poderosos em seu próprio direito. Para um africano, uma cria da floresta, uma pessoa que caminhara centenas de quilômetros do interior para a costa e que estava distante de sua vila e sua tribo, a proteção de uma família estrangeira era preferível à solidão entre africanos estranhos e inamistosos. Essa era a razão pela qual o comércio escravo se mantivera até bem depois de proscrito pelos poderes europeus; também por isso, no tempo em que os europeus comerciavam com certo tipo de borracha, meu avô ainda conseguia negociar com um tipo diferente daquele. Pela mesma razão, uma escravidão secreta perdurou no litoral até recentemente. Os escravos, ou as pessoas que poderiam ser consideradas escravas, desejavam continuar como estavam."

Boa parte do livro se envolve com os conflitos, o assassínio de brancos (muitos deles amavam os africanos), como o padre Huismans, morto por jovens universitários negros, legionários do "Grande Homem", e que viam na revolução (diga-se morte em profusão dos opositores, sejam brancos ou negros) uma forma de libertação da alma e do espírito aprisionado do africano tropical. Havia uma guerra cultural, étnica, ideológica, na qual o ditador comunista, e seu governo, insuflava o povo a destronar os imperialistas. Curiosamente, Salim nos remete às suas memórias, na verdade, uma única história de família: 

"Lembro-me de ouvir meu avô contar que certa vez expedira um barco de escravos como se a carga fosse borracha. Não sabia dizer quando fizera isso. O fato simplesmente estava lá, em sua memória, flutuando, sem data e sem outras associações, um evento incomum numa vida pacata. Ele não falava disso como de um ato cruel, uma trapaça ou piada; apenas contava a história como algo incomum que houvesse feito — não o fato de não embarcar os escravos, mas o de descrevê-los como borracha. E, sem minha própria lembrança da história do velho, suponho que ela teria se perdido para sempre. Creio, de acordo com minhas leituras posteriores, que a ideia da borracha lhe teria ocorrido antes da Primeira Guerra, quando a borracha se tornara um negócio graúdo — e mais tarde um grande escândalo — na África Central. Há coisas familiares para mim que permaneceram ocultas ou desinteressantes para meu avô.
De todo aquele período de conflitos na África — a expulsão dos árabes, a expansão da Europa, a divisão do continente —, essa é a única história de família que possuo. Essa era a nossa feição. Tudo o que conheço de nossa história e da história do oceano Índico recebi de livros escritos por europeus. Se digo que em sua época nossos árabes eram grandes aventureiros e escritores; que nossos marinheiros deram ao Mediterrâneo a vela latina que tornou possível a descoberta das Américas; que um piloto indiano guiou Vasco da Gama da África Ocidental até Calcutá; que a palavra cheque foi primeiro usada por nossos mercadores persas; se digo todas essas coisas é porque as encontrei em livros europeus. Elas não faziam parte do nosso conhecimento ou do nosso orgulho. Sem os europeus, sinto que todo o nosso passado teria se apagado, como as pegadas dos pescadores na praia de nossa cidade."

A guerra cultural, ou de classes, é a estupidez suprema daqueles que se amam menos do que odeiam os outros. O ódio é a motriz a levá-los para além da imoralidade, da estupidez, da destruição; não há amor em si mesmo, nem uma ínfima chama a compreender que o homem só pode ser inimigo se antes for-lhe o hostil. 

Em suma, uma "Curva no rio" trata das questões de identidade, onde os homens se perdem em suas próprias concepções do que sejam, mas não estão dispostos a assumir aquilo que deveriam ser. Na África, especialmente, as pessoas se perdem entre os clichês, os estereótipos daquilo que são mas não se adaptam naquilo que desejam ser e lhes é impossível, e no passado, aquilo que foram, e os assombra. Restam-lhes a tentativa alucinada de negar tudo, não desejar nada, e submeterem-se ao infortúnio de deixarem essa decisão para alguém que apenas os conduz segundo os interesses do Estado, na forma do "Grande Homem". Ele é o personagem que não tem nome, mas se faz quase onipresente na vida de todos os súditos. Mas nem ele mesmo resistirá, e, no final das contas, resta em todos o medo e a infelicidade de reconhecerem trabalhar em uma causa perdida, em que o futuro nada mais é do que as ânsias de um passado revivido, catastroficamente mortal e amplificado em sua crueza. 

