18 maio 2026

Deus não tem escolhas























Por Jorge F. Isah




Algo complexo e de difícil definição é o conceito de liberdade. Ela pode representar várias perspectivas, de vários pontos de vista diferentes, e serem completamente antagônicos entre si. Daremos uma olhada em como o Priberam define-a:

liberdade
(latim libertas, -atis)
s. f.1. Direito de proceder conforme nos pareça, contanto que esse direito não vá contra o direito de outrem.2. Condição do homem ou da nação que goza de liberdade.3. Conjunto das ideias liberais ou dos direitos garantidos ao cidadão.4. Fig. Ousadia.5. Franqueza.6. Licença.7. Desassombro.8. Demasiada familiaridade.

A definição parece restringir-se ao relacionamento entre homens, seja individual ou coletivamente, mas afeita exclusivamente a eles. É basicamente sociológica, menos filosófica, não-metafísica, pouco abrangente.

Uma definição mais ampla é encontrada no Michaelis:

liberdade
li.ber.da.de
sf (lat libertate) 1. Estado de pessoa livre e isenta de restrição externa ou coação física ou moral. 2. Poder de exercer livremente a sua vontade. 3. Condição de não ser sujeito, como indivíduo ou comunidade, a controle ou arbitrariedades políticas estrangeiras. 4. Condição do ser que não vive em cativeiro. 5. Condição de pessoa não sujeita a escravidão ou servidão. 6. Dir Isenção de todas as restrições, exceto as prescritas pelos direitos legais de outrem. 7. Independência, autonomia. 8 Ousadia. 9 Permissão. 10 Imunidade.

Aqui há uma gama de descrições que se aplicam diretamente ao homem, mas que têm também conotações filosóficas como a definir, por exemplo, o livre-arbítrio, o qual é, entre outras coisas, o “estado de pessoa livre e isenta de restrição externa ou coação física ou moral”; e, ainda que seja apenas uma proposição improvável, “exercer livremente a sua vontade”. Porém, o assunto deste texto não é discutir o famigerado livre-arbítrio e sua impossibilidade de garantir a liberdade da indiferença ou o indeterminismo, mas apenas demonstrar a dificuldade e o campo minado em que se entra quando a questão é demarcar e, especialmente, aplicar o conceito de liberdade.

Se definir liberdade é algo complexo, em se tratando da condição humana, o que se poderá dizer de Deus? Os cristãos bíblicos concordarão que Ele é livre; e a Criação resultou de Sua decisão livre, ao decretar que tudo criado, seja material e espiritual, viesse a existir a partir do nada. É o relato bíblico: “No princípio criou Deus o céu e a terra” [Gn 1.1]. Mas isso significa dizer que Deus teve escolhas? Que num leque de possibilidades escolheu uma delas? Ou até mesmo a hipótese de não escolher criar absolutamente nada era provável? Seria possível para Ele pensar em modelos ineficazes e falhos? Para, então, descartá-los? E ficar com o mais aceitável ou perfeito? Pode Deus cogitar algo imperfeito? E o que garante a escolha certa? Em quais bases, escolheu? Quais foram os critérios que o levaram à Criação? Era-lhe possível não criar? E qual a certeza de que o plano daria certo? E efetivamente escolhera o correto? Não parecem variáveis de um pensamento imperfeito, e não provindos de uma mente perfeita?

Talvez o grande problema aqui não sejam as respostas nem as perguntas, mas o fundamento através do qual elas são formuladas. Em linhas gerais, tentamos entender Deus a partir do padrão humano, como se fosse um de nós, e estivesse sujeito à mesma imperfeição que resultará na maioria das vezes em distorções, em inadequações da realidade. Se acredito que o Senhor é capaz de ter escolhas, no sentido de dar a Si mesmo opções do que escolher, havendo em princípio boas e más opções, ao descartar-se uma em detrimento de outra resultará na deficiência do conjunto daquela, como uma obra “menos perfeita”, não-ideal, enquanto esta demonstrará ser “mais perfeita”. Mesmo que todas as opções fossem “integralmente” perfeitas, o ato de escolha indicaria que, em algum aspecto, haveria imperfeição em um ou mais modelos. E se há imperfeição, pode provir de Deus? A mente absoluta, incomparável, única, e que reúne todas as qualidades concebíveis, um padrão irrepreensível, impecável e insuperável em sua própria essência, poderia imaginar o mais remoto e inverossímil plano? Pode-se imaginá-lo a arquitetar o inacreditável? Algo que contradiz a Sua natureza? O ser eterno, infinito, perfeito e santo cogitaria [como a mais improvável conjectura] o que não estivesse em conformidade com a Sua divindade?

Veja bem, estamos falando do decreto eterno, o qual é santo e perfeito, e não das contingências e particularidades dele. Não há como negar que, por exemplo, o mal seja mal, o pecado seja pecado, a Queda seja a Queda, a corrupção seja corrupção, o imoral seja imoral, mas eles são partes de um todo que não pode ser superado em seu aspecto determinado como a expressão da vontade santa, excelente, completa e irretocável de Deus. Como conseqüência e resultado de Sua mente absoluta.

O que estou a dizer é que escolhas pressupõem a superioridade de uma em relação à outra, ou a superioridade do nosso conhecimento ou perspectiva em relação a elas. Para que Deus escolhesse entre algumas ou muitas opções seria necessário não deterem o mesmo nível de perfeição. Em maior ou menor grau, haveria variáveis, e variáveis levarão inevitavelmente à mutabilidade. O próprio fato de Deus cogitar principiar duas ou mais coisas, ainda que no campo imaginário, apontaria para sua mutabilidade ao exercer o seu direito de escolha, e ao fazê-lo, não se terá a certeza do decreto acabado, mas sujeito às transformações durante o seu desenvolvimento no tempo.

Entendo que há muitos atributos divinos ligados à questão, e caso decida-se pelas “possibilidades de Deus”, estar-se-á comprometendo cada um deles, ao ponto em que, tanto a imutabilidade, a onisciência, a sabedoria, a perfeição, especialmente, estarão prejudicados.

Hipóteses existem para nós, seres corrompidos. Ainda que escolhamos aquela decretada por Deus. Essa forma de pensamento define muito bem a nossa imperfeição, conjecturamos o que Deus poderia fazer [do ponto de vista racional e lógico], mas Ele não teve escolhas, senão o eterno decreto poderia não ter sido a melhor delas, e nem seria eterno. O próprio fato das escolhas em si mesmas revelará uma mente insegura, instável, mutável, não-perfeita. Deus não se ateve a opções, nem as analisou, nem as estudou, nem as cogitou. Isso daria margem para a hipótese de haver algo que não pensasse, e que pudesse ser melhor do que o pensado. Quantas opções a sua mente infinita teria? Porém a infinitude da mente divina não implicaria na infinitude de proposições, em múltiplos planos, em possibilidades de contradição, de se cogitar algo que contrariaria a Sua própria natureza, de implicar na mínima chance de que Ele pudesse errar, ou seja, levá-lo a enganar-se.

Alguém pode dizer que a santidade e a perfeição o conduziriam a optar pelo melhor plano sempre, mas a própria idéia de um plano A, B, C ou D, resultará na inadequação de ao menos três deles. E tanto a santidade como a perfeição seriam postas de lado por não se enquadrarem ao padrão do Seu pensamento. Se levarmos esse conceito de hipóteses para Deus, ele representará que Deus é capaz de pensar imperfeitamente, e até mesmo de criar imperfeitamente, pois o cogitá-los, por si só, já preanunciaria um estado não-perfeito e não-santo. E, convenhamos, o que a Bíblia afirma é a exata e inquestionável perfeição e santidade divinas. Quanto a isso, não há sombra de dúvidas. O problema nunca está em Deus, mas em nós que não assumimos nossa porção de equívocos e distorções diante de Sua majestade e glória refletidas na revelação especial [e perceptíveis na Criação].

