29 outubro 2026

Roleta-Russa

 


Um caso inusitado aconteceu, há uns dias, em Inacionópolis, no interior do Ceará. Cidadezinha de pouco mais de 3.000 habitantes, segundo os dados do IBGE. Na realidade, não passava de 229. Os demais, provavelmente, ainda constavam como esperança estatística.

Apenas duas ruas asfaltadas ligavam os pontos extremos do município, fundado em 1988, a primeira cidade planejada do estado. Projetada para 12.968 pessoas, encontrava-se em franca decadência, pois a migração para a capital e outros grandes centros era a única esperança do agreste. Ali, salvo raríssimas exceções, não havia futuro para ninguém, especialmente para os jovens. Seria uma cidade-fantasma tão logo o último dos velhos viesse a óbito, caso a morte ainda encontrasse motivos para passar por lá.

Tentaram-se várias formas de impulsionar o turismo, o comércio e a indústria, com maciço investimento federal, mas, ao cabo de quase duas décadas, somente as famigeradas ruas, já citadas, ganharam asfalto. Outras vinte e cinco permaneciam de terra batida, ou nem tanto; eram descampados onde a poeira dominava. Não se implantou um mercado distrital, uma fábrica, uma plantação ou outra fonte capaz de expandir o lugarejo. Nem mesmo a famigerada água, a ser obtida pela perfuração de diversos poços artesianos, foi alcançada. À boca miúda, dizia-se tratar-se de outro ardil para desviar recursos públicos e enriquecer uns poucos. Pelo menos alguma coisa prosperava.

Entretanto, quando menos se esperava, surgiu algo a deixar todos otimistas. Não foi a aparição do Chapolin Colorado, uma grande tempestade a inundar os açudes ressequidos, a descoberta de jazidas de nióbio ou petróleo… Não, nada disso. No sorteio da loteria, o primeiro prêmio saiu para um bilhete da cidade. Logo se divulgou que o ganhador, provavelmente nativo, se encarregaria de investir a fortuna na região: criar empregos, furar os poços, asfaltar as ruas e dinamizar a economia mambembe de Inacionópolis. Os botecos se encheram, foguetes foram soltos, buzinas de bicicletas, urros de alegria e latidos ensandecidos dos cães invadiram a cidade, tomada de eufóricas perspectivas. O filho amado traria finalmente a glória que ela nunca tivera e o sucesso prometido e jamais alcançado. Não se sabia quem era o benfeitor, mas sua fortuna já tinha destinação, orçamento e, provavelmente, comissão de acompanhamento.

Entretanto, ninguém sabia quem era o sortudo e felizardo. Por mais que as pessoas abandonassem seus afazeres à caça de alguma evidência ou indício, ninguém descobriu sua identidade. Especulou-se, inferiu-se, idealizou-se esse ou aquele, os mais cotados nas pesquisas de opinião, mas o segredo conservou-se inabalável. Nunca uma cidade tão pequena produziu tantos investigadores sem concurso público.

Dias depois, na capital, durante a entrega do cheque simbólico, o ganhador, para surpresa geral, apareceu fantasiado de Mumm-Ra, o vilão do desenho animado Thundercats, frustrando todas as expectativas dos moradores de Inacionópolis, ávidos diante das TVs e dos rádios, na esperança de ver e ouvir, finalmente, o sigilo ser quebrado.

— Qual a razão da fantasia? — perguntou o mestre de cerimônias.

— Para os meus parentes não me acharem! — pronunciou-se, sem constrangimento, perante os espectadores atônitos.

Havia motivos para se resguardar. O país era pródigo em roubos, assaltos, sequestros e golpes dos mais variados; mas proteger-se dos familiares?… Pareceu exagero aos olhos alheios, especialmente porque, em Inacionópolis, qualquer um poderia pertencer ao círculo familiar do pé-quente. Bastava subir três gerações para que praticamente todos se encontrassem no mesmo almoço de domingo.

A indignação foi pública e ostensiva. Não havia outro assunto: quem era ele? E por que o anonimato? Onde estavam a gratidão e a retribuição à família, já que todos em Inacionópolis pertenciam a uma grande e unida família?

Os dias se passaram. As semanas se passaram. Sem mudanças. Sem investimentos. Sem veredito. E a lista de suspeitos não parava de crescer. Qualquer iniciativa, ação, reação ou mudança, mesmo as mais espontâneas e estúpidas, que pudesse indicar a identidade do milionário era vista com desconfiança. O infeliz era primeiro sabatinado; caso resistisse, xingado; às vezes, capturado e surrado. Alguns chegaram a morrer em decorrência dos ataques, sem acusação formal ou indício. O simples fato de continuar vivo, em certos casos, já despertava suspeitas.

Ninguém estava imune às investidas raivosas nas ruas ou no interior das casas. Até quem comprava pão sem reclamar do preço passava a ser observado.

Alguém, contudo, elaborou um plano infalível; por que ninguém pensara nisso antes? Era muito simples: bastaria saber quem estivera ausente da cidade no momento da entrega do prêmio. Através da empresa de viação, seria facilmente possível identificar o mal-agradecido. Dito e feito.

Ao se depararem com o nome do ganhador, todos se assustaram: era justamente aquele que, nem mesmo diante da morte, depois de ser sovado violentamente, declinara a façanha. No momento final, até alguns membros da parentela, que já suspeitavam de suas últimas atitudes, surpreenderam-se quando ele pronunciou as palavras derradeiras:

— Perdeu, manés!

No testamento, deixou toda a fortuna para a ONG Flato, empenhada em substituir papéis higiênicos por lenços umedecidos.

Inacionópolis permaneceu sem água, sem asfalto e sem futuro. Mas, ao menos em matéria de higiene íntima, havia progresso.


Jorge F. Isah

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Texto publicado originalmente na Bulunga

26 outubro 2026

Fake ou não fake, eis a questão

 



Enfim acabaram as eleições. Houve vencedores, derrotados e os que ganharam de verdade. Estes últimos nem precisaram concorrer. Estavam ocupados com as mãos nos bolsos... no seu, claro.

É o Robin Hood às avessas.

Um tipo de herói que distribui chicotadas e torrões de açúcar. A vítima só se importa quando o açúcar acaba.

Mas vá lá!

A manteiga já não é manteiga. O queijo cumpre pena em um gulag. E a carne perdeu o título de eleitor. E aquela saladinha regada a azeite — que nem sob tortura confessou a origem.

