Jorge F. Isah
Jorge F. Isah
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A política brasileira parece um grande maternal,
onde meninos mimados e birrentos se arranham, estapeiam e gritam por seus
carrinhos, bonecas e miniaturas de super-heróis, Barbies e pufes fofinhos. Os
mais sortudos agarram-se aos seus celulares, tablets e TVs, sempre a passar
freneticamente imagens e vídeos de coisas inalcançáveis às suas mentes, mas
suficientes para ensinar-lhes a não saber o caminho sem volta. Sem contar a
atenção e aprovação maternal, que pode ser de uma “tia”, “fessora” ou de um marmanjo
que se sinta “mamãe”, mesmo não tendo como dar de “mamá” ao pirralho.
Um ou outro, lá
pelo meio da existência, se deparará com as asneiras apreendidas, empreendidas
e propagadas, mas será um e outro; não raro, a maioria se considerará, até
depois da morte, estar certa e ser a detentora da imensurável e indizível
verdade relativa — imensurável e indizível porque existem em cérebros do
tamanho de uma ervilha, situados nos umbigos ou nos orifícios traseiros —, e o
estrago, a carcomer o tempo, jamais será revertido... quando muito, aplacado.
Ouvir audiências
no plenário de qualquer câmara legislativa é o mesmo que ser massacrado por um
bando de orcs e trolls, cada um a lançar o mais longe possível seus perdigotos
e impropérios, entre urros e carrancas, como se estivessem numa gincana do maternal,
sob efeito de alucinógenos e estimulantes sintéticos. Quem cuspir mais longe
ganha o troféu do ano.
O mesmo se dá,
com poucas variações, nas sessões das cortes secundárias e supremas, nos
gabinetes governamentais e, igualmente não raro, nas redações e estúdios
midiáticos. Os indispostos à verborrágica inutilidade reclinam-se nas
confortáveis poltronas e dormem o sono descabido. Depois, afastados dos olhares
digitais, se refestelam em tapinhas nas costas, suculentas costeletas de javali
e caudas de lagostas grelhadas na manteiga e ervas...
Nos salões ovais
e octogonais, reúnem-se a bebericar whiskies, champanhes e Manhattans sem a
menor cerimônia, rindo e escarnecendo dos mais tolos e dos mais espertos dos
contribuintes e espectadores. Não são todos, vá lá! Mas o circo é armado mesmo
que tenha um domador de leões, um faquir e um malabarista, a despeito da
maioria de palhaços.
A quase
totalidade não se presta mais sequer a esconder seus propósitos e a que veio;
nem mesmo aquele velho chavão: “estou aqui para servir ao povo” faz parte do
discurso e da grade digital. Não se furtam — e não é uma figura de linguagem —
nem escondem quais sejam seus propósitos: tirar o máximo e desfrutar de todas
as benesses burocráticas, sejam oficiais ou oficiosas, legais ou ilegais... o
descaramento, antiético e imoral, é o lema exposto debaixo dos holofotes e
pirotecnias.
Como macacos de
auditório, pulam, esperneiam, se rasgam, cantam loas a si e aos seus pares,
dizem fazer o que não fazem e fazem, petulantes, o que não dizem; alguns até
dizem e fazem, mas dizem que o fazem por amor e justiça, para o bem maior,
enquanto o bolso e a consciência batem palmas safardanas, certos de não se
saciarem, ávidos por conchavos, acordos e franquias propícias a si próprios e
seus negócios, às vezes ocultos, outras vezes descarados, mas sempre
justificados com as boas intenções do diabo e seus molejos embuçados.
A vigarice é
quase uma unanimidade nacional e, quanto a isso, pouco ou nada se pode fazer,
dada a leviandade arraigada às almas e instituições brasilis — não nessa ordem,
ou melhor, nessa desordem. De outra forma, como eu seria capaz de escrever este
artigo, publicá-lo e ainda assim encarar a mim mesmo como o paladino do oeste,
do leste, do norte e do sul? Só conservando a cara-de-pau, este abjeto mas
ingênito ardor nativo a pautar velhos e jovens, mortos e não nascidos, no
fulgor inato do “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, no decrépito das
maternidades e parteiras.
Só mesmo aquele
funk pancadão, as diatribes das focas e o silêncio histriônico dos cegos,
surdos e mudos, que veem o que não se vê, não veem o que se vê; ouvem o que não
se diz e não ouvem o que se diz — mas estão sempre dispostos a falar o que não
entendem — e esquecem-se de que até uma mula continuará mula, independentemente
da fantasia que use.
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Nota: Texto publicado originalmente na Revista Bulunga
Jorge F. Isah
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Esta
foi a minha segunda experiência com Carson McCullers; a primeira se deu com
“Reflexos num olho dourado”, cuja análise pode ser lida utilizando a barra de
pesquisa.
A
Convidada do Casamento — em português, ganhou outros títulos: “A sócia do
casamento”, “Frankie e o casamento” e até uma versão portuguesa com a tradução
literal “O membro do casamento”, já que o título em inglês é “The Member of the
Wedding” (1946). A expressão “member” pode significar membro ou sócio e, no
contexto, acredito que as versões mais modernas acertam em utilizar o
substantivo “convidada”, diferente das mais antigas.
Em
princípio, pensei que o livro tratava de uma obsessão juvenil da personagem
principal “Frankie”, uma garota de 12 anos que reside no sul americano, no
estado da Geórgia. Mas, à medida que a leitura se desenvolvia, minha impressão
inicial foi-se modificando.