Deus, como o Ser, como o Absoluto, não teve escolhas. Ele pensou uma única vez, um único plano, perfeito, acabado, irretocável, infalível, imutável, assim como Ele é. Este plano já era antes da fundação do mundo, assim como Deus é. O que me leva a concluir que Ele é livre, mas não de uma espécie de sub-liberdade que o condicionaria a equívocos possíveis nas escolhas, ou mesmo a exigüidade delas.

Deus pensou o certo desde o princípio. Pensou o perfeito desde sempre. O imutável. Determinou todas as coisas uma única vez, sem a chance de errar. O que está diante dos nossos olhos e o que não está, o que ouvimos e não ouvimos, o que sentimos e não sentimos, o que existe e o não existe, simplesmente é e não pode deixar de ser. O que não é não veio a existência porque Deus não quis, mas porque não poderia vir [como algo insofismável]; já que não há nEle o cogitar, mas o inapelável, o determinado, o absoluto, não o indeterminado, o provável, o dedutível.

Por isso, Ele é Deus. O Criador. Porque Ele simplesmente é o “eu sou” [Ex 3.14, Jo 8.58].

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Obs: Texto publicado originalmente aqui mesmo, no Kálamos, em 25 de maio de 2010


11 maio 2026

No Exílio - Elisa Lispector

 





Jorge F. Isah

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      Elisa é a escritora menos famosa da família Lispector.  Os holofotes, na maioria das vezes, são reservados para a irmã caçula, Clarice. E, convenhamos, apesar do talento de Elisa, as homenagens à irmã não são exageradas ou inflacionárias; o que, entretanto, não significa dizer que Elisa careça de mérito ou seja uma autora desnecessária. E a prova está aqui, neste romance autobiográfico em que a vida da família Lispector se mistura aos dramas e expectativas do seu povo e nação: judeus e Israel.

      À primeira vista, “No Exílio” pode significar apenas mais uma saga de imigração, a busca de novos ares, a sobrevivência e a concretização de sonhos. Porém, à medida que a narrativa flui,  a história dos refugiados se mistura e entrelaça com a formação do novo estado israelense.

      Vivendo na recém-fundada U.R.S.S, após a revolução Bolchevique, os Lispectores (Pinkhas e Mania, pais; Elisa, Tania e Clarice, filhas) são perseguidos, assim como outros tantos judeus, por vários grupos revolucionários (pogroms), e a trágica perseguição, expropriação, execução e massacre de vilas e cidades é consentida pelo governo soviético que, direta ou indiretamente, colabora com o extermínio sistemático de comunidades inteiras no território russo, indo além de suas fronteiras, como nas áreas conquistadas durante a Guerra Civil. Tais acontecimentos proliferaram massivamente na Ucrânia, país de origem da família de Elisa e uma das maiores colônias de judeus da Europa. Odessa, por exemplo, chegou a ter, no início do século XX, um terço da sua população composta por judeus.

      O cotidiano era de incertezas, ameaças, invasões e mortes sumárias, sem contar os inúmeros casos de chantagem, saques e ataques generalizados às comunidades: destruição de sinagogas, da identidade cultural e religiosa, profanação com a queima de rolos e pergaminhos da Torá, outros textos sagrados e símbolos. Fica evidenciada uma “diáspora” naquele momento, em que as pequenas localidades eram dizimadas e populações de judeus se viram obrigados a fugir para as maiores cidades, a fim de se protegerem. Eles eram acusados pelos monarquistas de bolcheviques, enquanto os bolcheviques lhes imputavam monarquismo e burguesia.

      Na primeira parte, Elisa descreve a estrutura familiar, a sua infância, apreensões e anseios. Estamos diante da luta pela sobrevivência, onde os valores morais, tanto à vida como ao patrimônio, são sistematicamente destroçados. Ela relata incidentes com amigos e vizinhos, e o banho de sangue que todas as revoluções se especializaram em ostentar como marca registrada.  A ideia de que os judeus são usurpadores, enriquecem ilegitimamente, exploram o semelhante, sempre foi o axioma para a extorsão, roubo e aniquilação. É uma fonte de renda  sem impedimentos ou obstáculos e, via de regra, em vários momentos da história, foram implementadas como solução.

      Os incidentes soviéticos são referenciados como “laboratório final” para a “solução” germânica do holocausto. De uma forma até então inimaginável, salvo a inquisição, o “ensaio geral” revelou que o genocídio semita seria “première” de estrondoso sucesso.

      Nesse contexto, os Lispectores decidem se mudar para a América, e as poucas reservas financeiras são gastas com “coiotes”, aproveitadores sem quaisquer escrúpulos,  sob a tutela de uma burocracia corrupta que amealhava facilmente o seu quinhão. Engraçado notar que os mesmos a acusarem os judeus de desonestos são a hipérbole da vilania. 

Em meio a esse caos, Hitler e os nazistas começam a ascender a cargos e postos na Alemanha, derrotada na Primeira Guerra, e o espírito antissemita se alastra célere pela Europa.  Mas, talvez, em lugar nenhum antes dos campos de extermínio do 3º Reich, os prenúncios do que viria a acontecer foram tão explícitos como na União Soviética.

      Na segunda parte,  Elisa descreve o périplo, onde a fuga era a única saída e a esperança estava a além-mar, do outro lado do Atlântico.  As comparações com o êxodo de Israel, do Egito à Terra Prometida, ganham contornos de similaridade, 

      Aportam em Maceió, em 1922, e são recebidos pelo irmão de Pinkhas, Samuel, e esposa, estabelecido como empresário na capital alagoana. Por essa época, os nomes ucranianos foram substituídos por correlatos: Pinkhas virou Pedro, Mania virou Marieta, Chaya virou Clarice.

      Samuel não deu vida fácil ao irmão, recém-chegado. De todas as formas, procurou explorá-lo, utilizando-se da inexperiência e baixa comunicação dele entre os nativos. Por três anos, Pinkhas foi aviltado, até que se cansou da situação e resolveu partir para Recife, em novo êxodo, à busca da tão sonhada terra prometida.

Lá, trabalhou como vendedor, e abriu um pequeno negócio de secos e molhados. Mas a penúria financeira da família era grande, agravada pela doença degenerativa da matriarca, cujos cuidados ficaram a cargo de Elisa. Ela também era responsável pelos afazeres da casa, do pai e das irmãs menores. Havia uma ligação mais forte com Pinkhas, estudioso da cultura judaica e escritor para jornais israelenses, e que estimulava a primogênita com conversas sobre as mazelas do seu povo, os rumos políticos que o Ocidente tomava e a necessidade de mudanças. O crescente antissemitismo na Europa era a predição de dificuldades ainda maiores para o seu povo.

Elisa descreveu os seus obstáculos, desejos e escolhas, como a de não se submeter ao casamento arranjado, mesmo reconhecendo as boas intenções paternas. Formou-se na Escola Normal de Pernambuco e estudou no Conservatório de Música, iniciando o magistério com crianças em Recife.

      Por essa época, o 3º Reich tomava forma na Alemanha, e Hitler se tornara um homem poderoso, líder carismático e populista, assumindo o título de Chanceler em 1933. Dois anos depois, os Lispectores mudaram-se para o Rio de Janeiro.

