28 março 2026

Reflexos num olho dourado - Carson McCullers

 



Jorge F. Isah

 


      Recentemente, travei contato com a obra de McCullers, por intermédio de outros autores do sul americano, como Faulkner e Flannery O’Connor, e a minha primeira incursão foi no seu romance de 1941, “Reflexos num olho dourado”.

      É um livro pequeno, pouco mais de 140 páginas, mas de densidade claustrofóbica e com tantas nuances — tantas quanto se possa achar. Boa parte da crítica o coloca como um livro “queer”, num reducionismo irritante, pois, apesar de tocar no aspecto homossexual do protagonista, não é nem de longe o foco da narrativa.

      Gastei uns três dias, mas desde o início, ainda na primeira página, percebi que não o podia tratar ligeira e superficialmente. Havia muito a desenterrar em seus escombros. Ainda assim, mesmo depois de concluído, decidi esperar um pouco para maturar as impressões e esquadrinhar as que houvessem me escapado. Via de regra, não sou apressado em fazer resenhas, mas, neste caso, a prudência era ainda mais necessária.

      Antes de continuar, existe um filme dirigido por John Huston e estrelado por Marlon Brando e Elizabeth Taylor, baseado na obra. Tentei encontrá-lo em vários streamings, sem sucesso. Uma pena, pois a ideia do trio trabalhar o texto de McCullers seria, no mínimo, instigante.

      À primeira vista, como já disse, parece tratar de um triângulo amoroso onde o adultério e a homossexualidade, aliados à hipocrisia e opressão social, parecem o âmago do tema. Mas não.

Há um gay não assumido, Capitão Penderton — casado com a femme fatale, Leonora, amante do Major Langdon, vizinho e superior do marido na base militar no sul dos EUA —,cujo segredo é protegido sob sua autoridade oficial. O mesmo não se dá com a relação adúltera entre Langdon e Leonora, a ponto de todo o “Campo” (não há nominação da base militar) sabê-la.

Leonora, especificamente, parece pouco interessada em esconder a traição, e o seu descuido reforça a suspeita e confere ao rumor um tom de tácita autenticidade. Logo, ela não se interessa pelos sentimentos dos outros e quer, acima de tudo, provocar tensão e fazer as pessoas orbitarem nela —  o único apego real e sincero, se é possível chegar a tanto, se dá em sua relação com o cavalo Firebird, um puro-sangue sob a responsabilidade de um soldado, cuja participação será tratada mais à frente.

      Então, não se trata apenas de chocar a sociedade ou discutir  questões meramente sexuais; sequer levantar alguma bandeira, seja ela qual for. Na história da literatura, e muito antes de Carson, houve autores mais incisivos e explícitos quanto ao assunto.

      O “Campo” é um claustro, onde os desejos se tornam obsessões, e as relações são levianas, superficiais e marcadas por forte tensão, por conflitos violentos, apesar da “normalidade”. É nítido o quanto os personagens sofrem, uma aflição nada intermitente, onde a superfície camufla quase ineficientemente a angústia de suas almas. McCullers não parece disposta a permitir um único minuto de paz e, certamente, nenhum deles sabe o seu real significado — não há como procurar o que não se conhece e alcançar o que não se vê.

Existe um código desonroso entre o núcleo principal, que se relaciona em aparente amizade, com jantares, festas, recepções, de uma gentileza forçosa e artificial, onde conversas e atitudes não refletem a raiva, a indiferença e o desprezo que se tem um pelo outro. Poder-se-ia chamar essas relações de parasitismo assimétrico, que definiria o quão prejudicial e danoso podem ser certas “colaborações” entre os homens.

      No grupo secundário, temos a esposa do Major Langdon, Allison e o seu ajudante filipino, Anacleto; e ainda o soldado misterioso e circunspecto, Williams, o cavalariço. Neste grupo, apesar de serem igualmente disfuncionais, ao menos sabem o seu papel no mundo e na vida alheia, ao contrário da outra tríade.

      Penderton é um homem austero, ambicioso e covarde, que mantém um casamento de fachada e despreza intensamente a sua esposa. Leonora é uma mulher superficial, fútil e sedutora em sua beleza crepuscular. Langdon é o seu amante, um homem ao estilo macho-alfa. Não existem santos, muito menos inocentes. Todos são culpados por suas fraquezas e, em algum nível, pela debilidade alheia.

      Alguns apontam a isenção da autora em evitar qualquer tipo de censura aos seus personagens, mas a maneira como ela os descreve, seus rompantes e instintos, rebate fortemente essa premissa. A incapacidade de comunicação, afetividade e compreensão, fruto da imoralidade sem freios, os leva ao caos relacional — no fundo, tudo se resume ao poder fragmentário e minguado.

      Williams é um voyeur atormentado por Leonora. Ele se entrega à compulsão de vigiá-la à noite e fazer incursões até o quarto enquanto ela dorme. Ele é um adulto que se infantiliza diante da figura, de uma imagem idealizada de Leonora, poderosa, magnética. Por falar nisso — talvez, no futuro, escreva algo mais abrangente ­—, na maioria dos casos a compulsão e os delírios sexuais, independente da monta, deficiências e justificativas, originam-se na infantilização do indivíduo, a culminar na infantilização do seu objeto de prazer, seja uma pessoa, animal ou qualquer outra coisa a movê-los numa espécie de regressão psicocomportamental. Tal qual a comilança, que parte do princípio da necessidade alimentar e descamba para a glutonaria, o exagero e a submissão ao desejo. O descontrole sempre — ou quase, vá lá! — terá por axioma o imoral e o antiético. Aqui, Carson parece entender completamente isso: adultos que se portam como adolescentes ou púberes.

      Penderton é atormentado pelo corpo nu do soldado Williams e, como ele, é também um perseguidor. Procura os momentos para aproximar-se, mas é incapaz de revelar a sua atração. E isso o torna instável e vacilante.

      Langdon passeia pela amante como um carteiro pela rua. Nada além do seu apetite sexual a guiá-lo.

      Leonora, como disse, esconde-se em sua beleza; mas já a vislumbra perdida, em breve.

      Allison é a esposa traída, que sabe da amante do marido, mas sucumbe ao silêncio e no desejo irrealizável do divórcio.

      Anacleto é o único amigo sincero, leal, protetor. Filipino e afeminado, é para Allison o que o marido não consegue ser, e, de uma maneira engraçada, serve de consciência para Langdon, na tentativa de mostrar os seus equívocos e chamá-lo à realidade. Porém, o major o vê apenas um “macaquinho” zombeteiro e provocador, uma figura exótica, a qual conserva exclusivamente para “encobrir” suas negligências quanto a Allison, e ao servir de única companhia.

      Em última análise, o desfecho final não é meramente acidente, como muitos presumem. McCullers, ainda que não cite uma única vez algo transcendente, não absolve os seus personagens. Cada um, à sua maneira, é condenado por seus pecados, desvios e ausência completa de virtudes. Todos se verão culpados, e os seus desejos levam a consequências trágicas e perturbadoras. Apenas o inofensivo Anacleto escapará dessa sina, como se a consciência fugisse dos efeitos deletérios e não mais houvesse lugar para ela. Os demais terão de conviver com suas escolhas — destruídos na desonra da vontade e cobiça.

      E o que para alguns simboliza a liberdade, não é nada além de reflexos — o resultado de uma vida indireta — o desbotar num olho dourado. 

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Avaliação: (****)

Título: Reflexos num olho dourado

Autora: Carson McCullers

Editora: José Olympio

Páginas: 142


25 fevereiro 2026

Roleta Russa

 





 

Jorge F. Isah




Um caso inusitado aconteceu, há uns dias, em Inacionópolis, no interior do Ceará. Cidadezinha de pouco mais de 3.000 habitantes, segundo os dados do IBGE. Na realidade, não passava de 229.

