15 julho 2026

Estudo sobre a Confissão de Fé Batista de 1689 - Aula 48: Autoridade e Sustento Pastoral - Parte 2







Jorge F. Isah

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Continuando o nosso estudo sobre a biblicidade da autoridade e do sustento pastoral, primeiramente, façamos um esclarecimento: Não sou pastor, seminarista, nem recebo salário da igreja da qual sou membro.

Segundo, muitos dirão: "Veja quantos pastores profissionais existem, que sugam tudo o que podem dos fiéis, extorquindo-os com falsas promessas de bênçãos enquanto se empanturram de dinheiro, gastando-o da forma mais mundana possível, em bens materiais e suntuosidade". Reconheço, é verdade. Há muitos líderes que "vendem" o Evangelho, tratando-o não menos que um produto rentável. Mas isso representa dizer que todos são mercenários? Que estão buscando o que lhes é próprio ao invés da glória de Deus? Não! E a despeito de todos os falsos mestres (os quais estão sob a ira de Deus), a Bíblia exorta a igreja a suprir as necessidades dos que pregam a palavra.

Terceiro, nossa igreja é pequena e de poucos recursos; auxiliamos o nosso pastor em seu sustento, contudo, ele trabalha secularmente seis dias por semana, 10 horas por dia, para suprir as necessidades de sua família. E percebo que se ele fosse um pastor de tempo integral dedicado à igreja, tanto os membros como os trabalhos evangelísticos seriam fortalecidos.

Quarto, não quero generalizar, mas, normalmente, os que atacam o sustento pastoral são aqueles que se acham dignos de serem crentes, desde que não tenham de sacrificar nenhuma parte dos seus bens. De certa forma, o que move os "mercadores da fé" é o mesmo que os move: a avareza, o amor ao dinheiro.

Quinto, há os que tentam espiritualizar o que não é espiritual. O Evangelho de Cristo é espiritual, porém, proclamado fisicamente pelo pregador, pela impressão de Bíblias (por mãos incrédulas, muitas vezes), em suma: por meios humanos. Tentar provar que a pregação do Evangelho não é trabalho (seja remunerado ou não) é contradizer o próprio tratamento dado à questão por Jesus (Jo 4.38, 5.17), e Paulo (1Co 3.8, 15.58; Cl 1.29; Hb 6.10).

Feito os esclarecimentos, analisemos alguns versículos que tratam do assunto:

1) "Quem jamais milita à sua própria custa? Quem planta a vinha e não come do seu fruto? Ou quem apascenta o gado e não se alimenta do leite do gado?" (1Co 9.7).

O que o apóstolo está dizendo? Aqueles que pregam o Evangelho que vivam do Evangelho (1Co 9.14). Paulo reinvindica o direito de ser sustentado em seu ministério pela igreja. Como afirma: "Ou só eu e Barnabé não temos direito de deixar de trabalhar?" (1Co 9.6). Provavelmente os coríntios acusavam Paulo de "mercadejar" o Evangelho, de procurar o benefício próprio, de pregar o Evangelho por motivos mundanos. Porém, revela-lhes que tanto ele como os demais apóstolos têm o direito de terem o sustento para si e suas famílias, e de que essa responsabilidade cabe à igreja (1Co 9.4-5). Não é o que parece ao afirmar "Esta é minha defesa para com os que me condenam" (1Co 9.3)? E "Digo eu isto segundo os homens?" (1Co 9.8). Ao que arremata: "Ou não diz a lei também o mesmo?" (1Co 9.8).

Paulo prossegue a argumentação protestando que, aquele que lavra e debulha (ou seja, aquele que trabalha), lavra e debulha com esperança de ser participante (1Co 9.10). E continua: "Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito que de vós recolhamos as carnais?" (1Co 9.11). O apóstolo declara que esperava colher muito menos dos coríntios do que lhes tinha dado, mas ainda assim, esperava obter o necessário para a sua subsistência.

A sequência à qual Paulo expõe o seu pensamento é extremamente lógica, e impossível de não entendê-la, a menos que seja lida com premissas falhas. É o que muitos dirão, justificando-o com o v. 12: "Se outros participam deste poder sobre vós, por que não, e mais justamente, nós? Mas nós não usamos deste direito; antes suportamos tudo, para não pormos impedimento algum ao evangelho de Cristo".

