09 dezembro 2020

Os Anelos Espírituais do Padre Brown

 




Jorge F. Isah


Este é um livro com algumas histórias do Padre Brown, o alterego de Chesterton, dada a baixa estatura e a rotundidade, transformando-o em uma figura comum e sem atrativos, ou destaque, significando, até mesmo, a falta de personalidade marcante. Contudo, a despeito da sua insignificância física, ele se sobressaí por seu intelecto e a capacidade de desvendar os crimes mais intricados e que, muitas vezes, fez o seu amigo, o detetive Flambeau, alto e de boa aparência, parecer um idiota ou um homem sem qualquer preparo investigativo.

O livro tem as sutilezas estilísticas de Chesterton, uma narrativa bem costurada (necessária em livros do gênero), mas alguns componentes o tornam diferente da maioria dos autores do gênero: Padre Brown não procurava apenas desvendar mais um crime, como um desafio à sua inteligência e argúcia. Não é o simples caso do detetive à caça do bandido. A sua capacidade de ver os detalhes mais desprezíveis e que nenhum outro vislumbrava, ou o raciocínio capaz de ligar fatos aparentemente dissociados que, contudo, faziam parte da "teia" tecida pelo criminoso, pode se parecer com o estilo de outros grandes personagens da literatura policial.

Entretanto, mais do que um desafio mental, uma disputa intelectual e arguta, o calmo e tranquilo religioso buscava a redenção do criminoso (em outras palavras, realizar o seu ministério sacerdotal, sua missão primeira), que poderia alcançá-la a partir da confissão do crime. E isso, se não se desse pelos meios judiciosos, que o levassem à condenação, bastava-lhe, como padre (e como tal ele estava impossibilitado de acusar o réu confesso por direito inalienável de sacerdócio), ouvir a confissão, o arrependimento do criminoso, e ter concluída mais uma etapa da sua missão. Satisfazia-o não apenas vencer o criminoso, em seu próprio campo; antes levá-lo à compunção, a reconhecer-se pecador, um transgressor, e alcançar a liberdade da alma, do espírito, pela graça.

Mais do que a preocupação com as questões policiais (o que não negligenciava), elas o levariam ao encontro da alma necessitada, desesperadamente, de perdão; atormentada pela culpa (ainda que não o soubesse claramente), e mesmo na condição de recluso encontraria finalmente a paz.

Pode parecer incoerência o fato do sacerdote, para quem a defesa da moral é um princípio caro, desprezar a prisão e punição do infrator, em algum aspecto no curso da história. No entanto, transparece nele o desejo de que, após a confissão, o criminoso, em paz consigo e com Deus, se entregue voluntariamente à justiça, provando assim o seu arrependimento sincero e verdadeiro. Ou seja, a redenção somente é possível se houver a voluntariedade do aflito na busca libertação e a definitiva liberdade.

Para alguém pouco versado em teologia talvez esse aspecto passe desapercebido. Entretanto, ele está lá, a apontar para um redentor e salvador, para a graça, única capaz de trazer ao homem caído, em sua condição de humanidade perfeita, a harmonia, a paz definitiva e o fim da inimizade com Deus.

Ler Chesterton é sempre agradável e instigante. Mesmo em histórias aparentemente banais como as policiais.


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Avaliação: (****)

Título: A Inocência do Padre Brown

Autor: G. K. Chesterton

Editora: L&PM

No. Páginas: 256

Sinopse: 

            "Esta obra traz doze histórias. Uma delas, 'A cruz azul', na qual o personagem, Padre Brown, faz sua primeira aparição, o clérigo de Essex precisa lançar mão de métodos excêntricos para impedir o roubo de um valioso artefato religioso."




25 novembro 2020

Promoção Amazon: Prefácio do livro "O Morto Inacabado".

 



        Em mais uma promoção conjunta com a Amazon, a Kálamos Editora disponibiliza o livro "O Morto Inacabado", para download gratuito, em promoção até o dia 27 próximo. 

        Para baixar, basta ter uma conta "Amazon", preencher o nome do livro na caixa de pesquisas, fazer o download, e pronto! Agora resta apenas lê-lo. 

