05 setembro 2026

O radicalismo radicalmente radical

 



Jorge F. Isah



Antes, o radicalismo se mostrava através de atitudes não usuais dos indivíduos, fora da norma social, política, cultural ou o raio que o parta. Comportamentos e exemplos adquiridos por milênios e comprovadamente exitosos, não por um tipo de pragmatismo estúpido e fatal, mas pelos melhores padrões da lógica, da razão, da moral e do amparo, hoje são vistos como exceções, pontos fora da curva a serem devida e legalmente extirpados da sociedade. Senão, vejamos:

Se o cara quer parecer descolado e moderninho, ele tem de ter um ou dois desses elementos, se possível, todos, não importando idade, posição, constrangimento ou vexame:Possuir uma tatuagem. Se puder, muitas. O ideal é ocupar cada espaço do couro com rabiscos, desenhos e símbolos. Se bois e vacas, escravos e bandidos tinham uma, por que não elevar à potência máxima os arabescos a identificá-lo como espécime liberto de convenções? Mesmo que o comportamento signifique exatamente o oposto?

Ser monogâmico é sinal de piada, de fazer estourar os bofes de tanto rir. Casar-se virgem, então, é a prova cabal de que a pessoa é escrava e encontra-se subjugada pelos valores cristãos, patriarcais e machistas da sociedade. Ninguém que se preza deve manter-se virgem e, quanto mais cedo iniciar o ritual de acasalamento, seja com o sexo oposto, um animal ou tubérculo (há os que defendem a galhardia de se relacionar com pedregulhos e rochas), mais cedo se libertará e arrancará as algemas a mantê-la presa. Nem que seja a fórceps. Mas o que importa?!

Desde os filósofos pré-socráticos defende-se, e não podia ser diferente, o princípio de o homem analisar e entender a realidade. Cabia à arte (teatro, literatura, pintura, escultura etc.) adentrar os caminhos do sonho e magia, entretanto, sempre baseada em fatos, na vida, na realidade. A psicologia moderna associada às ideologias e suas ramificações tem levado o indivíduo à abstração quase absoluta e mal concebida; em outras palavras, o que a realidade prova ser real (desculpe-me a redundância, mas é preciso) requer ser destruído em prol de uma ficção elaborada equivocadamente, em que a pessoa abandona cada vez mais a sanidade e lucidez em prol dos delírios e das psicoses. Não é sem razão o fato de milhões, bilhões de pessoas viverem às duras penas através de psicoativos, sejam drogas legais ou ilegais. E o sono é dormir acordado.

Antigamente, costuravam-se as roupas e outros tecidos para que parecessem novos; a falta de grana obrigava as pessoas a reparos ao invés do descarte. Mas “jenial” foi quando alguém resolveu lançar uma roupa de mendigo, esfarrapada, remendada, desfiada, por um valor dez vezes maior do que um produto intacto, e boa parte das pessoas aderiu ao modismo, apenas por rebeldia. Nas feiras, praças de alimentação e estádios de futebol é quase impossível não ver um maltrapilho a gritar palavrões e xingar a mãe do juiz, ou contar, a plenos pulmões, suas fantasias juvenis. A revolução tem seu preço e normalmente os tolos a financiam.

A arquitetura vai de mal a pior. É quase impossível, salvo nos redutos exclusivamente históricos das cidades (que tenham, no mínimo, 300 anos), não nos deparar com algo dantesco, assimétrico e medonho. Edifícios como caixas de sapatos superpostas, caixinhas de fósforo agrupadas, quadros imperfeitos e retângulos desfeitos, sem contar as cores que mais parecem saídas das mãos de um orangotango epiléptico e cego. Mas, para quem se deslumbra com as obras de Gropius, Niemeyer e Bo Bardi, nada mais justo do que a admiração pelo kitsch, onde alhos e bugalhos se misturam em nome da pretensa originalidade e genialidade em ser brega e cafona. No caso de roupas e acessórios, eles se perdem inevitavelmente. Mas o que dizer de Brasília, da Bauhaus e do Sesc Pompeia?
Ah! E Pollock, Dalí, Oiticica, Volpi, Mondrian e Duchamp, entre outros menos votados?… A colcha de retalhos da minha avó era muito mais digna e honesta, ao contrário da overdose de horrores desses iluminados, seduzidos pela vulgaridade.

Não podia me esquecer dos piercings e alargadores, a tornarem-se cada vez mais exigência, quase uma obrigação, especialmente entre garçons, cozinheiros e balconistas. É quase improvável não se deparar com um (quando for um, existe a sorte de não ser atendido por ele), ou muitos, ou todos, exibindo-se desgraçadamente para o consumidor que, se esperto, dará o fora do lugar o mais rápido possível. Se antes, e não há muito tempo, animais domésticos e escravos utilizavam esses apetrechos a fim de serem presos ou conduzidos por seus senhores, será que esses… ah, deixa pra lá!, consideram o porquê de carregarem nos corpos essas estufilhas?… Claro que não!

Poderia ficar horas e horas enumerando as bizarrices e tontices do homem moderno — e das mulheres também. Ou acham que elas não têm o direito à sua parcela de “nonsense”? —, que outrora se considerava rebelde, livre e sem amarras sociais, quando, na verdade, apenas está embrulhado na própria arrogância, pretensão e desatino. De minha parte, e faz-se necessário observar, o radical é aquele que foge desses padrões descritos, em especial o cara que não tem medo de se dizer homem, sem a necessidade de eufemismos e de bajular os frouxos.
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Nota: texto publicado originalmente na Revista Bulunga 


01 setembro 2026

O epílogo das gêneses


Jorge F. Isah

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A política brasileira parece um grande maternal, onde meninos mimados e birrentos se arranham, estapeiam e gritam por seus carrinhos, bonecas e miniaturas de super-heróis, Barbies e pufes fofinhos. Os mais sortudos agarram-se aos seus celulares, tablets e TVs, sempre a passar freneticamente imagens e vídeos de coisas inalcançáveis às suas mentes, mas suficientes para ensinar-lhes a não saber o caminho sem volta. Sem contar a atenção e aprovação maternal, que pode ser de uma “tia”, “fessora” ou de um marmanjo que se sinta “mamãe”, mesmo não tendo como dar de “mamá” ao pirralho.

Um ou outro, lá pelo meio da existência, se deparará com as asneiras apreendidas, empreendidas e propagadas, mas será um e outro; não raro, a maioria se considerará, até depois da morte, estar certa e ser a detentora da imensurável e indizível verdade relativa — imensurável e indizível porque existem em cérebros do tamanho de uma ervilha, situados nos umbigos ou nos orifícios traseiros —, e o estrago, a carcomer o tempo, jamais será revertido... quando muito, aplacado.

Ouvir audiências no plenário de qualquer câmara legislativa é o mesmo que ser massacrado por um bando de orcs e trolls, cada um a lançar o mais longe possível seus perdigotos e impropérios, entre urros e carrancas, como se estivessem numa gincana do maternal, sob efeito de alucinógenos e estimulantes sintéticos. Quem cuspir mais longe ganha o troféu do ano.