      Não há, na obra, citações do desenvolvimento educacional e artístico da irmã Clarice. As referências são esparsas e econômicas, mais voltadas para o dia a dia da família. Isso se dá, pois a autora se preocupa em relatar o seu próprio exílio, inclusive por não se enquadrar no esquema rigoroso da cultura do seu povo. Também, ela foca no exílio paterno, ao qual Pinkhas nunca se submeteu, e melancolicamente se convencia do abandono dos concidadãos pelas nações; e em graduações diferentes, da conivência e sustentação das políticas antissemitas e a favor dos muitos “pogroms”.

      Clarice, Tania e os demais membros foram tratados perifericamente, à exceção da mãe, sua doença e suplício, que trazia tanto desconforto à família, especialmente Pinkhas e Elisa, num nítido paralelismo com a aflição do povo judeu.

      Não entrarei em mais detalhes, para não tirar o prazer do leitor em se debruçar sobre “No Exílio”. A linguagem empregada pela autora é fluida, simples sem ser banal, formal sem ser hermética. O estilo é quase linear, cronológico, com esparsas digressões e baseado, majoritariamente, no pensamento e reflexões de Elisa e Pinkhas. E, como disse no início, não se pode esquecer das constantes relações entre as peripécias familiares e analogias com a situação de Israel naquele período — as implicações entre ambas se entrelaçam, numa rede da qual, especialmente o patriarca, não pôde se desvencilhar. Os dramas se cruzaram e se atravessaram num quase permanente estado de angústia tricotômica.  

      Podemos conhecer um pouco mais da história e do exílio individual e coletivo dos Lispectores e da comunidade judaica.

      Não é um livro alegre. Não existe esperança, porque o sofrimento de um é o sofrimento de todos, mesmo que nem todos estejam em martírio. Restou a Elisa e os seus aceitarem o exílio, e reconhecerem que não existe, neste mundo, uma terra prometida.

 

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Avaliação: (***)

Título: No Exílio

Autora: Elisa Lispector

Editora: José Olympio

Páginas: 210

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29 abril 2026

Estudo sobre a Confissão de Fé Batista de 1689 - Aula 46: "Uma marca cristã desprezada"








Jorge F. Isah
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A Bíblia aponta-nos vários dos nossos deveres como cristãos e como membros do corpo local:

- Orar uns pelos outros [Tg 5.13-16];

- Exortar e edificar uns aos outros [1Ts 5.11, Hb 3.12-14] - Exortar é uma palavra que traz vários significados, como: Aconselhar, persuadir; animar, encorajar, incitar; sempre em relação à uma vida de fé genuína e santa ao serviço de Deus;

- Levar as cargas uns dos outros [Gl 6.2];

- Sujeitar-nos uns aos outros [Ef 5.14-21].

Estes são princípios estabelecidos por Deus para que o seu povo caminhe em unidade e santidade, cumprindo o mandamento do Senhor de amar ao próximo como a si mesmo. Na verdade, o ensino que temos é até superior, de amar o próximo mais do que a nós mesmos, pois foi assim que Cristo agiu ao entregar-se por nós. Ele nos amou com um amor superior, levando-o à cruz para que fôssemos libertos do pecado e condenação, a morte eterna e definitiva. Devemos ter em mente sempre o outro, especialmente o irmão, caminhando com ele, lado a lado, em meio às tribulações, tristezas, sofrimentos e dores que o mundo nos infringe, sustentando-nos mutuamente. Por isso somos admoestados a orar, exortar, instruir-nos reciprocamente; a carregarmos os fardos duros e pesados uns dos outros, de forma que ele se torne mais leve para o irmão, o qual também auxiliar-nos-á a diminuir o peso das nossas cargas.

Sabemos que é pelo poder de Cristo, por sua bondade e misericórdia, que recebemos o consolo e o alívio nas atribulações, pois, sem ele, nada seríamos ou poderíamos realizar. Contudo, é estimulante saber que os irmãos se interessam pelo nosso sofrimento e dores, e esteja, cada um segundo o dom que o Senhor dá, disposto a reconhecê-las como também suas, já que os membros colaboram, cada um, para o bem do corpo. Creio que o Senhor nos deu essas orientações para não nos preocuparmos além da conta, além do necessário, com os nossos problemas, também. Este é o caráter pedagógico do auxílio, não nos deixar entristecer exageradamente, mais do que a tristeza convém e, de certa forma, alegrar-nos no zelo e sustento para com o irmão aflito [parece contraditório, mas o sofrimento do outro pode nos "tirar" do círculo vicioso em que muitas vezes nos encontramos, em meio aos problemas triviais e corriqueiros do dia-a-dia. E a nossa tristeza com a aflição alheia pode tornar-se na alegria dele, de não se reconhecer sozinho e abandonado em sua luta, fortalecendo-o, de forma que ele também nos fortalecerá. Na física esse princípio seria chamado de "lei da ação e reação", em que o amor e a piedade atribuídas retornam-nos de forma equivalente].

Acredito que esses são pontos que não suscitam muitos debates, gerando divergências. Normalmente são esquecidos ou relegados ao nível do desinteresse, seja por considerá-lo algo trivial, reles, sem muita importância, ou por certa soberba de se achar que já o alcançou e de que as etapas a serem vencidas são outras. Ledo engano! Em um mundo cada vez mais individualista e rebelde, a igreja também tem se individualizado e se rebelado contra os preceitos divinos. Igualmente, cada vez mais, os crentes se consideram autônomos e donos dos seus narizes, de forma que o sustento, auxilio e piedade se tornam escassos, quase invisíveis. Não que devemos alardear aos quatro cantos o auxílio ou consolo ou sustento que devotamos ao próximo, mas é que o próprio estado de coisas tem revelado o quão distantes estamos de viver uma vida verdadeiramente cristã, aos moldes bíblicos. Quase ninguém se interessa mais por uma prática cristã, no sentido de fidelidade à Escritura e de dar os frutos que o Espírito produz no homem regenerado. Os holofotes estão ligados e cada um quer a sua porção de luz, sem se preocupar em ser ele próprio a luz. Muitos reduzem a vida cristã a falar de Cristo para as pessoas, e eu já vi incrédulos repetirem versículos, referirem-se a Jesus, como muito crente não é capaz de fazer. Mas, então, tem-se um detalhe: ele fala bem, até mesmo com probidade e correção, mas a sua vida pessoal não espelha sequer um milímetro do que diz. E é este o ponto principal do qual não podemos nos esquecer, e do qual o Senhor alertou-nos: pode uma árvore má dar frutos bons e vice-versa? [Mt 7.17-20].

A parábola dos talentos assevera mais fortemente este ponto [Mt 25.14-30 cf. Lc 12.42-48]; no sentido de que somos mordomos do que Deus nos dá, e quanto mais ele nos dá, mais devemos honrá-lo, produzindo os frutos proporcionais à sua dádiva. Ou seja, somos ordenados a cuidar com amor, empenho e dedicação de tudo o que dispomos e que nos foi ofertado graciosamente. Não fazê-lo implicará em omissão, negligência e desobediência, resultando na ordem que o Senhor profere: "Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos. Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado".