Atentamos que o verso fala de um "direito" que o apóstolo possuía, o qual era o de ser mantido pela igreja. Porém, diante das dúvidas levantadas pelos coríntios, e da própria resistência da igreja em ajudá-lo, ele não "usou" esse direito, para que a descrença dos coríntios não aumentasse, e fosse "impedimento" para a proclamação do Evangelho. Dizer que Paulo censurou os ministros que são sustentados pela igreja é distorcer completamente o sentido daquilo que ele próprio diz.

Resumindo: Paulo não pregava o Evangelho por causa das recompensas, por aquilo que a igreja iria lhe dar; ele pregava o Evangelho por amor a Cristo e aos eleitos (2Tm 2.10), contudo, esperava que, como igreja, os irmãos suprissem as suas necessidades.

2) "Outras igrejas despojei eu para vos servir, recebendo delas salário; e quando estava presente convosco, e tinha necessidade, a ninguém fui pesado" (2Co 11.8).

Qual de nós, vendo o irmão em necessidade, vira-lhe as costas? Foi o que os coríntios fizeram em relação a Paulo. E ele os exorta com tristeza, sabendo que negligenciaram o seu compromisso para consigo; porém com o nítido objetivo de não somente apontar-lhes o erro, mas de levá-los ao arrependimento e correção. Senão, por que tocar no assunto?

Há quem entenda que Paulo está condenando os que recebem salário, como alguém que é "pesado" à igreja, um usurpador (ao contrário, o que ele diz dos coríntios é que suas atitudes eram usurpadoras, eles é que "roubavam" dos macedônios ao receber o Evangelho de graça, sem nenhum sacrifício).

É claro que há casos e casos. Aqueles que se utilizam da posição de liderança no ministério para o enriquecimento, a abastança material, o deleite carnal, o consumismo desenfreado, e o apego sórdido ao dinheiro (seja pastor ou não) comete pecado, e é injusto. Em outras palavras, quem age assim sequer é convertido. Porém, o fato de muitos agirem desta forma (e, infelizmente, parece que o pastoreio se tornou num novo "toque de Midas" o qual transforma tudo o que põe a mão em ouro), não representa que o princípio da subsistência ministerial seja antibíblico.

Novamente, Paulo escreve aos coríntios dando-lhes "um puxão de orelhas", entre outras coisas dizendo que eles deveriam agir e viver como igreja. Havia muita divisão entre eles, muito sectarismo; e para a sua tristeza, especialmente por que plantara a igreja, eles o desprezavam em detrimento aos falsos apóstolos (2Co 11.1215) os quais, certamente, eram os que o caluniavam junto ao povo.

Ele defende-se de que, em nada é menor do que os demais apóstolos e, portanto, tem o mesmo direito que os demais tinham, inclusive o de viajar com sua família, como Pedro fazia (2Co 11.5). Mesmo solteiro, Paulo reivindica esse direito, o de constituir uma família e poder viajar com ela no seu ministério.

Temos de entender que o fato de Paulo pregar de graça aos coríntios, e os coríntios o receberem sem se preocupar com as suas necessidades, é motivo de glória para o apóstolo e de "desglória" para a igreja de Corínto, ainda que isso não os impediu de serem abençoados pela pregação do Evangelho. É o que ele diz: "Pequei, porventura, humilhando-me a mim mesmo, para que vós fôsseis exaltados, porque de graça vos anunciei o evangelho de Deus?" (v. 7).

À frente, no capítulo 12, vem-nos a confirmação: "Pois, em que tendes vós sido inferiores às outras igrejas, a não ser que eu mesmo vos não fui pesado? Perdoai-me este agravo... Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado" (2Co 12.13,15 - grifo meu). Parece-me que Paulo coloca os coríntios em pé de igualdade com as demais igrejas, a não ser pelo fato dele não ter sido "pesado" a ela. Em outras palavras, os coríntios estavam numa posição "inferior", em débito, por não terem com essa beneficência demonstrado "amor" ao apóstolo. É assim que Paulo os retrata: enquanto o seu amor por eles aumentava a ponto dele se sacrificar para pregar-lhes o Evangelho (o que implica em passar necessidades), a igreja de Corinto não se dispunha a auxiliá-lo em seu sustento, como prova de amor.

No fim das contas, o que importa é isso: o amor a Cristo e Seu Evangelho, o que resulta em obediência. 

Apêndice: De certa forma, o mesmo sectarismo que Paulo aponta entre os coríntios, vemo-lo hoje. A Igreja está tão dividida, inclusive pelos que pregam unidade, pelos sem "placas" nem "nomes", pelos que se julgam filhos "exclusivos" de Deus, pelos que se consideram "libertos" mas estão presos ao pior farisaísmo existente, e acabam por se esquecer do principal: pregar o Evangelho de Cristo crucificado (1Co 2.2).

