21 novembro 2019

Conversando com C. S. Lewis





Jorge F. Isah


Alister McGrath é um teólogo, historiador e bioquímico britânico, autor profícuo de livros sobre apologética, biografias, e outros relacionados com a história da teologia e Cristianismo, além de profundo conhecedor da obra de C.S.Lewis. Tendo lançado, inclusive, uma biografia sobre ele. Ou seja, tem amplas credenciais para esmiuçar o pensamento de Lewis e levá-lo até um público ainda não "iniciado", ou que tem pouco contato com os seus livros.

Ambos nasceram em Belfast, Irlanda do Norte, o que pode aproximar ainda mais o campo de interesses entre eles, levando McGrath a estudar detidamente o trabalho grandioso do conterrâneo.

Conversando com Lewis é um livro despretensioso, com o objetivo de levar um novo grupo de leitores a se interessarem pela literatura "Lewisliana". São rápidas pinceladas sobre alguns dos principais trabalhos do literato, mostrando o fundo histórico e pessoal no qual estava envolvido no momento de escrevê-los. Informações suficientes para instigar o futuro leitor a se debruçar mais detidamente sobre eles. No que, acredito, seja o maior trunfo e sucesso de McGrath.

Eu mesmo, que tenho negligenciado a literatura de Lewis (identifico-me mais com Tolkien, apesar de não ser um leitor assíduo), vi-me obrigado a reconsiderar essa posição, e tratei logo de comprar um box com quatro volumes, estimulado também pelos apelos do amigo e pr. Celso Souza. 

Voltando ao "Conversando...", como disse, ele tem o mérito de levar novos leitores a se interessarem por Lewis. As informações são suficientes o bastante para não confundir os não "iniciados", mas o necessário para mapear-lhes o caminho enquanto futuros leitores.

É uma leitura agradável, fluída, em uma série de almoços fictícios com o autor, no qual o seu pensamento é clarificado.

Para aqueles que já conhecem e estão familiarizados com a literatura Lewisliana, penso que a leitura do "Conversando..." é dispensável, a menos que seja por completa curiosidade.

Recomendo para os não aficionados, especificamente, e para os fás compulsivos, aqueles que não perdem absolutamente nada, nem mesmo as notícias requentadas.

Boa leitura!


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Avaliação: (***)

Título: Conversando com C. S. Lewis

Autor: Alister McGrath

Editora: Pórtico

No. Páginas: 163

Resenha: "Você já imaginou como seria conversar com C. S. Lewis sobre diversosassuntos polêmicos? Você já pensou como seria uma entrevista com ele, falando sobre assuntos atuais e o que ele pensa sobre isso?"



01 novembro 2019

O Poirot coadjuvante em "O Assassinato de Roger Ackroyd"





Jorge F. Isah


Leio Agatha Christie desde os 11 anos, mais ou menos. Iniciado por minha mãe, que era fã dos seus livros, e, também, muito fã de Edgar Wallace. Perdi a conta, quantos dos seus romances passou por minhas mãos. Na verdade, não faço ideia. Até, porque, a obra da autora é prolífera. Normalmente, são enredos possíveis de se ler em um dia ou dois, e divertir-se bastante ao fazê-lo.

Então, passadas duas décadas, decidi retornar ao universo do detetive Poirot, já que a maioria dos livros policiais lidos recentemente foram do estilo noir. Iniciei por este, “O Assassinato de Roger Ackroyd”, considerado a sua obra-prima, e que ainda não lera (ao menos, não me lembrava de tê-la lido).

Romances como os de Agatha, Simenon e Wallace têm uma malha profusa de personagens secundários, ações, insinuações, blefes, acidentes e casualidades que tornam a figura do vilão quase inidentificável na trama. Ao menos, é o que eles tentam, e alguns conseguem. Não é raro você se deparar com a convicção de quem é o assassinato muito antes do clímax final. Mesmo com todas as pistas falsas, não é difícil, se houver atenção aos detalhes e particularidades de cada envolvido, desvendar o mistério; questão de tempo, mas acontecerá. Por isso, a necessidade de muitos personagens, ou suspeitos, para, no embaralhar das cartas, a almejada permanecer escondida.

E se este aspecto pode ser considerado negativo, o que não considero, o positivo são os detalhes, as minúcias, presas ao novelo enquanto se desenrola. As vezes a conclusão é tão óbvia porque, mesmo as pontas soltas, existe uma a uni-las.

Poirot é aquele detetive arguto, racional, meticuloso, desconfiado e, de alguma maneira, dissimulado e trapaceiro (um velhaco), muito diferente de um Sam Spade, por exemplo, que “tropeça” nas evidências e tem, na teimosia e algum senso de moral e justiça, o mérito para desvendar os seus casos. Poirot é um racionalista empedernido, autoconfiante e um diletante da própria inteligência e talento. Chega a ser entediante, às vezes, o seu egotismo.

De uma forma geral, “O Assassinato de Roger Ackroyd” é um típico exemplar do estilo “Whodunnit”, entretendo, divertindo, instigando e fazendo passar aquelas modorrentas horas sem ter o que fazer, ou sem estar disposto a fazer nada. Não é brilhante, mas é um livro condizente com a fama de Agatha Cristie.

Não espere personagens profundos e psicologicamente bem construídos. Eles não são os protagonistas. O crime, e o seu desvendar, é o personagem principal do livro. Toda a construção da história se baseia nele, inclusive dos personagens. Estes são adereços e penduricalhos a permitir a fluência do grande “herói”. Como luzes a iluminar um monumento. Poirot não é o herói. Nem o transgressor. Nem a vítima. São apenas acessórios. E estamos conversados!

Em tempo: lá pela metade do livro, já sabia quem era o criminoso. Suspeita iniciada quando Poirot entrou na trama, mas confirmada depois.


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Avaliação: (***)

Livro: O Assassinato de Roger Ackroyd

Autora: Agatha Christie

Páginas: 296

Editora: Globo


Resenha: “Em uma noite de setembro, o milionário Roger Ackroyd é encontrado morto, esfaqueado com uma adaga tunisiana – objeto raro de sua coleção particular – no quarto da mansão Fernly Park na pacata vila de King’s Abbott. A morte do fidalgo industrial é a terceira de uma misteriosa sequência de crimes, iniciada com a de Ashley Ferrars, que pode ter sido causada ou por uma ingestão acidental de soníferos ou envenenamento articulado por sua esposa – esta, aliás, completa a sequência de mortes, num provável suicídio. Os três crimes em série chamam a atenção da velha Caroline Sheppard, irmã do dr. Sheppard, médico da cidade e narrador da história. Suspeitando de que haja uma relação entre as mortes, dada a proximidade de miss Ferrars com o também viúvo Roger Ackroyd, Caroline pede a ajuda do então aposentado detetive belga Hercule Poirot, que passava suas merecidas férias na vila. Ameaças, chantagens, vícios, heranças, obsessões amorosas e uma carta reveladora deixada por miss Ferrars compõem o cenário desta surpreendente trama, cujo transcorrer elenca novos suspeitos a todo instante, exigindo a habitual perspicácia do detetive Poirot em seu retorno ao mundo das investigações. O assassinato de Roger Ackroyd é um dos mais famosos romances policiais da rainha do crime."

23 outubro 2019

O "Meridiano de Sangue" sem fim, de Cormac McCarthy




Jorge F. Isah


Este é o terceiro livro de Cormac que leio. 

Em relação a "Onde os velhos não têm vez" e "A Estrada", noto grandes diferenças. Se a primeira história tinha todos os elementos presentes em "Meridiano", aquele se parecia mais com um enredo, digamos, comum (sabendo que nenhuma narrativa de Cormac pode ser considerada comum, no sentido mais... comum do termo), e  a "Estrada" é mais otimista, ainda que em um cenário apocalíptico, caótico e maligno, como gosta de ambientar os seus livros.