Assim devemos proceder em tudo, na vida pessoal, profissional, e na igreja. Há os que pensam ser possível uma vida aparente ou "mínima" no corpo de Cristo. Penso que se enganam a si mesmos os que assim agem. A vida cristã tem de ser intensa em seu zelo, amor, e em produzir os frutos para a glória de Deus. É claro que tudo isso é proporcional ao que Deus nos deu e capacitou-nos a gerir. Ele não dará mais do que podemos suportar, como está escrito: "Não veio sobre vós tentação senão humana, mas fiel é Deus que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar" [1Co 10.13]. O verso se refere diretamente à tentação para o pecado, mas podemos, por princípio, levá-lo a todos os aspectos da vida, pois Deus não dá um fardo maior do que podemos carregar, já que, com o fardo, nos dá juntamente os meios de suportá-lo.

Voltando à parábola dos talentos, um servo ganhou cinco talentos, enquanto o outro dois, e o último um. Quando o Senhor voltou, os servos foram prestar-lhe contas. O primeiro devolveu-lhe dez talentos, o segundo quatro, e o último o mesmo talento que recebeu. Ou seja, este não soube o que fazer com o que Deus lhe dera, não soube aplicar o seu dom, ao contrário dos demais. Por isso foi reconhecido como mau e negligente servo, e lhe foi tirado o dom. A parábola nos remete a reconhecer Deus como o doador de tudo, inclusive dos nossos talentos e dons. Aquele que não sabe aplicá-los correta e convenientemente é como se não os tivesse; como um cego que quer ver ou um surdo que quer ouvir, com o agravante de que ele tem olhos e ouvidos bons, mas não sabe usá-los ou não os quer usar [Rm 12.4-8].

Na igreja do Senhor, devemos sempre buscar o melhor para nós e os demais irmãos e sermos o melhor que podemos ser, inclusive para nós mesmos, sem nos esquecer de que maior amor tem aquele que dá a vida por seu irmão. Parece um refrão de um cântico antigo ou um slogan, mas para nós tem de ser uma bandeira pela qual vivamos.

Este preâmbulo tem o objetivo de se chegar a dois outros pontos, que considero mais polêmicos e problemáticos dentro da igreja:

1) A autoridade eclesiástica – [1Ts 5.12-13, Hb 13.17]. Os oficiais da igreja governam não para si mesmos, nem a partir de autoridade própria, mas a autoridade investida por Deus, como servos [1Pe 5.1-5, conf Mt 20.26-27];

2) Sustento pastoral - 1Tm 5.17; Lc 10.7; At 28.8-10.

Os quais serão expostos e discutidos nas próximas aulas.
 

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ÁUDIO DA AULA 46:

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Notas: 1)   Aula realizada na EBD do Tabernáculo Batista Biblico 

22 abril 2026

Ele & Ela - Antídoto para uma série ruim

 




Jorge F. Isah

 

 

                Este mês, motivado pela ausência da minha esposa, pois estava a visitar seus parentes em B.H., resolvi assistir a uma das novas séries da Netflix — não sei se nova para a grade ou apenas para mim, já que raramente me arrisco a séries atuais, salvo indicação de amigos confiáveis. Sim, sou arredio com as novidades por vários motivos. E podem me chamar de velho e antiquado, porque não estou nem aí, e não faço qualquer questão de ser moderninho ou descolado — e, digamos, me surpreendi.

      A princípio, chamou-me a atenção a presença de Jon Bernthal, ator acima da média. Esse foi o principal chamariz. E, também a possibilidade de não me ver maratonando por horas a fio, algo que não tenho me entregado desde que descobri “Downton Abbey”— talvez seja o maior estímulo: uma minissérie em seis capítulos.

      A história não tem nada de novo: um crime, seguido de outro crime, e outro, um detetive que era amante da primeira vítima, um casal em crise, amizades tóxicas, garotas perversas, hipocrisia, etc, etc, e toda aquela lenga-lenga da qual já estamos acostumados.

      As pistas, inicialmente, se voltam para Anna — interpretada pela mediana para baixo, Tessa Thompson — esposa do detetive Jack Harper — Bernthal —, que também é um dos primeiros suspeitos. O roteiro privilegia os clichês, não tem personagens profundos e bem caracterizados, muitas cenas soam artificiais ou incoerentes — como as de Harper soltando provas para todos os lados, enquanto realiza inquéritos nos balcões de bares e estacionamentos — mas a direção consegue manter o clima de suspense e a produção não precisou criar nada mirabolante para suster a atenção.

      Harper é o marido traído, com o casamento destruído pela morte da filha recém-nascida, mora com a irmã alcoólatra e tem uma sobrinha pequena. Quer mais?... Anna é uma jornalista que perdeu o cargo de âncora na TV, pelo sumiço de um ano sem deixar rastros, após a morte da bebê. Mesmo assim, é readmitida na emissora e começa a trabalhar no caso dos assassinatos imediatamente, protegida do chefão Jim Pruss, personagem criado apenas para respaldar a nova ascensão na carreira de Anna.

      Como em todo suspense policial, as pistas apontam ora para um, ora para outro, ora para aquele, e, sabemos, no fim, haverá uma reviravolta e aquele personagem que ninguém imagina é o verdadeiro criminoso. Tudo se encaminha para Catherine, mas quando o desfecho acontece e percebe-se que ainda faltam quase trinta minutos da série, a pergunta vem: qual será a surpresa mirabolante para enganar o espectador?

      Nos livros e na dramaturgia, salvo raras exceções, as pistas levam quase inevitavelmente ao algoz e, no final, temos confirmada a autoria. Bons escritores e dramaturgos não estão preocupados com “final apocalíptico”, mas com o enredo, em produzir bons personagens, em desenvolver a trama de tal maneira que ela sustente o livro ou peça, sem precisar de malabarismos e invenções. Não sei quando as coisas mudaram e a necessidade de uma reviravolta épica — na maioria das vezes sem sentido, como a explosão do carrinho de cachorro-quente no parque de diversões espalha pétalas e balõezinhos coloridos ao invés de salsicha e molho de tomate.

      Aqui, a despeito de haver alguns bons atores — Bernthal, Crystal R. Fox, Marin Ireland — o roteiro é tão pobre e a caracterização tão superficial que escorregam, e o chão é o lugar de todos. Tentarei não dar spoiler, mas não sei se conseguirei.

      Alice, uma anciã com Alzheimer, aparece secundariamente na história. Aquele drama pessoal e familiar da protagonista, Anna, que, contudo, não a impede de negligenciá-lo, preocupada com a carreira e as disputas internas no trabalho. Em momento algum, existe empatia entre mãe e filha, e a importância da relação se dá apenas pelas sequelas do passado.

      Como disse, lá em cima, os clichês são abundantes. E o fim é o ápice deles. De uma inverossimilhança patética e irrealizável, com justificativas saídas da boca de um infante assustado com a história do “Chapeuzinho Vermelho” — escrita por Perrault e não a versão dos Irmãos Grimm — e que decidiu estragá-la completamente.

      Lembrou-me, um pouco, Tarantino, “o rei da vingança” — mas com talento — onde nada importa, apenas pagar com a mesma moeda, se possível, com juros. E os laços entre mãe e filha se reatam ou se amarram em um final feliz, sorridente, sem culpas ou desculpas.

      Talvez, esteja se perguntando: “por que raios, no início, você se surpreendeu?”

      Vou lhe dizer claramente: percebi o quanto a minha esposa faz falta. Peguei o telefone, liguei para ela, e ordenei o seu retorno imediato, ou faria uma besteira. Quando ela me perguntou qual besteira, disse que, além de cancelar a assinatura da Netflix, iria desaparafusar a TV da parede e jogá-la no lixo.

      No dia seguinte, estávamos juntos, e assistimos “Ele & Ela”. E não é que gostei?