Antes,
quero pontuar que os personagens de McCullers, por mais que sejam comuns,
desses que se pode encontrar em qualquer esquina, são estranhos e nunca parecem
ser exatamente o que se vê — talvez, por nos vermos neles. Sempre existem
várias camadas de personalidades conflitantes, angustiadas, fracassadas e
entregues aos seus desejos ou destruídas por eles. É como se buscassem a todo
custo uma felicidade e prazer — algo normal na natureza humana — mas se vissem
sempre a caminhar na direção oposta. Por mais que lutem contra seus instintos,
eles revelam-se dispostos a controlá-los — protagonistas e coadjuvantes — e, por que não, desiludi-los.
Posto
isso, Frankie assume três nomes, no decorrer da trama. Primeiro, Frankie Addams,
um apelido carinhoso mas infantil, que a identifica na família, mas também
entre os seus conterrâneos. Depois, em uma tentativa de mudar a sua identidade
e tornar-se madura, mas, sobretudo, ter as rédeas da própria vida, cria um nome
que considera especial, sem que
haja, contudo, um significado além do desejo de modificar as superfícies e
forjar uma nova personalidade, F. Jasmine Addams. No terço final, assume o
Frances Addams, o nome mais, digamos, formal e que, na cerimônia de casamento,
é a senha do seu reconhecimento social.
Frankie,
a despeito das tentativas de se transformar, era vista sempre do mesmo jeito pelos
seus interlocutores mais próximos: Berenice, a empregada negra, que perdeu um
olho após o ataque de um dos maridos — sempre tem um olho brilhando ou opaco
nos enredos de Carson — sendo o “modelo” adulto da adolescente, e o primo John Henry, que a arrasta o tempo todo para a infância que quer abandonar. Um ou outro
estranho, incapaz de perceber quem ela é — uma criança a ganhar o corpo de
mulher — se ilude com a sua personalidade artificial, camuflada por vestidos,
linguagem e uma incomum ‘maturidade’, e que esconde apenas o quão ingênua e inábil
de fato é.
Há
ainda a figura do pai, que gasta a maior parte do seu tempo com a relojoaria e,
apesar do interesse meio relapso, deixa para Berenice a responsabilidade de
educar e se dedicar à filha. Como o meu objetivo não é tocar em todos os
aspectos do livro, faço apenas uma rápida menção aos atores secundários, sem
penetrar em seus meandros.
Voltando
à Frankie, a obstinação, o anseio de crescer, ter o controle da própria vida, e
acreditar que mudanças simplistas e imediatas mudarão o seu destino, fazem-na
reconhecer, mesmo a contragosto, o fracasso. É impossível forjar-se a si mesmo;
antes, cada um é a soma de vários fatores, muitos — ou a maioria —
completamente fora de controle. Com isso, não estou a falar de escolhas para o
bem ou para o mal — nada a ver com o senso moral e ético — mas com a formação
do ser.
Se
para Frankie o apelido a irritava e diminuía — os laivos infantes — F. Jasmine
se tornou a senha do fracasso. Abandonar ambos e assumir-se Frances insinuava
um amadurecimento que, contudo, estava na forma, não na essência. E em seu
desenvolvimento, a garota acreditou que finalmente era adulta — a despeito da
cena bizarra e hilária ainda no casamento do irmão, uma última tentativa de
integrar-se, mesmo desesperadamente, à nova realidade do casal, sem obter
sucesso.
Por
falar em casamento, mais do que a admiração idólatra pelo irmão Jarvis — não
confunda com o mordomo de Tony Stark — seria o passaporte para um novo mundo e
a autonomia. O engraçado é que a independência de Frankie estava completamente
atrelada à dependência do jovem casal. A adolescente, por mais que buscasse a
transformação — um tipo de metamorfose onde a vida até então seria descartada e
substituída por outra — estava apenas nos códigos e símbolos, já que o seu
ensimesmamento e conturbadas emoções permaneciam inalteradas.
A
nova vida de Jarvis e Janice — o casamento em que Jasmine é o terceiro “J” a
incluí-la também em um novo modelo — faz com que a realidade vença as
expectativas e remova Frankie da extravagância para a normalidade.
Carson
McCullers com seus personagens comuns, situações comuns, e uma história
aparentemente comum, desce aos abismos da alma para colocar, cada um de nós, em
nossos devidos lugares. E também cada um, a seu jeito, que se vire onde está —
mas sabendo que, mesmo nos limites, nenhuma esperança é vã.
E,
no fim, a convidada nunca é a estrela da festa.
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Avaliação: (****)
Título: A Convidada do Casamento
Autora: Carson McCullers
Páginas: 232
Editora: Novo Século
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Se
você é um Nogueira, Coelho ou Batista não é difícil descobrir a etimologia do
seu nome. Não precisa fuçar muito. Nem contratar um filólogo ou detetive
particular. Alguém na família foi apaixonado por nozes, cavar buracos ou se
envolver com batistérios.
Se
Fernandes ou Alves, alguém, em priscas eras, tinha um pai chamado Fernando ou
Álvaro.
A
maioria dos nomes tem origem toponímica — derivados de aspectos geográficos,
paisagens —, zoonímica — de animais — e patronímica — nome de um ancestral
masculino.
Existe
outra categoria: a dos políticos. Um deles, Lula. Outro, Bolsonaro. O primeiro dispensa
qualquer verbete: oito tentáculos, evidente vantagem administrativa e o terror
do contribuinte. O segundo remete ao aríete de ferro: nada pode ser mais
adequado ao seu estilo.
Em
ambos os casos, você e eu não passamos de Túlios pilotando Pálios.
