30 setembro 2026

O Futuro já Chegou!

 




Às vezes descobrimos certas coisas tão bizarras e tão esdrúxulas, o nonsense cada vez mais nonsense a invadir cada página, tela, cada ouvido, olho, até anestesiar completamente a consciência e a razão, e torná-las em fetiche, que temos de nos beliscar para certificar-nos de não estar em um pesadelo, digno dos trens fantasmas dos circos mambembes de antigamente.

Ouvi a notícia, tardia, diga-se, talvez porque a mídia em geral não se preocupou em alardear o fato, de uma americana que se considera “transracial”. Isso mesmo. Já não bastam os transplantados, transgênicos, transviados, trânsfugas, transumanos, transloucados, transgênero e transxexelentos, agora somos contemplados com a glória do transracial.

Se não bastassem essas esquisitices, a Espanha, aquele país que no passado gerou Cervantes, Unamuno, Lorca e Cela, entre outros, concedeu recentemente licença remunerada para mulheres que têm cólicas menstruais. Se por um lado isso é positivo, ao afastá-las de potenciais vítimas, por outro deveria se estender tal privilégio aos homens: os flatulentos, fedidos e com bafos. Com sorte, as repartições públicas, fábricas, lojas e similares se tornariam em depósitos e armazéns sem viva alma a habitá-los; o que já acontece em maior ou menor número nas burocracias em geral, e especificamente nos gabinetes privados.

Quanto à transracial, a proeminente ativista dos direitos negros, Rachel Dolezal, literalmente se travestiu de negra, defendia a causa negra, era membra da Associação Nacional pelo Avanço das Pessoas de Cor, e considerava-se afro-americana de fato e de direito: falsificou currículos e inventou uma herança africana para obter vantagens profissionais, além de se maquiar, fazer apliques nos cabelos e escurecê-los, vestir-se e portar-se como tal; hollywood perdeu uma atriz mas ganhamos outra charlatã. Entretanto, havia um pequeno problema ou dilema ou impasse: Rachel era branca; e sempre existem pais insatisfeitos com as atitudes de seus rebentos, os vulgarmente chamados “estraga prazeres”, que a denunciaram publicamente por negar as suas verdadeiras origens: era de ascendência alemã e tcheca, com uma chance mínima, na verdade praticamente impossível, de ter traços nativos americanos.

Odiada por brancos, negros, amarelos, vermelhos, sálvias e grenás, Rachel se diz injustiçada, especialmente pela acusação de ferir os sagrados preceitos da “apropriação cultural” (não me perguntem que raios venha a ser isso, pois mesmo entendendo a intenção, é-me simplesmente inconcebível a razão ou lógica dessa estrambótica expressão). Em entrevista, se pronunciou: “A raça também não é um fator biológico - na verdade, a raça é ainda menos biológica do que o próprio gênero, se você pensar na história e nos nossos corpos. Temos sangue tipo A ou tipo O, não há nada como sangue branco ou negro e nenhuma parte do nosso corpo que designe isso"[1]

A justificativa que encontrou para tentar escapar da fraude, e da pecha de impostora, foi declarar-se transracial e denunciar a própria cara-de-pau, pois se “nenhuma parte do nosso corpo” pode designar a cor, por que ela precisava escurecer a pele, tingir os cabelos ou usar peruca?... Mas, convenhamos, ela não é de toda parva, pois, afinal, como mesmo disse, se a pessoa de um sexo pode se considerar de outro, de nenhum, ou múltiplos ao mesmo tempo, por que ela não pode sentir-se negra mesmo sendo originalmente branca? Dentro deste mundo de ponta-cabeça, até que não está de todo errada, na lógica tão somente ilógica e irracional. Mas se a moda pega...

Já imaginou alguém com pretensões de ser o Pelé, mesmo sendo ruivo, ter sardas e pernas-de-pau? E defender a sua “transpelezice”? E se aquela vizinha histérica, balofa e aversa a banho, destitui o John Travolta de ser o John Travolta e, em sua “transtravoltice” assume o lugar ao lado da Kelly Preston? E, pior, ganham o direito de ser o que imaginam ser e ainda condenam os verdadeiros por preconceito e intransigência trans ou coisa que o valha?

É como abrir a porta de um banheiro de rodoviária: não espere perfumes, flores e bichinhos fofos. Mas vai que os doidivanos resolvem arrancar todas as bocas de lobo e abrir as comportas dos vertedouros... Acostume-se, ou compre uma máscara de gases, pois, ao que tudo indica, não estamos distantes desse futuro... ah, que se dane!... o futuro já chegou!


[1] Entrevista ao programa “NewNight”, da BBC Two

Texto publicado originalmente na Revista Bulunga com o título: "O futuro é hoje"


Jorge F. Isah




25 setembro 2026

O Novo Velho

 




Jorge F. Isah 

________________



Um dia você acorda e se considera a última bolacha do pacote.

Está convicto de que é um iluminado. Tradição, costumes e dogmas são bobagens, coisa de gentinha.

Não, você não acredita em contos da carochinha, explicação não científica, em tabus.

Não, você não faz parte das bolhas mentais. Só desaparece quando elas estouram.

Não, você não é mais um homem primitivo e retrógrado, apegado ao misticismo.

Não, você não é cauda, mas cabeça.

Não, você é o novo homem, que se autoconstrói. Uma peça única — raridade em série.

Não, você não sai à caça da primeira novidade da psicologia e terapias alternativas.

Não, você não aceita moralistas e religiosos. Você é racional e empírico: não sai de casa sem ler o horóscopo.

Não, você não se deixa vencer pela adrenalina e se joga do alto de 100 metros, balança no ar como um ioiô, apenas confiando no dono do negócio.

Você não quer saber de família, sentimentalismo e comoção, mas quando vê o seu ídolo, se descabela, ri e chora ao mesmo tempo, procura logo uma caneta e guardanapo, depois pega o autógrafo e guarda com carinho na carteira, junto da foto do Lulu e da Mel.

Você não acredita em igreja, padres e pastores. Mas ao menor sinal do seu político de carteirinha…

Você acredita em Gaia, Eros e Baco.

Você é autônomo, dono do próprio nariz, mas vive às custas do papai e mamãe — depois, do Estado.

Toda a sua vida disse o que era, para viver o que não era.

Parabéns: você é o novo velho.

Soprando mil velinhas.

Sem presente. Sem abraço.

_____________________ 
Nota: texto publicado originalmente na Revista Bulunga



21 setembro 2026

Pastoral Americana - Philip Roth

 




A expressão pastoral traz vários significados no campo religioso, musical e literário. Mas sempre guarda um elo comum em cada um deles: evocar paz, serenidade e acolhimento. A simplicidade, o bucólico e o lírico se misturam e, em cada um desses aspectos, representam um estilo ou tipo de vida inocente, confortável, organizado. Mas eis que entra em cena, Philip Roth e o seu Pastoral, para estraçalhar, desconstruir a harmoniosa e pura vida social dos Levov e da sociedade americana — ao menos era assim que imaginavam —, em busca do sonhado paraíso terreno, que se rompe assim como se quebrou no Éden.

O ingênuo Adão — ingênuo, não inocente — encontra o seu correspondente no Sueco, Seymour Levov, um descendente de judeus, dono de uma fábrica de luvas femininas que vê a importância do seu negócio diminuir com o final da elegância e sofisticação nos Estados Unidos, e, por tabela, no mundo.

Se na II Grande Guerra a América entrou como a “salvadora da pátria”, a despeito de alguma resistência interna, a maioria apoiou os esforços dos Aliados em derrotar o Eixo do mal, o mesmo não se pode dizer do envolvimento dos americanos na Guerra da Coreia e posteriormente no Vietnã: a recém estabelecida “maior nação do mundo” se transformou em um front interno. Não vou entrar em questões de geopolítica para validar ou não as guerras. Interessa, muito mais, as consequências humanas apontadas por Roth, e que não são poucas e desprezíveis. Afinal, guerra é guerra, e nunca haverá consenso quanto a sua validação.

