11 abril 2019

Moby Dick: Muito mais do que uma aventura



Jorge F. Isah


Em meio a outras leituras, ainda lendo "A Baleia. Estou na metade final do livro, mais ou menos o seu último quarto.

Muitos acham se tratar de um livro de aventuras, o que não é mentira; mas considera-lo apenas como tal é não compreender toda a trama intrincada e, muitas vezes trabalhosa, que é decifrar a escrita de Melville. Ela transcende em muito esta ideia. Há de tudo um pouco, metafísica, religião, psicologia, historia, biologia, ódio, vingança, amizade, e tudo o mais que faz um grande romance, e muitas descrições em detalhes minuciosíssimos. 

É um livraço; mas não é leitura para todos. Há momentos em que, não raro, se pensa em desistir ou pular trechos inteiros (como as descrições sobre a natureza dos cachalotes ou barcos). Muitas vezes percebi-me perguntando: por que o autor está dando essas descrições? E, um pouco mais adiante, compreender que era necessário, pois Melville queria que "víssemos" claramente tudo o que ele via, e não escapássemos ao seu realismo e à verdade da sua narrativa, entrando nela como um partícipe, não como um mero espectador ou leitor. De certa forma, o domínio e o conhecimento de cada particularidade da história, por menor que seja, conferi-lhe autoridade e factualidade, e nos faz cúmplices da narrativa. Não sei se foi esta exatamente a sua intenção, mas pareceu-me claro como objetivo, e parte do estilo a desenrolar-se nas centenas de páginas.

Certo é que abandonar livro tão precioso será um dissabor para o bom leitor, ainda que ele não o perceba, se optar pela interrupção. Neste caso, tem de se ter persistência e insistência, para alcançar a recompensa. E ela não tarda em chegar; e chegará, para deleite e satisfação daqueles que não querem apenas uma aventura marítima, mas um mergulho na alma e nos conflitos humanos, naturais e sobrenaturais. 




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DADOS TÉCNICOS:

Título: Moby Dick

Autor: Hermann Melville

Editora: Landmark (Edição Bilíngue) 

No. de Páginas: 528

Avaliação: (****)




SINOPSE DA EDITORA:


"Moby Dick” foi escrito pelo escritor norte-americano Herman Melville e publicado originalmente em três fascículos com o título “A Baleia”, em Londres, em 1851, e ainda no mesmo ano em Nova York em edição integral. Somente a partir de sua segunda edição que ganha seu título definitivo, “Moby Dick”. 

A obra foi inicialmente mal-recebida pela crítica literária, assim como pelo público, mas com o passar do tempo tornou-se uma das mais respeitadas obras da literatura em língua inglesa. Inspirado pelas experiências pessoais do autor e por outros acontecimentos que marcaram o período, Moby Dick representa, além de uma complexa narrativa de ação, uma profunda reflexão sobre o confronto entre o homem e a natureza, ou segundo alguns especialistas, entre o homem e o Criador, reforçada pela ‘universalidade’ dos tripulantes do navio “Pequod”, o que sugere uma representação da Humanidade. Obra de profundo simbolismo..."


25 março 2019

A Saga Brasileira





JORGE F. ISAH



  Diante do lodaçal moral e político em que o pais está submerso (um círculo vicioso sem fim que persiste há mais de um século), penso que o fechamento do Congresso Nacional e a convocação de eleições gerais¹ (com um número não superior a 250 eleitos, entre senadores e deputados), no prazo máximo de 3 meses, seria a melhor saída, ainda que paliativa; sem as urnas eletrônicas da Smartmatic, claro!

  Contudo, seria pedir demais, pois estamos sempre à procura do "jeitinho" para acomodar, da melhor maneira, a falta de consciência dos nossos próprios pecados, dos insistentes equívocos aos quais nos habituamos, e dos quais não achamos possível prescindir, como um sinal da desordem na alma brasilis, que via de regra é de todo homem, mas em nós parece hiperbolizado, no exagero da imoralidade. Com o agravante de se ter boa parte dos "cleptocratas" reeleitos, em um novo pleito; e aquela ideia do círculo sem fim se perpetua "ad infinitum". Parece uma sina, um karma, uma maldição, mas é apenas a natureza tupiniquim, desembestada e frouxa, sem um freio a contê-la.

  Enquanto a maioria se preocupa com os detalhes, poucos vão realmente ao cerne do problema: estamos onde estamos por lutarmos cega e obstinadamente pelo mal, mesmo considerando-o um bem pessoal². Acabamos por nos esquecer de que toda ação gera uma reação; e de que o bem desejado ardentemente para si mesmo, mas quase nunca para o outro, volta-se na forma mais nefasta de autodestruição. Por isso, o Cristo nos diz:

"Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: Ame o seu próximo como a si mesmo". (Mateus 22,37-39)

 Se queremos mudanças, que comecem, primeiro, em nós, a partir da visão correta da realidade, da realidade individual, na qual, quase sempre, nos vemos como vítimas ou pobres-coitados, quando somos, também, agentes do caos, do estado de coisas a persistir e insistir em sua rota de destruição e injustiças. De nada adiantam as manifestações públicas, as passeatas, os comícios, nem mesmo o voto; nem exigir que as autoridades nos sirvam ao invés de serem servidas, se não temos qualquer disposição para o "serviço", desejando apenas a "revolução" para, cada um dos revolucionários, se dar bem. É o engano de todos os enganos. Como está escrito: 

"E digo isto: Que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância ceifará" (2 Co 9:6)³

  Queremos receber sem dar; queremos justiça sem sermos justos; queremos igualdade quando esperamos privilégios; a paz quando estamos em guerra; direitos quando não reconhecemos os deveres; e assim vamos, cada um chorando e se lamentando da dor, se se aperceber que a causa não está além do próprio nariz. 

  Por isso, reafirmo: sem o amor e o temor (reverência) a Deus, e o amor ao próximo, cavamos palmos a mais na própria sepultura. E qualquer culto que professemos, será apenas idolatria e alguns graus centígrados a mais no fogo que nos espera. 


Nota: 1) Sei que não existe prescrição constitucional para isso; mas já que a realidade do país é implacável com o bem, e tolerante com o mal, sonhar é o que me resta...

2) É evidente que existem exceções, e não estou tratando de regra ou unanimidade em minhas afirmações, mas há de se convir que a maior parte dos brasileiros, se não está alinhada com o mal (e me refiro ao mal moral; a clara incitação ao desenfreado culto ao pecado, em que tanto Deus, como o próximo, são desprezados), é coparticipante, se não ativamente, mas na passividade, consentindo. Como também está escrito: 
"Os quais, conhecendo o juízo de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem (Rm 1:32).

3) Paulo está a falar do sustento e manutenção da obra de Deus, através dos recursos que disponibilizamos através dos dízimos e ofertas (se quiser saber a minha opinião sobre o dízimo, clique neste Link e leia)


20 março 2019

A Mulher no Escuro - Dashiell Hammett





JORGE F. ISAH


  Este é mais um livro no estilo "noir", com elementos típicos: protagonista "macho alpha", ex-presidiário, acusado injustamente, perseguido por bandidos e policiais; mulher linda, desejada, não-disponível e com tendências a participar do crime organizado, circundada por cafetões, larápios e bandidos pés-de-chinelo, resumindo, uma "femme fatale" típica; polícia inepta e corrupta, displicente e venal; um enredo óbvio, quase banal, sem psicologismos e profundidade na construção dos personagens; um final feliz ou quase feliz; linguagem crua, beirando ao vulgar. Temos então, "A mulher no escuro".