A
onomástica comete um absurdo ao não categorizar os políticos. Passou da hora de
termos os politicônimos. No começo, um adjetivo. Depois, verbo. E, por fim, o
Código Penal.
Seria
uma profusão de Gérsons, Gualtérios e Jacós... e nada os impediria do
sucesso.
Em
época de eleições, haja Catarinos e Capanemas tipificados pela Lei. E
completamente esquecidos por ela.
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Nota: texto publicado originalmente no portal Bulunga
Jorge F. Isah
Tenho
assistido a muitas séries antigas, aquelas dos anos 60, 70 e 80 que apenas os
velhos se interessam. Eu não vivi esses tempos, mas de alguma forma tenho
saudades do não visto e vivido em relação ao que vejo e vivo por estas bandas
tupiniquins. As razões são, sem ordem de importância:
1-
Nostalgia, pura e simples (nem Freud explica);
2-
Fugir da loucura e psicopatia dos filmes e
séries atuais (com raríssimas exceções), e acabam por refletir uma vida de
delírios, mulas sem cabeças e unicórnios a povoar as mentes e as línguas de
muitos;
3-
Avaliar a veracidade quanto ao nível de opressão
e falta de liberdade no passado, onde, segundo os ideólogos e especialistas de
plantão, as pessoas andavam em correntes e jaulas enquanto eram marcadas a
ferrete;
4-
Constatar os valores perdidos ou a se perder,
hoje e amanhã;
5-
Entender a razão de tanto ódio a uma existência
mais simples e menos combativa e belicosa (quero dizer, lacradora);
6-
E, por fim, divertir sem me sentir culpado por
dar risadas frugais ou derramar aquela lágrima emotiva.
Bem, pode
parecer muito, mas a verdade é que raras coisas na atualidade me motivam o
interesse, e muitas vezes fazem-me sentir como se estivesse em um hospício a
céu aberto, cercado de loucos por todos os lados. Fico a imaginar um(a) “militante
politicamente correto” assistindo, por exemplo, um capítulo de “A Feiticeira”
ou “Jeannie é um gênio”. No primeiro caso, uma mulher literalmente “empoderada”,
pois possui poderes sobrenaturais para satisfazer praticamente todos os seus
desejos, se submeter alegremente a uma vida simplória e trivial de esposa e
mulher do lar. Por amor ao seu marido, James, Samantha deseja se tornar a
melhor esposa, mãe e dona de casa. Nem sempre consegue, mas é o seu objetivo de
vida. Imagino o(a) militante quebrando a tv, a amaldiçoar Elizabeth Montgomery
e Dick York por toda a vida... e nem preciso entrar nos detalhes.
No segundo
caso, Jeannie é uma figura dos contos de fadas, capaz de realizar qualquer
desejo do seu “amo”, o Coronel Nelson, que a encontrou em uma garrafa em uma
ilha deserta. Ela pode fazer tudo, mas quer apenas e tão somente o amor e a
atenção do seu amo, e a sua maneira desastrada e ingênua cria situações
hilárias ao colocar em apuros o alvo do seu amor. Qualquer militante exemplar,
daqueles que usam carteirinha e botton de “chato de galocha”, seria incapaz de
se divertir com as peripécias de Samantha e Jeannie, pelo simples fato de
imaginar aqui e acolá elementos claramente discriminatórios, opressores e
estereotipados das mulheres. A ideia dos produtores e diretores e atores era
apenas divertir o maior número de pessoas, arrancar delas risadas e momentos de
descontração. Mas a militância não vê nada além de culpados e réus confessos, a
difundir o domínio e a hegemonia do patriarcado. O pensamento dessa turma é
linear, como uma extensa área inóspita e estéril no deserto, onde não se pode
produzir nada de bom.
Ontem,
assisti ao quase último filme de Clint Eastwood, “Cry Macho”, título irônico
mas capaz de desagradar uma boa parte de espectadores, porque não tem muita
ação, nem reviravoltas mirabolantes, ou sangue e células espalhadas em paredes,
pisos e adereços. O filme nos dá a ideia do quanto Eastwood se divertiu ao
produzir, dirigir e protagonizar a película. E é impossível, ao menos o foi
para mim, não se divertir também. O roteiro é simples, a trama não é
intrincada, não existem discussões ou defesas de pautas das agendas
progressistas (sic), porque é um filme igualmente simples, a falar da vida,
para a maioria das pessoas e não para um grupo minúsculo de iluminados,
ansiosos por um Mickey gay, um Super-Homem trans ou um Padre Brown a usar
linguagem neutra. Em suas obstinações por fazerem-se ouvir, não ouvem ninguém,
na verdade, não se interessam em ouvir nada além da própria voz e o ecoar em
seus pares, em patrulhar a vida alheia como se fossem membros da Gestapo, KGB
ou CIA. Enquanto os fofoqueiros do passado especializavam-se em não serem
descobertos ao disseminarem seus fuxicos — muitas vezes apenas por simples diversão —,
as novas patrulhas de fofoqueiros querem a censura, a prisão e em alguns casos
a morte dos acusados. E qual o crime?... Pensar fora da caixa oca ou um saco
cheio de...
Eastwood não
fez um filme para ganhar o Oscar e encher páginas de jornais e sites
especializados em cinema de lorota e lenga-lenga ideológica ou intelectualóide.
