18 maio 2026
Deus não tem escolhas
11 maio 2026
No Exílio - Elisa Lispector
Jorge
F. Isah
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Elisa é a escritora menos famosa da
família Lispector. Os holofotes, na
maioria das vezes, são reservados para a irmã caçula, Clarice. E, convenhamos,
apesar do talento de Elisa, as homenagens à irmã não são exageradas ou
inflacionárias; o que, entretanto, não significa dizer que Elisa careça de
mérito ou seja uma autora desnecessária. E a prova está aqui, neste romance
autobiográfico em que a vida da família Lispector se mistura aos dramas e
expectativas do seu povo e nação: judeus e Israel.
À primeira vista, “No Exílio” pode
significar apenas mais uma saga de imigração, a busca de novos ares, a
sobrevivência e a concretização de sonhos. Porém, à medida que a narrativa
flui, a história dos refugiados se
mistura e entrelaça com a formação do novo estado israelense.
Vivendo na recém-fundada U.R.S.S, após a
revolução Bolchevique, os Lispectores (Pinkhas e Mania, pais; Elisa, Tania e
Clarice, filhas) são perseguidos, assim como outros tantos judeus, por vários
grupos revolucionários (pogroms), e a trágica perseguição, expropriação,
execução e massacre de vilas e cidades é consentida pelo governo soviético que,
direta ou indiretamente, colabora com o extermínio sistemático de comunidades
inteiras no território russo, indo além de suas fronteiras, como nas áreas
conquistadas durante a Guerra Civil. Tais acontecimentos proliferaram
massivamente na Ucrânia, país de origem da família de Elisa e uma das maiores
colônias de judeus da Europa. Odessa, por exemplo, chegou a ter, no início do
século XX, um terço da sua população composta por judeus.
O cotidiano era de incertezas, ameaças,
invasões e mortes sumárias, sem contar os inúmeros casos de chantagem, saques e
ataques generalizados às comunidades: destruição de sinagogas, da identidade
cultural e religiosa, profanação com a queima de rolos e pergaminhos da Torá,
outros textos sagrados e símbolos. Fica evidenciada uma “diáspora” naquele
momento, em que as pequenas localidades eram dizimadas e populações de judeus
se viram obrigados a fugir para as maiores cidades, a fim de se protegerem.
Eles eram acusados pelos monarquistas de bolcheviques, enquanto os bolcheviques
lhes imputavam monarquismo e burguesia.
Na primeira parte, Elisa descreve a
estrutura familiar, a sua infância, apreensões e anseios. Estamos diante da
luta pela sobrevivência, onde os valores morais, tanto à vida como ao
patrimônio, são sistematicamente destroçados. Ela relata incidentes com amigos
e vizinhos, e o banho de sangue que todas as revoluções se especializaram em
ostentar como marca registrada. A ideia
de que os judeus são usurpadores, enriquecem ilegitimamente, exploram o
semelhante, sempre foi o axioma para a extorsão, roubo e aniquilação. É uma
fonte de renda sem impedimentos ou
obstáculos e, via de regra, em vários momentos da história, foram implementadas
como solução.
Os incidentes soviéticos são referenciados
como “laboratório final” para a “solução” germânica do holocausto. De uma forma
até então inimaginável, salvo a inquisição, o “ensaio geral” revelou que o
genocídio semita seria “première” de estrondoso sucesso.
Nesse contexto, os Lispectores decidem se
mudar para a América, e as poucas reservas financeiras são gastas com
“coiotes”, aproveitadores sem quaisquer escrúpulos, sob a tutela de uma burocracia corrupta que
amealhava facilmente o seu quinhão. Engraçado notar que os mesmos a acusarem os
judeus de desonestos são a hipérbole da vilania.
Em meio a esse caos, Hitler e os nazistas começam a ascender
a cargos e postos na Alemanha, derrotada na Primeira Guerra, e o espírito
antissemita se alastra célere pela Europa.
Mas, talvez, em lugar nenhum antes dos campos de extermínio do 3º Reich,
os prenúncios do que viria a acontecer foram tão explícitos como na União
Soviética.
Na segunda parte, Elisa descreve o périplo, onde a fuga era a
única saída e a esperança estava a além-mar, do outro lado do Atlântico. As comparações com o êxodo de Israel, do
Egito à Terra Prometida, ganham contornos de similaridade,
Aportam em Maceió, em 1922, e são
recebidos pelo irmão de Pinkhas, Samuel, e esposa, estabelecido como empresário
na capital alagoana. Por essa época, os nomes ucranianos foram substituídos por
correlatos: Pinkhas virou Pedro, Mania virou Marieta, Chaya virou Clarice.
