Jorge F. Isah
Este mês, motivado pela ausência da minha esposa,
pois estava a visitar seus parentes em B.H., resolvi assistir a uma das novas
séries da Netflix — não sei se nova para a grade ou apenas para mim, já que
raramente me arrisco a séries atuais, salvo indicação de amigos confiáveis. Sim,
sou arredio com as novidades por vários motivos. E podem me chamar de velho e
antiquado, porque não estou nem aí, e não faço qualquer questão de ser
moderninho ou descolado — e, digamos, me surpreendi.
A princípio, chamou-me a atenção a
presença de Jon Bernthal, ator acima da média. Esse foi o principal chamariz.
E, também a possibilidade de não me ver maratonando por horas a fio, algo que
não tenho me entregado desde que descobri “Downton Abbey”— talvez seja o maior
estímulo: uma minissérie em seis capítulos.
A história não tem nada de novo: um crime,
seguido de outro crime, e outro, um detetive que era amante da primeira vítima,
um casal em crise, amizades tóxicas, garotas perversas, hipocrisia, etc, etc, e
toda aquela lenga-lenga da qual já estamos acostumados.
As pistas, inicialmente, se voltam para
Anna — interpretada pela mediana para baixo, Tessa Thompson — esposa do
detetive Jack Harper — Bernthal —, que também é um dos primeiros suspeitos. O
roteiro privilegia os clichês, não tem personagens profundos e bem
caracterizados, muitas cenas soam artificiais ou incoerentes — como as de
Harper soltando provas para todos os lados, enquanto realiza inquéritos nos
balcões de bares e estacionamentos — mas a direção consegue manter o clima de
suspense e a produção não precisou criar nada mirabolante para suster a
atenção.
Harper é o marido traído, com o casamento
destruído pela morte da filha recém-nascida, mora com a irmã alcoólatra e tem
uma sobrinha pequena. Quer mais?... Anna é uma jornalista que perdeu o cargo de
âncora na TV, pelo sumiço de um ano sem deixar rastros, após a morte da bebê.
Mesmo assim, é readmitida na emissora e começa a trabalhar no caso dos
assassinatos imediatamente, protegida do chefão Jim Pruss, personagem criado
apenas para respaldar a nova ascensão na carreira de Anna.
Como em todo suspense policial, as pistas
apontam ora para um, ora para outro, ora para aquele, e, sabemos, no fim,
haverá uma reviravolta e aquele personagem que ninguém imagina é o verdadeiro
criminoso. Tudo se encaminha para Catherine, mas quando o desfecho acontece e
percebe-se que ainda faltam quase trinta minutos da série, a pergunta vem: qual
será a surpresa mirabolante para enganar o espectador?
Nos livros e na dramaturgia, salvo raras
exceções, as pistas levam quase inevitavelmente ao algoz e, no final, temos
confirmada a autoria. Bons escritores e dramaturgos não estão preocupados com
“final apocalíptico”, mas com o enredo, em produzir bons personagens, em
desenvolver a trama de tal maneira que ela sustente o livro ou peça, sem
precisar de malabarismos e invenções. Não sei quando as coisas mudaram e a
necessidade de uma reviravolta épica — na maioria das vezes sem sentido, como a
explosão do carrinho de cachorro-quente no parque de diversões espalha pétalas
e balõezinhos coloridos ao invés de salsicha e molho de tomate.
Aqui, a despeito de haver alguns bons
atores — Bernthal, Crystal R. Fox, Marin Ireland — o roteiro é tão pobre e a
caracterização tão superficial que escorregam, e o chão é o lugar de todos.
Tentarei não dar spoiler, mas não sei se conseguirei.
Alice, uma anciã com Alzheimer, aparece
secundariamente na história. Aquele drama pessoal e familiar da protagonista,
Anna, que, contudo, não a impede de negligenciá-lo, preocupada com a carreira e
as disputas internas no trabalho. Em momento algum, existe empatia entre mãe e
filha, e a importância da relação se dá apenas pelas sequelas do passado.
Como disse, lá em cima, os clichês são abundantes.
E o fim é o ápice deles. De uma inverossimilhança patética e irrealizável, com
justificativas saídas da boca de um infante assustado com a história do
“Chapeuzinho Vermelho” — escrita por Perrault e não a versão dos Irmãos Grimm —
e que decidiu estragá-la completamente.
Lembrou-me, um pouco, Tarantino, “o rei da
vingança” — mas com talento — onde nada importa, apenas pagar com a mesma
moeda, se possível, com juros. E os laços entre mãe e filha se reatam ou se
amarram em um final feliz, sorridente, sem culpas ou desculpas.
Talvez, esteja se perguntando: “por que
raios, no início, você se surpreendeu?”
Vou lhe dizer claramente: percebi o quanto
a minha esposa faz falta. Peguei o telefone, liguei para ela, e ordenei o seu
retorno imediato, ou faria uma besteira. Quando ela me perguntou qual besteira,
disse que, além de cancelar a assinatura da Netflix, iria desaparafusar a TV da
parede e jogá-la no lixo.
No dia seguinte, estávamos juntos, e
assistimos “Ele & Ela”. E não é que gostei?