Apenas duas ruas asfaltadas ligavam os pontos extremos do município, fundado em 1988, a primeira cidade planejada do estado. Projetada para 12.968 pessoas, encontrava-se em franca decadência, pois a migração para a capital, e outros grandes centros, era a única esperança do agreste. Ali, salvo raríssimas exceções, não havia futuro para ninguém, especialmente os jovens. Seria uma cidade -fantasma, tão logo o último dos velhos chegasse a óbito.

Tentou-se várias formas de impulsionar o turismo, o comércio e a indústria, com maciço investimento federal, mas ao cabo de quase duas décadas, somente as famigeradas ruas, já citadas, ganharam asfalto. Outras vinte e cinco permaneciam de terra batida ou nem tanto; eram descampados onde a poeira dominava. Não se implantou um mercado distrital, fábrica, plantação ou outra fonte de expandir o lugarejo. Nem mesmo a famigerada água, a ser obtida pela perfuração de diversos poços artesianos, alcançou logro. À boca miúda, era outro ardil para desviar recursos públicos e enriquecer uns poucos.

Entretanto, quando menos se esperava, surgiu algo a deixar todos otimistas. Não foi a aparição do Chapolin Colorado, uma grande tempestade a inundar os açudes ressequidos, a descoberta de jazidas de nióbio ou petróleo... Não, nada disso. No sorteio da loteria, o primeiro prêmio saiu para um bilhete da cidade. Logo se divulgou que ele, provavelmente nativo, encarregaria de investir a fortuna na região: criar empregos, furar os poços, asfaltar as ruas e dinamizar a economia mambembe de Inacionópolis. Os botecos se encheram, foguetes foram soltos, buzinas de bicicletas, urros de alegria e latidos ensandecidos dos cães invadiram a cidade de eufóricas perspectivas. O filho amado traria novamente a glória que nunca tivera, e o sucesso prometido e jamais cumprido.

Entretanto, ninguém sabia quem era o sortudo e felizardo. Por mais que as pessoas abandonassem seus afazeres à caça de alguma evidência ou indício, ninguém descobriu a identidade do felizardo. Especulou-se, inferiu-se, idealizou-se esse ou aquele mais cotado nas pesquisas de opinião, mas o segredo conservou-se inabalável.

Dias depois, na capital, na entrega do cheque simbólico, o ganhador, para a surpresa geral, fantasiou-se de “Mumm-ra” , o vilão do desenho animado “Thundercats”, frustrando todas as expectativas de Inacionópolis, ávidos diante das tv’s e rádios, em ver e ouvir finalmente o sigilo quebrado.

- Qual a razão da fantasia? – Perguntou o mestre de cerimônias.

- Para os meus parentes não me descobrirem! – Pronunciou-se sem constrangimento, perante espectadores atônitos.

Havia motivos para se resguardar. O país era próspero em roubos, assaltos, sequestros e golpes dos mais variados; mas, proteger-se dos familiares?... Pareceu exagero, aos olhos alheios, especialmente porque, em Inacionópolis qualquer um poderia pertencer ao círculo familiar do pé-quente.

A indignação foi pública e ostensiva. Não havia outro assunto: quem era ele? E por que o anonimato? Onde estava a gratidão e retribuição à família? Já que todos em Inacionópolis eram uma grande e unida família?

Os dias se passaram. As semanas se passaram. Sem mudanças. Sem investimentos. Sem veredito, e a lista crescente de suspeitos. Qualquer iniciativa, ação, reação, mudança, mesmo as mais espontâneas e estúpidas, algo a indicar a progenitura do milionário, era vista com presunção, e o infeliz era primeiro sabatinado, caso resistisse, xingado, às vezes capturado e surrado. Alguns chegaram a morrer em decorrência dos ataques, sem acusação ou indício de culpados.

Ninguém estava imune às investidas raivosas das ruas e interiores.

Alguém, contudo, elaborara um plano infalível; por que não pensou nisso antes? Era muito simples: bastaria saber quem estava ausente da cidade no momento da entrega do prêmio. Através da empresa de viação, seria facilmente possível identificar o mal-agradecido. Dito e feito.

Ao se deparar com o nome do ganhador, todos se assustaram: ele, nem mesmo diante da morte, depois de ser sovado violentamente, declinou a façanha. No momento final, até mesmo alguns da parentela, suspeitando das suas últimas atitudes, surpreendeu-se quando disse as palavras derradeiras:

- Perdeu, manés!

No testamento, deixou a fortuna para a Ong “Flato”, empenhada em substituir pápeis higiênicos por lenços umedecidos em comércios e residências.

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Publicado originalmente na Revista Bulunga

12 fevereiro 2026

Dom Quixote de la Mancha - Miguel de Cervantes: do cavaleiro de ideais aos delírios contemporâneos

 





 

Jorge F. Isah

 

      Havia algum tempo que precisava — e queria — reler Dom Quixote. A primeira investida se deu na adolescência, em uma condensação (algo comum, àquela época, para os ginasianos e, com o tempo, acabou por se tornar “referência” a muitos adultos indolentes, ao menos em relação aos clássicos), e, se não me falha a memória, realizada por Monteiro Lobato ou Carlos Drummond, ou qualquer outro grande literato.

Entre os dez e quinze anos, investi nos grandes volumes em versões resumidas. À época, foi a maneira das editoras estimularem, tal qual um aperitivo, as leituras densas e volumosas a fim de aguçar os novatos, vender e usá-las como chamariz para se chegar, em breve, aos originais. Não sei se funcionou com a maioria, penso que não. Comigo, muitos me chamaram a atenção e o desejo de tê-los na íntegra, outros, nem tanto.

      Lá pelos vinte anos, li Dom Quixote, mas não gostei. Na verdade, gostei, mas não foi apaixonante. Percebi o humor, a ironia de Cervantes e a crítica aos romances de cavalaria, mas não achei nada demais. Estava às voltas com existencialistas, e qualquer coisa que não fosse o sofrimento dos personagens, suas angústias, dúvidas e o sem sentido da vida, além da linguagem mais direta e menos caudalosa, não me seduziam.

      Isso me leva a refletir sobre a crítica à literatura fantasiosa e, por que não, fútil: nitidamente, Dom Quixote é um farsante não intencional, desapegado em obter lucros e dividendos para si. Mas, contaminado pela leitura compulsiva dos romances de cavaleiros, princesas e batalhas, tentou reconstruir, em suas andanças e aventuras, os mesmos padrões da ficção. Cervantes entende essa literatura como algo danosa, e, na boca de vários personagens, critica abertamente o gênero.

Porém, Quixote é um idealista, sonhador, homem de honra, intrépido e destemido, disposto a se sacrificar por qualquer um que esteja em perigo, não segundo a realidade, mas segundo as suas concepções de realidade. Não é difícil a comparação com o Cristo — e toda analogia tem suas fraquezas —, quando a mente de Cervantes materializa no seu protagonista algumas características do homem perfeito, especialmente na capacidade de sofrer abnegadamente, sem se ater aos seus desejos, em primeira instância, mas vislumbrando o próximo e seus dramas. Em algum sentido, Quixote é o mártir que vê o próprio sacrifício com esperança, de ser capaz de mudar vidas, corrigir desastres, empreender justiça e redimir condenados diante de um mundo cínico e em desordem. Era a visão de Unamuno, da qual compartilho.      

      Ele é, ao mesmo tempo, herói e anti-herói, lúcido e louco, fiel mas desajeitado, realista e visionário, homem do presente que escreve o futuro preso ao passado. É uma figura fantasticamente construída com tudo o que de bom e ruim a humanidade possui.