Sueco é o americano de sucesso. Exímio atleta e astro juvenil do futebol, basquete, baseball e de qualquer esporte onde se aventurasse; bonito, charmoso, alto e atlético. Invejado por muitos, endeusado por outros, ele não tratava a fama como algo superlativo — chegava mesmo a considerar a paparicação algo sem propósito e exagerado. No fundo, era o arquétipo para muitos e o orgulho para outros. Em certo momento, Seymour venceu o Sueco, ao resistir, diante das propostas para se tornar astro profissional, e seguir a carreira do pai: tocar a fábrica de luvas.

Conciliador, tranquilo, simples, às vezes ingênuo, é incapaz de dizer não ao seu velho — judeu que não admite ferir as raízes da tradição —, mas o faz uma única vez, na escolha de Dawn — católica — por esposa. Contra a vontade do pai — que submete a futura nora a um “inventário” religioso —, acabam por casarem-se.

O pai, Lou — homem arraigado à sua ancestralidade — temia que a história da família se perdesse; e os sinais de que nada do que fora antes se estenderia no futuro, o tornava exageradamente crítico quanto aos rumos que as coisas tomavam.

Eram os anos 1960 e seus arredores.

No começo, temos Zuckerman — alterego de Roth em vários dos seus romances — com a incumbência de escrever um tributo ao pai do Sueco. Ele, porém, muda o foco para o filho. Não o fez de fonte primária, mas colheu informações com parentes e amigos, folheou álbuns e catálogos de fotos, visitou a fábrica, a casa, e o que restou do antigo Correio. É impossível assegurar que tudo era verdadeiro e confiável. O próprio Zuckerman imprimiu, como todo escritor, a sua parte de “verdade” à história. É preciso lembrar que Zuckerman foi colega no ensino médio de Jerry, que nutria certa inveja do irmão Seymour. Enquanto Zuckerman o tinha por herói. Assim, como confiar nos eventos? Durante a maior parte do tempo, a dúvida persiste.

O que é real? O que não é? E ainda mais: é possível conhecer integralmente uma pessoa? Ou temos somente pistas de quem ela foi ou é?

Seymour descobrirá que tudo em que acreditava, e para o qual se entregou, a família, o trabalho, o casamento, a paternidade, não são exatamente o que se configurava. Havia fumaça, muito antes do fogo começar. 

E Zuckerman se contamina — e em algum ponto sai chamuscado — na fogueira em que a vida amplia e, ao mesmo tempo, reduz os Levov.  

Em suas mais de quinhentas páginas, Roth revela o desastre do sonho americano, mas antes a catástrofe pessoal e familiar — o American Way of Live desmorona, porque as pessoas são como um castelo de cartas na tempestade —, expondo as fissuras, abismos e rupturas nas relações e no modo de encarar a vida.

O Seymour fez tudo certo. Exemplar em tudo o que se propôs. Bom filho. Bom atleta. Bom aluno. Bom marido. Bom pai. Bom empresário. O cais onde as turbulências muitas vezes cessavam — sua mãe o considerava um “porto seguro”. Mas, nem assim, a vida funciona. Não da forma idealizada por ele mesmo. E tal qual Adão, ele tentou se absolver na culpa dos outros. Mas nos momentos mais lúcidos, ou menos turvos, não fugia da acusação: fui o culpado?

Uma bomba explode em um mercadinho na provinciana Old Rimrock, New Jersey, e desencadeia uma sucessão de eventos que tornará a vida até então irreconhecível. Nesse momento, entra Merry, a filha do Sueco. E o que o tempo se encarregaria de resolver com amor e paciência — pensava Seymour —, se transforma em tragédia de proporções imperscrutáveis.

Creio que a principal pergunta seja: o que levou aquelas pessoas, aquele país, ao caos? A guerra? A ideologia? O desprezo? O cansaço?... Há nítido desgaste; enquanto o futuro se revela delicado e quebradiço, o presente arde em chamas, e o passado é o acelerante a tocar fogo em tudo.

Restará apenas cinzas?

A guerra é transportada para as ruas, cidades e campos americanos, sem que ninguém consiga impedir; sem que ninguém saia ileso. Ela é o estopim. Mas a causa, ou causas, pode estar naquilo que o Éden mostrou: Adão tentou transferir a culpa para a mulher, depois para Deus, mas não foi absolvido. A Queda se repetiu, e a América não podia mais resistir ao seu próprio pecado: não se despir da fantasia diante do espelho. Foi preciso arrancá-la, mas enquanto resistia, se viu nua, com todos os defeitos que o tempo e o afastamento da verdade produziram.

E a verdade hesitante e dúbia é a mentira convicta. A ela se apegaram. Por ela, se estilhaçaram.

O Sueco se descobre, na meia idade, um homem inseguro, incontido, confuso e perplexo.

Roth não nos dá respostas. Ainda que se possa chegar a uma ou outra. Ele nos mostra a ação, entre a calma aparente, a detonação, a ruína e as sequelas. A Pastoral Americana são escombros.

“Porque és pó e em pó te tornarás”.


Jorge F. Isah

_________________________ 
Avaliação: (****)
Título: Pastoral Americana
Autor: Philip Roth
Páginas: 510
Nota: Coloquei a capa da última edição publicada no Brasil. Mas a edição que li foi uma mais antiga da mesma Cia das Letras. 


17 setembro 2026

Independência ou Morte!

 




Aquele ditado, “o último a sair, apague a luz”, nunca foi tão falso. Por aqui, a energia foi cortada há tempos e na escuridão as pessoas trombam umas nas outras e batem as cabeças nas paredes.

Aquela máxima positivista da bandeira, “Ordem e Progresso”, não serve nem de lembrança. A “ordem” está em análise; o “progresso”, sob aprovação do órgão competente. Para muitos, a CBF, a Globo e o Bombril estão ali desde 1889 — a depender do gosto de cada um.

Aquela Brasília que toca fogo no país, mas onde os bombeiros trabalham dia e noite para apagar os seus incêndios, é um verdadeiro “Abre-te, Sésamo!”. Uns chegam com o fósforo em uma mão e uma mangueira na outra: nunca se sabe de onde virá a oportunidade.

Este é o país do futuro, diriam os ufanistas. Mas um futuro do pretérito. E se pretérito, sem futuro. Por isso, tudo aqui é condicional, a depender das condições de quem dá e exige favores.

Este é o país da justiça, diria o distraído. Que se lembra apenas do bolo de chocolate do último aniversário. Que o digam a Ortobom, a Oxxo e a CBTU: exemplos de como o Estado é pródigo em criar o problema, arbitrar a solução e ainda aparecer para receber a conta. Um Robin Hood às avessas, mas com Diário Oficial.

As várias condenações por danos morais coletivos que, via de regra, não vão para ninguém específico — um contrassenso dos diabos. Mas o que tem o diabo com isso, se as moedas continuam a tilintar nos cofres? Até o inferno emite recibo.

Este é o país onde, se ficar o bicho pega, se correr o bicho come... Bem, você entendeu. Por aqui, se tem sempre um alvo às costas, seja dos bandidos institucionais, seja dos bandidos legitimados por aqueles. Ninguém é doido de reclamar de tanta diversidade.

No fim das contas, “viva o 7 de Setembro.

Sem perguntas, para não estragar o feriado.

Com direito a paradas, discursos e à célebre frase decantada de norte a sul, de leste a oeste: “Independência ou Morte”!

Não, não é escolha, mas certeza.

De estarmos fadados à promessa da segunda oração coordenada alternativa.

Sem a opção da primeira.