Samuel não deu vida fácil ao irmão,
recém-chegado. De todas as formas, procurou explorá-lo, utilizando-se da
inexperiência e baixa comunicação dele entre os nativos. Por três anos, Pinkhas
foi aviltado, até que se cansou da situação e resolveu partir para Recife, em
novo êxodo, à busca da tão sonhada terra prometida.
Lá, trabalhou como vendedor, e abriu um pequeno
negócio de secos e molhados. Mas a penúria financeira da família era grande,
agravada pela doença degenerativa da matriarca, cujos cuidados ficaram a cargo
de Elisa. Ela também era responsável pelos afazeres da casa, do pai e das irmãs
menores. Havia uma ligação mais forte com Pinkhas, estudioso da cultura judaica
e escritor para jornais israelenses, e que estimulava a primogênita com conversas
sobre as mazelas do seu povo, os rumos políticos que o Ocidente tomava e a
necessidade de mudanças. O crescente antissemitismo na Europa era a predição de
dificuldades ainda maiores para o seu povo.
Elisa descreveu os seus obstáculos, desejos e
escolhas, como a de não se submeter ao casamento arranjado, mesmo reconhecendo
as boas intenções paternas. Formou-se na Escola Normal de Pernambuco e estudou
no Conservatório de Música, iniciando o magistério com crianças em Recife.
Por essa época, o 3º Reich tomava forma na
Alemanha, e Hitler se tornara um homem poderoso, líder carismático e populista,
assumindo o título de Chanceler em 1933. Dois anos depois, os Lispectores mudaram-se
para o Rio de Janeiro.
Não há, na obra, citações do
desenvolvimento educacional e artístico da irmã Clarice. As referências são
esparsas e econômicas, mais voltadas para o dia a dia da família. Isso se dá,
pois a autora se preocupa em relatar o seu próprio exílio, inclusive por não se
enquadrar no esquema rigoroso da cultura do seu povo. Também, ela foca no
exílio paterno, ao qual Pinkhas nunca se submeteu, e melancolicamente se
convencia do abandono dos concidadãos pelas nações; e em graduações diferentes,
da conivência e sustentação das políticas antissemitas e a favor dos muitos
“pogroms”.
Clarice, Tania e os demais membros foram
tratados perifericamente, à exceção da mãe, sua doença e suplício, que trazia
tanto desconforto à família, especialmente Pinkhas e Elisa, num nítido
paralelismo com a aflição do povo judeu.
Não entrarei em mais detalhes, para não
tirar o prazer do leitor em se debruçar sobre “No Exílio”. A linguagem
empregada pela autora é fluida, simples sem ser banal, formal sem ser
hermética. O estilo é quase linear, cronológico, com esparsas digressões e
baseado, majoritariamente, no pensamento e reflexões de Elisa e Pinkhas. E, como
disse no início, não se pode esquecer das constantes relações entre as
peripécias familiares e analogias com a situação de Israel naquele período — as
implicações entre ambas se entrelaçam, numa rede da qual, especialmente o
patriarca, não pôde se desvencilhar. Os dramas se cruzaram e se atravessaram
num quase permanente estado de angústia tricotômica.
Podemos conhecer um pouco mais da história
e do exílio individual e coletivo dos Lispectores e da comunidade judaica.
Não é um livro alegre. Não existe
esperança, porque o sofrimento de um é o sofrimento de todos, mesmo que nem
todos estejam em martírio. Restou a Elisa e os seus aceitarem o exílio, e
reconhecerem que não existe, neste mundo, uma terra prometida.
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Avaliação: (***)
Título: No Exílio
Autora: Elisa Lispector
Editora: José Olympio
Páginas: 210
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29 abril 2026
Estudo sobre a Confissão de Fé Batista de 1689 - Aula 46: "Uma marca cristã desprezada"
Jorge F. Isah
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A Bíblia aponta-nos vários dos nossos deveres como cristãos e como membros do corpo local:
- Orar uns pelos outros [Tg 5.13-16];
- Exortar e edificar uns aos outros [1Ts 5.11, Hb 3.12-14] - Exortar é uma palavra que traz vários significados, como: Aconselhar, persuadir; animar, encorajar, incitar; sempre em relação à uma vida de fé genuína e santa ao serviço de Deus;
- Levar as cargas uns dos outros [Gl 6.2];
- Sujeitar-nos uns aos outros [Ef 5.14-21].
Estes são princípios estabelecidos por Deus para que o seu povo caminhe em unidade e santidade, cumprindo o mandamento do Senhor de amar ao próximo como a si mesmo. Na verdade, o ensino que temos é até superior, de amar o próximo mais do que a nós mesmos, pois foi assim que Cristo agiu ao entregar-se por nós. Ele nos amou com um amor superior, levando-o à cruz para que fôssemos libertos do pecado e condenação, a morte eterna e definitiva. Devemos ter em mente sempre o outro, especialmente o irmão, caminhando com ele, lado a lado, em meio às tribulações, tristezas, sofrimentos e dores que o mundo nos infringe, sustentando-nos mutuamente. Por isso somos admoestados a orar, exortar, instruir-nos reciprocamente; a carregarmos os fardos duros e pesados uns dos outros, de forma que ele se torne mais leve para o irmão, o qual também auxiliar-nos-á a diminuir o peso das nossas cargas.