Perdemos tempo com "outros" evangelhos, e negligenciamos o que realmente importa. Com isso, não quero jogar para "debaixo do tapete" os problemas da igreja, muito menos pregar o evangelho ecumênico. Longe de mim cometer estes pecados. Mas, se ao invés de gastar o precioso tempo de que dispomos tentando "corrigir" os erros de outras igrejas e denominações, preocupássemos conosco, nossos irmãos e igreja certamente estaríamos "salvando" a nós mesmos e aos nossos queridos... Um minuto! Não confunda uma frase hiperbólica com salvação de verdade, a qual apenas o nosso Senhor Jesus Cristo é capaz de realizar. Quero dizer é que, nos preocupamos em "salvar" os outros (pelo menos nos enganamos com essa idéia), quando na verdade o nosso objetivo é "revelar" o quanto estão errados e desviados do caminho; e assim nós mesmos acabamos nos desviando do caminho, substituindo o amor pelo legalismo, a mera acusação, e a autoexaltação. E, por favor, não confundam essa declaração com a condenação à disciplina bíblica, pois a disciplina é atributo da igreja, do corpo local, e não de irmãos isolados que falam por si só, como se fossem a própria voz de Deus (estes, se forem eleitos, são alvos da disciplina divina).

Deus levantará segundo a Sua santa vontade irmãos que farão o trabalho apologético, defendendo a fé bíblica apontando o erro daqueles que são antievangelho, e mesmo dos cristãos que "deslizaram" em um princípio ou outro. Mas, infelizmente, o que acontece é que, de uma hora para a outra, a maioria se arrogou e arvorou apologista, e saiu "atirando" para todos os lados, como uma metralhadora descontrolada.

Enquanto isso, sorrateiramente, o diabo planta dentro do corpo local suas heresias, mas como nossos olhos estão voltados para os erros alheios (de outras denominações e outros irmãos denominacionais, cuja disciplina não está ao nosso alcance), permitimos que a nossa omissão e desleixo corrompa-nos também.

O pior é que muitos nem sequer participam do corpo local, acreditando num cristianismo solitário e individualista, numa clara rebeldia aos princípios bíblicos que dizem defender. No fundo, se consideram superiores e melhores do que os mandamentos de Cristo; e sentam-se confortavelmente em suas torres de observação, desprezando-a, ridicularizando-a, pois sequer passa-lhes pela cabeça submeter-se à autoridade com que o Senhor investiu-a.

São "livres" para bater à vontade, contudo, esquecem-se de que, caso sejam eleitos, a mão disciplinadora de Deus está sobre eles. Se não forem, não há disciplina, mas a condenção eterna os aguarda.

A melhor forma de se pregar o Evangelho de Cristo é pregando o Evangelho de Cristo, e não combatendo o antievangelho. Qualquer um pode combater (pois nem mesmo argumentos precisa-se ter, apenas vontade, disposição), mas poucos são capacitados a viver o Evangelho, pois para isso é preciso ser convertido por Cristo, regenerado e lavado no Seu sangue.

A melhor forma de se lutar contra a fraude e a heresia é expondo a verdade bíblica. De nada adianta refutar a heresia se não se obedece aos mandamentos do Senhor, e assim fazendo-o, demonstra não amá-lO (Jo 14.15) e, "em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens" (Mc 7.7).

Portanto, é urgente que antes de se entrar numa "caça às bruxas", que se viva o Evangelho, testemunhando a Cristo nosso Senhor. Fim do apêndice. 

Finalizando, transcrevo mais uma vez as palavras do apóstolo Paulo: "Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina; porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário" (1Tm 5.17-18); porque "se alguém também milita, não é coroado se não militar legitimamente. O lavrador que trabalha deve ser o primeiro a gozar dos frutos. Considera o que digo, e o Senhor te dê entendimento em tudo" (2Tm 2.5-7).

Timóteo ouviu.

E, nós?

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ÁUDIO DA AULA:


Nota: 1- Aula realizada na EBD do Tabernáculo Batista Bíblico  




10 julho 2026

Copa, carnê e caviar

 



  

          Aqui e acolá, assisto a um e outro jogo da Copa, e algo que salta aos olhos é como os torcedores se mostram festeiros e animados — quase chego a dizer felizes — antes e durante os jogos... claro, até aquele gol adversário.

