25 junho 2026

Tania e o bordel: Patty Hearst e o SLA

 




Jorge F. Isah

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Você já ouviu falar de Patricia Campbell Hearst? Não? E Tania? Sabe quem foi? Ou foram? Pois bem, vou explicar: Patty Hearst, para os íntimos, é neta do bilionário das comunicações americanas William Randolph Hearst, o mesmo retratado por Orson Wells em “Cidadão Kane”, de 1941. Se quiser saber um pouco sobre a vida e os métodos jornalísticos do vovô Will, assista à película, ganhadora do Oscar de melhor roteiro, e considerado pela crítica mundial como o melhor filme de todos os tempos — há quem duvide... muitos negam... mas a maioria das pessoas sequer sabe da existência deste e de outros excelentes filmes, especialmente quando se está enfeitiçado, ou melhor, abduzido, pelos produtos da Marvel e D.C. Comic.


Retro Review: Citizen Kane - Geeks Under Grace  Wells como Hearst


Patty, em 1974, aos 20 anos, foi sequestrada pelo grupo revolucionário/marxista americano chamado Exército Simbionês de Libertação — a nota engraçada é que se autodenominavam “libertação” mas faziam mesmo era roubar, sequestrar, assassinar e cometer outras violações da liberdade — cuja bandeira era o fim do racismo, da monogamia e do sistema penitenciário — alguma semelhança com boa parte da plataforma dos partidos brasileiros?. Como não existe coerência e lógica entre revolucionários, o primeiro assassinato foi, por incrível que pareça, de um negro. Sim, o professor Marcus Foster, o primeiro negro a ocupar o cargo de superintendente das escolas em Oakland, Califórnia, morreu a tiros em 1973.


Homem de terno e gravata

Descrição gerada automaticamente  Marcus Foster assinado pelo SLA


Durante o cativeiro, Patty simpatizou-se com seus algozes (Síndrome de Estocolmo), mudou o nome para Tania (homenagem a uma das namoradas de Che Guevara), e participou de incursões criminosas, mais notadamente o assalto ao Hiberna Bank, em São Francisco, e ao SLA de Crocker National Bank , em Carmichael, quando a cliente grávida, Myrna Opsahl, foi morta à queima-roupa por Emily Harris, enquanto fazia

Desenho de um homem

Descrição gerada automaticamente  Myrna Opsahl morta pelo SLA

 

um depósito. Segundo relatos dos próprios integrantes do SLA — o símbolo era uma cobra de 7 cabeças — Harris afirmou ter matado a mulher por ela ser burguesa, branca e apenas um efeito colateral. Por 19 meses, Hearst atuou disparando suas armas contra civis e policiais até ser presa e condenada em 1975 (em 1979, Jimmy Carter - só podia ser ele - comutou a pena e Patty ganhou liberdade).

 

Foto em preto e branco de homem com arma na mão

Descrição gerada automaticamente com confiança média  

Tania em assalto a banco


Patricia Hearst afirma, ainda hoje, ter sofrido lavagem cerebral durante o sequestro, e por isso não se considera responsável por seus atos. Parece uma boa tática... Muitos brasileiros certamente poderão aderir a esse discurso, afinal, dia e noite são bombardeados por todos os tipos de mensagens explícitas ­ — não se preocupam mais em fazê-las subliminares — a fim de fugirem da realidade e lutarem por um paraíso terreno. Enquanto cada um colabora com o seu quinhão para tornar mais satânica a terra do Dr. No... Bem, se não nasceu aqui, certamente se naturalizou e faz as suas estripulias por todo lado, de norte a sul, de leste a oeste, seja de terno, toga, farda ou camiseta regata.

Infelizmente, não existe um James Bond para combatê-los... Existir até existe, mas ele está confinado a um bordel ultrassecreto... e de lá não quer sair.        

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17 junho 2026

O Silêncio, de Don DeLillo

 



Jorge F. Isah

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O Silêncio, como boa parte da obra de Don DeLillo é um livro estranho, ou como o amigo Michel Salomão gosta de definir: esquisito. Ele parece ter uma fixação com o apocalipse, o fim dos tempos, e muitas vezes parece indicar que, quanto mais tecnológico e avançado, mais a humanidade se coloca em risco. Seus personagens são gente comum, que levam uma vidinha medíocre, mas têm pensamentos e atitudes que beiram a anomalia. Ao descrevê-los em seus ambientes comuns, em suas relações comuns, permeadas por ações comuns, o autor imerge-os numa normalidade moderna e extremamente imanente, porém, reserva-lhes as suas parcelas de excentricidade e quase demência.