Sabemos que é pelo poder de Cristo, por sua bondade e misericórdia, que recebemos o consolo e o alívio nas atribulações, pois, sem ele, nada seríamos ou poderíamos realizar. Contudo, é estimulante saber que os irmãos se interessam pelo nosso sofrimento e dores, e esteja, cada um segundo o dom que o Senhor dá, disposto a reconhecê-las como também suas, já que os membros colaboram, cada um, para o bem do corpo. Creio que o Senhor nos deu essas orientações para não nos preocuparmos além da conta, além do necessário, com os nossos problemas, também. Este é o caráter pedagógico do auxílio, não nos deixar entristecer exageradamente, mais do que a tristeza convém e, de certa forma, alegrar-nos no zelo e sustento para com o irmão aflito [parece contraditório, mas o sofrimento do outro pode nos "tirar" do círculo vicioso em que muitas vezes nos encontramos, em meio aos problemas triviais e corriqueiros do dia-a-dia. E a nossa tristeza com a aflição alheia pode tornar-se na alegria dele, de não se reconhecer sozinho e abandonado em sua luta, fortalecendo-o, de forma que ele também nos fortalecerá. Na física esse princípio seria chamado de "lei da ação e reação", em que o amor e a piedade atribuídas retornam-nos de forma equivalente].
Acredito que esses são pontos que não suscitam muitos debates, gerando divergências. Normalmente são esquecidos ou relegados ao nível do desinteresse, seja por considerá-lo algo trivial, reles, sem muita importância, ou por certa soberba de se achar que já o alcançou e de que as etapas a serem vencidas são outras. Ledo engano! Em um mundo cada vez mais individualista e rebelde, a igreja também tem se individualizado e se rebelado contra os preceitos divinos. Igualmente, cada vez mais, os crentes se consideram autônomos e donos dos seus narizes, de forma que o sustento, auxilio e piedade se tornam escassos, quase invisíveis. Não que devemos alardear aos quatro cantos o auxílio ou consolo ou sustento que devotamos ao próximo, mas é que o próprio estado de coisas tem revelado o quão distantes estamos de viver uma vida verdadeiramente cristã, aos moldes bíblicos. Quase ninguém se interessa mais por uma prática cristã, no sentido de fidelidade à Escritura e de dar os frutos que o Espírito produz no homem regenerado. Os holofotes estão ligados e cada um quer a sua porção de luz, sem se preocupar em ser ele próprio a luz. Muitos reduzem a vida cristã a falar de Cristo para as pessoas, e eu já vi incrédulos repetirem versículos, referirem-se a Jesus, como muito crente não é capaz de fazer. Mas, então, tem-se um detalhe: ele fala bem, até mesmo com probidade e correção, mas a sua vida pessoal não espelha sequer um milímetro do que diz. E é este o ponto principal do qual não podemos nos esquecer, e do qual o Senhor alertou-nos: pode uma árvore má dar frutos bons e vice-versa? [Mt 7.17-20].
A parábola dos talentos assevera mais fortemente este ponto [Mt 25.14-30 cf. Lc 12.42-48]; no sentido de que somos mordomos do que Deus nos dá, e quanto mais ele nos dá, mais devemos honrá-lo, produzindo os frutos proporcionais à sua dádiva. Ou seja, somos ordenados a cuidar com amor, empenho e dedicação de tudo o que dispomos e que nos foi ofertado graciosamente. Não fazê-lo implicará em omissão, negligência e desobediência, resultando na ordem que o Senhor profere: "Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos. Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado".
Assim devemos proceder em tudo, na vida pessoal, profissional, e na igreja. Há os que pensam ser possível uma vida aparente ou "mínima" no corpo de Cristo. Penso que se enganam a si mesmos os que assim agem. A vida cristã tem de ser intensa em seu zelo, amor, e em produzir os frutos para a glória de Deus. É claro que tudo isso é proporcional ao que Deus nos deu e capacitou-nos a gerir. Ele não dará mais do que podemos suportar, como está escrito: "Não veio sobre vós tentação senão humana, mas fiel é Deus que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar" [1Co 10.13]. O verso se refere diretamente à tentação para o pecado, mas podemos, por princípio, levá-lo a todos os aspectos da vida, pois Deus não dá um fardo maior do que podemos carregar, já que, com o fardo, nos dá juntamente os meios de suportá-lo.
