18 outubro 2019

O Voo linear de um Corvo





Jorge F. Isah



Este livro conta a história, ou a saga, de Charles Trumper, um garoto pobre do subúrbio de Whitechapel, em Londres, onde aprende o ofício de quitandeiro com o avô, e ganha o mundo com o seu obstinado empreendedorismo. Do início até o final das mais de seiscentas páginas, ele passa por uma série de infortúnios, desencontros, vitórias, perdas, sucesso e a megalomania de se tornar, “o maior carrinho do mundo”, a glória mercantil da Inglaterra.

Transcorre-se sete décadas na vida do protagonista.

Há de tudo um pouco: amor, traição, perfídia, vingança, amizades, alianças, conchavos, cobiça, morte, manipulação. É um daqueles “dramalhões” clássicos, com todos os seus ingredientes. Ah, e tem, sim, um vilão!

História e narrativa simples, sem nada de extraordinário, sem rebuscamentos, em linguagem coloquial, mas que manteve a minha atenção e interesse até o fim.

Tenho de convir que, em muitos momentos, vi-me cansado e meio enfadado com descrições pormenorizadas de eventos que pouco, ou nada, importavam à trama. Um detalhamento excessivo, como se o autor tivesse de fazê-lo a fim de cumprir um determinado número de páginas. E elas sempre aconteciam a qualquer mudança de situação, lugar ou personagem, deixando o fluxo um pouco arrastado, truncado, às vezes. Talvez umas cinquenta páginas a menos tornassem-no mais fluído e menos moroso.

Não chega a ser uma falha grave, pois é um recurso muito utilizado para se chegar a um “clímax” na narrativa (evento que precisa de um crescente até atingir o ápice da emoção), mas em muitos casos tal recurso não resultou em qualquer impacto na trama, sendo apenas e tão somente “encheção de linguiça". Cada capítulo foi dedicado a um personagem (alguns personagens tiveram mais de um), que é a “voz” da história. Este é outro ponto no qual as repetições são várias, pois no capítulo, “Charles Trumper”, são narrados fatos que, no capítulo, “Becky Trumper”, repetem-se, agora na ótica desta personagem. É um recurso interessante, mas a repetição, caso não exista algo de surpreendente, torna-se apenas enfadonha, e desnecessária. Bola fora do autor, Jeffrey Archer, neste quesito.

No mais, é uma boa leitura para o fim-de-semana; em que o leitor pode se entregar ao voo linear do corvo, sem se preocupar em pousar em algo mais sólido e consistente.


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Avaliação: (**)

Livro: O Voo do Corvo

Autor: Jeffrey Archer

No. Páginas: 600

Editora: Bertrand Brasil


Sinopse: "O inicio dos negócios de Charlie Trumper se dá ao lado de seu avô, vendendo verduras e frutas em um carrinho de mão. A partir daí, o comerciante lutará para criar "O Maior Carrinho do Mundo", enfrentando uma guerra, encontrando o amor e descobrindo um misterioso e poderoso inimigo"

07 outubro 2019

Outra Volta do Parafuso: Muito mais que um suspense




Jorge F. Isah


Ouvira falar deste livro do James, e a euforia com que o descreviam, fez-me comprá-lo, por uma bagatela, em um supermercado de BH: R$ 5,99, capa dura. 

Sempre se referiam a ele como uma novela de suspense e terror, e, pela fama de James como romancista, achei que valia a pena iniciar a leitura, a despeito do gênero não ser o que mais me agrada.

Tudo seguia o curso natural, quanto ao que me fora dito; e, no início do livro, pareceu-me que o autor demorava um pouco a engrenar a história, mas depois de engrenada, percebi que parar de ler era uma empreitada impossível

O pano de fundo são aparições sobrenaturais (já percebíveis nas primeiras páginas) que mudam por completo a vida das pessoas que moram em Bly. Mas é o pano de fundo, pois o autor na verdade usa-o para falar de algo muito mais importante: a percepção da realidade, o que vemos, o que sentimos e imaginamos, e como reagimos diante delas, de maneira que as relações pessoais tomam um aspecto diferente à medida que a objetividade, de certa forma, é alterada pela subjetividade de um dos personagens. Pode ser que alguém esteja realmente a ver o que os outros são incapazes de fazê-lo, mas pode também ser que esse alguém esteja criando uma ilusão, como resposta ao que lhe acomete ao redor, concebendo um mundo de angústia, aflição, dúvidas, mas de cuidado, solidariedade e, também, amor.

Não farei uma sinopse porque não quero antecipar o enredo e estragar o prazer do leitor. Também não é o meu objetivo, visto que nunca gostei de ler resenhas de livros e filmes (se é para ouvir um "resumo" do livro, ou do filme, prefiro lê-lo e assisti-lo). Gosto mesmo é de tocar em pontos que eventualmente a maioria dos leitores não se apercebe (certamente existem pontos que os leitores notam e que me são imperceptíveis); detalhes que me chamam a atenção e me fazem saborear a leitura, como um deleite. 

Portanto, fica a dica: leia esta pequena novela, não como sendo apenas um livro de suspense, mas um livro em que a realidade e as relações interpessoais (suas nuances e alterações e sentimentos e percepções) são os personagens principais.


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Avaliação: (***)

Titulo: "Outra Volta do Parafuso" ou "A Volta do Parafuso" (Pode-se se encontrar os dois títulos para o mesmo livro)

Autor: Henry James

Editora: Abril

No. de páginas: 192

Sinopse: 
"Obra mais popular do renomado escritor Henry James Em uma trama perturbadora, o autor nos leva ao dia a dia de uma jovem governanta que tem a missão de cuidar de duas crianças, Miles e Flora, que vivem nos arredores de Londres. A moça é a narradora da história, e o que parece ser o trabalho dos sonhos, de um momento para outro, se torna um pesadelo. Os habitantes da casa são assombrados, ou influenciados malignamente, pelos fantasmas de Peter Quint, ex-mordomo, e da Srta. Jessel, a ex-preceptora. Neste clima de suspense, a jovem conta apenas com a ajuda da bondosa criada, Sra. Grose, para se livrar do mal que atormenta a família."



01 outubro 2019

Amor e ardor pelo ministério: George Whitefield





Jorge F. Isah


Esta é uma das muitas biografias sobre o chamado "príncipe dos pregadores", George Whitefield (antes mesmo de Charles Spurgeon ganhar, também, o apelido).

O autor, Steven Lawson, tece inicialmente uma pequena biografia de Whitefield, contando os fatos mais importantes de sua vida: nascimento, conversão, estudos, início do seu ministério, casamento, perdas, e suas "campanhas" evangelísticas no Reino Unido e na América.

Aborda também a amizade com os irmãos Wesley, e as várias disputas teológicas em que se envolveram, incapaz, contudo, de impedir-lhes a fraternidade e um relacionamento profundo de irmandade.

Aspectos gerais de sua vida, lutas, dissabores, esperança, e, sobretudo, a sua dedicação ao ministério evangelístico, de levar Cristo aos perdidos, são brevemente analisados (e as várias tentativas do inimigo, e seus asseclas, de impedir-lhe de pregar e testemunhar a Cristo).

A segunda parte, propriamente dita, trata da compreensão e defesa teológica dos pontos cruciais da fé cristã; e como Whitefield era calvinista, o autor dedica boa parte do livro em esmiuçar a doutrina e a crença que tão fortemente influenciaram o "príncipe" naquilo que foi certamente a motivação de toda a sua vida: o zelo evangelístico!

Trechos de seus sermões são pinçados a fim de validar a análise do autor, bem como depoimentos de outros autores e teólogos que viveram intensamente a época de Whitefield, ou se debruçaram sobre os seus sermões posteriormente, bem como os vários biógrafos. Sobretudo, temos revelado o grande amor de George por Deus, sua obra, a igreja, e os perdidos.

PS: Biografias têm sido o meu alvo, ainda que secundário, neste último ano. Tenho por meta ler, ao menos, duas ou três, especialmente dos santos que, no decorrer da história, dedicaram as suas vidas para a glória de Deus e a expansão do Reino de Cristo. Pois nos servem de aprendizado, estímulo e direção a seguir para, humildemente, nos sujeitarmos a Cristo, dependermos cada vez mais dele, para que ele cresça e diminuamos.