O mesmo se dá, com poucas variações, nas sessões das cortes secundárias e supremas, nos gabinetes governamentais e, igualmente não raro, nas redações e estúdios midiáticos. Os indispostos à verborrágica inutilidade reclinam-se nas confortáveis poltronas e dormem o sono descabido. Depois, afastados dos olhares digitais, se refestelam em tapinhas nas costas, suculentas costeletas de javali e caudas de lagostas grelhadas na manteiga e ervas...

Nos salões ovais e octogonais, reúnem-se a bebericar whiskies, champanhes e Manhattans sem a menor cerimônia, rindo e escarnecendo dos mais tolos e dos mais espertos dos contribuintes e espectadores. Não são todos, vá lá! Mas o circo é armado mesmo que tenha um domador de leões, um faquir e um malabarista, a despeito da maioria de palhaços.

A quase totalidade não se presta mais sequer a esconder seus propósitos e a que veio; nem mesmo aquele velho chavão: “estou aqui para servir ao povo” faz parte do discurso e da grade digital. Não se furtam — e não é uma figura de linguagem — nem escondem quais sejam seus propósitos: tirar o máximo e desfrutar de todas as benesses burocráticas, sejam oficiais ou oficiosas, legais ou ilegais... o descaramento, antiético e imoral, é o lema exposto debaixo dos holofotes e pirotecnias.

Como macacos de auditório, pulam, esperneiam, se rasgam, cantam loas a si e aos seus pares, dizem fazer o que não fazem e fazem, petulantes, o que não dizem; alguns até dizem e fazem, mas dizem que o fazem por amor e justiça, para o bem maior, enquanto o bolso e a consciência batem palmas safardanas, certos de não se saciarem, ávidos por conchavos, acordos e franquias propícias a si próprios e seus negócios, às vezes ocultos, outras vezes descarados, mas sempre justificados com as boas intenções do diabo e seus molejos embuçados.

A vigarice é quase uma unanimidade nacional e, quanto a isso, pouco ou nada se pode fazer, dada a leviandade arraigada às almas e instituições brasilis — não nessa ordem, ou melhor, nessa desordem. De outra forma, como eu seria capaz de escrever este artigo, publicá-lo e ainda assim encarar a mim mesmo como o paladino do oeste, do leste, do norte e do sul? Só conservando a cara-de-pau, este abjeto mas ingênito ardor nativo a pautar velhos e jovens, mortos e não nascidos, no fulgor inato do “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, no decrépito das maternidades e parteiras.

Só mesmo aquele funk pancadão, as diatribes das focas e o silêncio histriônico dos cegos, surdos e mudos, que veem o que não se vê, não veem o que se vê; ouvem o que não se diz e não ouvem o que se diz — mas estão sempre dispostos a falar o que não entendem — e esquecem-se de que até uma mula continuará mula, independentemente da fantasia que use.

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Nota: Texto publicado originalmente na Revista Bulunga 



26 agosto 2026

A Convidada do Casamento - Carson McCullers

 



Jorge F. Isah

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Esta foi a minha segunda experiência com Carson McCullers; a primeira se deu com “Reflexos num olho dourado”, cuja análise pode ser lida utilizando a barra de pesquisa.

A Convidada do Casamento — em português, ganhou outros títulos: “A sócia do casamento”, “Frankie e o casamento” e até uma versão portuguesa com a tradução literal “O membro do casamento”, já que o título em inglês é “The Member of the Wedding” (1946). A expressão “member” pode significar membro ou sócio e, no contexto, acredito que as versões mais modernas acertam em utilizar o substantivo “convidada”, diferente das mais antigas.

Em princípio, pensei que o livro tratava de uma obsessão juvenil da personagem principal “Frankie”, uma garota de 12 anos que reside no sul americano, no estado da Geórgia. Mas, à medida que a leitura se desenvolvia, minha impressão inicial foi-se modificando.

Antes, quero pontuar que os personagens de McCullers, por mais que sejam comuns, desses que se pode encontrar em qualquer esquina, são estranhos e nunca parecem ser exatamente o que se vê — talvez, por nos vermos neles. Sempre existem várias camadas de personalidades conflitantes, angustiadas, fracassadas e entregues aos seus desejos ou destruídas por eles. É como se buscassem a todo custo uma felicidade e prazer — algo normal na natureza humana — mas se vissem sempre a caminhar na direção oposta. Por mais que lutem contra seus instintos, eles revelam-se dispostos a controlá-los — protagonistas e coadjuvantes — e, por que não, desiludi-los.


Posto isso, Frankie assume três nomes, no decorrer da trama. Primeiro, Frankie Addams, um apelido carinhoso mas infantil, que a identifica na família, mas também entre os seus conterrâneos. Depois, em uma tentativa de mudar a sua identidade e tornar-se madura, mas, sobretudo, ter as rédeas da própria vida, cria um nome que considera especial, sem que haja, contudo, um significado além do desejo de modificar as superfícies e forjar uma nova personalidade, F. Jasmine Addams. No terço final, assume o Frances Addams, o nome mais, digamos, formal e que, na cerimônia de casamento, é a senha do seu reconhecimento social.

Frankie, a despeito das tentativas de se transformar, era vista sempre do mesmo jeito pelos seus interlocutores mais próximos: Berenice, a empregada negra, que perdeu um olho após o ataque de um dos maridos — sempre tem um olho brilhando ou opaco nos enredos de Carson — sendo o “modelo” adulto da adolescente, e o primo John Henry, que a arrasta o tempo todo para a infância que quer abandonar. Um ou outro estranho, incapaz de perceber quem ela é — uma criança a ganhar o corpo de mulher — se ilude com a sua personalidade artificial, camuflada por vestidos, linguagem e uma incomum ‘maturidade’, e que esconde apenas o quão ingênua e inábil de fato é.

Há ainda a figura do pai, que gasta a maior parte do seu tempo com a relojoaria e, apesar do interesse meio relapso, deixa para Berenice a responsabilidade de educar e se dedicar à filha. Como o meu objetivo não é tocar em todos os aspectos do livro, faço apenas uma rápida menção aos atores secundários, sem penetrar em seus meandros.

Voltando à Frankie, a obstinação, o anseio de crescer, ter o controle da própria vida, e acreditar que mudanças simplistas e imediatas mudarão o seu destino, fazem-na reconhecer, mesmo a contragosto, o fracasso. É impossível forjar-se a si mesmo; antes, cada um é a soma de vários fatores, muitos — ou a maioria — completamente fora de controle. Com isso, não estou a falar de escolhas para o bem ou para o mal — nada a ver com o senso moral e ético — mas com a formação do ser.

Se para Frankie o apelido a irritava e diminuía — os laivos infantes — F. Jasmine se tornou a senha do fracasso. Abandonar ambos e assumir-se Frances insinuava um amadurecimento que, contudo, estava na forma, não na essência. E em seu desenvolvimento, a garota acreditou que finalmente era adulta — a despeito da cena bizarra e hilária ainda no casamento do irmão, uma última tentativa de integrar-se, mesmo desesperadamente, à nova realidade do casal, sem obter sucesso.  