Voltando à parábola dos talentos, um servo ganhou cinco talentos, enquanto o outro dois, e o último um. Quando o Senhor voltou, os servos foram prestar-lhe contas. O primeiro devolveu-lhe dez talentos, o segundo quatro, e o último o mesmo talento que recebeu. Ou seja, este não soube o que fazer com o que Deus lhe dera, não soube aplicar o seu dom, ao contrário dos demais. Por isso foi reconhecido como mau e negligente servo, e lhe foi tirado o dom. A parábola nos remete a reconhecer Deus como o doador de tudo, inclusive dos nossos talentos e dons. Aquele que não sabe aplicá-los correta e convenientemente é como se não os tivesse; como um cego que quer ver ou um surdo que quer ouvir, com o agravante de que ele tem olhos e ouvidos bons, mas não sabe usá-los ou não os quer usar [Rm 12.4-8].
Na igreja do Senhor, devemos sempre buscar o melhor para nós e os demais irmãos e sermos o melhor que podemos ser, inclusive para nós mesmos, sem nos esquecer de que maior amor tem aquele que dá a vida por seu irmão. Parece um refrão de um cântico antigo ou um slogan, mas para nós tem de ser uma bandeira pela qual vivamos.
Este preâmbulo tem o objetivo de se chegar a dois outros pontos, que considero mais polêmicos e problemáticos dentro da igreja:
1) A autoridade eclesiástica – [1Ts 5.12-13, Hb 13.17]. Os oficiais da igreja governam não para si mesmos, nem a partir de autoridade própria, mas a autoridade investida por Deus, como servos [1Pe 5.1-5, conf Mt 20.26-27];
2) Sustento pastoral - 1Tm 5.17; Lc 10.7; At 28.8-10.
Os quais serão expostos e discutidos nas próximas aulas.
22 abril 2026
Ele & Ela - Antídoto para uma série ruim
Jorge F. Isah
Este mês, motivado pela ausência da minha esposa,
pois estava a visitar seus parentes em B.H., resolvi assistir a uma das novas
séries da Netflix — não sei se nova para a grade ou apenas para mim, já que
raramente me arrisco a séries atuais, salvo indicação de amigos confiáveis. Sim,
sou arredio com as novidades por vários motivos. E podem me chamar de velho e
antiquado, porque não estou nem aí, e não faço qualquer questão de ser
moderninho ou descolado — e, digamos, me surpreendi.
A princípio, chamou-me a atenção a
presença de Jon Bernthal, ator acima da média. Esse foi o principal chamariz.
E, também a possibilidade de não me ver maratonando por horas a fio, algo que
não tenho me entregado desde que descobri “Downton Abbey”— talvez seja o maior
estímulo: uma minissérie em seis capítulos.
A história não tem nada de novo: um crime,
seguido de outro crime, e outro, um detetive que era amante da primeira vítima,
um casal em crise, amizades tóxicas, garotas perversas, hipocrisia, etc, etc, e
toda aquela lenga-lenga da qual já estamos acostumados.
As pistas, inicialmente, se voltam para
Anna — interpretada pela mediana para baixo, Tessa Thompson — esposa do
detetive Jack Harper — Bernthal —, que também é um dos primeiros suspeitos. O
roteiro privilegia os clichês, não tem personagens profundos e bem
caracterizados, muitas cenas soam artificiais ou incoerentes — como as de
Harper soltando provas para todos os lados, enquanto realiza inquéritos nos
balcões de bares e estacionamentos — mas a direção consegue manter o clima de
suspense e a produção não precisou criar nada mirabolante para suster a
atenção.
Harper é o marido traído, com o casamento
destruído pela morte da filha recém-nascida, mora com a irmã alcoólatra e tem
uma sobrinha pequena. Quer mais?... Anna é uma jornalista que perdeu o cargo de
âncora na TV, pelo sumiço de um ano sem deixar rastros, após a morte da bebê.
Mesmo assim, é readmitida na emissora e começa a trabalhar no caso dos
assassinatos imediatamente, protegida do chefão Jim Pruss, personagem criado
apenas para respaldar a nova ascensão na carreira de Anna.
Como em todo suspense policial, as pistas
apontam ora para um, ora para outro, ora para aquele, e, sabemos, no fim,
haverá uma reviravolta e aquele personagem que ninguém imagina é o verdadeiro
criminoso. Tudo se encaminha para Catherine, mas quando o desfecho acontece e
percebe-se que ainda faltam quase trinta minutos da série, a pergunta vem: qual
será a surpresa mirabolante para enganar o espectador?
Nos livros e na dramaturgia, salvo raras
exceções, as pistas levam quase inevitavelmente ao algoz e, no final, temos
confirmada a autoria. Bons escritores e dramaturgos não estão preocupados com
“final apocalíptico”, mas com o enredo, em produzir bons personagens, em
desenvolver a trama de tal maneira que ela sustente o livro ou peça, sem
precisar de malabarismos e invenções. Não sei quando as coisas mudaram e a
necessidade de uma reviravolta épica — na maioria das vezes sem sentido, como a
explosão do carrinho de cachorro-quente no parque de diversões espalha pétalas
e balõezinhos coloridos ao invés de salsicha e molho de tomate.