        Por isso, disponibilizo o prefácio do livro, escrito por Michel Salomão, como instigador, uma inspiração, para adquirir a obra. Espero, realmente, que se sinta motivado a fazê-lo, bem como à sua leitura. 

        Abraço.

    Jorge F. Isah

        

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PREFÁCIO AO LIVRO "O MORTO INACABADO", 
POR MICHEL SALOMÃO



     A desolação e a dúvida da morte permeiam essa obra de Jorge F. Isah, que traz um personagem cheio de angústias, as mesmas que todos nós possuímos e procuramos ignorar, as incertezas da existência, as impressões acerca do pai agonizante, da mãe sofredora, de parentes e amigos que passam e deixaram suas marcas, os remorsos, os medos, o abandono, um futuro que não se concretizou, um amor rompido premeditadamente, filhos que não nasceram, entre outros sofrimentos que fazem de nós, humanos, tão parecidos. 

    Não, o livro não fala de zumbis, mas é quase isso: fala sobre o vivo quase morto, ou sobre o morto ainda vivo, condição que muitos de nós passamos a assumir por inconsciente negligência. Fala sobre as impressões de uma vida quase sempre entediante, bem diferente do que acontece na maioria dos filmes e livros. 

    Amigos há três décadas, aconteceu de conhecer o Jorge em uma sala de aula do curso de Direito, na Universidade Federal de Minas Gerais, quando vi aquele rapaz entediado, sentado no fundo da sala, olhando para o vazio através da janela. Eu tinha 17 anos à época, era um rebelde tímido, me aproximei e logo começamos a disparar sobre literatura. Daí começou a nossa amizade, que teve longos intervalos, pois cada um foi cuidar de sua vida, de sua família, da profissão, mas o laço permaneceu, mesmo que por longos telefonemas ou por intermináveis textos trocados pelas redes sociais, além de encontros esporádicos que quase sempre davam continuidade ao assunto interrompido no anterior; e não foi com surpresa que recebi este convite para fazer o prefácio de seu novo livro, “O Morto Inacabado”, quando alertei para o fato de que talvez não tivesse capacidade para tal, pois, sem falsa modéstia, considero-me um escritor “descompromissado”. Bem diferente do Jorge, que é muito técnico e dedicado. 

   Eu o aconselhei a dar títulos aos capítulos, para facilitar o entendimento dos leitores (entendo o porquê dele não ter aplicado a sugestão, mas não vem ao caso expô-la), pois não é uma leitura fácil, a não ser que você esteja acostumado a ler Dostoievski, na minha opinião, sua mais forte influência, pois ele entra com facilidade daqueles questionamentos existenciais entrecortados com pequenos diálogos triviais, possivelmente, apenas para comprovar que seus personagens estão mesmo vivos. 

  Também conheço seu incansável trabalho religioso, na tentativa de salvar as pessoas dessa “morte em vida”, e aprecio sua determinação, apesar de, nesse trabalho, não entrar tão profundamente nessas questões como em seus outros livros, talvez para despertar determinados questionamentos nas pessoas que passam por idêntica situação de seu personagem central, que vive essa aparente morte. 

   Uma aventura instigante e investigativa da alma de todos nós. 


   Michel Salomão


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18 novembro 2020

"Arpeggios Insulares" grátis na Amazon: Leia o Prólogo!

 






Jorge F. Isah



Nesta semana, de 16 a 20 de Novembro, a Amazon disponibilizou o meu segundo livro de poesias, "Arpeggios Insulares", aos interessados em baixá-lo no formato ebook/kindle. 

        Publicado em 2018, reúne quarenta e seis poesias escritas entre meados de 2017 e o primeiro semestre de 2018, que tratam de temas variados, extraídos do mais profundo da alma, com tudo de bom e ruim derivado da natureza humana. 

        Entretanto, talvez o sentimento mais presente em toda a obra seja o de gratidão a Cristo, pelo seu eterno e infinito amor, capaz de tornar as trevas interiores em um dia intensamente ensolarado, e da mesma penumbra tocar os mais doces e consoladores acordes; um bálsamo a aliviar e curar qualquer espécie de dor, angústia e sofrimento. 