O que dizer das urnas?

Qualquer dia, vão aparecer com o rótulo:

“Contém votos. Cuidado: pode ter traços de democracia.”

Por via das dúvidas, ando sempre com cápsulas de vitaminas. Mas os olhos estão crescendo, as orelhas espichando, e troquei o colchão de molas por uma palhada.

Seria a seleção natural?

As coisas andam tão fake que, qualquer dia, você descobrirá que não é Homo sapiens, mas Equus asinus.

A maioria não se dá conta, nem quando relincha ou pasta.

Convenhamos: a grama não é tão verde, mas vem com selo de inspeção.

 


Jorge F. Isah





25 outubro 2026

Sanatório Brasilis

 



O Brasil é um país, no mínimo, extravagante. E parece cada vez mais empenhado em manter essa fama.

Se na política pulululam figuras bizarras, trapaceiras e caricatas, no dia a dia alguns vestem a carapuça sem o menor constrangimento, e saem por aí repetindo, como papagaios, o discurso dos piratas.

Alguns preferem a perda do carinho da mãe, da amizade e intimidade com parentes e confrades — e até mesmo o respeito do vira-lata — em troca das bravatas e brejeirices dos seus ídolos de plantão: políticos, artistas, atletas ou líderes sindicais.

Ultimamente, jornalistas e magistrados, youtubers e o remelexo das ancas e quadris no TikTok e Instagram alcançaram o status de fetiches e de glórias nacionais.

Não é preciso muita inteligência para perceber, numa simples olhadela, tratar-se, em sua maioria, de figuras que, submetidas a um exame de profundidade, não molhariam sequer a sola dos sapatos. Nada em suas exibições merece crédito, a não ser o do seu Visa ou Mastercard. São casos extraordinários de sucesso do trapalhão, espécimes que fariam um picareta profissional abandonar o ofício por concorrência desleal.

O mais insano, porém, é não lhes faltar admiradores: uma legião cada vez mais empenhada em inflá-los com números de ibope, até adquirirem a dimensão de grandes personalidades nacionais — dessas que, depois de furadas, não deixam escapar nem um sopro de inteligência.

Apenas um flato azedo.

Nenhum lugar do mundo poderia ser tão próspero e fértil a ponto de florescer e vingar gerações e gerações de Ferdinands Demaras. Se em outras bandas são exceções, aqui é mato — ou melhor, erva daninha.

Quem é Mary Butterworth, falsificadora de dinheiro, ou Victor Lustig, que vendeu a Torre Eiffel e enganou o não menos criminoso Al Capone, diante da expertise brasileira?

Se considerarmos as nossas trapalhadas — rombos nos cofres públicos, assaltos às estatais, nepotismos, a pompa nababesca da burocracia, impostos e taxas extorsivos, entre outras infinitas e inimagináveis falcatruas —, veremos que elas deixariam a delinquência internacional de queixo caído, reduzindo suas pretensões quase ingênuas a brincadeiras de criança.

Se há algo a reconhecer, é a verve Brasilis de mover céus e terra por nada e a lugar nenhum. Por aqui, a ilusão de milhões é administrada pela patifaria de meia dúzia, autoproclamada a nata do maquiavelismo — embora Maquiavel, diante de tamanha concorrência, provavelmente pedisse transferência para um convento.

Entre loucos e insanos, ninguém quer se salvar, estancar a psicose ou, na melhor das hipóteses, fazer o “mea-culpa”. Há quem diga que o último homem são pediu asilo e fugiu para a Somália.

E não pensa em voltar.

Certamente a inspiração não vem de hoje, mas de milênios. Ou será que algum figurão do mainstream nacional passou ao largo da figura emblemática e inspiradora do grande Rei Goujian (496-465 a.C.)? O rei do parafuso frouxo que de tão louco espalhava medo e terror em seus inimigos?

Não é mera semelhança.

O rei, ao colocar durante as batalhas, nas primeiras fileiras, criminosos condenados à morte, deixou a sua marca perpetuar-se por séculos e séculos. Quando a luta estava para se travar, os guerreiros das fileiras iniciais empunhavam as suas espadas e cortavam a própria garganta, produzindo um quadro intensamente perturbador e monstruoso aos adversários. A tática de Goujian era parecer que o seu exército se constituía absolutamente de malucos, doidos varridos.

E, sabemos: com esse tipo de gente não dá para brincar, não é!

Tenho uma tese: a despeito das gigantescas reservas naturais, da riqueza imensurável dos nossos recursos, ninguém se atreverá a nos invadir e dominar.

E se alguém estiver disposto a fazê-lo, saiba que será apenas mais um, neste grande hospício, a ocupar a ala dos asilados definitivos.

Seja vermelho ou verde e amarelo.

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Nota: texto publicado originalmente na Revista Bulunga


Jorge F. Isah


19 outubro 2026

Juventude sem Deus – de Ödön von Horváth

 




Numa daquelas visitas à Amazon, deparei-me com o título: Juventude sem Deus, de Ödön von Horváth. Na capa, crianças e adolescentes em fardamento militar, marchavam com a Suástica estampada nos ombros. Do que se trata? É uma crítica ao mundo sem Deus? É a apologia a um conceito filosófico-religioso? Ou algo que suprime o transcendente e foca no imanente?

Não quis pesquisar. Nunca faço pesquisas prévias dos livros que leio. Às vezes, o critério é o título, o autor, ou até mesmo uma capa. Calha de ser os três. Neste caso, em especial, a capa é sugestiva mas não tem apelo artístico. O título pode sugerir algo mais simples, mas também não resulta em apelo imediato. O autor: nunca vira mais gordo. Demorou alguns meses para realizar a compra. Ficou no meu carrinho semanas e semanas a fio. Pois o preço também não era nada convidativo.

Era um tiro no escuro.

Após comprá-lo e começar a leitura, não parei. Foi compulsão pura. Acho que li em vinte e quatro horas. Não conseguia largar. E isso se deve à linguagem fluída e simples de Ödön. Não raro, via-o em uma competição contra o tempo, na ânsia de cruzar a linha de chegada o mais rapidamente possível. Parecia uma prova de cem metros rasos. Porém, em nada, isso afetou a leitura. O autor provavelmente quis imprimir essa “vertiginosidade” à narrativa.

E qual o assunto?