Por falar em casamento, mais do que a admiração idólatra pelo irmão Jarvis — não confunda com o mordomo de Tony Stark — seria o passaporte para um novo mundo e a autonomia. O engraçado é que a independência de Frankie estava completamente atrelada à dependência do jovem casal. A adolescente, por mais que buscasse a transformação — um tipo de metamorfose onde a vida até então seria descartada e substituída por outra — estava apenas nos códigos e símbolos, já que o seu ensimesmamento e conturbadas emoções permaneciam inalteradas.

A nova vida de Jarvis e Janice — o casamento em que Jasmine é o terceiro “J” a incluí-la também em um novo modelo — faz com que a realidade vença as expectativas e remova Frankie da extravagância para a normalidade.

Carson McCullers com seus personagens comuns, situações comuns, e uma história aparentemente comum, desce aos abismos da alma para colocar, cada um de nós, em nossos devidos lugares. E também cada um, a seu jeito, que se vire onde está — mas sabendo que, mesmo nos limites, nenhuma esperança é vã. 

E, no fim, a convidada nunca é a estrela da festa. 

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Avaliação: (****)

Título: A Convidada do Casamento

Autora: Carson McCullers

Páginas: 232

Editora: Novo Século

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21 agosto 2026

Politicônimos

 




 Jorge F. Isah

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Se você é um Nogueira, Coelho ou Batista não é difícil descobrir a etimologia do seu nome. Não precisa fuçar muito. Nem contratar um filólogo ou detetive particular. Alguém na família foi apaixonado por nozes, cavar buracos ou se envolver com batistérios.

Se Fernandes ou Alves, alguém, em priscas eras, tinha um pai chamado Fernando ou Álvaro.

A maioria dos nomes tem origem toponímica — derivados de aspectos geográficos, paisagens —, zoonímica — de animais — e patronímica — nome de um ancestral masculino.

Existe outra categoria: a dos políticos. Um deles, Lula. Outro, Bolsonaro. O primeiro dispensa qualquer verbete: oito tentáculos, evidente vantagem administrativa e o terror do contribuinte. O segundo remete ao aríete de ferro: nada pode ser mais adequado ao seu estilo.

Em ambos os casos, você e eu não passamos de Túlios pilotando Pálios.

A onomástica comete um absurdo ao não categorizar os políticos. Passou da hora de termos os politicônimos. No começo, um adjetivo. Depois, verbo. E, por fim, o Código Penal.

Seria uma profusão de Gérsons, Gualtérios e Jacós... e nada os impediria do sucesso. 

Em época de eleições, haja Catarinos e Capanemas tipificados pela Lei. E completamente esquecidos por ela.

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Nota: texto publicado originalmente no portal Bulunga 



17 agosto 2026

Séries, Eastwood e Gestapo

 




Jorge F. Isah

 

               Tenho assistido a muitas séries antigas, aquelas dos anos 60, 70 e 80 que apenas os velhos se interessam. Eu não vivi esses tempos, mas de alguma forma tenho saudades do não visto e vivido em relação ao que vejo e vivo por estas bandas tupiniquins. As razões são, sem ordem de importância:

1-     Nostalgia, pura e simples (nem Freud explica);

2-     Fugir da loucura e psicopatia dos filmes e séries atuais (com raríssimas exceções), e acabam por refletir uma vida de delírios, mulas sem cabeças e unicórnios a povoar as mentes e as línguas de muitos;

3-     Avaliar a veracidade quanto ao nível de opressão e falta de liberdade no passado, onde, segundo os ideólogos e especialistas de plantão, as pessoas andavam em correntes e jaulas enquanto eram marcadas a ferrete;

4-     Constatar os valores perdidos ou a se perder, hoje e amanhã;

5-     Entender a razão de tanto ódio a uma existência mais simples e menos combativa e belicosa (quero dizer, lacradora);

6-     E, por fim, divertir sem me sentir culpado por dar risadas frugais ou derramar aquela lágrima emotiva.

Bem, pode parecer muito, mas a verdade é que raras coisas na atualidade me motivam o interesse, e muitas vezes fazem-me sentir como se estivesse em um hospício a céu aberto, cercado de loucos por todos os lados. Fico a imaginar um(a) “militante politicamente correto” assistindo, por exemplo, um capítulo de “A Feiticeira” ou “Jeannie é um gênio”. No primeiro caso, uma mulher literalmente “empoderada”, pois possui poderes sobrenaturais para satisfazer praticamente todos os seus desejos, se submeter alegremente a uma vida simplória e trivial de esposa e mulher do lar. Por amor ao seu marido, James, Samantha deseja se tornar a melhor esposa, mãe e dona de casa. Nem sempre consegue, mas é o seu objetivo de vida. Imagino o(a) militante quebrando a tv, a amaldiçoar Elizabeth Montgomery e Dick York por toda a vida... e nem preciso entrar nos detalhes.

No segundo caso, Jeannie é uma figura dos contos de fadas, capaz de realizar qualquer desejo do seu “amo”, o Coronel Nelson, que a encontrou em uma garrafa em uma ilha deserta. Ela pode fazer tudo, mas quer apenas e tão somente o amor e a atenção do seu amo, e a sua maneira desastrada e ingênua cria situações hilárias ao colocar em apuros o alvo do seu amor. Qualquer militante exemplar, daqueles que usam carteirinha e botton de “chato de galocha”, seria incapaz de se divertir com as peripécias de Samantha e Jeannie, pelo simples fato de imaginar aqui e acolá elementos claramente discriminatórios, opressores e estereotipados das mulheres. A ideia dos produtores e diretores e atores era apenas divertir o maior número de pessoas, arrancar delas risadas e momentos de descontração. Mas a militância não vê nada além de culpados e réus confessos, a difundir o domínio e a hegemonia do patriarcado. O pensamento dessa turma é linear, como uma extensa área inóspita e estéril no deserto, onde não se pode produzir nada de bom.

Ontem, assisti ao quase último filme de Clint Eastwood, “Cry Macho”, título irônico mas capaz de desagradar uma boa parte de espectadores, porque não tem muita ação, nem reviravoltas mirabolantes, ou sangue e células espalhadas em paredes, pisos e adereços. O filme nos dá a ideia do quanto Eastwood se divertiu ao produzir, dirigir e protagonizar a película. E é impossível, ao menos o foi para mim, não se divertir também. O roteiro é simples, a trama não é intrincada, não existem discussões ou defesas de pautas das agendas progressistas (sic), porque é um filme igualmente simples, a falar da vida, para a maioria das pessoas e não para um grupo minúsculo de iluminados, ansiosos por um Mickey gay, um Super-Homem trans ou um Padre Brown a usar linguagem neutra. Em suas obstinações por fazerem-se ouvir, não ouvem ninguém, na verdade, não se interessam em ouvir nada além da própria voz e o ecoar em seus pares, em patrulhar a vida alheia como se fossem membros da Gestapo, KGB ou CIA. Enquanto os fofoqueiros do passado especializavam-se em não serem descobertos ao disseminarem seus fuxicos  — muitas vezes apenas por simples diversão —, as novas patrulhas de fofoqueiros querem a censura, a prisão e em alguns casos a morte dos acusados. E qual o crime?... Pensar fora da caixa oca ou um saco cheio de...