     Países com problemas econômicos, sociais, políticos e, quiçá, existenciais, na América são representados por cidadãos saudáveis, bonitos e eufóricos, todos com seus Galaxys Ultra e iPhones Pro Max erguidos como troféus olímpicos à caça dos três segundos de eternidade no feed.

      Cá estou eu com o meu Moto G, me perguntando se não seria hora de arriscar tudo em um carnê de vinte e quatro prestações e ter a minha parcela de alegria. Mas então me lembro: alegria de pobre dura pouco.

      É tanta gente bonita que chego a desconfiar de IA ou coisa que o valha. Esqueço a fila do SUS, os odores do metrô e as matérias orgânicas das calçadas.

      A festa não estaria completa sem os narradores e comentaristas, que disputam a tapas os espectadores — como se sofressem de hipoacusia severa. Entre a publicidade de cerveja e casa de aposta, temos a certeza de que se a Copa fosse mensal ninguém mais teria fome ou boletos.

      Convenhamos, é um fenômeno e tanto. O país para. Em dia de jogo, ninguém pensa em mais nada. Famintos, desempregados e endividados se unem em comoção pelas cores verde e amarela — bandeiras, camisetas, faixas... ruas, muros e fachadas. Nada de lembrar da luz atrasada.  Mas a assinatura da Tevê está em dia. O resto que se dane.

      Seja na eliminação precoce ou não, daqui a duas semanas tudo voltará ao normal. E os momentos de comunhão quase espiritual — entre odes e hinos e unção coletiva — darão lugar às filas, engarrafamentos, xinglings roubados para uma cervejinha. Afinal, ninguém é de ferro... até as eleições... quando bufantes e histriônicos, os eleitores darão a sua parcela de caviar e mansão em Miami para os escolhidos.

      Em quatro anos, verá tudo de novo... mesmo que os seus olhos insistam em dizer o contrário, e você acredite.

 

Jorge F. Isah

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Nota: Publicado originalmente na Revista Bulunga



06 julho 2026

Noventa minutos de patriotismo

 




Jorge F. Isah

 

"O Brasil ganhou!... O Brasil ganhou!”

Seja lá o que isso representa. Foi um jogo contra os japoneses, que já não são os mesmos. Na Segunda Guerra, endureceram muito mais a peleja do que hoje. Tudo bem, os motivos são outros, mas a idolatria é a mesma.

No Japão, o esporte mais popular é o Baseball, depois vem a competição de hashis nas feiras de Tóquio.  O futebol deve vir logo após o “Torneio nacional de organizar filas”.

Não sei de você, mas o foguetório, gritos e palavrões em brados efusivos lembraram-me a comoção da queda do Muro de Berlim, a vitória do Miss Universo por um LGBTQ+ , e a eleição do presidente mais honesto que já existiu. Ninguém se lembra dos preços nos supermercados e da prestação atrasada.

Veja o caso do juiz que resolveu apitar depois da partida e marcou penalti contra certa empresa por não haver mulher em cargo de gerência. Se a moda pega, a próxima Copa começará e terminará sem futebol. Pois o lema é:

“Não ao futebol. Mais igualdade social”.

Susete e Geni para os lugares de Messi e Vozinha. E Marciele no de Ancelloti.

Um juiz pode dizer como administrar uma empresa privada, mas, por que raios o Estado está falido?... Vai ver, acham que a competência discrimina. Como pode privilegiar quem faz o certo e melhor?

Viva os “pernas-de-pau”!

Enquanto as vitórias chegarem, não existe povo mais patriótico. Já a primeira derrota e aquele país de “m...” será cantado aos quatro ventos, no refrão inédito do crooner, enquanto balança as nádegas no banheiro.

Se quatro anos passam rápidos, o espírito nacional anda em marcha a ré. Até os próximos noventa minutos, com chance de prorrogação.

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Nota: Texto publicado originalmente na Revista Bulunga


30 junho 2026

Como ser um idiota em três passos

 




Jorge F. Isah

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Primeiro, acredite no governo. Vote, defenda, brigue e se sujeite às maiores loucuras a fim de proteger o seu político de carteirinha. Nunca se esqueça do que ele diz: “eu cuido de você!”. Escreva em um bloquinho — caso saiba escrever — a frase da sua vida, dita pelo seu chefe: “sem mim, nada podeis fazer”. E então, se possível e a grana deixar, cole na parede do quarto um grande pôster do seu político sorrindo, acenando e demonstrando, “espontaneamente”, o quanto é confiável e quer o seu bem. Ah, ia me esquecendo: jamais conteste ou duvide das atitudes dele e, se confrontado, repita em alto e bom som: “Não permito que fale assim do meu papai ou mamãe”. Afinal, isso, a ingratidão, é coisa de filho bastardo, não é?