Jorge F. Isah


_________________________________ 

Nota: Texto publicado originalmente na Revista Bulunga 





11 setembro 2026

Morrer Sozinho em Berlim - Hans Fallada

 




Este é um livro que meio caiu no meu colo sem que esperasse. Não sou uma enciclopédia, nem tenho pretensões de ser, mas não são poucas as vezes que me surpreendo ao tropeçar em um autor ou título — e depois desse encontro inesperado, não o tirar da cabeça. Assim foi com “Morrer...”. E tudo começou com uma pesquisa de romances cujo palco era Berlim. Foi quando me deparei, pela primeira vez, com Hans Fallada.

De cara, o título remeteu-me ao fim e à solidão. Não sabemos ainda de quem, se um, dois ou mais; mas até que ponto se morre sozinho?

Existe uma máxima popular: “O homem nasce sozinho e morre sozinho!”, mas até onde isso é verdade? Pode ser tratado como uma metáfora ou algo literal? Se é uma analogia existencialista, de que o homem vive solitário mesmo rodeado de pessoas, vá lá! Mas, se for ao pé da letra, hum... é aquela dose de niilismo na veia.

Antes mesmo de tê-lo em mãos, essas questões me assaltavam. Não cheguei a conclusões definitivas, apenas vislumbrava as pessoas se tornando — boa parte delas — solitárias e céticas pelo descuido com que tratam a si e ao próximo. Se os valores essenciais à sociedade, ao homem como um ser grupal, são desacreditados, não nos resta outra máxima: a de “se quiser bem feito, faça você mesmo”. Ao excluir a cooperação mútua, não é de se admirar que o isolamento seja uma epidemia global. Não falo de ajuntamentos ou multidões, onde as pessoas se comunicam apenas no extravasar dos sentidos. Ou sobrevivência. Bando é ajuntar-se por interesse comum, como uma alcateia, mas a vida vai muito além das necessidades orgânicas.

O homem está só, um tanto porque quer, outro tanto pela descrença de que as relações resultarão em benefícios pessoais. Antes, “melhor só do que... acompanhado”. Se do ponto de vista imanente a coisa degringola assustadoramente, imagine na questão transcendente? Por isso, o solitário, na maioria das vezes, se isola para não sofrer, e sofre por se isolar. É um samba do crioulo doido.

Voltemos a Berlim. 1940. Os nazistas parecem ganhar a guerra. Otto e Anna Quangel, um casal de meia-idade, levam uma vida prosaica. Ele é um encarregado de marcenaria, um homem que se dedicou a exercer a arte de confeccionar objetos em madeira e agora se vê às voltas com a construção de caixões para os compatriotas mortos em combate. Homem reservado, de poucas palavras, aparentemente frio, mas que tem muitos dos seus demônios sussurrando em boa parte do tempo. Anna, por outro lado, se alegra nos relacionamentos — poucos, diga-se —, não confronta o marido, e sente-se tão ou mais solitária do que ele, em um casamento monossilábico, quase silencioso. Então, a tragédia: o filho do casal, Ottinho, morre no campo de batalha. E se até aquele momento evitavam se envolver em questões políticas, cientes de não poderem alterar o curso das coisas, começa a surgir o desejo de resistir, denunciar o assassinato de tantos jovens iludidos e enganados pelo poder e as promessas de um governo ladino e ardiloso — o Estado-deus: um deus sem misericórdia nem compaixão.

Não se associam a grupos, não planejam atentados, sequestros ou coisas mirabolantes. Na simplicidade e sutileza dos pensamentos, decidem escrever cartões com denúncias ao Führer, espalhando um a cada semana. Parece algo sem sentido, mas foi o plano de vingança. Se deu certo ou não, você terá de ler. Garanto que será uma experiência e tanto, especialmente se levar em conta que a história se baseia em fatos reais. Algo que aconteceu e movimentou a capital do Reich nos anos 1940.

Pode-se chamar “Morrer...” de um livro sobre vingança? Sim, mas seria uma conclusão insuficiente. De amor? Claro, também. De terror? Sim, com certeza. Injustiça? Idem... A lista poderia continuar. Há de tudo um pouco. Óbvio não se tratar de um amor juvenil, de terror gótico, ou vingança hollywoodiana. Estamos em guerra, uma das piores entre as piores. Sob um governo tirânico, opressivo, desumano, como um dos piores entre os piores. A guerra não se resume ao front, mas está nas ruas, prédios, casas e por toda a cidade. Na consciência de uns, na trapaça de outros. Por todo o país. Os inimigos são muitos e estão ao redor: sorrindo, especulando, difamando, caguetando. Há, também, aqueles que, mesmo na podridão, tentam não se contaminar. Um ex-juiz que aconselha e acolhe. Um maestro que divide a sua paixão por livros, música e revela um lado desconhecido a Otto. Mas a verdade é que os atos têm consequências. E ninguém está livre da acusação de conspirar, mesmo sendo a ovelhinha mais dócil do rebanho.

Otto descobrirá que a sua vingança — diferente do que imaginou — alcançará o seu pequeno círculo familiar e íntimo, que desconhecia e não partilhava da sua estratégia, mas sucumbira à loucura e ao desespero por causa dela.

Cada uma dessas vítimas tem uma única percepção: a morte é inevitável, num sistema onde se tenta fazer a purificação com sangue, muito sangue, e não há sangue suficiente para tirar aquela imensa nódoa.

Isso me fez lembrar do Cristo que, apenas com o seu sangue, limpou o pecado, trouxe vida. A morte que deu vida. E não milhões de vidas entregues à morte.

Fallada talvez queira alertar sobre o desastre da solidão, do faça você mesmo, e dizer que a cooperação é possível. Até mesmo em uma sociedade traiçoeira e colaboracionista. Entre o silêncio e a passividade, eles, mais cedo ou mais tarde, sucumbirão também, independente de qual estratégia seguiram diante de um sistema que tem tudo e todos por inimigo. Muito mais comum do que se pensa, aqueles que sustentam o sistema acabaram também por se tornar suas vítimas.

Entretanto, nem tudo são espinhos, feridas e armadilhas.

No final, Kuno, o filho bastardo ou não — o pai, Emil, tem sérias dúvidas e o próprio Kuno também — de um dos mais sórdidos personagens, é redimido. Eva, ex-funcionária dos Correios, que perdeu dois filhos — um no front, outro para as fileiras da SS — adota-o, e ele conhece finalmente o que são os laços familiares.

Em meio a tanta ruína, Fallada nos dá um gostinho de esperança. De que o homem não está completamente perdido. De que morrer só em Berlim, ou qualquer outro lugar, pode ser mais uma escolha do que destino.

 

Jorge F. Isah


08 setembro 2026

Alicerce

 




Jorge F. Isah

 

 