E sem identidade, como alguém pode saber o seu lugar no mundo? 

Salim parte novamente para um mundo ao qual não pertence, talvez desejoso de nunca ter aportado na África, para dela sair, como se nunca tivesse nela vivido e existido.


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Título: Uma Curva no Rio
Autor: V. S. Naipaul
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 320

Avaliação: (***)

Sinopse da editora: 


"O muçulmano Salim é um imigrante indiano que se estabelece num país africano recém-desocupado pelos colonizadores britânicos. Protagonista e narrador de Uma curva no rio, ele assiste à lenta degradação dessa sociedade depois que o Grande Homem, um líder populista e corrupto, assume o poder. Atrás do balcão de seu armazém, num lugarejo imaginário localizado na curva de um rio, na Costa Leste da África, Salim testemunha o destino dos vários personagens que habitam a região: a "bruxa" Zabeth e seu filho Ferdinando, o padre católico, o intelectual branco da cidade e sua sofisticada mulher. 
Comparado a O coração das trevas, de Joseph Conrad, Uma curva no rio examina com muita ironia o impacto da herança colonial e do fervor nacionalista no interior profundo do continente africano. O autor explora as contradições do contexto social e político da África pós-colonial por meio de um microcosmo que ilustra a dificuldade dos povos africanos em criar uma identidade coesa e forte."

05 julho 2019

Preso na própria armadilha - II





Jorge F. Isah



A maioria das pessoas diz confiar em Deus quando não há disposição de entregar-se ao seu senhorio, de dobrar-se à sua vontade, como forma de gratidão por toda a sorte de bênçãos recebidas. Via de regra, afirma-se crer nele, mas entrega-se exclusivamente ao próprio autogoverno, sem o desejo de ser guiada e dirigida pelo Criador. 

Boa parte das teologias e filosofias existentes afirmam a soberania do homem sobre si, chegando ao ponto de a vontade humana se sobrepor à vontade divina. Há uma clara inversão de valores na qual a vontade humana tem de ser preservada e, em seu favor, a vontade divina deve estar sujeita, submissa. E a desculpa sempre é a mesma: Deus, em sua soberania, entregou ao homem os seus desígnios, de tal forma que Deus não pode ser Deus se o homem não quiser (a ideia equivocada do livre-arbítrio; quase sempre significa independência de Deus). Em outras palavras, a vontade divina, no fim das contas, dependerá sempre da vontade humana para se manifestar, do contrário, ela é suprimida, prevalecendo a da criatura em detrimento a do Criador. 

Como o homem é supostamente livre, em sua natureza e vontade, ele se utiliza dessa liberdade para rejeitar o conselho divino, não se entregando ao seu senhorio. O que acontece, na verdade, é que ele não pode fazê-lo, pois sua natureza está em oposição a Deus, e sua vontade é contrária à de Deus. Não é uma questão de escolha, mas de não poder escolher o bem, o certo, o que agradaria ao Senhor. Para complicar ainda mais esse contexto, o homem que diz conhecer a Deus, não conhece a sua vontade, e sem conhecer a sua vontade, como poderia conhece-lo? E se a vontade divina está expressa em sua palavra revelada, a Bíblia, a qual o homem natural não está afeito, ou em completo desinteresse, como pode conhece-lo? Através de uma imagem formulada em sua mente e alheia à verdade? Por indução? Ou intuição? 

Por isso, o homem que diz conhecer a Deus não o conhece, antes criou para si mesmo um espantalho, um ídolo, no qual diz acreditar e confiar, sem se questionar sobre o real estado em que se encontra, de estar sendo pego em sua própria armadilha, cujo laço a apertá-lo foi colocado e puxado por ele mesmo.