      Em O Silêncio, uma novela (há quem a repute um romance, mas vai que cola) temos o encontro de dois casais de amigos e um ex-aluno, numa noite em Nova York em que a atenção está voltada para a final do SuperBowl — DeLillo utiliza o evento como se fosse um objeto de culto, um altar coletivo, onde os torcedores e espectadores seguem à risca a liturgia estabelecida pelas normas sociais. O que os personagens não percebem é o fato de que o esporte, o trabalho, o sexo, entre outras práticas modernas, se inserem no rol dos “substitutos” visíveis, a tentativa de escorarem a vida nos mecanismos imanentes.

Nesse ínterim, ocorreu um colapso nas redes de comunicação, internet, ocasionando uma espécie de apagão digital. O pânico se forma de maneira irreversível, enquanto as pessoas estão assustadas, pois a vida como conhecem está num estado de interrupção, sem que se saiba a causa e por quanto tempo durará. Com isso, vem a insegurança e incerteza em relação aos rumos que o mundo tomará, ao menos naquele momento. 

O silêncio das telas, rádios e comunicadores simboliza o desamparo e o estado de estupefação em que as pessoas se encontram, tornando-as formigas diante do fogo. Os pensamentos são divagantes e disruptivos. No fundo, as pessoas não estão preparadas para o silêncio ou a escuridão, mesmo que vivam neles; é necessário haver brilho e sons artificiais para distraí-los da intimidade perigosa de suas naturezas.

Enquanto bebem, dormem, entre diálogos inconstantes, os olhares se fixam na tela escura que, em última instância, é o reflexo de suas consciências confusas e anestésicas. O apagão revela aquilo que não podem ver, muito mais do que aquilo que podem. É como se o mundo não perdesse significado mas, simplesmente, estava além da possibilidade de eles apreenderem-no. A vida se esvazia ao ponto em que o silêncio anseia por tagarelice, e serve para indicar aquilo que nunca se teve e, contudo, não se quer perder. É o nonsense existencial, onde a falta de bits e pixels, isolam as pessoas dos verdadeiros significados e as deixam à deriva sem os seus manuais de instruções.

A literatura de DeLillo não tem aspectos transcendentes e, talvez, por isso, ela reproduza tão bem a inadequação humana perante a realidade. Para ele, a perda de sentido e ordem não necessitam de grandes eventos, catástrofes naturais ou cósmicas. Basta a perda do conforto ou uma ameaça pueril para fazer o homem voltar à caverna, assustado com o brilho e estrondo de um relâmpago.

Ele revela a fragilidade humana e o quão incapaz é de controlar não somente os eventos mas a própria existência. E, por isso, não é difícil encontrar respostas, mesmo em um mundo que insiste obstinadamente em não as encontrar.

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Avaliação: (***)

Título: O Silêncio

Autor: Don DeLillo

Editora: Cia das Letras

Páginas: 112




10 junho 2026

Buster Keaton: A sacralidade da comédia

 




Jorge F. Isah

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Em um mundo onde a expressão “gênio” se banalizou e serve de referência para qualquer artista “meia-boca”, desdentado, e alguns incapazes de digerir a própria nulidade, Buster Keaton foi, na acepção da palavra, um dentre os poucos gênios da comédia. Nos primórdios do cinema, ainda mudo, em preto e branco, utilizando equipamentos rudimentares e técnicas ainda não exploradas — muitas em uso ainda hoje —, ele, juntamente com Chaplin e, talvez, apenas talvez, Harold Lloyd, formaram a tríade ou a nata do humor. Eles criaram gêneros, estilos e aperfeiçoaram o que artistas posteriormente copiaram e adaptaram — uns com sucesso, outros, sem talento, foram incapazes de reproduzir.