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Avaliação: (***)

Título: O Zelo Evangelístico de George Whitefield

Autor: Steven Lawson

No. Páginas: 162 

Editora: Fiel

Sinopse: "Em um período sombrio de declínio espiritual na Inglaterra do século XVll e início do século XVlll, George Whitefield, conhecido como o grande pregador itinerante por sua notável mensagem que acendeu fogo de avivamento em dois continentes,irrompeu como raios de um céu sem nuvens. Um evangelista incansável que unia teologia profunda a um zelo ardente de ver os perdidos salvos, Whitefild cruzou oceanos e viajou milhares de quilômetros para proclamar o evangelho de cristo. Ao fazê-lo, despertou um reavivamento como nenhuma igreja nunca conheceu. George Whitefiel era um homem de piedade singular e teologia profunda, cuja devoção a deus o levou a arriscar tudo o que tinha para pregar cristo"

20 setembro 2019

SOBRE OPINIÃO VERDADEIRA, FALSA E OUTRAS COISAS






Jorge F. Isah


Sócrates, discorrendo acerca de verdadeiras e falsas opiniões, ligadas diretamente ao fato de se conhecer e reconhecer ou não a realidade, aponta ao sábio e ao tolo, sem confundi-los, em diálogo com o jovem Teeteto (a alusão de Sócrates à cera, refere-se ao ato de, antigamente, uma pessoa imprimir a sua marca em uma borra de cera aquecida, ficando nela, o dístico que a identifica):

"Sócrates - Em resumo: acerca do que nunca se soube nem nunca se percebeu, não é possível, me parece, nem enganar-se, nem formar opinião falsa, se for realmente saudável nossa proposição. Mas justamente nas coisas que sabemos e que percebemos é que a opinião vira e se muda, ficando, a revezes, falsa e verdadeira; quando ela ajusta direta e exatamente a cada objeto o cunho e sua imagem, é verdadeira; será falsa, quando os a de través e obliquamente.

Teeteto - Tudo isso, Sócrates, não está maravilhosamente exposto?

Sócrates - Falarás com maior entusiasmo, ainda, quando ouvires o seguinte. Pensar com acerto é belo; pensar erroneamente é feio.

Teeteto - Como não?

Sócrates - A diferença entre ambos, dizem, provém disto: quando a cera que se tem na alma é profunda e abundante, branda e suficientemente amassada, tudo o que se transmite pelo canal das sensações vai gravar-se no coração da alma, como diz Homero, aludindo a sua semelhança com a cera, saindo puras as impressões ai deixadas, bastante profundas e duradouras os indivíduos com semelhante disposição aprendem facilmente e de tudo se recordam e sempre formam pensamentos verdadeiros, sem virem jamais a confundir as marcas de suas sensações. Sendo nítidas e bem espaçadas todas as impressões, com facilidade põem em relação cada imagem com a correspondente marca, as coisas reais, como lhes chamam. São esses os denominados sábios. Não te parece que está certo?

Teeteto - Maravilhosamente certo.

Sócrates - Quando o coração de alguém é veloso, qualidade decantada pelo poeta sapientíssimo, ou de cera carregada de impurezas, ou muito úmida ou muito seca, as pessoas de coração úmido, aprendem depressa mas esquecem facilmente, e ao revés disso as de coração por demais seco. As de coração veloso, áspero e pedrento, devido à mistura de terra e de espurcícia, recebem impressões pouco claras, por carecerem de profundidade.
Igualmente pouco nítidas são as de coração úmido; por se fundirem umas com as outras, em pouco tempo ficam irreconhecíveis. E se além de tudo isso, por exiguidade de espaço, ficarem amontoadas, mais indistintas se tomarão; os indivíduos desse tipo são propensos a emitir juízos falsos, pois quando veem ou ouvem ou pensam, falta-lhes agilidade para relacionar de imediato cada coisa com sua marca peculiar; são morosos, trocam as coisas, veem e ouvem mal e, no mais das vezes, pensam errado. Daí serem chamado ignorantes e dizer-se que sempre se enganam com a realidade". 
(Fonte: Teeteto, de Platão)

Agora, eu:
Durante anos, vivi assim, como o ignorante mais cego da própria ignorância e condição de tolo, mas desde a minha conversão, posso dizer que Cristo tem me aproximado da verdade, ainda que eu claudique e insista, por vezes, em permanecer na irrealidade.

A Ele, honra e glória eternas!


14 setembro 2019

Teeteto: A imagem de Deus neutralizando o mal






Jorge F. Isah


Sócrates descreveu como exceção, para todos os tempos, mas tornou-se regra nos últimos cem ou mais alguns anos, e é quase unanimidade nos dias atuais, seja por dolo, seja por ignorância e incapacidade de muitos percebê-lo; seja por descuido, apatia ou o desejo de copiar o "espírito" do senso comum. Vamos, então, a ela!

Ao mesmo tempo em que afirmou o "Imago Dei" no homem, ele também descreveu que, quanto mais o homem se afasta de Deus e de sua santidade, mais o "Imago Dei" se esvanece e sucumbe à natureza pecaminosa. Ou seja, aquilo que Agostinho reproduziu séculos depois, e que foi afirmado por profetas, apóstolos, pela igreja em geral e, especial e necessariamente por Cristo, era uma ideia compartilhada com o filósofo gregos.

Evidente que o povo de Deus tem a melhor resposta, na verdade, a única resposta: pois o Deus bíblico e pessoal, na pessoa do Pai, Filho e Espírito Santo é o único Deus. Todos que se aproximarem dele, verdadeiramente (não vale a adesão nominal, quando o coração está voltado e focado no serviço ao pecado), estarão mais distantes dos efeitos noéticos, e do mal a sucedê-lo.

Infelizmente os tolos pensam que não pagarão pelos seus desvios, enquanto um bando de medrosos alisam sua própria vaidade, distraídos o suficiente para não se aperceberem tolos e ludibriados pelo próprio orgulho e presunção.

Mas é, contudo, a imagem de Deus que neutraliza o mal, segundo Sócrates. O que, mesmo não sendo dito dessa maneira pelo Cristianismo, acaba por ser uma percepção cristã: mais próximo de Deus, mais distante do mal. Mais distante de Deus, mais próximo do mal. 


Vale a pena a reprodução do trecho do livro:

"Sócrates: As demais aparências de habilidade e de sabedoria, quando se mostram no exercício do poder público, são conhecimentos grosseiros, nas artes, vulgaridade. Assim, quando alguém é injusto ou ímpio, por ações ou palavras, será melhor não conceder-lhe que todo o seu êxito se baseia na astúcia, pois esse indivíduo se envaideceria com o reparo, muito ancho por ter ouvido dizer, segundo crê, que não é néscio ou fardo inútil sobre a terra, porém homem como terão de ser os que melhor sabem vencer na vida pública. A esses tais é preciso dizer-lhes a verdade: que são tanto mais o que julgam não ser, quanto menos sabem o que são. De fato, todos eles desconhecem qual seja o castigo da injustiça, o que menos do que tudo não se pode ignorar. Não é o que todos pensam; castigos corporais e morte, de que os malfeitores muitas vezes escapam, sendo penalidade a que ninguém se exime.

Teodoro: A que penalidade te referes?

Sócrates: Na própria ordem das coisas, amigo, há dois paradigmas: um divino e bem-aventurado; outro, contrário a Deus e miserabilíssimo. Porém nada disso eles percebem; a enfatuação e a demência em grau máximo os impedem de sentir que com suas ações injustas eles se aproximam do segundo e cada vez mais se afastam do primeiro. São castigados pela vida que levam, conforme ao modelo de sua preferência. E se lhes dizemos que se não renunciarem àquela habilidade, depois de mortos não serão recebidos no local estreme de maldades e aqui em baixo terão de levar vida conforme seu caráter; os maus convivendo com a maldade; tudo isso eles escutam, sabidíssimos e astuciosos, como palavreado vazio, de pessoas desprezíveis"

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Livro "Teeteto"

Autor: Platão

Ebook gratuíto na Amazon




09 setembro 2019

Frankenstein ou o Prometeu Derrotado




Jorge F. Isah


Frankenstein, ou o prometeu moderno, é um exemplar romantista, escrito por Mary Shelley e publicado em 1818, quando tinha 19 anos. 