Segundo, acredite na mídia. Leia, ouça, não se canse de ler e ouvi-la, seja TV, rádio, YouTube, X, ou a plataforma da sua preferência. Eles são imparciais e, como os políticos, existem por você, para deixá-lo a par dos últimos benefícios do governo e fazê-lo entender que o mal é bem, e o bem mal; de que pé de galinha e salsicha são os melhores alimentos do mundo… e, pensando em seu bem-estar, abriram mão de comê-los em troca dos inapropriados e nocivos filés, lagostas e caviares. Se possível, assista a todas as edições dos telejornais e ria na cara de quem, por algum motivo, duvide da lisura e independência da emissora. Afinal, por que acreditar nos próprios olhos se existem outros mais confiáveis — mesmo escondidos entre saias e calças — onde depositar a esperança, não é?

Terceiro, acredite que não é gado e não faz parte de um rebanho. No fundo, isso é coisa de bolsominion ou lulalarápio. E se você está de um lado, o gado está do outro, e vice-versa. Chame o outro de gado enquanto muge. Chame-o de idiota enquanto é utilitário. E jamais se esqueça de que a verdade está do seu lado, a despeito de não crer em verdade absoluta. Se possível, defeque enquanto caminha atrás do líder, cuspa, vomite, e, por onde passar, deixe a sua marca: pinche paredes, faça desenhos obscenos, xingue a mãe dos outros como se não tivesse uma, ameace matar sicranos e fulanos, erga o punho alto o suficiente, berre além do suficiente, conclame outros a fazer o mesmo, e depois de muito esforço e cansaço, deite-se para ruminar.

Você é um perfeito, ou quase perfeito…
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Nota: Texto publicado originalmente no portal Bulunga



25 junho 2026

Tania e o bordel: Patty Hearst e o SLA

 




Jorge F. Isah

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Você já ouviu falar de Patricia Campbell Hearst? Não? E Tania? Sabe quem foi? Ou foram? Pois bem, vou explicar: Patty Hearst, para os íntimos, é neta do bilionário das comunicações americanas William Randolph Hearst, o mesmo retratado por Orson Wells em “Cidadão Kane”, de 1941. Se quiser saber um pouco sobre a vida e os métodos jornalísticos do vovô Will, assista à película, ganhadora do Oscar de melhor roteiro, e considerado pela crítica mundial como o melhor filme de todos os tempos — há quem duvide... muitos negam... mas a maioria das pessoas sequer sabe da existência deste e de outros excelentes filmes, especialmente quando se está enfeitiçado, ou melhor, abduzido, pelos produtos da Marvel e D.C. Comic.


Retro Review: Citizen Kane - Geeks Under Grace  Wells como Hearst


Patty, em 1974, aos 20 anos, foi sequestrada pelo grupo revolucionário/marxista americano chamado Exército Simbionês de Libertação — a nota engraçada é que se autodenominavam “libertação” mas faziam mesmo era roubar, sequestrar, assassinar e cometer outras violações da liberdade — cuja bandeira era o fim do racismo, da monogamia e do sistema penitenciário — alguma semelhança com boa parte da plataforma dos partidos brasileiros?. Como não existe coerência e lógica entre revolucionários, o primeiro assassinato foi, por incrível que pareça, de um negro. Sim, o professor Marcus Foster, o primeiro negro a ocupar o cargo de superintendente das escolas em Oakland, Califórnia, morreu a tiros em 1973.


Homem de terno e gravata

Descrição gerada automaticamente  Marcus Foster assinado pelo SLA


Durante o cativeiro, Patty simpatizou-se com seus algozes (Síndrome de Estocolmo), mudou o nome para Tania (homenagem a uma das namoradas de Che Guevara), e participou de incursões criminosas, mais notadamente o assalto ao Hiberna Bank, em São Francisco, e ao SLA de Crocker National Bank , em Carmichael, quando a cliente grávida, Myrna Opsahl, foi morta à queima-roupa por Emily Harris, enquanto fazia

Desenho de um homem

Descrição gerada automaticamente  Myrna Opsahl morta pelo SLA

 

um depósito. Segundo relatos dos próprios integrantes do SLA — o símbolo era uma cobra de 7 cabeças — Harris afirmou ter matado a mulher por ela ser burguesa, branca e apenas um efeito colateral. Por 19 meses, Hearst atuou disparando suas armas contra civis e policiais até ser presa e condenada em 1975 (em 1979, Jimmy Carter - só podia ser ele - comutou a pena e Patty ganhou liberdade).