  Dashiell Hammett escreveu um livro bom, dentre os que já li: “O Falcão Maltês”. Tudo o que descrevi acima está presente lá, em menor proporção, mas está lá. A diferença é que os personagens são melhores construídos, delineados, e em maior número; a trama tem a complexidade necessária para que ocorram reviravoltas e surpresas de verdade, em que as amarras são devidamente atadas. "O Falcão Maltês" é um noir “intermediário”, enquanto "A mulher no Escuro" seria de “entrada”, se pudermos transpor o universo dos smartphones  para a literatura, algo equivalente a comparar um Motorola novo com um Positivo ou Alcatel usado.

  Especificamente, “A Mulher no Escuro”, não é um livro detestável, mas está longe de ser mediano. Ficaria entre o ruim e o regular, algo para se ler e esquecer; pude mesmo sentir um certo tédio em parte da leitura, e um desinteresse em outra boa parte (para um enredo que está entre a novela e o conto, é muito desanimador, e pouco empolgante, em suas mirradas páginas). A história não convence, ao menos, não me convenceu, especialmente pela forçosa “áurea” de bonzinhos imputada aos bandidos “pobres” ou inexpressivos, como se fossem bandidos de mentirinha, ao passo que os verdadeiros estão nos altos escalões, entre os ricos e abastados, entre as autoridades e governantes. Aqueles praticam o crime por necessidade, estes pelo amor ao poder, a ganância e a maldade (como se qualquer crime não tivesse o mal e a cobiça como incitadores). No “Falcão Maltês” este viés sociológico não se evidencia ou é posto às claras, enquanto, por aqui, é escancarado, explícito. 

 Para culminar, um final “previsivelmente previsível”, anunciado ainda no primeiro capítulo. 

 Por essas e outras, prefiro os livros do Raymond Chandler ou David Goodis, quando o gênero é noir americano. 

 De resto, poderia concluir que, “A mulher no escuro”, é uma sombra distanciando-se, e distanciando-se, cada vez no limiar do esquecimento.


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DESCRIÇÃO


Título: "A Mulher no Escuro"

Autor: Dashiell Hammett


Páginas: 104


SINOPSE DA EDITORA

"Numa noite escura, uma jovem mulher surge do nada, assustada e ferida, buscando refúgio em uma casa isolada. O homem que ali mora a acolhe, mas ele não está preparado para lidar com a misteriosa desconhecida, nem com os homens que a perseguem."


13 março 2019

Um pouco de justiça social




Jorge F. Isah


  Andei lendo por aí que a “esquerda” tem muito a dizer sobre injustiça social. Realmente, ela tem mesmo: justificar porquê em nome da justiça social comete-se cada vez mais injustiça, ao invés de minimizá-la. Na verdade, eles precisam abandonar o "dizer", o discurso ideológico, e ver se fazem algo na prática, de fato.

  O problema, na maioria das vezes, está centrado na questão econômica, a utopia de uma sociedade igualitária onde todos tem tudo do mesmo: uma casa igual, um carro igual, a mesma comida nas mesas, as mesmas roupas, entre outras "provas" de igualdade. Ora, isso já foi tentado no bloco soviético, na Europa, na China, em Cuba, e nunca funcionou, e jamais funcionará. A igualdade a partir da equiparação econômica é o embuste e a "pegadinha" dos dois últimos séculos. A prova está na elite burocrática desses países, onde um grupo diminuto detém o poder e os privilégios econômicos (mansões, casas de veraneio, carros importados, viagens ao Ocidente, dinheiro em paraísos fiscais, roupas de grifes, comidas suntuosas e nababescas, entre outros), enquanto a população é obrigada a rações alimentares, roupas padronizadas e baratas, casas sem conforto (em alguns casos, mais de uma família morando debaixo do mesmo teto), carroças motorizadas, serviços públicos deficitários... A ideia de se ter acesso a todos os bens modernos, ainda que eles não cumpram com os anseios de "modernidade" (conforto, funcionalidade), traz a ilusão de uma "conquista e justiça social", quando as filas quilométricas do pão ou do combustível, e dividir o banheiro com os vizinhos, demonstram o contrário.  

  Quanto ao argumento de que a “direita” não se preocupa com a "injustiça social" e deveria fazê-lo politicamente, saliento que o objetivo do Estado não é paparicar grupo(s) ou indivíduo(s) mas sustentar a ordem institucional e legal de maneira que todos possam alcançar, pelo esforço e mérito próprio, seus objetivos, ao invés de distribuir privilégios aqui e acolá (normalmente aos alinhados ideologicamente com o governo), enquanto distribui migalhas à população, que não tem a contrapartida daquilo que lhe é tomado na forma de impostos e tributos. Sim, a carga tributária brasileira é uma das maiores do mundo, e o retorno ou a devolução em forma de organização e proteção da sociedade, especialmente, é negligenciada, abandonando o cidadão ao "deus-dará". Se não há segurança, o que dizer da saúde, educação, saneamento básico, infraestrutura essencial? Tem-se burocracia, burocracia, ineficiência, descaso e uma "casta" estatal repleta de privilégios e benesses distribuídas com o suor do contribuinte, seja empresarial ou individual. Mas esta é outra discussão. A questão aqui é o "engajamento social" e a reparação da injustiça, se é possível. No mundo ordenado pela "Queda", pelo pecado, e a rejeição, cada vez maior, do Deus bíblico, como esperar que movimentos, grupos e governos possam realizar a justiça social se a desconhecem? Apenas presumindo conhecê-la a partir da corrupção da alma, que fatalmente adulterará o sentido verdadeiro de justiça? Sem conhecer a Deus e sua vontade é possível entender o cerne da justiça e como alcançá-la? Por isso a necessidade premente da igreja arregaçar as mangas, sair do seu sono e conforto, e ser instrumento para se alcançar a justiça real, legítima, íntegra e moral, segundo a única fonte justa, o próprio Deus. 

  Biblicamente, a responsabilidade de cuidar do próximo, dada pelo Senhor, é à igreja e não as forças seculares, de maneira que há um desvirtuamento de propósitos quando a igreja transfere a sua prerrogativa bíblica, ou seu mandato, para um Estado não-bíblico. De alguma maneira, a igreja perdeu, no decorrer das últimas décadas a sua prerrogativa de cuidar do próximo espiritual e material, suprindo as necessidades e urgências da vida. Infelizmente, o projeto de muitos é apenas individual e organizacional: o crescimento, o endinheiramento, a relevância política, o jogo de interesses. O próximo passou a ser apenas um número e uma estatística no balanço de muitas igrejas. 

  Ah, apenas para não haver confusão, assim como na parábola do Bom Samaritano, há um dever individual de cada cristão no auxílio ao próximo, realizando-se concomitantemente com a sua participação na obra eclesial. Uma coisa não exclui a outra. A missão principal da igreja não é construir colégios, emissoras de tv e rádio, mas, sobretudo, a proclamação do evangelho e o auxílio e sustento aos doentes e necessitados (velhos, órfãos, etc). Negar esta prerrogativa é negar o papel de igreja e o evangelho. E não ser o instrumento divino neste mundo. 

PS: Como “esquerda”, eu quis englobar os marxistas de forma geral, progressistas e socialistas em particular.
E, por direita, grupos conservadores em geral, e cristãos em particular.


02 março 2019

O Demônio na Cidade Branca





Jorge F. Isah


   Foi o primeiro livro de Erik Larson que li. A impressão, no geral, foi boa, pois ele descreve em detalhes os eventos históricos da "Grande Feira Mundial de Chicago", em 1893, concomitantemente com os ataques do primeiro serial killer americano, H.H. Homes, na mesma Chicago, e na mesma época.
  