Do alto dos seus mais de 90 anos, quis fazer algo divertido e no qual se
divertisse. Evidente ser um filme de qualidade, afinal, é possível se divertir
sem abrir mão do talento e habilidade, e talento e habilidade podem aumentar em
muito a diversão... E quanto menos pretensioso, maior a chance de dar certo,
como é o caso em questão. Não entendo a queixa dos detratores, e mesmo a falta
de argumentos. Uma rápida pesquisa na web e verá a maioria dos comentadores
falarem da idade do Clint, do andar titubeante, de já passar da hora de se
aposentar, e variações do tema. Quase não existe a análise da obra em si, e
quais seriam os pontos favoráveis e negativos. Parece um fetiche com a idade
provecta do astro, capaz de ainda produzir, dirigir e protagonizar sem criar um
pastiche de si mesmo ou de sua obra, enquanto a maioria dos “mortais” anseia
aposentar-se aos cinquenta e não fazer mais nada na vida. Isso deve dar uma
inveja e uma dor de cotovelo danada... e certamente tem tudo a ver com a
longevidade artística de Eastwood.
Esta geração
— tão acostumada a zumbis e vampiros, monstros e heróis de vidro, enquanto
vivem a irrealidade do Meta Verso, RPG e um mundo onde poderiam tomar altas
doses de adrenalina em amostra grátis — não me parece treinada para a vida
real, para as coisas elementares e fundamentais, para a simplicidade, a
fraternidade, gestos ingênuos e despretensiosos, atitudes delicadas, suaves e
acolhedoras, tudo isso sem uma lei por detrás ou o discurso inflamado da última
“bolacha do pacote”. “Cry Macho” ultrapassa em muito a caricatura na qual se
transformou Hollywood e seu discurso panfletário e hipócrita — com raríssimas exceções, como neste caso —: as
pessoas são comuns, os problemas são comuns, as soluções nem sempre são
perfeitas e absolutas, mas existe lugar para a verdadeira empatia,
identificação, sem a necessidade de se ditar regras e fórmulas a se repetir
pela ação da epinefrina, especialmente na área da língua e cordas vocais e
quase nada no intelecto dos replicadores de patrulhas.
Por falar em
galos — sei, ninguém tocou nisso por aqui —, a prova das intenções de Eastwood
estão evidenciadas no fato de o herói, no sentido audacioso e intrépido do
termo, ser o galo “Macho”, do pequeno Rafa (Eduardo Minett), o garoto a quem
Mike (Clint) foi buscar no México para entregá-lo ao pai, no Texas. Ao receber
“Macho” como presente, Mike promete cuidar do herói, numa alusão à cumplicidade
e a troca de experiências; o “Macho” de Mike não é o mesmo de Rafa, mas não é
impossível compartilhá-lo e, até mesmo, discutir sua importância, sem que para
isso sejam forçados ao inexorável antagonismo.
Infelizmente,
hoje em dia nada é inocente, ingênuo ou honesto. Sempre existe um culpado ou
culpados pelo não dito e pelo não feito, mas supostamente dito e feito na mente
dos inquisidores modernos, dispostos a — via de regra, e à revelia¹ — imputar e
culpar qualquer um a contrariar-lhes delírios e incoerências mentais, desde que
não seja a si mesmo e seus análogos. Faz parte da guerra; e se não há inimigos
é preciso criá-los de qualquer maneira, nem que seja forjando conflitos,
trincheiras e barreiras onde sequer eram imagináveis. Orwell acertou em cheio
ao descrever a novilíngua destes tempos, a Stasi a dominar consciências e
objetivos nada lúcidos e realistas.
Voltando ao
seriado “A Feiticeira”, em uma cena onde Stevens e Tate conversam sobre a
suposta gravidez de Samantha, ouve-se o seguinte diálogo:
- O que você
espera, James? – Diz Larry.
- Ora, menino
ou menina! – Responde Stevens.
Se fosse
hoje, provavelmente em uma sala de aula, consultórios terapêuticos ou em
ambientes descolados — a minoria da
minoria minoritária — a resposta seria um daqueles antigos catálogos
telefônicos... E ai de quem não estiver atualizado com as últimas novidades e
modelos listados e se esquecer de um deles: a Gestapo o enviará ao Gulag mais
próximo.
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Nota: 1- uso o termo não a designar simplesmente qualquer um,
mas qualquer um não alinhado, se me entende.
2- Texto publicado originalmente na Revista Bulunga
Jorge
F. Isah
Conheci Pär Lagerkvist recentemente e, até
então, era-me um completo desconhecido. Talvez, tivesse visto o seu nome quando
criança, pois gostava de ler a lista dos “nóbeis”, assim como lia a das
seleções campeãs de futebol, dos “óscares” e dos homens mais altos do mundo.
Era um garoto de listas e nada melhor do que verificar todos aqueles a
escreverem seus nomes na história, ainda que não fizesse a menor ideia de quem
fossem.
Assim como os olhos passavam pelas listas,
Lagerkvist também passou por eles, sem deixar lembranças.
Por conta da indicação de um amigo,
comprei o livro “A morte de Ahasverus”, da editora Sator. Infelizmente, ele se perdeu em
minha lista caótica de leituras, que está sempre a mudar e lançar novas
aquisições para o “limbo” até que paguem as suas penas.
Então,
em um sebo, vi uma edição lindíssima da Opera Mundi¹, de Barrabás, e resolvi
fazer jus ao sueco.
Todos
sabemos quem foi Barrabás. E Pär traça uma história fictícia, desde os momentos
da crucificação de Jesus até a morte do protagonista, décadas depois. Assim
como ele, Lagerkvist é econômico na escrita, feita de silêncios — nada
barulhenta — quase seca, sem floreios, mas inquietante e reveladora.
