Autor: Joseph Roth
Editora: Cia das Letras
No. Páginas: 200

Um caso inusitado aconteceu, há uns dias, em Inacionópolis, no interior do Ceará. Cidadezinha de pouco mais de 3.000 habitantes, segundo os dados do IBGE. Na realidade, não passava de 229. Os demais, provavelmente, ainda constavam como esperança estatística.
Apenas duas ruas asfaltadas ligavam os pontos extremos do município, fundado em 1988, a primeira cidade planejada do estado. Projetada para 12.968 pessoas, encontrava-se em franca decadência, pois a migração para a capital e outros grandes centros era a única esperança do agreste. Ali, salvo raríssimas exceções, não havia futuro para ninguém, especialmente para os jovens. Seria uma cidade-fantasma tão logo o último dos velhos viesse a óbito, caso a morte ainda encontrasse motivos para passar por lá.
Tentaram-se várias formas de impulsionar o turismo, o comércio e a indústria, com maciço investimento federal, mas, ao cabo de quase duas décadas, somente as famigeradas ruas, já citadas, ganharam asfalto. Outras vinte e cinco permaneciam de terra batida, ou nem tanto; eram descampados onde a poeira dominava. Não se implantou um mercado distrital, uma fábrica, uma plantação ou outra fonte capaz de expandir o lugarejo. Nem mesmo a famigerada água, a ser obtida pela perfuração de diversos poços artesianos, foi alcançada. À boca miúda, dizia-se tratar-se de outro ardil para desviar recursos públicos e enriquecer uns poucos. Pelo menos alguma coisa prosperava.
Entretanto, quando menos se esperava, surgiu algo a deixar todos otimistas. Não foi a aparição do Chapolin Colorado, uma grande tempestade a inundar os açudes ressequidos, a descoberta de jazidas de nióbio ou petróleo… Não, nada disso. No sorteio da loteria, o primeiro prêmio saiu para um bilhete da cidade. Logo se divulgou que o ganhador, provavelmente nativo, se encarregaria de investir a fortuna na região: criar empregos, furar os poços, asfaltar as ruas e dinamizar a economia mambembe de Inacionópolis. Os botecos se encheram, foguetes foram soltos, buzinas de bicicletas, urros de alegria e latidos ensandecidos dos cães invadiram a cidade, tomada de eufóricas perspectivas. O filho amado traria finalmente a glória que ela nunca tivera e o sucesso prometido e jamais alcançado. Não se sabia quem era o benfeitor, mas sua fortuna já tinha destinação, orçamento e, provavelmente, comissão de acompanhamento.
Entretanto, ninguém sabia quem era o sortudo e felizardo. Por mais que as pessoas abandonassem seus afazeres à caça de alguma evidência ou indício, ninguém descobriu sua identidade. Especulou-se, inferiu-se, idealizou-se esse ou aquele, os mais cotados nas pesquisas de opinião, mas o segredo conservou-se inabalável. Nunca uma cidade tão pequena produziu tantos investigadores sem concurso público.
Dias depois, na capital, durante a entrega do cheque simbólico, o ganhador, para surpresa geral, apareceu fantasiado de Mumm-Ra, o vilão do desenho animado Thundercats, frustrando todas as expectativas dos moradores de Inacionópolis, ávidos diante das TVs e dos rádios, na esperança de ver e ouvir, finalmente, o sigilo ser quebrado.
— Qual a razão da fantasia? — perguntou o mestre de cerimônias.
— Para os meus parentes não me acharem! — pronunciou-se, sem constrangimento, perante os espectadores atônitos.
Havia motivos para se resguardar. O país era pródigo em roubos, assaltos, sequestros e golpes dos mais variados; mas proteger-se dos familiares?… Pareceu exagero aos olhos alheios, especialmente porque, em Inacionópolis, qualquer um poderia pertencer ao círculo familiar do pé-quente. Bastava subir três gerações para que praticamente todos se encontrassem no mesmo almoço de domingo.