15 abril 2026

Nelson Rodrigues - o maldito mais amado do país

 





Jorge F. Isah



Nelson Rodrigues é um dos maiores, senão o maior dramaturgo moderno do Brasil. Escreveu de tudo um pouco: artigos, contos, romances, crônicas, mas, especialmente, peças de teatro. Foi nessa seara que se notabilizou e ganhou fama. Visto por uns como conservador, por outros liberal, às vezes um maluco indomável, e, para muitos que não leram seus livros e assistiram às suas peças, não passava de um imoral, depravado e grotesco, quando não vulgar e sensacionalista. Havia quem o amava e aqueles a destilar-lhe ódio. Havia quem o lesse às claras, e havia leitores ocultos. Contudo, quem era realmente Nelson Rodrigues?

Nascido em 1912, em Recife, mudou-se com a família ainda criança, aos 5 anos, para o Rio de Janeiro. O pai, Mario Rodrigues, fundou em 1925 o jornal “Manhã”, posteriormente o “Crítica”, e Nelson, aos 14 anos, iniciou a carreira de repórter policial. Algumas tragédias depois, o assassinato do irmão Roberto Rodrigues em 1929 (era ilustrador e pintor), pela escritora Sylvia Seraphim, após a reportagem sobre o seu adultério (apoiada por feministas e parte da imprensa contrária ao jornal Critica, Sylvia foi absolvida do crime); o pai enveredar no alcoolismo e morrer em 1930, o “Critica” foi censurado e fechado pelo então presidente Getúlio Vargas.

Em 1936, outro irmão de Nelson morreu vítima de tuberculose, doença que o afligiria também por várias anos.

Talvez, por isso, migrou gradativamente para as colunas esportivas, mormente o futebol, onde descrevia os jogos como batalhas épicas, exacerbando ao máximo jogadas e jogadores, muitos deles retratados heróis. A experiência jornalística aliada à vida suburbana na parte norte carioca, foram os elementos de formação da sua carreira literária.

Em 1941, ocorre o seu debut teatral com a peça “A mulher sem pecado”. Entretanto, o sucesso viria em 1943 com “Vestido de noiva”, encenada no Teatro Municipal e dirigida pelo polonês Ziembinski, à frente do grupo “Os comediantes”. Tornou-se um marco no teatro brasileiro, pela maneira pouco usual de se fazer dramas. Era a oxigenação, ou melhor, a renovação definitivamente incorporada aos palcos nacionais.

Teve peças censuradas: “Álbum de família”, em 1946, por causa do tema polêmico do incesto, e “Casamento” em 1966.

Escreveu folhetins sob o pseudônimo “Susana Flag”, em publicações para os Diários Associados, nos anos 1940, alavancando as vendas dos jornais da organização pelo Brasil.

Casou-se com Elza Bretanha, colega de redação, em 1940, com quem teve 2 filhos. Era mulherengo e homem de muitas amantes e filhos de relações extraconjugais, bem ao estilo dos seus personagens: adúlteros, amorais e hedonistas. Por fim, ironicamente, retornou ao casamento com Elza após a promulgação da lei que legitimou o divórcio, e assim viveu os últimos dias, numa espécie de “autorredenção”.

Foi ainda crítico cultural, comentarista de futebol no rádio e TV, e editor em vários momentos de sua carreira.

O gênio dado à autopromoção, polêmicas e temática que o próprio Nelson qualificava de “desagradável”, chocou plateias e, se levou à admiração, também promoveu aversão e furor: jamais atitudes apáticas ou desinteressadas.

Morreu em 1980, aos 68 anos, e definiu-se assim:

“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino).”

Um menino travesso, diga-se de passagem.

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Frases polêmicas, mas nem tanto...


“Toda unanimidade é burra.”

“Invejo a burrice, porque é eterna.”

“Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista.”

“Só o inimigo não trai nunca.”

“A liberdade é mais importante do que o pão.”

“A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.”

“A plateia só é respeitosa quando não está a entender nada.”

“A televisão matou a janela.”

“Amar é dar razão a quem não tem.”

“Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.”

“Qualquer indivíduo é mais importante do que toda a Via Láctea.”

“Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.”

“Deus está nas coincidências”

“Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.”

“Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem.”

“Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.”

“Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia.”

“Jovens: envelheçam rapidamente!.”

“Nem toda mulher gosta de apanhar. Só as normais.”

“Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias.”

“O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.”

“O biquíni é uma nudez pior do que a nudez.”

“O brasileiro é um feriado.”

“O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.”

“O morto esquecido é o único que repousa em paz.”

“Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas.”

“Se os fatos são contra mim, pior para os fatos.”

“Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta.”

“Amar é ser fiel a quem nos trai.”

08 abril 2026

Manda-Chuva

 







Jorge F. Isah


  
Na infância, lembro-me de um desenho, entre outros, que passava no horário nobre da tv, lá pelos idos dos anos 1970 (como o tempo voa!), onde eu, meu pai e meu irmão, assistíamos à gangue de gatos mais malandra e frustrada da história: “Top Cat” ou “Manda-Chuva”. Se não me engano, e a memória não me traí, passava às quartas-feiras, em horário nobre, e foi um campeão de audiência por longos anos. A série consistiu em 30 episódios repetidos exaustivamente por diversos canais, nas décadas seguintes, seguidas de várias edições em quadrinhos e aparições em outras séries animadas.

Estreou na América em 1961, criado pelos estúdios Hanna-Barbera, e vendidos posteriormente ao canal ABC; teve apenas uma temporada. Não sei dizer os motivos a levar à descontinuidade da série, mas o simples fato de estrelar o disputadíssimo horário nobre leva-me a crer em problemas com os custos de produção ou um certo esgotamento, já que se inspirara em outra sitcom, “The Phil Silvers Show”, exibida entre 1955 e 1959.

Basicamente, a trama se resumia à tentativa, sempre sem sucesso, dos gatos aplicarem golpes a fim de enriquecer e ganhar fama. Quando tudo parecia dar certo, eis que surgia um problema: normalmente a consciência a fazê-los desistir, ou a força da lei (o íntegro, atrapalhado e êmulo do bando, o guarda Belo), ou porque eram enganados por outros mais espertos e ardilosos.

Há quem entenda-o como uma crítica social, ao identificarem-no com pobres, desfavorecidos e os marginalizados dos guetos, algo comum e recorrente na Big Apple (Brasília, por aqui) ou em qualquer metrópole mundo afora. Seriam eles, e seus infortúnios, os perdedores de sempre? Entretanto, é uma visão reducionista e estereotipada, não somente da animação quanto à comparação social, visto os pobres em sua maioria não serem ociosos ou trambiqueiros, para dizer o mínimo. A meu ver, o aspecto moral está mais em evidência, e a mensagem de que, mesmo divertida e a suscitar cenas hilárias, a vadiagem e a patifaria caracterizadas nos episódios não levaria ninguém ao êxito; mesmo os mais ladinos acabariam acertando-se com a justiça.

Por outro lado, o probo guarda Belo, em sua inabalável integridade, não galgaria promoções, e ainda por cima se veria envolvido nas tramoias da turma... Mas eles desconheciam as intricadas esferas sempre muito bem lubrificadas dos cambalachos e manobras tupiniquins, do contrário, a temática e os resultados seriam muito, mas muito diferentes, bem ao estilo de House of Cards (mais apropriado, mas ainda aquém das “travessuras” brasileiras).