Em todos, contudo, temos a linguagem crua e nua, sucinta, seca, mesmo na multidão de palavras; frases inteiras sem pausa, vírgulas, escritas sem descanso; descrições de eventos e pessoas que compõem a escória da humanidade; e os que a ela não pertencem, assistem passivas, a se configurarem nos mais escabrosos e cruéis espectadores da desordem e destruição. Não raramente são estes as "vítimas", em um cenário onde o bem é a utopia mais visivelmente negligenciada. 

Cormac, no entanto, se utiliza da poesia para "atenuar", e as vezes reforçar, elementos em sua narrativa. Algo que pensei, e não sei se era a sua real intenção, é demonstrar que, mesmo na aridez da imagem (as paisagens rústicas e primitivas), ou o caráter bestial dos personagens, pode-se apreender algo de belo, natural, simplório, mas nunca inocente. Uma pureza primitiva, selvagem, mas jamais inofensiva. 

Não há psicologismos, nem se faz conhecer os personagens pelo que pensam, por suas elucubrações, mas pelos seus atos, ações, pois elas falam por si e por eles. Não se sabe de remorsos, arrependimentos, temores, dúvidas ou aflições, mas apenas aquilo que fazem, como agem, normalmente de maneira indiferente, brutal, impiedosa, quase mecânica. O fatalismo parece ser a máxima das ações, onde ninguém pode se esquivar de ser o que é, de fazer o que tem de ser feito ou foi destinado a fazer. 

Não existe espaço para a bondade ou companheirismo. Apenas a sobrevivência a qualquer custo e o poder acima de tudo, em um ajuntamento de homens sem escrúpulos, moral, não obstante, traindo-se e abandonando-se mutuamente. É como uma matilha de lobos sem alimento, onde um devora o outro; e o último morrerá de fome e à míngua. Mortes, assassinatos pelos motivos mais banais: um olhar atravessado ou uma zombaria, faz com que o sangue não seja o final, mas o meio de subsistência dos vencedores.

O enredo se passa em meados do século XIX. O cenário: o velho-oeste americano, mais especificamente na fronteira com o México, para aonde os EUA se expandiam.

Após concluir a leitura, posso garantir que este é um dos mais, senão o mais violento, que li. As atrocidades cometidas pela “criatura” de Mary Shelley, nem de longe ameaçam o pódio de Meridiano, como um livro sanguinário entre os mais bárbaros. Portanto, não poderia ser escolhido um título melhor: Blood Meridian, um meridiano banhado em cor vermelha escarlate.

O protagonista "Kid", um jovem sem destino, se vê acoplado ao bando de mercenários que foi dizimado pelos índios. Kid sobrevive e se junta ao bando de outro mercenário "Glanton", que também caça escalpos. Eles vendem seus serviços para dizimar grupos e povoados: brancos, negros, mestiços ou índios. Importa-lhes o dinheiro, nada mais, além do estigma aterrador que o nome, e a presença, desperta no ouvinte ou assistência.

A visão pessimista de Cormac, ateu, se apropria das tragédias e do mal para mostrar um mundo sem esperança, onde o bem é apenas ficção (não a sua ficção), e a maldade a própria essência humana. Não existe frescor, descanso, paz, apenas guerra, dor, morte e muitas batalhas a serem travadas. Não é o banho de sangue pelo sangue, mas a crítica por detrás do sangue. 

Por outro lado, parece reafirmar um conceito esquecido pela maioria dos cristãos, o da "depravação total do homem": de que todo o ser do homem foi contaminado pela Queda, no Éden; manchando e corrompendo o homem bom, puro, e induzindo-o  ao mal hegemônico. O autor, ao não ver bondade inerente no homem, hiperboliza a Queda, despreza o Imago Dei; e faz, em um mundo “desgovernado”, o inferno que muitos acreditam existir somente aqui. 

Não diria que ele seja um niilista clássico, mas existe uma porção niilista em sua narrativa. Não há uma "pregação" quanto à destruição das instituições e valores tradicionais, como se fossem obstáculos à vida ou liberdade humana, mas a própria ineficiência ou incapacidade delas coibirem verdadeiramente o caos e a destruição. Em muitos aspectos, elas mesmas fomentam, num tipo de transferir poderes para mercenários como Holden e Glanton (uma higienização estatal, onde a carnificina é patrocinada mas nunca é tocada diretamente), o mal que dizem combater.

Em tempo: sobre Holden, um personagem cínico, culto/erudito, carismático mas temível; capaz de esmagar um crânio com as mãos, mas também de dançar como um hábil bailarino; temos o "grande" personagem central. Ainda que possamos afirmar a centralidade da guerra como a protagonista (ao menos uma delas), Holden transpõe as páginas como um Quixote às avessas, sem os ideais heroicos deste, entretanto, de alguma maneira, vivendo uma vida de versos e canções clássicas, na pluralidade das línguas originais, na dissertação de cânones e meditações tracionais, como um alívio para a própria alma, e a afirmação da sua autoridade (diga-se, superioridade) para com os demais do bando, fazendo-se herói de si mesmo. Não raro, ainda que fosse o mais aterrorizante dentre os facínoras, era descrito como louco ou diletante; uma personalidade fascinante, irresistível, que trazia terror, admiração e, por que não, algo parecido à veneração.  

Um senão, que ainda não detectei a causa, é que a narrativa, a despeito dos muitos momentos de ação, pareceu arrastar-se um pouco e, em alguns momentos, chegou mesmo a entendiar. Raros, diga-se de passagem, mas existentes, o que não vivenciei em "Onde os velhos não têm vez" e “A Estrada”.


Mas McCarthy é McCarthy! Que venham mais livros dele!


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Avaliação: (****)

Título: Meridiano de Sangue

Autor: Cormac McCarthy

Páginas: 352

Editora: Alfaguara

Sinopse: "Meridiano de sangue é um romance épico. Nele, McCarthy reinventa a mitologia do Oeste americano para criar uma obra ao mesmo tempo grandiosa e arrebatadora sobre uma terra sem lei, em que o absurdo e a alucinação se sobrepõem à realidade. Desde as primeiras páginas, o leitor acompanha um rapaz sem nome e sem família, abandonado à própria sorte num mundo brutal em que, para sobreviver, precisa ser tão ou mais violento que seus inimigos. Recrutado por uma companhia de mercenários a serviço de governantes locais, atravessa regiões desérticas entre o México e o Texas com a missão de matar o maior número possível de índios e trazer de volta seus escalpos. McCarthy parte de fatos reais - a caçada aos índios, o destacamento de assassinos liderado pelo sanguinário John Joel Glanton - para compor uma obra que transcende a mera ficção histórica. Conduzidos por Glanton e o juiz Holden - uma figura quase sobrenatural, e um dos grandes personagens da literatura americana no século XX -, esses homens, que julgam já terem visto todos os horrores possíveis, irão aos poucos se aprofundar no verdadeiro inferno."

18 outubro 2019

O Voo linear de um Corvo





Jorge F. Isah



Este livro conta a história, ou a saga, de Charles Trumper, um garoto pobre do subúrbio de Whitechapel, em Londres, onde aprende o ofício de quitandeiro com o avô, e ganha o mundo com o seu obstinado empreendedorismo. Do início até o final das mais de seiscentas páginas, ele passa por uma série de infortúnios, desencontros, vitórias, perdas, sucesso e a megalomania de se tornar, “o maior carrinho do mundo”, a glória mercantil da Inglaterra.

Transcorre-se sete décadas na vida do protagonista.