      Se Cervantes critica os folhetins romanescos de cavalaria, por outro lado também tece advertências quanto à falta de imagética, especialmente dos racionalistas, impedindo que emoções, outros conceitos e estruturas sejam transmitidos. Se Quixote está errado em seus delírios e arroubos, os racionalistas também estão em suas cadeias e caixas aparentemente lógicas e factuais. Este é um ponto.

      O segundo, se ao mesmo tempo em que o autor denuncia a obsessão pela literatura cavaleiresca (seria o equivalente ao “bestseller” atual), onde a padronização e a massiva exposição pública simplesmente impedia o surgimento de, digamos, a boa literatura. Entre batalhas memoráveis, dragões, monstros, exércitos sanguinários, mocinhos, donzelas e vilões poderosos, o cavaleiro andante, muitas vezes solitário, era a força a impedir a proliferação do mal. De certa forma, esse gênero afastava os letrados da época (algo em torno de 10% da população) e os mantinham alheios ao real conhecimento. O que dizer em pleno século XXI? Onde a literatura, e até mesmo a capacidade de ler e entender, tem se tornado desnecessária na visão de muitos?

      Terceiro, se havia fadas, bruxas, duendes, capirotos, gigantes e fantasmas no século XVI, e, por isso, era um tipo de subliteratura, não estariam vários títulos da atualidade enquadrados nesse escopo? Cinco, seis séculos depois? Onde a pretensa racionalidade é cada vez mais substituída pela irracionalidade, por narrativas e achismos que vão dos maiores exageros até os mais frívolos?

      Quarto, por que os leitores, ou cinéfilos, gibimaníacos, noveleiros, voyeurs digitais, condenam tão veementemente religiosos e não as suas preferências? Se ao ver deles, os religiosos se apegam às “fantasias” e prestam um desserviço ao mundo, que raios de bem eles trazem com suas mágicas e poderes sobrenaturais? Ou apenas ao homem é permitido tê-los, mesmo imageticamente, e Deus (ou deuses) não? Por que a religião não pode difundir seus valores enquanto as várias formas artísticas podem, sem restrições? O que dizer de alguém com quarenta ou mais anos chorar a morte do Homem de Ferro, abraçado à miniatura da Mulher Maravilha?

      É fácil ver palpiteiros tecerem críticas e exigirem o cerceamento de cristãos, por exemplo, alegando os danos que o “ópio do povo” pode trazer às massas. Mas eles e seus seguidores se esbaldam em cores, barulhos, efeitos e o culto a personagens e heróis de mentirinha, enquanto enfrentam longas filas para o novo filme da Marvel ou o “dízimo” da Netflix. Chega a ser constrangedor, no mínimo; pois é, na verdade, a transposição do mundo quixotesco para o atual, onde os dois problemas se misturam simultaneamente: pessoas que se dizem racionais, mas utilizam o mesmo escapismo dos leitores medievais, e substituem a cosmologia transcendente por mitologias seculares — e se consideram superiores e mais dignos do que religiosos. Se Cervantes vivesse hoje, constataria que pouca coisa mudou.

      No Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura e seu fiel escudeiro, Sancho Pança, a imaginação e realidade nos faz rir, chorar, sonhar e encher-nos de brio, honra, coragem e amor desinteressado. Não vou me ater a detalhes da obra, pois talvez o faça na releitura do livro II... talvez. O importante é falar que Miguel de Cervantes Saavedra construiu um dos personagens mais emblemáticos e influentes da literatura mundial. Não sem razão, é apontado como o maior romance de todos os tempos. Adorado por Faulkner, que o relia ano a ano, e por tantos outros que escreveram sobre ele: Dostoiévski, C. S. Lewis,  Nabokov, Borges, Turgueniev, entre outros.

      Deixo a empreitada, portanto, para os gigantes de verdade — a de analisá-lo com a profundidade merecida. De minha parte, identifico-me demais com Sancho, capaz de ver o seu mestre como ele era, com seus defeitos, teimosia e delírios, mas também de admirá-lo para além do que os seus olhos viam.


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Nota: 1- Ah, mesmo a tradução do Visconde de Castilho, de 1876, é saborosa e nada difícil de ler. Claro que existem expressões e termos não usuais hoje em dia, mas nada que dificulte o entendimento da obra. No momento, estou lendo a tradução do Ernani Ssó, pela Editora Penguin. Tenho as traduções do Milton Amado, do Aquilino Ribeiro e uma edição “fac-símile”, provavelmente de Francisco Gouveia de Morais, já que não encontrei referências. Falta-me a do Sérgio Molina, pela Editora 34. Portanto, procure qualquer uma e não faça outra coisa antes de lê-la.

2- Este ensaio refere-se ao Vol. 1, de Dom Quixote, perfazendo o total de 545 páginas. O Vol. 2, logo que o termine, valerá outra análise por aqui. 

      



21 janeiro 2026

Cada macaco no seu galho

 





  Jorge F. Isah

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Ao assistir erraticamente a um programa na TV, deparei-me com uma ambientalista a defender ferrenhamente o fim dos testes e experimentos de vacinas, medicamentos e cosméticos em animais. Para ela, os pobres e indefesos bichinhos não podem pagar a conta pela solução dos nossos problemas. Chegou mesmo a dizer que a culpa dessa situação estava no patriarcado, capitalismo e no machismo estruturais — não nessa ordem — e as leis e a ética científica tinham de ser urgentemente revisionadas, seja lá o que isso signifique, do ponto de vista prático.

A conversa se seguiu por uns 40 minutos, sem que qualquer uma das participantes, três além da entrevistada, fizesse um único questionamento acerca da sua proposta. Lá estavam elas, aplaudindo, tecendo loas, inflando o ego umas das outras e, em especial, da “verdinha”. Uma delas chegou às lágrimas quando, no discurso final, a defensora dos bichinhos partiu para o ataque e afirmou a “necessidade de proibir essa injustiça e instituir a pena de morte aos infratores”. E ia mais além: “Os carnívoros, irracionais e bestiais em suas exigências alimentares, deveriam pagar mais impostos, multas e sofrer sanções como a perda de aposentadoria e outros benefícios sociais, caso insistam na prática nefasta e fascistóide de torturar, matar e consumir um inocente”.

Lá pelas tantas, quando estava prestes a desligar a TV e jogá-la no meio da rua, durante o seu discurso (sim, aquilo se tornou palanque), ela me saiu com a ideia brilhante de os experimentos necessários a garantir a eficiência de vacinas e cosméticos serem testados em humanos. Cocei a cabeça: “Quem, em sã consciência, se arriscaria a tomar um remédio experimental com o risco de ficar parecido com um crocodilo, um macaco-narigudo ou um aye-aye?”. E completou: “A humanidade que resolva os seus próprios imbróglios!”.

Mas, estaria ela disposta a se candidatar a cobaia de laboratório? Ou deixar filhos e parentes serem inoculados por elementos não testados minimamente? Ou estes riscos cairiam no colo dos miseráveis, seja por dinheiro, por imposição estatal ou até mesmo sem a devida consciência? E participar do teste de um novo suco de laranja, quando se é preá de urânio, rádio ou césio?

Essas mentes superdotadas, via de regra, defendem mudanças profundas com a segurança de quem jamais será convocado para pagar a conta — nem no cartão de crédito, nem em transfusões, nem em efeitos colaterais — sentados em seus sofás e sob a supervisão constante do ar-condicionado e controle remoto. Vivem a alardear ideias — desde as mais ocas até as ainda mais ocas que as ocas — sem serem questionados, desobrigados do ônus de provar seus salamaleques, desde que haja “voluntários” suficientes para realizar a operação. E, sejamos sinceros, no mundo com mais de 7 bilhões de “sofistas de algibeira” não será difícil encontrar candidatos às baciadas.