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PERSONAGENS:

a) Manda-Chuva - Malandro, líder da gangue; o primeiro a inventar e se meter em encrencas. No Brasil, foi dublado pelo ator Lima Duarte.

b) Batatinha - O mais amável dos gatos. Dócil, gentil e incapaz de fazer mal a quem quer que seja. Nunca age com malícia (uma espécie de consciência benigna do chefe, o “anjo bom”).

c) Chuchu - O gato cor-de-rosa e o braço direito do Manda-Chuva; também o mais alto; usa camisa branca de gola alta. Chuchu está sempre de vigia para ver se alguém se aproxima quando a turma está executando seus trambiques.

d) Espeto - De estilo próprio, ganhou o forte sotaque nordestino no Brasil (também dublado por Lima Duarte).

e) Bacana - O galã da turma, além de esbanjar classe. Sempre envolvido com o sexo oposto. É o namorado da gatinha Trixie.

f) Gênio - Baixinho, laranja e cujo nome contratava com a sua personalidade, já que era o mais bobo e ingênuo do bando.

g) Guarda Belo – Um policial de rua, amigo da vizinhança e que tenta, sem muito esforço, fazer com que Manda-Chuva pare com suas traquinagens (especialmente ao utilizar o telefone da polícia, frequente e gratuitamente, para os seus planos, fazer apostas e jogar conversa fora, deixando o guarda irritado e indócil).
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“Manda-Chuva” foi uma sitcom sofisticada e capaz de agradar a gregos e troianos, sem distinção. Mesmo sendo produzida há mais de 60 anos, é possível se identificar com um e outro personagem em sua universalidade tão característica.

Para muitos, diante dos noticiários, conspirações e trapaças perpetradas à luz do dia, sem que autores e colaboradores sequer se envergonhem, antes se exaltam no descaramento abjeto e cínico, parecerá cândido e recatado. Se nas telas de antigamente (e para os que assistem ainda hoje) era a mais pura diversão, os holofotes atuais não são capazes de denunciar as trevas e as particularidades obscuras do verdadeiro submundo, a atuar em recintos aparentemente garbosos, mas a exalar o enxofre dos infernos. Se os gatos do passado eram cômicos e faceiros, dos gatunos da atualidade não se pode dizer o mesmo, onde larápios e quadrilheiros se multiplicam mais do que cuspe de bêbado.

Resta-nos tão somente nos deliciar com a inocência e as trapalhadas dos felinos de ontem, porque os de hoje...


28 março 2026

Reflexos num olho dourado - Carson McCullers

 



Jorge F. Isah

 


      Recentemente, travei contato com a obra de McCullers, por intermédio de outros autores do sul americano, como Faulkner e Flannery O’Connor, e a minha primeira incursão foi no seu romance de 1941, “Reflexos num olho dourado”.

      É um livro pequeno, pouco mais de 140 páginas, mas de densidade claustrofóbica e com tantas nuances — tantas quanto se possa achar. Boa parte da crítica o coloca como um livro “queer”, num reducionismo irritante, pois, apesar de tocar no aspecto homossexual do protagonista, não é nem de longe o foco da narrativa.

      Gastei uns três dias, mas desde o início, ainda na primeira página, percebi que não o podia tratar ligeira e superficialmente. Havia muito a desenterrar em seus escombros. Ainda assim, mesmo depois de concluído, decidi esperar um pouco para maturar as impressões e esquadrinhar as que houvessem me escapado. Via de regra, não sou apressado em fazer resenhas, mas, neste caso, a prudência era ainda mais necessária.

      Antes de continuar, existe um filme dirigido por John Huston e estrelado por Marlon Brando e Elizabeth Taylor, baseado na obra. Tentei encontrá-lo em vários streamings, sem sucesso. Uma pena, pois a ideia do trio trabalhar o texto de McCullers seria, no mínimo, instigante.

      À primeira vista, como já disse, parece tratar de um triângulo amoroso onde o adultério e a homossexualidade, aliados à hipocrisia e opressão social, parecem o âmago do tema. Mas não.

Há um gay não assumido, Capitão Penderton — casado com a femme fatale, Leonora, amante do Major Langdon, vizinho e superior do marido na base militar no sul dos EUA —,cujo segredo é protegido sob sua autoridade oficial. O mesmo não se dá com a relação adúltera entre Langdon e Leonora, a ponto de todo o “Campo” (não há nominação da base militar) sabê-la.

Leonora, especificamente, parece pouco interessada em esconder a traição, e o seu descuido reforça a suspeita e confere ao rumor um tom de tácita autenticidade. Logo, ela não se interessa pelos sentimentos dos outros e quer, acima de tudo, provocar tensão e fazer as pessoas orbitarem nela —  o único apego real e sincero, se é possível chegar a tanto, se dá em sua relação com o cavalo Firebird, um puro-sangue sob a responsabilidade de um soldado, cuja participação será tratada mais à frente.

      Então, não se trata apenas de chocar a sociedade ou discutir  questões meramente sexuais; sequer levantar alguma bandeira, seja ela qual for. Na história da literatura, e muito antes de Carson, houve autores mais incisivos e explícitos quanto ao assunto.

      O “Campo” é um claustro, onde os desejos se tornam obsessões, e as relações são levianas, superficiais e marcadas por forte tensão, por conflitos violentos, apesar da “normalidade”. É nítido o quanto os personagens sofrem, uma aflição nada intermitente, onde a superfície camufla quase ineficientemente a angústia de suas almas. McCullers não parece disposta a permitir um único minuto de paz e, certamente, nenhum deles sabe o seu real significado — não há como procurar o que não se conhece e alcançar o que não se vê.

Existe um código desonroso entre o núcleo principal, que se relaciona em aparente amizade, com jantares, festas, recepções, de uma gentileza forçosa e artificial, onde conversas e atitudes não refletem a raiva, a indiferença e o desprezo que se tem um pelo outro. Poder-se-ia chamar essas relações de parasitismo assimétrico, que definiria o quão prejudicial e danoso podem ser certas “colaborações” entre os homens.

      No grupo secundário, temos a esposa do Major Langdon, Allison e o seu ajudante filipino, Anacleto; e ainda o soldado misterioso e circunspecto, Williams, o cavalariço. Neste grupo, apesar de serem igualmente disfuncionais, ao menos sabem o seu papel no mundo e na vida alheia, ao contrário da outra tríade.

      Penderton é um homem austero, ambicioso e covarde, que mantém um casamento de fachada e despreza intensamente a sua esposa. Leonora é uma mulher superficial, fútil e sedutora em sua beleza crepuscular. Langdon é o seu amante, um homem ao estilo macho-alfa. Não existem santos, muito menos inocentes. Todos são culpados por suas fraquezas e, em algum nível, pela debilidade alheia.

      Alguns apontam a isenção da autora em evitar qualquer tipo de censura aos seus personagens, mas a maneira como ela os descreve, seus rompantes e instintos, rebate fortemente essa premissa. A incapacidade de comunicação, afetividade e compreensão, fruto da imoralidade sem freios, os leva ao caos relacional — no fundo, tudo se resume ao poder fragmentário e minguado.

      Williams é um voyeur atormentado por Leonora. Ele se entrega à compulsão de vigiá-la à noite e fazer incursões até o quarto enquanto ela dorme. Ele é um adulto que se infantiliza diante da figura, de uma imagem idealizada de Leonora, poderosa, magnética. Por falar nisso — talvez, no futuro, escreva algo mais abrangente ­—, na maioria dos casos a compulsão e os delírios sexuais, independente da monta, deficiências e justificativas, originam-se na infantilização do indivíduo, a culminar na infantilização do seu objeto de prazer, seja uma pessoa, animal ou qualquer outra coisa a movê-los numa espécie de regressão psicocomportamental. Tal qual a comilança, que parte do princípio da necessidade alimentar e descamba para a glutonaria, o exagero e a submissão ao desejo. O descontrole sempre — ou quase, vá lá! — terá por axioma o imoral e o antiético. Aqui, Carson parece entender completamente isso: adultos que se portam como adolescentes ou púberes.