Bem, não é fácil definir o cerne do texto, mas diria que é a busca pela verdade em um mundo — Alemanha do Nacional-Socialismo — onde os princípios se tornaram a corrupção e inversão da moral, seguindo a cartilha absoluta do Estado, como matéria prima. E por busca, não é preciso dar a volta ao mundo para encontrá-la. Estava ali, bem debaixo das barbas dos alemães, assim como está das nossas. As pessoas abandonaram a crença em Deus, mas não se esqueceram de cultuar um deus, no caso os arranjos e promessas de glória, prosperidade e, porque não, a imortalidade estatal. O Reich de mil anos era algo sedutor para uma nação estropiada e que imaginava renascer das cinzas se lançando de novo no fogo.

Mas vamos por partes.

O narrador é um professor inominado que, diante das afirmações dos alunos, percebe o abismo moral em que estão. Ao identificá-los pelas iniciais, o “A”, os “B’s”, e por aí afora, revela o quanto a ideologia — e, penso eu, qualquer uma — despersonaliza o indivíduo e o torna em um número ou peça na engrenagem. Se não serve para a máquina funcionar, descarta-a e a substitui.

Ao repreender um aluno, que afirmou serem os negros inferiores, ganha a ira paterna de “N” e a desconfiança da direção da escola. Seria um detrator do sistema? Um crítico do Reich? Um revolucionário? Ninguém sequer aventa a hipótese de lucidez e razoabilidade. 

Se inicialmente o professor está “em cima do muro”, aos poucos vai reconhecendo que a neutralidade também é uma escolha moral; no caminhar na indiferença acaba por se aliar — ainda que passivamente — à imoralidade. O confronto com o aluno, o pai, a diretoria, o faz afastar-se da isenção, e assimila, sem compreender, que não resistir e não condenar o mal é associar-se a ele — princípio que permeiam várias passagens bíblicas.

O tom de ironia e sarcasmo vai, progressivamente, tomando formas mais diretas. A partir de situações absurdas se vê o declínio de um país, mas especialmente das pessoas, que tratam o abjeto como natural. Ele zomba do sistema educacional, da atitude dos alunos, de como os interesses pessoais são cooptados pelo Estado — e o cotidiano algo intragável, difícil de digerir, mas ainda comestível. O suficiente para não morrer à mingua.

O professor se vê pouco a pouco questionar o seu ceticismo, a partir daquela velha formulação de Ivan a Alyocha, personagens de Dostoievski: “Se Deus não existe, tudo é permitido”, o que leva o irmão ilegítimo, Smerdiákov, a assassinar o patriarca Karamazov.

Em dado momento, ofuscado por sua covardia e omissão, o professor omite fatos que tornam uma investigação injusta. Alguém iria pagar o pato.

Em dado momento, ao entrar em uma tabacaria, ele ouve do proprietário a seguinte afirmação: Deus habita onde ainda não foi esquecido, e todo aquele imbróglio era consequência do afastamento do homem de Deus. Para o Professor é como uma epifania. E a resposta ao seu dilema: deve tomar uma decisão que acarretará sérios problemas para si: confessar a verdade, sem recuar. Motivado pelo seu exemplo, algumas correções acontecem, mesmo que a plausibilidade delas não fosse certeza. Importa fazer o certo, ainda que ninguém reconheça e seja punido.

A sua atitude corrige e repara um grande erro.

Como na filosofia clássica, a moral não é individual, no sentido de cada um possuir uma, mas parte-se do geral, do universal, daquilo que se chama a “Imago Dei”, para o indivíduo. O professor reconhece isso e abandona o que seria, do ponto de vista pessoal, o mais cômodo e benéfico. Disposto a sofrer as consequências, quer levar ordem a si mesmo e às pessoas ao seu redor.

No final, parece haver uma reconciliação.

Juventude sem Deus, sem ser um tratado teológico — e está anos-luz disso —  nos revela que, quando o homem se investe de si mesmo e seus interesses, as chances de as coisas desandarem é grande. E se para Deus, e por tabela aqueles que o professam, o próximo é tão importante, as chances serão mais propícias, e o mel não se camuflará de radicchio.

O que antes era um nada — um tipo de niilismo que o levava ao “dane-se”—, se tornou tudo.

E quando se vê tudo — aquilo que realmente importa e pelo qual se vive: bem, graça, virtude, compaixão... — fica menos difícil decidir.

Até mesmo morrer por isso.


Jorge F. Isah






17 outubro 2026

As tripulias do dinheiro

 



Não se tem muito a dizer quando o assunto é dinheiro, mas, mesmo assim, por falta de assunto melhor, vou me arriscar ao óbvio ululante. 

Têm os mãos-abertas que não somente conseguem gastar os próprios bens e, não satisfeitos, teimam em dissipar também os alheios. Não é difícil encontrar muitos deles nas feiras, shoppings, ruas e avenidas, a quebrar vidros de carros, arrombar fechaduras, estourar caixas eletrônicos ou, simplesmente da bicicleta tomar aquele celular comprado, e ainda não pago, em 12 parcelas, nas Casas Bahia.

Dizem os entendidos, e quem sou eu para questioná-los, existir um estágio progressivo — disse progressivo, e não progressista —, de trombadinha a político, espécie de colação de grau ou algo do gênero, mas enquanto a FGV não fizer um estudo detalhado, não se pode afirmar a correlação entre os gatunos dispersos nas cidades e arredores e os concentrados no Planalto e adjacências... ainda que sejam gatunos.

Outro dia, fui trocar o óleo do carro. O mecânico olhou a vareta e identificou, não sei como, que os cabeçotes precisavam ser retificados ou trocados.

— Como assim? — Eu perguntei, estarrecido — Você descobriu isso apenas observando o óleo?

— Meu amigo, o óleo é a chave de todos os problemas no carro... — Parecia um sábio explicando os enigmas da vida e do universo — Eu jamais desprezo o óleo, e não sou displicente como os meus colegas... Aposto o que quiser: os cabeçotes precisam de retífica! — Sentenciou, convicto.

Por fim, disse não fazer retífica, mas indicou outro colega tão ou mais especializado em óleo que ele; e o seu diagnóstico nada tinha a ver com ganhar dinheiro de qualquer maneira, pois era honesto e não possuía qualquer interesse em mexer no motor. Estava apenas e tão somente fazendo o seu trabalho, da melhor forma possível, dando o diagnóstico mais honesto e ético que um profissional pode dar.

Não me interessei. Ele parecia charlatão, e desisti de trocar o óleo. Saí do lugar ouvindo-o dizer, quase aos berros:

— Qualquer profissional íntegro e idôneo confirmará o que digo!!