      O céu era de um azul embaçado, salpicado de aves e seus voos alheios ao mover das ondas, em águas esverdeadas até atingirem os bancos de areia e se transformarem num verde camuflado, enquanto o sol tentava curar um pileque e recuperar as forças. Pisquei os olhos e senti os nervos se distenderem, mas a visão permaneceu escorregadia...Alguns na areia... um cão ou outro... a maioria em guias e correias... o calçamento de atletas semanais e diários, cada um em seu próprio esforço, numa corrida contra o tempo, na tentativa de barrá-lo em velocidade moderada... Havia bancos de madeira vazios àquela hora, em que a preguiça não movia quase ninguém à admiração e descanso. Passei a mão na superfície e grãos de areia caíram... alguns se prenderam à pele... esfreguei uma na outra e a ranhura libertou-a... Aquele era o mundo de Deus, criado para o nosso deleite... mesmo que o homem tenha deixado nele feridas — algumas cauterizadas, outras expostas — era possível vê-las, mas nem assim ocultavam as geniais e múltiplas facetas de vida a transpor o espaço... Sim, ele era original e criativo, e a manhã, talvez um pouco menos exuberante, indicava a majestade do artífice... Um quê de saudade sobreveio. Baixei a cabeça, olhos cerrados, e repeti algumas vezes: “obrigado”!... Esperei. O sol aquecia a face esquerda, e um reconfortante calor irradiou para o pescoço. O medo do bronze dividir o rosto me pôs em movimento. Caminhei lentamente. Retive o odor do mar. O balanço da maré. O azul pálido. O verde encardido. Retive o vaguear de urubus e gaivotas. O catar dos pombos. A solidão vadia pelos caminhos... Eu era o estranho no ninho. Com minha calça jeans, tênis e a camiseta da nova coleção do Galo. Entre shorts, bermudas e regatas, deveria atrair alguma atenção, mas os poucos olhares se revelaram acasos... Depois da temporada em São Paulo, voltar à cidade dos últimos anos trouxe a nostalgia... Quando parti de Belo Horizonte, queria uma vida menos agitada, e a praia configurou-se o destino. Mas, depois... Veio-me a analogia: havia saído do purgatório, estava em direção ao paraíso e, subitamente me vi cair no fogo do inferno. Foi uma via-profana... onde o céu era o limite, mas tive de me contentar na companhia dos demônios... A imagem fez-me mover os lábios, num minúsculo espasmo “a la Duchenne”... Um homem fumava. Mantinha o cigarro à altura da boca, o cotovelo apoiado no joelho, e o pé esquerdo sobre um dos bancos. Ao passar, desejei “bom dia”, sem resposta... à frente, um casal e seus cães. Senti-me um ET quando nossos olhares se cruzaram. Balancei a cabeça, mas logo vi que eram reféns dos mascotes e contrapeso dos seus músculos... Um ciclista, depois corredores, e a etiqueta não era suficiente para tirar a casca deles. Quando muito, atiravam-na aos meus pés, na esperança de me ver no chão... A grama aparada. Arbustos podados. Sanitários recém-instalados. Tudo pronto para receber turistas e nativos, até mesmo fezes e urina que o tempo e a faxina ainda não deram conta... Os quiosques estavam em feira. Cadeiras, mesas, guarda-sóis. O gelo triturado. O tilintar dos utensílios. Caixas e latas rilhando. Um comando aqui e outro ali. Passos silenciados na areia... A qual mundo está o prisioneiro na caixa?... Novo banco. Areia. Gestos. Sentei... Por mais estático ou em movimento, o olhar é o que definia as coisas...Se seus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se forem maus, todo o teu corpo será tenebroso... E não havia como escapar dessa sentença... Olhar o horizonte diminuía o desejo de olhar abaixo ou os lados... A visão perdida no silêncio distante, na imobilidade, na expectativa de que quanto menos se move mais próximo da perfeição está... o movimento tem muitos riscos... Caminhei. Entrei em ruas ainda sonolentas... apenas o vento a mover as copas e espalhar os papéis e plásticos a lugares incertos... Dobrei à direita. Na esquina contrária havia três velhinhas, na casa dos setenta e tantos, a rodear o muro. Uma delas ainda estava de pijama. Apontavam. Conversavam. À distância não distingui a razão. Foi quando vi um portão de garagem enjambrado.  Aberto como uma lata de sardinhas pela metade. Não foi difícil imaginar o estrago do pé-de-cabra. As mulheres apontavam para lá e depois para cá. Uma viatura chegou, e uma delas disse “mas que demora!”, não sem antes se certificar de os guardas estarem na posição de não ouvirem o reclame. Pelo andar da dupla de mulheres, nem se ela tivesse sussurrado em seus ouvidos modificaria o seu estado... Continuei. Um ciclista veio de encontro, passou rente a mim: “Lá vai o buraco de bala”... Soltei um riso amarelo... O que era aquilo?... Piada, ameaça, loucura?... Um cão manquejava na calçada... Havia algo de triste... enquanto outros, bravos e megalômanos, entre grades e chapas, latiam... cada um com o seu destino... Um andarilho me pediu ajuda... Não além dos dois metros de distância... Fiz sinal de me aproximar, mas não esperou. Levantou o braço e fez o gesto de “deixa pra lá!”: “Não quero lorota de crente!”

      Tinha sido a Bíblia suficiente para irritá-lo?... Estava duro, era verdade. Havia dias não tinha dinheiro... Mas ele não queria contato... Não valia o pão com margarina... Vi montes de lixos, móveis queimados nas esquinas, tudo revirado que nem os cães se arriscavam a mexer. Mas a Serra imponente ao fundo apontava para um dia onde tudo seria restaurado, e nada de feiura, sujeira ou pobreza... Também não haveria ostentação e desperdício... a medida certa, sem faltar ou sobrar...

      Ouvi a métrica e simetria impecáveis... as notas do órgão... e o refrão: “Santo, Santo, Santo...”.

______________________ 

Nota: texto publicado originalmente na Revista Amplitude




05 setembro 2026

O radicalismo radicalmente radical

 



Jorge F. Isah



Antes, o radicalismo se mostrava através de atitudes não usuais dos indivíduos, fora da norma social, política, cultural ou o raio que o parta. Comportamentos e exemplos adquiridos por milênios e comprovadamente exitosos, não por um tipo de pragmatismo estúpido e fatal, mas pelos melhores padrões da lógica, da razão, da moral e do amparo, hoje são vistos como exceções, pontos fora da curva a serem devida e legalmente extirpados da sociedade. Senão, vejamos:

Se o cara quer parecer descolado e moderninho, ele tem de ter um ou dois desses elementos, se possível, todos, não importando idade, posição, constrangimento ou vexame:Possuir uma tatuagem. Se puder, muitas. O ideal é ocupar cada espaço do couro com rabiscos, desenhos e símbolos. Se bois e vacas, escravos e bandidos tinham uma, por que não elevar à potência máxima os arabescos a identificá-lo como espécime liberto de convenções? Mesmo que o comportamento signifique exatamente o oposto?

Ser monogâmico é sinal de piada, de fazer estourar os bofes de tanto rir. Casar-se virgem, então, é a prova cabal de que a pessoa é escrava e encontra-se subjugada pelos valores cristãos, patriarcais e machistas da sociedade. Ninguém que se preza deve manter-se virgem e, quanto mais cedo iniciar o ritual de acasalamento, seja com o sexo oposto, um animal ou tubérculo (há os que defendem a galhardia de se relacionar com pedregulhos e rochas), mais cedo se libertará e arrancará as algemas a mantê-la presa. Nem que seja a fórceps. Mas o que importa?!

Desde os filósofos pré-socráticos defende-se, e não podia ser diferente, o princípio de o homem analisar e entender a realidade. Cabia à arte (teatro, literatura, pintura, escultura etc.) adentrar os caminhos do sonho e magia, entretanto, sempre baseada em fatos, na vida, na realidade. A psicologia moderna associada às ideologias e suas ramificações tem levado o indivíduo à abstração quase absoluta e mal concebida; em outras palavras, o que a realidade prova ser real (desculpe-me a redundância, mas é preciso) requer ser destruído em prol de uma ficção elaborada equivocadamente, em que a pessoa abandona cada vez mais a sanidade e lucidez em prol dos delírios e das psicoses. Não é sem razão o fato de milhões, bilhões de pessoas viverem às duras penas através de psicoativos, sejam drogas legais ou ilegais. E o sono é dormir acordado.

Antigamente, costuravam-se as roupas e outros tecidos para que parecessem novos; a falta de grana obrigava as pessoas a reparos ao invés do descarte. Mas “jenial” foi quando alguém resolveu lançar uma roupa de mendigo, esfarrapada, remendada, desfiada, por um valor dez vezes maior do que um produto intacto, e boa parte das pessoas aderiu ao modismo, apenas por rebeldia. Nas feiras, praças de alimentação e estádios de futebol é quase impossível não ver um maltrapilho a gritar palavrões e xingar a mãe do juiz, ou contar, a plenos pulmões, suas fantasias juvenis. A revolução tem seu preço e normalmente os tolos a financiam.