       Deixo o "prólogo" do livro, abaixo, para a sua apreciação; e caso se sinta instigado, vá até a amazon.com.br, digite na barra de pesquisas o título "Arpeggios Insulares" e baixe a sua cópia. E, talvez, entenda o que não fui capaz de descrever por aqui. 

       Um fraterno abraço!

          Jorge F. Isah


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"PRÓLOGO DE ARPEGGIOS INSULARES"


        O tempo passa...

Iniciei a escrita deste livro logo após a publicação do meu primeiro, “A palavra não escrita”, em formato ebook. Transcorridos pouco mais de um ano e meio, apresento ao leitor o trabalho demorado em dias, e exíguo em linhas. São quarenta e seis poemas que tratam de vários temas, mas que têm a mesma visão central: a fé cristã como cosmovisão, essência e fundamento da minha vida, ao menos nos últimos quatorze anos.

Por isso, em quase tudo, não é difícil perceber a orientação dos versos e a sujeição deles à pessoa de Cristo. Ainda que não seja citado diretamente, a inferência ao seu governo é recorrente e está nas entrelinhas e subliminarmente. Não podia ser de outra maneira, visto a excelência da sua Pessoa e a minha completa dependência dEle.

Alguém pode dizer que a minha impressão, estilo e imaginação, é excessivamente pessimista em relação à vida, às pessoas e o futuro. Realmente, não posso ser considerado um otimista quanto a este mundo. Não nutro qualquer esperança no homem, nas ideologias, nos sistemas, no intelectualismo, ou nas ciências; de alguma forma, muito menos nas religiões. Entretanto, não sou um pessimista completo e incorrigível, pois nutro a esperança viva de que, naquele glorioso dia, o dia do Senhor, o verei face a face, e nenhuma tristeza, angústia, dor, e dúvidas se farão presentes na vida.

O cristianismo somente vive na pessoa de Jesus e sua Igreja (a verdadeira, aquela resgatada pelo seu sangue), e ainda que possa ser interpretado por várias correntes, a verdade existe e subsiste nele e por ele. Então, se o pessimismo exagerado quanto ao mundo em si se sobressai no meu pensamento, em contrapartida existe uma esperança viva, otimista, exultante, em relação ao Porvir, naquele que é o Senhor do tempo, do passado, presente e futuro, mas também da eternidade.

Com isso, alguns podem sugerir que haja uma visão dicotômica da vida e que eu seja incoerente. A verdade, contudo, é que o homem sem Deus não me inspira qualquer confiança (ainda que eu tenha compaixão, assim como também necessitei de piedade), e mesmo a bondade possível nele, somente se realiza por meio dAquele que é, em si mesmo, o Bem por atributo; a natureza que o torna quem é, e da qual não pode prescindir, nem ser anulada.

E é nesse Bem que deposito a esperança, a expectação de uma existência em que, mais do que eu mesmo, serei mais dele, ao ponto em que nele serei encontrado. Como o apóstolo Paulo escreveu aos Gálatas, este é o meu mais puro e ansiado desejo, o de proferir sinceramente: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim!”[1].

Essa é a glória a se buscar, a “cobiça” maior à qual o homem deveria se entregar, perseguindo-a como o bem mais precioso e enlevado, e na qual, desde algum tempo, tem sido o anelo da minha vontade. E que ela, como todo o meu ser, esteja cativa e submetida à perfeição, santidade e graça do Filho.

Se eu conseguir, de alguma maneira, que você leitor veja-o assim como o vejo, já me darei por satisfeito, e em plena alegria. Porque a vida, sem dar a glória e o louvor devidos a Cristo, é como uma sinfonia tocada à perfeição para uma plateia de surdos.



[1] Gálatas 2:20

09 novembro 2020

A Jornada no Império - A vida do Dr. Robert Kalley, ou a mordaça secular que não silencia.