É uma
história de substituição, quando o bandido é salvo da morte pelo Santo.
Barrabás não entende a razão de não ser ele o crucificado, já que Jesus era
inocente e puro. Ele não crê — e não há qualquer fé na divindade de Cristo —
mas ainda assim reputa injusta a morte do puro. Contudo, algo o inquieta: por
que tantas pessoas creem em um homem que se diz Deus mas morre miseravelmente
como escravo? E, por que ele, um criminoso, foi poupado?
A partir
desse evento, quem conhecia Barrabás, incluindo a amante, nota diferenças em
seu comportamento. Ele não é o mesmo. Algo o impulsiona a conhecer mais do
homem e o porquê de tantos venerarem quem o substituiu na cruz. Esse tipo de
morte era o mais infame e humilhante entre todos: ao ponto de não ser aplicada
a nenhum cidadão romano. Como o profeta poderia ser então o Filho de Deus?...
Esse é o cerne do livro. Não se refere à pessoa de Barrabás, mas porque ele não
crê, tenta crer, e, ainda assim, as dúvidas não se dissipam, não importando a
sua condição momentânea. Ele é um homem de incertezas, muito mais do que se
imagina.
Ele
segue cristãos, tenta aproximar-se, mas sempre paira sobre ele o estigma de ser
o culpado pela morte do mestre. E isso, cada vez mais, cai sobre os ombros como
a única convicção.
Quando
livre, sente-se preso ao destino. Quando escravo, há apenas resignação. E se
busca compreender aquele fato — o divisor da sua vida — nada parece fazer
sentido, nem mesmo quando a fé alheia põe à prova o seu ceticismo.
Não é
questão de hipóteses metafísicas, onde a mente passeia sem pisar em terra
firme, mas de sentido onde a razão é um fio de cabelo solto na ventania.
E,
talvez, os verdadeiros grilhões sejam a impossibilidade de fé, e dela
arrastá-lo como um trapo na lama.
Ele, o
liberto, está mais preso do que nunca. O vivo, está morto. Enquanto o
crucificado vive. Ainda que na alma de uma multidão de súditos, dispostos a
morrer para manterem-se escravos. Qual a lógica?... Está muito além da sua
compreensão. Mas, no íntimo, como gostaria de prová-la.
Lagerkvist
não culpa ou absolve Barrabás². Revela a sua humanidade:
do homem caído, sem rumo, e cujo coração, moldado pela descrença, não sabe no
que crê, ou melhor, se recusa a crer... Nada de amigos, cúmplices, deuses e,
nem ele mesmo. A medalha com os dizeres: “Christos Iesus” feita pelo colega,
Sabak — um cristão — e posteriormente riscada —com uma cruz — pelo governador
romano, a quem serviam, era mais um emblema de maldição do que graça.
Diante
da morte, Barrabás apostata, sem nunca na verdade ter se convertido, enquanto
Sabak permanece firme em sua fé, e, por ela, é condenado à morte.
No fim,
o homem a quem Barrabás perseguiu mas jamais alcançou, trouxe-lhe à mente as
suas últimas palavras:
— A ti
entrego a minha alma.
E não
sabemos se a verdade enfim o salvou... Apesar da morte.
1- Comprei a edição da Opera Mundi, mas a leitura se deu na edição da Editora Sator.
2 - Da
mesma forma, Pär Lagerkvisk parece não acusar ou inocentar a Deus.
Jorge F. Isah
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Quem
foi Richard Wurmbrand?
Ele
nasceu em Bucareste, Romênia, em 1909 e faleceu em Torrance, EUA, em 2001.
Pertencia a uma família de origem judaica, e mudou-se para Istambul, Turquia,
quando criança. Aos 9 anos, perdeu o pai, e apesar de não possuir uma educação
formal refinada, era leitor voraz e, antes dos 10 anos, leu por completo todos
os livros que havia em casa. Não recebeu, contudo, qualquer orientação
religiosa, pois seus pais consideravam-se agnósticos e não pertenciam a nenhum
grupo ou comunidade do gênero.
Aos
15 anos, com a sua família, retornou ao seu país natal, e após a consolidação da revolução bolchevique,
ainda adolescente, foi enviado a Moscou para estudar e tornar-se agente
marxista na Romênia. Foi integrante do Comintern (organização
internacional com o fim de expandir o comunismo pelo mundo, criada por Lenin) e
era líder e agente designado e pago diretamente pelo governo de Moscou. Considerava-se,
até aquele momento, agnóstico como seus pais.
Casou-se
com Sabina Oster, em 1936. Converteram-se a Cristo em 1938, por meio do
testemunho de um carpinteiro, o sr. Wolfke,
ativo participante da missão anglicana na Romênia. Richard estudou e foi
ordenado pastor pelas igrejas Anglicana e Luterana. Em 1944, com a invasão
soviética ao seu país e a implantação do regime comunista, Wurmbrand iniciou o
ministério de pregação do evangelho junto aos soldados romenos e do exército
vermelho. Uma das primeiras diretrizes do novo governo, e sempre ocorre em
qualquer regime totalitário, é a necessidade de controlar a igreja através de
leis, penalidades e indivíduos capazes de debelar, fiscalizar e restringir seus
fundamentos e princípios, tornando-a em mero tentáculo ou apêndice do Estado.