      Penderton é atormentado pelo corpo nu do soldado Williams e, como ele, é também um perseguidor. Procura os momentos para aproximar-se, mas é incapaz de revelar a sua atração. E isso o torna instável e vacilante.

      Langdon passeia pela amante como um carteiro pela rua. Nada além do seu apetite sexual a guiá-lo.

      Leonora, como disse, esconde-se em sua beleza; mas já a vislumbra perdida, em breve.

      Allison é a esposa traída, que sabe da amante do marido, mas sucumbe ao silêncio e no desejo irrealizável do divórcio.

      Anacleto é o único amigo sincero, leal, protetor. Filipino e afeminado, é para Allison o que o marido não consegue ser, e, de uma maneira engraçada, serve de consciência para Langdon, na tentativa de mostrar os seus equívocos e chamá-lo à realidade. Porém, o major o vê apenas um “macaquinho” zombeteiro e provocador, uma figura exótica, a qual conserva exclusivamente para “encobrir” suas negligências quanto a Allison, e ao servir de única companhia.

      Em última análise, o desfecho final não é meramente acidente, como muitos presumem. McCullers, ainda que não cite uma única vez algo transcendente, não absolve os seus personagens. Cada um, à sua maneira, é condenado por seus pecados, desvios e ausência completa de virtudes. Todos se verão culpados, e os seus desejos levam a consequências trágicas e perturbadoras. Apenas o inofensivo Anacleto escapará dessa sina, como se a consciência fugisse dos efeitos deletérios e não mais houvesse lugar para ela. Os demais terão de conviver com suas escolhas — destruídos na desonra da vontade e cobiça.

      E o que para alguns simboliza a liberdade, não é nada além de reflexos — o resultado de uma vida indireta — o desbotar num olho dourado. 

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Avaliação: (****)

Título: Reflexos num olho dourado

Autora: Carson McCullers

Editora: José Olympio

Páginas: 142


25 fevereiro 2026

Roleta Russa

 





 

Jorge F. Isah




Um caso inusitado aconteceu, há uns dias, em Inacionópolis, no interior do Ceará. Cidadezinha de pouco mais de 3.000 habitantes, segundo os dados do IBGE. Na realidade, não passava de 229.

Apenas duas ruas asfaltadas ligavam os pontos extremos do município, fundado em 1988, a primeira cidade planejada do estado. Projetada para 12.968 pessoas, encontrava-se em franca decadência, pois a migração para a capital, e outros grandes centros, era a única esperança do agreste. Ali, salvo raríssimas exceções, não havia futuro para ninguém, especialmente os jovens. Seria uma cidade -fantasma, tão logo o último dos velhos chegasse a óbito.

Tentou-se várias formas de impulsionar o turismo, o comércio e a indústria, com maciço investimento federal, mas ao cabo de quase duas décadas, somente as famigeradas ruas, já citadas, ganharam asfalto. Outras vinte e cinco permaneciam de terra batida ou nem tanto; eram descampados onde a poeira dominava. Não se implantou um mercado distrital, fábrica, plantação ou outra fonte de expandir o lugarejo. Nem mesmo a famigerada água, a ser obtida pela perfuração de diversos poços artesianos, alcançou logro. À boca miúda, era outro ardil para desviar recursos públicos e enriquecer uns poucos.

Entretanto, quando menos se esperava, surgiu algo a deixar todos otimistas. Não foi a aparição do Chapolin Colorado, uma grande tempestade a inundar os açudes ressequidos, a descoberta de jazidas de nióbio ou petróleo... Não, nada disso. No sorteio da loteria, o primeiro prêmio saiu para um bilhete da cidade. Logo se divulgou que ele, provavelmente nativo, encarregaria de investir a fortuna na região: criar empregos, furar os poços, asfaltar as ruas e dinamizar a economia mambembe de Inacionópolis. Os botecos se encheram, foguetes foram soltos, buzinas de bicicletas, urros de alegria e latidos ensandecidos dos cães invadiram a cidade de eufóricas perspectivas. O filho amado traria novamente a glória que nunca tivera, e o sucesso prometido e jamais cumprido.

Entretanto, ninguém sabia quem era o sortudo e felizardo. Por mais que as pessoas abandonassem seus afazeres à caça de alguma evidência ou indício, ninguém descobriu a identidade do felizardo. Especulou-se, inferiu-se, idealizou-se esse ou aquele mais cotado nas pesquisas de opinião, mas o segredo conservou-se inabalável.

Dias depois, na capital, na entrega do cheque simbólico, o ganhador, para a surpresa geral, fantasiou-se de “Mumm-ra” , o vilão do desenho animado “Thundercats”, frustrando todas as expectativas de Inacionópolis, ávidos diante das tv’s e rádios, em ver e ouvir finalmente o sigilo quebrado.

- Qual a razão da fantasia? – Perguntou o mestre de cerimônias.

- Para os meus parentes não me descobrirem! – Pronunciou-se sem constrangimento, perante espectadores atônitos.

Havia motivos para se resguardar. O país era próspero em roubos, assaltos, sequestros e golpes dos mais variados; mas, proteger-se dos familiares?... Pareceu exagero, aos olhos alheios, especialmente porque, em Inacionópolis qualquer um poderia pertencer ao círculo familiar do pé-quente.

A indignação foi pública e ostensiva. Não havia outro assunto: quem era ele? E por que o anonimato? Onde estava a gratidão e retribuição à família? Já que todos em Inacionópolis eram uma grande e unida família?

Os dias se passaram. As semanas se passaram. Sem mudanças. Sem investimentos. Sem veredito, e a lista crescente de suspeitos. Qualquer iniciativa, ação, reação, mudança, mesmo as mais espontâneas e estúpidas, algo a indicar a progenitura do milionário, era vista com presunção, e o infeliz era primeiro sabatinado, caso resistisse, xingado, às vezes capturado e surrado. Alguns chegaram a morrer em decorrência dos ataques, sem acusação ou indício de culpados.

Ninguém estava imune às investidas raivosas das ruas e interiores.

Alguém, contudo, elaborara um plano infalível; por que não pensou nisso antes? Era muito simples: bastaria saber quem estava ausente da cidade no momento da entrega do prêmio. Através da empresa de viação, seria facilmente possível identificar o mal-agradecido. Dito e feito.

Ao se deparar com o nome do ganhador, todos se assustaram: ele, nem mesmo diante da morte, depois de ser sovado violentamente, declinou a façanha. No momento final, até mesmo alguns da parentela, suspeitando das suas últimas atitudes, surpreendeu-se quando disse as palavras derradeiras:

- Perdeu, manés!

No testamento, deixou a fortuna para a Ong “Flato”, empenhada em substituir pápeis higiênicos por lenços umedecidos em comércios e residências.

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Publicado originalmente na Revista Bulunga

12 fevereiro 2026

Dom Quixote de la Mancha - Miguel de Cervantes: do cavaleiro de ideais aos delírios contemporâneos

 





 

Jorge F. Isah

 

      Havia algum tempo que precisava — e queria — reler Dom Quixote. A primeira investida se deu na adolescência, em uma condensação (algo comum, àquela época, para os ginasianos e, com o tempo, acabou por se tornar “referência” a muitos adultos indolentes, ao menos em relação aos clássicos), e, se não me falha a memória, realizada por Monteiro Lobato ou Carlos Drummond, ou qualquer outro grande literato.