Eastwood não fez um filme para ganhar o Oscar e encher páginas de jornais e sites especializados em cinema de lorota e lenga-lenga ideológica ou intelectualóide. Do alto dos seus mais de 90 anos, quis fazer algo divertido e no qual se divertisse. Evidente ser um filme de qualidade, afinal, é possível se divertir sem abrir mão do talento e habilidade, e talento e habilidade podem aumentar em muito a diversão... E quanto menos pretensioso, maior a chance de dar certo, como é o caso em questão. Não entendo a queixa dos detratores, e mesmo a falta de argumentos. Uma rápida pesquisa na web e verá a maioria dos comentadores falarem da idade do Clint, do andar titubeante, de já passar da hora de se aposentar, e variações do tema. Quase não existe a análise da obra em si, e quais seriam os pontos favoráveis e negativos. Parece um fetiche com a idade provecta do astro, capaz de ainda produzir, dirigir e protagonizar sem criar um pastiche de si mesmo ou de sua obra, enquanto a maioria dos “mortais” anseia aposentar-se aos cinquenta e não fazer mais nada na vida. Isso deve dar uma inveja e uma dor de cotovelo danada... e certamente tem tudo a ver com a longevidade artística de Eastwood.

Esta geração — tão acostumada a zumbis e vampiros, monstros e heróis de vidro, enquanto vivem a irrealidade do Meta Verso, RPG e um mundo onde poderiam tomar altas doses de adrenalina em amostra grátis — não me parece treinada para a vida real, para as coisas elementares e fundamentais, para a simplicidade, a fraternidade, gestos ingênuos e despretensiosos, atitudes delicadas, suaves e acolhedoras, tudo isso sem uma lei por detrás ou o discurso inflamado da última “bolacha do pacote”. “Cry Macho” ultrapassa em muito a caricatura na qual se transformou Hollywood e seu discurso panfletário e hipócrita  — com raríssimas exceções, como neste caso —: as pessoas são comuns, os problemas são comuns, as soluções nem sempre são perfeitas e absolutas, mas existe lugar para a verdadeira empatia, identificação, sem a necessidade de se ditar regras e fórmulas a se repetir pela ação da epinefrina, especialmente na área da língua e cordas vocais e quase nada no intelecto dos replicadores de patrulhas.

Por falar em galos — sei, ninguém tocou nisso por aqui —, a prova das intenções de Eastwood estão evidenciadas no fato de o herói, no sentido audacioso e intrépido do termo, ser o galo “Macho”, do pequeno Rafa (Eduardo Minett), o garoto a quem Mike (Clint) foi buscar no México para entregá-lo ao pai, no Texas. Ao receber “Macho” como presente, Mike promete cuidar do herói, numa alusão à cumplicidade e a troca de experiências; o “Macho” de Mike não é o mesmo de Rafa, mas não é impossível compartilhá-lo e, até mesmo, discutir sua importância, sem que para isso sejam forçados ao inexorável antagonismo.

Infelizmente, hoje em dia nada é inocente, ingênuo ou honesto. Sempre existe um culpado ou culpados pelo não dito e pelo não feito, mas supostamente dito e feito na mente dos inquisidores modernos, dispostos a — via de regra, e à revelia¹ — imputar e culpar qualquer um a contrariar-lhes delírios e incoerências mentais, desde que não seja a si mesmo e seus análogos. Faz parte da guerra; e se não há inimigos é preciso criá-los de qualquer maneira, nem que seja forjando conflitos, trincheiras e barreiras onde sequer eram imagináveis. Orwell acertou em cheio ao descrever a novilíngua destes tempos, a Stasi a dominar consciências e objetivos nada lúcidos e realistas.

Voltando ao seriado “A Feiticeira”, em uma cena onde Stevens e Tate conversam sobre a suposta gravidez de Samantha, ouve-se o seguinte diálogo:

- O que você espera, James? – Diz Larry.

- Ora, menino ou menina! – Responde Stevens.

Se fosse hoje, provavelmente em uma sala de aula, consultórios terapêuticos ou em ambientes descolados  — a minoria da minoria minoritária — a resposta seria um daqueles antigos catálogos telefônicos... E ai de quem não estiver atualizado com as últimas novidades e modelos listados e se esquecer de um deles: a Gestapo o enviará ao Gulag mais próximo. 

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Nota: 1- uso o termo não a designar simplesmente qualquer um, mas qualquer um não alinhado, se me entende.

2- Texto publicado originalmente na Revista Bulunga

13 agosto 2026

Viagem ao fim do poço



Jorge F. Isah
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A humanidade tem se especializado cada vez mais em superar todas as bizarrices possíveis e imagináveis, a título de diversidade, multiculturalismo, tolerancianismo, autossuficientismo, porcariarismo, igualitarismo, e uma série de sinônimos nunca aplicados mas sempre ansiados, como um fetiche, mais necessário à vida de certas pessoas do que o próprio oxigênio... Por falar nisso, não estranhe se, em um futuro próximo, os “engenheiros sociais” obrigarem as pessoas a utilizarem cilindros de gás meio a meio, metade de oxigênio e outra metade gás carbônico, pois seria preconceito e injustiça ao Co² ter uma parcela não igualitária no ar que respiramos. Enquanto isso, os mesmos “construtores” se deliciarão com porções cada vez maiores de O², para os seus deleites — com margens de lucro estratosféricas —, e escárnio do restante dos mortais.

Assim funciona o mundo: em nome de reparações às minorias, faz-se injustiça com a maioria, seja ela de qual cor, etnia, classe social, sexo ou outro muro erguido em nome do bem-estar e de uma isenção sempre parcial. No fundo, é uma luta pelo poder, onde boa parte é apenas “boi de piranha”, a espalhar um discurso sem plexo ou nexo enquanto a elite — seja intelectual, política, militar, sindical ou simplesmente hormonal — se esbalda em luxos, prazeres e controle das massas. Tendo o estado por sócio ou “padim”.

Não se iluda! Existem mais camadas intocáveis e intocadas nessa trama do que se pode imaginar ou conceber e, por esse motivo, nenhum questionamento é permitido ou sequer avaliado, sob pena de se transformar em teoria de conspiração ou, mormente, gerar risadas histéricas, deboche e cinismo.

Todas as coisas devem ser colocadas no mesmo saco, balançadas e o que sair não se pode lançar dúvidas ou questionar, desde que o recipiente contenha apenas e tão somente os valores elencados e formatados do politicamente correto ou establisment.

Mas voltemos às bizarrices e quebras de recordes. Você conhece a mulher que tem os maiores lábios do mundo? Ela já fez trocentas cirurgias plásticas para ter verdadeiros colchões de silicone na boca; se chama Andrea Ivanova. E o brasileiro que consegue projetar os olhos 18 cm para fora das órbitas? Chama-se Sidney Carvalho, e está no Guinness. E o americano que durante 50 anos comeu um Big Mac por dia? Chama-se Donald Gorske e, pasmem!, ainda não sofreu um infarto. E o que dizer de Michel Lotito? Ele chegou a comer um aeromodelo de metal entre outras bugigangas indigeríveis. A lista vai aumentando e aumentando e aumentando, quase sem fim. Essas são algumas das coisas mais “estranhas” realizadas, entre inúmeras outras no decorrer da história — e não vejo ninguém propor uma maneira de impedi-las; por quê?