Especialmente por suas longas descrições, sejam de ambientes, lugares, pensamentos, pessoas, motivações, etc, que caracterizam o estilo literário "romântico", Frankenstein é um exemplar típico desse movimento. Para os não iniciados, pode parecer enfadonho e desnecessário, mas os detalhes auxiliam na compreensão e no clima de suspense/tensão da narrativa. Não o classificaria como um livro de terror; parece-me muito mais um grande drama, uma tragédia, remetendo à literatura grega clássica, a começar pelo subtítulo.

A história começa com o Dr. Victor Frankenstein (muitos imaginam ser o nome da criatura e não do criador) construir um “monstro” a partir de partes e pedaços de corpos. Após dois anos de intensos estudos, descobre a fórmula de dar vida à sua criatura, causando-lhe aversão e asco, levando-o a abandoná-la. Pararei por aqui, na descrição, para não estragar o ânimo do futuro leitor, e me aterei ao que mais me chamou a atenção no enredo.

Como disse, é um livro com inúmeras descrições, pormenores e detalhes que podem cansar o leitor não acostumado com a literatura romântica, ou romantismo. Parecem se arrastar e se repetir em muitos momentos, mas são necessários para criar um vínculo, ou melhor, uma sintonia do leitor com o relato. É notória a repetição das descrições sobre a “criatura” especialmente por Victor, que não se cansa de chamá-la de “monstro” e “demoníaca”.

Aspectos morais e éticos são abordados pela autora, em especial as consequências das escolhas, mormente as ruins, notadamente o mal a acometer inocentes que em nada colaboraram para as decisões equivocadas. Frankenstein e sua criação travam um embate onde ninguém próximo sairá ileso, nem eles próprios. Algo que Shelley vislumbrou há 200 anos, como um desastre de grandes proporções se continuado, paira sobre a humanidade com os inúmeros experimentos genéticos em curso. Até que ponto, podemos brincar de Deus? Sem que a nossa “criação” se volte contra nós mesmos?

Se no racionalismo a razão é a mãe e explicação para todos os eventos e comportamentos e decisões, no naturalismo sobram sentimentos sem qualquer explicação racional. Por que Victor desejou fazer-se Deus e criar um monstro? Por que abandonou a sua criação? Perdendo o aparente controle sobre ela? E a criatura, desprezada e hostilizada, experimentou o mal que não conhecia?... Leva-me à Queda, quando o homem rejeita o Bem-Supremo para viver no inferno interior, tão vil que se propaga ao seu redor, como uma peste, corrompendo e infectando quase tudo. Se a criatura é o mal, Victor é o impotente homem incapaz de combate-la, antes faz apenas “excitá-la” a produzir ainda mais o caos, desordem, dor e morte.

Se antes a vida de Frankenstein era permeada pela completa ordem familiar, profissional, acadêmica, amorosa, fraternal, após a “liberdade” do monstro tudo vai se desvanecendo rapidamente; resta apenas o remorso e o ardente desejo de vingança a consumi-lo. Vê-lo perder a harmonia, fruto do seu egoísmo, orgulho e fraqueza, permite-lhe apenas uma saída: enfrentar o monstro. Entretanto, como combater e vencer algo maior e mais forte? Por onde passa, o "monstro" leva-o de roldão, um caminho repleto de desgraças.

A analogia com o pecado, e seu poder sedutor e controlador é inevitável, e deve nos colocar em estado de alerta, a fim de não sucumbirmos ao seu poder. Pois, depois de instalado, resta-nos a sujeição, feito escravos; e a aversão, o nojo, culpa e escrúpulos não são suficientes para derrota-lo, pelo contrário, faz com que se ria, e delicie-se, ainda mais de nós e da nossa moral, não muito distante dos "trapos de imundície". É melhor não cogitar ou aventar a hipótese do "monstro", para não se ver aterrorizado, encurralado, ou destruído por sua "força".  

No fim das contas, o "monstro" vence, ainda que ele mesmo seja vítima do seu desejo pérfido, e pague, a seu tempo, a conta por seus crimes.

Um livro que vai muito além da mera diversão, para levar-nos do sossego a inquietação, com toda a complexidade da vida.


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Avaliação: (***)

Livro: Frankenstein ou o Prometeu Moderno

Autora: Mary Shelley

No. Páginas: 304

Editora: DarkSide

Sinopse: "No aniversário de duzentos anos de sua criação, FRANKENSTEIN volta a caminhar entre nós, numa edição monstruosa como só a DarkSide® Books poderia lançar. A obra-prima de Mary Shelley merece. Seu livro de estreia é um marco do romance gótico, verdadeiro ícone do terror e influência fundamental para o surgimento da ficção científica. A criatura de Frankenstein é considerada o primeiro mito dos tempos modernos.Para compor sua bem-sucedida experiência literária, Shelley costurou influências diversas, que vão do livro do Gênesis a Paraíso Perdido, da Grécia Antiga ao Iluminismo. O resultado é uma daquelas histórias eternas, maiores do que a vida. Leitura obrigatória em países de língua inglesa, FRANKENSTEIN é muitas décadas anterior à obra de Poe, Bram Stoker ou H.G. Wells, e vem sendo publicado ininterruptamente desde 1818. Pouco menos de dois anos antes, a criatura nascia numa noite de tempestade à beira do lago Genebra.No verão de 1816, Mary e um grupo de escritores ingleses ― seu marido, Percy Shelly, o poeta Lord Byron e John William Polidori ― dividiam uma casa na villa Diodatti, na Suíça. Entusiasmados pela leitura de uma edição francesa de Fantasmagoriana ― coletânea de histórias sobre aparições, espectros, sonhos e fantasmas ―, os quatro aceitaram o desafio de escrever um conto de terror cada. Mary concebeu a origem de FRANKENSTEIN. E curiosamente, Polidori escreveu o que viria a ser O Vampiro, romance que serviria de inspiração para Drácula, de Bram Stoker. A história de Victor Frankenstein seria reinterpretada incontáveis vezes. Ainda no século XIX, era levada com sucesso ao teatro. A primeira aparição no cinema data de 1910, mas foi em 1931 que Boris Karloff deu um rosto definitivo à criatura no imaginário popular. O livro de Shelley, assim como o filme de Karloff, serviria de inspiração para a imaginação de artistas como Tim Burton, Clive Barker, Wes Craven, Mel Brooks, Alice Cooper, Roger Corman. As referências estão em todas as partes: nos monstros da Universal Studios e da Hammer Films, na comédia musical de horror The Rocky Horror Picture Show, em filmes como Reanimator, inspirado no conto de H.P. Lovecraft, em álbuns como Yellow Submarine, no universo das HQs da Marvel e da DC Comics, em games como Castlevania, e em séries e desenhos clássicos como A Família Addams e Scooby-Doo.A lista é interminável. São tantas versões que é quase impossível não estar familiarizado com a história: Victor é um cientista que dedica a juventude e a saúde para descobrir como reanimar tecidos mortos e gerar vida artificialmente. O resultado de sua experiência, um monstro que o próprio Frankenstein considera uma aberração, ganha consciência, vontade, desejo, medo. Criador e criatura se enfrentam: são opostos e, de certa forma, iguais. Humanos! Eis a força descomunal de um grande texto.Mas quando foi a última vez que você teve a chance de entrar em contato com a narrativa original desse que é um dos romances mais influentes dos últimos dois séculos? Que tal agora, na tradução de Márcia Xavier de Brito?"


26 agosto 2019

A escuridão da própria alma ou Tonio Kröger





Jorge F. Isah


Nesta novela, temos outro “experimento” de Thomas Mann em busca de um apuro e sentido literários. Vários dos elementos presentes nas suas obras posteriores estão, ainda que incipiente, por aqui: longas reflexões; amores platônicos e inalcançáveis; a futilidade existencial; a mistura étnica; o apelo ao belo, à virtude; a importância das coisas mais corriqueiras e banais; a amizade e a lealdade, ou a perda dela; os conflitos entre pares; e o cruzamento constante entre distintos... em suma, o desafio de viver. 

Tudo começa com o jovem Tonio Kröger (cujo nome detestava, por remetê-lo à latinidade indesejada), filho de um cônsul alto, branco, culto, discreto, severo, e figura destacada na cidade; e a mãe, uma mulher sul-americana, morena, inculta e dada a extravagâncias. Os pais são opostos; e o garoto se vê entre o antagonismo deles, sem se dar conta do seu lugar na família, assim como na escola e entre os colegas. 