Nesse aspecto, o homem é livre, em seu desejo de autodestruição. 


25 junho 2019

Sermão em Josué 1.5-6: Jamais te abandonarei!






Jorge F. Isah



“ Ninguém te poderá resistir, todos os dias da tua vida; como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei nem te desampararei.
Esforça-te, e tem bom ânimo; porque tu farás a este povo herdar a terra que jurei a seus pais lhes daria” (Josué 1.5-6)


INTRODUÇÃO:

- Nunca houve uma geração tão confiante em si mesma, na autossuficiência, e independência de Deus, do que esta, neste século. Contudo, nunca se viu pessoas tão fracas também. Que se desmoronam como uma torre de açúcar em meio a chuva. São facilmente abaladas, e o desespero, acompanhado de doenças psíquicas, parece a marca mais visível deste tempo.
- As pessoas acreditam, de uma forma geral, no próprio poder, cuidado, mas, também, nos poderes “sobrenaturais” do dinheiro, do poder, da imagem, como se estas coisas pudessem realmente ser o sustento e auxílio nos dias ruins.
- Em Hebreus 13.5, lemos: “Seja a vossa vida livre do amor ao dinheiro”.
- Sabemos que o amor ao dinheiro é perdição e pecado. O dinheiro, em si mesmo, não é mau ou bom; o uso que fazemos dele pode ser para o bem ou para o mal.
- Acontece que algumas pessoas acreditam estarem seguras pelo que têm ou possuem, confiando que estarão livres de males, sofrimentos e dores pela fortuna ou poder obtido.
-Por outro lado, esquecem-se de que essas coisas, quando postas na condição de garantir a segurança e o bem-estar, podem ser a causa de muitos males.
- Milionários e poderosos são sequestrados e mortos.
- São roubados e mortos.
- Acabam por gastar boa parte do seu dinheiro em jogos, drogas e orgias, além usarem outra boa parte na defesa do patrimônio e da vida. Mas ainda assim, morrem, como todo homem.
- E não há dinheiro que subsista diante das traições, estupidez ou a autoconfiança. Todas essas coisas ruem e caem por terra com a morte, com as perdas.
- O mundo clama por segurança, assim como clama por justiça, acreditando possível alcança-las pelo engenho e pela capacidade humana, alheio a Deus e seus preceitos, esquecendo-se de que o mesmo homem é a causa da insegurança e da injustiça.


MOISÉS, HOMEM PODEROSO POR DEUS

- Por outro lado, Deus é capaz de estabelecer homens poderosos, como o caso de Moisés. O relato do capítulo 34 de Deuteronômio, não deixa dúvidas quanto ao homem que ele foi, poderosamente capacitado pelo Deus de poder.
- A força e o poder de Moisés emanavam de Deus. Moisés sabia disso, não se auto exaltava ou gloriava-se do quanto fez, antes buscava servir a Deus, ansiando pela intimidade com ele.
- Quando Moisés desceu do monte Horebe, refletindo no rosto a glória de Deus, o povo não pode olhar para ele. Foi preciso cobri-lo com um pano até que a glória divina, e seu brilho esfuziante, se dissipasse.

- Ler e explicar Dt. 34:

“1. ENTÃO subiu Moisés das campinas de Moabe ao monte Nebo, ao cume de Pisga, que está em frente a Jericó e o Senhor mostrou-lhe toda a terra desde Gileade até Dã;
2. E todo Naftali, e a terra de Efraim, e Manassés e toda a terra de Judá, até ao mar ocidental;
3. E o sul, e a campina do vale de Jericó, a cidade das palmeiras, até Zoar.
4. E disse-lhe o Senhor: Esta é a terra que jurei a Abraão, Isaque, e Jacó, dizendo: À tua descendência a darei; eu te faço vê-la com os teus olhos, porém lá não passarás.
5. Assim morreu ali Moisés, servo do Senhor, na terra de Moabe, conforme a palavra do Senhor.
6. E o sepultou num vale, na terra de Moabe, em frente de Bete-Peor; e ninguém soube até hoje o lugar da sua sepultura.
7. Era Moisés da idade de cento e vinte anos quando morreu; os seus olhos nunca se escureceram, nem perdeu o seu vigor.
8. E os filhos de Israel prantearam a Moisés trinta dias, nas campinas de Moabe; e os dias do pranto no luto de Moisés se cumpriram.
9. E Josué, filho de Num, foi cheio do espírito de sabedoria, porquanto Moisés tinha posto sobre ele as suas mãos; assim os filhos de Israel lhe deram ouvidos, e fizeram como o Senhor ordenara a Moisés.
10. E nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, a quem o Senhor conhecera face a face;
11. Nem semelhante em todos os sinais e maravilhas, que o Senhor o enviou para fazer na terra do Egito, a Faraó, e a todos os seus servos, e toda a sua terra.
12. E em toda a mão forte, e em todo o grande espanto, que praticou Moisés aos olhos de todo o Israel.”


- Josué, homem cheio do Espírito de Deus, sucedeu a Moisés, liderando Israel. Igualmente, um homem cheio de fé, confiando nas promessas do Senhor.



AS PROMESSAS DADAS A MOISÉS SE CUMPREM

- Deus promete cumprir em Josué as promessas dadas a Moisés: 

“23.Também o Senhor, de diante de vós, lançará fora todas estas nações, e possuireis nações maiores e mais poderosas do que vós.
24. Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé será vosso; desde o deserto, e desde o Líbano, desde o rio, o rio Eufrates, até ao mar ocidental, será o vosso termo.” (Dt 11.23-24)

- Josué 1.1-4:

“E SUCEDEU depois da morte de Moisés, servo do Senhor, que o Senhor falou a Josué, filho de Num, servo de Moisés, dizendo:
2. Moisés, meu servo, é morto; levanta-te, pois, agora, passa este Jordão, tu e todo este povo, à terra que eu dou aos filhos de Israel.
3. Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo tenho dado, como eu disse a Moisés.
4. Desde o deserto e do Líbano, até ao grande rio, o rio Eufrates, toda a terra dos heteus, e até o grande mar para o poente do sol, será o vosso termo.“

- A promessa de Deus a Josué é a de que, assim como ele cuidou de Moisés, cuidaria dele também.



“NINGUÉM TE PODERÁ RESISTIR”

- Ex 3.11-14:

11.“Então Moisés disse a Deus: Quem sou eu, que vá a Faraó e tire do Egito os filhos de Israel?
12. E disse: Certamente eu serei contigo; e isto te será por sinal de que eu te enviei: Quando houveres tirado este povo do Egito, servireis a Deus neste monte.
13. Então disse Moisés a Deus: Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?
14. E disse Deus a Moisés: eu sou o que sou. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: eu sou me enviou a vós.”

- Deus prometeu estar sempre com Moisés, cuidando dele;
- Moisés não confiou em si mesmo; demonstrou humildade; como líder poderia exigir que os israelenses o ouvissem de qualquer maneira. Ele não se preocupou com a forma como ele viu Deus, mas como o próprio Deus se apresentou a ele, levando-o não segundo o seu parecer e vontade, mas segundo a vontade divina, e na forma como Deus quis ser conhecido.
- O “Deus de vossos pais”, aquele que se apresentou a Abraão, Isaque e Jacó, o mesmo Deus que sempre cuidou de Israel, e agora continuará cuidando.
- Se antes era conhecido como o Deus dos patriarcas, agora queria ser identificado pelo que era: o poderoso “Eu Sou”, aquele que não foi, nem será, mas sempre é. O Deus imutável e soberano, diante do qual a nação israelita deveria se curvar e adorar.
- Moisés não questionou a Deus. Não tentou encontrar uma maneira mais adequada de apresentá-lo ao povo. Ele simplesmente ouviu-o, declarando-o aos seus conterrâneos tal como se identificou.
- Assim como o Senhor disse a Moisés “Certamente eu serei contigo”, ele repetiu a mesma promessa a Josué, e se cumpriria na vida do discípulo de Moisés: “assim serei contigo”.
- Essa deveria ser a certeza na vida de Josué. E como a viu cumprida na vida de Moisés, pois foi testemunha ocular do cuidado divina para com o seu mestre, assim ele estava seguro de que a promessa seria realidade em sua vida.
- Por fé, ele e Moisés creram na promessa e colocaram-se completamente nas mãos de Deus.