Antes que me esqueça, há uma cena no filme “Luzes da Ribalta”(1952), de Chaplin, onde o ator britânico contracena com Keaton em uma espécie de recital: Buster ao piano e Charles ao violino. A ação é impagável!.. Sempre houve uma certa “disputa” entre os fãs de Keaton e Chaplin quanto a quem seria o maior entre eles. Nessa época, o americano estava meio esquecido em Hollywood, e o inglês estava no auge da fama. Chaplin, a fim de reconhecer o talento do “rival” e trazê-lo de novo às luzes, convidou-o pessoalmente a integrar o projeto. Além de um gesto digno e generoso, Charles foi justo em sua homenagem. 


Uma lástima, para a grande massa, Keaton não ser conhecido além do grupo de aficionados e estudiosos; e muito se deve, apesar do seu talento superlativo, ao fato de nunca ter sido um bom marqueteiro, e de algumas péssimas escolhas para a carreira, quando estava no auge da fama.

Ator, trapezista, diretor, produtor, roteirista e mais uma gama de outras habilidades a desempenhar com elevada aptidão, Joseph Frank Keaton nasceu em 1895, em Piqua, Kansas. Filho de pais que trabalhavam no vaudeville itinerante, sua mãe, Myra Keaton, iniciou o trabalho de parto do bebê no palco. A sua ligação com a arte estava definitivamente consolidada, e perduraria até a sua morte.

A estreia se deu aos 3 anos, contracenando com os pais, em 1899. O espetáculo se chamava “Os três Keatons”. A primeira aparição no cinema se deu pelas mãos do diretor Roscoe “Fatty” Arbuckle, em 1917. Era uma ponta, mas a sua atuação foi tão impressionante e natural que se tornou impossível continuar a produção sem ele. Daí em diante, foram 14 curtas até o início da década de 1920, todos em parceria com Arbuckle.

Ainda em 1920, participou do seu primeiro longa, criou a sua própria produtora e detinha o completo domínio sobre as suas produções. Iniciava-se a época de áurea, que perduraria até a assinatura de contrato com a MGM... mas essa é outra história.

Ao contrário de muitos artistas do gênero, Keaton privilegiava a ação, os movimentos, ao instaurar a comédia por meio da linguagem cinematográfica utilizando-se de objetos, acrobacias, quedas, saltos, fugas e o cuidado detalhista com os cenários, tomadas e enquadramentos, numa espécie de “comédia física”, se assim podemos chamar. Nada era improvisado em termos de roteiro e produção. Meticuloso e perfeccionista, Buster se esmerava em cada minúcia, a trazer à realidade aquilo gerado em sua imaginação. Não existe paralelo na história cinematográfica; e qualquer um a contestar, pode se convencer do contrário, bastando assistir um dos seus filmes. Se Chaplin concebeu a sua “magnum opus” em “Tempos Modernos” e o “Grande Ditador”, a obra de Keaton tem de ser avaliada em seu todo, da mesma forma que em seus filmes ele privilegiava também o todo e não apenas a atuação. Mesmo sendo o centro, o personagem principal, é quase impossível não notar o esmero com que coadjuvantes, direção, produção, cenas e cenários se encontram em unidade indissolúvel: nenhum detalhe pode ser prescindido, nada pode ser acrescentado — e o humor está exatamente na relação desajustada e hiperbólica entre personagens/objetos/cenários.

O estilo Keaton imprimiu influência diversificada no mundo da arte e entretenimento, ao ponto de personagens de quadrinhos — Pernalonga e Papa-Léguas — surgirem a partir do seu humor absurdo e improvável. Não é difícil também apontar a sua influência em outros humoristas: Oscarito e Jackie Chan, p. ex., e desembocar em diretores como Jacques Tati e Wes Anderson, entre outros.

Buster Keaton não utilizava dublês. Ele mesmo se encarregava de fazer as cenas perigosas. Em algumas delas, colocou a sua vida em risco. Citarei três.

No filme “A General”— assim como para ele, e para mim, era o melhor dos seus filmes. Se ainda não assistiu, não perca tempo! —, na cena antológica em que a locomotiva sulista está se deslocando, Keaton assenta-se em uma parte que movimenta as rodas do trem, fazendo-o subir e descer lentamente. As chances de falhas na composição não eram poucas, e o ator poderia ser lançado para longe e machucar-se seriamente, mas não parece afligir o espectador, tal a sincronia entre máquina e homem no desenrolar da cena — ainda que o improvável pudesse se tornar factível e não apenas cogitado.