A indignação foi pública e ostensiva. Não havia outro assunto: quem era ele? E por que o anonimato? Onde estavam a gratidão e a retribuição à família, já que todos em Inacionópolis pertenciam a uma grande e unida família?
Os dias se passaram. As semanas se passaram. Sem mudanças. Sem investimentos. Sem veredito. E a lista de suspeitos não parava de crescer. Qualquer iniciativa, ação, reação ou mudança, mesmo as mais espontâneas e estúpidas, que pudesse indicar a identidade do milionário era vista com desconfiança. O infeliz era primeiro sabatinado; caso resistisse, xingado; às vezes, capturado e surrado. Alguns chegaram a morrer em decorrência dos ataques, sem acusação formal ou indício. O simples fato de continuar vivo, em certos casos, já despertava suspeitas.
Ninguém estava imune às investidas raivosas nas ruas ou no interior das casas. Até quem comprava pão sem reclamar do preço passava a ser observado.
Alguém, contudo, elaborou um plano infalível; por que ninguém pensara nisso antes? Era muito simples: bastaria saber quem estivera ausente da cidade no momento da entrega do prêmio. Através da empresa de viação, seria facilmente possível identificar o mal-agradecido. Dito e feito.
Ao se depararem com o nome do ganhador, todos se assustaram: era justamente aquele que, nem mesmo diante da morte, depois de ser sovado violentamente, declinara a façanha. No momento final, até alguns membros da parentela, que já suspeitavam de suas últimas atitudes, surpreenderam-se quando ele pronunciou as palavras derradeiras:
— Perdeu, manés!
No testamento, deixou toda a fortuna para a ONG Flato, empenhada em substituir papéis higiênicos por lenços umedecidos.
Inacionópolis permaneceu sem água, sem asfalto e sem futuro. Mas, ao menos em matéria de higiene íntima, havia progresso.
Jorge F. Isah
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Texto publicado originalmente na Bulunga
Enfim acabaram
as eleições. Houve vencedores, derrotados e os que ganharam de verdade. Estes
últimos nem precisaram concorrer. Estavam ocupados com as mãos nos bolsos... no
seu, claro.
É o Robin Hood
às avessas.
Um tipo de herói
que distribui chicotadas e torrões de açúcar. A vítima só se importa quando o
açúcar acaba.
Mas vá lá!
A manteiga já
não é manteiga. O queijo cumpre pena em um gulag. E a carne perdeu o título de
eleitor. E aquela saladinha regada a azeite — que nem sob tortura confessou a
origem.
O que dizer das
urnas?
Qualquer dia,
vão aparecer com o rótulo:
“Contém votos.
Cuidado: pode ter traços de democracia.”
Por via das
dúvidas, ando sempre com cápsulas de vitaminas. Mas os olhos estão crescendo,
as orelhas espichando, e troquei o colchão de molas por uma palhada.
Seria a seleção
natural?
As coisas andam
tão fake que, qualquer dia,
você descobrirá que não é Homo sapiens,
mas Equus asinus.
A maioria não se
dá conta, nem quando relincha ou pasta.
Convenhamos: a
grama não é tão verde, mas vem com selo de inspeção.
Jorge F. Isah
O Brasil é um
país, no mínimo, extravagante. E parece cada vez mais empenhado em manter essa
fama.
Se na política
pulululam figuras bizarras, trapaceiras e caricatas, no dia a dia alguns vestem
a carapuça sem o menor constrangimento, e saem por aí repetindo, como
papagaios, o discurso dos piratas.
Alguns preferem
a perda do carinho da mãe, da amizade e intimidade com parentes e confrades — e
até mesmo o respeito do vira-lata — em troca das bravatas e brejeirices dos
seus ídolos de plantão: políticos, artistas, atletas ou líderes sindicais.
Ultimamente,
jornalistas e magistrados, youtubers e o remelexo das ancas e quadris no TikTok
e Instagram alcançaram o status de fetiches e de glórias nacionais.