 




Por Jorge F Isah


    Biografia do Dr. Robert Reid Kalley, médico escocês, que possuía um forte chamado missionário; e, desejando ir à China, acabou na Ilha da Madeira (colônia portuguesa), em virtude dos cuidados que a sua esposa necessitava, acometida de tuberculose, e do clima ameno da ilha, favorável ao seu tratamento. Ali o Dr. Kalley realizou um trabalho filantrópico de atendimento aos necessitados, doação de medicamentos e internação em sua clínica particular, enquanto se dedicava à proclamar o Evangelho de Cristo aos moradores daquela colônia. 

    Como a evangelização suscitou a rebelião de forças religiosas antagônicas, o sucesso do trabalho missionário, com a crescente conversão de almas, provocou a perseguição ao Dr. Kalley e à Igreja estabelecida em Madeira. Muitos foram presos, deportados para colônias na África, e alguns condenados à morte por heresia e blasfêmia. O próprio Kalley permaneceu preso por seis meses; sem que, contudo, os crentes negassem Cristo e abandonassem a fé uma vez dada aos santos, mesmo sobre forte opressão e oposição das autoridades eclesiásticas e governamentais da ilha. 

   Kalley tinha um espírito independente, provocando-lhe vários dissabores (muitos decorrente do seu desejo em manter-se livre até mesmo da vinculação a uma denominação específica). 

     Por ser herdeiro de um rico comerciante, ele patrocinou a quase totalidade das despesas oriundas do seu trabalho missionário e filantrópico, consumindo não somente a integralidade do seu tempo e dons, mas a totalidade dos seus recursos, renunciando a qualquer conforto e primazia sobre o seu patrimônio. 

    A grande comissão era, e sempre foi, o seu grande desejo de realização, servindo ao nosso bom Deus, proclamando o Evangelho de vida e salvação de nosso Senhor Jesus Cristo. 

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     A perseguição sofrida pela Igreja foi amostra cabal do quanto o homem está em rebeldia contra Deus, e de como a Verdade é combatida por aqueles que amam a mentira e o engano. Desde a época dos apóstolos, crentes em nosso Senhor são perseguidos mundo afora, muitos pagando com seus bens, família, liberdade e a própria vida (Mc 8.34). Mas a Igreja do Senhor jamais será destruída (Mt 16.18), porque ele é quem a conserva, preserva, e separou-a exclusivamente para si, como parte do seu corpo, noiva e amada. 

    Fica o exemplo de vida cristã desses irmãos que perderam tudo por amor a quem os amou primeiro; especialmente nos tempos atuais onde a gratidão, o servir a Deus e ao próximo, a fé e o rigor dos princípios bíblicos, deram lugar à covardia, à omissão, à indiferença, ao egoísmo, à descrença, tornando muitos em “igreja morna”, a qual certamente será vomitada pelo Senhor (Ap 3.16), e dele ouvirá naquele dia: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vos que praticais a iniquidade”(Mt 7.23). 

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     William Forsyth escreveu um livro dinâmico, agradável e fácil de se ler (ainda que aponte o constante sofrimento e aflição dos servos dedicados ao ministério evangelístico, mas também a glória de sê-los guiados por Deus à realização de obra tão sublime e santa), recheado de fatos, incidentes e testemunhos, muitos deles relegados ao completo esquecimento, como se o exemplo do passado merecesse o ostracismo, a obscuridade, não havendo qualquer valor; obliterando os feitos dos verdadeiros heróis para, em seu lugar, erguer ídolos de papel, homens que jamais seriam dignos de sequer lustrar-lhes os calçados. Talvez, pela própria ineficiência, descaso e falta de compromisso de muitos dos crentes das últimas gerações, a lembrança deve ser apagada a fim de não revelar o verdadeiro desastre e fracasso em que estamos naufragando. Infelizmente, vivemos tempos em que a memória, para o bem e para o mal, tem de se refugiar na inutilidade dos desejos “modernos” contemporizados. 