Há de tudo um pouco: amor, traição, perfídia, vingança, amizades, alianças, conchavos, cobiça, morte, manipulação. É um daqueles “dramalhões” clássicos, com todos os seus ingredientes. Ah, e tem, sim, um vilão!

História e narrativa simples, sem nada de extraordinário, sem rebuscamentos, em linguagem coloquial, mas que manteve a minha atenção e interesse até o fim.

Tenho de convir que, em muitos momentos, vi-me cansado e meio enfadado com descrições pormenorizadas de eventos que pouco, ou nada, importavam à trama. Um detalhamento excessivo, como se o autor tivesse de fazê-lo a fim de cumprir um determinado número de páginas. E elas sempre aconteciam a qualquer mudança de situação, lugar ou personagem, deixando o fluxo um pouco arrastado, truncado, às vezes. Talvez umas cinquenta páginas a menos tornassem-no mais fluído e menos moroso.

Não chega a ser uma falha grave, pois é um recurso muito utilizado para se chegar a um “clímax” na narrativa (evento que precisa de um crescente até atingir o ápice da emoção), mas em muitos casos tal recurso não resultou em qualquer impacto na trama, sendo apenas e tão somente “encheção de linguiça". Cada capítulo foi dedicado a um personagem (alguns personagens tiveram mais de um), que é a “voz” da história. Este é outro ponto no qual as repetições são várias, pois no capítulo, “Charles Trumper”, são narrados fatos que, no capítulo, “Becky Trumper”, repetem-se, agora na ótica desta personagem. É um recurso interessante, mas a repetição, caso não exista algo de surpreendente, torna-se apenas enfadonha, e desnecessária. Bola fora do autor, Jeffrey Archer, neste quesito.

No mais, é uma boa leitura para o fim-de-semana; em que o leitor pode se entregar ao voo linear do corvo, sem se preocupar em pousar em algo mais sólido e consistente.


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Avaliação: (**)

Livro: O Voo do Corvo

Autor: Jeffrey Archer

No. Páginas: 600

Editora: Bertrand Brasil


Sinopse: "O inicio dos negócios de Charlie Trumper se dá ao lado de seu avô, vendendo verduras e frutas em um carrinho de mão. A partir daí, o comerciante lutará para criar "O Maior Carrinho do Mundo", enfrentando uma guerra, encontrando o amor e descobrindo um misterioso e poderoso inimigo"

07 outubro 2019

Outra Volta do Parafuso: Muito mais que um suspense




Jorge F. Isah


Ouvira falar deste livro do James, e a euforia com que o descreviam, fez-me comprá-lo, por uma bagatela, em um supermercado de BH: R$ 5,99, capa dura. 

Sempre se referiam a ele como uma novela de suspense e terror, e, pela fama de James como romancista, achei que valia a pena iniciar a leitura, a despeito do gênero não ser o que mais me agrada.

Tudo seguia o curso natural, quanto ao que me fora dito; e, no início do livro, pareceu-me que o autor demorava um pouco a engrenar a história, mas depois de engrenada, percebi que parar de ler era uma empreitada impossível

O pano de fundo são aparições sobrenaturais (já percebíveis nas primeiras páginas) que mudam por completo a vida das pessoas que moram em Bly. Mas é o pano de fundo, pois o autor na verdade usa-o para falar de algo muito mais importante: a percepção da realidade, o que vemos, o que sentimos e imaginamos, e como reagimos diante delas, de maneira que as relações pessoais tomam um aspecto diferente à medida que a objetividade, de certa forma, é alterada pela subjetividade de um dos personagens. Pode ser que alguém esteja realmente a ver o que os outros são incapazes de fazê-lo, mas pode também ser que esse alguém esteja criando uma ilusão, como resposta ao que lhe acomete ao redor, concebendo um mundo de angústia, aflição, dúvidas, mas de cuidado, solidariedade e, também, amor.

Não farei uma sinopse porque não quero antecipar o enredo e estragar o prazer do leitor. Também não é o meu objetivo, visto que nunca gostei de ler resenhas de livros e filmes (se é para ouvir um "resumo" do livro, ou do filme, prefiro lê-lo e assisti-lo). Gosto mesmo é de tocar em pontos que eventualmente a maioria dos leitores não se apercebe (certamente existem pontos que os leitores notam e que me são imperceptíveis); detalhes que me chamam a atenção e me fazem saborear a leitura, como um deleite. 

Portanto, fica a dica: leia esta pequena novela, não como sendo apenas um livro de suspense, mas um livro em que a realidade e as relações interpessoais (suas nuances e alterações e sentimentos e percepções) são os personagens principais.


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Avaliação: (***)

Titulo: "Outra Volta do Parafuso" ou "A Volta do Parafuso" (Pode-se se encontrar os dois títulos para o mesmo livro)

Autor: Henry James

Editora: Abril

No. de páginas: 192

Sinopse: 
"Obra mais popular do renomado escritor Henry James Em uma trama perturbadora, o autor nos leva ao dia a dia de uma jovem governanta que tem a missão de cuidar de duas crianças, Miles e Flora, que vivem nos arredores de Londres. A moça é a narradora da história, e o que parece ser o trabalho dos sonhos, de um momento para outro, se torna um pesadelo. Os habitantes da casa são assombrados, ou influenciados malignamente, pelos fantasmas de Peter Quint, ex-mordomo, e da Srta. Jessel, a ex-preceptora. Neste clima de suspense, a jovem conta apenas com a ajuda da bondosa criada, Sra. Grose, para se livrar do mal que atormenta a família."



01 outubro 2019

Amor e ardor pelo ministério: George Whitefield





Jorge F. Isah


Esta é uma das muitas biografias sobre o chamado "príncipe dos pregadores", George Whitefield (antes mesmo de Charles Spurgeon ganhar, também, o apelido).

O autor, Steven Lawson, tece inicialmente uma pequena biografia de Whitefield, contando os fatos mais importantes de sua vida: nascimento, conversão, estudos, início do seu ministério, casamento, perdas, e suas "campanhas" evangelísticas no Reino Unido e na América.

Aborda também a amizade com os irmãos Wesley, e as várias disputas teológicas em que se envolveram, incapaz, contudo, de impedir-lhes a fraternidade e um relacionamento profundo de irmandade.

Aspectos gerais de sua vida, lutas, dissabores, esperança, e, sobretudo, a sua dedicação ao ministério evangelístico, de levar Cristo aos perdidos, são brevemente analisados (e as várias tentativas do inimigo, e seus asseclas, de impedir-lhe de pregar e testemunhar a Cristo).

A segunda parte, propriamente dita, trata da compreensão e defesa teológica dos pontos cruciais da fé cristã; e como Whitefield era calvinista, o autor dedica boa parte do livro em esmiuçar a doutrina e a crença que tão fortemente influenciaram o "príncipe" naquilo que foi certamente a motivação de toda a sua vida: o zelo evangelístico!

Trechos de seus sermões são pinçados a fim de validar a análise do autor, bem como depoimentos de outros autores e teólogos que viveram intensamente a época de Whitefield, ou se debruçaram sobre os seus sermões posteriormente, bem como os vários biógrafos. Sobretudo, temos revelado o grande amor de George por Deus, sua obra, a igreja, e os perdidos.

PS: Biografias têm sido o meu alvo, ainda que secundário, neste último ano. Tenho por meta ler, ao menos, duas ou três, especialmente dos santos que, no decorrer da história, dedicaram as suas vidas para a glória de Deus e a expansão do Reino de Cristo. Pois nos servem de aprendizado, estímulo e direção a seguir para, humildemente, nos sujeitarmos a Cristo, dependermos cada vez mais dele, para que ele cresça e diminuamos.