Aqui, a despeito de haver alguns bons
atores — Bernthal, Crystal R. Fox, Marin Ireland — o roteiro é tão pobre e a
caracterização tão superficial que escorregam, e o chão é o lugar de todos.
Tentarei não dar spoiler, mas não sei se conseguirei.
Alice, uma anciã com Alzheimer, aparece
secundariamente na história. Aquele drama pessoal e familiar da protagonista,
Anna, que, contudo, não a impede de negligenciá-lo, preocupada com a carreira e
as disputas internas no trabalho. Em momento algum, existe empatia entre mãe e
filha, e a importância da relação se dá apenas pelas sequelas do passado.
Como disse, lá em cima, os clichês são abundantes.
E o fim é o ápice deles. De uma inverossimilhança patética e irrealizável, com
justificativas saídas da boca de um infante assustado com a história do
“Chapeuzinho Vermelho” — escrita por Perrault e não a versão dos Irmãos Grimm —
e que decidiu estragá-la completamente.
Lembrou-me, um pouco, Tarantino, “o rei da
vingança” — mas com talento — onde nada importa, apenas pagar com a mesma
moeda, se possível, com juros. E os laços entre mãe e filha se reatam ou se
amarram em um final feliz, sorridente, sem culpas ou desculpas.
Talvez, esteja se perguntando: “por que
raios, no início, você se surpreendeu?”
Vou lhe dizer claramente: percebi o quanto
a minha esposa faz falta. Peguei o telefone, liguei para ela, e ordenei o seu
retorno imediato, ou faria uma besteira. Quando ela me perguntou qual besteira,
disse que, além de cancelar a assinatura da Netflix, iria desaparafusar a TV da
parede e jogá-la no lixo.
No dia seguinte, estávamos juntos, e
assistimos “Ele & Ela”. E não é que gostei?
15 abril 2026
Nelson Rodrigues - o maldito mais amado do país
Jorge F. Isah
Frases polêmicas, mas nem tanto...
“Invejo a burrice, porque é eterna.”
“Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista.”
“Só o inimigo não trai nunca.”
“A liberdade é mais importante do que o pão.”
“A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.”
“A plateia só é respeitosa quando não está a entender nada.”
“A televisão matou a janela.”
“Amar é dar razão a quem não tem.”
“Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.”
“Qualquer indivíduo é mais importante do que toda a Via Láctea.”
“Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.”
“Deus está nas coincidências”
“Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.”
“Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem.”
“Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.”
“Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia.”
“Jovens: envelheçam rapidamente!.”
“Nem toda mulher gosta de apanhar. Só as normais.”
“Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias.”
“O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.”
“O biquíni é uma nudez pior do que a nudez.”
“O brasileiro é um feriado.”
“O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.”
“O morto esquecido é o único que repousa em paz.”
“Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas.”
“Se os fatos são contra mim, pior para os fatos.”
“Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta.”
“Amar é ser fiel a quem nos trai.”
08 abril 2026
Manda-Chuva
Jorge F. Isah
28 março 2026
Reflexos num olho dourado - Carson McCullers
Jorge
F. Isah
Recentemente, travei contato com a obra de
McCullers, por intermédio de outros autores do sul americano, como Faulkner e
Flannery O’Connor, e a minha primeira incursão foi no seu romance de 1941,
“Reflexos num olho dourado”.
É um livro pequeno, pouco mais de 140
páginas, mas de densidade claustrofóbica e com tantas nuances — tantas quanto
se possa achar. Boa parte da crítica o coloca como um livro “queer”, num
reducionismo irritante, pois, apesar de tocar no aspecto homossexual do
protagonista, não é nem de longe o foco da narrativa.
Gastei uns três dias, mas desde o início,
ainda na primeira página, percebi que não o podia tratar ligeira e
superficialmente. Havia muito a desenterrar em seus escombros. Ainda assim,
mesmo depois de concluído, decidi esperar um pouco para maturar as impressões e
esquadrinhar as que houvessem me escapado. Via de regra, não sou apressado em
fazer resenhas, mas, neste caso, a prudência era ainda mais necessária.
Antes de continuar, existe um filme
dirigido por John Huston e estrelado por Marlon Brando e Elizabeth Taylor,
baseado na obra. Tentei encontrá-lo em vários streamings, sem sucesso. Uma
pena, pois a ideia do trio trabalhar o texto de McCullers seria, no mínimo,
instigante.
À primeira vista, como já disse, parece
tratar de um triângulo amoroso onde o adultério e a homossexualidade, aliados à
hipocrisia e opressão social, parecem o âmago do tema. Mas não.