  Primeiramente, ressalto a profusão de citações, a extensa bibliografia apontada, e fotografias que me pareceram oriundas de um trabalho historiógrafo dispendioso, acurado e detalhista. 

  Em segundo lugar, a narrativa se assemelha muito com os romances-históricos, em voga nas últimas décadas. A diferença é que a obra se mostra claramente histórica, mas escrita em uma linguagem cativante, simples, íntima, onde as várias fases da feira (e da vida de seus realizadores), e de Holmes, se intercalam, favorecendo a leitura, tornando-a leve, didática, e mantendo um certo clima de suspense “noir”. Podemos encontrar as lutas, desejos, frustrações, rivalidades, cooperação, traições, e tudo o mais que se pode ler em qualquer drama. Com isto, não estou dizendo que Larson desejou escrever um romance, não o é, ainda que se assemelhe em muitos pontos. Entretanto, ele se utilizou da linguagem "romancesca" para trazer leveza e criar empatia com o leitor. Ponto para ele. 

   Ao traçar um paralelo entre a Feira, Holmes e seus crimes, faz com que coisas diametralmente díspares, como a criação de um evento suntuoso e monumental, de caráter e apelo global, com a destruição provocada pelo “gênio” diabólico de Holmes. Alguém pode dizer que, em algum aspecto, o Serial Killer também era um criador, ao planejar e pôr em prática seus projetos criminosos. Bem, não entendo assim, e reputo Holmes como um homem com algumas habilidades e magnetismo pessoal, mas apenas usando-os para a destruição, inclusive pessoal; e se para destruir é necessário "criar" algo, essa criação não passa de meios para a destruição, e não pode ser incluída no rol daqueles que constroem a beleza do nada, como é o caso dos grandes arquitetos David Burnham e F. L. Olmsted, entre outros, os gênios por trás da Feira de Chicago.

   Se imaginarmos que a Feira abriu espaço para as maiores inovações tecnológicas, muitas das quais se tornariam imprescindíveis na sociedade moderna, como a eletricidade; tubos de vácuo elétricos iluminados por correntes sem fio; o telautógrafo (uma espécie de fax-simile primitivo); esteiras rolantes; o rádio e transmissões por ondas elétricas; equipamentos sonoros elétricos; a roda-gigante (criada para rivalizar com a Torre Eiffel, a principal atração da Feira de Paris, em 1889); cientistas ilustres como Tesla, Edison, Bell, Gray; mais de 2 km quadrados de área iluminada, com réplica monumental de pirâmide, transatlântico, colunas grego-romanas, tudo abarcado com o que de mais inovador e futurista a eletricidade poderia embarcar e proporcionar à época, temos um evento monumental e fascinante. 

   Os visitantes das mais de 200 instalações se deslumbraram com a gigantesca, inusitada e profética demonstração do que viria a acontecer nas próximas décadas, em termos tecnológicos, e a beleza incomum que os idealizadores da Feira ergueram e revelaram ao mundo. Chicago foi, durante a Feira Mundial, a antevisão do futuro naquele presente. 

  Portanto, não dá para dizer o mesmo de Holmes, um psicopata, frio, dissimulado e covarde (inspirador de outros tantos malignos homens). Holmes era a antítese de Burnham e seus colegas; e, certamente por isso, Larson colocou-os lado a lado na narrativa; como uma amostra ou lembrança, ou melhor, um alerta, de que se existe criatividade construtiva, existe o labor para o mal e a deficiência. Neste sentido, Holmes foi um "criador" incompleto, negativo, cruel, fraco. Sem forças e talento para produzir o bem, contentou-se em destruir; e, durante o seu julgamento, tentou se passar por vítima, utilizando-se do delírio intelectual (presente em muitos acadêmicos e cientistas modernos), a fim de suprimir a realidade, distorcendo-a, na vã tentativa de enganar, se possível, alguns quanto à sua verdadeira imagem: um homem maldito, desgraçado!

   Larson poderia ter reduzido em algumas dezenas de páginas a sua história, talvez não se entregando tanto a detalhes técnicos mais pormenorizados. Entendo, contudo, que lhe pareceu necessário, a fim de se poder aquilatar, um século depois, a grandiosidade e dispêndio criativo, econômico e de esforço, a fim de construir a Feira das feiras, a World’s Columbian Exposition, revelando a genialidade e o empreendedorismo humano.

   Quanto a Holmes, aproveitando-se da ingenuidade e boa-fé das pessoas, utilizando-se do seu carisma para torturar e assassinar gente comum, colocou-o no rol dos maiores infames da humanidade e da história. De forma que, em meio ao brilho inventivo da arquitetura, física, engenharia, e tantos obstáculos ultrapassados pela engenhosidade humana, temos a figura nefasta e torpe do primeiro serial killer e sua odiosa, e não menos feia e aterradora, "criação", fazendo jus ao título do livro. 

Recomendado.


                                       ******

ESPECIFICAÇÕES: 

Título: O Demônio na Cidade Branca
Autor: Erik Larson
Editora Intrínseca
448 Páginas
Avaliação: ***


SINOPSE DA EDITORA: 

"No final do século XIX os Estados Unidos eram uma nação jovem e orgulhosa, ávida por afirmar seu lugar entre as maiores potências mundiais. Nesse contexto, a Feira de Chicago de 1893 teve papel fundamental: com o objetivo de apresentar a maior e mais impressionante exposição de inovações científicas e tecnológicas já idealizada, coube ao arquiteto Daniel Burnham, famoso por projetar alguns dos edifícios mais conhecidos do mundo, a difícil tarefa de transformar uma área desolada em um lugar de magnífica beleza: a Cidade Branca. Reunindo as mais importantes mentes da época, Burnham enfrentou o mau clima, tragédias e o tempo escasso para construir a enorme estrutura da feira. 

A poucas quadras dali, outro homem igualmente determinado, H. H. Holmes, estava às voltas com mais uma obra grandiosa, um prédio estranho e complexo. Nomeado Hotel da Feira Mundial, o lugar era na verdade um palácio de tortura, para o qual Holmes atraiu dezenas, talvez centenas de pessoas. Autor de crimes inimagináveis, ele ficou conhecido como possivelmente o primeiro serial killer da história americana.

Separados, os feitos de Burnham e Holmes são fascinantes por si só. Examinadas juntas, porém, suas histórias se tornam ainda mais impressionantes e oferecem uma poderosa metáfora das forças opostas que fizeram do século XX ao mesmo tempo um período de avanços monumentais e de crueldades imensuráveis.

Combinando uma pesquisa meticulosa com a narrativa envolvente que lhe é característica, Erik Larson escreveu um suspense arrebatador, que se torna ainda mais assustador por retratar acontecimentos reais.

Premiado com um Edgar Award e finalista do National Book Award, O demônio na Cidade Branca foi publicado pela primeira vez no Brasil em 2005 e agora é relançado pela Intrínseca.

Os direitos cinematográficos do livro foram adquiridos por Leonardo DiCaprio, que divulgou planos de interpretar ele próprio o assassino H. H. Holmes."