Outro mecânico me garantiu que o óleo podia ser usado por muitas centenas de quilômetros ainda, e não era preciso substituí-lo. Enquanto um terceiro, me aconselhou a vender o carro e comprar outro, porque aquele não tinha mais recuperação e conserto.

A mesma situação envolve dentistas, advogados, médicos, camelôs, cartomantes, pedreiros, encanadores e palpiteiros em geral. Que dirá as urnas, depois das eleições.

Por falar em eleições, um amigo candidatou-se a síndico. Não suportava os constantes aumentos do condomínio. No dia da eleição, o mandatário encomendou canapés e um dj para os adultos — palhaços e docinhos para as crianças. Depois da terceira dose de Jack Daniels, o amigo fazia campanha para o adversário.

Outro amigo, fã do Roberto Carlos, comprou o ingresso para assistir ao show em um cruzeiro pela costa brasileira. Pacote pago, uma semana antes da viagem a companhia anunciou o cancelamento e o ressarcimento em vaucher ou ações da empresa. Quinze dias depois, entrou em falência judicial, as ações despencaram e os vauchers que seriam emitidos em dois dias, não foram mais. Meu amigo, pão-duro como ele só, viu-se transtornado: em seus mais de cinquenta anos, nunca se permitiu um exagero, um mimo, e agora não tinha a grana nem o deleite. Para compensar o prejuízo, em parte, vendeu todos os LP’s, CD’s e VHS’s do ídolo em um topa-tudo. Não era muito, mas aquilo o deixou melhor.

Assim é o dinheiro. Não escolhe as mãos onde cairá. Sábio ou idiota, perdulário ou mesquinho, egoísta ou filantropo, não discrimina ninguém.

Certa vez, em uma sinagoga, um ricaço trocou parte dos seus lucros por dúzias de moedas e, ao depositá-las no gazofilácio, ouviu o tilintar grandiloquente do metal no fundo de madeira. Todos sabiam, depois do barulho sistêmico: ele ofertou muita, muita grana. Contudo, era insignificante diante da sua fortuna. Enquanto isso, uma pobre viúva, tinha apenas duas moedas. Porém, era tudo o que possuía. E lançou-as no mesmo lugar.

Quem deu mais? — você pode se perguntar, se for bastante cínico. A questão não é quantidade ou valor, mas a relação de cada um com o dinheiro.

No Brasil, nenhum vínculo é maior do que a máxima: o que é seu é seu, enquanto não for meu, e, em breve, o que é seu será meu. Pode crer!

Quem viver, verá!

Ops, já vive.

 

Jorge F. Isah

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Nota: texto publicado originalmente na Bulunga



12 outubro 2026

Calouros e o Guinness

 



Viver no Brasil não é para amadores. Viver em São Paulo é difícil até para profissionais. Hoje, eu e o meu filho sofremos, cada um à sua maneira, um tipo de golpe.

No meu caso, comprei um iphone usado no Mercado Livre e, quando chegou, havia algo de muito estranho. Balancei a caixa que estava leve como pluma e senti o chocalhar de um carregador, cabo ou outra quinquilharia de dez reais pelo preço de quatro mil.

Perguntei ao entregador se podia recusar, pois estava claro que não havia um celular. Ele prontamente disse que sim, e fez a ocorrência. Após lavrar o boletim, me desejou boa sorte.

Espero que o meu dinheiro seja estornado e o vagabundo preso. Mas se no 8 de Janeiro usar batom foi golpe, o que posso esperar de uma caixinha de surpresas? Mas quem acredita em justiça neste mundo cão é otário, e brasileiro é duas vezes mais otário.

Enquanto os malfeitores...

O mais engraçado é que os criminosos não se dão ao trabalho de sequer colocar um tijolo, pedra ou uma caixinha cheia de areia. Acreditam que brasileiro é paspalho e vai cair em qualquer golpe, mesmo o menos inteligente, para não dizer outra coisa e ser processado por algum ativista nefário.

Agora, vamos à saga do meu filho.

Ele saiu do trabalho, pegou a esposa e, em plena Av. Bandeirantes, às 13 horas, com o sol rachando e mais de 32 graus na sombra, parado no semáforo, ouviu o bater de metal no vidro. Quando olhou, um revólver o estava encarando. Ele pensou que havia fechado um motoqueiro indevidamente e o mesmo estaria disposto a defender a sua honra. Mas não, o assalto foi anunciado. A esposa, ao perceber a situação, abriu a porta e correu avenida afora.

Nisso, o bandido insistia:

— Me dá a aliança.

Sem entender, e tendo o outro comparsa em outra moto do lado direito do carro, pegou o celular e entregou ao meliante.

— Não, a aliança.

Ainda sem entender, já que o bandido usava uma balaclava, capacete e parecia ter a língua presa, ele tirou as chaves do carro e quis entregá-las. O facínora irritou-se, abriu a porta, e apontou com a “máquina” para o dedo.

O meu filho tirou a aliança e, junto com o celular, ofereceu-a ao gentil injustiçado pela sociedade. O homem simplesmente desprezou o celular, pegou a aliança, fez sinal para o comparsa, e se escafederam no meio do engarrafamento.

Do lado de fora, transeuntes, motoristas, passageiros e um ciclista olharam abismados a situação.

Como se isso fosse algo excepcional.

Em pouco mais de seis meses aqui, já vi dois furtos de carros em engarrafamentos — os veículos com os vidros quebrados por “metralhas” — um arrastão debaixo de um viaduto na Av. do Estado, e o relato de moradores que parecem disputar o prêmio do Guinness de “ladroado do ano”.

Tudo para tomar aquela cervejinha.

E olha que sou quase um ermitão. Só saio de casa para ir à igreja e fazer o check-up anual.

De quebra o susto, para nós, iniciados nas agruras da grande metrópole. É a calourada, com direito aos bullyings que nenhuma criança em idade escolar sequer imagina.  

Vai uma Brahminha, presidente?

 

Jorge F. Isah


09 outubro 2026

Cardápio do dia: "Virado à direita"


 

Aos amigos — uns gatos pingados que nem me conhecem mais — digo: o Brasil tem solução.

Incrédulos, acham que estou sendo cínico ou debochado. Mas justo eu?

Realmente há saída — como diria o Leão da Montanha — em sua fuga à direita ou esquerda.