Há um gay não assumido, Capitão Penderton — casado
com a femme fatale, Leonora, amante do Major Langdon, vizinho e superior
do marido na base militar no sul dos EUA —,cujo segredo é protegido sob sua
autoridade oficial. O mesmo não se dá com a relação adúltera entre Langdon e
Leonora, a ponto de todo o “Campo” (não há nominação da base militar) sabê-la.
Leonora, especificamente, parece pouco interessada
em esconder a traição, e o seu descuido reforça a suspeita e confere ao rumor
um tom de tácita autenticidade. Logo, ela não se interessa pelos sentimentos
dos outros e quer, acima de tudo, provocar tensão e fazer as pessoas orbitarem
nela — o único apego real e sincero, se
é possível chegar a tanto, se dá em sua relação com o cavalo Firebird,
um puro-sangue sob a responsabilidade de um soldado, cuja participação será
tratada mais à frente.
Então, não se trata apenas de chocar a
sociedade ou discutir questões meramente
sexuais; sequer levantar alguma bandeira, seja ela qual for. Na história da
literatura, e muito antes de Carson, houve autores mais incisivos e explícitos
quanto ao assunto.
O “Campo” é um claustro, onde os desejos
se tornam obsessões, e as relações são levianas, superficiais e marcadas por
forte tensão, por conflitos violentos, apesar da “normalidade”. É nítido o
quanto os personagens sofrem, uma aflição nada intermitente, onde a superfície
camufla quase ineficientemente a angústia de suas almas. McCullers não parece
disposta a permitir um único minuto de paz e, certamente, nenhum deles sabe o
seu real significado — não há como procurar o que não se conhece e alcançar o
que não se vê.
Existe um código desonroso entre o núcleo principal,
que se relaciona em aparente amizade, com jantares, festas, recepções, de uma
gentileza forçosa e artificial, onde conversas e atitudes não refletem a raiva,
a indiferença e o desprezo que se tem um pelo outro. Poder-se-ia chamar essas
relações de parasitismo assimétrico, que definiria o quão prejudicial e danoso
podem ser certas “colaborações” entre os homens.
No grupo secundário, temos a esposa do
Major Langdon, Allison e o seu ajudante filipino, Anacleto; e ainda o soldado
misterioso e circunspecto, Williams, o cavalariço. Neste grupo, apesar de serem
igualmente disfuncionais, ao menos sabem o seu papel no mundo e na vida alheia,
ao contrário da outra tríade.
Penderton é um homem austero, ambicioso e
covarde, que mantém um casamento de fachada e despreza intensamente a sua
esposa. Leonora é uma mulher superficial, fútil e sedutora em sua beleza
crepuscular. Langdon é o seu amante, um homem ao estilo macho-alfa. Não existem
santos, muito menos inocentes. Todos são culpados por suas fraquezas e, em
algum nível, pela debilidade alheia.
Alguns apontam a isenção da autora em
evitar qualquer tipo de censura aos seus personagens, mas a maneira como ela os
descreve, seus rompantes e instintos, rebate fortemente essa premissa. A
incapacidade de comunicação, afetividade e compreensão, fruto da imoralidade
sem freios, os leva ao caos relacional — no fundo, tudo se resume ao poder
fragmentário e minguado.
Williams é um voyeur atormentado por
Leonora. Ele se entrega à compulsão de vigiá-la à noite e fazer incursões até o
quarto enquanto ela dorme. Ele é um adulto que se infantiliza diante da figura,
de uma imagem idealizada de Leonora, poderosa, magnética. Por falar nisso —
talvez, no futuro, escreva algo mais abrangente —, na maioria dos casos a
compulsão e os delírios sexuais, independente da monta, deficiências e
justificativas, originam-se na infantilização do indivíduo, a culminar na
infantilização do seu objeto de prazer, seja uma pessoa, animal ou qualquer
outra coisa a movê-los numa espécie de regressão psicocomportamental. Tal qual
a comilança, que parte do princípio da necessidade alimentar e descamba para a
glutonaria, o exagero e a submissão ao desejo. O descontrole sempre — ou quase,
vá lá! — terá por axioma o imoral e o antiético. Aqui, Carson parece entender
completamente isso: adultos que se portam como adolescentes ou púberes.
Penderton é atormentado pelo corpo nu do
soldado Williams e, como ele, é também um perseguidor. Procura os momentos para
aproximar-se, mas é incapaz de revelar a sua atração. E isso o torna instável e
vacilante.
Langdon passeia pela amante como um
carteiro pela rua. Nada além do seu apetite sexual a guiá-lo.
Leonora, como disse, esconde-se em sua
beleza; mas já a vislumbra perdida, em breve.