- É o que nos revela Hb 11.24-34:

“24. Pela fé Moisés, sendo já grande, recusou ser chamado filho da filha de Faraó,
25. Escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deus, do que por um pouco de tempo ter o gozo do pecado;
26. Tendo por maiores riquezas o vitupério, de Cristo do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa.
27. Pela fé deixou o Egito, não temendo a ira do rei; porque ficou firme, como vendo o invisível.
28. Pela fé celebrou a páscoa e a aspersão do sangue, para que o destruidor dos primogênitos lhes não tocasse.
29. Pela fé passaram o Mar Vermelho, como por terra seca; o que intentando os egípcios, se afogaram.
30. Pela fé caíram os muros de Jericó, sendo rodeados durante sete dias.
31. Pela fé Raabe, a meretriz, não pereceu com os incrédulos, acolhendo em paz os espias.
32. E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo contando de Gideão, e de Baraque, e de Sansão, e de Jefté, e de Davi, e de Samuel e dos profetas,
33. Os quais pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões,
34. Apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos.”


“ESTAREI CONTIGO”

- Deus não disse a Josué que ele teria uma vida confortável, segura, sem percalços e livre de problemas. Ao dizer que estaria com ele não estava assegurando-o de uma vida de tranquilidade plácida, de bem-estar e afortunada. Não no sentido mormente conhecido de riquezas e conforto materiais.
- Afirmando estar com ele, não o desamparando, nem o abandonando, Deus garantia que mesmo diante das lutas, aflições e angústias da vida, Josué seria próspero e vitorioso.
- Sim, porque a vitória não é apenas aquilo que vemos ou tocamos, mas a expectação, a esperança do porvir.
- A vitória é termos a presença e o cuidado de Deus em nossas vidas. Seja nas lutas, provações, incertezas, injustiças e perseguições.
- Os profetas foram mortos, mas esperaram no Senhor.
- Os apóstolos foram mortos, mas esperaram no Senhor.
- Cristo morreu, esperando no Senhor.
- Os santos morreram, esperando no Senhor.
- Porque a promessa é: não te abandonarei!
- Não somente a Josué ou Moisés ou Paulo, mas também para todos nós.
- Esta promessa é válida para todos os crentes, em todos os tempos, de sorte que não podemos negligenciá-la, deixando de crer, e esperar, no zelo dedicado do Senhor.


NADA NOS SEPARA DO AMOR DE CRISTO

- A exortação de Deus para Josué é “esforça-te e tem bom ânimo”!
- Também o foi a Moisés.
- Nos é feita agora, não importa o que você esteja passando. Não importa o sofrimento que tenha. As lutas pelas quais atravessa. A injustiça, e até mesmo o desânimo, que o leva as vezes a dizer: “Por que eu, Senhor?”
- A dúvida na maioria das vezes no soterra, nos joga mais fundo no desânimo, no sofrimento, na angústia. Ela de nada serve para nós, para o nosso bem. É apenas instrumento de destruição, de afastamento de Deus, de incredulidade.
- Entretanto, a promessa do Senhor é clara: nada pode nos afastar do amor de Cristo!
- Pense bem, agarre-se a esta promessa. Novamente: nada nos afastará do amor de Cristo! É impossível. Mesmo quando estamos no chão, nocauteados, prostrados, sem vislumbrar um amanhã vitorioso.
- Mas lembre-se: o que Deus promete, cumpre! Assim como Moisés provou, e também Josué, também provamos e provaremos sempre do cuidado e zelo de Deus para conosco.