Com isso, Wurmbrandt e outros líderes cristãos foram obrigados a criar a
“igreja subterrânea”, nos moldes da “igreja primitiva”, reunindo-se
clandestinamente a fim de não se submeter à ingerência e intervenção estatal, ou
seja, não se subordinar ao culto ideológico e idólatra de governantes e seu
poder. A principal ameaça a pairar sobre a igreja não eram as perseguições,
apropriações, torturas e mortes de seus membros, mas o tornar-se inócua, reles,
como as diretrizes governamentais ansiavam e jamais conseguiram, por meio da
criação e instalação de uma “igreja oficial”.
Muito
desse período, inclusive os 14 anos em que permaneceu preso pelo governo nas
masmorras comunistas, pode ser conhecido em seu livro “Torturado por Amor a
Cristo”², no qual relata, em detalhes, os flagelos físicos e psicológicos;
o sadismo dos carrascos, incapaz, entretanto, de enfraquecer a fé e o
testemunho através dos quais muitos deles, soldados e torturadores, se
converteram a Jesus Cristo.
A
considerar-se, primeiramente, o fato do pr. Wurmbrand não ter a menor pretensão
de escrever uma obra literária sofisticada, mas um testemunho de vida cristã. O
livro é simples na linguagem e, de certa forma, em alguns aspectos, rústico,
porém, a objetividade tem um significado: o de expressar correta e fielmente o
período em que a Romênia esteve dominada pela ideologia marxista, e foi uma
"colônia" soviética.
Os
relatos de prisões arbitrárias, torturas, mortes, e das práticas mais cruéis de
persuasão, a fim de os presos delatarem amigos, parentes e irmãos de fé — e a tentativa
de "convertimento" ao comunismo — são dignas dos períodos mais
bárbaros que a humanidade já presenciou.
Apenas
como reflexão: não é interessante como tantos — e o número só vai crescendo —
acusam os EUA de colonialista, enquanto a antiga URSS e os atuais países
comunistas são tratados como centros democráticos e que não se interessam pela
expansão de suas ditaduras mundo afora?... Chame-se a isso também pelo seu nome real:
hipocrisia.
Como
alguém já disse: “acuse-os daquilo que você mesmo defende e é!”; assim o mundo
vai se transformando, pouco a pouco, em um grande cárcere a céu aberto, onde
nem mesmo o pensamento contrário é possível. Se uma única palavra for
interpretada de maneira errônea ou equivocada por um” ouvinte” — o famoso X9, delator ou “dedo -duro” —, o
peso da mão arbitrária será sentido. Cada vez mais a humanidade vai se “homogeneizando”
naquilo de pior e injusto a aflorar a insensibilidade e torpor. E toda
unanimidade sendo burra — parodiando Nelson Rodrigues —, as ideologias insistem em tornar o mundo o lugar mais tacanho que existe.
Segundo,
os relatos da fé e do preço pago pelos cristãos por não se sujeitarem à
ditadura — isso mesmo, cristãos são perseguidos em todos os lugares, exatamente
por não se sujeitarem à idolatria Estatal, à "onipresença" da
burocracia, como um "deus" a cuidar de todos os aspectos do
indivíduo, tornando-o em menos do que um escravo, um objeto descartável e
descartado ao bel-prazer do governante ou “sistema” —, pois um dos objetivos das
ideologias é a criação de uma "nova sociedade", de "um mundo
perfeito", e, para isso, a tradição judaico-cristã, a família, a
propriedade privada, a moral, e tudo o que fundamentou a civilização ocidental,
tem de ser destruído — afinal, o Estado não é laico, mas ateísta, diz não ser
religioso, mas tem seus dogmas, culto e ídolos. O Cristianismo é o principal
empecilho, já que os cristãos verdadeiros não terão como Senhor ninguém além de
Cristo e, para os ideólogos de plantão, tal convicção é simplesmente
inaceitável, um verdadeiro absurdo.
Em
tempos de cristãos marxistas, cristãos direitistas, cristãos liberais, cristãos
conservadores — e um leque ainda maior de “palavras compostas”—, podemos dizer
que esses cristãos duplicados são realmente semelhantes e seguidores de Cristo?
Ou apenas tentam legitimizar aquilo que, mesmo inconsciente, reputam por
ilegítimo e imoral? Defender o indefensável, acreditando que o indefensável
deve ser protegido e resguardado pelo discurso e não pelas ações, é sinal de
que o cinismo se camuflou de compaixão para correr livremente.
De
maneira dissimulada, tem-se alastrado o chamado "evangelho social",
uma porta para a entrada do radicalismo em suas formas mais hipócritas, artificiais
e finórias, colocando cristãos contra cristãos, num mundo onde o discurso e não
a evangelização ganha cada vez mais "relevância", essa palavra que
surge sempre a sair da boca dos defensores de alguma causa enquanto a vida se
torna um mero detalhe.
O
número de testemunhos de fé e amor a Cristo, ao Evangelho e ao próximo,
relatados pelo pr. Wurmbrand é comovente — e em muitos aspectos deixam-nos
envergonhados —, e deveria servir de um "despertar" para a maioria de
nós, cristãos, adormecidos e embalados por um discurso de acomodação e
leniência em relação ao pecado, ao imoral, e a um Inferno cada vez mais cheio,
onde as pessoas não têm a oportunidade de ouvir as verdadeiras “boas novas, contentando-se
com uma diluição maligna da sua mensagem, em favor de "um mundo
melhor", onde as vidas, via de regra, estão cada vez piores e mais
afastadas de Deus.
Desde
já, aconselho a cada cristão, e mesmo o não cristão, a comprar o livro e lê-lo,
avaliando-se, a si mesmo, se é aquilo que imagina ser ou se está verdadeiramente
sendo (de)formado por discursos, promessas e esperanças falsas, a levar “gato
por lebre”, sem poder dizer, ao menos, ter sido engambelado.