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Avaliação: (***)

Título: O Zelo Evangelístico de George Whitefield

Autor: Steven Lawson

No. Páginas: 162 

Editora: Fiel

Sinopse: "Em um período sombrio de declínio espiritual na Inglaterra do século XVll e início do século XVlll, George Whitefield, conhecido como o grande pregador itinerante por sua notável mensagem que acendeu fogo de avivamento em dois continentes,irrompeu como raios de um céu sem nuvens. Um evangelista incansável que unia teologia profunda a um zelo ardente de ver os perdidos salvos, Whitefild cruzou oceanos e viajou milhares de quilômetros para proclamar o evangelho de cristo. Ao fazê-lo, despertou um reavivamento como nenhuma igreja nunca conheceu. George Whitefiel era um homem de piedade singular e teologia profunda, cuja devoção a deus o levou a arriscar tudo o que tinha para pregar cristo"

20 setembro 2019

SOBRE OPINIÃO VERDADEIRA, FALSA E OUTRAS COISAS






Jorge F. Isah


Sócrates, discorrendo acerca de verdadeiras e falsas opiniões, ligadas diretamente ao fato de se conhecer e reconhecer ou não a realidade, aponta ao sábio e ao tolo, sem confundi-los, em diálogo com o jovem Teeteto (a alusão de Sócrates à cera, refere-se ao ato de, antigamente, uma pessoa imprimir a sua marca em uma borra de cera aquecida, ficando nela, o dístico que a identifica):

"Sócrates - Em resumo: acerca do que nunca se soube nem nunca se percebeu, não é possível, me parece, nem enganar-se, nem formar opinião falsa, se for realmente saudável nossa proposição. Mas justamente nas coisas que sabemos e que percebemos é que a opinião vira e se muda, ficando, a revezes, falsa e verdadeira; quando ela ajusta direta e exatamente a cada objeto o cunho e sua imagem, é verdadeira; será falsa, quando os a de través e obliquamente.

Teeteto - Tudo isso, Sócrates, não está maravilhosamente exposto?

Sócrates - Falarás com maior entusiasmo, ainda, quando ouvires o seguinte. Pensar com acerto é belo; pensar erroneamente é feio.

Teeteto - Como não?

Sócrates - A diferença entre ambos, dizem, provém disto: quando a cera que se tem na alma é profunda e abundante, branda e suficientemente amassada, tudo o que se transmite pelo canal das sensações vai gravar-se no coração da alma, como diz Homero, aludindo a sua semelhança com a cera, saindo puras as impressões ai deixadas, bastante profundas e duradouras os indivíduos com semelhante disposição aprendem facilmente e de tudo se recordam e sempre formam pensamentos verdadeiros, sem virem jamais a confundir as marcas de suas sensações. Sendo nítidas e bem espaçadas todas as impressões, com facilidade põem em relação cada imagem com a correspondente marca, as coisas reais, como lhes chamam. São esses os denominados sábios. Não te parece que está certo?

Teeteto - Maravilhosamente certo.

Sócrates - Quando o coração de alguém é veloso, qualidade decantada pelo poeta sapientíssimo, ou de cera carregada de impurezas, ou muito úmida ou muito seca, as pessoas de coração úmido, aprendem depressa mas esquecem facilmente, e ao revés disso as de coração por demais seco. As de coração veloso, áspero e pedrento, devido à mistura de terra e de espurcícia, recebem impressões pouco claras, por carecerem de profundidade.
Igualmente pouco nítidas são as de coração úmido; por se fundirem umas com as outras, em pouco tempo ficam irreconhecíveis. E se além de tudo isso, por exiguidade de espaço, ficarem amontoadas, mais indistintas se tomarão; os indivíduos desse tipo são propensos a emitir juízos falsos, pois quando veem ou ouvem ou pensam, falta-lhes agilidade para relacionar de imediato cada coisa com sua marca peculiar; são morosos, trocam as coisas, veem e ouvem mal e, no mais das vezes, pensam errado. Daí serem chamado ignorantes e dizer-se que sempre se enganam com a realidade". 
(Fonte: Teeteto, de Platão)

Agora, eu:
Durante anos, vivi assim, como o ignorante mais cego da própria ignorância e condição de tolo, mas desde a minha conversão, posso dizer que Cristo tem me aproximado da verdade, ainda que eu claudique e insista, por vezes, em permanecer na irrealidade.

A Ele, honra e glória eternas!


14 setembro 2019

Teeteto: A imagem de Deus neutralizando o mal






Jorge F. Isah


Sócrates descreveu como exceção, para todos os tempos, mas tornou-se regra nos últimos cem ou mais alguns anos, e é quase unanimidade nos dias atuais, seja por dolo, seja por ignorância e incapacidade de muitos percebê-lo; seja por descuido, apatia ou o desejo de copiar o "espírito" do senso comum. Vamos, então, a ela!

Ao mesmo tempo em que afirmou o "Imago Dei" no homem, ele também descreveu que, quanto mais o homem se afasta de Deus e de sua santidade, mais o "Imago Dei" se esvanece e sucumbe à natureza pecaminosa. Ou seja, aquilo que Agostinho reproduziu séculos depois, e que foi afirmado por profetas, apóstolos, pela igreja em geral e, especial e necessariamente por Cristo, era uma ideia compartilhada com o filósofo gregos.

Evidente que o povo de Deus tem a melhor resposta, na verdade, a única resposta: pois o Deus bíblico e pessoal, na pessoa do Pai, Filho e Espírito Santo é o único Deus. Todos que se aproximarem dele, verdadeiramente (não vale a adesão nominal, quando o coração está voltado e focado no serviço ao pecado), estarão mais distantes dos efeitos noéticos, e do mal a sucedê-lo.

Infelizmente os tolos pensam que não pagarão pelos seus desvios, enquanto um bando de medrosos alisam sua própria vaidade, distraídos o suficiente para não se aperceberem tolos e ludibriados pelo próprio orgulho e presunção.

Mas é, contudo, a imagem de Deus que neutraliza o mal, segundo Sócrates. O que, mesmo não sendo dito dessa maneira pelo Cristianismo, acaba por ser uma percepção cristã: mais próximo de Deus, mais distante do mal. Mais distante de Deus, mais próximo do mal. 


Vale a pena a reprodução do trecho do livro:

"Sócrates: As demais aparências de habilidade e de sabedoria, quando se mostram no exercício do poder público, são conhecimentos grosseiros, nas artes, vulgaridade. Assim, quando alguém é injusto ou ímpio, por ações ou palavras, será melhor não conceder-lhe que todo o seu êxito se baseia na astúcia, pois esse indivíduo se envaideceria com o reparo, muito ancho por ter ouvido dizer, segundo crê, que não é néscio ou fardo inútil sobre a terra, porém homem como terão de ser os que melhor sabem vencer na vida pública. A esses tais é preciso dizer-lhes a verdade: que são tanto mais o que julgam não ser, quanto menos sabem o que são. De fato, todos eles desconhecem qual seja o castigo da injustiça, o que menos do que tudo não se pode ignorar. Não é o que todos pensam; castigos corporais e morte, de que os malfeitores muitas vezes escapam, sendo penalidade a que ninguém se exime.

Teodoro: A que penalidade te referes?