A arquitetura vai de mal a pior. É quase impossível, salvo nos redutos exclusivamente históricos das cidades (que tenham, no mínimo, 300 anos), não nos deparar com algo dantesco, assimétrico e medonho. Edifícios como caixas de sapatos superpostas, caixinhas de fósforo agrupadas, quadros imperfeitos e retângulos desfeitos, sem contar as cores que mais parecem saídas das mãos de um orangotango epiléptico e cego. Mas, para quem se deslumbra com as obras de Gropius, Niemeyer e Bo Bardi, nada mais justo do que a admiração pelo kitsch, onde alhos e bugalhos se misturam em nome da pretensa originalidade e genialidade em ser brega e cafona. No caso de roupas e acessórios, eles se perdem inevitavelmente. Mas o que dizer de Brasília, da Bauhaus e do Sesc Pompeia?
Ah! E Pollock, Dalí, Oiticica, Volpi, Mondrian e Duchamp, entre outros menos votados?… A colcha de retalhos da minha avó era muito mais digna e honesta, ao contrário da overdose de horrores desses iluminados, seduzidos pela vulgaridade.

Não podia me esquecer dos piercings e alargadores, a tornarem-se cada vez mais exigência, quase uma obrigação, especialmente entre garçons, cozinheiros e balconistas. É quase improvável não se deparar com um (quando for um, existe a sorte de não ser atendido por ele), ou muitos, ou todos, exibindo-se desgraçadamente para o consumidor que, se esperto, dará o fora do lugar o mais rápido possível. Se antes, e não há muito tempo, animais domésticos e escravos utilizavam esses apetrechos a fim de serem presos ou conduzidos por seus senhores, será que esses… ah, deixa pra lá!, consideram o porquê de carregarem nos corpos essas estufilhas?… Claro que não!

Poderia ficar horas e horas enumerando as bizarrices e tontices do homem moderno — e das mulheres também. Ou acham que elas não têm o direito à sua parcela de “nonsense”? —, que outrora se considerava rebelde, livre e sem amarras sociais, quando, na verdade, apenas está embrulhado na própria arrogância, pretensão e desatino. De minha parte, e faz-se necessário observar, o radical é aquele que foge desses padrões descritos, em especial o cara que não tem medo de se dizer homem, sem a necessidade de eufemismos e de bajular os frouxos.
_______________________ 
Nota: texto publicado originalmente na Revista Bulunga 


01 setembro 2026

O epílogo das gêneses


Jorge F. Isah

____________________ 


A política brasileira parece um grande maternal, onde meninos mimados e birrentos se arranham, estapeiam e gritam por seus carrinhos, bonecas e miniaturas de super-heróis, Barbies e pufes fofinhos. Os mais sortudos agarram-se aos seus celulares, tablets e TVs, sempre a passar freneticamente imagens e vídeos de coisas inalcançáveis às suas mentes, mas suficientes para ensinar-lhes a não saber o caminho sem volta. Sem contar a atenção e aprovação maternal, que pode ser de uma “tia”, “fessora” ou de um marmanjo que se sinta “mamãe”, mesmo não tendo como dar de “mamá” ao pirralho.

Um ou outro, lá pelo meio da existência, se deparará com as asneiras apreendidas, empreendidas e propagadas, mas será um e outro; não raro, a maioria se considerará, até depois da morte, estar certa e ser a detentora da imensurável e indizível verdade relativa — imensurável e indizível porque existem em cérebros do tamanho de uma ervilha, situados nos umbigos ou nos orifícios traseiros —, e o estrago, a carcomer o tempo, jamais será revertido... quando muito, aplacado.

Ouvir audiências no plenário de qualquer câmara legislativa é o mesmo que ser massacrado por um bando de orcs e trolls, cada um a lançar o mais longe possível seus perdigotos e impropérios, entre urros e carrancas, como se estivessem numa gincana do maternal, sob efeito de alucinógenos e estimulantes sintéticos. Quem cuspir mais longe ganha o troféu do ano.

O mesmo se dá, com poucas variações, nas sessões das cortes secundárias e supremas, nos gabinetes governamentais e, igualmente não raro, nas redações e estúdios midiáticos. Os indispostos à verborrágica inutilidade reclinam-se nas confortáveis poltronas e dormem o sono descabido. Depois, afastados dos olhares digitais, se refestelam em tapinhas nas costas, suculentas costeletas de javali e caudas de lagostas grelhadas na manteiga e ervas...

Nos salões ovais e octogonais, reúnem-se a bebericar whiskies, champanhes e Manhattans sem a menor cerimônia, rindo e escarnecendo dos mais tolos e dos mais espertos dos contribuintes e espectadores. Não são todos, vá lá! Mas o circo é armado mesmo que tenha um domador de leões, um faquir e um malabarista, a despeito da maioria de palhaços.

A quase totalidade não se presta mais sequer a esconder seus propósitos e a que veio; nem mesmo aquele velho chavão: “estou aqui para servir ao povo” faz parte do discurso e da grade digital. Não se furtam — e não é uma figura de linguagem — nem escondem quais sejam seus propósitos: tirar o máximo e desfrutar de todas as benesses burocráticas, sejam oficiais ou oficiosas, legais ou ilegais... o descaramento, antiético e imoral, é o lema exposto debaixo dos holofotes e pirotecnias.

Como macacos de auditório, pulam, esperneiam, se rasgam, cantam loas a si e aos seus pares, dizem fazer o que não fazem e fazem, petulantes, o que não dizem; alguns até dizem e fazem, mas dizem que o fazem por amor e justiça, para o bem maior, enquanto o bolso e a consciência batem palmas safardanas, certos de não se saciarem, ávidos por conchavos, acordos e franquias propícias a si próprios e seus negócios, às vezes ocultos, outras vezes descarados, mas sempre justificados com as boas intenções do diabo e seus molejos embuçados.

A vigarice é quase uma unanimidade nacional e, quanto a isso, pouco ou nada se pode fazer, dada a leviandade arraigada às almas e instituições brasilis — não nessa ordem, ou melhor, nessa desordem. De outra forma, como eu seria capaz de escrever este artigo, publicá-lo e ainda assim encarar a mim mesmo como o paladino do oeste, do leste, do norte e do sul? Só conservando a cara-de-pau, este abjeto mas ingênito ardor nativo a pautar velhos e jovens, mortos e não nascidos, no fulgor inato do “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, no decrépito das maternidades e parteiras.

Só mesmo aquele funk pancadão, as diatribes das focas e o silêncio histriônico dos cegos, surdos e mudos, que veem o que não se vê, não veem o que se vê; ouvem o que não se diz e não ouvem o que se diz — mas estão sempre dispostos a falar o que não entendem — e esquecem-se de que até uma mula continuará mula, independentemente da fantasia que use.

 _________________________________ 

Nota: Texto publicado originalmente na Revista Bulunga 



26 agosto 2026

A Convidada do Casamento - Carson McCullers

 



Jorge F. Isah

___________________________


Esta foi a minha segunda experiência com Carson McCullers; a primeira se deu com “Reflexos num olho dourado”, cuja análise pode ser lida utilizando a barra de pesquisa.

A Convidada do Casamento — em português, ganhou outros títulos: “A sócia do casamento”, “Frankie e o casamento” e até uma versão portuguesa com a tradução literal “O membro do casamento”, já que o título em inglês é “The Member of the Wedding” (1946). A expressão “member” pode significar membro ou sócio e, no contexto, acredito que as versões mais modernas acertam em utilizar o substantivo “convidada”, diferente das mais antigas.

Em princípio, pensei que o livro tratava de uma obsessão juvenil da personagem principal “Frankie”, uma garota de 12 anos que reside no sul americano, no estado da Geórgia. Mas, à medida que a leitura se desenvolvia, minha impressão inicial foi-se modificando.