    Dr. Kalley foi um missionário perseguido por onde passou. O seu trabalho resultou em frutos para o Reino em todas as classes sociais. Ao contrário do movimento social nas igrejas atuais, originado na elite intelectual (seria antes o remorso ou uma nova forma de demonstrar superioridade sobre os mais fracos?), Kalley pouco importava-se com a condição e reputação dos seus ouvintes; pregava tanto a brancos como negros, a ricos e marginalizados, homens e mulheres, nativos ou estrangeiros, crianças e velhos, como todo cristão faria ou deveria fazer. Não foi preciso ninguém alertá-lo quanto a “isonomia” na pregação do evangelho, ou seja, do chamado geral de todas as pessoas a Cristo (falo do chamado geral, não do chamado particular; já que esse somente é feito pelo Espírito de Deus), em tempos que, como os atuais, existiam preconceitos e impeditivos a tentar frear a propagação das “Boas Novas”. E esse é o cumprir verdadeiro da Grande Comissão (a qual devemos fazer por amor a Cristo e ao próximo. Qualquer outro motivo não passará de pecado, dissimulado ou factual); que vai muito além do simples discurso, da retórica, da “teoria” se sobrepor à prática: de que somos, como igreja, chamados a evangelizar, mas também viver o evangelho, mesmo à força de perdas, infortúnios, abusos e intolerância. 

    O "Lobo da Escócia", como foi alcunhado, estabeleceu a igreja evangélica no Brasil, atingindo o objetivo pelo qual muitos antes dele tentaram e pagaram com as próprias vidas, sem sucesso, como os franceses, holandeses e ingleses (Forsyth dá um apanhado geral da tentativa de cristãos europeus em fundar "colônias" protestantes no Novo Mundo, o que não ocorreu a seu tempo, rechaçados e dizimados por clérigos e governantes hostis). 

    Muito do que os protestantes conseguiram na liberdade de culto no país, ao desagrado da Igreja Católica (o que não impediu que fomentassem e insuflassem ataques populares ao patrimônio e à vida dos "hereges" calvinistas) se deveu a intervenção direta do Imperador D. Pedro II, que tornou-se amigo pessoal do Dr. Kalley. É claro que, tanto Kalley como o Imperador, foram alvos da soberana vontade de Deus, sem a qual nada do que foi feito seria feito, nem as sementes lançadas no passado germinassem em solo Tupiniquim, dando frutos para a glória do nosso Senhor. 

     Este livro é um alerta para toda a Igreja, de que não vale a pena se sentar nos louros do passado e acreditar que as perseguições, abusos e coerções cessaram, pois em um mundo que odeia Cristo, e afasta-se cada vez mais do seu Evangelho, o povo de Deus sempre será alvo das forças malignas e destrutivas, contudo, jamais vencedoras; daqueles que não desistem do anseio de remover à força a verdade, de apagar a vida, e em dispor ciladas e armadilhas a fim de disseminar a traição e mentira e morte. 

     E muitos, dentre nós, serão instrumentos para que a injustiça, o sofrimento e a tirania alcance o povo de Deus. Mas, ao contrário deles, devemos seguir os exemplos do Dr. Kalley e outros tantos servos fiéis, e nos negar a viver a pior entre todas as hipocrisias: o silêncio autoimposto, ou medroso, da mordaça secular. 

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    PS: Parece que até mesmo a Editora Fiel se sentiu "amordaçada" secularmente, ao esgotar a primeira edição e não republicar o livro, que se encontra fora de catálogo. 


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Avaliação: (***)

Título: A Jornada no Império - Vida e Obra do Dr. Kalley no Brasil

Editora: Fiel

Páginas: 256

Sinopse: 

"Jornada no Império retrata a vida de um médico que ousou desafiar os poderosos de uma época, colocando em risco a sua própria vida, por amor ao Senhor Jesus e às almas perdidas. 
Uma das mais desafiadoras e emocionantes biografias missionárias, que narra os esforços do escocês Dr. Robert Kalley, que, em meio a perseguições e dificuldades aparentemente intransponíveis, pregava ousadamente a palavra de Deus nas ruas ensolaradas da Ilha da Madeira e depois, no Rio de Janeiro.
Volte ao tempo do Brasil império e acompanhe a jornada do Dr. Robert Kalley. Veja um pouco do quadro da perseguição ao avanço no Evangelho na época do império português e o nascimento da igreja evangélica brasileira em meio às provações e sofrimentos do evangelismo em países tomados pela idolatria."