Sendo um aluno medíocre, indiferente aos professores e à direção de ensino, apresenta boletins sofríveis, causando a censura e repreensão do pai, e o descaso da mãe. Refugia-se escrevendo poemas e na amizade (quase o endeusamento) do amigo Hans, um tipo diferente: alto, loiro, olhos azuis, causando-lhe a admiração e os ciúmes próprio da amizade. Alguém pode entender o amor de Tonio por Hans como algo físico e carnal, um amor homossexual (infelizmente, se havia o estigma de o homem não poder amar outro homem, como sinal de fraqueza ou afetação [o que dizer do amor de um pai por um filho, ou de um irmão por outro, ou de um amigo por outro? Seria mesmo impossível?], hoje toda forma de amor entre homens tem de ser, quase necessariamente, homossexual. Saímos de um extremo nocivo para outro ainda mais nocivo. Então, qualquer tipo de amor entre homens na literatura, no cinema, teatro ou artes em geral, terá de ser carnal), o que acaba por acontecer efetivamente em “Morte em Veneza”, mas aqui não passaria incólume à coação ideológica. Para a desgraça deste mundo, o amor tem se tornado apenas fluídos e orgasmos, e obsessão por eles. 

Tonio nutre uma admiração excessiva, venerável, ao amigo, pois ele era exatamente aquilo que desejaria ser: belo, inteligente, destacado e querido, tanto pelos colegas como pelos professores. Para Tonio, inferior física e intelectualmente, quase um pária, sem ter a simpatia de outro a não ser de Hans, nada mais natural do que a reverência ao amigo (com doses de inveja, diga-se), e aproximar-se daquele que não parece se importar com os seus defeitos ou insignificância, tendo-o por igual. 

A novela relata momentos marcantes da vida de Tonio, essenciais para a formação do seu caráter e futuro. 

Posteriormente, se enamora (platonicamente) por uma colega, a deusa loira, Inge Holm. 

Então, de maneira errante e sinuosa, como toda a sua vida, encontramo-lo adulto, e já um escritor com algum reconhecimento. Esse é o seu refúgio, o lugar onde verdadeiramente se vê e se encontra, ainda que tortuoso, no qual Mann faz uma elegia à literatura e a sua capacidade de redimir, intimamente, o mundo daqueles alijados e insociáveis. Essa é a única “bênção” vislumbrada por Tonio, em sua acentuada autoexclusão. Ressalto que, como em outros livros, Mann insere elementos autobiográficos em muitos dos seus protagonistas, e aqui não é diferente. 

De certa forma, há em Tonio um estranhamento com o mundo “ariano”, dominado por loiros de olhos azuis, enquanto a sua pele morena e olhos escuros o distinguem sobremaneira, isolando-o, fazendo-o não se reconhecer em lugar algum, nem ao lado de ninguém. Anseia as coisas comuns, banais, mas é incapaz de destituir-se da pompa e nobreza herdada, acabando por, de alguma maneira, desprezar o ansiado. Mesmo entre os seus, não encontra lugar, vivendo à margem, como um mero observador, passivo. Sua indolência está refletida na relação da sua mãe com o padrasto (casou-se após o falecimento do pai) e a união de Hans e Inge, em sua cerimônia nupcial, as quais não reage, deixando-se sucumbir nelas. 

Mann parece demonstrar que o mundo pode ser um campo de alegria, felicidade e vitória, desde que se tenha os predicados e a ordem necessárias. Tonio, um estranho e indesejado, é o próprio caos, o transtorno, a impossibilitar-lhe alcançar o que apenas os “bons” ou predestinados conseguiriam. 

Entretanto, existe uma esperança, latente, na qual o protagonista se escora visando mudanças e se autorresgatar do fracasso, no dizer a Lisavieta, sua confidente: 

"O que fiz é nada, não muito, quase nada. Farei coisa melhor, Lisavieta - isto é uma promessa. Enquanto escrevo, o mar murmura até aqui e eu fecho os olhos. Olho para um mundo inato, quimérico, que quer ser ordenado e culto; olho para um formigar de sombras com aspecto humano que acenam para mim, a fim de que as esconjure e liberte...".

Caso não consiga, ainda resta-lhe as sombras e, ironicamente, descrever a escuridão da própria alma.


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Avaliação: (***)

Livro: Tonio Kröger

Autor: Thomas Mann

No. Páginas: 96

Editora: Cia das Letras¹

Sinopse: 
"O volume traz ainda Tonio Kröger, narrativa de 1903 que Thomas Mann declarava ser uma de suas favoritas. A novela tem diversos traços autobiográficos e está centrada na relação entre artista e sociedade, um tema muito caro à obra de ficção do escritor, sobretudo nos primeiros trabalhos."

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¹Indiquei a Edição da Cia. das Letras, porque é a única à venda, atualmente, e inclui a novela "Morte em Veneza". Como os livros que li, tanto "Tonio" como "Morte" são individuais, mas não estão disponíveis em português, a não ser em sebos, não me restou outra opção. 

19 agosto 2019

Figuras de linguagem em "Arpeggios Insulares"



       Análise das figuras de linguagem a partir do livro "Arpeggios Insulares", por Wlange Keiné. 

       Para assistir, clique no vídeo abaixo!

      Ou vá ao Youtube em Ficçomos 



16 agosto 2019

A vida por um fim em "A vida peculiar de um carteiro solitário"





Jorge F. Isah



O livro trata de assuntos ada vez mais inseridos no mundo moderno: a solidão, a perda, ou a confusão, de identidade, abstração e uma boa dose de voyeurismo. O protagonista é um carteiro solitário, Bilodo, que preenche o seu vazio lendo as correspondências dos clientes e exercitando a arte da caligrafia. Especialmente, agrada-lhe muito as correspondências de uma professora residente em Guadalupe, Ségolène, endereçadas a Gaston, professor e poeta, morador em Quebec, como Bilodo. Entretanto, o único conteúdo são haikais, um a cada carta enviada, o que acaba por levar o carteiro ao mundo da literatura, diga-se, japonesa.

Em meio a uma reviravolta na história (algo previsível, ao menos para mim, que imaginava o desfecho), Bilodo assume a identidade de Gaston, mantendo a troca de missivas com Ségolène. Neste ponto, a paixão pela professora havia se instalado no seu coração, e a única forma de sustentar o seu deleite platônico era manter a troca de correspondências. 

É possível perceber como em um mundo digital, onde as comunicações estão ao toque dos dedos, as pessoas encontram-se mais solitárias, deprimidas, vulneráveis e, em alguns casos, suicidas. O suicídio tem sido a “saída” para a debilidade dos homens modernos, assim como os prazeres fugazes (sexo inconsequente; drogas; álcool; “adrenalina”; e tantas outras “loucuras” que tentam mostrar aos seus praticantes que estão vivos, ainda que por alguns minutos ou horas) são placebos a aplacar a angústia e dor na alma. 

Ele vê nos seus poucos amigos e colegas um espirito vil, desprezível, mantendo-se ainda mais distante deles, em suas compulsões pela degradação e libertinagem. A sua ordem interior é quase ascética, se não fossem os seus “arroubos” em furtar o conteúdo das cartas. Para ele, os demais encontram-se em um estado de constante imoralidade e exibicionismo (outro ponto notadamente “moderno”). Prefere o lirismo dos haikais, a sutileza das palavras singelas, a esperança no sonho, e a alma preenchida pelo belo, inocente, puro. 

Entretanto, o homem é um ser pecaminoso, e ele o sabe, ao ponto de quebrar regras, infringir leis, para satisfazer os desejos mais íntimos. Contudo, a paz, a ordem e a harmonia são rompidas, quando o amor platônico e diáfano entre a professora e o carteiro toma cores reais, invadindo a privacidade de Bilodo, na iminente exposição da sua trapaça. Ele vai ao desespero. Neste intercurso, sofre as consequências do seu plano, descoberto pelo melhor amigo, Robert, expondo-o sorrateiramente. Bilodo vê o seu mundo desmoronar por completo, e a única pessoa que o amava, como realmente era, Tania, torna-se também inimiga (por causa de uma trapaça de Robert). 

O final, com elementos fantásticos e místicos, provavelmente resultante do “espírito” da poesia japonesa, era um dos desfechos que considerei possível, quando Bilobo assume uma dupla identidade (quase o levando a anular a verdadeira). 