As eleições mostraram que estamos no caminho, apesar do segundo turno. Que não tem nada a ver com plantão ou jornada extra, pois político não consegue nem cumprir um turno, quanto mais preencher um banco de horas.

Enquanto isso, estamos aqui. Empresários, trabalhadores, máquinas e animais de carga — os nossos mais próximos “cumpanheiros” — nos matando e pagando quatro almoços para comer a metade de um.

E o IOF ainda nem entrou na conta.

Se essa gente faz os seus projetos e dejetos — eles se confundem sem que saibamos o que é o quê — ansiosos pelos resultados das urnas, certas coisas não mudam:

1) Os tatuadores dividirão salas de maternal para aprenderem decoupage.

2) Entre o funk e o sertanejo universitário existe uma chupetinha. Se um grita obscenidades, o outro ameaça pular do bebê conforto.

3) O Big Brother e a Fazenda fazem o orgulho dos banheiros públicos. Mas o que mata é a inveja da descarga.

4) O elevador do Q.I. brasileiro continuará descendo, sem parar no subsolo.

5) Eu — talvez você também — espero o papai-noel, louco para meter a mão no seu saco.

Se nada der certo, é só chamar a Janja. 
Enquanto o Chapolin Colorado tira as suas merecidas férias.

Jorge F. Isah


04 outubro 2026

Não sei vocês





Não sei vocês, mas quase dá vontade de comprar uma ilha deserta e nela me embrenhar para fugir de toda esta loucura diária. Por aqui, nada de refresco. Se souber de alguma à venda baratinho e em suaves prestações, me avise. Mas nada de cobrar comissão.

Não sei vocês, mas se desse para pular fora e sair do barco, eu seria o primeiro a me aventurar na companhia de tubarões, orcas e cardumes de piranhas.

Não sei vocês, mas se para mim um pingo é letra, para a maioria a fartura de palavras e clichês significam nada ou qualquer coisa — a depender de quem fala, ouve e as repete como papagaio mal treinado.

Não sei vocês, mas as notícias e pronunciamentos sempre envoltos em lorotas, matracas e disparates, não anunciam nada de novo, muito menos coisas boas; são obituários com local e hora marcados. Só falta você levar as flores.

Não sei vocês, mas se pecados, deficiências e vícios são exaltados e ascendidos ao nível das virtudes, e estas desabam ao nível das anomalia. Eles nada enxergam, cegos guiados por cegos, cada um puxando o outro pela camisa, felizes em direção ao abismo, apenas discutindo qual deles será o primeiro a cair.

Não sei vocês, mas se o bem se torna em mal, e o mal em bem; o doce em amargo, e o fel em doce; a luz em trevas, e trevas em luz, não há sentido nos sentidos, nem razão nas leviandades.

Não sei vocês, mas se os bandidos são justificados e os justos não encontram justiça, pelo contrário, pagam pelo que não fizeram e são criminosos por apontar os delitos, nada sobrou a não ser aquele chope aguado, futebol e corpos pelados na avenida. César que o diga!

Não sei vocês, mas se berimbau é instrumento e funk é música, ser surdo não é de todo mal.

Não sei vocês, mas se o poste mija no cachorro e as pessoas são identificadas por seus fluídos corporais, a prisão de um gato por furto não é questão de tempo, mas já aconteceu.

Não sei vocês, mas se piercings, alargadores e tatuagens fossem naturais, não queria estar na pele das futuras mamães.

Não sei vocês, mas este texto já encheu o saco! E se chegou até aqui, não se assuste: posso fazer pior!

Jorge F. Isah

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Texto publicado originalmente na Revista Bulunga



30 setembro 2026

O Futuro já Chegou!

 




Às vezes descobrimos certas coisas tão bizarras e tão esdrúxulas, o nonsense cada vez mais nonsense a invadir cada página, tela, cada ouvido, olho, até anestesiar completamente a consciência e a razão, e torná-las em fetiche, que temos de nos beliscar para certificar-nos de não estar em um pesadelo, digno dos trens fantasmas dos circos mambembes de antigamente.

Ouvi a notícia, tardia, diga-se, talvez porque a mídia em geral não se preocupou em alardear o fato, de uma americana que se considera “transracial”. Isso mesmo. Já não bastam os transplantados, transgênicos, transviados, trânsfugas, transumanos, transloucados, transgênero e transxexelentos, agora somos contemplados com a glória do transracial.

Se não bastassem essas esquisitices, a Espanha, aquele país que no passado gerou Cervantes, Unamuno, Lorca e Cela, entre outros, concedeu recentemente licença remunerada para mulheres que têm cólicas menstruais. Se por um lado isso é positivo, ao afastá-las de potenciais vítimas, por outro deveria se estender tal privilégio aos homens: os flatulentos, fedidos e com bafos. Com sorte, as repartições públicas, fábricas, lojas e similares se tornariam em depósitos e armazéns sem viva alma a habitá-los; o que já acontece em maior ou menor número nas burocracias em geral, e especificamente nos gabinetes privados.

Quanto à transracial, a proeminente ativista dos direitos negros, Rachel Dolezal, literalmente se travestiu de negra, defendia a causa negra, era membra da Associação Nacional pelo Avanço das Pessoas de Cor, e considerava-se afro-americana de fato e de direito: falsificou currículos e inventou uma herança africana para obter vantagens profissionais, além de se maquiar, fazer apliques nos cabelos e escurecê-los, vestir-se e portar-se como tal; hollywood perdeu uma atriz mas ganhamos outra charlatã. Entretanto, havia um pequeno problema ou dilema ou impasse: Rachel era branca; e sempre existem pais insatisfeitos com as atitudes de seus rebentos, os vulgarmente chamados “estraga prazeres”, que a denunciaram publicamente por negar as suas verdadeiras origens: era de ascendência alemã e tcheca, com uma chance mínima, na verdade praticamente impossível, de ter traços nativos americanos.