26 outubro 2020

Conta-Gotas: 3 - Cristo fez!

 


Jorge F. Isah


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        Como Igreja, cada um de nós é visto pelo Pai como que por um filtro, no qual nossos pecados e inimizade são apagados, atravessados pela luz, pulverizados pelo poder gracioso de Cristo, o qual nos substituiu, tomando o nosso lugar, pagando o que era para nós impossível pagar; fazendo o que estava irremediavelmente inalcançável diante de nós. 
        Em suma: tudo o que precisávamos e não podíamos fazer, Cristo fez!
        Honra e glória e louvor somente a ele!


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16 outubro 2020

O amanhã póstumo em "Ópera dos Mortos", de Autran Dourado

 




Jorge F. Isah


Nos últimos meses, me aventurei pela leitura da ficção mineira, algo negligenciado há muito; e me fazia sentir um senso de injustiça quanto à minha própria terra. Por isso, comecei com Fernando Sabino e o seu “Encontro Marcado” (concluído, e cuja resenha pode ser lida aqui mesmo), ando às voltas com “Crônica da Casa Assassinada”, de Lúcio Cardoso (a conclusão desse demandará ainda um bom tempo) , “Obra Completa”, de Murilo Rubião (em fase de leitura), e “Ópera dos Mortos”. Ah, não posso me esquecer de Luiz Ruffato e o seu “Flores Artificiais” (resenha por aqui, também), e a próxima leitura, já adquirida, de “Verão Tardio”, do mesmo autor.

“Opera dos Mortos” é considerado o maior romance de Autran Dourado, que é comparado a Guimarães Rosa, de quem ainda não consegui concluir nenhuma leitura, e me é, em algum aspecto, um escritor intragável. Espero mudar de ideia, pois pretendo novas tentativas de leitura dos seus principais livros, e talvez ele se torne digerível. Mas entendo a comparação, já que Rosa é considerado o maior prosista mineiro e, ao lado de Machado de Assis, do Brasil. Mostra a envergadura de Autran Dourado, e um pouco de quem estamos a falar. Escrito em 1967, o livro é o primeiro volume da trilogia cuja sequência se dá com “Lucas Procópio” e “Um Cavalheiro de Antigamente”.

A história se passa no interior mineiro, e tem como principal personagem um “Casarão”, isso mesmo, onde se desenrolam os conflitos, intrigas e a solidão dos demais personagens. Esses são como vultos, fantasmas, a assombrarem com seus desvios e pecados as paredes, tetos e pisos da construção, numa sequência interminável de feridas expostas e das quais é impossível se esquecer; sem alívio, uma dor interminável. O ressentimento, o orgulho, a amargura áspera, permeia a vida dos ocupantes e o restante da cidade, em um sentimento de culpa sem qualquer perdão. Tudo porque, no passado, a cidade traiu a confiança e boa-fé do patriarca da família Honório Cota, pai de Rosalina, moça que conserva a tradição familiar de isolar-se em casa e evitar, a todo custo, o contato com os demais habitantes da cidade. Do avô, Lucas Procópio, odioso em seu comportamento desumano, frio e egoísta, Rosalina parece herdar a loucura, uma loucura melancólica, trágica, quase inofensiva (a não ser a si mesma), enquanto o ancestral impregnou-se de uma demência maligna, perversa.

Moram no casarão a empregada Quiquina, uma descendente de escravos e que criou Rosalina, tendo-a por filha, após a morte da patroa. E a chegada do maledicente e preguiçoso e errante Juca Passarinho, exímio caçador, a despeito de ter apenas um olho bom; o outro, era uma névoa branca. Ele se apaixona pela figura nobre, circunspecta e altiva de Rosalina. Com o tempo, angaria alguma simpatia dela e a aversão de Quiquina. Com o tempo também, as coisas mudam; se de dia o aspecto geral da casa e suas relações é austera, formal e corriqueira, a solidão de Rosalina, que não tem com quem conversar, já que Quiquinha é muda, acaba por “ceder” à bisbilhotice atrevida de Juca; e este passava as tardes ouvindo as resenhas da patroa, atropelando-a vez ou outra com os seus palpites despropositados e perguntas indelicadas. À noite, o convívio tomava ares completamente distinto, fazendo lembrar ao narrador (indistinguível) as diatribes do velho Procópio.