Antes, quero pontuar que os personagens de McCullers, por mais que sejam comuns, desses que se pode encontrar em qualquer esquina, são estranhos e nunca parecem ser exatamente o que se vê — talvez, por nos vermos neles. Sempre existem várias camadas de personalidades conflitantes, angustiadas, fracassadas e entregues aos seus desejos ou destruídas por eles. É como se buscassem a todo custo uma felicidade e prazer — algo normal na natureza humana — mas se vissem sempre a caminhar na direção oposta. Por mais que lutem contra seus instintos, eles revelam-se dispostos a controlá-los — protagonistas e coadjuvantes — e, por que não, desiludi-los.


Posto isso, Frankie assume três nomes, no decorrer da trama. Primeiro, Frankie Addams, um apelido carinhoso mas infantil, que a identifica na família, mas também entre os seus conterrâneos. Depois, em uma tentativa de mudar a sua identidade e tornar-se madura, mas, sobretudo, ter as rédeas da própria vida, cria um nome que considera especial, sem que haja, contudo, um significado além do desejo de modificar as superfícies e forjar uma nova personalidade, F. Jasmine Addams. No terço final, assume o Frances Addams, o nome mais, digamos, formal e que, na cerimônia de casamento, é a senha do seu reconhecimento social.

Frankie, a despeito das tentativas de se transformar, era vista sempre do mesmo jeito pelos seus interlocutores mais próximos: Berenice, a empregada negra, que perdeu um olho após o ataque de um dos maridos — sempre tem um olho brilhando ou opaco nos enredos de Carson — sendo o “modelo” adulto da adolescente, e o primo John Henry, que a arrasta o tempo todo para a infância que quer abandonar. Um ou outro estranho, incapaz de perceber quem ela é — uma criança a ganhar o corpo de mulher — se ilude com a sua personalidade artificial, camuflada por vestidos, linguagem e uma incomum ‘maturidade’, e que esconde apenas o quão ingênua e inábil de fato é.

Há ainda a figura do pai, que gasta a maior parte do seu tempo com a relojoaria e, apesar do interesse meio relapso, deixa para Berenice a responsabilidade de educar e se dedicar à filha. Como o meu objetivo não é tocar em todos os aspectos do livro, faço apenas uma rápida menção aos atores secundários, sem penetrar em seus meandros.

Voltando à Frankie, a obstinação, o anseio de crescer, ter o controle da própria vida, e acreditar que mudanças simplistas e imediatas mudarão o seu destino, fazem-na reconhecer, mesmo a contragosto, o fracasso. É impossível forjar-se a si mesmo; antes, cada um é a soma de vários fatores, muitos — ou a maioria — completamente fora de controle. Com isso, não estou a falar de escolhas para o bem ou para o mal — nada a ver com o senso moral e ético — mas com a formação do ser.

Se para Frankie o apelido a irritava e diminuía — os laivos infantes — F. Jasmine se tornou a senha do fracasso. Abandonar ambos e assumir-se Frances insinuava um amadurecimento que, contudo, estava na forma, não na essência. E em seu desenvolvimento, a garota acreditou que finalmente era adulta — a despeito da cena bizarra e hilária ainda no casamento do irmão, uma última tentativa de integrar-se, mesmo desesperadamente, à nova realidade do casal, sem obter sucesso.  

Por falar em casamento, mais do que a admiração idólatra pelo irmão Jarvis — não confunda com o mordomo de Tony Stark — seria o passaporte para um novo mundo e a autonomia. O engraçado é que a independência de Frankie estava completamente atrelada à dependência do jovem casal. A adolescente, por mais que buscasse a transformação — um tipo de metamorfose onde a vida até então seria descartada e substituída por outra — estava apenas nos códigos e símbolos, já que o seu ensimesmamento e conturbadas emoções permaneciam inalteradas.

A nova vida de Jarvis e Janice — o casamento em que Jasmine é o terceiro “J” a incluí-la também em um novo modelo — faz com que a realidade vença as expectativas e remova Frankie da extravagância para a normalidade.

Carson McCullers com seus personagens comuns, situações comuns, e uma história aparentemente comum, desce aos abismos da alma para colocar, cada um de nós, em nossos devidos lugares. E também cada um, a seu jeito, que se vire onde está — mas sabendo que, mesmo nos limites, nenhuma esperança é vã. 

E, no fim, a convidada nunca é a estrela da festa. 

_______________________________ 

Avaliação: (****)

Título: A Convidada do Casamento

Autora: Carson McCullers

Páginas: 232

Editora: Novo Século

_______________________________ 




21 agosto 2026

Politicônimos

 




 Jorge F. Isah

 _____________________________



Se você é um Nogueira, Coelho ou Batista não é difícil descobrir a etimologia do seu nome. Não precisa fuçar muito. Nem contratar um filólogo ou detetive particular. Alguém na família foi apaixonado por nozes, cavar buracos ou se envolver com batistérios.

Se Fernandes ou Alves, alguém, em priscas eras, tinha um pai chamado Fernando ou Álvaro.

A maioria dos nomes tem origem toponímica — derivados de aspectos geográficos, paisagens —, zoonímica — de animais — e patronímica — nome de um ancestral masculino.

Existe outra categoria: a dos políticos. Um deles, Lula. Outro, Bolsonaro. O primeiro dispensa qualquer verbete: oito tentáculos, evidente vantagem administrativa e o terror do contribuinte. O segundo remete ao aríete de ferro: nada pode ser mais adequado ao seu estilo.

Em ambos os casos, você e eu não passamos de Túlios pilotando Pálios.

A onomástica comete um absurdo ao não categorizar os políticos. Passou da hora de termos os politicônimos. No começo, um adjetivo. Depois, verbo. E, por fim, o Código Penal.

Seria uma profusão de Gérsons, Gualtérios e Jacós... e nada os impediria do sucesso. 

Em época de eleições, haja Catarinos e Capanemas tipificados pela Lei. E completamente esquecidos por ela.

_______________________ 

Nota: texto publicado originalmente no portal Bulunga 



17 agosto 2026

Séries, Eastwood e Gestapo

 




Jorge F. Isah

 

               Tenho assistido a muitas séries antigas, aquelas dos anos 60, 70 e 80 que apenas os velhos se interessam. Eu não vivi esses tempos, mas de alguma forma tenho saudades do não visto e vivido em relação ao que vejo e vivo por estas bandas tupiniquins. As razões são, sem ordem de importância:

1-     Nostalgia, pura e simples (nem Freud explica);

2-     Fugir da loucura e psicopatia dos filmes e séries atuais (com raríssimas exceções), e acabam por refletir uma vida de delírios, mulas sem cabeças e unicórnios a povoar as mentes e as línguas de muitos;

3-     Avaliar a veracidade quanto ao nível de opressão e falta de liberdade no passado, onde, segundo os ideólogos e especialistas de plantão, as pessoas andavam em correntes e jaulas enquanto eram marcadas a ferrete;

4-     Constatar os valores perdidos ou a se perder, hoje e amanhã;

5-     Entender a razão de tanto ódio a uma existência mais simples e menos combativa e belicosa (quero dizer, lacradora);

6-     E, por fim, divertir sem me sentir culpado por dar risadas frugais ou derramar aquela lágrima emotiva.

Bem, pode parecer muito, mas a verdade é que raras coisas na atualidade me motivam o interesse, e muitas vezes fazem-me sentir como se estivesse em um hospício a céu aberto, cercado de loucos por todos os lados. Fico a imaginar um(a) “militante politicamente correto” assistindo, por exemplo, um capítulo de “A Feiticeira” ou “Jeannie é um gênio”. No primeiro caso, uma mulher literalmente “empoderada”, pois possui poderes sobrenaturais para satisfazer praticamente todos os seus desejos, se submeter alegremente a uma vida simplória e trivial de esposa e mulher do lar. Por amor ao seu marido, James, Samantha deseja se tornar a melhor esposa, mãe e dona de casa. Nem sempre consegue, mas é o seu objetivo de vida. Imagino o(a) militante quebrando a tv, a amaldiçoar Elizabeth Montgomery e Dick York por toda a vida... e nem preciso entrar nos detalhes.