 

Foto em preto e branco de homem com arma na mão

Descrição gerada automaticamente com confiança média  

Tania em assalto a banco


Patricia Hearst afirma, ainda hoje, ter sofrido lavagem cerebral durante o sequestro, e por isso não se considera responsável por seus atos. Parece uma boa tática... Muitos brasileiros certamente poderão aderir a esse discurso, afinal, dia e noite são bombardeados por todos os tipos de mensagens explícitas ­ — não se preocupam mais em fazê-las subliminares — a fim de fugirem da realidade e lutarem por um paraíso terreno. Enquanto cada um colabora com o seu quinhão para tornar mais satânica a terra do Dr. No... Bem, se não nasceu aqui, certamente se naturalizou e faz as suas estripulias por todo lado, de norte a sul, de leste a oeste, seja de terno, toga, farda ou camiseta regata.

Infelizmente, não existe um James Bond para combatê-los... Existir até existe, mas ele está confinado a um bordel ultrassecreto... e de lá não quer sair.        

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17 junho 2026

O Silêncio, de Don DeLillo

 



Jorge F. Isah

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O Silêncio, como boa parte da obra de Don DeLillo é um livro estranho, ou como o amigo Michel Salomão gosta de definir: esquisito. Ele parece ter uma fixação com o apocalipse, o fim dos tempos, e muitas vezes parece indicar que, quanto mais tecnológico e avançado, mais a humanidade se coloca em risco. Seus personagens são gente comum, que levam uma vidinha medíocre, mas têm pensamentos e atitudes que beiram a anomalia. Ao descrevê-los em seus ambientes comuns, em suas relações comuns, permeadas por ações comuns, o autor imerge-os numa normalidade moderna e extremamente imanente, porém, reserva-lhes as suas parcelas de excentricidade e quase demência.

      Em O Silêncio, uma novela (há quem a repute um romance, mas vai que cola) temos o encontro de dois casais de amigos e um ex-aluno, numa noite em Nova York em que a atenção está voltada para a final do SuperBowl — DeLillo utiliza o evento como se fosse um objeto de culto, um altar coletivo, onde os torcedores e espectadores seguem à risca a liturgia estabelecida pelas normas sociais. O que os personagens não percebem é o fato de que o esporte, o trabalho, o sexo, entre outras práticas modernas, se inserem no rol dos “substitutos” visíveis, a tentativa de escorarem a vida nos mecanismos imanentes.

Nesse ínterim, ocorreu um colapso nas redes de comunicação, internet, ocasionando uma espécie de apagão digital. O pânico se forma de maneira irreversível, enquanto as pessoas estão assustadas, pois a vida como conhecem está num estado de interrupção, sem que se saiba a causa e por quanto tempo durará. Com isso, vem a insegurança e incerteza em relação aos rumos que o mundo tomará, ao menos naquele momento. 

O silêncio das telas, rádios e comunicadores simboliza o desamparo e o estado de estupefação em que as pessoas se encontram, tornando-as formigas diante do fogo. Os pensamentos são divagantes e disruptivos. No fundo, as pessoas não estão preparadas para o silêncio ou a escuridão, mesmo que vivam neles; é necessário haver brilho e sons artificiais para distraí-los da intimidade perigosa de suas naturezas.

Enquanto bebem, dormem, entre diálogos inconstantes, os olhares se fixam na tela escura que, em última instância, é o reflexo de suas consciências confusas e anestésicas. O apagão revela aquilo que não podem ver, muito mais do que aquilo que podem. É como se o mundo não perdesse significado mas, simplesmente, estava além da possibilidade de eles apreenderem-no. A vida se esvazia ao ponto em que o silêncio anseia por tagarelice, e serve para indicar aquilo que nunca se teve e, contudo, não se quer perder. É o nonsense existencial, onde a falta de bits e pixels, isolam as pessoas dos verdadeiros significados e as deixam à deriva sem os seus manuais de instruções.