Odiada por brancos, negros, amarelos, vermelhos, sálvias e grenás, Rachel se diz injustiçada, especialmente pela acusação de ferir os sagrados preceitos da “apropriação cultural” (não me perguntem que raios venha a ser isso, pois mesmo entendendo a intenção, é-me simplesmente inconcebível a razão ou lógica dessa estrambótica expressão). Em entrevista, se pronunciou: “A raça também não é um fator biológico - na verdade, a raça é ainda menos biológica do que o próprio gênero, se você pensar na história e nos nossos corpos. Temos sangue tipo A ou tipo O, não há nada como sangue branco ou negro e nenhuma parte do nosso corpo que designe isso"[1]

A justificativa que encontrou para tentar escapar da fraude, e da pecha de impostora, foi declarar-se transracial e denunciar a própria cara-de-pau, pois se “nenhuma parte do nosso corpo” pode designar a cor, por que ela precisava escurecer a pele, tingir os cabelos ou usar peruca?... Mas, convenhamos, ela não é de toda parva, pois, afinal, como mesmo disse, se a pessoa de um sexo pode se considerar de outro, de nenhum, ou múltiplos ao mesmo tempo, por que ela não pode sentir-se negra mesmo sendo originalmente branca? Dentro deste mundo de ponta-cabeça, até que não está de todo errada, na lógica tão somente ilógica e irracional. Mas se a moda pega...

Já imaginou alguém com pretensões de ser o Pelé, mesmo sendo ruivo, ter sardas e pernas-de-pau? E defender a sua “transpelezice”? E se aquela vizinha histérica, balofa e aversa a banho, destitui o John Travolta de ser o John Travolta e, em sua “transtravoltice” assume o lugar ao lado da Kelly Preston? E, pior, ganham o direito de ser o que imaginam ser e ainda condenam os verdadeiros por preconceito e intransigência trans ou coisa que o valha?

É como abrir a porta de um banheiro de rodoviária: não espere perfumes, flores e bichinhos fofos. Mas vai que os doidivanos resolvem arrancar todas as bocas de lobo e abrir as comportas dos vertedouros... Acostume-se, ou compre uma máscara de gases, pois, ao que tudo indica, não estamos distantes desse futuro... ah, que se dane!... o futuro já chegou!


[1] Entrevista ao programa “NewNight”, da BBC Two

Texto publicado originalmente na Revista Bulunga com o título: "O futuro é hoje"


Jorge F. Isah




25 setembro 2026

O Novo Velho

 




Jorge F. Isah 

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Um dia você acorda e se considera a última bolacha do pacote.

Está convicto de que é um iluminado. Tradição, costumes e dogmas são bobagens, coisa de gentinha.

Não, você não acredita em contos da carochinha, explicação não científica, em tabus.

Não, você não faz parte das bolhas mentais. Só desaparece quando elas estouram.

Não, você não é mais um homem primitivo e retrógrado, apegado ao misticismo.

Não, você não é cauda, mas cabeça.

Não, você é o novo homem, que se autoconstrói. Uma peça única — raridade em série.

Não, você não sai à caça da primeira novidade da psicologia e terapias alternativas.

Não, você não aceita moralistas e religiosos. Você é racional e empírico: não sai de casa sem ler o horóscopo.

Não, você não se deixa vencer pela adrenalina e se joga do alto de 100 metros, balança no ar como um ioiô, apenas confiando no dono do negócio.

Você não quer saber de família, sentimentalismo e comoção, mas quando vê o seu ídolo, se descabela, ri e chora ao mesmo tempo, procura logo uma caneta e guardanapo, depois pega o autógrafo e guarda com carinho na carteira, junto da foto do Lulu e da Mel.

Você não acredita em igreja, padres e pastores. Mas ao menor sinal do seu político de carteirinha…

Você acredita em Gaia, Eros e Baco.

Você é autônomo, dono do próprio nariz, mas vive às custas do papai e mamãe — depois, do Estado.

Toda a sua vida disse o que era, para viver o que não era.

Parabéns: você é o novo velho.

Soprando mil velinhas.

Sem presente. Sem abraço.

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Nota: texto publicado originalmente na Revista Bulunga



21 setembro 2026

Pastoral Americana - Philip Roth

 




A expressão pastoral traz vários significados no campo religioso, musical e literário. Mas sempre guarda um elo comum em cada um deles: evocar paz, serenidade e acolhimento. A simplicidade, o bucólico e o lírico se misturam e, em cada um desses aspectos, representam um estilo ou tipo de vida inocente, confortável, organizado. Mas eis que entra em cena, Philip Roth e o seu Pastoral, para estraçalhar, desconstruir a harmoniosa e pura vida social dos Levov e da sociedade americana — ao menos era assim que imaginavam —, em busca do sonhado paraíso terreno, que se rompe assim como se quebrou no Éden.

O ingênuo Adão — ingênuo, não inocente — encontra o seu correspondente no Sueco, Seymour Levov, um descendente de judeus, dono de uma fábrica de luvas femininas que vê a importância do seu negócio diminuir com o final da elegância e sofisticação nos Estados Unidos, e, por tabela, no mundo.

Se na II Grande Guerra a América entrou como a “salvadora da pátria”, a despeito de alguma resistência interna, a maioria apoiou os esforços dos Aliados em derrotar o Eixo do mal, o mesmo não se pode dizer do envolvimento dos americanos na Guerra da Coreia e posteriormente no Vietnã: a recém estabelecida “maior nação do mundo” se transformou em um front interno. Não vou entrar em questões de geopolítica para validar ou não as guerras. Interessa, muito mais, as consequências humanas apontadas por Roth, e que não são poucas e desprezíveis. Afinal, guerra é guerra, e nunca haverá consenso quanto a sua validação.

Sueco é o americano de sucesso. Exímio atleta e astro juvenil do futebol, basquete, baseball e de qualquer esporte onde se aventurasse; bonito, charmoso, alto e atlético. Invejado por muitos, endeusado por outros, ele não tratava a fama como algo superlativo — chegava mesmo a considerar a paparicação algo sem propósito e exagerado. No fundo, era o arquétipo para muitos e o orgulho para outros. Em certo momento, Seymour venceu o Sueco, ao resistir, diante das propostas para se tornar astro profissional, e seguir a carreira do pai: tocar a fábrica de luvas.

Conciliador, tranquilo, simples, às vezes ingênuo, é incapaz de dizer não ao seu velho — judeu que não admite ferir as raízes da tradição —, mas o faz uma única vez, na escolha de Dawn — católica — por esposa. Contra a vontade do pai — que submete a futura nora a um “inventário” religioso —, acabam por casarem-se.

O pai, Lou — homem arraigado à sua ancestralidade — temia que a história da família se perdesse; e os sinais de que nada do que fora antes se estenderia no futuro, o tornava exageradamente crítico quanto aos rumos que as coisas tomavam.

Eram os anos 1960 e seus arredores.