“Uma história real mais bizarra do que qualquer obra de ficção.” The New York Times


















22 fevereiro 2019

O Abandono da Fé




Jorge F. Isah


     Judas falando de incredulidade (que não é somente não crer em Deus ou não professar o Cristianismo, mas não reconhecer a autoridade divina em sua vida, a do incrédulo, e não se sujeitar a ela, o que pode acontecer com muitos cristãos nominais), justiça e castigo. Um alerta que ele deu para a igreja da sua época, que provavelmente abandonou este ensino, mas para todos os cristãos em todos os tempos:

"Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram;
E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia;
Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno.
E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades"
(Judas 1:5-8)


Nota: Pintura "A conversão de São Paulo", de Caravaggio.

18 fevereiro 2019

A Cidadela - A. J. Cronin





Jorge F. Isah


    A primeira vez que ouvi falar de A. J. Cronin foi na minha adolescência (talvez eu tivesse entre 13 e 14 anos), no final dos anos 70, em uma série de T.V. que eu simplesmente adorava, “Os Waltons”. Havia um personagem, John “Boy”, vivido pelo ótimo, e nem sempre compreendido, “Richard Thomas”, com o qual eu me identificava grandemente, pelo mesmo desejo que ele tinha de se tornar em um escritor de ficção. Num dado momento em que ele havia se decidido a sair da fazenda onde morava, no interior dos EUA, para tentar a carreira jornalística em uma cidade grande (não me lembro agora qual era a cidade; afinal, se passaram quase 40 anos), ele citou A. J. Cronin, não somente por admirá-lo com autor, mas por desejar ser como ele, ao menos, escrever como ele. Nessa época, eu me aventurava , engatinhando, à literatura menos adolescente e mais adulta: já lia Dostoievski, Sartre, Machado de Assis, Gide, Hemingway, sem entender muito aquele universo, mas desejando vive-lo por meio dos livros. Não havia abandonado de todo Dumas, Verne e Twain (devo ter lido Tom Sawyer umas 15 vezes, no mínimo), mas havia uma transição natural entre estes e aqueles autores.

    Pois bem, passados quase 40 anos, somente agora pude ler A. J. Cronin e o seu mais famoso romance, “A Cidadela”. E o que dizer dele? Primeiro, gostei muito. Não é um romance genial, o que poucos são, mas é muito, muito bom. O estilo de Cronin é envolvente, daqueles em que você é fisgado já no início, pela disputa entre o bem e o mal, o moral e o imoral, o ético e o antiético, mas sobretudo por uma linguagem ao mesmo tempo simples e muito bem elaborada. Vá lá, alguém pode dizer que o romance é uma colcha de clichês, e de que a vida não é dicotômica como muitos autores defendem em suas obras. Mas “A Cidadela” está longe, muito longe, de ser uma teia de chavões ou estereótipos. Os personagens são reais, vívidos, com suas incongruências, lutas, dúvidas, certezas, idealismos e convicções. Cronin não descreveu um mundo em preto e branco, sem tons cinzas, pelo contrário, há nevoeiros, clarões, trevas e todos os elementos necessários para fazê-lo um grande romance, como de fato é. 

    O pano de fundo é a medicina, seus valores científicos ou não, dogmáticos ou não, ideológicos ou não, éticos ou não, morais ou não. É uma crítica feroz à medicina que vive, se sustenta e fomenta o mal, a doença, a dependência existencial do homem aos “senhores” de jalecos brancos, e que muitas vezes sequer sabem da existência de uma verdadeira medicina, aquela que se pode chamar de “medicina do bem ou da saúde”. Há críticas ao academicismo, à indústria dos diplomas, à medicina como um negócio qualquer, vulgar, cobiçoso, pelo desejo imoderado de fama e fortuna. Os conflitos são muitos entre médicos, pacientes, associações médicas, tribunais, e um esquema ou estratégia ou sistema que tornam os médicos em meros prescritores de remédios (atendendo os anseios da indústria farmacêutica, às comissões médicas, e a obrigatoriedade de se manter o paciente incurado, e recluso à servidão clínica); onde o bem quase nunca é um desejo, e o mal uma necessidade.

   Cronin, ele mesmo um médico formado, descreve com maestria como o idealismo profissional do recém-formado Andrew Manson, com seus títulos e honrarias, se transforma, rebaixando o humanismo em exploração e farsa, num farsante, abandonando o juramento de Hipócrates para se tornar em um mesquinho acumulador de dinheiro, por meio da trapaça e vigarice. Como apóstolo Paulo disse: “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1Tm 6.10). Muitos acham que o dinheiro é o mal supremo, mas não é. Em si mesmo, o dinheiro é algo inanimado, sem vontade e poder de decisão, não podendo ser o mal, a priori. Entretanto, o amor a ele, possível naquele que deseja e toma decisões, o é! Por isso, é preciso que Andrew perca quase tudo para voltar ao que era, e fazer o caminho de volta, começar de novo.

    Ao entregar-se a si mesmo, aos seus desejos mais sórdidos, sem que a consciência cauterizada o acordasse, ele certificava-se de que as escolhas só seriam realmente boas se a razão delas fosse, exclusivamente, o seu bem-estar financeiro e a sua projeção profissional, na Londres da década de 20. Não havia lugar para princípios morais, éticos, humanistas. Apenas o desejo de enriquecer de qualquer modo, à custa até mesmo do sofrimento e da dor alheia.

   Pois, é com maestria que Cronin descreve a perda do caminho, o enveredar-se nos desvios, e a retomada ao anseio original de Andrew, em que sua alma se viu morta por causa da sua cobiça e inveja, e foi renovada pelo amor à vida, e o sentido primeiro de servir ao invés de ser servido. Há uma nítida mensagem cristã por trás de toda a trama, contrapondo-se ao ceticismo do personagem principal, um obstinado antirreligioso, que, na sua imoralidade, imagina-se moral pela completa ausência de moralidade e religiosidade. Ou seja, a justificação dos seus atos antiéticos e imorais encontra respaldo na negação da ética e da moral. Para se autojustificar, não pode haver fundamentos para a justiça, quando a injustiça é o desejo a se realizar.

  O relativismo do século XX, em suas mais nefastas proposições, tornam irresponsáveis aqueles que deveriam, de alguma maneira, como ministros de Deus (juízes, governantes, médicos, professores, pais, etc), serem os guardiões da vida e não os proponentes da morte. 
Cronin revela o dilema que existe no homem desde o Éden, a escolha da vontade, e seus desdobramentos na vida daquele que escolhe, mas também daqueles mais próximos.

  É um livro no qual o autor poderia se perder completamente, fazendo-o um pastiche de uma denúncia, um panfleto inócuo, ou uma simples “rede de intrigas”, como muitos outros livros foram escritos e o são em profusão, na atualidade. Mas Cronin soube leva-lo à quase perfeição, senão de uma sinfonia, ao menos, de uma fuga. 

  Leitura recomendada.



                                   *****


SINOPSE DA EDITORA:

"Romance que consagrou Cronin no mundo literário. A cidadela marcou época ao ser transformado em filme por King Vidor. O escocês Archibald Joseph Cronin era médico e membro do Royal College of Physicians. respeitada associação da classe médica no Reino Unido. O autor descreve as condições de trabalho do início do século XX e relata de um modo estarrecedor as dificuldades e tragédias ocorridas nas minas de carvão inglesas. O protagonista é o jovem médico Andrew Manson. que inicia sua prática profissional numa pequena aldeia do País de Gales. Drineffy. Dr. Manson dedica-se de forma intensa aos seus doentes. pondo em prática todo o idealismo de um jovem médico. Casa-se com a professora Christine Barlow. e mais tarde o casal parte para Londres. Na cidade grande. Andrew entra em contato com a classe médica conceituada que atende exclusivamente aos mais ricos. O texto de Cronin evidencia o drama das escolhas éticas na prática da medicina. Um tema ainda muito atual: o confronto entre integridade profissional e as tentações materialistas."