Allison é a esposa traída, que sabe da
amante do marido, mas sucumbe ao silêncio e no desejo irrealizável do divórcio.
Anacleto é o único amigo sincero, leal,
protetor. Filipino e afeminado, é para Allison o que o marido não consegue ser,
e, de uma maneira engraçada, serve de consciência para Langdon, na tentativa de
mostrar os seus equívocos e chamá-lo à realidade. Porém, o major o vê apenas um
“macaquinho” zombeteiro e provocador, uma figura exótica, a qual conserva
exclusivamente para “encobrir” suas negligências quanto a Allison, e ao servir
de única companhia.
Em última análise, o desfecho final não é
meramente acidente, como muitos presumem. McCullers, ainda que não cite uma
única vez algo transcendente, não absolve os seus personagens. Cada um, à sua
maneira, é condenado por seus pecados, desvios e ausência completa de virtudes.
Todos se verão culpados, e os seus desejos levam a consequências trágicas e
perturbadoras. Apenas o inofensivo Anacleto escapará dessa sina, como se a
consciência fugisse dos efeitos deletérios e não mais houvesse lugar para ela.
Os demais terão de conviver com suas escolhas — destruídos na desonra da
vontade e cobiça.
E o que para alguns simboliza a liberdade,
não é nada além de reflexos — o resultado de uma vida indireta — o desbotar num
olho dourado.
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Avaliação: (****)
Título: Reflexos num olho dourado
Autora: Carson McCullers
Editora: José Olympio
Páginas: 142
25 fevereiro 2026
Roleta Russa
Jorge F. Isah
12 fevereiro 2026
Dom Quixote de la Mancha - Miguel de Cervantes: do cavaleiro de ideais aos delírios contemporâneos
Jorge
F. Isah
Havia algum tempo que precisava — e queria
— reler Dom Quixote. A primeira investida se deu na adolescência, em uma
condensação (algo comum, àquela época, para os ginasianos e, com o tempo,
acabou por se tornar “referência” a muitos adultos indolentes, ao menos em
relação aos clássicos), e, se não me falha a memória, realizada por Monteiro
Lobato ou Carlos Drummond, ou qualquer outro grande literato.
Entre os dez e quinze anos, investi nos grandes
volumes em versões resumidas. À época, foi a maneira das editoras estimularem,
tal qual um aperitivo, as leituras densas e volumosas a fim de aguçar os
novatos, vender e usá-las como chamariz para se chegar, em breve, aos originais.
Não sei se funcionou com a maioria, penso que não. Comigo, muitos me chamaram a
atenção e o desejo de tê-los na íntegra, outros, nem tanto.
Lá pelos vinte anos, li Dom Quixote, mas
não gostei. Na verdade, gostei, mas não foi apaixonante. Percebi o humor, a
ironia de Cervantes e a crítica aos romances de cavalaria, mas não achei nada
demais. Estava às voltas com existencialistas, e qualquer coisa que não fosse o
sofrimento dos personagens, suas angústias, dúvidas e o sem sentido da vida,
além da linguagem mais direta e menos caudalosa, não me seduziam.
Isso me leva a refletir sobre a crítica à
literatura fantasiosa e, por que não, fútil: nitidamente, Dom Quixote é um
farsante não intencional, desapegado em obter lucros e dividendos para si. Mas,
contaminado pela leitura compulsiva dos romances de cavaleiros, princesas e
batalhas, tentou reconstruir, em suas andanças e aventuras, os mesmos padrões
da ficção. Cervantes entende essa literatura como algo danosa, e, na boca de
vários personagens, critica abertamente o gênero.
Porém, Quixote é um idealista, sonhador, homem de
honra, intrépido e destemido, disposto a se sacrificar por qualquer um que
esteja em perigo, não segundo a realidade, mas segundo as suas concepções de
realidade. Não é difícil a comparação com o Cristo — e toda analogia tem suas
fraquezas —, quando a mente de Cervantes materializa no seu protagonista
algumas características do homem perfeito, especialmente na capacidade de
sofrer abnegadamente, sem se ater aos seus desejos, em primeira instância, mas
vislumbrando o próximo e seus dramas. Em algum sentido, Quixote é o mártir que
vê o próprio sacrifício com esperança, de ser capaz de mudar vidas, corrigir
desastres, empreender justiça e redimir condenados diante de um mundo cínico e
em desordem. Era a visão de Unamuno, da qual compartilho.
Ele é, ao mesmo tempo, herói e anti-herói,
lúcido e louco, fiel mas desajeitado, realista e visionário, homem do presente
que escreve o futuro preso ao passado. É uma figura fantasticamente construída
com tudo o que de bom e ruim a humanidade possui.