- Romanos 8.31-39:

“31. Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?
32. Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?
33. Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.
34. Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e o que também intercede por nós.
35. Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada?
36. Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; somos reputados como ovelhas para o matadouro.
37. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou.
38. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir,
39. Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.”

- Citar o caso do Pr. Richard Wurbrand, de como foi preso injustamente, apenas por amor a Cristo, ele e tantos cristãos lançados nas masmorras do regime comunista na Romênia, por 14 anos, privado da sua liberdade, da sua dignidade, torturado, vivendo miseravelmente com outros irmãos, vendo-os perecer cruelmente pelas mãos dos seus algozes, jamais negou o Senhor, e manteve-se ativo, de tal forma que, entre os soldados, alguns se converteram.
- Assim como Paulo fez entre os soldados romanos.
- Assim como, neste momento, irmãos chineses, norte-coreanos, entre outros, têm suas igrejas destruídas, são presos, torturados e mortos por um único motivo: não são capazes de negar o amor que Cristo devotou-lhes, e como o seu Senhor, sofrem perseguições, ofensas e injúrias, na esperança viva de estarem sempre sobre os cuidados de Deus.
- Nos países islâmicos, ser cristão é sentença de humilhação e morte. Mas os que são de Cristo, não o negam, e entregam a própria vida em louvor e culto e adoração.


CONCLUSÃO

- Pode parecer um conto-de-fadas, estórias da carochinha, mas os relatos dos mártires, antigos e modernos, estão aí, para não me deixar mentir.
- Você pode dizer, mas essa não é a minha realidade. Há outros tipos de lutas e perseguições, sejam no trabalho, na escola, na comunidade, na minha própria casa, que me parecem insuportáveis.
- Sei que é mais fácil citar os grandes exemplos, daqueles homens e mulheres e crianças abnegadas que entregaram tudo, inclusive a própria vida, por amor do Senhor.

- Mas até que ponto estamos preparados para entregar um centésimo da nossa vida? Um décimo da nossa vida? Podemos abrir mão de algumas horas, de algumas distrações, de alguma diversão, descanso ou de outras coisas que consideramos importantes, deixando-as, ainda que momentaneamente, para servir a Cristo? Como o próprio Senhor disse: 


“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me.
Porque, qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida, a salvará.” (Lc 9.23-24)


- Não estamos nos tornando em vítimas de nós mesmos? Ao deixamos que os problemas e aflições, as vezes não tão agudos, nos afaste de Deus, e nos arraste para a autopiedade?

- A incredulidade é isso, é olharmos para nós mesmos, e esquecer-nos de olhar para Deus. A incredulidade é quando não há mais ninguém além de nós mesmos.
- Algo verdadeiro é de não podemos encontrar solução que nos faça vencer (não uma vitória momentânea e fugaz) sem olharmos fixo para Cristo, e nele depositarmos não somente a esperança de tempos gloriosos, mas também de que as agruras e sofrimentos são a glória, não minha ou sua, mas de Deus.
- Então, não importa o momento no qual esteja vivendo, pelo qual esteja passando, se suas lutas parecem maiores do que a sua força, pois certamente o homem sucumbirá, mais cedo ou tarde, à sua fraqueza, não desanime ou entregue-se à descrença. Mantenha-se firme na fé, peça ao Senhor para aumenta-la, para auxiliá-lo e fortalece-lo, pois Deus é o único capaz de cuidar de nós, muito melhor do que nós mesmos podemos.  
- Deixe o Senhor guia-lo ao triunfo, apenas não desanime, persista em crer; assim como Moisés e Josué, homens pelos quais Deus fez maravilhas, a vitória não acontecerá mas já aconteceu, naquela cruz, há mais de 2.000 anos, quando Cristo levou sobre si as nossas dores, pecados e mortes, o amor venceu! Contra tudo e todos! O amor venceu!... O amor venceu!
- Para terminar, um pequeno trecho escrito por Santo Agostinho, sobre o Deus que devemos amar, e crer, e confiar:

“Amo somente a ti, sigo somente a ti, busco somente a ti, estou disposto a servir somente a ti e desejo estar sob a tua jurisdição, porque somente tu governas com justiça. Manda e ordena o que quiseres, mas sana e abre meus ouvidos para ouvir tuas palavras; sana e abre meus olhos para enxergar os teus acenos. Afasta de mim a ignorância para que eu te reconheça. Dize-me para onde devo voltar-me para ver-te e espero fazer tudo o que mandares. Suplico-te: recebe teu fugitivo, Senhor e Pai clementíssimo; já sofri muito; já servi demais aos teus inimigos, os quais sujeitas sob teus pés; por muito tempo fui ludibriado por falácias. Recebe-me, que sou teu escravo fugindo deles, que me receberam, estranho a eles, quando eu fugia de ti. Sinto em mim que devo voltar a ti. Abrase tua porta para mim, que estou batendo. Ensina-me como chegar a ti. Nada mais tenho que a vontade. Nada mais sei senão que se deve desprezar as coisas passageiras e transitórias e procurar o que é certo e eterno. Faço-o, Pai, porque é a única coisa que sei; porém, ignoro como chegar a ti. Ensina-me, mostra-me, oferece-me as provisões para a viagem. Se é com a fé que te encontram os que se refugiam em ti, dá-me fé; se é com a força, dá-me força; se é com a ciência, dá-me ciência. Aumenta em mim a fé, aumenta a esperança, aumenta o amor. Ó admirável e singular bondade tua!" (Solilóquios, página 19)

- O Senhor nos abençoe, hoje e sempre!


Notas: 1) Para ouvir o áudio da pregação, clique em Tabernáculo Batista Bíblico


04 junho 2019

Desgarrados - Eda Nagayama







Jorge F. Isah


Uma leitura difícil, sofrível e cáustica... 

Assim que me senti ao ler o livro da Eda Nagayama . Sinceramente, ele é ruim e mal escrito. Não há qualquer tentativa de se criar empatia com o leitor; apenas o desenrolar sinuoso de uma teia de clichês na qual ele pode se ver preso, sem saber ao certo como foi.

É um livro frio, diria, gélido. Uma narrativa truncada, sem beleza, mutilada por excessivos “pontos finais”. Falta musicalidade, verve, e uma história convincente, e personagens reais, a despeito da tentativa de se passar “uma realidade”. Quer ser verossímil pela sisudez narrativa, demonstrado falta de apuro e sensibilidade. Não há profundidade, elaboração, esmero, apenas frases [muitas desconectadas] jogadas de lá para cá, entrecortadas, assassinadas por uma necessidade de forma, como uma serra amputando uma perna sadia. Sem que haja um real sentido, uma apropriação. A não ser enfadar por um conceito, que se afasta, em muito, de uma boa história contada... Talvez, por isso, a escolha do título do livro...

“Desgarrados" não passa disto: apenas um estilo, muito desinteressante, discorrido em 128 páginas. E só!

PS: Interrompi a leitura um pouco antes da metade do livro. E achei que fui muito além do que deveria. Não gosto de suspender nada até que esteja concluído. Entretanto, as vezes é necessário matar algumas leituras, devolvendo o livro à estante, para não sucumbirmos nelas.


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Avaliação: (*)

Eda Nagayama
Cosac & Naify
128 Páginas

Sinopse: 

"Uma mulher evangélica perde a fé e, ovelha desgarrada, sai em busca de respostas para sua vida. Com uma linguagem poderosa e original, feita de fragmentos de frases, Nagayama confere tensão incomum à narrativa, expondo as emoções mais íntimas com inusitada intensidade."

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