INFORMAÇÕES: 

Autor: A. J. Cronin
Editora: Editora Best Seller
532 Páginas

11 fevereiro 2019

O problema do mundo




Jorge F. Isah


    O problema, no mundo, é que a maioria das pessoas são fanáticas por si mesmas (uma forma clara de autoidolatria, e quando alguém decide-se por negar a si, e seguir a Cristo, é tido por louco), ou por seus ídolos (sexo, drogas, ideologias, poder, dinheiro, fama, orgulho, autossuficiência, futebol, trabalho, ciência, etc) . No fundo, tudo isso não passa de uma rebeldia contra Deus (uma distração a afastá-lo do real significado da vida),e o mais tolo delírio, que é o culto a qualquer coisa que não seja o Deus bíblico.

    O cristão nega esse individualismo, ao escolher honrar a Deus, pregar o seu Evangelho, vivê-lo (ainda que com todas as possíveis quedas), e proclamá-lo, com o fim de levar alguns outros ao arrependimento, e a se reconciliaram com Deus. Como Paulo disse, Cristo é escândalo e loucura para este mundo : "Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus." (1 Coríntios 1:18).

    Por isso o cristão bíblico é visto como um inimigo, e hostilizado por aqueles que, na verdade, são inimigos de Deus, e nos fazem também seus inimigos, quando a nossa relação com eles é de amor: o amor primeiro, que levou o Pai a entregar seu Filho, a sacrifica-lo, por nós!

*Pintura "A Crucificação", de Rembrandt.

05 fevereiro 2019

Duas Narrativas Fantásticas - Fiodor Dostoieviski





Jorge F. Isah


   “Duas narrativas fantásticas” é um livro que pode parecer, à primeira vista, tratar de temas irreais e utópicos. Engana-se quem assim pensa. Poderia chama-lo de “expectação suprarreal” tal a realidade (e também humanidade) dos temas abordados. O livro se compõe de dois contos: “A Dócil” e “Sonho de um homem ridículo”, onde o assunto “suicídio” está presente, em ambos. 

   No primeiro, temos um homem de 40 anos aproximadamente, casando-se com uma jovem recém-saída da adolescência. Ela é criada por duas tias que pretendem uni-la em matrimônio com um homem asqueroso e rude; mas acaba por conhecer, e por fim casar-se, com um negociante, dono de uma loja de penhores. Ele fora militar; sendo desligado da corporação por se recusar a duelar com um companheiro de farda, que o insultou. Por isso, ficou com a pecha de “covarde, o que o atormentou, de certa forma, por toda a vida. 

  Ele se apaixonou pela garota, por sua beleza, meiguice e a docilidade do título. Ela, para se livrar do brucutu com o qual as tias queriam uni-la, aceitou o pedido de casamento do negociante, e acabaram juntos. 

  No início, às mil maravilhas; porém, com o passar do tempo, ele vai se tornando controlador, exigente, individualista, e a mantém distante de si. Eles pouco ou nada dialogam. Não têm uma vida compartilhada além do local onde moram. Isso faz com que a relação frágil se torne ainda mais débil e perigosa (ele fugindo da solidão, e ela de um casamento indesejado), tornando-os, enfim, amargos e quase inimigos. 

  Ela abandona a docilidade para se tornar em uma mulher sediciosa, provocadora e adúltera. Numa clara tentativa de autodestruição, de desprezo a si mesma (ainda que respaldada pelo desprezo ao cônjuge), frustrada, e em estado de beligerante vingança.
 
  Ele, ao perceber a traição e a rejeição, e o desprezo da esposa, obriga-se a uma reação de autoridade, como se suficiente para transformar o caos existencial de ambos em ordem, no retorno à harmonia perdida. 

   O ponto é: duas vontades, aparentemente boas e benéficas, podem descambar para a beligerância e a destruição? Entre a rigidez de um relacionamento formal e conveniente, e o sonho de perfeição, romântico e singelo, está o homem e sua humanidade, disposto a frustrar os dois esquemas, revelando que a vida é muito mais complexa do que uma suposta unidade de interesses possa contê-la; a vida toma rumos desconhecidos, ainda que muitos previsíveis, se o homem não deixar de olhar para si mesmo tão somente, e observar o próximo com cuidado, generosidade e caridade. A perfeição não pode ser exigida, nem mesmo no amor, se não houver uma disposição ao sacrifício, a entrega voluntária do seu orgulho, desejos, ambições e egoísmo em favor do outro, de tal forma que, mesmo pessoas diferentes e com vontades distintas, se harmonizarão do mútuo anseio de privilegiar aquele que é o alvo do seu amor. Se não acontece... 

  Quanto ao suicídio, bem, leia a história e saiba como terminou.

  O outro conto, “Sonho de um homem ridículo”, muitas vezes é compreendido como se fosse um sonho ridículo, quando o título nos remete a um homem ridículo, que necessariamente não tem um sonho ridículo. Pela grandiosidade da narrativa dostoieviskiana, alguns imaginam que o sonho daquele homem não passa de um delírio, uma utopia infinitamente distante da realidade humana, quando, o que o autor nos revela é exatamente a essência dessa realidade, a humanidade em todos os seus detalhes, ainda que relatados em uma porção de páginas. 

  Sem fazer um spoiler do livro (o que, infelizmente, acabei por fazer no comentário ao outro conto), "Dosty" (desculpe-me a intimidade, mas sou leitor do russo desde a adolescência,  então me permito certas liberdades) revela que a esperança não pode estar em um homem, ou mesmo em muitos homens, deste ou de outro mundo, pois mais cedo ou mais tarde a sua inclinação para o pecado, para a subversão e a incitação ao mal, aflorará. Um único homem pode pôr tudo a perder, ao incitar outros a trilharem o mesmo caminho de morte no qual transita. 

  A referência ao Éden e à Queda, descritos no livro de Gênesis, é clara, trazendo, na trama, as mesmas consequências para a humanidade advindas da rebeldia do casal primevo. O homem inclina-se para o mal, a despeito de todo o bem que está a cerca-lo, da bondade divina e que lhe foi entregue também na obra da Criação. 

  Contudo, existe redenção, existe perdão, se houver sincero arrependimento dos seus pecados, é possível ver a luz, e vislumbrá-la por toda a eternidade. Este me parece o cerne, digamos, a parte otimista em toda a narrativa de "Dosty", desde "Crime e Castigo" até mesmo nesse singelo, mas fantástico conto. 

  Ah, sobre o suicídio, que falei no primeiro comentário, e que está presente em ambos os contos, deixarei para que você mesmo leia o livro, e se certifique do que estou falando, como o apontar a direção.

Livro curto, belo, em descrever a miséria humana, mas com os eflúvios eternos do porvir.


                                    *****

FICHA TÉCNICA:

"Duas Narrativas Fantásticas" 
Fiodor Dostoieviski
Editora 34
128 Páginas

Sinopse: 
"Designadas pelo próprio autor como "narrativas fantásticas", as duas novelas aqui reunidas foram publicadas pela primeira vez nas páginas do Diário de um escritor, publicação mensal redigida por Dostoiévski entre 1876 e 1881. 
Em A dócil, um homem desesperado refaz, diante do cadáver da mulher, a história de seu relacionamento, tentando compreender passo a passo as razões que a levaram ao suicídio. Já em O sonho de um homem ridículo, o narrador, a ponto de acabar com a própria vida, adormece na poltrona diante do revólver carregado. Principia então um dos sonhos mais extraordinários da história da literatura, durante o qual Dostoiévski anuncia a possibilidade de uma vida utópica em outro planeta antes de seus habitantes serem contaminados pelo veneno da autoconsciência. 
Ambas as narrativas partilham da mesma "introspecção verrumante" que Boris Schnaiderman apontou no protagonista de Memórias do subsolo, livro com o qual estas obras mantêm grande afinidade. Tanto lá como aqui, o escritor russo submete a forma do monólogo a tal intensidade dramática, que o resultado ultrapassa as fronteiras daquilo que nos acostumamos a chamar de literatura."