Não estou defendendo a censura ou o não direito à liberdade individual, não é isso. Mas, por que raios em muitos países é proibido falar de Cristo e não de Mohamed? Pode-se louvar Mao, Fidel e Stálin e nenhuma palavra emitida sobre Paulo, João, Pedro e Tiago? Por que criticar certas pautas progressistas é crime e pecado enquanto se matam bebês, destroem-se reputações, ataca-se a infância, e os pais são meros incubadores e pagadores de impostos?

Se Lucky Rich pode tatuar 100% da sua pele e Nilanch Patel, quando adolescente, tinha o maior cabelo do mundo: 1,70 m; por que dizer, pensar, cogitar ou especular que o Parenthood é um abatedouro humano — uma mulher foi presa por orar silenciosamente próxima a uma clínica de aborto — é pecado?

São tempos difíceis, como dizia o apóstolo Paulo.

Enquanto isso, os impostos subirão, o dólar subirá, os benefícios e privilégios das poucas mas barulhentas castas brasileiras e mundiais subirão, e você e eu, cada vez mais, não teremos outra coisa a fazer senão pensar: onde fica o fundo do poço?

E nem posso ajudá-lo, pois ainda não chegamos lá! 



06 agosto 2026

Barrabás - Pär LagerKvist

 



Jorge F. Isah

 

      Conheci Pär Lagerkvist recentemente e, até então, era-me um completo desconhecido. Talvez, tivesse visto o seu nome quando criança, pois gostava de ler a lista dos “nóbeis”, assim como lia a das seleções campeãs de futebol, dos “óscares” e dos homens mais altos do mundo. Era um garoto de listas e nada melhor do que verificar todos aqueles a escreverem seus nomes na história, ainda que não fizesse a menor ideia de quem fossem.

      Assim como os olhos passavam pelas listas, Lagerkvist também passou por eles, sem deixar lembranças.

      Por conta da indicação de um amigo, comprei o livro “A morte de Ahasverus”, da editora Sator. Infelizmente, ele se perdeu em minha lista caótica de leituras, que está sempre a mudar e lançar novas aquisições para o “limbo” até que paguem as suas penas.

      Então, em um sebo, vi uma edição lindíssima da Opera Mundi¹, de Barrabás, e resolvi fazer jus ao sueco.

      Todos sabemos quem foi Barrabás. E Pär traça uma história fictícia, desde os momentos da crucificação de Jesus até a morte do protagonista, décadas depois. Assim como ele, Lagerkvist é econômico na escrita, feita de silêncios — nada barulhenta — quase seca, sem floreios, mas inquietante e reveladora.

      É uma história de substituição, quando o bandido é salvo da morte pelo Santo. Barrabás não entende a razão de não ser ele o crucificado, já que Jesus era inocente e puro. Ele não crê — e não há qualquer fé na divindade de Cristo — mas ainda assim reputa injusta a morte do puro. Contudo, algo o inquieta: por que tantas pessoas creem em um homem que se diz Deus mas morre miseravelmente como escravo? E, por que ele, um criminoso, foi poupado?

      A partir desse evento, quem conhecia Barrabás, incluindo a amante, nota diferenças em seu comportamento. Ele não é o mesmo. Algo o impulsiona a conhecer mais do homem e o porquê de tantos venerarem quem o substituiu na cruz. Esse tipo de morte era o mais infame e humilhante entre todos: ao ponto de não ser aplicada a nenhum cidadão romano. Como o profeta poderia ser então o Filho de Deus?... Esse é o cerne do livro. Não se refere à pessoa de Barrabás, mas porque ele não crê, tenta crer, e, ainda assim, as dúvidas não se dissipam, não importando a sua condição momentânea. Ele é um homem de incertezas, muito mais do que se imagina.  

      Ele segue cristãos, tenta aproximar-se, mas sempre paira sobre ele o estigma de ser o culpado pela morte do mestre. E isso, cada vez mais, cai sobre os ombros como a única convicção.

      Quando livre, sente-se preso ao destino. Quando escravo, há apenas resignação. E se busca compreender aquele fato — o divisor da sua vida — nada parece fazer sentido, nem mesmo quando a fé alheia põe à prova o seu ceticismo.

      Não é questão de hipóteses metafísicas, onde a mente passeia sem pisar em terra firme, mas de sentido onde a razão é um fio de cabelo solto na ventania.

      E, talvez, os verdadeiros grilhões sejam a impossibilidade de fé, e dela arrastá-lo como um trapo na lama.

      Ele, o liberto, está mais preso do que nunca. O vivo, está morto. Enquanto o crucificado vive. Ainda que na alma de uma multidão de súditos, dispostos a morrer para manterem-se escravos. Qual a lógica?... Está muito além da sua compreensão. Mas, no íntimo, como gostaria de prová-la.

      Lagerkvist não culpa ou absolve Barrabás². Revela a sua humanidade: do homem caído, sem rumo, e cujo coração, moldado pela descrença, não sabe no que crê, ou melhor, se recusa a crer... Nada de amigos, cúmplices, deuses e, nem ele mesmo. A medalha com os dizeres: “Christos Iesus” feita pelo colega, Sabak — um cristão — e posteriormente riscada —com uma cruz — pelo governador romano, a quem serviam, era mais um emblema de maldição do que graça.

      Diante da morte, Barrabás apostata, sem nunca na verdade ter se convertido, enquanto Sabak permanece firme em sua fé, e, por ela, é condenado à morte.

      No fim, o homem a quem Barrabás perseguiu mas jamais alcançou, trouxe-lhe à mente as suas últimas palavras:

      — A ti entrego a minha alma.

      E não sabemos se a verdade enfim o salvou... Apesar da morte. 

 



1- Comprei a edição da Opera Mundi, mas a leitura se deu na edição da Editora Sator.

2 - Da mesma forma, Pär Lagerkvisk parece não acusar ou inocentar a Deus. 




29 julho 2026

Mártires Modernos: Richard Wurmbrand

 




 Jorge F. Isah

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Quem foi Richard Wurmbrand?

Ele nasceu em Bucareste, Romênia, em 1909 e faleceu em Torrance, EUA, em 2001. Pertencia a uma família de origem judaica, e mudou-se para Istambul, Turquia, quando criança. Aos 9 anos, perdeu o pai, e apesar de não possuir uma educação formal refinada, era leitor voraz e, antes dos 10 anos, leu por completo todos os livros que havia em casa. Não recebeu, contudo, qualquer orientação religiosa, pois seus pais consideravam-se agnósticos e não pertenciam a nenhum grupo ou comunidade do gênero.

Aos 15 anos, com a sua família, retornou ao seu país natal, e  após a consolidação da revolução bolchevique, ainda adolescente, foi enviado a Moscou para estudar e tornar-se agente marxista na Romênia. Foi integrante do Comintern (organização internacional com o fim de expandir o comunismo pelo mundo, criada por Lenin) e era líder e agente designado e pago diretamente pelo governo de Moscou. Considerava-se, até aquele momento, agnóstico como seus pais.