A literatura de DeLillo não tem aspectos transcendentes e, talvez, por isso, ela reproduza tão bem a inadequação humana perante a realidade. Para ele, a perda de sentido e ordem não necessitam de grandes eventos, catástrofes naturais ou cósmicas. Basta a perda do conforto ou uma ameaça pueril para fazer o homem voltar à caverna, assustado com o brilho e estrondo de um relâmpago.

Ele revela a fragilidade humana e o quão incapaz é de controlar não somente os eventos mas a própria existência. E, por isso, não é difícil encontrar respostas, mesmo em um mundo que insiste obstinadamente em não as encontrar.

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Avaliação: (***)

Título: O Silêncio

Autor: Don DeLillo

Editora: Cia das Letras

Páginas: 112




10 junho 2026

Buster Keaton: A sacralidade da comédia

 




Jorge F. Isah

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Em um mundo onde a expressão “gênio” se banalizou e serve de referência para qualquer artista “meia-boca”, desdentado, e alguns incapazes de digerir a própria nulidade, Buster Keaton foi, na acepção da palavra, um dentre os poucos gênios da comédia. Nos primórdios do cinema, ainda mudo, em preto e branco, utilizando equipamentos rudimentares e técnicas ainda não exploradas — muitas em uso ainda hoje —, ele, juntamente com Chaplin e, talvez, apenas talvez, Harold Lloyd, formaram a tríade ou a nata do humor. Eles criaram gêneros, estilos e aperfeiçoaram o que artistas posteriormente copiaram e adaptaram — uns com sucesso, outros, sem talento, foram incapazes de reproduzir.

Antes que me esqueça, há uma cena no filme “Luzes da Ribalta”(1952), de Chaplin, onde o ator britânico contracena com Keaton em uma espécie de recital: Buster ao piano e Charles ao violino. A ação é impagável!.. Sempre houve uma certa “disputa” entre os fãs de Keaton e Chaplin quanto a quem seria o maior entre eles. Nessa época, o americano estava meio esquecido em Hollywood, e o inglês estava no auge da fama. Chaplin, a fim de reconhecer o talento do “rival” e trazê-lo de novo às luzes, convidou-o pessoalmente a integrar o projeto. Além de um gesto digno e generoso, Charles foi justo em sua homenagem. 


Uma lástima, para a grande massa, Keaton não ser conhecido além do grupo de aficionados e estudiosos; e muito se deve, apesar do seu talento superlativo, ao fato de nunca ter sido um bom marqueteiro, e de algumas péssimas escolhas para a carreira, quando estava no auge da fama.

Ator, trapezista, diretor, produtor, roteirista e mais uma gama de outras habilidades a desempenhar com elevada aptidão, Joseph Frank Keaton nasceu em 1895, em Piqua, Kansas. Filho de pais que trabalhavam no vaudeville itinerante, sua mãe, Myra Keaton, iniciou o trabalho de parto do bebê no palco. A sua ligação com a arte estava definitivamente consolidada, e perduraria até a sua morte.

A estreia se deu aos 3 anos, contracenando com os pais, em 1899. O espetáculo se chamava “Os três Keatons”. A primeira aparição no cinema se deu pelas mãos do diretor Roscoe “Fatty” Arbuckle, em 1917. Era uma ponta, mas a sua atuação foi tão impressionante e natural que se tornou impossível continuar a produção sem ele. Daí em diante, foram 14 curtas até o início da década de 1920, todos em parceria com Arbuckle.

Ainda em 1920, participou do seu primeiro longa, criou a sua própria produtora e detinha o completo domínio sobre as suas produções. Iniciava-se a época de áurea, que perduraria até a assinatura de contrato com a MGM... mas essa é outra história.

Ao contrário de muitos artistas do gênero, Keaton privilegiava a ação, os movimentos, ao instaurar a comédia por meio da linguagem cinematográfica utilizando-se de objetos, acrobacias, quedas, saltos, fugas e o cuidado detalhista com os cenários, tomadas e enquadramentos, numa espécie de “comédia física”, se assim podemos chamar. Nada era improvisado em termos de roteiro e produção. Meticuloso e perfeccionista, Buster se esmerava em cada minúcia, a trazer à realidade aquilo gerado em sua imaginação. Não existe paralelo na história cinematográfica; e qualquer um a contestar, pode se convencer do contrário, bastando assistir um dos seus filmes. Se Chaplin concebeu a sua “magnum opus” em “Tempos Modernos” e o “Grande Ditador”, a obra de Keaton tem de ser avaliada em seu todo, da mesma forma que em seus filmes ele privilegiava também o todo e não apenas a atuação. Mesmo sendo o centro, o personagem principal, é quase impossível não notar o esmero com que coadjuvantes, direção, produção, cenas e cenários se encontram em unidade indissolúvel: nenhum detalhe pode ser prescindido, nada pode ser acrescentado — e o humor está exatamente na relação desajustada e hiperbólica entre personagens/objetos/cenários.