Então, da próxima vez que você se colocar nas fileiras de defesa dos saguis e ornitorrincos ou outro bicho qualquer, em detrimento da sua própria espécie, tenha certeza de que foi cooptado instintivamente ao corporativismo “Callithrix”, p.ex.

E trate logo de pular de galho em galho, na árvore mais próxima, pois é bem provável que uma fila de candidatos esteja pronta a tomar o seu lugar.

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Nota: Texto publicado originalmente na Revista Bulunga, e posteriormente adaptado para esta edição. 



13 janeiro 2026

Que venha a tempestade - Paul Bowles

 





Jorge F. Isah

 

     

Li o primeiro romance de Bowles, até então o único, há um punhado de anos. Não me lembro ao certo, mas foi por volta de 1990: “O Céu que nos espera”, publicado pela editora Rocco. Tenho a segunda edição, que conservo, sem a ter tocado a não ser para trocar de lugar e tirar-lhe o pó.

Nunca ouvira falar de Paul Bowles até ver o filme de Bertolucci, com John Malkovich e Debra Winger, de 1990. Na ficha técnica estava lá: baseado no romance de Paul Bowles. Então, fui à caça para ver se encontrava o livro, já que adorei o filme. Achei-o na Livraria Acaiaca, em BH. Infelizmente, o tempo acaba por apagar as coisas menos significativas e, além do conturbado relacionamento do casal de protagonistas, das belas imagens do deserto e um clima claustrofóbico, pouca coisa me restou, tanto do livro como do filme.

      Recentemente, em um bazar de igreja, onde havia dezenas de livros que ninguém se interessava em ver, encontrei um exemplar de “Que venha a tempestade”. No geral, o estado dele era bom, mas como eu poderia escolher qualquer item por uma ninharia, algo em torno de R$ 2,00 cada (havia baixado de 10 para 5, depois para 4 e, por fim, 2). Ao final do bazar estavam doando para quem quisesse levar, já que ocupavam espaço e ninguém, além de mim e um dono de banca de revistas próximo, se interessava.

Em idas e vindas, consegui alguns exemplares, inclusive dois itens relativamente raros e que iriam parar no lixo ou seriam vendidos no quilo. Esse é o motivo de eu não acreditar que este país tenha jeito. As pessoas saem feito loucas atrás de um jeans ou moletom usados, enquanto os livros são empilhados como se fossem entulhos, sem qualquer cuidado. Vi exemplares com mofo, úmidos, rasgados, capas soltas, tudo porque o pessoal simplesmente os jogaram num canto, sem lhes dar qualquer atenção, enquanto alisavam roupas e lustravam bijuterias.

      Bem, voltemos ao objeto deste texto. Logo no início, aquele ar de vazio, de niilismo a perpassar a narrativa, me incomodou. Não quanto à história, à futilidade dos personagens, mas, se em 1949 (data da publicação), o mundo já se encontrava contaminado com o sem-sentido, a descrença e o relativismo, onde valores tradicionais e a verdade eram sistematicamente desprezados, negando o absoluto, moral e ética, o que dirá hoje, neste contexto esfacelado?

Veja o trecho:

Havia anos que ele seguia sem ser notado, sem notar a si mesmo, acompanhando os dias mecanicamente, exagerando no cansaço e no tédio do dia para que lhe desse sono à noite, e usando o sono para fornecer energia para encarar o dia seguinte. Não era costume se dar ao trabalho de dizer a si mesmo: ‘Não há nada além disso; o que faz valer a pena continuar?’, porque sentia que não tinha como responder à pergunta. Mas no momento parecia-lhe que havia encontrado uma resposta simples: a satisfação de ser capaz de viver o dia.”(pg. 180)

      O fragmento simboliza bem todo o argumento do livro: mecanicismo, automatismo e nenhuma transcendência ou metafísica. O homem está “preso” no próprio destino — cabe a ele apenas resistir e viver um dia de cada vez. Em princípio, a resistência e o viver dia a dia não têm nada de errado — em alguns aspectos pode ser saudável não se preocupar em demasia com o futuro e não se entregar à procrastinação e o desânimo. Porém, a ideia aqui é: “faça o que fizer, pense o que pensar, aja como agir, nada disso tem significado e a sua vida nenhum propósito”. Ainda que o autor esteja em busca de uma resposta, e falha em encontrá-la (porque não está onde procura), ao não ver solução, entrega-se à lógica do vazio. Por trás da aparência de reflexão profunda está um reducionismo e superficialismo constrangedores.

      Logo, o niilismo de Bowles o leva ao fatalismo e vice-versa, pois onde não há sentido, quando o tem, torna-se irrelevante; e onde não existe valor e apenas vazio, o conformismo e o “dane-se!” não permitem mudanças, ou quando acontecem são meros impulsos, fruto da irracionalidade.

Dostoiévski sabia muito bem sobre os danos e o legado que o niilismo deixaria na Rússia. Em “O Idiota” e “Os Demônios”, ele os combate com a sabedoria e o olhar “profético” sobre a construção de um mundo em ruínas — pois a negação da ordem moral e espiritual somente levaria o homem ao primitivismo bárbaro e cruel. O niilismo é, sem sombra de dúvidas, o terreno filosófico propício para toda a derrocada ocidental, do multiculturalismo ao pós-modernismo, do relativismo às ideologias estatizantes. Neste aspecto, tudo se traveste de condicional, enquanto os “dogmas” são absolutos e efetivos. Por exemplo, a liberdade deixou de ser um conceito absoluto para se tornar em “liberdade relativa”. Assim é a moral, a ética, o conhecimento, etc. Por isso, tudo virou “narrativa”, seja de esquerda ou direita, sem qualquer objetividade, permeada unicamente por delírios coletivos e insanidade individual.

      Dizer que Dyar, o protagonista de “Que venha a tempestade” (no original “Let it come down”, trecho de Macbeth, de Shakespeare, dito pelos algozes de Banquo), é um homem vazio, mediano, que chegou a Tânger e empreendeu uma queda brusca na direção da imoralidade, antiética e se tornou incapaz de conviver com os efeitos das suas escolhas —  esse poderia ser o resumo. Entretanto, a cada passo em direção ao abismo, e convivendo com pessoas artificiais e fúteis, a paranoia, o delírio e a irrealidade o levam a resultados ainda mais catastróficos.

      Na busca de alívio ou “sentido”, embriaga-se, começa a usar o Kif (mistura de tabaco com maconha e haxixe, muito comum na cultura marroquina e no norte da África), e cada vez mais se vê aprisionado na teia a afastá-lo do real e levá-lo ao êxtase sistêmico, onde a euforia, o artificialismo se moldam ao ponto da histeria.

      O livro tem várias outras camadas e discussões, como a aversão completa dos muçulmanos aos cristãos, os conflitos culturais, ocultismo, e, no terço último, uma narrativa lisérgica, com um final tenso, perturbador e claustrofóbico.

      “Que venha a tempestade” é a derrocada do homem moderno, a descida ao abismo sem fim; e de nada adianta o sol brilhar no céu azul... os olhos não podem ver e, na verdade, não querem ver, habituados à escuridão.