Muitos consideram este livro um romance, pequeno, mas romance. Eu o tenho como uma novela: personagens sem muita profundidade, trama simples, narrativa rápida, ações essenciais dos personagens para a trama, unicidade e linearidade no enredo. 

“A vida peculiar de um carteiro solitário”, escrita por Denis Theriault, é um livro leve, com uma linguagem etérea, quase sublime, onde o amor pode ser incomparavelmente puro, casto, podendo descambar, a qualquer momento, para os vícios comuns do homem. 

O livro foi um frescor, ainda que tenha me dado a impressão de ser voltado para um público mais juvenil e feminino, em meio a aspereza e acidez das últimas leituras. 


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Título: A vida peculiar de um carteiro solitário

Autor: Denis Thériault

Editora: Leya

No. Páginas: 128

Avaliação: (***)

Sinopse:

"Bilodo vive a tranquila vida de um carteiro sem muitos amigos nem grandes emoções. Completa diariamente seu percurso de entrega e retorna sempre à solidão de seu pequeno apartamento em Montreal. Mas ele encontrou uma excêntrica maneira de fugir dessa rotina: aprendeu a abrir as correspondências alheias sem deixar rastros e passou a ler as cartas pessoais com as quais se depara. E foi assim que ele descobriu o primeiro grande amor de sua vida: a jovem professora Ségolène, que mantém uma misteriosa correspondência com o poeta Gaston, composta somente por haicais. Instigado pela elegância e simplicidade de seus versos, Bilodo se vê cada vez mais fascinado por essa forma de poesia. Mas quando é confrontado com a perspectiva de se ver privado das cartas de Ségolène, ele precisa tomar uma decisão que pode levá-lo mais longe do que podia imaginar. Talvez seja hora de compor seus próprios poemas de amor. “Peculiar e charmoso com um desfecho bem executado , esta novela traz à mente nada menos do que um Kafka apaixonado” The Guardian Sobre o autor: Nascido na costa norte do Golfo de St. Lawrence, Quebec, Denis Thériault tem licenciatura em psicologia, é um roteirista premiado e vive com sua família em Montreal. Seu primeiro romance, L'iguane, foi publicado com grande aclamação da crítica e ganhou os prêmios literários France-Québec 2001, Anne-Hebert 2002 e Odyssée 2002. Este é seu segundo romance."







08 agosto 2019

O algoz de todo homem em "O Juiz e o seu Carrasco"





Jorge F. Isah


Este livro me caiu no colo, quase por acaso. Estava procurando algumas novelas policiais, já que Cormac McCarthy está me consumindo com o seu “Meridiano de Sangue”, e pensei em ler algo, digamos, mais leve. E gostei do título: "O Juiz e o seu carrasco". Procurei um exemplar físico, mas encontrei apenas na Estante Virtual, então optei por comprar o ebook na Amazon. E o livro me surpreendeu. Uma história curta, pouco mais de noventa páginas, trouxe mais surpresas do que muito calhamaço famoso por aí. Dürrenmatt é pouco conhecido no Brasil. Praticamente, a sua única obra traduzida para o português é esta.

O assassinato de um policial é o mote para a vingança do inspetor Bärlach, que aguarda há 30 anos concretizar-se. A narrativa é fluída, simples, e reverencia o gênero “noir”, com um policial solitário, enigmático, que vara as noites insone ou cruzando as ruas e estradas atrás das pistas a desvendarem o crime. Para complicar, Bärlach é um velho, sexagenário e doente. Mas nada o impede de traçar um plano para finalmente vingar-se e ainda solucionar o crime. A luta que ele trava com o seu oponente é mais ou menos a batalha entre Davi e o Golias, sem que evoque o nome de Deus. Bärlach não tem amigos, mas uma grande lista de inimigos e desafetos.

Pouco depois da metade do livro dá para deduzir quem é o verdadeiro criminoso, se houver a atenção devida na narrativa. Não é surpreendente, mas está em perfeita harmonia com as pistas lançadas alhures pelo autor; nesse tipo de livro a atenção e observação são tudo.

Questionamentos sobre a justiça, seu significado em um mundo injusto, onde facínoras vivem ostensivamente no glamour, seguros da impunidade e perpetuação dos seus malefícios, levam o protagonista a descrer que ela possa se realizar “oficialmente”, restando-lhe trazê-la à realidade de maneira informal, porém, minuciosamente planejada.
Em meio à sua luta por justiça, ou vingança, ele lutará pela vida, e guardará cada momento de lucidez no esforço (mais físico que intelectual) de levar a cabo o seu projeto.

O Juiz e o seu Carrasco foi uma grata surpresa, não necessariamente por sua história que, se não é banal não é também original. Vale as muitas reflexões sobre a vida, os objetivos e o desenrolar de uma obsessão por justiça, como se fosse realmente um juiz, e poder se entregar definitivamente ao seu carrasco, à espera de ser retirado deste mundo, no golpe fatal da foice do algoz de todo homem.

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Livro: O Juiz e o seu Carrasco

Autor: Friedrich Durrenmatt

No. Páginas: 108

Editora: L&P Pocket

Sinopse:

"Em uma cidadezinha suíça, um policial exemplar é encontrado morto. Bärlach, um velho e doente comissário, amante de cigarros, de vodca e da boa mesa, investiga essa morte – ao mesmo tempo em que luta contra a sua própria, que parece cada vez mais próxima. Enquanto a polícia se vê às voltas com figurões locais, oficiais oportunistas tentam subir na carreira, e Bärlach faz as suas arriscadas jogadas. Na sombra, o assassino, um tipo maquiavélico, disserta sobre o bem e o mal, que ele considera possibilidades iguais...

Tendo como mote principal uma intriga policial, O juiz e seu carrasco, uma das obras mais conhecidas do escritor suíço Friedrich Dürrenmatt (1921-1990), trata, na verdade, num tom sarcástico, da tragédia da morte e da doença, da risível comédia humana. Uma pequena obra-prima à altura dos mestres Dashiell Hammett, Rex Stout, Raymond Chandler e Georges Simenon."

Avaliação: (***)

Conclusão Final: Recomendado



05 agosto 2019

Sermão em Lucas 1.11-13: Aquele que fez o ouvido não ouvirá?






Jorge F. Isah


**Para ouvir o áudio da pregação acesse: Tabernáculo Batista Bíblico 


1) Sabemos que o Senhor ouve orações. 

- Há vários relatos bíblicos mostrando o clamor dos servos ao Senhor, e a sua resposta atendendo-as. 

- O Salmos 94.9 diz: “Aquele que fez o ouvido não ouvirá?”

- Sim, é claro que o Senhor ouve!


2) Como ilustração, citarei alguns exemplos similares ao de Zacarias e Isabel, sobre promessas cumpridas. Leiam os textos indicados!

- Abrão e Sara, em Gênesis 18:9-14

- Isaque e Rebecca, em Gênesis 25:20-21

- Ana, em 1 Samuel 1:10-11, 17 -20.

- Agora temos o relato de Lucas acerca de Zacarias: Lucas 1:11-13

- Estes homens e mulheres clamaram ao Senhor insistentemente, como os casos de Isaque, Ana e Zacarias. Abraão já estava conformado em deixar os seus bens para um herdeiro nascido em sua casa, seu servo e mordomo Eliezer (Gn 15:2-4) . 

Por que estou fazendo essas comparações e distinções?


3) Existem estudos que apontam para a não insistência na oração. Dizem que devemos pedir a Deus apenas uma vez e confiar que ele ouviu e nos atenderá. Não devemos “molestar” o Senhor com súplicas repetitivas, incomodando-o. 

- Outros apelam para o poder da fé, no sentido em que, se nos investirmos da autoridade de Cristo (que nos é imputada), “determinando” que tal coisa aconteça, e não vacilarmos, todos os nossos pedidos serão atendidos (mesmo aqueles gastos com os nossos prazeres e deleite). 

- Outros mais, se rebelam à menor contrariedade, amaldiçoando e imputando a Deus a não realização do desejo, como se ele fosse um “gênio da lâmpada” e o evangelho “a lâmpada”, que esfregada obriga o gênio a realizar não apenas três, mas todos os desejos “ordenados” (o significado de determinar é o mesmo de ordenar, não somente pôr em ordem, mas instituir, estabelecer, decretar. Esta é uma prerrogativa divina, e jamais as criaturas, ainda que filhos e filhas, possam reconhecer como seu atributo). 