Sócrates: Na própria ordem das coisas, amigo, há dois paradigmas: um divino e bem-aventurado; outro, contrário a Deus e miserabilíssimo. Porém nada disso eles percebem; a enfatuação e a demência em grau máximo os impedem de sentir que com suas ações injustas eles se aproximam do segundo e cada vez mais se afastam do primeiro. São castigados pela vida que levam, conforme ao modelo de sua preferência. E se lhes dizemos que se não renunciarem àquela habilidade, depois de mortos não serão recebidos no local estreme de maldades e aqui em baixo terão de levar vida conforme seu caráter; os maus convivendo com a maldade; tudo isso eles escutam, sabidíssimos e astuciosos, como palavreado vazio, de pessoas desprezíveis"

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Livro "Teeteto"

Autor: Platão

Ebook gratuíto na Amazon




09 setembro 2019

Frankenstein ou o Prometeu Derrotado




Jorge F. Isah


Frankenstein, ou o prometeu moderno, é um exemplar romantista, escrito por Mary Shelley e publicado em 1818, quando tinha 19 anos. 

Especialmente por suas longas descrições, sejam de ambientes, lugares, pensamentos, pessoas, motivações, etc, que caracterizam o estilo literário "romântico", Frankenstein é um exemplar típico desse movimento. Para os não iniciados, pode parecer enfadonho e desnecessário, mas os detalhes auxiliam na compreensão e no clima de suspense/tensão da narrativa. Não o classificaria como um livro de terror; parece-me muito mais um grande drama, uma tragédia, remetendo à literatura grega clássica, a começar pelo subtítulo.

A história começa com o Dr. Victor Frankenstein (muitos imaginam ser o nome da criatura e não do criador) construir um “monstro” a partir de partes e pedaços de corpos. Após dois anos de intensos estudos, descobre a fórmula de dar vida à sua criatura, causando-lhe aversão e asco, levando-o a abandoná-la. Pararei por aqui, na descrição, para não estragar o ânimo do futuro leitor, e me aterei ao que mais me chamou a atenção no enredo.

Como disse, é um livro com inúmeras descrições, pormenores e detalhes que podem cansar o leitor não acostumado com a literatura romântica, ou romantismo. Parecem se arrastar e se repetir em muitos momentos, mas são necessários para criar um vínculo, ou melhor, uma sintonia do leitor com o relato. É notória a repetição das descrições sobre a “criatura” especialmente por Victor, que não se cansa de chamá-la de “monstro” e “demoníaca”.

Aspectos morais e éticos são abordados pela autora, em especial as consequências das escolhas, mormente as ruins, notadamente o mal a acometer inocentes que em nada colaboraram para as decisões equivocadas. Frankenstein e sua criação travam um embate onde ninguém próximo sairá ileso, nem eles próprios. Algo que Shelley vislumbrou há 200 anos, como um desastre de grandes proporções se continuado, paira sobre a humanidade com os inúmeros experimentos genéticos em curso. Até que ponto, podemos brincar de Deus? Sem que a nossa “criação” se volte contra nós mesmos?

Se no racionalismo a razão é a mãe e explicação para todos os eventos e comportamentos e decisões, no naturalismo sobram sentimentos sem qualquer explicação racional. Por que Victor desejou fazer-se Deus e criar um monstro? Por que abandonou a sua criação? Perdendo o aparente controle sobre ela? E a criatura, desprezada e hostilizada, experimentou o mal que não conhecia?... Leva-me à Queda, quando o homem rejeita o Bem-Supremo para viver no inferno interior, tão vil que se propaga ao seu redor, como uma peste, corrompendo e infectando quase tudo. Se a criatura é o mal, Victor é o impotente homem incapaz de combate-la, antes faz apenas “excitá-la” a produzir ainda mais o caos, desordem, dor e morte.

Se antes a vida de Frankenstein era permeada pela completa ordem familiar, profissional, acadêmica, amorosa, fraternal, após a “liberdade” do monstro tudo vai se desvanecendo rapidamente; resta apenas o remorso e o ardente desejo de vingança a consumi-lo. Vê-lo perder a harmonia, fruto do seu egoísmo, orgulho e fraqueza, permite-lhe apenas uma saída: enfrentar o monstro. Entretanto, como combater e vencer algo maior e mais forte? Por onde passa, o "monstro" leva-o de roldão, um caminho repleto de desgraças.

A analogia com o pecado, e seu poder sedutor e controlador é inevitável, e deve nos colocar em estado de alerta, a fim de não sucumbirmos ao seu poder. Pois, depois de instalado, resta-nos a sujeição, feito escravos; e a aversão, o nojo, culpa e escrúpulos não são suficientes para derrota-lo, pelo contrário, faz com que se ria, e delicie-se, ainda mais de nós e da nossa moral, não muito distante dos "trapos de imundície". É melhor não cogitar ou aventar a hipótese do "monstro", para não se ver aterrorizado, encurralado, ou destruído por sua "força".  

No fim das contas, o "monstro" vence, ainda que ele mesmo seja vítima do seu desejo pérfido, e pague, a seu tempo, a conta por seus crimes.

Um livro que vai muito além da mera diversão, para levar-nos do sossego a inquietação, com toda a complexidade da vida.


_________________ 
Avaliação: (***)

Livro: Frankenstein ou o Prometeu Moderno

Autora: Mary Shelley

No. Páginas: 304

Editora: DarkSide

Sinopse: "No aniversário de duzentos anos de sua criação, FRANKENSTEIN volta a caminhar entre nós, numa edição monstruosa como só a DarkSide® Books poderia lançar. A obra-prima de Mary Shelley merece. Seu livro de estreia é um marco do romance gótico, verdadeiro ícone do terror e influência fundamental para o surgimento da ficção científica. A criatura de Frankenstein é considerada o primeiro mito dos tempos modernos.Para compor sua bem-sucedida experiência literária, Shelley costurou influências diversas, que vão do livro do Gênesis a Paraíso Perdido, da Grécia Antiga ao Iluminismo. O resultado é uma daquelas histórias eternas, maiores do que a vida. Leitura obrigatória em países de língua inglesa, FRANKENSTEIN é muitas décadas anterior à obra de Poe, Bram Stoker ou H.G. Wells, e vem sendo publicado ininterruptamente desde 1818. Pouco menos de dois anos antes, a criatura nascia numa noite de tempestade à beira do lago Genebra.No verão de 1816, Mary e um grupo de escritores ingleses ― seu marido, Percy Shelly, o poeta Lord Byron e John William Polidori ― dividiam uma casa na villa Diodatti, na Suíça. Entusiasmados pela leitura de uma edição francesa de Fantasmagoriana ― coletânea de histórias sobre aparições, espectros, sonhos e fantasmas ―, os quatro aceitaram o desafio de escrever um conto de terror cada. Mary concebeu a origem de FRANKENSTEIN. E curiosamente, Polidori escreveu o que viria a ser O Vampiro, romance que serviria de inspiração para Drácula, de Bram Stoker. A história de Victor Frankenstein seria reinterpretada incontáveis vezes. Ainda no século XIX, era levada com sucesso ao teatro. A primeira aparição no cinema data de 1910, mas foi em 1931 que Boris Karloff deu um rosto definitivo à criatura no imaginário popular. O livro de Shelley, assim como o filme de Karloff, serviria de inspiração para a imaginação de artistas como Tim Burton, Clive Barker, Wes Craven, Mel Brooks, Alice Cooper, Roger Corman. As referências estão em todas as partes: nos monstros da Universal Studios e da Hammer Films, na comédia musical de horror The Rocky Horror Picture Show, em filmes como Reanimator, inspirado no conto de H.P. Lovecraft, em álbuns como Yellow Submarine, no universo das HQs da Marvel e da DC Comics, em games como Castlevania, e em séries e desenhos clássicos como A Família Addams e Scooby-Doo.A lista é interminável. São tantas versões que é quase impossível não estar familiarizado com a história: Victor é um cientista que dedica a juventude e a saúde para descobrir como reanimar tecidos mortos e gerar vida artificialmente. O resultado de sua experiência, um monstro que o próprio Frankenstein considera uma aberração, ganha consciência, vontade, desejo, medo. Criador e criatura se enfrentam: são opostos e, de certa forma, iguais. Humanos! Eis a força descomunal de um grande texto.Mas quando foi a última vez que você teve a chance de entrar em contato com a narrativa original desse que é um dos romances mais influentes dos últimos dois séculos? Que tal agora, na tradução de Márcia Xavier de Brito?"