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Título: Que venha a tempestade

Autor: Paul Bowles

Editora: Alfaguara

Páginas: 305





01 janeiro 2026

Quarto de Despejo - Carolina Maria de Jesus

 




 

Jorge F. Isah

 

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Vamos falar um pouco sobre “Quarto de Despejo”, escrito por Carolina Maria de Jesus.  Porém, antes de começar, é importante ressaltar alguns aspectos:

Uma obra, seja ela qual for, não pode ser avaliada por emoções ou coisas alheias ao próprio ato criativo. Por exemplo, João usa apenas calças roxas e blusas laranjas com bolinhas verdes. Ele não admite vestir-se de outra forma. É visto por uma “figura”(safo). É descolado, vibrante, alegre e todos o querem por perto. Mas João é pizzaiolo, e suas pizzas são horríveis, mesmo que ele use uniforme roxo, laranja e bolinhas verdes. Assim, ele é duplamente conhecido: por estar sempre à disposição e entremeado aos clientes com seu estilo “caloroso”, mas ninguém quer uma pizzazinha sequer. João sugere, insiste, lança um sabor novo a cada semana, mas os clientes se contentam com os pacotinhos de chips e amendoim, enquanto conversam e riem com o pizzaiolo, entre uma cerveja e outra.

Em seu “Diário de uma favelada”, Carolina não pode ter a sua qualidade literária avaliada pelo fato de morar no “morro”, tanto para o bem quanto para o mal. Esse é um elemento completamente irrelevante no exame do seu trabalho.

Também, o fato de cursar até o 2º ano do ensino fundamental não pode interferir na análise. Quanto mais o fato de ser marginalizada e gostar de coisas que o brasileiro, em geral, desgosta: ler e escrever. Existem muitos leitores, para todos os gêneros e interesses e objetivos, e neles não há unanimidade, quanto mais vocação ou aspiração para a escrita.

A condição social, financeira, educacional, ideológica e pessoal do autor não deve ser ponto destacado em qualquer obra, com o risco de prejudicar não somente o julgamento, mas também rebaixar o talento e esforço a um mero “status quo”.

O mesmo vale para o fato de ser negra, mulher, mãe solteira, recicladora e marginal, e pertencente a um grupo relegado à periferia de São Paulo.

Não estou a falar também de toda a obra de Carolina, pois li apenas o “Quarto”, e ele é o foco deste texto. E o excesso de cuidados em deixar claro o meu propósito não deveria ser necessário se os tempos, e alguns leitores, fossem mais perspicazes. 

Posto isso, o livro é um diário, no qual ela relata o dia a dia da sua vida, e de outros moradores, na favela do Canindé.

E o que dizer do livro?




A narrativa é direta, consideravelmente repetitiva, e não há esmero ou preocupação na construção das frases. Ao menos, na maioria. Óbvio que estamos a falar de uma realidade crua, muitas vezes desesperada e incerta. A precariedade dos recursos, aliada à fome, doenças, desemprego, faz a situação se agravar ainda mais. Se existe algo de virtuoso em Carolina é a sua sinceridade ao expor seus dilemas, anseios e não “baixar a cabeça” diante dos males a rodeá-la.

Bukowski, outro marginal mais talentoso, dizia que a literatura era a razão de não enlouquecer. Ocorreu o mesmo com Carolina, onde as letras, definitivamente, traziam alguma beleza, esperança e realização.

O diário, tal qual a confissão, é a forma mais profunda de encarar a si mesmo e o mundo. Certamente, por isso, os floreios e dissimulações não se enquadram no seu paiol de ideias. Ao mesmo tempo em que as reflexões são brutais, é possível a ela se agradar do nascer do sol, do céu azul, de jardins e a gentileza de uns poucos. Ela se desnuda e se expõe sem rodeios. Não resta mais nada a não ser encarar a realidade e esperar um novo (re)começo.

Enquanto catava papel, plástico, metal ou qualquer outra coisa a render uns trocados, a certeza de ser poeta e escritora não deixava dúvidas nem mesmo aos seus vizinhos e conhecidos. A maioria a tratava com despeito, aquele velho bordão: “O que isso lhe deu?”. No fundo, porém, havia mesmo era inveja. Tenaz, teve o diário recusado pela “Reader’s Digest”, mas não desistiu, e continuou a escrevê-lo, na esperança de um dia ser publicado.

É uma leitura ligeira; todas as informações estão na primeira camada. À parte da luta pela sobrevivência, dela e dos filhos (3 no total), o maior problema é Carolina sentir-se incomodada, deslocada na comunidade, à qual pertencia contra a vontade. As inúmeras queixas de vizinhos, brigas, discussões e o descaso público acentuavam ainda mais o infortúnio da autora.

Nesse ínterim, Carolina repudia com veemência as favelas e seus habitantes. Não faz como a maioria dos sociólogos, antropólogos, cientistas políticos ou palpiteiros que enfeitam a vida nos morros e tentam criar a áurea de falso glamour. Ela demonstra por “a mais b” que o ambiente é insalubre, doentio, e nada de bom, a despeito de uma ou outra benignidade, pode advir dali; a dignidade é o ressoar do abuso e indiferença. A favela é o território perfeito para os políticos não quererem erradicá-la; os dividendos para eles são inúmeros. Manter as pessoas na miséria é a melhor forma de distanciar as “pontas do poder”; por isso, imagina o dia em que terá a sua casa e abandonará para sempre a maloca.

É impossível não se comover com as situações bizarras e degradantes. Somente quem morou ou mora na periferia (a falta de educação dos brasileiros está se transformando em endemia, mesmo nos condomínios luxuosos e bairros de classe média) pode aquilatar um pouco do que ela vivenciou. Não é o melhor cenário para se desenvolver uma narrativa, mas era o que tinha.

A primeira lembrança que me veio, foi a leitura de “Vinhas da Ira”, de Steinbeck.  A linguagem crua, deformada, e a indigência dos personagens se assemelham. No americano havia a recessão, o “Crash de 29” e as lutas de classes — mesmo que a maior parte dos lavradores sequer soubesse do que se tratava — e a manipulação política. No caso da “favela do Canindé”, os políticos apareciam somente às vésperas das eleições... e a recessão é um “looping infinito”.

No final, a minha curiosidade foi satisfeita. A edição preservou praticamente todos os erros gramaticais e, novamente, como em “Vinhas da Ira”, isso me incomodou bastante; se nele foi algo planejado, composto, em “Quarto” é orgânico e inato à autora. Houve, segundo o editor, o jornalista Audálio Dantas, a preservação da escrita original, com todas as suas imperfeições linguísticas, a fim de retratar fielmente o estilo da autora. A meu ver, a deficiência não é o mesmo que estilo. Mas vá lá, em tempos onde o exotismo disso e daquilo deve se sobrepor à ordem, harmonia e correção, o vício se traveste de virtude. Depois de algumas dezenas de páginas, liguei o “dane-se” e foquei no enredo.

Há alguns dias, ouvi de um autor, queridinho da intelligentsia, que, diante de uma lista dos grandes escritores do século XX, apontou Carolina como a maior. Ela bateu João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, entre outros. Sem precisar propor qualquer argumento ou discussão. Era ela e pronto!

Mesmo reconhecendo a persistência, obstinação e o vislumbre incessante do sonho; mesmo reconhecendo a denúncia social e política, não há como reputar, do ponto de vista estético, estilístico e formal, o “Quarto”  como obra de arte. Por muito menos, e bota menos nisso, Dostoiévski foi acusado de ser um escritor ruim e desleixado. Imagine, por exemplo, Nabokov e Hemingway — que culparam  o russo de escrever mal — lendo Carolina.

Em “Quarto de Despejo”, a prosa é assimétrica. E certamente não terá lugar em nenhum salão de festas, nem mesmo naquele dormitório no porão. Ficam, contudo, os milagres operados pela literatura. Os mesmos capazes de salvar Buck, Carolina, eu ou você.