Casou-se com Sabina Oster, em 1936. Converteram-se a Cristo em 1938, por meio do testemunho de um carpinteiro, o sr. Wolfke,  ativo participante da missão anglicana na Romênia. Richard estudou e foi ordenado pastor pelas igrejas Anglicana e Luterana. Em 1944, com a invasão soviética ao seu país e a implantação do regime comunista, Wurmbrand iniciou o ministério de pregação do evangelho junto aos soldados romenos e do exército vermelho. Uma das primeiras diretrizes do novo governo, e sempre ocorre em qualquer regime totalitário, é a necessidade de controlar a igreja através de leis, penalidades e indivíduos capazes de debelar, fiscalizar e restringir seus fundamentos e princípios, tornando-a em mero tentáculo ou apêndice do Estado. Com isso, Wurmbrandt e outros líderes cristãos foram obrigados a criar a “igreja subterrânea”, nos moldes da “igreja primitiva”, reunindo-se clandestinamente a fim de não se submeter à ingerência e intervenção estatal, ou seja, não se subordinar ao culto ideológico e idólatra de governantes e seu poder. A principal ameaça a pairar sobre a igreja não eram as perseguições, apropriações, torturas e mortes de seus membros, mas o tornar-se inócua, reles, como as diretrizes governamentais ansiavam e jamais conseguiram, por meio da criação e instalação de uma “igreja oficial”.

Muito desse período, inclusive os 14 anos em que permaneceu preso pelo governo nas masmorras comunistas, pode ser conhecido em seu livro “Torturado por Amor a Cristo”², no qual relata, em detalhes, os flagelos físicos e psicológicos; o sadismo dos carrascos, incapaz, entretanto, de enfraquecer a fé e o testemunho através dos quais muitos deles, soldados e torturadores, se converteram a Jesus Cristo.

A considerar-se, primeiramente, o fato do pr. Wurmbrand não ter a menor pretensão de escrever uma obra literária sofisticada, mas um testemunho de vida cristã. O livro é simples na linguagem e, de certa forma, em alguns aspectos, rústico, porém, a objetividade tem um significado: o de expressar correta e fielmente o período em que a Romênia esteve dominada pela ideologia marxista, e foi uma "colônia" soviética.

Os relatos de prisões arbitrárias, torturas, mortes, e das práticas mais cruéis de persuasão, a fim de os presos delatarem amigos, parentes e irmãos de fé — e a tentativa de "convertimento" ao comunismo — são dignas dos períodos mais bárbaros que a humanidade já presenciou.

Apenas como reflexão: não é interessante como tantos — e o número só vai crescendo — acusam os EUA de colonialista, enquanto a antiga URSS e os atuais países comunistas são tratados como centros democráticos e que não se interessam pela expansão de suas ditaduras mundo afora?...  Chame-se a isso também pelo seu nome real: hipocrisia.

Como alguém já disse: “acuse-os daquilo que você mesmo defende e é!”; assim o mundo vai se transformando, pouco a pouco, em um grande cárcere a céu aberto, onde nem mesmo o pensamento contrário é possível. Se uma única palavra for interpretada de maneira errônea ou equivocada por um” ouvinte”  — o famoso X9, delator ou “dedo -duro” —, o peso da mão arbitrária será sentido. Cada vez mais a humanidade vai se “homogeneizando” naquilo de pior e injusto a aflorar a insensibilidade e torpor. E toda unanimidade sendo burra — parodiando Nelson Rodrigues ­—,  as ideologias   insistem em tornar o  mundo o lugar mais tacanho que existe.

Segundo, os relatos da fé e do preço pago pelos cristãos por não se sujeitarem à ditadura — isso mesmo, cristãos são perseguidos em todos os lugares, exatamente por não se sujeitarem à idolatria Estatal, à "onipresença" da burocracia, como um "deus" a cuidar de todos os aspectos do indivíduo, tornando-o em menos do que um escravo, um objeto descartável e descartado ao bel-prazer do governante ou “sistema” —, pois um dos objetivos das ideologias é a criação de uma "nova sociedade", de "um mundo perfeito", e, para isso, a tradição judaico-cristã, a família, a propriedade privada, a moral, e tudo o que fundamentou a civilização ocidental, tem de ser destruído — afinal, o Estado não é laico, mas ateísta, diz não ser religioso, mas tem seus dogmas, culto e ídolos. O Cristianismo é o principal empecilho, já que os cristãos verdadeiros não terão como Senhor ninguém além de Cristo e, para os ideólogos de plantão, tal convicção é simplesmente inaceitável, um verdadeiro absurdo.

Em tempos de cristãos marxistas, cristãos direitistas, cristãos liberais, cristãos conservadores — e um leque ainda maior de “palavras compostas”—, podemos dizer que esses cristãos duplicados são realmente semelhantes e seguidores de Cristo? Ou apenas tentam legitimizar aquilo que, mesmo inconsciente, reputam por ilegítimo e imoral? Defender o indefensável, acreditando que o indefensável deve ser protegido e resguardado pelo discurso e não pelas ações, é sinal de que o cinismo se camuflou de compaixão para correr livremente.  

De maneira dissimulada, tem-se alastrado o chamado "evangelho social", uma porta para a entrada do radicalismo em suas formas mais hipócritas, artificiais e finórias, colocando cristãos contra cristãos, num mundo onde o discurso e não a evangelização ganha cada vez mais "relevância", essa palavra que surge sempre a sair da boca dos defensores de alguma causa enquanto a vida se torna um mero detalhe.

O número de testemunhos de fé e amor a Cristo, ao Evangelho e ao próximo, relatados pelo pr. Wurmbrand é comovente — e em muitos aspectos deixam-nos envergonhados —, e deveria servir de um "despertar" para a maioria de nós, cristãos, adormecidos e embalados por um discurso de acomodação e leniência em relação ao pecado, ao imoral, e a um Inferno cada vez mais cheio, onde as pessoas não têm a oportunidade de ouvir as verdadeiras “boas novas, contentando-se com uma diluição maligna da sua mensagem, em favor de "um mundo melhor", onde as vidas, via de regra, estão cada vez piores e mais afastadas de Deus.

Desde já, aconselho a cada cristão, e mesmo o não cristão, a comprar o livro e lê-lo, avaliando-se, a si mesmo, se é aquilo que imagina ser ou se está verdadeiramente sendo (de)formado por discursos, promessas e esperanças falsas, a levar “gato por lebre”, sem poder dizer, ao menos, ter sido engambelado.

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O pr. Richard Wurmbrand criou a missão “Voz dos Mártires”,³ em 1967, a fim de denunciar, auxiliar cristãos perseguidos pelo mundo, orar e levar as “Boas Novas” do evangelho de Cristo aos seus algozes.

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Alguns trechos:


1) Richard, conversando com um preso russo, na Romênia ocupada pelos nazistas, durante a II Grande Guerra:

"Era um trabalho dramático e muito comovente. Nunca me esquecerei do meu primeiro encontro com um prisioneiro russo. Ele me havia dito que era engenheiro. Perguntei-lhe se cria em Deus. Se ele houvesse dito "não", jamais me incomodaria tanto. É direito de cada homem crer ou descrer. Porém quando lhe perguntei se cria em Deus, ele levantou os olhos para mim, sem me entender, e disse: "Não tenho ordem militar para crer. Se eu tiver uma ordem, crerei".