31 janeiro 2019

Digressão sobre a adoração de uma pecadora





Jorge F. Isah


“E eis que uma mulher da cidade, uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento;
E, estando por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-lhos com os cabelos da sua cabeça; e beijava-lhe os pés, e ungia-lhos com o unguento” (Lucas 7:37-38)


Devemos entender uma coisa: Deus é Senhor de tudo e todos! Deus pode todas as coisas, ainda que ele não faça todas as coisas, por causa da sua natureza. Por exemplo, Deus não pode pecar. Nem fazer algo que não seja da sua vontade. Dentro de sua soberania e todo poder, contudo, há algo que Deus não pode fazer, que é adorar. Sim, meus irmãos, parece algo simplório e mesmo banal afirmar tal condição, de tão óbvia. Mas ela é verdadeira, pois o Senhor não pode se autoadorar. Esta prerrogativa nos cabe, exclusivamente a nós, e Ele se alegra e deleita na verdadeira adoração, aquela realizada por seus filhos, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; e quão grande honra temos em ser seus adoradores.

Já imaginaram como esse privilégio é grandioso, santo e sublime? Somente o povo de Deus pode adorá-lo e, infelizmente, muitos se recusam a fazê-lo, preocupados no culto a ídolos mortos e imaginários, ou a se autoadorarem. Deus não o faz, porque a autoadoração é, em si mesma, um engodo, repleto de vaidade, soberba e arrogância. Estas características são típicas do pecador, jamais de Deus, o qual sendo santo, justo e perfeito, em sua natureza, não poderia manifestá-las.

Mas ele não quer qualquer tipo de adoração, ou que os seus adoradores o façam de qualquer maneira, a fim de satisfazerem antes aos seus desejos íntimos e não a Deus. Em outro trecho das Escrituras, nos é dito, pelo Senhor Jesus, que Deus procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade (João 4.23).


Entretanto, para sermos verdadeiros adoradores é necessário humilhação e arrependimento, reconhecendo em Deus o Senhor e Salvador; reconhecendo a nossa condição caída e imperfeita, dominada pelo pecado e, rejeitando o seu domínio, nos entregarmos por completo à direção e condução divinas. Onde havia pecados e conflitos, instala-se a paz e esperança, na fé de que nada, nem ninguém, poderá nos tirar do caminho de vida. Por isso, é fundamental que adoremos a Deus com o coração santo e verdadeiro, a prova máxima de haver arrependimento e, sobretudo, gratidão pelo resgate precioso, permeado pelo amor divino e eterno, mas igualmente doloroso e indigno do Filho: o servo perfeito, na medida perfeita, do perfeito e sublime amor. 

O amor que nos amou primeiro, para que pudéssemos então, e somente então, amá-lo como nos amou.




23 janeiro 2019

ENIGMA DE AMOR








Jorge F. Isah 




O mistério não são as almas desencarnadas,

nem fantasmas vagando em casas assombradas.

 Ou a magia dos homens se levitando.

  Guru vivo na cova por semanas.

 Ou o mal estirando-se sem freios,

nos renques, cômodos e atalhos.



 O mistério é assimilar,

por que Deus se fez homem,

  viveu e se ofereceu

 aos inimigos?





Notas: 1-Poema inédito, de minha autoria, e fará parte do próximo livro de versos a ser lançado no segundo semestre deste ano, se Deus quiser!
2-Pintura "Crucificação", do pintor italiano Bramantino.

21 janeiro 2019

Remédio da Fé, por Santo Agostinho





“Só a fé podia curar-me: desse modo, os olhos da 
minha inteligência já purificada, se dirigiriam à tua 
verdade imutável e perfeita. Mas, assim como acontece 
muitas vezes, depois de experimentar um médico mau, 
receia-se confiar num bom, o mesmo acontecia à 
saúde de minha alma, que somente poderia curar-se 
pela fé, mas, para não acabar novamente acreditando em 
coisas falsas, recusava a cura, resistindo a ti 
que fabricaste o remédio da fé e, dotando-o 
de tão grande poder, o derramaste sobre todas as 
enfermidades da terra!” 

- Santo Agostinho, Confissões, Livro VI, 5 -


Nota: Pintura "Crucificação", de Paolo Veronese

14 janeiro 2019

Mordomia





JORGE F. ISAH


Mordomo é o administrador de algo dado por outrem em confiança, na certeza dele exercer a função como se fosse o próprio dono. Do ponto de vista bíblico, não somos senhores de nada, nem de nossas vidas, mas tudo o que temos e somos pertence a Deus, e estamos ao seu serviço.

Em qual momento o homem largou a sua responsabilidade de servo? No Éden, quando Adão e Eva se rebelaram, abandonando o seu ministério, não cuidando de si mesmo como convinha. O caos se instalou, a ordem foi suprimida.

E quando fomos realçados ao posto de bons mordomos? Quando Cristo, ao sacrificar-se na cruz, nos readmitiu à administração do Reino. Se antes fomos feitos mordomos, e então abandonamos o posto ou ministério, agora estamos novamente a serviço de Deus, zelando por todas as dádivas recebidas.

Não é uma honra graciosa e imerecida voltarmos ao posto?

Não é um serviço cujo zelo deve ser gerido em excelência?

Fica a pergunta: temos nos devotado, nos empenhado, no exercício deste ministério? Ou não compreendemos, ainda, a real dimensão da mordomia cristã?


12 janeiro 2019

Um Pedido à Oração







Jorge F. Isah



"Orai sem cessar" (1Ts 5.17)

Você já orou, hoje? O que está esperando?

Mas o orar não é apenas um ato de se ajoelhar, fechar os olhos e abaixar a cabeça; muito mais do que isso, é estar em comunhão constante com Deus, de forma a todo o seu pensamento estar ligado e voltado para ele; enchendo-se do Espírito; e pronto a responder, com a mente de Cristo, em todas as situações nas quais se é colocado, neste mundo caído.


São ações responsivas a culminar na gratidão, confiança e esperança de ser conduzido em meio as vicissitudes da vida, das tristezas e aflições, resultando no gozo e alegria expressados no verso seguinte: dar graças em tudo (1 TS 5.18).

Se entendemos estes versos como são, imperativos, e não condicionais (a ordem divina a ser cumprida pelos seus filhos), por que, então, desobedecemos?


07 janeiro 2019

Escada para os céus






Jorge F. Isah



   A existência humana, como a conhecemos, é uma fração irrisória na história, e o homem um nada em relação à criação, quanto mais se compará-lo a Deus. Não é estranho, portanto, o anseio obsessivo de, sendo nada, fazer-se como ele e querer tudo?...
 