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Título: Quarto de Despejo

Autora: Carolina Maria de Jesus

Editora: Ática

174 Páginas 

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16 dezembro 2025

A Paris da "Geração Perdida": paraíso?! - Ralph Schor

 




 

 

Jorge F. Isah

 

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O que motivou uma geração de escritores americanos a mudar-se para Paris? A “Cidade Luz” ofereceria algo que a “Big Apple”, ou qualquer outra, não poderia? Qual o estímulo para atravessar o Atlântico e adentrar uma nação ainda devastada pela Primeira Guerra Mundial? Esta é a proposta de Ralph Schor em “Paris dos Escritores Americanos 1920-1939”: elucidar as causas que levaram tantos estrangeiros ilustres a residir, ou ao menos passar temporadas, em terras francesas.

A maioria pertencia à “Geração Perdida”, nascida entre 1880 e 1890, que na década de 1920 não ultrapassava os 40 anos. Dentre eles, talvez os mais brilhantes sejam Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Thomas Wolfe, John Dos Passos, T. S. Eliot e Ezra Pound. Outros famosos, como Sherwood Anderson, Henry Miller, Gertrude Stein, Dorothy Parker e Sinclair Lewis, também se integravam ao grupo de “exilados”.

A “Geração Perdida” não era composta apenas por escritores; incluía pintores, músicos, compositores, críticos, atores e jornalistas. A obra em questão, porém, abrange exclusivamente autores literários.

Os motivos eram variados, mas focaremos nos mais comuns. Entretanto, não havia um consenso absoluto; nem todos os interesses os despertavam em comum.

Após o fim da guerra, vários decidiram permanecer na Europa. Alguns, ao retornarem à pátria, sentiram-se estrangeiros em sua própria terra, e o regresso a Paris tornava-se inevitável. Alegavam que a América não possuía uma cultura sólida e milenar como a francesa — era um país jovem demais, ainda em seus cueiros, incapaz de oferecer um clima favorável ao crescimento intelectual.

Djuna Barnes, tendo voltado ao seu país em 1931, revelou sua impressão de haver voltado à infância, uma infância sem relação com a riqueza cultural da velha Europa.”

Aliada à questão cultural, havia a percepção de que a sociedade americana se preocupava excessivamente com a materialidade: lucros, máquinas, ascensão social e consumismo. Muitos a viam como um corpo sem alma.

“Scott Fitzgerald levava um de seus personagens, orgulhoso de ser americano, a declarar: ‘O dinheiro é o poder [...], o dinheiro fez este país’”(“Éclats du Paradis”; em português, “Pedaços do Paraíso”).


    

A ideia de que as obras de arte só tinham valor pelo aspecto mercadológico — quanto venderiam e lucrariam — era abominada pela maioria. Caso os autores não fossem hábeis em monetizar suas criações, eram considerados fracassos. Obviamente, autores populares e com grandes tiragens não revelavam, necessariamente, falta de talento. Mas a reverência ao número de exemplares vendidos como indicativo único de sucesso também era uma falácia. Para a maioria da “Geração Perdida”, o americano médio era medíocre em suas escolhas, e as editoras especializavam-se em publicar autores igualmente medianos e sem apelo criativo. Era um exagero, pois os mesmos proponentes dessa crítica foram descobertos e publicados por esses veículos.

O homem sempre está disposto a valorizar seus desejos e negar virtudes quando não quer algo. Enquanto levas de imigrantes partiam para os Estados Unidos em busca de oportunidades — muitas vezes fugindo da miséria, guerras civis, perseguição e, não raro, escravidão —, a intelectualidade americana rejeitava suas origens para viver em outras paragens. Enquanto a maioria dos estrangeiros buscava usufruir do conforto e da modernidade, construindo uma vida longe da penúria natal ou sistemas a aprisioná-los, a elite negava os esforços sociais para gerar riqueza e bem-estar àqueles dispostos a sacrifícios e muito, muito trabalho.

A elite abastada, com todas as facilidades modernas ao toque dos dedos, frequentando as maiores e melhores universidades, usufruindo das regalias fornecidas pela sociedade que tanto desprezava, herdeira de bens, dotes, prestígio e status — coisas que o cidadão comum jamais imaginaria possuir —, era hipócrita ao denunciar a hipocrisia alheia. Mas não parecia disposta a tirar a trave dos próprios olhos enquanto apontava o cisco de outrem. Sim, entediados em casa e deslumbrados em Paris, não precisavam “suar a camisa” pelo pão de cada dia.

Havia exceções, claro. Hemingway, por exemplo, não provinha de família rica; foi à Europa combater na guerra e conseguiu instalar-se na França. Escrevia para um jornal alemão enquanto seus textos eram rejeitados nos veículos americanos. Thomas Wolfe é um caso semelhante, mas suas investidas no exterior eram temporárias; sempre voltava para casa, assim como Scott Fitzgerald, o menos “deslumbrado com Paris”, ainda que aproveitasse todas as suas facilidades.




Deve-se levar em conta também o fator monetário. O custo de vida na América era três vezes maior do que em Paris, além de o dólar ser muito mais valorizado que o franco. Na França, podia-se ter um padrão de vida com ainda mais luxo, regalias e glamour, pagando quase uma ninharia.

Outro aspecto motivador era a rigidez moral anglo-saxônica. O código de princípios de conduta regido por valores cristãos fazia-os torcer o nariz e ansiar por novas experiências e um estilo de vida mais, digamos, flexível. E, convenhamos, Paris era o destino certo. Em um período em que a Lei Seca vigorou de 1920 a 1933, e apesar da ilegalidade, o álcool proliferava clandestinamente por todo o território americano. Nos bares e cafés parisienses, estavam à disposição uma variedade de bebidas da melhor qualidade, a nata mundial, sem contar outros vícios menos comuns: ópio e cocaína, por exemplo, eram comercializados livremente, já que não havia proibição legal, embora existissem leis de contenção. Nomes célebres como Freud e Klaus Mann sucumbiram aos efeitos nocivos dos opiáceos e alcaloides.

Considerados grandes amantes, o sexo em Paris era algo mais “criativo”, menos escandaloso e sem a censura de olhares públicos. A liberdade era algo que não teriam na América provinciana, ao ver deles.

Natalie Barney, muito revoltada contra o puritanismo de seu país natal, dizia que as mulheres americanas haviam todas engolido uma bíblia ao nascerem.”

Obviamente, houve escritores dispostos a estabelecer-se na Europa não devido às constantes festas, orgias, bebidas e drogas utilizadas sem comedimento, mas porque Paris era o centro cultural do mundo e, como tal, fervilhava com uma profusão de ideias, discussões, novidades e um solo fértil para investigação artística. Simpatizantes de várias correntes literárias e estilos intercambiavam-se; era normal e salutar. Por mais que houvesse divergências, por vezes acaloradas, as amizades não se rompiam, o ódio não se manifestava, e “matar” o adversário era puramente metafórico.

“Os escritores americanos de Paris ponderavam que viviam num local de criação único no mundo: conservatório de todas as artes e, ao mesmo tempo, laboratório onde nascia uma cultura nova. Por isso, Gertrude Stein podia assegurar que Paris e a França constituíam o ‘pano de fundo natural para a arte e a literatura do século XX’”.

Se é justo dizer que existiam facilidades e um estilo de vida muito diferente dos padrões aos quais estavam habituados, não é exagero afirmar que buscavam um ambiente considerado mais propício ao encontro — ou reencontro — com a arte incipiente ou perdida. Alguns a encontraram, outros não. Alguns se ressignificaram. Outros, não.

Ezra Pound se dirigira a Paris justamente para encontrar ali valores literários, morais e políticos que ele procurara em vão nos Estados Unidos e na Inglaterra. Seu objetivo era claramente o de desarrumar tudo o que existia.”