No segundo caso, Jeannie é uma figura dos contos de fadas, capaz de realizar qualquer desejo do seu “amo”, o Coronel Nelson, que a encontrou em uma garrafa em uma ilha deserta. Ela pode fazer tudo, mas quer apenas e tão somente o amor e a atenção do seu amo, e a sua maneira desastrada e ingênua cria situações hilárias ao colocar em apuros o alvo do seu amor. Qualquer militante exemplar, daqueles que usam carteirinha e botton de “chato de galocha”, seria incapaz de se divertir com as peripécias de Samantha e Jeannie, pelo simples fato de imaginar aqui e acolá elementos claramente discriminatórios, opressores e estereotipados das mulheres. A ideia dos produtores e diretores e atores era apenas divertir o maior número de pessoas, arrancar delas risadas e momentos de descontração. Mas a militância não vê nada além de culpados e réus confessos, a difundir o domínio e a hegemonia do patriarcado. O pensamento dessa turma é linear, como uma extensa área inóspita e estéril no deserto, onde não se pode produzir nada de bom.

Ontem, assisti ao quase último filme de Clint Eastwood, “Cry Macho”, título irônico mas capaz de desagradar uma boa parte de espectadores, porque não tem muita ação, nem reviravoltas mirabolantes, ou sangue e células espalhadas em paredes, pisos e adereços. O filme nos dá a ideia do quanto Eastwood se divertiu ao produzir, dirigir e protagonizar a película. E é impossível, ao menos o foi para mim, não se divertir também. O roteiro é simples, a trama não é intrincada, não existem discussões ou defesas de pautas das agendas progressistas (sic), porque é um filme igualmente simples, a falar da vida, para a maioria das pessoas e não para um grupo minúsculo de iluminados, ansiosos por um Mickey gay, um Super-Homem trans ou um Padre Brown a usar linguagem neutra. Em suas obstinações por fazerem-se ouvir, não ouvem ninguém, na verdade, não se interessam em ouvir nada além da própria voz e o ecoar em seus pares, em patrulhar a vida alheia como se fossem membros da Gestapo, KGB ou CIA. Enquanto os fofoqueiros do passado especializavam-se em não serem descobertos ao disseminarem seus fuxicos  — muitas vezes apenas por simples diversão —, as novas patrulhas de fofoqueiros querem a censura, a prisão e em alguns casos a morte dos acusados. E qual o crime?... Pensar fora da caixa oca ou um saco cheio de...

Eastwood não fez um filme para ganhar o Oscar e encher páginas de jornais e sites especializados em cinema de lorota e lenga-lenga ideológica ou intelectualóide. Do alto dos seus mais de 90 anos, quis fazer algo divertido e no qual se divertisse. Evidente ser um filme de qualidade, afinal, é possível se divertir sem abrir mão do talento e habilidade, e talento e habilidade podem aumentar em muito a diversão... E quanto menos pretensioso, maior a chance de dar certo, como é o caso em questão. Não entendo a queixa dos detratores, e mesmo a falta de argumentos. Uma rápida pesquisa na web e verá a maioria dos comentadores falarem da idade do Clint, do andar titubeante, de já passar da hora de se aposentar, e variações do tema. Quase não existe a análise da obra em si, e quais seriam os pontos favoráveis e negativos. Parece um fetiche com a idade provecta do astro, capaz de ainda produzir, dirigir e protagonizar sem criar um pastiche de si mesmo ou de sua obra, enquanto a maioria dos “mortais” anseia aposentar-se aos cinquenta e não fazer mais nada na vida. Isso deve dar uma inveja e uma dor de cotovelo danada... e certamente tem tudo a ver com a longevidade artística de Eastwood.

Esta geração — tão acostumada a zumbis e vampiros, monstros e heróis de vidro, enquanto vivem a irrealidade do Meta Verso, RPG e um mundo onde poderiam tomar altas doses de adrenalina em amostra grátis — não me parece treinada para a vida real, para as coisas elementares e fundamentais, para a simplicidade, a fraternidade, gestos ingênuos e despretensiosos, atitudes delicadas, suaves e acolhedoras, tudo isso sem uma lei por detrás ou o discurso inflamado da última “bolacha do pacote”. “Cry Macho” ultrapassa em muito a caricatura na qual se transformou Hollywood e seu discurso panfletário e hipócrita  — com raríssimas exceções, como neste caso —: as pessoas são comuns, os problemas são comuns, as soluções nem sempre são perfeitas e absolutas, mas existe lugar para a verdadeira empatia, identificação, sem a necessidade de se ditar regras e fórmulas a se repetir pela ação da epinefrina, especialmente na área da língua e cordas vocais e quase nada no intelecto dos replicadores de patrulhas.

Por falar em galos — sei, ninguém tocou nisso por aqui —, a prova das intenções de Eastwood estão evidenciadas no fato de o herói, no sentido audacioso e intrépido do termo, ser o galo “Macho”, do pequeno Rafa (Eduardo Minett), o garoto a quem Mike (Clint) foi buscar no México para entregá-lo ao pai, no Texas. Ao receber “Macho” como presente, Mike promete cuidar do herói, numa alusão à cumplicidade e a troca de experiências; o “Macho” de Mike não é o mesmo de Rafa, mas não é impossível compartilhá-lo e, até mesmo, discutir sua importância, sem que para isso sejam forçados ao inexorável antagonismo.

Infelizmente, hoje em dia nada é inocente, ingênuo ou honesto. Sempre existe um culpado ou culpados pelo não dito e pelo não feito, mas supostamente dito e feito na mente dos inquisidores modernos, dispostos a — via de regra, e à revelia¹ — imputar e culpar qualquer um a contrariar-lhes delírios e incoerências mentais, desde que não seja a si mesmo e seus análogos. Faz parte da guerra; e se não há inimigos é preciso criá-los de qualquer maneira, nem que seja forjando conflitos, trincheiras e barreiras onde sequer eram imagináveis. Orwell acertou em cheio ao descrever a novilíngua destes tempos, a Stasi a dominar consciências e objetivos nada lúcidos e realistas.

Voltando ao seriado “A Feiticeira”, em uma cena onde Stevens e Tate conversam sobre a suposta gravidez de Samantha, ouve-se o seguinte diálogo:

- O que você espera, James? – Diz Larry.

- Ora, menino ou menina! – Responde Stevens.

Se fosse hoje, provavelmente em uma sala de aula, consultórios terapêuticos ou em ambientes descolados  — a minoria da minoria minoritária — a resposta seria um daqueles antigos catálogos telefônicos... E ai de quem não estiver atualizado com as últimas novidades e modelos listados e se esquecer de um deles: a Gestapo o enviará ao Gulag mais próximo. 

_____________

Nota: 1- uso o termo não a designar simplesmente qualquer um, mas qualquer um não alinhado, se me entende.

2- Texto publicado originalmente na Revista Bulunga

13 agosto 2026

Viagem ao fim do poço



Jorge F. Isah
_______________

A humanidade tem se especializado cada vez mais em superar todas as bizarrices possíveis e imagináveis, a título de diversidade, multiculturalismo, tolerancianismo, autossuficientismo, porcariarismo, igualitarismo, e uma série de sinônimos nunca aplicados mas sempre ansiados, como um fetiche, mais necessário à vida de certas pessoas do que o próprio oxigênio... Por falar nisso, não estranhe se, em um futuro próximo, os “engenheiros sociais” obrigarem as pessoas a utilizarem cilindros de gás meio a meio, metade de oxigênio e outra metade gás carbônico, pois seria preconceito e injustiça ao Co² ter uma parcela não igualitária no ar que respiramos. Enquanto isso, os mesmos “construtores” se deliciarão com porções cada vez maiores de O², para os seus deleites — com margens de lucro estratosféricas —, e escárnio do restante dos mortais.