   Ah, maravilhas das maravilhas, enquanto o homem tenta subir as escadas para o trono divino, em uma nítida intenção de invadir e conquistar o Reino; Deus, em sua sabedoria, desceu aos porões da terra, fazendo-se um de nós, para, assim, salvar o seu povo, os seus eleitos. E, somente então as portas do reino eterno foram-nos abertas, escancaradas, para encontrarmo-nos com o Criador, Senhor e Salvador, e dele, e por ele, e para ele, gozarmos por toda a eternidade.
 
   Não foi o homem quem subiu aos céus, mas Cristo se fez homem, servindo-nos de escada, como uma ponte a ligar o mundo perdido e baixo ao Reino venturoso e sublime, finalmente alcançado, onde nos realizamos, filhos amados do Pai, pelos méritos exclusivos do Filho.


27 dezembro 2018

Caixa de Pássaros - Comentário




Jorge F. Isah


       Aproveitando o "oba-oba" do lançamento do filme "Caixa de Pássaros", no NetFlix, reproduzo aqui a pequena resenha do livro homônimo, de Josh Marlerman, lido em 2016, e publicada no blog "O que estou lendo... ou li" e na Amazon. A previsão feita, há dois anos, se concretizou: o livro virou filme, como já era de se esperar. 

       Então, se você ainda não leu o livro, nem viu o filme, leia os meus comentários, e sossegue, pois não dou spoiler do enredo, como é de praxe.  

       Deixo-lhes, portanto, as minhas impressões à época da leitura, o que, de certa forma, se confirmou novamente, ao assistir o filme. 

        Boa leitura!

                                      *****


DIVIRTA-SE, E ESQUEÇA!


  Josh Malerman é compositor e músico de uma banda de rock desconhecida (ao menos para mim), que se chama "High Strung". Não é uma boa credencial, desde o seu início, para um escritor. Não li os escritos de todos os roqueiros, vivos e mortos (e nem o poderia, a fim de preservar a minha sanidade), mas, do que li, não posso dizer que o gênero musical colabore com a literatura. A despeito de Bob Dylan ter ganhado o Nobel (se há um absurdo, esse foi o maior; um letrista apenas bom, e nem sempre, ganhou o maior prêmio literário do mundo), ele não pode ser considerado "ipsis litteris" um rocker, pois a sua trajetória musical está mais ligada ao folk ou àquele tipo de música niilista e de protesto que os rockers "cabeça feita" gostam de ouvir e impingir aos outros. A escolha do Nobel poderia recair sobre Cormac McCarthy ou Don DeLillo, por exemplo. Escritores infinitamente melhores do que o mediano letrista Dylan. 

  Bem, mas deixemos os músicos de lado.

  O livro é um thriller de suspense, com altos e baixos. Vamos a eles:

  1) Gostei do subtítulo: "Não abra os olhos"! Para o leitor voraz isso seria uma heresia, um castigo medonho, ou para quem aprecia as belezas e maravilhas criadas pelo bom Deus. Há um elemento subliminar de que, ao não abrir os olhos, o livro não será lido. Seria uma advertência do autor ao leitor?... Brincadeirinha...

 É claro que o objetivo da mensagem é revelar algo da narrativa, já instalar no leitor o pânico ou a apreensão pelo que se segue após virar a capa. Sinceramente, chamou-me a atenção, e de alguma maneira, influenciou a minha decisão de comprá-lo.

 2)Gostei da história. O seu mote é interessante. Em um mundo apocalíptico, quem vê se flagela e morre (a influência diabólica de levar a alma ao suicídio, à autoflagelação). Melhor, então, não ver, e se esconder do mundo exterior, ainda que suas ameaças estejam a cercar, pairando sobre os personagens. Não é original; a narrativa pós-apocalíptica tem sido muito utilizada na literatura, no cinema e nas artes em geral (a moda atual é a de filmes sobre um mundo dominado por zumbis, ET's e figuras fantasmagóricas. O que antes acontecia em privado, em particular, com um ou outro personagem, se disseminou, e cidades, países inteiros, são dominadas por seres não-humanos). O suspense sempre vendeu e continuará vendendo, a despeito de não haver mais escritores geniais como no passado, Stevenson e Poe, e, mais recentemente, Lovecraft e King (este nem tão genial, mas ainda dá o seu caldo).

 3) Se os personagens não têm a profundidade dos construídos por Dostoiévski e Tolstoi, ao menos são bem definidos, e os seus papeis no enredo também. Existem "furos" e inverossimilhanças em algumas de suas atitudes e falas, mas nada que possa considerar exageradamente falso. Afinal, é ficção.

 4) O autor consegue manter o clima de suspense da narrativa e prender a atenção do leitor. Vá lá, não é grande coisa, mas dá para passar algumas horas de diversão com o livro.

 A alternância entre presente e passado quebra um pouco da monotonia que poderia levar a história ao fracasso completo.

 5) Apesar da desagregação da sociedade, onde é cada um por si, houve o cuidado do autor em demonstrar não somente a necessidade do agrupamento de sobreviventes, mas a postura de alguns em abrigar e chamar outros para o lugar que consideravam seguro. Mesmo a fragilidade humana em um mundo caótico, leva-os a fortalecerem-se e buscarem formas de manter a esperança viva. É o caso do personagem Tom, um idealista, no bom sentido da palavra, um incansável promotor da fé; não existe crise maior do que não buscar as soluções, é o que pensa e tenta transmitir aos demais.

 Existem conflitos morais e éticos; e o que não se via, mas sabia, no "lá fora", acaba por acontecer no interior da casa.

 No final, existe esperança também para Malorie e seus filhos.

 6) A ideia é boa, mas a narrativa não se desenrola com a mesma eficiência. Como já disse, o autor consegue manter o "clima" de suspense, até certo ponto, mas de uma maneira geral, o enredo é apenas razoável. No seu desenrolar faltou a Malerman a perícia e habilidade de um construtor de histórias experiente e talentoso, como McCarthy e o seu "A Estrada", por exemplo.

 Já é praxe eu não fazer sinopse ou contar a história, para não tirar o prazer do futuro leitor; então, o que posso dizer mais? 

 Bem, se está esperando arrepios e uma história envolvente, daquelas de perder o fôlego, desista. Não é para você.

 Se deseja uma narrativa inteligente, com detalhes minimamente pensados e descritos com maestria, e um final que faça sentido, desista também.

 Se quer um livro para ler em um dia, de supetão, e passar algumas horas distraído e, até mesmo se divertir, para depois esquecê-lo, ele pode atendê-lo.

 É o primeiro livro de Malerman, e ele pode melhorar e aprimorar algumas qualidades que tem. Precisa, talvez, deixar de pensar em escrever um livro-filme (a moda são enredos que possam e, já pensam, em se tornar em filmes. Não se contentam apenas com o papel...) e sair um pouco dos clichês, tão comuns aos livros de suspense (projetados para serem películas, num futuro próximo).

 Não peço originalidade, pois isso é bobagem, na maioria das vezes, ou em todas. Mas uma boa ideia, técnica, boa narrativa e um enredo que se sustente, já o tornaria em uma promessa alvissareira neste século.

 Então, vamos esperar o próximo volume.