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O
pr. Richard Wurmbrand criou a missão “Voz dos
Mártires”,³ em 1967, a fim de denunciar,
auxiliar cristãos perseguidos pelo mundo, orar e levar as “Boas Novas” do
evangelho de Cristo aos seus algozes.
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Alguns trechos:
1) Richard, conversando com um preso russo, na Romênia ocupada pelos nazistas,
durante a II Grande Guerra:
"Era
um trabalho dramático e muito comovente. Nunca me esquecerei do meu primeiro
encontro com um prisioneiro russo. Ele me havia dito que era engenheiro.
Perguntei-lhe se cria em Deus. Se ele houvesse dito "não", jamais me
incomodaria tanto. É direito de cada homem crer ou descrer. Porém quando lhe
perguntei se cria em Deus, ele levantou os olhos para mim, sem me entender, e
disse: "Não tenho ordem militar para crer. Se eu tiver uma ordem,
crerei".
“Lágrimas
correram no meu rosto. Senti meu coração quebrantado. Diante de mim estava um
homem com uma mente morta, um homem que havia perdido o maior dom que Deus dera
à humanidade - o de ser um indivíduo. Ele havia passado por uma lavagem
cerebral e se tornado um instrumento nas mãos dos comunistas, preparado para
crer ou não em uma ordem. Não podia mais pensar por si próprio. Era um russo
típico depois de todos esses anos de domínio comunista!"
2)
Definindo a experiência sobre o poder comunista, em relação à experiência sobre
o poder nazista (lembre-se, Wurmbrand é um nome judeu):
"A
partir do dia 23 de agosto de 1944, um milhão de soldados russos entraram na
Romênia e logo após os comunistas assumiram o poder do nosso pais. Então
começou um pesadelo que fazia o sofrimento sob o Nazismo parecer nada."
3)
Na cooptação da igreja:
"Desde
que os comunistas assumiram o poder, cuidadosa e astutamente para os seus
propósitos, têm seduzido a igreja".
4)
Sobre o Congresso de cristãos, no Parlamento Romeno:
"Ali
estavam quatro mil padres, pastores e ministros de todas as denominações. Esses
quatro mil padres e pastores escolheram Joseph Stálin como presidente honorário
do Congresso. Ao mesmo tempo era presidente do Movimento Mundial dos Ateus e
assassinos dos cristãos. Um após outro, bispos e pastores se levantou ao nosso
Parlamento e declararam que Comunismo e Cristianismo são fundamentalmente a
mesma coisa e podem muito bem coexistir. Um após outro, os ministros ali
presentes pronunciaram palavras laudatórias ao Comunismo e asseguraram ao novo
governo a lealdade da igreja... Então me levantei e falei ao Congresso,
exaltando não aos matadores de cristãos, mas a Cristo e Deus, e afirmei que
nossa lealdade é devida em primeiro lugar ao Senhor... Depois tive de pagar por
isto, mas valeu a pena!"
5)
Sobre as traições:
"Aqueles
que se tornaram servos do Comunismo, em lugar de servos de Cristo, começaram a
denunciar os irmãos que os não acompanhavam".
6)
Sobre as torturas na prisão:
3- Voz dos Mártires: https://www.vozdosmartires.pt/
Jorge F. Isah
Tem coisas que somente os brasileiros fazem, dizem por aí. Existem
hábitos (para alguns, manias) típicos e quase exclusivos nossos, tupiniquins.
Um deles, e talvez o mais difícil de se entender, é o de comer pizza com
talheres. Normalmente, mundo afora, come-se essa iguaria com as próprias mãos,
aos moldes alimentares dos nossos queridos “hermanos” silvícolas. Para os
“gringos” é abominável degustar tão saboroso (e gorduroso) alimento sem
apalpá-lo, afagá-lo e apertá-lo entre os dedos. Chega a ser um fetiche. De
nossa parte, esse negócio de comer pizza com as mãos deveria ser proibido e
constar no código penal, com sentenças de 15 a 20 anos de prisão, sem direito a
fiança e atenuação de pena. Deveria incluir trabalhos forçados; mas isso é
sonhar demais, né!
Onde já se viu comer com as mãos? Ainda mais pizza? Já imaginou
quantos micróbios e bactérias poderíamos ingerir?... E, depois, são esses
“selvagens” a obrigar-nos ao uso de máscaras. Gente sem noção...
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Outro particular, é a existência de cesto de lixo nos banheiros.
Lá fora, eles simplesmente jogam no vaso sanitário o papel higiênico junto com os
seus dejetos. Parece lógico, já que conservar restos fecais em cestinhos não
tem nada de civilizatório e higiênico. Seria o mesmo que manter o seu Título
de Eleitor em um cofre forte enquanto espalha dinheiro e joias pelas mesas
e cômodas da casa. Dizem que as eleições, mais do que um dever é um direito.
Ah, se fosse assim, veríamos filas semanas adentro, verdadeiros acampamentos,
nos portões das seções eleitorais. Mas essa atitude é típica dos fãs de
estrelas do rock, dos consumidores loucos por promoções, ou dos psicóticos
usuários de iPhone. Ninguém monta barraca, literalmente traz travesseiro,
cobertor, cadeira de praia, garrafa térmica e biscoito amanteigado para votar. Nada
mais justo do que abolir os cestinhos dos banheiros e qualquer esperança nos
eleitores.