Em “As três idades”, Keaton tem de pular de um prédio para outro, entre uma rua. Ele calculou erroneamente a distância e, por pouco, não ocorreu uma fatalidade. Ao chocar-se com a parede do prédio, caiu em uma rede de proteção e ficou no estaleiro por alguns dias. Na versão final, é possível ver a cena, pois Buster sempre ordenava aos câmeras nunca pararem de rodar, a despeito dos acidentes que pudessem ocorrer.

No longa “Marinheiro de Encomenda”, talvez a mais inesquecível, Keaton arrisca-se em uma cena incrivelmente magnífica: no meio de um temporal, o vento arrasta e derruba pessoas e destrói casas. Quando o personagem de Buster, descuidado e inconsciente do perigo, para diante de uma casa, a parede desaba inteiramente sobre ele, que escapa incólume, graças a uma janelinha no sótão, suficiente para salvá-lo. Nessa cena, milimetricamente estudada e executada, Keaton marcou o lugar com um prego no chão e não poderia se mover sequer alguns centímetros, sob o risco de ser esmagado pela estrutura de duas toneladas. Todas essas cenas foram produzidas sem qualquer truque ou efeito visual — era o próprio ator desafiando os elementos. 


A sua pior decisão profissional aconteceu em 1928, quando assinou com a MGM. Ali estava decretada a sua “prisão” criativa e intelectual, já que não controlava mais o processo cinematográfico ao qual estava habituado: a construção desde os roteiros até a edição final. Um mega estúdio preocupava-se muito mais com o lucro e a fama do que inovação e engenhosidade. Ele jamais imaginou ser um mero ator, ao sabor e dessabor de projetos massivos e artificiais. Nunca mais seria o mesmo, apesar de conseguir sobreviver em apresentações na Europa, onde instalou-se por anos, e podia colocar uma fração do seu gênio. Entretanto não era cinema — a sua maior paixão — e ele acabava por perder uma parte de si mesmo.

Não é possível, infelizmente, tocar nos inúmeros aspectos da sua vida tumultuada, criativa e singular, tanto no aspecto pessoal como profissional. Não é este o objetivo. Contudo, ressaltar a importância do artista que Buster Keaton foi, e ainda é, para a arte e seus fãs. Eu o reputo como o maior humorista de todos os tempos, em uma galeria de nomes notáveis: Chaplin, Laurel & Hardy, Harold Lloyd, Jacques Tati, Cantiflas, Jerry Lewis, Woody Allen, Mel Brooks, Steve Martin, Peter Sellers, Lucille Ball, Grande Otelo, Oscarito, Golias, Irmãos Marx, entre outros. E sua marca ou impressão digital pode ser detectável em praticamente quase todas as comédias cinematográficas, desde que surgiu nos primórdios do cinema. De um talento singular, exercia cada um dos processos criativos, concebia e realizava películas como se fossem um órgão vital de si.

Morreu em 1966, em Los Angeles. Cidade onde o mundo viu surgir uma lenda ou, para muitos, o “deus da comédia”.





03 junho 2026

Macho não chora... coça.

 




 

Jorge F. Isah

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Algumas pessoas dizem que estou ficando piegas... Não sei se é verdade, mas ultimamente tenho me pegado limpando uma lágrima furtiva aqui e acolá, ou esfregando os olhos marejados, e quando me perguntam o que foi, digo: “É alergia...”.

Sempre mantive a pose de durão, machão — não confunda machão com machismo, pois apesar de ambas derivarem do termo “macho”, o oposto da fêmea, não têm o mesmo sentido... mas não serei eu a ensiná-lo —, e deixava os momentos de sensibilidade para o travesseiro ou o espelho no banheiro, afinal, macho que é macho não chora em público nem se deixa derreter em frente das pessoas. Ainda assim, talvez por conta dos anos chegando, as coisas simples da vida têm me embevecido, emocionado, e vez ou outra me vejo naquele choro alegre de felicidade, compaixão ou empatia. Pode ser o Concerto No. 2 de Rachmaninoff, a Quinta Sinfonia de Beethoven ou a Quarta de Tchaikovsky; o céu azul de brigadeiro, um canteiro de flores, uma ameixa saborosa; um livro de Mishima, Dostoievski, Faulkner ou Tolstói; um filme clássico ou o olhar cúmplice da minha esposa... ou mesmo uma das muitas tragédias diárias, cada vez mais a tornar o espectador em mero audiente, quase um bloco de mármore empedernido. Sei, muitos dirão que estou ficando frouxo, amarelando ou metido a frescuras. Outros especularão do meu orgulho, vaidade e propensão a me fazer superior e bom moço. Pode ser, mas não é. Ao menos, espero que não seja. Porque se for... você já sabe... Rá, rá, rá!... Sabe nada, inocente!