*****

AVALIAÇÃO: (**) REGULAR








Josh Malerman
Editora Intrínseca
272 Páginas

13 dezembro 2018

Prólogo do livro "A Distração do Pecado"






O embrião para a realização deste livro foram as aulas ministradas na Escola Dominical do Tabernáculo Batista Bíblico, e, durante quase um ano, analisamos cada um dos versos da carta de Judas, sobre os quais nos debruçamos e meditamos com o objetivo de nos dobrarmos à verdade de suas poucas páginas. No princípio, inadvertidamente, cogitei uma análise em quatro ou seis aulas, no máximo, mas a riqueza e a profundidade do texto levaram-nos a dispender oito vezes mais o prazo inicialmente estimado.
        Em uma série de estudos, fomos impulsionados a compreender a gravidade do momento vivido pela igreja de Cristo à época do epistológrafo, crise pela qual a igreja passa, na atualidade, em proporções talvez maiores, já que grande parte dos inimigos de Cristo encontram-se dentro dela, como o joio aguardando para ser arrancado. Os exemplos bíblicos servem-nos como alerta, exortação e repreensão, para rechaçarmos os constantes ataques inimigos, não nos entregando às suas artimanhas açuladas, preservando a sã doutrina, o temor e reverência a Deus, apegando-nos à verdade, repelindo a incitação desonesta à rebeldia, à contemporização com o pecado e ao cultivo do mal.
        Portanto não espere um livro onde você se perderá em meio as dúvidas; não escrevi nada novo, mas repeti o que a igreja tem defendido por séculos; não espere afagos e adulações, porque Judas, como emissário de Cristo, exortou a igreja com asserção, como prova do verdadeiro amor, límpido e vigoroso, não dando lugar à lisonja interesseira; levando incautos a confundir o bem com o mal, o certo e o errado, descristianizando mentes e corações para depois abandoná-los na miséria absoluta, levando-os ao servilismo e penúria da alma, aprisionada nas correntes diabólicas. Pelo contrário, este livro é cristocêntrico, não trata de um Deus genérico, impessoal e distante do homem, mas do Deus encarnado, pessoal, cuja honra e glória satisfaz mais ao Pai e ao Espírito, as demais pessoas da Trindade, do que o louvor dispensado a elas mesmas.
        Não espere, também, um discurso liberal, heterodoxo, antropocêntrico, no qual o homem é a “estrela”, enquanto Cristo é um mero coadjuvante, um nome a agregar distração. Se nada for aproveitado nesta obra, oro para que ao menos o leitor compreenda a excelência de Cristo, sua sublime majestade, completa divindade, completa humanidade, esplendor e glória, num grau de superioridade mais que elevada, somente possível para quem, como ele, compartilha a deidade
em unidade com o Pai e o Espírito Santo; isto é chamado de Cristocentrismo[1]. Se nada mais ficar, que fique isso; do contrário, este livro não terá significado, nem propósito.
        Não espere nada bombástico, original, em uma busca doentia pelo ineditismo, o qual leva muitos autores e livros para além do limite permitido pela sã doutrina, cruzando perigosamente a linha divisória entre o santo e o profano, entre o bíblico e o pagão, entre o louvável e o desprezível. Não tive a menor pretensão de ser inovador, mas de apenas ordenar as ideias e tudo apreendido em minha caminhada com os santos, a fim de, através de Judas, alertar a igreja quanto às várias investidas dos inimigos no intento de solapar, de tornar ineficiente a igreja, fazendo-a um apêndice mais higiênico da podridão mundana; controlando-a com suas acusações, inverdades e coerção, num esquema de manipulação visando a fazê-la um arremedo de si mesma e de secularizá-la a todo custo e sob todos os aspectos da (des)ordenação da civilização moderna. Em um século controlado pela ideologia e pelo combate à verdade; onde o anticristianismo é a faceta mais perversa e injusta da capitulação do bem.
        Tentei escrever de forma simples, sem rebuscar ou empreender um trabalho hermético, sem qualquer pretensão de construir uma obra acadêmica, mas de disponibilizar a qualquer um o texto com vistas a edificar e exortar a igreja, muitas vezes perdida entre o secularismo institucionalizado e um apego a uma tradição mais formal que espiritual, mais moralista que moral, mais centrada nas concepções humanas do que na verdade, na essência da fé, o próprio Deus. Busquei passar uma imagem clara daquilo que me propus a fazer, mesmo que, em alguns momentos, não tenha a convicção de tê-lo alcançado, no que espero contar com a compreensão do leitor. De maneira geral, foi um misto de gozo e angústia intentar o exercício de trazer à luz o que existia apenas em esboços e linhas mal delineadas.
        Entretanto, devo ressaltar que nem todo o material, constante nestas páginas, é exclusivo das lições apresentadas no T.B.B.; há uma boa parte de trechos escritos “a posteriori”, alguns pensamentos “a priori”, e reflexões complementares acrescentadas ao corpo inicial, à medida que a obra tomava forma, como consequência necessária da sua redação; proveniente, em caráter único, das minhas considerações sobre os diversos temas propostos, não existindo qualquer comprometimento da liderança e membros do T.B.B. nas conclusões e no produto final apresentado, sendo, portanto, de minha inteira responsabilidade o que se vos apresenta.  
        Contudo, não poderia deixar de agradecer a cada um dos contribuintes e corresponsáveis diretos no arremate desta obra, não necessariamente no que se encontra expresso, mas através das participações frequentes nas aulas, em conversas ocasionais e indicações de textos e obras. Seria injusto se, em especial, não creditasse ao pastor Luiz Carlos Tibúrcio, irmão e amigo, o estímulo necessário para desenvolver este plano, ao convencer-me, sete anos atrás, a aceitar a incumbência de tornar-me professor. Com ele, também, tenho aprendido muito, ainda que algumas coisas me sejam incompreensíveis no momento, por conta de minhas próprias deficiências, ressaltando a sua paciência insistente em não abandonar-me; e, ainda, ao amor e auxílio fraternal da igreja, sem os quais não se alcança qualquer conhecimento espiritual, nem experiencial, da autêntica vida cristã, somente possíveis no corpo local, pela união promovida por Cristo, de fazer para si um povo e de levá-lo à comunhão íntima com seu Santo Espírito. Como sempre digo, não há divergências, nem algum problema, que não seja dissolvido pelo amor do Senhor, o qual nos une e nos mantém unidos.
        É com grande alegria que entrego estas páginas ao leitor. Durante mais um ano, após o término letivo, estive envolvido com este projeto de agrupar, acrescentar e burilar os esboços servidos de aulas; algo por completo inusitado para mim, havendo um determinado momento no qual considerei quase impossível concluí-lo, dada a insatisfação com uma ou outra parte do texto, mas que, pelo favor divino, foi possível chegar a termo, e um desejo, por fim, realizado. Vê-lo, agora finalizado, é a demonstração da graça e bondade divina para comigo.
Oro, do fundo do meu coração, para o Senhor utilizar este instrumento na edificação da sua santa igreja, e para a sua honra, porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos”[2]; e a Cristo seja dado todo o louvor e glória, eternamente!




[1] Cristocentrismo é a designação para “Cristo no centro de tudo”. Não há ortodoxia e ortopraxia sem se considerar profundamente isso. Quando o Filho diz que ninguém vem ao Pai senão por ele, está definindo algumas coisas: o crente vem ao Pai porque vem a Cristo, e ambos são um, uma unidade com o Espírito. Segundo, agradou ao Pai e ao Espírito Santo serem glorificados no Filho, de maneira tal que é impossível a glória de Deus sem que seja dada a glória a Cristo, exclusiva e primeiramente; a glória divina passa, necessariamente, pela glorificação de Cristo. Terceiro, como consequência, qualquer tentativa de se glorificar a Deus, por outros meios, é rejeitada. Quarto, e é rejeitada pelo simples fato de que, como pecadores é impossível agradarmos a Deus, então, nossas ações, pensamentos, orações e ofertas são santificadas pelo Filho, e sendo por ele santificadas, agradarão, finalmente, ao Pai.
[2] Atos dos Apóstolos, 17.28


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