26 agosto 2019

A escuridão da própria alma ou Tonio Kröger





Jorge F. Isah


Nesta novela, temos outro “experimento” de Thomas Mann em busca de um apuro e sentido literários. Vários dos elementos presentes nas suas obras posteriores estão, ainda que incipiente, por aqui: longas reflexões; amores platônicos e inalcançáveis; a futilidade existencial; a mistura étnica; o apelo ao belo, à virtude; a importância das coisas mais corriqueiras e banais; a amizade e a lealdade, ou a perda dela; os conflitos entre pares; e o cruzamento constante entre distintos... em suma, o desafio de viver. 

Tudo começa com o jovem Tonio Kröger (cujo nome detestava, por remetê-lo à latinidade indesejada), filho de um cônsul alto, branco, culto, discreto, severo, e figura destacada na cidade; e a mãe, uma mulher sul-americana, morena, inculta e dada a extravagâncias. Os pais são opostos; e o garoto se vê entre o antagonismo deles, sem se dar conta do seu lugar na família, assim como na escola e entre os colegas. 

Sendo um aluno medíocre, indiferente aos professores e à direção de ensino, apresenta boletins sofríveis, causando a censura e repreensão do pai, e o descaso da mãe. Refugia-se escrevendo poemas e na amizade (quase o endeusamento) do amigo Hans, um tipo diferente: alto, loiro, olhos azuis, causando-lhe a admiração e os ciúmes próprio da amizade. Alguém pode entender o amor de Tonio por Hans como algo físico e carnal, um amor homossexual (infelizmente, se havia o estigma de o homem não poder amar outro homem, como sinal de fraqueza ou afetação [o que dizer do amor de um pai por um filho, ou de um irmão por outro, ou de um amigo por outro? Seria mesmo impossível?], hoje toda forma de amor entre homens tem de ser, quase necessariamente, homossexual. Saímos de um extremo nocivo para outro ainda mais nocivo. Então, qualquer tipo de amor entre homens na literatura, no cinema, teatro ou artes em geral, terá de ser carnal), o que acaba por acontecer efetivamente em “Morte em Veneza”, mas aqui não passaria incólume à coação ideológica. Para a desgraça deste mundo, o amor tem se tornado apenas fluídos e orgasmos, e obsessão por eles. 

Tonio nutre uma admiração excessiva, venerável, ao amigo, pois ele era exatamente aquilo que desejaria ser: belo, inteligente, destacado e querido, tanto pelos colegas como pelos professores. Para Tonio, inferior física e intelectualmente, quase um pária, sem ter a simpatia de outro a não ser de Hans, nada mais natural do que a reverência ao amigo (com doses de inveja, diga-se), e aproximar-se daquele que não parece se importar com os seus defeitos ou insignificância, tendo-o por igual. 

A novela relata momentos marcantes da vida de Tonio, essenciais para a formação do seu caráter e futuro. 

Posteriormente, se enamora (platonicamente) por uma colega, a deusa loira, Inge Holm. 

Então, de maneira errante e sinuosa, como toda a sua vida, encontramo-lo adulto, e já um escritor com algum reconhecimento. Esse é o seu refúgio, o lugar onde verdadeiramente se vê e se encontra, ainda que tortuoso, no qual Mann faz uma elegia à literatura e a sua capacidade de redimir, intimamente, o mundo daqueles alijados e insociáveis. Essa é a única “bênção” vislumbrada por Tonio, em sua acentuada autoexclusão. Ressalto que, como em outros livros, Mann insere elementos autobiográficos em muitos dos seus protagonistas, e aqui não é diferente. 

De certa forma, há em Tonio um estranhamento com o mundo “ariano”, dominado por loiros de olhos azuis, enquanto a sua pele morena e olhos escuros o distinguem sobremaneira, isolando-o, fazendo-o não se reconhecer em lugar algum, nem ao lado de ninguém. Anseia as coisas comuns, banais, mas é incapaz de destituir-se da pompa e nobreza herdada, acabando por, de alguma maneira, desprezar o ansiado. Mesmo entre os seus, não encontra lugar, vivendo à margem, como um mero observador, passivo. Sua indolência está refletida na relação da sua mãe com o padrasto (casou-se após o falecimento do pai) e a união de Hans e Inge, em sua cerimônia nupcial, as quais não reage, deixando-se sucumbir nelas. 

Mann parece demonstrar que o mundo pode ser um campo de alegria, felicidade e vitória, desde que se tenha os predicados e a ordem necessárias. Tonio, um estranho e indesejado, é o próprio caos, o transtorno, a impossibilitar-lhe alcançar o que apenas os “bons” ou predestinados conseguiriam. 

Entretanto, existe uma esperança, latente, na qual o protagonista se escora visando mudanças e se autorresgatar do fracasso, no dizer a Lisavieta, sua confidente: 

"O que fiz é nada, não muito, quase nada. Farei coisa melhor, Lisavieta - isto é uma promessa. Enquanto escrevo, o mar murmura até aqui e eu fecho os olhos. Olho para um mundo inato, quimérico, que quer ser ordenado e culto; olho para um formigar de sombras com aspecto humano que acenam para mim, a fim de que as esconjure e liberte...".

Caso não consiga, ainda resta-lhe as sombras e, ironicamente, descrever a escuridão da própria alma.


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Avaliação: (***)

Livro: Tonio Kröger

Autor: Thomas Mann

No. Páginas: 96

Editora: Cia das Letras¹

Sinopse: 
"O volume traz ainda Tonio Kröger, narrativa de 1903 que Thomas Mann declarava ser uma de suas favoritas. A novela tem diversos traços autobiográficos e está centrada na relação entre artista e sociedade, um tema muito caro à obra de ficção do escritor, sobretudo nos primeiros trabalhos."

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¹Indiquei a Edição da Cia. das Letras, porque é a única à venda, atualmente, e inclui a novela "Morte em Veneza". Como os livros que li, tanto "Tonio" como "Morte" são individuais, mas não estão disponíveis em português, a não ser em sebos, não me restou outra opção. 

19 agosto 2019

Figuras de linguagem em "Arpeggios Insulares"



       Análise das figuras de linguagem a partir do livro "Arpeggios Insulares", por Wlange Keiné. 

       Para assistir, clique no vídeo abaixo!

      Ou vá ao Youtube em Ficçomos 



16 agosto 2019

A vida por um fim em "A vida peculiar de um carteiro solitário"





Jorge F. Isah



O livro trata de assuntos ada vez mais inseridos no mundo moderno: a solidão, a perda, ou a confusão, de identidade, abstração e uma boa dose de voyeurismo. O protagonista é um carteiro solitário, Bilodo, que preenche o seu vazio lendo as correspondências dos clientes e exercitando a arte da caligrafia. Especialmente, agrada-lhe muito as correspondências de uma professora residente em Guadalupe, Ségolène, endereçadas a Gaston, professor e poeta, morador em Quebec, como Bilodo. Entretanto, o único conteúdo são haikais, um a cada carta enviada, o que acaba por levar o carteiro ao mundo da literatura, diga-se, japonesa.

Em meio a uma reviravolta na história (algo previsível, ao menos para mim, que imaginava o desfecho), Bilodo assume a identidade de Gaston, mantendo a troca de missivas com Ségolène. Neste ponto, a paixão pela professora havia se instalado no seu coração, e a única forma de sustentar o seu deleite platônico era manter a troca de correspondências. 