Tudo isso me remete a Deus, a inundar-nos com fontes e fontes de prazer e alegria para os sentidos, a mente e o espírito. Alguém pode alegar Deus não ter nada a ver com isso, pois são produtos da natureza e da genialidade humana. Tolinho! Quando o homem se mete a fazer coisas por si mesmo, sabemos muito bem no que dá: funk, guerras, berimbau, torcidas organizadas, ideologia de gênero, tráfico de drogas e leis transigentes. Sem falar em passeatas, abortos, urnas eletrônicas e máscaras descartáveis (inúteis, no geral, mas ao menos livra-nos dos feios e mal-ajeitados) e teatro de horror das tatuagens, piercing e alargadores de orelhas, silicones e regatas.

Dias desses, assisti dois filmes: Here Today, com o Billy Cristal, e Indiscretion of an American Wife (Quando a mulher erra), com Montgomery Clift e Jennifer Jones. Muitos os considerariam ultrapassados e sentimentalóides. Em ambos, a imagem central é: o amor, a despeito de todos os problemas, salva o mundo. Mas o salva de quê? De mim, de você?... Ah, acho que não, pois cultivo o cavanhaque grisalho, para desgosto da minha esposa, e você, certamente, anda a passear com o seu “filho” de quatro patas emporcalhando as calçadas e gramados.




Diante do amor, Here Today (2021) e Indiscretion, de Vittorio De Sica (1953) têm altas doses de amargura, sofrimento e dúvidas, quanto ao presente e ainda mais quanto ao futuro. Montgomery Clift e Jennifer Jones são atores infinitamente melhores do que Billy Cristal e Tiffany Haddish a despeito das boas interpretações e da química do último casal. A densidade dramática daqueles supera em muito qualquer grande estrela de hoje, salvo raríssimas exceções. No misto de dor e alegria, prazer e entejo, é possível sentir na própria pele as emoções com que ambos transbordam a tela — e a direção do italiano Vittorio de Sica contribui em muito para o desenrolar da tragédia... Não há lacração, apenas decisões e suas consequências, para o bem ou o mal. E, por essas e outras, me peguei em um ou dois momentos (ah, vá lá!, quatro ou cinco, tá bom!) a sentir como se minha a comoção do casal, especialmente Giovanni Doria (Clift) que, apesar do amor avassalador por Mary Forbes (Jones), demonstra insegurança, timidez e certo pessimismo com o desenlace da situação. Por mais que se esforce, parece-lhe inevitável a perda da amada. E mesmo assim tenta ser um herói, malfadado é verdade, para a sua cinderela.




Here Today (A Vida é Agora) tem boas e corretas interpretações (Billy Cristal está muito bem, e como disse, a química com Haddish funciona), é divertido, engraçado e pode levá-lo a refletir sobre amizades, família e a vida. Parece um ponto fora da curva de Hollywood, especializada em fazer filmes voltados à NOM, à quebra dos valores tradicionais e a reconstrução social, diga-se, lacrar até o último desfecho patético. Ainda assim, Here Today não foge ao esquema: se for falar de Deus, insulte-o! Se for falar de Deus, fale mal! Se for falar de Deus, nunca diga nada de bom!... Além do velho chavão materialista (não é de hoje, andou a viajar por séculos, desde os primórdios gregos, mas sem muito sucesso até os últimos 150 anos, mais ou menos): a vida é aqui, e não existe nada após ela. E depois me chamam de reducionista... durma-se com tamanho barulho.

A verdade é que são dois bons filmes (70 anos de existência faz Indiscretion ganhar de balaiada, enquanto o mais recente será esquecido daqui uns cinco anos, se muito). Um mais completo do que outro. Mais bem dirigido do que outro. Mais bem interpretado do que o outro. Melhor argumento e enredo do que outro. E filmes preto e branco têm um charme todo especial, não é!