- E existem, ainda aqueles, que sequer creem no que oram, e não acreditam que o Deus pessoal está a ouvi-los. 

- Voltando aos textos sagrados, eles nos mostram a perseverança de alguns quanto ao pedido de oração, em clamar a Deus repetidas vezes pelo mesmo desejo. Mas também da simples disposição divina em atender-lhes, mesmo não pedindo algo específico, como o caso de Abraão.

- Caminhemos mais um pouco...


4) Tiago, por outro lado, nos diz que se pedir sem fé não receberemos o que pedimos (Tg 1.5-8). 

- Seria fé a certeza do que pedir, e de que Deus o atenderá? Ou a fé na certeza de que Deus está ouvindo? E o responderá positiva ou negativamente? Já que, para nós cristãos, o pedido não atendido é também resposta do Senhor para algo que não está em conformidade com a sua soberana vontade.

(Pensamento dobre: uma hora quer uma coisa, outra hora quer outra, não sabe ao certo o que quer ou pedir. Seria isso? Ou as dúvidas quanto o ouvir de Deus ao pedido?)


5) Por mais que se apontem “formas” para uma oração ser atendida, um tipo de oração bíblica, o fato é que Deus não age conforme os ideais e limites impostos pelo homem, mas sem sua infinitude e perfeição e sabedoria segundo o seu santo conselho. 


6) Paulo, por exemplo, pediu três vezes que Deus tirasse o espinho da sua carne. – 2 Co 12.8

- O que disse o Senhor ao apóstolo? “A minha graça basta!”

- O suficiente para trazer paz a Paulo, porque a graça é tudo o que o cristão necessita em sua totalidade. Foi assim com os patriarcas, profetas, apóstolos e cristãos em todos os tempos e lugares. 

- A aflição e inimizade do mundo para com os crentes é muito mais viva e real do que os favores ou benefícios que porventura nos dê. O sofrimento, por amor de Cristo e o evangelho, é a regra entre os cristãos. A exceção seria o reconhecimento e o favor do mundo. 


7) A oração antes de ser uma petição é intimidade com Deus, revelando a nossa dependência e sujeição a ele, e submissão à sua vontade.

- Deus sempre responderá às nossas petições, quer positiva ou negativamente. Atendendo ao pedido ou não, Deus está sempre a nos ouvir, e agirá segundo o seu santo conselho. 

- Ao não nos atender é sinal de que Deus não se compadece de nós? Nos abandonou? Deu-nos as costas? Certamente, não!


8) Vejamos o exemplo de Jó, homem reto e justo, ao ponto de aguçar a ira de Satanás, que pediu a Deus permissão para molestá-lo, de maneira terrível; primeiro tirando-lhe os bens e os servos, depois a casa e os filhos, por fim, a sua saúde. 

- Qual foi a sua resposta? Praguejar, insultar, amaldiçoar a Deus? Não: “Então Jó se levantou e rasgou o seu manto, e raspou a sua cabeça, e prostrou-se em terra e adorou; e disse: Nu saí do útero de minha mãe, e nu retornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou. Abençoado seja o nome do Senhor. Em tudo isto Jó não pecou, nem culpou Deus de maneira tola.” ( Jó 1:20-22)

- Mas, o que fez a mulher de Jó? “Aconselhou-o” desgraçadamente: “Então disse a sua mulher a ele: Ainda reténs a tua integridade? Amaldiçoa a Deus, e morre. Mas ele lhe disse: Como costumam falar as mulheres tolas, hás falado tu. Se receberemos o bem da mão de Deus, não receberemos o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios” (Jó 2:9-10)


9) Lembre-se do que o Senhor disse a Paulo, e que aquietou-o, e deu paz à sua alma: 

“A minha graça lhe basta!”

- Oramos com essa certeza? Ou nos primeiras dificuldades nos sentimos injustiçados, desgraçados, sem graça?


10) Voltando a Lucas 1.18-20, mesmo o anjo aparecendo a Zacarias, ele duvidou e pediu-lhe provas. 

- Mesmo tratando com um incrédulo, Deus atendeu o seu pedido, segundo o conselho do seu Espírito, dando-lhe o filho insistentemente clamado: João o Batista. 


11) Então, que nos resta fazer?

- Fazer escolhas corretas e santas antes de orar, sabendo que o Senhor está ouvindo, confiantes nesta promessa. Depois, devemos orar, crer, esperar, e confiar que, qualquer que seja a decisão de Deus, ela será perfeita, santa e justa, pois contemplaremos a sua vontade. 

- Não duvidemos, portanto, de que ele ouve, nem do seu poder em atender o nosso pedido, mas se não o temos atendido, não saímos a blasfemar ou insultá-lo, porque, como Paulo bem o experimentou, a graça do Senhor é bastante para nós, hoje e sempre! 


Amém!

29 julho 2019

Judas, o Obscuro: O autonomismo por um fio




Jorge F. Isah



Judas é um tipo literário muito próximo de Jó, o personagem bíblico, em suas agruras, aflições e dor. Se ao passo em que Jó sofre exatamente por sua fidelidade a Deus, e pelo desejo sincero de retidão e justiça (o que acaba por despertar a maldade objetiva de Satanás), Judas deseja apenas se ver livre das amarras sociais, numa espécie de autonomismo e independência, acreditando que suas decisões cabem apenas e exclusivamente a si mesmo, sem se importar, ou vislumbrar, com as consequências dos seus atos. A liberdade de Judas é pueril e enganadora. E arrasta-o para dentro do “Mal”, que acredita jamais tocá-lo.

O livro de Thomas Hardy (um entusiasta apaixonado pelas ideias de Darwin) foi escrito em 1895, e carregado do naturalismo em voga, que não deixou de influenciar a literatura. De tal forma que Judas, por mais que tente, ao seu jeito, fugir do destino que lhe é traçado, sucumbe à sua inexorabilidade. 

Como não sou de fazer resumo dos livros, também não o farei neste. Apontarei, contudo, o que mais me chamou a atenção, sem fazer spoilers, e sem desestimular o futuro leitor: 

1) Judas tenta “mudar” o seu destino, algo que os naturalistas, e, em especial Hardy, não crê possível. Para ele, Judas será o que é, nascido um pária, morrerá como tal. 

2) Ciente do que lhe espera, Judas apela para um autonomismo impossível, como se pudesse viver no mundo alheio ao mundo, sem que seus atos trouxessem consequências para si e seus queridos. Especialmente, pouco a pouco, no decorrer da história, parte para a negação de Deus, fazendo do Cristianismo o “bode expiatório” do seu sofrimento. Em uma sociedade cristã, a culpa de todas as convenções e males se deve portanto ao Cristianismo, num apelo transloucado à razão, como sendo-a santa, pura e perfeita, de maneira que, se todos os homens a aplicassem por completo, negando suas crenças e fé, todos seriam felizes. Acaba-se por criar e defender um dualismo “fé x razão” no enredo, o que é, no mínimo, reducionista. 

3) Hardy não escreveu uma única linha em que não destilasse a sua aversão ao Cristianismo, se não explicitamente (como em muitos diálogos e pensamentos), deixou-os subliminarmente evocados em ações e comportamentos. Porém, o Cristianismo descrito pelo autor é o que podemos chamar de “cristianismo secular” ou “nominal”, onde a aparência cristã é utilizada para justificar o farisaísmo e a hipocrisia do homem. Veja bem, farisaísmo e hipocrisia não são, nem de longe, aspectos do verdadeiro Cristianismo, mas a “máscara” daqueles que o próprio Senhor Jesus denunciou a seu tempo. Talvez, por isso mesmo, o autor escolheu o nome “Judas” para o seu protagonista que, mesmo vivendo por mais de três ano na companhia do Cristo, não se furtou a traí-lo

4) Ao fugir das convenções e de aspectos morais que “regulavam” o convívio social, se viu pagando um preço alto, vivendo como um “cigano” juntamente com a sua família. O capricho de não querer se enquadrar ao escopo da sociedade, colocou-o na situação mais miserável que o enquadramento social lhe destinaria. Em sua rebeldia juvenil e ingênua, acreditava possível passar ileso, sem traumas, quebrando regras. Judas acredita no inimigo a destruir-lhe a felicidade: a sociedade; enquanto ele mesmo acaba por cavar para si, e os seus, um caminho para a ruina. Este é um aspecto. 