O estilo Keaton imprimiu influência diversificada no mundo da arte e entretenimento, ao ponto de personagens de quadrinhos — Pernalonga e Papa-Léguas — surgirem a partir do seu humor absurdo e improvável. Não é difícil também apontar a sua influência em outros humoristas: Oscarito e Jackie Chan, p. ex., e desembocar em diretores como Jacques Tati e Wes Anderson, entre outros.

Buster Keaton não utilizava dublês. Ele mesmo se encarregava de fazer as cenas perigosas. Em algumas delas, colocou a sua vida em risco. Citarei três.

No filme “A General”— assim como para ele, e para mim, era o melhor dos seus filmes. Se ainda não assistiu, não perca tempo! —, na cena antológica em que a locomotiva sulista está se deslocando, Keaton assenta-se em uma parte que movimenta as rodas do trem, fazendo-o subir e descer lentamente. As chances de falhas na composição não eram poucas, e o ator poderia ser lançado para longe e machucar-se seriamente, mas não parece afligir o espectador, tal a sincronia entre máquina e homem no desenrolar da cena — ainda que o improvável pudesse se tornar factível e não apenas cogitado.


Em “As três idades”, Keaton tem de pular de um prédio para outro, entre uma rua. Ele calculou erroneamente a distância e, por pouco, não ocorreu uma fatalidade. Ao chocar-se com a parede do prédio, caiu em uma rede de proteção e ficou no estaleiro por alguns dias. Na versão final, é possível ver a cena, pois Buster sempre ordenava aos câmeras nunca pararem de rodar, a despeito dos acidentes que pudessem ocorrer.

No longa “Marinheiro de Encomenda”, talvez a mais inesquecível, Keaton arrisca-se em uma cena incrivelmente magnífica: no meio de um temporal, o vento arrasta e derruba pessoas e destrói casas. Quando o personagem de Buster, descuidado e inconsciente do perigo, para diante de uma casa, a parede desaba inteiramente sobre ele, que escapa incólume, graças a uma janelinha no sótão, suficiente para salvá-lo. Nessa cena, milimetricamente estudada e executada, Keaton marcou o lugar com um prego no chão e não poderia se mover sequer alguns centímetros, sob o risco de ser esmagado pela estrutura de duas toneladas. Todas essas cenas foram produzidas sem qualquer truque ou efeito visual — era o próprio ator desafiando os elementos. 


A sua pior decisão profissional aconteceu em 1928, quando assinou com a MGM. Ali estava decretada a sua “prisão” criativa e intelectual, já que não controlava mais o processo cinematográfico ao qual estava habituado: a construção desde os roteiros até a edição final. Um mega estúdio preocupava-se muito mais com o lucro e a fama do que inovação e engenhosidade. Ele jamais imaginou ser um mero ator, ao sabor e dessabor de projetos massivos e artificiais. Nunca mais seria o mesmo, apesar de conseguir sobreviver em apresentações na Europa, onde instalou-se por anos, e podia colocar uma fração do seu gênio. Entretanto não era cinema — a sua maior paixão — e ele acabava por perder uma parte de si mesmo.

Não é possível, infelizmente, tocar nos inúmeros aspectos da sua vida tumultuada, criativa e singular, tanto no aspecto pessoal como profissional. Não é este o objetivo. Contudo, ressaltar a importância do artista que Buster Keaton foi, e ainda é, para a arte e seus fãs. Eu o reputo como o maior humorista de todos os tempos, em uma galeria de nomes notáveis: Chaplin, Laurel & Hardy, Harold Lloyd, Jacques Tati, Cantiflas, Jerry Lewis, Woody Allen, Mel Brooks, Steve Martin, Peter Sellers, Lucille Ball, Grande Otelo, Oscarito, Golias, Irmãos Marx, entre outros. E sua marca ou impressão digital pode ser detectável em praticamente quase todas as comédias cinematográficas, desde que surgiu nos primórdios do cinema. De um talento singular, exercia cada um dos processos criativos, concebia e realizava películas como se fossem um órgão vital de si.

Morreu em 1966, em Los Angeles. Cidade onde o mundo viu surgir uma lenda ou, para muitos, o “deus da comédia”.