É possível perceber como em um mundo digital, onde as comunicações estão ao toque dos dedos, as pessoas encontram-se mais solitárias, deprimidas, vulneráveis e, em alguns casos, suicidas. O suicídio tem sido a “saída” para a debilidade dos homens modernos, assim como os prazeres fugazes (sexo inconsequente; drogas; álcool; “adrenalina”; e tantas outras “loucuras” que tentam mostrar aos seus praticantes que estão vivos, ainda que por alguns minutos ou horas) são placebos a aplacar a angústia e dor na alma. 

Ele vê nos seus poucos amigos e colegas um espirito vil, desprezível, mantendo-se ainda mais distante deles, em suas compulsões pela degradação e libertinagem. A sua ordem interior é quase ascética, se não fossem os seus “arroubos” em furtar o conteúdo das cartas. Para ele, os demais encontram-se em um estado de constante imoralidade e exibicionismo (outro ponto notadamente “moderno”). Prefere o lirismo dos haikais, a sutileza das palavras singelas, a esperança no sonho, e a alma preenchida pelo belo, inocente, puro. 

Entretanto, o homem é um ser pecaminoso, e ele o sabe, ao ponto de quebrar regras, infringir leis, para satisfazer os desejos mais íntimos. Contudo, a paz, a ordem e a harmonia são rompidas, quando o amor platônico e diáfano entre a professora e o carteiro toma cores reais, invadindo a privacidade de Bilodo, na iminente exposição da sua trapaça. Ele vai ao desespero. Neste intercurso, sofre as consequências do seu plano, descoberto pelo melhor amigo, Robert, expondo-o sorrateiramente. Bilodo vê o seu mundo desmoronar por completo, e a única pessoa que o amava, como realmente era, Tania, torna-se também inimiga (por causa de uma trapaça de Robert). 

O final, com elementos fantásticos e místicos, provavelmente resultante do “espírito” da poesia japonesa, era um dos desfechos que considerei possível, quando Bilobo assume uma dupla identidade (quase o levando a anular a verdadeira). 

Muitos consideram este livro um romance, pequeno, mas romance. Eu o tenho como uma novela: personagens sem muita profundidade, trama simples, narrativa rápida, ações essenciais dos personagens para a trama, unicidade e linearidade no enredo. 

“A vida peculiar de um carteiro solitário”, escrita por Denis Theriault, é um livro leve, com uma linguagem etérea, quase sublime, onde o amor pode ser incomparavelmente puro, casto, podendo descambar, a qualquer momento, para os vícios comuns do homem. 

O livro foi um frescor, ainda que tenha me dado a impressão de ser voltado para um público mais juvenil e feminino, em meio a aspereza e acidez das últimas leituras. 


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Título: A vida peculiar de um carteiro solitário

Autor: Denis Thériault

Editora: Leya

No. Páginas: 128

Avaliação: (***)

Sinopse:

"Bilodo vive a tranquila vida de um carteiro sem muitos amigos nem grandes emoções. Completa diariamente seu percurso de entrega e retorna sempre à solidão de seu pequeno apartamento em Montreal. Mas ele encontrou uma excêntrica maneira de fugir dessa rotina: aprendeu a abrir as correspondências alheias sem deixar rastros e passou a ler as cartas pessoais com as quais se depara. E foi assim que ele descobriu o primeiro grande amor de sua vida: a jovem professora Ségolène, que mantém uma misteriosa correspondência com o poeta Gaston, composta somente por haicais. Instigado pela elegância e simplicidade de seus versos, Bilodo se vê cada vez mais fascinado por essa forma de poesia. Mas quando é confrontado com a perspectiva de se ver privado das cartas de Ségolène, ele precisa tomar uma decisão que pode levá-lo mais longe do que podia imaginar. Talvez seja hora de compor seus próprios poemas de amor. “Peculiar e charmoso com um desfecho bem executado , esta novela traz à mente nada menos do que um Kafka apaixonado” The Guardian Sobre o autor: Nascido na costa norte do Golfo de St. Lawrence, Quebec, Denis Thériault tem licenciatura em psicologia, é um roteirista premiado e vive com sua família em Montreal. Seu primeiro romance, L'iguane, foi publicado com grande aclamação da crítica e ganhou os prêmios literários France-Québec 2001, Anne-Hebert 2002 e Odyssée 2002. Este é seu segundo romance."







08 agosto 2019

O algoz de todo homem em "O Juiz e o seu Carrasco"





Jorge F. Isah


Este livro me caiu no colo, quase por acaso. Estava procurando algumas novelas policiais, já que Cormac McCarthy está me consumindo com o seu “Meridiano de Sangue”, e pensei em ler algo, digamos, mais leve. E gostei do título: "O Juiz e o seu carrasco". Procurei um exemplar físico, mas encontrei apenas na Estante Virtual, então optei por comprar o ebook na Amazon. E o livro me surpreendeu. Uma história curta, pouco mais de noventa páginas, trouxe mais surpresas do que muito calhamaço famoso por aí. Dürrenmatt é pouco conhecido no Brasil. Praticamente, a sua única obra traduzida para o português é esta.

O assassinato de um policial é o mote para a vingança do inspetor Bärlach, que aguarda há 30 anos concretizar-se. A narrativa é fluída, simples, e reverencia o gênero “noir”, com um policial solitário, enigmático, que vara as noites insone ou cruzando as ruas e estradas atrás das pistas a desvendarem o crime. Para complicar, Bärlach é um velho, sexagenário e doente. Mas nada o impede de traçar um plano para finalmente vingar-se e ainda solucionar o crime. A luta que ele trava com o seu oponente é mais ou menos a batalha entre Davi e o Golias, sem que evoque o nome de Deus. Bärlach não tem amigos, mas uma grande lista de inimigos e desafetos.

Pouco depois da metade do livro dá para deduzir quem é o verdadeiro criminoso, se houver a atenção devida na narrativa. Não é surpreendente, mas está em perfeita harmonia com as pistas lançadas alhures pelo autor; nesse tipo de livro a atenção e observação são tudo.

Questionamentos sobre a justiça, seu significado em um mundo injusto, onde facínoras vivem ostensivamente no glamour, seguros da impunidade e perpetuação dos seus malefícios, levam o protagonista a descrer que ela possa se realizar “oficialmente”, restando-lhe trazê-la à realidade de maneira informal, porém, minuciosamente planejada.
Em meio à sua luta por justiça, ou vingança, ele lutará pela vida, e guardará cada momento de lucidez no esforço (mais físico que intelectual) de levar a cabo o seu projeto.

O Juiz e o seu Carrasco foi uma grata surpresa, não necessariamente por sua história que, se não é banal não é também original. Vale as muitas reflexões sobre a vida, os objetivos e o desenrolar de uma obsessão por justiça, como se fosse realmente um juiz, e poder se entregar definitivamente ao seu carrasco, à espera de ser retirado deste mundo, no golpe fatal da foice do algoz de todo homem.

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Livro: O Juiz e o seu Carrasco

Autor: Friedrich Durrenmatt

No. Páginas: 108

Editora: L&P Pocket

Sinopse:

"Em uma cidadezinha suíça, um policial exemplar é encontrado morto. Bärlach, um velho e doente comissário, amante de cigarros, de vodca e da boa mesa, investiga essa morte – ao mesmo tempo em que luta contra a sua própria, que parece cada vez mais próxima. Enquanto a polícia se vê às voltas com figurões locais, oficiais oportunistas tentam subir na carreira, e Bärlach faz as suas arriscadas jogadas. Na sombra, o assassino, um tipo maquiavélico, disserta sobre o bem e o mal, que ele considera possibilidades iguais...