5) Outro, antecedente ou derivado, é de que não se pode negar haver nele, e em sua esposa, Sue, o orgulho e a presunção de, ao não se curvarem aos hábitos da sua época, serem superiores aos seus concidadãos. A prova estava nas inúmeras vezes em que exaltavam suas inteligências, raciocínios e um apelo à razão como a essência de todas as virtudes. 

6) Nem mesmo o sacrifício pessoal, como o do prof. Richard, parece um ato isento de soberba, de autoexaltação obstinada, dominada pela “pureza” racional. 

7) Entretanto, não há como não se compadecer da “má-sorte” com que os rumos das suas vidas tomaram. Ao ponto em que, sem qualquer esperança, sobram-lhes a loucura e o definhamento. 

Judas, o obscuro, é um livro pessimista, áspero, quase inóspito. Mesmo nos momentos mais ternos e belos a angústia, dúvidas e desespero estão entranhados nas palavras, sentimentos e reações dos personagens. Não é um livro fácil de se ler, pois os lampejos de esperança são quase imediatamente dizimados por uma realidade sufocante e cruel, pela teimosia de não mudar ou ceder. 

Entretanto, é possível encontrar momentos de ternura, elegância, acabando por tornar verossímil os personagens e o enredo como um todo. A linguagem é simples, sem rebuscamentos. A narrativa parece se arrastar um pouco, especialmente na primeira metade do livro. Contudo, em sua bissecção final, ela flui sem delongas. 

Judas, o obscuro é um bom livro? Sim, sem dúvidas. Para estar no rol dos melhores de todos os tempos, como comumente é apontado entre as grandes listas? Tenho dúvidas. Talvez eu precise ruminar ainda um bom tempo a história, e, quem sabe, fazer uma nova leitura, no futuro. Certo é que, tirando a defesa “intransigente” do racionalismo e a “aversão” ao Cristianismo (criando um estereótipo), o livro se sai bem.


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Livro: Judas, o Obscuro

Autor: Thomas Hardy

Editora: Abril

No. Páginas: 464

Nota: (***)

Sinopse da Editora: 


"Um livro que retrata uma época onde a ascensão social era quase impossível, a não ser por golpes de sorte. Judas passa sua juventude estudando e sonhando em sair de seu povoado para ir para Christminster City, local que acredita concentrar grandes estudiosos. Sem recursos, sem ajuda, sem guia, sem escola e sem apoio. Mas Judas é obstinado e estuda sozinho, guarda tudo que ganha para comprar livros e os lê e relê sozinho. Aprende outras línguas (sozinho). O roteiro de uma história como essa geralmente mostra o protagonista conseguindo superar as adversidades e ser reconhecido pelo seu esforço e talento. Aqui temos uma realidade mais dura e mais próxima do mundo no final do século XIX. Judas acaba se envolvendo com uma mulher somente interessada em arranjar um marido e não em compartilhar de seus sonhos (grande erro de muitos casamentos, aliás). E é esorraçado em todas as suas tentativas de ser admitido em universidades. Decepções seguidas e críveis, que tornam o livro pesado, sofrido. Li com o coração oprimido pelo sentimento de impotência contra o mundo. Judas se afasta de tudo que ama em busca de tudo que sonha."


23 julho 2019

A Estrada: Luz em meio as trevas







Jorge F. Isah






Este é um daqueles livros que, após terminá-lo, gastamos um bom tempo ruminando...

Tenho a mania de tentar resumi-los, ao final, em, no máximo, uma palavra ou frase. Pode ser interpretado como uma heresia para muitos, mas, no meu caso, a síntese demonstra o quanto compreendi ou não deles... Quanto mais palavras, mais distante do entendimento. 

Quebrei a cabeça com A "Estrada", e ao estilo de McCarthy, suscito, não pude desvencilhar-me do termo "esperança". Mesmo nas situações mais dramáticas (e o livro é um grande drama a perpassar por cada uma das páginas) há um sussurro, quase inaudível, a lembrar personagens e leitores de que nem tudo está perdido. 

Como vocês sabem, não sou de contar a história, senão alguns poucos detalhes, para não tirar o gosto e o prazer do futuro leitor; no caso deste livro, posso dizer que pai e filho, os personagens centrais da história (os quais não são nominados, e cujo passado é minimamente revelado nas lembranças do "homem"), vivem em um mundo apocalíptico, onde a vida foi praticamente extinta... Não há animais, plantações, as instituições se desfizeram, o canibalismo está em voga, a barbárie se apresenta como o único estilo de vida, onde a moral não passa de um entrave à sobrevivência, tão dependente da destruição alheia e do próximo (se o mundo pós-moderno fosse uma construção real, os relativistas se vergariam, no primeiro instante, diante da realidade; associando-se, ou sendo posto fora dela pelo extermínio). 

O mundo é um campo minado; e as pessoas, inimigos terríveis, dos quais se deve afastar e temer. O homem se encontra despido de qualquer sentimento que não seja o de não sucumbir, pouco importando os meios pelos quais isso aconteça. É o mundo do vale-tudo; onde o mal não tem freios nem pode ser freado. 

Neste contexto, encontramos no "filho" um coração ingênuo, puro, amoroso e fraterno (uma referência de Cormac ao Cristo, o Filho Unigênito do Pai?), o qual é o "freio" do homem (a sua consciência perdida; o imago dei a lembrá-lo de quem é), disposto a tudo para salvaguardar a própria vida e a do seu rebento. O garoto, diante de um universo frio, cruel, egoísta e sanguinário, não se adapta as consequências naturais do "novo mundo", por não entender ser necessário abrir mão, por completo, da compaixão, da piedade. Ele vai na contramão, no caminho inverso em que todos os demais parecem se dirigir; e, nesse aspecto, apresenta uma força interior muito maior do que a do Pai, o qual reage como o protetor, disposto a fazer o preciso para sobreviverem, mas como uma reação natural da própria debilidade. 

Talvez, por isso, o menino seja descrito como uma alma agoniada, inconformada com a perversidade, sempre a questionar (respeitosamente, diga-se de passagem) as atitudes dos outros e, mesmo, do seu pai. Em muitos momentos, as respostas lacônicas e pouco interessadas do homem não o satisfazem, mas ele se resigna as vezes, ou reage através do choro e da tristeza para fazer o pai ver, mesmo minimamente, a beleza quase impossível das relações humanas. O desejo arraigado de conhecer os "homens bons", de acreditar na existência deles, se encontrado, seria o bálsamo a provar ao pai que nem tudo precisa ser do jeito que é. 

Não há como não se emocionar ao vê-lo conduzir o homem a mudanças de atitudes, quebrando-lhe a rudeza e deixando-lhe brotar sentimentos de fraternidade; ainda que se perceba um certo agastamento nele, em algumas situações. 

O mundo está cheio de almas aflitas, perdidas, deslocadas em meio à selvageria, mas dispostas a tudo para manterem-se livres dela. Não há providência, nem algo a se construir; sobram apenas os movimentos repetitivos como os de uma aranha tecendo a sua teia. 

Podemos chamá-lo de um "livro de emoções"; e elas brotam a cada página, numa simplicidade nada reducionista, mas enxuta, onde não há lugar para o supérfluo, o verborrágico, mas a concisão. 

A descrição do novo mundo é como assistir a "Mad Max", mas, de alguma maneira, a realidade entre pai e filho está mais próxima do "Senhor dos Anéis", onde há uma luta pelo bem, a fim de fazer o homem ressurgir das cinzas. 

Há redenção. Há esperança. Há solidariedade. Há uma força conduzindo o caos para a ordem, assim como em José do Egito, o mal se tornará em bem, pelas mãos de Deus. 

A morte do homem não está decretada, nem ele sucumbirá à própria depravação; e o filho, assim como o verdadeiro Filho, é o único capaz de juntar os pedaços, emanando bondade, e tornando zumbis em homens de verdade; fazê-los voltar à vida. 

E essa me parece a conclusão de McCarthy, a despeito de sua ligação com as trevas; uma vítima da Síndrome de Estocolmo, na qual o ofendido nutre um afeto doentio pelo ofensor. Mas entendo McCarthy, e o admiro por isso, pois ele é capaz de ver a luz em meio a mais densa escuridão. 