Não é preciso
muita inteligência para perceber, numa simples olhadela, tratar-se, em sua
maioria, de figuras que, submetidas a um exame de profundidade, não molhariam
sequer a sola dos sapatos. Nada em suas exibições merece crédito, a não ser o
do seu Visa ou Mastercard. São casos extraordinários de sucesso do trapalhão,
espécimes que fariam um picareta profissional abandonar o ofício por
concorrência desleal.
O mais insano,
porém, é não lhes faltar admiradores: uma legião cada vez mais empenhada em
inflá-los com números de ibope, até adquirirem a dimensão de grandes
personalidades nacionais — dessas que, depois de furadas, não deixam escapar
nem um sopro de inteligência.
Apenas um flato
azedo.
Nenhum lugar do
mundo poderia ser tão próspero e fértil a ponto de florescer e vingar gerações
e gerações de Ferdinands Demaras. Se em outras bandas são exceções, aqui
é mato — ou melhor, erva daninha.
Quem é Mary
Butterworth, falsificadora de dinheiro, ou Victor Lustig, que vendeu
a Torre Eiffel e enganou o não menos criminoso Al Capone, diante da
expertise brasileira?
Se considerarmos
as nossas trapalhadas — rombos nos cofres públicos, assaltos às estatais,
nepotismos, a pompa nababesca da burocracia, impostos e taxas extorsivos, entre
outras infinitas e inimagináveis falcatruas —, veremos que elas deixariam a
delinquência internacional de queixo caído, reduzindo suas pretensões quase
ingênuas a brincadeiras de criança.
Se há algo a
reconhecer, é a verve Brasilis de mover céus e terra por nada e a lugar
nenhum. Por aqui, a ilusão de milhões é administrada pela patifaria de meia
dúzia, autoproclamada a nata do maquiavelismo — embora Maquiavel, diante de
tamanha concorrência, provavelmente pedisse transferência para um convento.
Entre loucos e
insanos, ninguém quer se salvar, estancar a psicose ou, na melhor das
hipóteses, fazer o “mea-culpa”. Há quem diga que o último homem são pediu asilo
e fugiu para a Somália.
E não pensa em
voltar.
Certamente a
inspiração não vem de hoje, mas de milênios. Ou será que algum figurão do
mainstream nacional passou ao largo da figura emblemática e inspiradora do
grande Rei Goujian (496-465 a.C.)? O rei do parafuso frouxo que de tão
louco espalhava medo e terror em seus inimigos?
Não é mera
semelhança.
O rei, ao
colocar durante as batalhas, nas primeiras fileiras, criminosos condenados à
morte, deixou a sua marca perpetuar-se por séculos e séculos. Quando a luta
estava para se travar, os guerreiros das fileiras iniciais empunhavam as suas
espadas e cortavam a própria garganta, produzindo um quadro intensamente
perturbador e monstruoso aos adversários. A tática de Goujian era parecer que o
seu exército se constituía absolutamente de malucos, doidos varridos.
E, sabemos: com
esse tipo de gente não dá para brincar, não é!
Tenho uma tese:
a despeito das gigantescas reservas naturais, da riqueza imensurável dos nossos
recursos, ninguém se atreverá a nos invadir e dominar.
E se alguém
estiver disposto a fazê-lo, saiba que será apenas mais um, neste grande
hospício, a ocupar a ala dos asilados definitivos.
Seja vermelho ou
verde e amarelo.
_____________________
Nota: texto publicado originalmente na Revista Bulunga
Jorge
F. Isah
Numa
daquelas visitas à Amazon, deparei-me com o título: Juventude sem Deus, de Ödön
von Horváth. Na capa, crianças e adolescentes em fardamento militar, marchavam
com a Suástica estampada nos ombros. Do que se trata? É uma crítica ao mundo
sem Deus? É a apologia a um conceito filosófico-religioso? Ou algo que suprime
o transcendente e foca no imanente?
Não
quis pesquisar. Nunca faço pesquisas prévias dos livros que leio. Às vezes, o
critério é o título, o autor, ou até mesmo uma capa. Calha de ser os três.