Se Indiscretion quase me fez chorar, Here Today não chegou nem perto. Garanto que me lembrarei do primeiro por longos anos, enquanto o segundo...

Por falar nisso, se me ver com os olhos vermelhos, marejados, um suspiro ou soluço aqui e acola, saiba que não é o que parece... Apenas e tão somente é mais uma crise de alergia.
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Obs: (1) Indiscretion of an American Wife está disponível gratuitamente no Youtube. - Avaliação (****)
(2) Here Today está disponível em várias plataformas de streaming. - Avaliação (***)




31 maio 2026

Estudo sobre a Confissão de Fé Batista de 1689 - Aula 47: Autoridade pastoral - parte I





Jorge F.Isah
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Dando sequência ao nosso estudo sobre a igreja, analisaremos o aspecto da autoridade e sustento pastoral. Neste estudo, já falamos sobre vários pontos da igreja verdadeira e as marcas que ela detém, inclusive, a sua autoridade sobre o crente. Apesar desta doutrina ser extensamente descrita na Escritura, há cristãos que não a reconhecem, e, por isso, desprezam-na. O que está ligado mais ao individualismo e à autossuficiência do homem moderno [o qual tolamente se acha "senhor de tudo" e autoridade final] do que da sua não expressividade canônica. Vivemos tempos em que os crentes encontram-se tão ou mais rebeldes do que os mundanos, acreditando em uma liberdade capaz de prescindi-los de qualquer autoridade, ainda que muitos digam reconhecê-la em Cristo, mas rejeitam-na completamente ao desconsiderar a autoridade que ele deu à igreja e aos seus ministros; o que acaba por levantar a seguinte dúvida: se não reconhecem a autoridade eclesiástica que veem, como reconhecerão a Cristo que não veem? Eis a questão!

Iniciemos então pelos versos de 1Ts 5.12-13: "E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam; e que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua obra. Tende paz entre vós".

A palavra "presidir" significa “estar à frente”, “governar”, “superintender”, mostrando uma qualidade de liderança, comando, de alguém que tem autoridade sobre outro(s), que os direciona, levando-os à obediência e ao cumprimento de determinadas ordens. Interessante frisar que a obediência do crente em relação ao seu pastor ou presbítero é a mesma a qual o pastor e presbítero devem estar sujeitos, a qual é a autoridade da igreja; e, por isso, não é possível que eles ordenem ou orientem um ou mais membros a agirem divergentemente das deliberações do corpo local. É uma via de mão-dupla, na qual o pastor e presbítero são aqueles que primeiro devem proteger as resoluções que a igreja deliberou e não transtorná-las. Não há lugar para o despotismo ou a autoridade à revelia do corpo local, pelo contrário, a autoridade pastoral se fundamenta no poder com o qual o Senhor investiu a sua igreja, e a ela está sujeita.

Apenas como um adendo à nomenclatura, já que utilizo termos correlatos e que em algumas denominações referem-se a funções distintas, creio que os vocábulos, bispo, pastor e presbítero são sinônimos e significam, de maneira geral, a posição daquela pessoa madura e experiente na fé capaz de guiar e alimentar o rebanho do Senhor. Os oficiais da igreja governam não para si mesmos, como dito, nem a partir de autoridade própria, mas da autoridade investida por Deus, como servos [1Pe 5.1-4, conf Mt 20.26-27].

E a prova maior de que nada do que estamos dizendo é falso, baseia-se no fato de o próprio Deus, através do seu Espírito Santo, dar esses dons à igreja. É o que Paulo nos diz em Efésios 4.10-13: "Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas. E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguem à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo".

Deus deu a alguns membros da igreja funções e ministérios especiais, de forma que nem todos estão num mesmo nível funcional, numa igualdade de atribuições, o que não pode ser nem significa inferioridade ou superioridade espiritual de um membro sobre o outro. Se entende-se a questão como uma mera disputa de poder, em que um pode mais sobre o outro, a coisa deixa de ser espiritual para ser essencialmente carnal. Afinal, todos são servos do mesmo Senhor, e o que nos diferencia é o dom que o próprio Deus entregou a um e não a outro, e que entregou a outro e não àquele. Parece, contudo, que o pastor, bispo ou presbítero são os alvos mais adequados para os insubordinados, que chegam ao extremo de desqualificá-los, menosprezá-los e até alegando a antibiblicidade de seus dons. Ora, se não são bíblicos, por que a Escritura se esmera em designá-los, descrevê-los e qualificá-los? O fato de haver falsos pastores e mestres serve de negação para que não sejam reconhecidos os pastores verdadeiros e que temem ao Senhor, servindo-o? Em quê a quantidade daqueles que não honram o seu ofício e, em muitos casos, são servos de satanás, anula a biblicidade do ministério e autoridade pastorais? Com a palavra, os detratores...