Porém, nem tudo eram flores. À medida que reconheciam as vantagens parisienses, os americanos não eram queridos; pelo contrário, os franceses não se mostravam simpáticos e acolhedores. Para eles, aqueles intrusos tinham apenas dinheiro e estavam destruindo a cidade, aumentando o custo de vida e tornando quase impossível ao cidadão comum dispor de benefícios que, agora, eram inexequíveis aos seus bolsos.

Por outro lado, os americanos também tinham suas ressalvas e consideravam-se mais parisienses que os próprios parisienses, já que os acusavam de renegar a própria identidade:

De fato, os estrangeiros destacavam os defeitos dos parisienses, sua estreiteza, sua frieza às vezes depreciativa, sua mentalidade rotineira, seu frequente desdém pelo conforto e pela higiene, seu gosto excessivo pelo lucro.”

Diferente de outros refugiados europeus — russos, alemães, armênios e espanhóis, fugitivos por perseguição política, que não podiam retornar às suas pátrias —, os americanos poderiam fazê-lo quando bem entendessem.

Esse foi, provavelmente, o último grande período artístico parisiense, onde alguns gênios amadureceram e forjaram seus estilos literários, conquistando lugar no panteão dos grandes autores do século XX. Ali, fomentou-se uma nova cultura, nova arte, a ganhar o mundo, alterar hábitos e estabelecer mudanças profundas, acentuadas nas décadas seguintes. Não é o objetivo discutir se essas ideias, muitas sedimentadas no espírito do século XXI, são legítimas, virtuosas ou meros efeitos da rebeldia humana. Fato é que Paris jamais será o que foi há 100 anos; hoje, é um espectro da caudalosa proficiência de ideias florescidas nos vários campos da cultura de então.

Ralph Schor, apesar da extensa bibliografia, construiu uma obra simples e objetiva, delineando a motivação e as consequências do êxodo intelectual americano no início do século passado. Para quem gosta de literatura, e de algumas fofocas, é um prato cheio.

 

*Nota: Todos os trechos pinçados entre aspas (“”) e itálico foram retirados do livro.

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Avaliação:(***)

Título: “Paris dos Escritores Americanos 1919–1939”

Autor: Ralph Schor

Editora: L&PM

Páginas: 232

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29 novembro 2025

Jack Lemmon: a felicidade não se compra

 





Jorge F. Isah
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Lembro-me de, ainda criança, esperar todos em casa dormirem para ligar a TV, uma Zenith valvulada de 24”, por volta das 22:30 h, para assistir à antiga “Sessão Coruja”, na Globo. Antes, observava se meus pais estavam dormindo, caso o velho não estivesse roncando, o que era facilmente perceptível quando ocorria. Depois, me dirigia à sala, ligava o transmissor, diminuía o volume e me encostava à tela, esperando um antigo clássico em preto e branco.

Raramente, mesmo tendo 11, 12 anos, dormia antes da madrugada. E assim, vivia a aventura de, furtivamente, desobedecer aos patriarcas e me deliciar com os grandes nomes do cinema, e seus filmes maravilhosos.

Um dos meus atores prediletos à época, e que se conservou, era Jack Lemmon. Em muitos aspectos, Lemmon me fazia lembrar os maneirismos de Ronald Golias, o Bronco (para mim, um dos maiores comediantes brasileiros), sem o exagero tão acentuado. Talvez, a minha admiração pelo americano estava intrinsecamente ligada à simpatia com o brasileiro, a quem conheci muito antes de sequer ouvir falar de Jack Lemmon.

Hoje, provavelmente a maioria o desconhece e, desgraçadamente, se priva de acompanhar um dos maiores atores de todos os tempos.

Mas, quem ele foi?

Jack Lemmon nasceu em 1925, em um elevador na cidade de Boston, Massachusetts. Diz a lenda, que a sua mãe, Mildred Burgess LaRue (casada com John Uhler Lemmon Jr.), quase em trabalho de parto, se recusou a abandonar uma partida de Bridge e, portanto, não houve tempo suficiente de instalá-la numa adequada sala hospitalar. Algo inusitado, mas com algum simbolismo, já que o recém-nascido, mesmo antes de vir ao mundo, “galgou” rapidamente o píncaro, e isto marcaria a sua ascensão ao estrelado cinematográfico.

Autodidata, aprendeu, ainda criança, a tocar piano, gaita, órgão, guitarra e contrabaixo. Formou-se em Ciências Políticas, na prestigiada Universidade de Harvard, mas, desde cedo, sempre almejou tornar-se ator, fato a acontecer tão logo terminou a sua participação, como voluntário, na Segunda Guerra. Começou na TV, em uma série intitulada “That Wonderful Guy”, em 1949.

O primeiro filme, em 1954, foi “Demônio de Mulher” e, já em 1955, aos 30 anos, ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante, com o filme “Mr. Roberts”, com direção de Richard Quine. Indicado 8 vezes, em 1973, ganhou a estatueta de Melhor Ator, em “Sonhos do Passado”.

Trabalhou com os maiores diretores de sua época, em especial se destacam as parcerias com Billy Wilder (7 filmes, entre eles os clássicos: “Quanto mais quente melhor”, “Se meu apartamento falasse” e “Irma La Dulce”), Richard Quine (5), Blake Edwards (3). Mais conhecido por suas comédias (também excelente ator dramático, vide as atuações em “Vício Maldito”, “Síndrome da China” e “Missing”, p. ex.), estão entre as melhores de todos os tempos, e de parcerias famosas com Marilyn Monroe, Tony Curtis, Shirley MacLaine, e a mais famosa foi, sem sombra de dúvidas, com Walter Matthau: participaram de 10 filmes, e Lemmon o dirigiu em “Ainda há fogo sob as cinzas” (1972). Nos anos 90, protagonizaram filmes onde se riam de si mesmos: “Dois velhos rabugentos” e “Dois velhos mais rabugentos”, onde contracenaram com outro grande ator, Burgess Meredith, o impagável “Pinguim” da série Batman, e o treinador de Rocky Balboa, nos filmes Rocky I, II, III e V.

Carismático, engraçado, gentil e cooperativo, levava a qualquer set de filmagem não somente o seu inegável talento, mas também a sua personalidade serena e cordial. Modesto, se definia como um “operário da arte cinematográfica”, a despeito dos inúmeros prêmios e depoimentos de críticos e colegas, que o reputavam um gênio das artes cênicas.

Certa vez, perguntaram a Billy Wilder o que era felicidade, e ele prontamente respondeu: “trabalhar com Jack Lemmon”.

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Algumas frases célebres:

 

"Não importa quão bem-sucedido você seja, sempre mande o elevador de volta."

"Minha carreira foi cheia de coincidências notáveis ​​que não têm nada a ver comigo."

"Ninguém merece muito dinheiro, certamente não um ator."

“Algo, com certeza, vale a pena se não for fácil. Se for, não deveria valer a pena.”

“Eu preferiria atuar em Hamlet sem ensaio do que jogar golfe de TV.”

"É difícil escrever um bom drama, e muito mais difícil escrever uma boa comédia, e mais difícil ainda escrever um drama com comédia. Que é como a vida é."

“Morrer não é pecado. Não viver, é.”

“Falhas não param você. O que para é o medo de falhar”.

“Não tinha desejo de estar no cinema. Todo o meu treinamento foi para o teatro, graças a Deus.”

“A morte é o fim da vida, não um relacionamento.”

“Nunca perdi a paixão total pelo meu trabalho.”

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20 novembro 2025

Submissão - Michel Houellebecq

 




Jorge F. Isah

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Li este livro em 2016, mas, diante das guerras atuais, especialmente o embate entre os grupos terroristas do Hamas, Hezbollah e outros, financiados pelo Irã contra Israel, resolvi aprofundar-me mais em “Submissão” (que em árabe significa Islã), o livro que trata exatamente da invasão muçulmana à França e o fim iminente do que poderia se chamar Ocidente nas próximas décadas.