Neste caso, em especial, a capa é sugestiva mas não tem apelo artístico. O
título pode sugerir algo mais simples, mas também não resulta em apelo
imediato. O autor: nunca vira mais gordo. Demorou alguns meses para realizar a
compra. Ficou no meu carrinho semanas e semanas a fio. Pois o preço também não
era nada convidativo.
Era
um tiro no escuro.
Após
comprá-lo e começar a leitura, não parei. Foi compulsão pura. Acho que li em
vinte e quatro horas. Não conseguia largar. E isso se deve à linguagem fluída e
simples de Ödön. Não raro, via-o em uma competição contra o tempo, na ânsia de
cruzar a linha de chegada o mais rapidamente possível. Parecia uma prova de cem
metros rasos. Porém, em nada, isso afetou a leitura. O autor provavelmente quis
imprimir essa “vertiginosidade” à narrativa.
E
qual o assunto?
Bem,
não é fácil definir o cerne do texto, mas diria que é a busca pela verdade em
um mundo — Alemanha do Nacional-Socialismo — onde os princípios se tornaram a
corrupção e inversão da moral, seguindo a cartilha absoluta do Estado, como
matéria prima. E por busca, não é preciso dar a volta ao mundo para
encontrá-la. Estava ali, bem debaixo das barbas dos alemães, assim como está
das nossas. As pessoas abandonaram a crença em Deus, mas não se esqueceram de
cultuar um deus, no caso os arranjos e promessas de glória, prosperidade e,
porque não, a imortalidade estatal. O Reich de mil anos era algo sedutor para
uma nação estropiada e que imaginava renascer das cinzas se lançando de novo no
fogo.
Mas
vamos por partes.
O
narrador é um professor inominado que, diante das afirmações dos alunos,
percebe o abismo moral em que estão. Ao identificá-los pelas iniciais, o “A”,
os “B’s”, e por aí afora, revela o quanto a ideologia — e, penso eu, qualquer
uma — despersonaliza o indivíduo e o torna em um número ou peça na engrenagem.
Se não serve para a máquina funcionar, descarta-a e a substitui.
Ao
repreender um aluno, que afirmou serem os negros inferiores, ganha a ira
paterna de “N” e a desconfiança da direção da escola. Seria um detrator do
sistema? Um crítico do Reich? Um revolucionário? Ninguém sequer aventa a
hipótese de lucidez e razoabilidade.
Se
inicialmente o professor está “em cima do muro”, aos poucos vai reconhecendo
que a neutralidade também é uma escolha moral; no caminhar na indiferença acaba
por se aliar — ainda que passivamente — à imoralidade. O confronto com o aluno,
o pai, a diretoria, o faz afastar-se da isenção, e assimila, sem compreender,
que não resistir e não condenar o mal é associar-se a ele — princípio que
permeiam várias passagens bíblicas.
O
tom de ironia e sarcasmo vai, progressivamente, tomando formas mais diretas. A
partir de situações absurdas se vê o declínio de um país, mas especialmente das
pessoas, que tratam o abjeto como natural. Ele zomba do sistema educacional, da
atitude dos alunos, de como os interesses pessoais são cooptados pelo Estado —
e o cotidiano algo intragável, difícil de digerir, mas ainda comestível. O
suficiente para não morrer à mingua.
O
professor se vê pouco a pouco questionar o seu ceticismo, a partir daquela
velha formulação de Ivan a Alyocha, personagens de Dostoievski: “Se Deus não
existe, tudo é permitido”, o que leva o irmão ilegítimo, Smerdiákov, a
assassinar o patriarca Karamazov.
Em
dado momento, ofuscado por sua covardia e omissão, o professor omite fatos que
tornam uma investigação injusta. Alguém iria pagar o pato.