O que Paulo exorta-nos é, ao contrário, reconhecer a autoridade pastoral, não como algo a ser realizado por soberba, orgulho ou vaidade, mas reconhecendo que o pastor ou presbítero é aquele que serve mais humildemente dentro do corpo local. É por isso que atitudes como a de crentes que difamam e denigrem o dom pastoral, de maneira genérica, agem com soberba e orgulho muito superiores à que afirmam denunciar. De forma irresponsável e insana querem colocar todos no mesmo balaio em que deveriam estar alguns. No fundo, toda essa empáfia serve apenas para desculpá-los diante de si mesmos, demonstrando, via de regra, desdém para com a igreja e o Evangelho, e um ensimesmamento, em que o intento é a glória do próprio umbigo.

A alegação de que tratam é que, se a maioria dos pastores está preocupada com os seus próprios interesses, conclui-se que todos os pastores também estão; se a muitos roubam, todos são ladrões; se há farsantes, todos são impostores. Isso é de uma arrogância sem par! E de uma leviandade ainda mais diabólica, nada condizente com a vida cristã. Alegam-se oniscientes a ponto de mapearem todo o universo eclesiástico, condenando-o, sem saírem de suas poltronas. Têm por fato algo que não passa de especulação; e por direito algo que não foge de uma reivindicação. É por isso que a Bíblia zelosa e sabiamente detalha em minúcias quem está apto e quem não está ao ministério pastoral. Infelizmente, há aqueles que querem os holofotes sem que tenham o chamado de Deus. Há os que nem mesmo são convertidos, ou os que são declaradamente ímpios em suas atitudes e desregramentos. Porém, nada disso invalida o dom dado por Deus. E ele se preocupou em evitar que tais trapaceiros se instalassem no seio da igreja. Paulo em 1 Tm 3:1-7 e Tt 1:5-9, adverte para as qualidades que um pastor, presbítero ou bispo devem ter, e o cuidado necessário para que a igreja decida-se em alçá-los a esses postos. E as características, como indicativas de um chamado divino, são reveladas exteriormente, de forma que qualquer um possa vê-las, percebê-las e confirmá-las. Paulo nos dá uma lista de distintivos que não são subjetivos, mas claramente objetivos e assinaláveis. Especialmente que ele não seja neófito, "para não se ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo" [1Tm 3:6]; a maturidade espiritual e a experiência na vida cristã devem ser pontos fundamentalmente analisados pela igreja para sancionar um líder. E isso não nos remete, necessariamente, à questão da idade, pois há jovens muito mais maduros que velhos, ainda que, cronologicamente, espera-se que um velho seja mais sábio que um moço.

A questão é que o erro está, na maioria das vezes, no pouco zelo com que a igreja estabelece seus líderes. Há casos em que um ministro é chamado à liderança sem que preencha correta e adequadamente os princípios estabelecidos pela Escritura para assumi-la. Indicações e até mesmo a excelência acadêmica [graus e títulos que ele tenha] falam mais do que a sua vida cristã. Prima-se hoje mais por um diploma teológico do que pelo testemunho cristão. Com isso não estou desmerecendo o estudo, e, sobretudo, o esforço de quem estudou anos para obter uma designação acadêmica. Mas ela não é tudo, e muitas vezes torna-se em nada, dada as inúmeras heresias que campeiam entre seminários e faculdades teológicas, além de um desprezo a Deus e sua palavra, e o próprio fato de alguns estarem no ministério sem chamado, santidade, zelo, e, mesmo sem conversão. O que me leva a defender severamente a formação de líderes no âmbito da igreja, dentro da própria igreja, primeiramente para que o seu chamado seja confirmado por ela, segundo, para que o testemunho do candidato, no decorrer dos anos, sirva de "certificado" para o cargo, e, terceiro, para que ele seja conhecido de todos os membros, e ele os conheça igualmente. Mas este é outro assunto, para outra hora...