Entre os dez e quinze anos, investi nos grandes volumes em versões resumidas. À época, foi a maneira das editoras estimularem, tal qual um aperitivo, as leituras densas e volumosas a fim de aguçar os novatos, vender e usá-las como chamariz para se chegar, em breve, aos originais. Não sei se funcionou com a maioria, penso que não. Comigo, muitos me chamaram a atenção e o desejo de tê-los na íntegra, outros, nem tanto.

      Lá pelos vinte anos, li Dom Quixote, mas não gostei. Na verdade, gostei, mas não foi apaixonante. Percebi o humor, a ironia de Cervantes e a crítica aos romances de cavalaria, mas não achei nada demais. Estava às voltas com existencialistas, e qualquer coisa que não fosse o sofrimento dos personagens, suas angústias, dúvidas e o sem sentido da vida, além da linguagem mais direta e menos caudalosa, não me seduziam.

      Isso me leva a refletir sobre a crítica à literatura fantasiosa e, por que não, fútil: nitidamente, Dom Quixote é um farsante não intencional, desapegado em obter lucros e dividendos para si. Mas, contaminado pela leitura compulsiva dos romances de cavaleiros, princesas e batalhas, tentou reconstruir, em suas andanças e aventuras, os mesmos padrões da ficção. Cervantes entende essa literatura como algo danosa, e, na boca de vários personagens, critica abertamente o gênero.

Porém, Quixote é um idealista, sonhador, homem de honra, intrépido e destemido, disposto a se sacrificar por qualquer um que esteja em perigo, não segundo a realidade, mas segundo as suas concepções de realidade. Não é difícil a comparação com o Cristo — e toda analogia tem suas fraquezas —, quando a mente de Cervantes materializa no seu protagonista algumas características do homem perfeito, especialmente na capacidade de sofrer abnegadamente, sem se ater aos seus desejos, em primeira instância, mas vislumbrando o próximo e seus dramas. Em algum sentido, Quixote é o mártir que vê o próprio sacrifício com esperança, de ser capaz de mudar vidas, corrigir desastres, empreender justiça e redimir condenados diante de um mundo cínico e em desordem. Era a visão de Unamuno, da qual compartilho.      

      Ele é, ao mesmo tempo, herói e anti-herói, lúcido e louco, fiel mas desajeitado, realista e visionário, homem do presente que escreve o futuro preso ao passado. É uma figura fantasticamente construída com tudo o que de bom e ruim a humanidade possui.

      Se Cervantes critica os folhetins romanescos de cavalaria, por outro lado também tece advertências quanto à falta de imagética, especialmente dos racionalistas, impedindo que emoções, outros conceitos e estruturas sejam transmitidos. Se Quixote está errado em seus delírios e arroubos, os racionalistas também estão em suas cadeias e caixas aparentemente lógicas e factuais. Este é um ponto.

      O segundo, se ao mesmo tempo em que o autor denuncia a obsessão pela literatura cavaleiresca (seria o equivalente ao “bestseller” atual), onde a padronização e a massiva exposição pública simplesmente impedia o surgimento de, digamos, a boa literatura. Entre batalhas memoráveis, dragões, monstros, exércitos sanguinários, mocinhos, donzelas e vilões poderosos, o cavaleiro andante, muitas vezes solitário, era a força a impedir a proliferação do mal. De certa forma, esse gênero afastava os letrados da época (algo em torno de 10% da população) e os mantinham alheios ao real conhecimento. O que dizer em pleno século XXI? Onde a literatura, e até mesmo a capacidade de ler e entender, tem se tornado desnecessária na visão de muitos?

      Terceiro, se havia fadas, bruxas, duendes, capirotos, gigantes e fantasmas no século XVI, e, por isso, era um tipo de subliteratura, não estariam vários títulos da atualidade enquadrados nesse escopo? Cinco, seis séculos depois? Onde a pretensa racionalidade é cada vez mais substituída pela irracionalidade, por narrativas e achismos que vão dos maiores exageros até os mais frívolos?

      Quarto, por que os leitores, ou cinéfilos, gibimaníacos, noveleiros, voyeurs digitais, condenam tão veementemente religiosos e não as suas preferências? Se ao ver deles, os religiosos se apegam às “fantasias” e prestam um desserviço ao mundo, que raios de bem eles trazem com suas mágicas e poderes sobrenaturais? Ou apenas ao homem é permitido tê-los, mesmo imageticamente, e Deus (ou deuses) não? Por que a religião não pode difundir seus valores enquanto as várias formas artísticas podem, sem restrições? O que dizer de alguém com quarenta ou mais anos chorar a morte do Homem de Ferro, abraçado à miniatura da Mulher Maravilha?

      É fácil ver palpiteiros tecerem críticas e exigirem o cerceamento de cristãos, por exemplo, alegando os danos que o “ópio do povo” pode trazer às massas. Mas eles e seus seguidores se esbaldam em cores, barulhos, efeitos e o culto a personagens e heróis de mentirinha, enquanto enfrentam longas filas para o novo filme da Marvel ou o “dízimo” da Netflix. Chega a ser constrangedor, no mínimo; pois é, na verdade, a transposição do mundo quixotesco para o atual, onde os dois problemas se misturam simultaneamente: pessoas que se dizem racionais, mas utilizam o mesmo escapismo dos leitores medievais, e substituem a cosmologia transcendente por mitologias seculares — e se consideram superiores e mais dignos do que religiosos. Se Cervantes vivesse hoje, constataria que pouca coisa mudou.

      No Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura e seu fiel escudeiro, Sancho Pança, a imaginação e realidade nos faz rir, chorar, sonhar e encher-nos de brio, honra, coragem e amor desinteressado. Não vou me ater a detalhes da obra, pois talvez o faça na releitura do livro II... talvez. O importante é falar que Miguel de Cervantes Saavedra construiu um dos personagens mais emblemáticos e influentes da literatura mundial. Não sem razão, é apontado como o maior romance de todos os tempos. Adorado por Faulkner, que o relia ano a ano, e por tantos outros que escreveram sobre ele: Dostoiévski, C. S. Lewis,  Nabokov, Borges, Turgueniev, entre outros.

      Deixo a empreitada, portanto, para os gigantes de verdade — a de analisá-lo com a profundidade merecida. De minha parte, identifico-me demais com Sancho, capaz de ver o seu mestre como ele era, com seus defeitos, teimosia e delírios, mas também de admirá-lo para além do que os seus olhos viam.


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Nota: 1- Ah, mesmo a tradução do Visconde de Castilho, de 1876, é saborosa e nada difícil de ler. Claro que existem expressões e termos não usuais hoje em dia, mas nada que dificulte o entendimento da obra. No momento, estou lendo a tradução do Ernani Ssó, pela Editora Penguin. Tenho as traduções do Milton Amado, do Aquilino Ribeiro e uma edição “fac-símile”, provavelmente de Francisco Gouveia de Morais, já que não encontrei referências. Falta-me a do Sérgio Molina, pela Editora 34. Portanto, procure qualquer uma e não faça outra coisa antes de lê-la.

2- Este ensaio refere-se ao Vol. 1, de Dom Quixote, perfazendo o total de 545 páginas. O Vol. 2, logo que o termine, valerá outra análise por aqui.