No começo, temos Zuckerman — alterego de Roth em vários dos seus romances — com a incumbência de escrever um tributo ao pai do Sueco. Ele, porém, muda o foco para o filho. Não o fez de fonte primária, mas colheu informações com parentes e amigos, folheou álbuns e catálogos de fotos, visitou a fábrica, a casa, e o que restou do antigo Correio. É impossível assegurar que tudo era verdadeiro e confiável. O próprio Zuckerman imprimiu, como todo escritor, a sua parte de “verdade” à história. É preciso lembrar que Zuckerman foi colega no ensino médio de Jerry, que nutria certa inveja do irmão Seymour. Enquanto Zuckerman o tinha por herói. Assim, como confiar nos eventos? Durante a maior parte do tempo, a dúvida persiste.

O que é real? O que não é? E ainda mais: é possível conhecer integralmente uma pessoa? Ou temos somente pistas de quem ela foi ou é?

Seymour descobrirá que tudo em que acreditava, e para o qual se entregou, a família, o trabalho, o casamento, a paternidade, não são exatamente o que se configurava. Havia fumaça, muito antes do fogo começar. 

E Zuckerman se contamina — e em algum ponto sai chamuscado — na fogueira em que a vida amplia e, ao mesmo tempo, reduz os Levov.  

Em suas mais de quinhentas páginas, Roth revela o desastre do sonho americano, mas antes a catástrofe pessoal e familiar — o American Way of Live desmorona, porque as pessoas são como um castelo de cartas na tempestade —, expondo as fissuras, abismos e rupturas nas relações e no modo de encarar a vida.

O Seymour fez tudo certo. Exemplar em tudo o que se propôs. Bom filho. Bom atleta. Bom aluno. Bom marido. Bom pai. Bom empresário. O cais onde as turbulências muitas vezes cessavam — sua mãe o considerava um “porto seguro”. Mas, nem assim, a vida funciona. Não da forma idealizada por ele mesmo. E tal qual Adão, ele tentou se absolver na culpa dos outros. Mas nos momentos mais lúcidos, ou menos turvos, não fugia da acusação: fui o culpado?

Uma bomba explode em um mercadinho na provinciana Old Rimrock, New Jersey, e desencadeia uma sucessão de eventos que tornará a vida até então irreconhecível. Nesse momento, entra Merry, a filha do Sueco. E o que o tempo se encarregaria de resolver com amor e paciência — pensava Seymour —, se transforma em tragédia de proporções imperscrutáveis.

Creio que a principal pergunta seja: o que levou aquelas pessoas, aquele país, ao caos? A guerra? A ideologia? O desprezo? O cansaço?... Há nítido desgaste; enquanto o futuro se revela delicado e quebradiço, o presente arde em chamas, e o passado é o acelerante a tocar fogo em tudo.

Restará apenas cinzas?

A guerra é transportada para as ruas, cidades e campos americanos, sem que ninguém consiga impedir; sem que ninguém saia ileso. Ela é o estopim. Mas a causa, ou causas, pode estar naquilo que o Éden mostrou: Adão tentou transferir a culpa para a mulher, depois para Deus, mas não foi absolvido. A Queda se repetiu, e a América não podia mais resistir ao seu próprio pecado: não se despir da fantasia diante do espelho. Foi preciso arrancá-la, mas enquanto resistia, se viu nua, com todos os defeitos que o tempo e o afastamento da verdade produziram.

E a verdade hesitante e dúbia é a mentira convicta. A ela se apegaram. Por ela, se estilhaçaram.

O Sueco se descobre, na meia idade, um homem inseguro, incontido, confuso e perplexo.

Roth não nos dá respostas. Ainda que se possa chegar a uma ou outra. Ele nos mostra a ação, entre a calma aparente, a detonação, a ruína e as sequelas. A Pastoral Americana são escombros.

“Porque és pó e em pó te tornarás”.


Jorge F. Isah

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Avaliação: (****)
Título: Pastoral Americana
Autor: Philip Roth
Páginas: 510
Nota: Coloquei a capa da última edição publicada no Brasil. Mas a edição que li foi uma mais antiga da mesma Cia das Letras. 


17 setembro 2026

Independência ou Morte!

 




Aquele ditado, “o último a sair, apague a luz”, nunca foi tão falso. Por aqui, a energia foi cortada há tempos e na escuridão as pessoas trombam umas nas outras e batem as cabeças nas paredes.

Aquela máxima positivista da bandeira, “Ordem e Progresso”, não serve nem de lembrança. A “ordem” está em análise; o “progresso”, sob aprovação do órgão competente. Para muitos, a CBF, a Globo e o Bombril estão ali desde 1889 — a depender do gosto de cada um.

Aquela Brasília que toca fogo no país, mas onde os bombeiros trabalham dia e noite para apagar os seus incêndios, é um verdadeiro “Abre-te, Sésamo!”. Uns chegam com o fósforo em uma mão e uma mangueira na outra: nunca se sabe de onde virá a oportunidade.

Este é o país do futuro, diriam os ufanistas. Mas um futuro do pretérito. E se pretérito, sem futuro. Por isso, tudo aqui é condicional, a depender das condições de quem dá e exige favores.

Este é o país da justiça, diria o distraído. Que se lembra apenas do bolo de chocolate do último aniversário. Que o digam a Ortobom, a Oxxo e a CBTU: exemplos de como o Estado é pródigo em criar o problema, arbitrar a solução e ainda aparecer para receber a conta. Um Robin Hood às avessas, mas com Diário Oficial.

As várias condenações por danos morais coletivos que, via de regra, não vão para ninguém específico — um contrassenso dos diabos. Mas o que tem o diabo com isso, se as moedas continuam a tilintar nos cofres? Até o inferno emite recibo.

Este é o país onde, se ficar o bicho pega, se correr o bicho come... Bem, você entendeu. Por aqui, se tem sempre um alvo às costas, seja dos bandidos institucionais, seja dos bandidos legitimados por aqueles. Ninguém é doido de reclamar de tanta diversidade.

No fim das contas, “viva o 7 de Setembro.

Sem perguntas, para não estragar o feriado.

Com direito a paradas, discursos e à célebre frase decantada de norte a sul, de leste a oeste: “Independência ou Morte”!

Não, não é escolha, mas certeza.

De estarmos fadados à promessa da segunda oração coordenada alternativa.

Sem a opção da primeira.