Voltando ao ponto central, da autoridade pastoral, leiamos Hb 13.17: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.”

A expressão "guias" fala daqueles que vão à frente e conduzem o rebanho, nitidamente dando-nos a ideia de liderança, daqueles que exercem o cuidado das almas, dos membros do corpo local. Mas, com isso, se quer dizer que há um grupo de irmãos que "fazem" o trabalho de Deus e outro que somente assiste? Não! Ao menos, nunca devia ser assim. Uma igreja que age dessa forma não entende o seu papel, nem compreende a obra que tem de realizar. Uma igreja assim é presa fácil para homens astutos, os lobos vorazes e cruéis que desejam destruir o rebanho, conforme Paulo descreveu em Atos 20.29. Devemos nos lembrar de que uma igreja bíblica não se constitui de um grupo de irmãos ativos e um grupo de irmãos passivos, aqueles controlando estes e estes, simplesmente, submetendo-se ao controle daqueles: “pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros” (1Co 12.25). Isso é sabedoria, que vem dos céus, para a glória de Deus.

 - Continuaremos, na próxima aula, analisando a biblicidade da autoridade pastoral.-

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ÀUDIO DA AULA 47


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Notas: 1 - Aula realizada na EBD do Tabernáculo Batista Bíblico;
2 - Para maior consideração e detalhes, ouça o áudio da aula, clicando na caixa acima.


26 maio 2026

John and the Hole - Pascual Sisto

 




 

 Jorge F. Isah

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O título em português, pomposo e sem significado, ficou “Um lugar secreto”, mas em bom macarronês traduz-se: “John e o buraco”. Esta é a trama do que a mídia considerou um suspense psicológico, mas eu acrescentaria, ou melhor, definiria como masoquismo psicótico. Em linhas gerais, o filme se resume a isto: John, um adolescente de 13 anos, deslocado como a miríade de milhões de adolescentes inconvenientes mundo afora, e um buraco, um bunker.

Filho de pais ricos, a morar em uma casa confortavelmente instalada em uma floresta, com todos os confortos e tecnologias disponíveis, juntamente com a irmã mais velha; John é inseguro, curioso, atrapalhado e desconcertado. Seu olhar distante e frio, sem emoção, perpassa toda a película. Vive da estupidez etária e parece buscar um sentido ou razão para a vida. Eis que, do nada, descobre nos arredores da casa um bunker inacabado, e maquina um jeito de transpor os seus entes queridos para lá, após perguntar ao pai a razão de se construir aquilo e ouvir: para se proteger de... uma tempestade, de um ataque da natureza. Neste momento, elabora o plano e leva a família para o tal buraco.

Segue-se, em curso, situações descabidas, irreais, onde a melhor amiga da mãe, a polícia e o jardineiro, afastados da residência com farrapos de desculpas adolescente, parecem enxugar gelo o tempo todo. Ninguém entende a gravidade da situação, com o sumiço da família e a presença desgovernada e aleatória do filho na casa.

Também, não existe uma explicação plausível para a atitude de John, mesmo que doentia, vingativa ou alucinada. Fica-se a ver navios. O filme é um emaranhado de acasos, a deixar o espectador perplexo no seu vazio. Talvez o buraco simbolize apenas e tão somente o hiato, a lacuna, o vácuo da película.

Não acrescentarei mais detalhe ou o final, para não ser o desmancha prazer do corajoso a arriscar-se em assistir tamanha droga. E ver o Michel C. Hall como Brad, o patriarca, só me deu saudades do tempo em que interpretava “Dexter”.

Ah, existe ainda outra história paralela, de uma garotinha, Lily, abandonada pela mãe, com o “argumento” de já ter 12 anos e ser necessário assumir-se adulta.

Entre idas e vinda, parece haver duas mensagens: a primeira, ligada a John, de se pensar um milhão de vezes antes de ter um filho. Quanto a Lily, seria melhor não ter nascido ou ter uma mãe. Quanto aos pais, Lily não sabe onde está o seu, e John tem de conviver com a covardia passiva e indulgente de Brad.

Ao final, ficou-me a impressão de não haver uma lixeira suficientemente apropriada para se jogar “John and the hole”... Nenhum buraco merece tanta porcaria.