Se Cervantes critica os folhetins
romanescos de cavalaria, por outro lado também tece advertências quanto à falta
de imagética, especialmente dos racionalistas, impedindo que emoções, outros conceitos
e estruturas sejam transmitidos. Se Quixote está errado em seus delírios e
arroubos, os racionalistas também estão em suas cadeias e caixas aparentemente
lógicas e factuais. Este é um ponto.
O segundo, se ao mesmo tempo em que o
autor denuncia a obsessão pela literatura cavaleiresca (seria o equivalente ao
“bestseller” atual), onde a padronização e a massiva exposição pública
simplesmente impedia o surgimento de, digamos, a boa literatura. Entre batalhas
memoráveis, dragões, monstros, exércitos sanguinários, mocinhos, donzelas e
vilões poderosos, o cavaleiro andante, muitas vezes solitário, era a força a
impedir a proliferação do mal. De certa forma, esse gênero afastava os letrados
da época (algo em torno de 10% da população) e os mantinham alheios ao real
conhecimento. O que dizer em pleno século XXI? Onde a literatura, e até mesmo a
capacidade de ler e entender, tem se tornado desnecessária na visão de muitos?
Terceiro, se havia fadas, bruxas, duendes,
capirotos, gigantes e fantasmas no século XVI, e, por isso, era um tipo de
subliteratura, não estariam vários títulos da atualidade enquadrados nesse
escopo? Cinco, seis séculos depois? Onde a pretensa racionalidade é cada vez
mais substituída pela irracionalidade, por narrativas e achismos que vão dos maiores
exageros até os mais frívolos?
Quarto, por que os leitores, ou cinéfilos,
gibimaníacos, noveleiros, voyeurs digitais, condenam tão veementemente
religiosos e não as suas preferências? Se ao ver deles, os religiosos se apegam
às “fantasias” e prestam um desserviço ao mundo, que raios de bem eles trazem
com suas mágicas e poderes sobrenaturais? Ou apenas ao homem é permitido
tê-los, mesmo imageticamente, e Deus (ou deuses) não? Por que a religião não
pode difundir seus valores enquanto as várias formas artísticas podem, sem
restrições? O que dizer de alguém com quarenta ou mais anos chorar a morte do
Homem de Ferro, abraçado à miniatura da Mulher Maravilha?
É fácil ver palpiteiros tecerem críticas e
exigirem o cerceamento de cristãos, por exemplo, alegando os danos que o “ópio
do povo” pode trazer às massas. Mas eles e seus seguidores se esbaldam em
cores, barulhos, efeitos e o culto a personagens e heróis de mentirinha, enquanto
enfrentam longas filas para o novo filme da Marvel ou o “dízimo” da Netflix.
Chega a ser constrangedor, no mínimo; pois é, na verdade, a transposição do
mundo quixotesco para o atual, onde os dois problemas se misturam
simultaneamente: pessoas que se dizem racionais, mas utilizam o mesmo escapismo
dos leitores medievais, e substituem a cosmologia transcendente por mitologias
seculares — e se consideram superiores e mais dignos do que religiosos. Se
Cervantes vivesse hoje, constataria que pouca coisa mudou.
No Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura e
seu fiel escudeiro, Sancho Pança, a imaginação e realidade nos faz rir, chorar,
sonhar e encher-nos de brio, honra, coragem e amor desinteressado. Não vou me
ater a detalhes da obra, pois talvez o faça na releitura do livro II... talvez.
O importante é falar que Miguel de Cervantes Saavedra construiu um dos
personagens mais emblemáticos e influentes da literatura mundial. Não sem
razão, é apontado como o maior romance de todos os tempos. Adorado por Faulkner,
que o relia ano a ano, e por tantos outros que escreveram sobre ele:
Dostoiévski, C. S. Lewis, Nabokov,
Borges, Turgueniev, entre outros.
Deixo a empreitada, portanto, para os
gigantes de verdade — a de analisá-lo com a profundidade merecida. De minha
parte, identifico-me demais com Sancho, capaz de ver o seu mestre como ele era,
com seus defeitos, teimosia e delírios, mas também de admirá-lo para além do
que os seus olhos viam.
_______________________________
Nota: 1- Ah, mesmo a tradução do Visconde de
Castilho, de 1876, é saborosa e nada difícil de ler. Claro que existem
expressões e termos não usuais hoje em dia, mas nada que dificulte o
entendimento da obra. No momento, estou lendo a tradução do Ernani Ssó, pela
Editora Penguin. Tenho as traduções do Milton Amado, do Aquilino Ribeiro e uma
edição “fac-símile”, provavelmente de
Francisco Gouveia de Morais, já que não encontrei referências. Falta-me a do
Sérgio Molina, pela Editora 34. Portanto, procure qualquer uma e não faça outra
coisa antes de lê-la.
2- Este ensaio refere-se ao Vol. 1, de Dom Quixote, perfazendo o total de 545 páginas. O Vol. 2, logo que o termine, valerá outra análise por aqui.