Em
dado momento, ao entrar em uma tabacaria, ele ouve do proprietário a seguinte
afirmação: Deus habita onde ainda não foi esquecido, e todo aquele imbróglio
era consequência do afastamento do homem de Deus. Para o Professor é como uma
epifania. E a resposta ao seu dilema: deve tomar uma decisão que acarretará
sérios problemas para si: confessar a verdade, sem recuar. Motivado pelo seu
exemplo, algumas correções acontecem, mesmo que a plausibilidade delas não
fosse certeza. Importa fazer o certo, ainda que ninguém reconheça e seja
punido.
A
sua atitude corrige e repara um grande erro.
Como
na filosofia clássica, a moral não é individual, no sentido de cada um possuir
uma, mas parte-se do geral, do universal, daquilo que se chama a “Imago Dei”,
para o indivíduo. O professor reconhece isso e abandona o que seria, do ponto
de vista pessoal, o mais cômodo e benéfico. Disposto a sofrer as consequências,
quer levar ordem a si mesmo e às pessoas ao seu redor.
No
final, parece haver uma reconciliação.
Juventude
sem Deus, sem ser um tratado teológico — e está anos-luz disso — nos revela que, quando o homem se investe de
si mesmo e seus interesses, as chances de as coisas desandarem é grande. E se
para Deus, e por tabela aqueles que o professam, o próximo é tão importante, as
chances serão mais propícias, e o mel não se camuflará de radicchio.
O
que antes era um nada — um tipo de niilismo que o levava ao “dane-se”—, se
tornou tudo.
E
quando se vê tudo — aquilo que realmente importa e pelo qual se vive: bem,
graça, virtude, compaixão... — fica menos difícil decidir.
Até
mesmo morrer por isso.
Jorge F. Isah
Viver
no Brasil não é para amadores. Viver em São Paulo é difícil até para
profissionais. Hoje, eu e o meu filho sofremos, cada um à sua maneira, um tipo
de golpe.
No
meu caso, comprei um iphone usado no Mercado Livre e, quando chegou, havia algo
de muito estranho. Balancei a caixa que estava leve como pluma e senti o
chocalhar de um carregador, cabo ou outra quinquilharia de dez reais pelo preço
de quatro mil.
Perguntei
ao entregador se podia recusar, pois estava claro que não havia um celular. Ele
prontamente disse que sim, e fez a ocorrência. Após lavrar o boletim, me
desejou boa sorte.
Espero
que o meu dinheiro seja estornado e o vagabundo preso. Mas se no 8 de Janeiro
usar batom foi golpe, o que posso esperar de uma caixinha de surpresas? Mas
quem acredita em justiça neste mundo cão é otário, e brasileiro é duas vezes mais
otário.
Enquanto
os malfeitores...
O
mais engraçado é que os criminosos não se dão ao trabalho de sequer colocar um
tijolo, pedra ou uma caixinha cheia de areia. Acreditam que brasileiro é
paspalho e vai cair em qualquer golpe, mesmo o menos inteligente, para não
dizer outra coisa e ser processado por algum ativista nefário.
Agora,
vamos à saga do meu filho.
Ele
saiu do trabalho, pegou a esposa e, em plena Av. Bandeirantes, às 13 horas, com
o sol rachando e mais de 32 graus na sombra, parado no semáforo, ouviu o bater
de metal no vidro. Quando olhou, um revólver o estava encarando. Ele pensou que
havia fechado um motoqueiro indevidamente e o mesmo estaria disposto a defender
a sua honra. Mas não, o assalto foi anunciado. A esposa, ao perceber a
situação, abriu a porta e correu avenida afora.
Nisso,
o bandido insistia:
—
Me dá a aliança.
Sem
entender, e tendo o outro comparsa em outra moto do lado direito do carro,
pegou o celular e entregou ao meliante.
—
Não, a aliança.
Ainda
sem entender, já que o bandido usava uma balaclava, capacete e parecia ter a
língua presa, ele tirou as chaves do carro e quis entregá-las. O facínora
irritou-se, abriu a porta, e apontou com a “máquina” para o dedo.
O
meu filho tirou a aliança e, junto com o celular, ofereceu-a ao gentil
injustiçado pela sociedade. O homem simplesmente desprezou o celular, pegou a
aliança, fez sinal para o comparsa, e se escafederam no meio do engarrafamento.