Assim funciona o mundo: em nome de reparações às minorias, faz-se injustiça com a maioria, seja ela de qual cor, etnia, classe social, sexo ou outro muro erguido em nome do bem-estar e de uma isenção sempre parcial. No fundo, é uma luta pelo poder, onde boa parte é apenas “boi de piranha”, a espalhar um discurso sem plexo ou nexo enquanto a elite — seja intelectual, política, militar, sindical ou simplesmente hormonal — se esbalda em luxos, prazeres e controle das massas. Tendo o estado por sócio ou “padim”.

Não se iluda! Existem mais camadas intocáveis e intocadas nessa trama do que se pode imaginar ou conceber e, por esse motivo, nenhum questionamento é permitido ou sequer avaliado, sob pena de se transformar em teoria de conspiração ou, mormente, gerar risadas histéricas, deboche e cinismo.

Todas as coisas devem ser colocadas no mesmo saco, balançadas e o que sair não se pode lançar dúvidas ou questionar, desde que o recipiente contenha apenas e tão somente os valores elencados e formatados do politicamente correto ou establisment.

Mas voltemos às bizarrices e quebras de recordes. Você conhece a mulher que tem os maiores lábios do mundo? Ela já fez trocentas cirurgias plásticas para ter verdadeiros colchões de silicone na boca; se chama Andrea Ivanova. E o brasileiro que consegue projetar os olhos 18 cm para fora das órbitas? Chama-se Sidney Carvalho, e está no Guinness. E o americano que durante 50 anos comeu um Big Mac por dia? Chama-se Donald Gorske e, pasmem!, ainda não sofreu um infarto. E o que dizer de Michel Lotito? Ele chegou a comer um aeromodelo de metal entre outras bugigangas indigeríveis. A lista vai aumentando e aumentando e aumentando, quase sem fim. Essas são algumas das coisas mais “estranhas” realizadas, entre inúmeras outras no decorrer da história — e não vejo ninguém propor uma maneira de impedi-las; por quê?

Não estou defendendo a censura ou o não direito à liberdade individual, não é isso. Mas, por que raios em muitos países é proibido falar de Cristo e não de Mohamed? Pode-se louvar Mao, Fidel e Stálin e nenhuma palavra emitida sobre Paulo, João, Pedro e Tiago? Por que criticar certas pautas progressistas é crime e pecado enquanto se matam bebês, destroem-se reputações, ataca-se a infância, e os pais são meros incubadores e pagadores de impostos?

Se Lucky Rich pode tatuar 100% da sua pele e Nilanch Patel, quando adolescente, tinha o maior cabelo do mundo: 1,70 m; por que dizer, pensar, cogitar ou especular que o Parenthood é um abatedouro humano — uma mulher foi presa por orar silenciosamente próxima a uma clínica de aborto — é pecado?

São tempos difíceis, como dizia o apóstolo Paulo.

Enquanto isso, os impostos subirão, o dólar subirá, os benefícios e privilégios das poucas mas barulhentas castas brasileiras e mundiais subirão, e você e eu, cada vez mais, não teremos outra coisa a fazer senão pensar: onde fica o fundo do poço?

E nem posso ajudá-lo, pois ainda não chegamos lá! 



06 agosto 2026

Barrabás - Pär LagerKvist

 



Jorge F. Isah

 

      Conheci Pär Lagerkvist recentemente e, até então, era-me um completo desconhecido. Talvez, tivesse visto o seu nome quando criança, pois gostava de ler a lista dos “nóbeis”, assim como lia a das seleções campeãs de futebol, dos “óscares” e dos homens mais altos do mundo. Era um garoto de listas e nada melhor do que verificar todos aqueles a escreverem seus nomes na história, ainda que não fizesse a menor ideia de quem fossem.

      Assim como os olhos passavam pelas listas, Lagerkvist também passou por eles, sem deixar lembranças.

      Por conta da indicação de um amigo, comprei o livro “A morte de Ahasverus”, da editora Sator. Infelizmente, ele se perdeu em minha lista caótica de leituras, que está sempre a mudar e lançar novas aquisições para o “limbo” até que paguem as suas penas.

      Então, em um sebo, vi uma edição lindíssima da Opera Mundi¹, de Barrabás, e resolvi fazer jus ao sueco.

      Todos sabemos quem foi Barrabás. E Pär traça uma história fictícia, desde os momentos da crucificação de Jesus até a morte do protagonista, décadas depois. Assim como ele, Lagerkvist é econômico na escrita, feita de silêncios — nada barulhenta — quase seca, sem floreios, mas inquietante e reveladora.

      É uma história de substituição, quando o bandido é salvo da morte pelo Santo. Barrabás não entende a razão de não ser ele o crucificado, já que Jesus era inocente e puro. Ele não crê — e não há qualquer fé na divindade de Cristo — mas ainda assim reputa injusta a morte do puro. Contudo, algo o inquieta: por que tantas pessoas creem em um homem que se diz Deus mas morre miseravelmente como escravo? E, por que ele, um criminoso, foi poupado?

      A partir desse evento, quem conhecia Barrabás, incluindo a amante, nota diferenças em seu comportamento. Ele não é o mesmo. Algo o impulsiona a conhecer mais do homem e o porquê de tantos venerarem quem o substituiu na cruz. Esse tipo de morte era o mais infame e humilhante entre todos: ao ponto de não ser aplicada a nenhum cidadão romano. Como o profeta poderia ser então o Filho de Deus?... Esse é o cerne do livro. Não se refere à pessoa de Barrabás, mas porque ele não crê, tenta crer, e, ainda assim, as dúvidas não se dissipam, não importando a sua condição momentânea. Ele é um homem de incertezas, muito mais do que se imagina.  

      Ele segue cristãos, tenta aproximar-se, mas sempre paira sobre ele o estigma de ser o culpado pela morte do mestre. E isso, cada vez mais, cai sobre os ombros como a única convicção.

      Quando livre, sente-se preso ao destino. Quando escravo, há apenas resignação. E se busca compreender aquele fato — o divisor da sua vida — nada parece fazer sentido, nem mesmo quando a fé alheia põe à prova o seu ceticismo.

      Não é questão de hipóteses metafísicas, onde a mente passeia sem pisar em terra firme, mas de sentido onde a razão é um fio de cabelo solto na ventania.

      E, talvez, os verdadeiros grilhões sejam a impossibilidade de fé, e dela arrastá-lo como um trapo na lama.

      Ele, o liberto, está mais preso do que nunca. O vivo, está morto. Enquanto o crucificado vive. Ainda que na alma de uma multidão de súditos, dispostos a morrer para manterem-se escravos. Qual a lógica?... Está muito além da sua compreensão. Mas, no íntimo, como gostaria de prová-la.

      Lagerkvist não culpa ou absolve Barrabás². Revela a sua humanidade: do homem caído, sem rumo, e cujo coração, moldado pela descrença, não sabe no que crê, ou melhor, se recusa a crer... Nada de amigos, cúmplices, deuses e, nem ele mesmo. A medalha com os dizeres: “Christos Iesus” feita pelo colega, Sabak — um cristão — e posteriormente riscada —com uma cruz — pelo governador romano, a quem serviam, era mais um emblema de maldição do que graça.

      Diante da morte, Barrabás apostata, sem nunca na verdade ter se convertido, enquanto Sabak permanece firme em sua fé, e, por ela, é condenado à morte.

      No fim, o homem a quem Barrabás perseguiu mas jamais alcançou, trouxe-lhe à mente as suas últimas palavras:

      — A ti entrego a minha alma.

      E não sabemos se a verdade enfim o salvou... Apesar da morte. 

 



1- Comprei a edição da Opera Mundi, mas a leitura se deu na edição da Editora Sator.

2 - Da mesma forma, Pär Lagerkvisk parece não acusar ou inocentar a Deus.