Tendo como mote principal uma intriga policial, O juiz e seu carrasco, uma das obras mais conhecidas do escritor suíço Friedrich Dürrenmatt (1921-1990), trata, na verdade, num tom sarcástico, da tragédia da morte e da doença, da risível comédia humana. Uma pequena obra-prima à altura dos mestres Dashiell Hammett, Rex Stout, Raymond Chandler e Georges Simenon."

Avaliação: (***)

Conclusão Final: Recomendado



05 agosto 2019

Sermão em Lucas 1.11-13: Aquele que fez o ouvido não ouvirá?






Jorge F. Isah


**Para ouvir o áudio da pregação acesse: Tabernáculo Batista Bíblico 


1) Sabemos que o Senhor ouve orações. 

- Há vários relatos bíblicos mostrando o clamor dos servos ao Senhor, e a sua resposta atendendo-as. 

- O Salmos 94.9 diz: “Aquele que fez o ouvido não ouvirá?”

- Sim, é claro que o Senhor ouve!


2) Como ilustração, citarei alguns exemplos similares ao de Zacarias e Isabel, sobre promessas cumpridas. Leiam os textos indicados!

- Abrão e Sara, em Gênesis 18:9-14

- Isaque e Rebecca, em Gênesis 25:20-21

- Ana, em 1 Samuel 1:10-11, 17 -20.

- Agora temos o relato de Lucas acerca de Zacarias: Lucas 1:11-13

- Estes homens e mulheres clamaram ao Senhor insistentemente, como os casos de Isaque, Ana e Zacarias. Abraão já estava conformado em deixar os seus bens para um herdeiro nascido em sua casa, seu servo e mordomo Eliezer (Gn 15:2-4) . 

Por que estou fazendo essas comparações e distinções?


3) Existem estudos que apontam para a não insistência na oração. Dizem que devemos pedir a Deus apenas uma vez e confiar que ele ouviu e nos atenderá. Não devemos “molestar” o Senhor com súplicas repetitivas, incomodando-o. 

- Outros apelam para o poder da fé, no sentido em que, se nos investirmos da autoridade de Cristo (que nos é imputada), “determinando” que tal coisa aconteça, e não vacilarmos, todos os nossos pedidos serão atendidos (mesmo aqueles gastos com os nossos prazeres e deleite). 

- Outros mais, se rebelam à menor contrariedade, amaldiçoando e imputando a Deus a não realização do desejo, como se ele fosse um “gênio da lâmpada” e o evangelho “a lâmpada”, que esfregada obriga o gênio a realizar não apenas três, mas todos os desejos “ordenados” (o significado de determinar é o mesmo de ordenar, não somente pôr em ordem, mas instituir, estabelecer, decretar. Esta é uma prerrogativa divina, e jamais as criaturas, ainda que filhos e filhas, possam reconhecer como seu atributo). 

- E existem, ainda aqueles, que sequer creem no que oram, e não acreditam que o Deus pessoal está a ouvi-los. 

- Voltando aos textos sagrados, eles nos mostram a perseverança de alguns quanto ao pedido de oração, em clamar a Deus repetidas vezes pelo mesmo desejo. Mas também da simples disposição divina em atender-lhes, mesmo não pedindo algo específico, como o caso de Abraão.

- Caminhemos mais um pouco...


4) Tiago, por outro lado, nos diz que se pedir sem fé não receberemos o que pedimos (Tg 1.5-8). 

- Seria fé a certeza do que pedir, e de que Deus o atenderá? Ou a fé na certeza de que Deus está ouvindo? E o responderá positiva ou negativamente? Já que, para nós cristãos, o pedido não atendido é também resposta do Senhor para algo que não está em conformidade com a sua soberana vontade.

(Pensamento dobre: uma hora quer uma coisa, outra hora quer outra, não sabe ao certo o que quer ou pedir. Seria isso? Ou as dúvidas quanto o ouvir de Deus ao pedido?)


5) Por mais que se apontem “formas” para uma oração ser atendida, um tipo de oração bíblica, o fato é que Deus não age conforme os ideais e limites impostos pelo homem, mas sem sua infinitude e perfeição e sabedoria segundo o seu santo conselho. 


6) Paulo, por exemplo, pediu três vezes que Deus tirasse o espinho da sua carne. – 2 Co 12.8

- O que disse o Senhor ao apóstolo? “A minha graça basta!”

- O suficiente para trazer paz a Paulo, porque a graça é tudo o que o cristão necessita em sua totalidade. Foi assim com os patriarcas, profetas, apóstolos e cristãos em todos os tempos e lugares. 

- A aflição e inimizade do mundo para com os crentes é muito mais viva e real do que os favores ou benefícios que porventura nos dê. O sofrimento, por amor de Cristo e o evangelho, é a regra entre os cristãos. A exceção seria o reconhecimento e o favor do mundo. 


7) A oração antes de ser uma petição é intimidade com Deus, revelando a nossa dependência e sujeição a ele, e submissão à sua vontade.

- Deus sempre responderá às nossas petições, quer positiva ou negativamente. Atendendo ao pedido ou não, Deus está sempre a nos ouvir, e agirá segundo o seu santo conselho. 

- Ao não nos atender é sinal de que Deus não se compadece de nós? Nos abandonou? Deu-nos as costas? Certamente, não!


8) Vejamos o exemplo de Jó, homem reto e justo, ao ponto de aguçar a ira de Satanás, que pediu a Deus permissão para molestá-lo, de maneira terrível; primeiro tirando-lhe os bens e os servos, depois a casa e os filhos, por fim, a sua saúde. 

- Qual foi a sua resposta? Praguejar, insultar, amaldiçoar a Deus? Não: “Então Jó se levantou e rasgou o seu manto, e raspou a sua cabeça, e prostrou-se em terra e adorou; e disse: Nu saí do útero de minha mãe, e nu retornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou. Abençoado seja o nome do Senhor. Em tudo isto Jó não pecou, nem culpou Deus de maneira tola.” ( Jó 1:20-22)

- Mas, o que fez a mulher de Jó? “Aconselhou-o” desgraçadamente: “Então disse a sua mulher a ele: Ainda reténs a tua integridade? Amaldiçoa a Deus, e morre. Mas ele lhe disse: Como costumam falar as mulheres tolas, hás falado tu. Se receberemos o bem da mão de Deus, não receberemos o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios” (Jó 2:9-10)


9) Lembre-se do que o Senhor disse a Paulo, e que aquietou-o, e deu paz à sua alma: 

“A minha graça lhe basta!”

- Oramos com essa certeza? Ou nos primeiras dificuldades nos sentimos injustiçados, desgraçados, sem graça?


10) Voltando a Lucas 1.18-20, mesmo o anjo aparecendo a Zacarias, ele duvidou e pediu-lhe provas. 

- Mesmo tratando com um incrédulo, Deus atendeu o seu pedido, segundo o conselho do seu Espírito, dando-lhe o filho insistentemente clamado: João o Batista. 


11) Então, que nos resta fazer?

- Fazer escolhas corretas e santas antes de orar, sabendo que o Senhor está ouvindo, confiantes nesta promessa. Depois, devemos orar, crer, esperar, e confiar que, qualquer que seja a decisão de Deus, ela será perfeita, santa e justa, pois contemplaremos a sua vontade. 

- Não duvidemos, portanto, de que ele ouve, nem do seu poder em atender o nosso pedido, mas se não o temos atendido, não saímos a blasfemar ou insultá-lo, porque, como Paulo bem o experimentou, a graça do Senhor é bastante para nós, hoje e sempre! 


Amém!