“Lágrimas correram no meu rosto. Senti meu coração quebrantado. Diante de mim estava um homem com uma mente morta, um homem que havia perdido o maior dom que Deus dera à humanidade - o de ser um indivíduo. Ele havia passado por uma lavagem cerebral e se tornado um instrumento nas mãos dos comunistas, preparado para crer ou não em uma ordem. Não podia mais pensar por si próprio. Era um russo típico depois de todos esses anos de domínio comunista!"

2) Definindo a experiência sobre o poder comunista, em relação à experiência sobre o poder nazista (lembre-se, Wurmbrand é um nome judeu):

"A partir do dia 23 de agosto de 1944, um milhão de soldados russos entraram na Romênia e logo após os comunistas assumiram o poder do nosso pais. Então começou um pesadelo que fazia o sofrimento sob o Nazismo parecer nada."

3) Na cooptação da igreja:

"Desde que os comunistas assumiram o poder, cuidadosa e astutamente para os seus propósitos, têm seduzido a igreja".

4) Sobre o Congresso de cristãos, no Parlamento Romeno:

"Ali estavam quatro mil padres, pastores e ministros de todas as denominações. Esses quatro mil padres e pastores escolheram Joseph Stálin como presidente honorário do Congresso. Ao mesmo tempo era presidente do Movimento Mundial dos Ateus e assassinos dos cristãos. Um após outro, bispos e pastores se levantou ao nosso Parlamento e declararam que Comunismo e Cristianismo são fundamentalmente a mesma coisa e podem muito bem coexistir. Um após outro, os ministros ali presentes pronunciaram palavras laudatórias ao Comunismo e asseguraram ao novo governo a lealdade da igreja... Então me levantei e falei ao Congresso, exaltando não aos matadores de cristãos, mas a Cristo e Deus, e afirmei que nossa lealdade é devida em primeiro lugar ao Senhor... Depois tive de pagar por isto, mas valeu a pena!"

5) Sobre as traições:

"Aqueles que se tornaram servos do Comunismo, em lugar de servos de Cristo, começaram a denunciar os irmãos que os não acompanhavam".

6) Sobre as torturas na prisão:

“Crentes eram pendurados em cordas de cabeça para baixo e açoitados tão severamente que seus corpos balançavam de um lado para o outro sob a força das pancadas. Eram colocados em refrigeradores — “celas refrigerantes” — tão frias que se formava uma camada de gelo na parte interna da cela. Eu próprio fui jogado em uma dessas celas com bem pouca roupa. Médicos da prisão observavam-nos através de uma abertura, até verem sintomas de morte por congelamento. Nesse ponto davam sinal e os guardas nos tiravam e então éramos aquecidos. Quando já estávamos adquirindo calor, éramos imediatamente colocados de novo nas celas congeladoras, e isto repetidamente! Descongelar depois congelar até um ou dois minutos antes da morte, e então descongelar novamente. Isso continuava indefinidamente. Até hoje, algumas vezes não suporto abrir um refrigerador”.

“Na prisão de Tirgu-Ocna, havia um prisioneiro muito jovem chamado Matchevici. Estivera ali desde a idade de dezoito anos. Por causa das torturas, estava agora muito doente com tuberculose. Sua família descobriu de alguma forma o seu estado de saúde, e enviou-lhe cem vidros de estreptomicina, que poderiam lhe fazer a diferença entre a vida e a morte. O oficial político da cadeia chamou o prisioneiro e mostrou a encomenda. Disse-lhe: ‘Aqui está o remédio que pode salvar sua vida. Mas não é permitido receber encomendas da família. Pessoalmente, gostaria de ajudá-lo. Você é jovem. Não gostaria que morresse na prisão. Ajude-me a ajudá-lo! Dê-me informações contra seus companheiros na prisão, e isto me dará justificativa diante dos meus superiores por lhe ter entregado a encomenda’. Matchevici respondeu sem hesitar: ‘Não desejo permanecer vivo e ter vergonha de olhar no espelho, pois estaria vendo um traidor. Não posso aceitar tal condição. Prefiro morrer’. O oficial lhe estendeu a mão e disse: ‘Minhas congratulações. Não esperava que me desse qualquer outra resposta. Mas eu gostaria de fazer outra proposta. Alguns dos prisioneiros se tornaram informantes. Afirmam que são comunistas, e estão denunciando a você. Jogam dos dois lados. Não confiamos neles. Gostaríamos de saber até que ponto são sinceros. Para você foram traidores. Prejudicaram muito sua vida, informando-nos sobre suas palavras e ações. Compreendo que não queira trair seus companheiros. Mas dê-nos informações sobre estes que se lhe opõem, e assim salvará sua vida!‘. Matchevici respondeu com a mesma rapidez que tivera na primeira proposta. ‘Sou um discípulo de Jesus, e ele nos ensinou a amar até nossos inimigos. Estes homens que nos traem realmente nos prejudicam muito, mas não posso pagar o mal com mal. Não posso dar informação nem contra eles. Tenho pena deles, oro por eles, mas não desejo ter qualquer ligação com os comunistas’. Matchevici voltou desta conversa com o oficial e morreu na mesma cela onde eu estava. Estive ao seu lado quando morreu, e morreu louvando a Deus. O amor venceu até mesmo a sede natural pela vida.”

7) Sobre a fé em Jesus Cristo:

Uma grande lição permaneceu após todas as surras, torturas e carnificina infligidas pelos comunistas aos cristãos: o espírito é capaz de dominar o corpo. Muitas vezes, ao sermos torturados, sentíamos a dor, mas era como se fosse algo distante e bem dissociado do nosso espírito que estava tomado com a glória de Cristo e a sua presença conosco. Quando recebíamos uma fatia de pão por semana, e uma tigela de sopa de água suja por dia, decidimos que continuaríamos dando fielmente o “dízimo” mesmo nestas circunstâncias. De dez em dez semanas pegávamos a fatia de pão e a entregávamos a alguém que estava mais fraco como nossa oferta ao Mestre”.

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Notas: 1- Esta seção não visa revelar necessariamente “mártires” devidamente mortos por seus carrascos e verdugos, mas também aos que sofreram, por anos a fio, ameaças de morte, torturas e chegaram a “morrer” inúmeras vezes sem contudo entregarem seus espíritos. É mais uma homenagem e lembrança àqueles inocentes e devotados servos de Deus, que por motivos ideológicos tiveram parte ou o todo da sua vida ceifada pela crueldade e vilania de governos e seus comandantes.

2- O livro pode ser adquirido no site “Voz dos Mártires”, em inglês ou espanhol, já que a versão em português está esgotada há muito, e talvez possa ser encontrada somente em sebos, infelizmente.

3- Voz dos Mártires: https://www.vozdosmartires.pt/

25 julho 2026

Malemolência Tupiniquim

 


Jorge F. Isah


Tem coisas que somente os brasileiros fazem, dizem por aí. Existem hábitos (para alguns, manias) típicos e quase exclusivos nossos, tupiniquins. Um deles, e talvez o mais difícil de se entender, é o de comer pizza com talheres. Normalmente, mundo afora, come-se essa iguaria com as próprias mãos, aos moldes alimentares dos nossos queridos “hermanos” silvícolas. Para os “gringos” é abominável degustar tão saboroso (e gorduroso) alimento sem apalpá-lo, afagá-lo e apertá-lo entre os dedos. Chega a ser um fetiche. De nossa parte, esse negócio de comer pizza com as mãos deveria ser proibido e constar no código penal, com sentenças de 15 a 20 anos de prisão, sem direito a fiança e atenuação de pena. Deveria incluir trabalhos forçados; mas isso é sonhar demais, né!