O autor, Houellebecq, já foi acusado de praticamente tudo e, até mesmo, de ao fazer literatura com nítido viés de aversão e rejeição às pautas humanitárias, ganhar milhares de euros e dólares. A intenção seria causar terror, preconceito e perseguição aos inocentes e bem-intencionados islamitas.

Muitos torcem o nariz, outros o consideram frouxo em suas denúncias, e ainda há aqueles que o têm como porta-voz da derrocada europeia atual.

Gosto de literatura e não me importo se existem fatores à direita ou à esquerda, desde que escrita com apuro e qualidade. Ao revelar os problemas e caminhos que o Ocidente está a trilhar, ela se torna ainda mais necessária e ampla. E o multiculturalismo, com todos os equívocos (e mínimos acertos), seja na Europa, América ou Brasil, é um assunto sobre o qual deveríamos nos debruçar e analisar sem os clichês e paixões nos quais o pensamento moderno se habituou e estagnou.

Por mais que o considere um romance atual, pois trata da invasão cultural e, por que não, militar, algo que já foi decantado e alardeado há décadas por grandes intelectuais como Theodore Dalrymple, Roger Scruton, Olavo de Carvalho, entre outros, nunca é demais escrever sobre o assunto.

Por mais que trate do domínio islâmico no Velho Continente, os atentados, estupros, linchamentos e a implantação da Sharia na Inglaterra, França e Alemanha sejam uma realidade.

Por mais que fale da vitória de um partido, a Fraternidade Muçulmana (aliada ao Partido Socialista Francês), assumindo o poder político do país e rapidamente mudando a legislação e aplicando as suas leis.

Por mais que ele discuta algumas ideias em meio a uma descrença e niilismo do personagem principal, François, que se vê rapidamente cooptado pela liderança muçulmana; ainda assim, o livro de Houellebecq, apesar da propaganda alardeada de escritor polêmico, me pareceu aquém das expectativas.

Em meio às críticas de ser ultradireitista, chocante, divisionista, xenófobo, controverso etc., pela mídia esquerdista/liberal, suas alianças e intenções nada morais, e por aqueles que veem mas fingem não ver, esperava algo do tipo um desnudar, um escancarar da "colonização" islâmica na França, revelando suas táticas, violência e o nítido interesse de destruir a civilização ocidental, com a chancela de muitos cidadãos europeus. Em parte, a narrativa obteve êxito.

Contaminados por discursos década após década, o cidadão comum, e mesmo um “intelectual” tal qual François (leciona na Universidade de Paris, através do benefício de bolsas, e nunca teve um emprego de verdade), não é de se estranhar o escândalo e protestos gerados pelo livro. Anestesiados, não conseguem ver além do próprio nariz, enquanto ateiam fogo em si mesmos, na sua cultura e história.

Certa vez, vi a declaração de um ex-militar israelense (e aqui a razão de aprofundar o assunto de “Submissão”) de que, enquanto os muçulmanos querem o domínio, controle e conquista do Ocidente, o liberal cheio de "não me toques" e higiênico quer eleição, e será por ela que o Islã ganhará seus novos territórios. Alguém duvida? Várias cidades espalhadas na América e Europa têm o seu quinhão de governantes oriundos do Islã. A implosão se dá de dentro para fora, seja em metrôs, aviões, prédios ou nas urnas. A democracia tão venerada, frágil e ineficiente, é a mesma a suicidar-se ao dar lugar à teocracia.

François, após ser defenestrado da cadeira na universidade, foi cooptado em troca de se “converter” ao Islã, ganhando três vezes mais do que antes. E assim, boa parte da intelligentsia está disposta a se “sacrificar” por si mesma.

São também os mesmos progressistas que defendem o terror do Islã, encobrem os seus pecados mais hediondos, os crimes mais abomináveis, e demonizam Israel que, como a França de Houellebecq, é democrata e morrerá com a corda que pôs no próprio pescoço. É claro que não estou a falar de escatologia ou do Israel de Deus, mas analisando os fatos friamente. E eles estão aí para todos verem. Basta querer. E é nesse aspecto, ao descrever o protagonista como o homem moderno sem padrão, sem limites, sem domínio, sem sentido, que o autor se sobressai. François é a derrocada do Ocidente; o homem não somente dominado pelo poder político, mas pela própria fraqueza, imoralidade, maleabilidade para aceitar ou fazer vistas grossas ao mal. Isso vale para todos nós que repetimos diariamente a frase atribuída a Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Por essas e outras, não me simpatizo em nada com o liberalismo e o seu viés mais radical, o libertarianismo, que visa apenas o sucesso e conquista material, achando que um governo economicamente menos interventor é a solução de todos os problemas, enquanto “pregam” o relativismo moral e o fim dos padrões culturais, religiosos e tradicionais. O que recebem com uma mão acabam por dar com as duas. Tudo é "menos Estado", como se o entrave fossem as leis e não o tipo de leis, e cada um pudesse viver a seu bel-prazer, desde que não se prejudique ninguém... Tá, cara-pálida! Quando o despertador vai tocar?!... Acham que tudo se resolve com o voto, mas, e a qualidade desse voto?

Para resumir, basta uma olhada ao redor e ver onde o relativismo e os votos nos fizeram chegar; muito mais rápido do que alguém, em sã consciência, pudesse imaginar.

François é este homem: vazio, oco, como T. S. Eliot escreveu em seu famoso poema. Um “maria-vai-com-as-outras”, desde que lhe sejam concedidas algumas vantagens. E se vender bem é, no final das contas, a melhor jogada. Com isso, em seu niilismo, multiculturalismo, relativismo, anticristianismo e tudo o mais de fétido que a modernidade construiu, ele se “converte” ao Islã, pensando no gordo salário e nas mulheres com quem se casará. Não é difícil imaginá-lo a rezar o “salat”... submisso e conformado.

Ao terminar a leitura, fiquei me perguntando se aquela descrição e alerta resultariam em um abrir de olhos do leitor: sinceramente, fiquei em dúvida.

Os mais otimistas o viram como um promotor de ideias e, como tal, achei-as, em algum sentido, perdidas em sua própria denúncia. Como um livro polêmico (talvez para a sociedade pós-cristã e ocidental, como a francesa, mas ainda distante da brasileira), pareceu-me quase inofensivo em sua denúncia escandalosa.

Na verdade, não gostei mesmo da narrativa; ela se desenvolve meio sôfrega e não me cativou na maior parte do tempo. Chego a concluir que é um livro mal escrito, não é uma porcaria, evidente, mas está longe dos grandes autores e clássicos. Pareceu-me frio, distante, mas entre o frio e o morno, que não é uma coisa nem outra, é preferível a contenção da geladeira. Esperava mais, sobretudo pela crítica favorável ao estilo e prosa de Houellebecq, e também sobre o enredo proposto.

No final das contas, talvez se eu não tivesse ouvido falar tanto de "Submissão", sem uma expectativa de que leria uma obra incomum, muito superior ao que se tem escrito mundo afora, seria possível o livro me agradar mais. A propaganda, neste caso, não funcionou a contento.

Resumindo: "Submissão" não é um livro ruim, longe disso, mas não é tudo o que dizem. Ele abarca muitos elementos existenciais, culturais e políticos que levam à reflexão. Porém, ficou um gostinho de "quero mais", que o autor pode corresponder em sua próxima obra ou, quem sabe, em uma releitura.


Avaliação: (★★★)

Título: Submissão
Autor: Michel Houellebecq
Editora: Alfaguara
Páginas: 256