____________
Brasileiro gosta de banho. Ao contrário de boa parte do mundo, é costume
nacional lavar-se diariamente. Há aqueles que não se limitam a um, mas tomam
dois ou três. E veem depois falar em ecologia. Querem prender a senhorinha que
esfrega o passeio uma vez por semana e o moleque que lava o carro
quinzenalmente. Mas aqueles intermináveis 40 minutos de ducha, três vezes por
dia, não causam qualquer impacto na natureza. É o típico cara a tirar o cisco
do olho alheio enquanto mantém a trave no seu.
Aqui as coisas são tão estranhas que se criou o termostato de
chuveiro, para impedir o excesso de tempo entre um enxague nos cabelos e outro
nos pelos pubianos.
Essa mania se espalha a quase tudo, até mesmo nos altos escalões.
Houve um tempo, não muito distante, onde se criou a “Operação Lava-Jato”, cujos
efeitos foram tão rápidos e inócuos — graças
a artifícios interpretativos de certa Corte — que todos os "sujões” estão
a emporcalhar o país de novo. Nem uma fonte de água sanitária molhando-os
ininterruptamente daria cabo dessa bodega. Ou seja, não adiantam banhos, pois
jamais seremos devidamente “limpinhos”.
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Talvez, por sermos tão “sui generis”, o mundo desconhece que
“hablamos” português, e acreditam piamente que o Brasil é um país de língua
espanhola. Não sei o que os lusitanos esperam e fariam, mas, se fosse eu,
ficaria quietinho e deixaria toda a culpa para os hispanos.
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Se
você conhece outra mania, e quer “expô-la” publicamente, mande-nos o seu e-mail
com a sugestão e um PIX para a conta do editor.
Jorge F. Isah
Este livro foi lançado recentemente, em dezembro de 2025, mas sua gestação se deu ao longo dos últimos quarenta anos — um pouco mais ou menos: foi um parto programado e longo.
Michel Salomão esteve às voltas com a
burocracia, especialmente a ainda mais burocrata e menos eficiente, a justiça. Contudo,
nada o impediu de sonhar, conceber e dar à luz ao seu projeto mais ambicioso e,
por que não, mais ansiado — para o pequeno círculo de amigos que estavam a par
da sua criação. Nesse período, o autor produziu muito do que está em suas
páginas, com o vigor, desprendimento e convicção de que o seu processo criativo
era, no mínimo, estranho e estranhamente real e imaginativo, sem a distinção de
onde um começava e onde o outro terminava. A realidade pode muitas vezes ser
impalpável, enquanto a imaginação pode ser, por seu lado, extremamente concreta.
Cabe a uma e outra suas porções de evidências e mistérios.
Pois, finalmente, “Olhos de Fome” está
entre nós. Não como mais um livro, mas o livro dentro de tantos outros que a
vida de Michel produziu e a maioria dos leitores não terá acesso. Se há um
consolo é o de que, na personalidade surpreendente do autor — que se mistura à
estranheza de suas criações — a possibilidade é real de encontrar traços e
componentes que indiquem a saída do labirinto de sentimentos, afetos e paixões
que personificam o ser humano, em maior ou menor grau, nos símbolos e camadas
do texto.
A obra é uma coletânea de contos escritos
nas últimas décadas, sendo a maioria nos últimos três, quatro anos, com o
advento da Revista Bulunga. Neles encontramos a mesma estética de surpreender o
leitor com temas aparentemente banais, mas que causam desconforto e empatia, ao
nos ver refletidos nas formas — ou “fôrmas” — e nos identificamos, por exemplo,
com o funcionário medíocre, o megalomaníaco, o psicótico, o ranzinza, ou a
mulher — do conto inicial que dá título ao livro — que, incapaz de intimidade,
utiliza o sexo como forma de poder, tenta não repetir a herança violenta, mas
apenas a ressignifica. Em nenhum momento, o livro é conciliador, reconfortante,
ou apela para os clichês modernosos.
Ainda que não exista um nítido desejo de absolvição,
os temas e personagens são apenas expostos, sem sentimentalismo ou pieguice,
sem atenuar os conflitos ou descaracterizá-los. Se está a procura de literatura
reconfortante ou conciliadora, em que os dilemas sejam apagados em um passe de
mágica, vade retro, desista. Mas se quer realmente conhecer a alma
humana, com todos os seus dramas — muitos, patéticos —, dúvidas e aquele
deslocamento natural e sincero, é um prato cheio.
Porém, não se esqueça: em quase todos os
escritos de Michel, você sempre encontrará aquelas pitadas — em maior ou menor
grau — do humor satírico, provocativo, irônico e, por vezes, deliberadamente
hiperbólico e caricatural. É assim que funciona. É assim que deve ser. Tal qual
Bukowski, Stanislaw Ponte Preta e Millôr Fernandes, capazes de transformar o
feio, o banal e o rotineiro em algo intenso e, às vezes, belo e otimista.
O mais engraçado, se me permite, é quando notamos
o narrador a rir de si mesmo, a fazer do seu caráter, dogmas e conceitos, a
base ideal para a autocaricatura e, assim, tirar sacadas e risos diante do
espelho. É quando o riso do leitor ao personagem se volta ao narrador e, quase
sempre, ao autor. Tem-se o círculo perfeito, inquestionável. E disso vive a boa
literatura, desta capacidade autodepreciativa e nada ufanista.
Para quem “torce o nariz”, atire a
primeira pedra. Porém,
esteja
consciente de que ela pode voltar como um bumerangue.
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Avaliação:
(****)
Título:
Olhos de Fome
Autor:
Michel Salomão
Páginas:
245
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