Onde já se viu comer com as mãos? Ainda mais pizza? Já imaginou quantos micróbios e bactérias poderíamos ingerir?... E, depois, são esses “selvagens” a obrigar-nos ao uso de máscaras. Gente sem noção...

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Outro particular, é a existência de cesto de lixo nos banheiros. Lá fora, eles simplesmente jogam no vaso sanitário o papel higiênico junto com os seus dejetos. Parece lógico, já que conservar restos fecais em cestinhos não tem nada de civilizatório e higiênico. Seria o mesmo que manter o seu Título de Eleitor em um cofre forte enquanto espalha dinheiro e joias pelas mesas e cômodas da casa. Dizem que as eleições, mais do que um dever é um direito. Ah, se fosse assim, veríamos filas semanas adentro, verdadeiros acampamentos, nos portões das seções eleitorais. Mas essa atitude é típica dos fãs de estrelas do rock, dos consumidores loucos por promoções, ou dos psicóticos usuários de iPhone. Ninguém monta barraca, literalmente traz travesseiro, cobertor, cadeira de praia, garrafa térmica e biscoito amanteigado para votar. Nada mais justo do que abolir os cestinhos dos banheiros e qualquer esperança nos eleitores.

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Brasileiro gosta de banho. Ao contrário de boa parte do mundo, é costume nacional lavar-se diariamente. Há aqueles que não se limitam a um, mas tomam dois ou três. E veem depois falar em ecologia. Querem prender a senhorinha que esfrega o passeio uma vez por semana e o moleque que lava o carro quinzenalmente. Mas aqueles intermináveis 40 minutos de ducha, três vezes por dia, não causam qualquer impacto na natureza. É o típico cara a tirar o cisco do olho alheio enquanto mantém a trave no seu.

Aqui as coisas são tão estranhas que se criou o termostato de chuveiro, para impedir o excesso de tempo entre um enxague nos cabelos e outro nos pelos pubianos.

Essa mania se espalha a quase tudo, até mesmo nos altos escalões. Houve um tempo, não muito distante, onde se criou a “Operação Lava-Jato”, cujos efeitos foram tão rápidos e inócuos  — graças a artifícios interpretativos de certa Corte — que todos os "sujões” estão a emporcalhar o país de novo. Nem uma fonte de água sanitária molhando-os ininterruptamente daria cabo dessa bodega. Ou seja, não adiantam banhos, pois jamais seremos devidamente “limpinhos”.

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Talvez, por sermos tão “sui generis”, o mundo desconhece que “hablamos” português, e acreditam piamente que o Brasil é um país de língua espanhola. Não sei o que os lusitanos esperam e fariam, mas, se fosse eu, ficaria quietinho e deixaria toda a culpa para os hispanos.

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            Se você conhece outra mania, e quer “expô-la” publicamente, mande-nos o seu e-mail com a sugestão e um PIX para a conta do editor. 

20 julho 2026

Olhos de Fome - Michel Salomão

 



Jorge F. Isah

 

       

        Este livro foi lançado recentemente, em dezembro de 2025, mas sua gestação se deu ao longo dos últimos quarenta anos — um pouco mais ou menos: foi um parto programado e longo.

      Michel Salomão esteve às voltas com a burocracia, especialmente a ainda mais burocrata e menos eficiente, a justiça. Contudo, nada o impediu de sonhar, conceber e dar à luz ao seu projeto mais ambicioso e, por que não, mais ansiado — para o pequeno círculo de amigos que estavam a par da sua criação. Nesse período, o autor produziu muito do que está em suas páginas, com o vigor, desprendimento e convicção de que o seu processo criativo era, no mínimo, estranho e estranhamente real e imaginativo, sem a distinção de onde um começava e onde o outro terminava. A realidade pode muitas vezes ser impalpável, enquanto a imaginação pode ser, por seu lado, extremamente concreta. Cabe a uma e outra suas porções de evidências e mistérios.

      Pois, finalmente, “Olhos de Fome” está entre nós. Não como mais um livro, mas o livro dentro de tantos outros que a vida de Michel produziu e a maioria dos leitores não terá acesso. Se há um consolo é o de que, na personalidade surpreendente do autor — que se mistura à estranheza de suas criações — a possibilidade é real de encontrar traços e componentes que indiquem a saída do labirinto de sentimentos, afetos e paixões que personificam o ser humano, em maior ou menor grau, nos símbolos e camadas do texto.

      A obra é uma coletânea de contos escritos nas últimas décadas, sendo a maioria nos últimos três, quatro anos, com o advento da Revista Bulunga. Neles encontramos a mesma estética de surpreender o leitor com temas aparentemente banais, mas que causam desconforto e empatia, ao nos ver refletidos nas formas — ou “fôrmas” — e nos identificamos, por exemplo, com o funcionário medíocre, o megalomaníaco, o psicótico, o ranzinza, ou a mulher — do conto inicial que dá título ao livro — que, incapaz de intimidade, utiliza o sexo como forma de poder, tenta não repetir a herança violenta, mas apenas a ressignifica. Em nenhum momento, o livro é conciliador, reconfortante, ou apela para os clichês modernosos.

Ainda que não exista um nítido desejo de absolvição, os temas e personagens são apenas expostos, sem sentimentalismo ou pieguice, sem atenuar os conflitos ou descaracterizá-los. Se está a procura de literatura reconfortante ou conciliadora, em que os dilemas sejam apagados em um passe de mágica, vade retro, desista. Mas se quer realmente conhecer a alma humana, com todos os seus dramas — muitos, patéticos —, dúvidas e aquele deslocamento natural e sincero, é um prato cheio.

      Porém, não se esqueça: em quase todos os escritos de Michel, você sempre encontrará aquelas pitadas — em maior ou menor grau — do humor satírico, provocativo, irônico e, por vezes, deliberadamente hiperbólico e caricatural. É assim que funciona. É assim que deve ser. Tal qual Bukowski, Stanislaw Ponte Preta e Millôr Fernandes, capazes de transformar o feio, o banal e o rotineiro em algo intenso e, às vezes, belo e otimista.

      O mais engraçado, se me permite, é quando notamos o narrador a rir de si mesmo, a fazer do seu caráter, dogmas e conceitos, a base ideal para a autocaricatura e, assim, tirar sacadas e risos diante do espelho. É quando o riso do leitor ao personagem se volta ao narrador e, quase sempre, ao autor. Tem-se o círculo perfeito, inquestionável. E disso vive a boa literatura, desta capacidade autodepreciativa e nada ufanista.

      Para quem “torce o nariz”, atire a primeira pedra. Porém,

esteja consciente de que ela pode voltar como um bumerangue.

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Avaliação: (****)

Título: Olhos de Fome

Autor: Michel Salomão

Páginas: 245

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