Do
lado de fora, transeuntes, motoristas, passageiros e um ciclista olharam abismados
a situação.
Como
se isso fosse algo excepcional.
Em
pouco mais de seis meses aqui, já vi dois furtos de carros em engarrafamentos —
os veículos com os vidros quebrados por “metralhas” — um arrastão debaixo de um
viaduto na Av. do Estado, e o relato de moradores que parecem disputar o prêmio
do Guinness de “ladroado do ano”.
Tudo
para tomar aquela cervejinha.
E
olha que sou quase um ermitão. Só saio de casa para ir à igreja e fazer o
check-up anual.
De
quebra o susto, para nós, iniciados nas agruras da grande metrópole. É a
calourada, com direito aos bullyings que nenhuma criança em idade escolar
sequer imagina.
Vai uma Brahminha, presidente?
Jorge F. Isah
Jorge F. Isah

[1]
Entrevista ao programa “NewNight”, da BBC Two
Texto publicado originalmente na Revista Bulunga com o título: "O futuro é hoje"
Jorge F. Isah
Jorge F. Isah
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A
expressão pastoral traz vários significados no campo religioso, musical e
literário. Mas sempre guarda um elo comum em cada um deles: evocar paz,
serenidade e acolhimento. A simplicidade, o bucólico e o lírico se misturam e,
em cada um desses aspectos, representam um estilo ou tipo de vida inocente,
confortável, organizado. Mas eis que entra em cena, Philip Roth e o seu
Pastoral, para estraçalhar, desconstruir a harmoniosa e pura vida social dos
Levov e da sociedade americana — ao menos era assim que imaginavam —, em busca
do sonhado paraíso terreno, que se rompe assim como se quebrou no Éden.
O
ingênuo Adão — ingênuo, não inocente — encontra o seu correspondente no Sueco,
Seymour Levov, um descendente de judeus, dono de uma fábrica de luvas femininas
que vê a importância do seu negócio diminuir com o final da elegância e
sofisticação nos Estados Unidos, e, por tabela, no mundo.
Se
na II Grande Guerra a América entrou como a “salvadora da pátria”, a despeito
de alguma resistência interna, a maioria apoiou os esforços dos Aliados em
derrotar o Eixo do mal, o mesmo não se pode dizer do envolvimento dos
americanos na Guerra da Coreia e posteriormente no Vietnã: a recém estabelecida
“maior nação do mundo” se transformou em um front interno. Não vou entrar em
questões de geopolítica para validar ou não as guerras. Interessa, muito mais,
as consequências humanas apontadas por Roth, e que não são poucas e
desprezíveis. Afinal, guerra é guerra, e nunca haverá consenso quanto a sua validação.
Sueco
é o americano de sucesso. Exímio atleta e astro juvenil do futebol, basquete,
baseball e de qualquer esporte onde se aventurasse; bonito, charmoso, alto e
atlético. Invejado por muitos, endeusado por outros, ele não tratava a fama
como algo superlativo — chegava mesmo a considerar a paparicação algo sem
propósito e exagerado. No fundo, era o arquétipo para muitos e o orgulho para
outros. Em certo momento, Seymour venceu o Sueco, ao resistir, diante das
propostas para se tornar astro profissional, e seguir a carreira do pai: tocar
a fábrica de luvas.
Conciliador,
tranquilo, simples, às vezes ingênuo, é incapaz de dizer não ao seu velho —
judeu que não admite ferir as raízes da tradição —, mas o faz uma única vez, na
escolha de Dawn — católica — por esposa. Contra a vontade do pai — que submete
a futura nora a um “inventário” religioso —, acabam por casarem-se.
O
pai, Lou — homem arraigado à sua ancestralidade — temia que a história da
família se perdesse; e os sinais de que nada do que fora antes se estenderia no
futuro, o tornava exageradamente crítico quanto aos rumos que as coisas
tomavam.
Eram
os anos 1960 e seus arredores.