Jorge F. Isah


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Nota: Texto publicado originalmente na Revista Bulunga 





11 setembro 2026

Morrer Sozinho em Berlim - Hans Fallada

 




Este é um livro que meio caiu no meu colo sem que esperasse. Não sou uma enciclopédia, nem tenho pretensões de ser, mas não são poucas as vezes que me surpreendo ao tropeçar em um autor ou título — e depois desse encontro inesperado, não o tirar da cabeça. Assim foi com “Morrer...”. E tudo começou com uma pesquisa de romances cujo palco era Berlim. Foi quando me deparei, pela primeira vez, com Hans Fallada.

De cara, o título remeteu-me ao fim e à solidão. Não sabemos ainda de quem, se um, dois ou mais; mas até que ponto se morre sozinho?

Existe uma máxima popular: “O homem nasce sozinho e morre sozinho!”, mas até onde isso é verdade? Pode ser tratado como uma metáfora ou algo literal? Se é uma analogia existencialista, de que o homem vive solitário mesmo rodeado de pessoas, vá lá! Mas, se for ao pé da letra, hum... é aquela dose de niilismo na veia.

Antes mesmo de tê-lo em mãos, essas questões me assaltavam. Não cheguei a conclusões definitivas, apenas vislumbrava as pessoas se tornando — boa parte delas — solitárias e céticas pelo descuido com que tratam a si e ao próximo. Se os valores essenciais à sociedade, ao homem como um ser grupal, são desacreditados, não nos resta outra máxima: a de “se quiser bem feito, faça você mesmo”. Ao excluir a cooperação mútua, não é de se admirar que o isolamento seja uma epidemia global. Não falo de ajuntamentos ou multidões, onde as pessoas se comunicam apenas no extravasar dos sentidos. Ou sobrevivência. Bando é ajuntar-se por interesse comum, como uma alcateia, mas a vida vai muito além das necessidades orgânicas.

O homem está só, um tanto porque quer, outro tanto pela descrença de que as relações resultarão em benefícios pessoais. Antes, “melhor só do que... acompanhado”. Se do ponto de vista imanente a coisa degringola assustadoramente, imagine na questão transcendente? Por isso, o solitário, na maioria das vezes, se isola para não sofrer, e sofre por se isolar. É um samba do crioulo doido.

Voltemos a Berlim. 1940. Os nazistas parecem ganhar a guerra. Otto e Anna Quangel, um casal de meia-idade, levam uma vida prosaica. Ele é um encarregado de marcenaria, um homem que se dedicou a exercer a arte de confeccionar objetos em madeira e agora se vê às voltas com a construção de caixões para os compatriotas mortos em combate. Homem reservado, de poucas palavras, aparentemente frio, mas que tem muitos dos seus demônios sussurrando em boa parte do tempo. Anna, por outro lado, se alegra nos relacionamentos — poucos, diga-se —, não confronta o marido, e sente-se tão ou mais solitária do que ele, em um casamento monossilábico, quase silencioso. Então, a tragédia: o filho do casal, Ottinho, morre no campo de batalha. E se até aquele momento evitavam se envolver em questões políticas, cientes de não poderem alterar o curso das coisas, começa a surgir o desejo de resistir, denunciar o assassinato de tantos jovens iludidos e enganados pelo poder e as promessas de um governo ladino e ardiloso — o Estado-deus: um deus sem misericórdia nem compaixão.

Não se associam a grupos, não planejam atentados, sequestros ou coisas mirabolantes. Na simplicidade e sutileza dos pensamentos, decidem escrever cartões com denúncias ao Führer, espalhando um a cada semana. Parece algo sem sentido, mas foi o plano de vingança. Se deu certo ou não, você terá de ler. Garanto que será uma experiência e tanto, especialmente se levar em conta que a história se baseia em fatos reais. Algo que aconteceu e movimentou a capital do Reich nos anos 1940.

Pode-se chamar “Morrer...” de um livro sobre vingança? Sim, mas seria uma conclusão insuficiente. De amor? Claro, também. De terror? Sim, com certeza. Injustiça? Idem... A lista poderia continuar. Há de tudo um pouco. Óbvio não se tratar de um amor juvenil, de terror gótico, ou vingança hollywoodiana. Estamos em guerra, uma das piores entre as piores. Sob um governo tirânico, opressivo, desumano, como um dos piores entre os piores. A guerra não se resume ao front, mas está nas ruas, prédios, casas e por toda a cidade. Na consciência de uns, na trapaça de outros. Por todo o país. Os inimigos são muitos e estão ao redor: sorrindo, especulando, difamando, caguetando. Há, também, aqueles que, mesmo na podridão, tentam não se contaminar. Um ex-juiz que aconselha e acolhe. Um maestro que divide a sua paixão por livros, música e revela um lado desconhecido a Otto. Mas a verdade é que os atos têm consequências. E ninguém está livre da acusação de conspirar, mesmo sendo a ovelhinha mais dócil do rebanho.

Otto descobrirá que a sua vingança — diferente do que imaginou — alcançará o seu pequeno círculo familiar e íntimo, que desconhecia e não partilhava da sua estratégia, mas sucumbira à loucura e ao desespero por causa dela.

Cada uma dessas vítimas tem uma única percepção: a morte é inevitável, num sistema onde se tenta fazer a purificação com sangue, muito sangue, e não há sangue suficiente para tirar aquela imensa nódoa.

Isso me fez lembrar do Cristo que, apenas com o seu sangue, limpou o pecado, trouxe vida. A morte que deu vida. E não milhões de vidas entregues à morte.

Fallada talvez queira alertar sobre o desastre da solidão, do faça você mesmo, e dizer que a cooperação é possível. Até mesmo em uma sociedade traiçoeira e colaboracionista. Entre o silêncio e a passividade, eles, mais cedo ou mais tarde, sucumbirão também, independente de qual estratégia seguiram diante de um sistema que tem tudo e todos por inimigo. Muito mais comum do que se pensa, aqueles que sustentam o sistema acabaram também por se tornar suas vítimas.

Entretanto, nem tudo são espinhos, feridas e armadilhas.

No final, Kuno, o filho bastardo ou não — o pai, Emil, tem sérias dúvidas e o próprio Kuno também — de um dos mais sórdidos personagens, é redimido. Eva, ex-funcionária dos Correios, que perdeu dois filhos — um no front, outro para as fileiras da SS — adota-o, e ele conhece finalmente o que são os laços familiares.

Em meio a tanta ruína, Fallada nos dá um gostinho de esperança. De que o homem não está completamente perdido. De que morrer só em Berlim, ou qualquer outro lugar, pode ser mais uma escolha do que destino.

 

Jorge F. Isah