Leitura altamente recomendada



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Avaliação: (****)
Livro: A Estrada
Autor: Cormac McCarthy
Editora Alfaguara

240 Páginas

19 julho 2019

Uma curva no rio






Jorge F. Isah

Muitos consideram este livro o novo "Coração das Trevas", de Conrad. Bem, entendo que preciso ler novamente o "Coração...". Tenho cá comigo que fiz uma análise rápida, superficial e, mesmo, incompreensível do livro. Estava tão envolvido com o debate ideológico, que vi ideologia por todo os lados, o que é, no mínimo, sinal de deficiência cognitiva, ao qual faço o meu "mea-culpa". 

Se em Conrad existe a denúncia do colonialismo europeu, em parte, e da ignorância, servilismo e jogo de interesses dos nativos africanos (lembre-se de que a minha impressão pode não ser a melhor, por causa do que disse no primeiro parágrafo), na obra de Naipaul existe uma denúncia ainda maior da leniência, indolência dos nativos para com os seus "senhores". Em especial, o presidente/ditador do "Domínio", uma faixa de terra subjugada pela guerra civil, a tirania governamental, o culto idólatra ao líder, e a passividade da população, dividida entre a exploração e à veneração doentia ao caudilho. 

O pano de fundo, portanto, é a África Tropical, dominada pela ignorância e pela rixa entre suas tribos e povos, até as raias do ódio mais insano. Em um momento no qual o continente via os últimos estertores dos colonizadores e havia um espírito de independência, tantos os brancos como outros imigrantes (indianos, árabes, etc) eram vistos como inimigos, causadores de todas as mazelas dos nativos, e, por causa disso, deveriam ser perseguidos e mortos. Havia um levante, um insuflar governamental para que os pretos não somente sufocassem mas destruíssem os brancos, para assim serem libertos, ou a fim de manterem a "liberdade". 

Salim é um muçulmano de origem indiana (ele considera a sua família mais hindu do que muçulmana, em suas tradições e comportamento), que tinha por servo (escravo mesmo, no sentido exato da palavra) um africano de nome Metty, um garoto que chegou à casa da família de Salim, no literal, e quando este partiu para o interior, para um tipo de independência, em busca da sua própria identidade, Metty seguiu-o. A despeito de Salim desejar a todo custo "dar" a liberdade a Metty, ele, mesmo com seus melífluos desejos, não queria abandonar a proteção do seu senhor. 

Sobre o assunto da escravidão, Naipaul escreveu: 
"A escravidão na costa leste não era como a escravidão na costa oeste. Lá, ninguém era embarcado para grandes plantações no além-mar. A maioria daqueles que deixavam nosso litoral ia para casas árabes, para o serviço doméstico. Alguns se tornavam membros da família a que se haviam agregado; uns poucos se tornavam poderosos em seu próprio direito. Para um africano, uma cria da floresta, uma pessoa que caminhara centenas de quilômetros do interior para a costa e que estava distante de sua vila e sua tribo, a proteção de uma família estrangeira era preferível à solidão entre africanos estranhos e inamistosos. Essa era a razão pela qual o comércio escravo se mantivera até bem depois de proscrito pelos poderes europeus; também por isso, no tempo em que os europeus comerciavam com certo tipo de borracha, meu avô ainda conseguia negociar com um tipo diferente daquele. Pela mesma razão, uma escravidão secreta perdurou no litoral até recentemente. Os escravos, ou as pessoas que poderiam ser consideradas escravas, desejavam continuar como estavam."

Boa parte do livro se envolve com os conflitos, o assassínio de brancos (muitos deles amavam os africanos), como o padre Huismans, morto por jovens universitários negros, legionários do "Grande Homem", e que viam na revolução (diga-se morte em profusão dos opositores, sejam brancos ou negros) uma forma de libertação da alma e do espírito aprisionado do africano tropical. Havia uma guerra cultural, étnica, ideológica, na qual o ditador comunista, e seu governo, insuflava o povo a destronar os imperialistas. Curiosamente, Salim nos remete às suas memórias, na verdade, uma única história de família: 

"Lembro-me de ouvir meu avô contar que certa vez expedira um barco de escravos como se a carga fosse borracha. Não sabia dizer quando fizera isso. O fato simplesmente estava lá, em sua memória, flutuando, sem data e sem outras associações, um evento incomum numa vida pacata. Ele não falava disso como de um ato cruel, uma trapaça ou piada; apenas contava a história como algo incomum que houvesse feito — não o fato de não embarcar os escravos, mas o de descrevê-los como borracha. E, sem minha própria lembrança da história do velho, suponho que ela teria se perdido para sempre. Creio, de acordo com minhas leituras posteriores, que a ideia da borracha lhe teria ocorrido antes da Primeira Guerra, quando a borracha se tornara um negócio graúdo — e mais tarde um grande escândalo — na África Central. Há coisas familiares para mim que permaneceram ocultas ou desinteressantes para meu avô.
De todo aquele período de conflitos na África — a expulsão dos árabes, a expansão da Europa, a divisão do continente —, essa é a única história de família que possuo. Essa era a nossa feição. Tudo o que conheço de nossa história e da história do oceano Índico recebi de livros escritos por europeus. Se digo que em sua época nossos árabes eram grandes aventureiros e escritores; que nossos marinheiros deram ao Mediterrâneo a vela latina que tornou possível a descoberta das Américas; que um piloto indiano guiou Vasco da Gama da África Ocidental até Calcutá; que a palavra cheque foi primeiro usada por nossos mercadores persas; se digo todas essas coisas é porque as encontrei em livros europeus. Elas não faziam parte do nosso conhecimento ou do nosso orgulho. Sem os europeus, sinto que todo o nosso passado teria se apagado, como as pegadas dos pescadores na praia de nossa cidade."

A guerra cultural, ou de classes, é a estupidez suprema daqueles que se amam menos do que odeiam os outros. O ódio é a motriz a levá-los para além da imoralidade, da estupidez, da destruição; não há amor em si mesmo, nem uma ínfima chama a compreender que o homem só pode ser inimigo se antes for-lhe o hostil. 

Em suma, uma "Curva no rio" trata das questões de identidade, onde os homens se perdem em suas próprias concepções do que sejam, mas não estão dispostos a assumir aquilo que deveriam ser. Na África, especialmente, as pessoas se perdem entre os clichês, os estereótipos daquilo que são mas não se adaptam naquilo que desejam ser e lhes é impossível, e no passado, aquilo que foram, e os assombra. Restam-lhes a tentativa alucinada de negar tudo, não desejar nada, e submeterem-se ao infortúnio de deixarem essa decisão para alguém que apenas os conduz segundo os interesses do Estado, na forma do "Grande Homem". Ele é o personagem que não tem nome, mas se faz quase onipresente na vida de todos os súditos. Mas nem ele mesmo resistirá, e, no final das contas, resta em todos o medo e a infelicidade de reconhecerem trabalhar em uma causa perdida, em que o futuro nada mais é do que as ânsias de um passado revivido, catastroficamente mortal e amplificado em sua crueza. 

E sem identidade, como alguém pode saber o seu lugar no mundo? 

Salim parte novamente para um mundo ao qual não pertence, talvez desejoso de nunca ter aportado na África, para dela sair, como se nunca tivesse nela vivido e existido.


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Título: Uma Curva no Rio
Autor: V. S. Naipaul
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 320

Avaliação: (***)

Sinopse da editora: 


"O muçulmano Salim é um imigrante indiano que se estabelece num país africano recém-desocupado pelos colonizadores britânicos. Protagonista e narrador de Uma curva no rio, ele assiste à lenta degradação dessa sociedade depois que o Grande Homem, um líder populista e corrupto, assume o poder. Atrás do balcão de seu armazém, num lugarejo imaginário localizado na curva de um rio, na Costa Leste da África, Salim testemunha o destino dos vários personagens que habitam a região: a "bruxa" Zabeth e seu filho Ferdinando, o padre católico, o intelectual branco da cidade e sua sofisticada mulher. 
Comparado a O coração das trevas, de Joseph Conrad, Uma curva no rio examina com muita ironia o impacto da herança colonial e do fervor nacionalista no interior profundo do continente africano. O autor explora as contradições do contexto social e político da África pós-colonial por meio de um microcosmo que ilustra a dificuldade dos povos africanos em criar uma identidade coesa e forte."