No
começo, temos Zuckerman — alterego de Roth em vários dos seus romances — com a
incumbência de escrever um tributo ao pai do Sueco. Ele, porém, muda o foco
para o filho. Não o fez de fonte primária, mas colheu informações com parentes
e amigos, folheou álbuns e catálogos de fotos, visitou a fábrica, a casa, e o
que restou do antigo Correio. É impossível assegurar que tudo era verdadeiro e
confiável. O próprio Zuckerman imprimiu, como todo escritor, a sua parte de
“verdade” à história. É preciso lembrar que Zuckerman foi colega no ensino
médio de Jerry, que nutria certa inveja do irmão Seymour. Enquanto Zuckerman o
tinha por herói. Assim, como confiar nos eventos? Durante a maior parte do
tempo, a dúvida persiste.
O
que é real? O que não é? E ainda mais: é possível conhecer integralmente uma
pessoa? Ou temos somente pistas de quem ela foi ou é?
Seymour
descobrirá que tudo em que acreditava, e para o qual se entregou, a família, o
trabalho, o casamento, a paternidade, não são exatamente o que se configurava.
Havia fumaça, muito antes do fogo começar.
E
Zuckerman se contamina — e em algum ponto sai chamuscado — na fogueira em que a
vida amplia e, ao mesmo tempo, reduz os Levov.
Em
suas mais de quinhentas páginas, Roth revela o desastre do sonho americano, mas
antes a catástrofe pessoal e familiar — o American Way of Live desmorona,
porque as pessoas são como um castelo de cartas na tempestade —, expondo as
fissuras, abismos e rupturas nas relações e no modo de encarar a vida.
O
Seymour fez tudo certo. Exemplar em tudo o que se propôs. Bom filho. Bom
atleta. Bom aluno. Bom marido. Bom pai. Bom empresário. O cais onde as
turbulências muitas vezes cessavam — sua mãe o considerava um “porto seguro”.
Mas, nem assim, a vida funciona. Não da forma idealizada por ele mesmo. E tal
qual Adão, ele tentou se absolver na culpa dos outros. Mas nos momentos mais
lúcidos, ou menos turvos, não fugia da acusação: fui o culpado?
Uma
bomba explode em um mercadinho na provinciana Old Rimrock, New Jersey, e desencadeia
uma sucessão de eventos que tornará a vida até então irreconhecível. Nesse
momento, entra Merry, a filha do Sueco. E o que o tempo se encarregaria de
resolver com amor e paciência — pensava Seymour —, se transforma em tragédia de
proporções imperscrutáveis.
Creio
que a principal pergunta seja: o que levou aquelas pessoas, aquele país, ao
caos? A guerra? A ideologia? O desprezo? O cansaço?... Há nítido desgaste;
enquanto o futuro se revela delicado e quebradiço, o presente arde em chamas, e
o passado é o acelerante a tocar fogo em tudo.
Restará
apenas cinzas?
A
guerra é transportada para as ruas, cidades e campos americanos, sem que
ninguém consiga impedir; sem que ninguém saia ileso. Ela é o estopim. Mas a
causa, ou causas, pode estar naquilo que o Éden mostrou: Adão tentou transferir
a culpa para a mulher, depois para Deus, mas não foi absolvido. A Queda se
repetiu, e a América não podia mais resistir ao seu próprio pecado: não se
despir da fantasia diante do espelho. Foi preciso arrancá-la, mas enquanto
resistia, se viu nua, com todos os defeitos que o tempo e o afastamento da
verdade produziram.
E
a verdade hesitante e dúbia é a mentira convicta. A ela se apegaram. Por ela, se
estilhaçaram.
O
Sueco se descobre, na meia idade, um homem inseguro, incontido, confuso e
perplexo.
Roth
não nos dá respostas. Ainda que se possa chegar a uma ou outra. Ele nos mostra
a ação, entre a calma aparente, a detonação, a ruína e as sequelas. A Pastoral
Americana são escombros.
“Porque
és pó e em pó te tornarás”.
Jorge F. Isah