O Casarão contém, em seu espaço, duas realidades diferentes, em que as vidas se encontram no limiar de uma tragédia grega. E acaba por consumar-se.

É impossível não relacionar o título da obra com o enredo, no qual se vislumbra a realidade em que os mortos de verdade estão vivos, e tão vivos que impregnam os habitantes da casa com a própria morte; como se a resistência estivesse no estigma de leva-los, os ainda vivos, à morte, de forma a unirem-se a eles. E se os ainda vivos agem como mortos, e os mortos como vivos, nas lembranças, objetos, e condução da vida na velha mansão, ali se enterram, e são enterradas, as esperanças, os desejos, as almas dos moradores. Nem mesmo quando a casa é aberta e os habitantes da cidade têm a oportunidade de invadirem os seus cômodos, a tortura, o martírio permanecem como presenças graves em cada parte, cada detalhe, cada som, sem que ninguém se sinta ou esteja livre da mancha a gravar o vestígio da condenação e a clausura de todo o povo, dentro ou fora do Casarão. Ele é o centro da sociedade, da atividade, da vida pregressa e futura da cidadezinha.

Ópera dos Mortos é uma grata surpresa. Um livro em que Autran Dourado traça a ponte entre o passado e o presente, e um futuro tão embebido neles que se transforma em “amanhã póstumo”, onde a morte traz da vida outros defuntos.


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Avaliação: (****)

Título: Ópera dos Mortos

Autor: Autran Dourado

No. Páginas: 212

Editora: Civilização Brasileira

Sinopse: 
           "O senhor atente depois para o velho sobrado com a memória, com o coração", adverte o narrador, que aos poucos se confunde com a própria cidade onde mandava o coronel Lucas Procópio Honório Cota. Tratava-se de um homem valente, que impunha respeito pela força e truculência, traços que passavam distante da personalidade de seu filho e herdeiro, João Capistrano. Melancólico, em luta permanente para se livrar do fantasma do pai, João fracassa na política ― sua única chance de se impor na cidade ― e passa o resto de seus dias trancado no sobrado que ergueu como uma espécie de monumento à família. Com o correr dos anos, o casarão vai se impregnando cada vez mais dos fantasmas dos antepassados, que transformam tudo, de objetos a ambientes, em signos da morte. É neste ambiente opressivo e desolado que Rosalina, filha única de Capistrano, vai viver depois da morte dos pais. Solteira, isolada do mundo e tendo como única companhia a empregada Quiquina, que é muda, ela passa seus dias fazendo flores de pano e vagando entre paredes carcomidas e relógios parados. Mas a rotina do sobrado será alterada com a chegada de José Feliciano – ou Juca Passarinho, como é conhecido. O biscateiro vai à cidade em busca de trabalho e acaba entrando aos poucos no universo enigmático da casa e, principalmente, na vida da austera Rosalina. Lançado pelo célebre romancista mineiro em 1967, Ópera dos Mortos foi incluído pela Unesco numa coleção das obras mais representativas da literatura mundial. Autor vencedor do Prêmio Camões (2000) e do Prêmio Machado de Assis (2008)."




29 setembro 2020

Conta-Gotas: 2 - Teologia

 



Jorge F. Isah

      

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        A luta contra a Teologia é uma luta contra a Escritura também, que é o foco da Teologia. Há bons e maus teólogos, boas e más doutrinas, boas e más aplicações e práticas, mas isso não depõe contra a Teologia em geral. 

        Se alguém faz mau uso dela, a culpa não lhe pode ser imputada. Que se ataquem os maus teólogos, as más doutrinas, as igrejas e pessoas que as defendem. Mas, para isso, o sentimento, ou sensações, ou achismo e senso comum, será de pouca ou nenhuma utilidade.

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14 setembro 2020

Conta-gotas: 1 - Ao mal chamam bem


Jorge F. Isah


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          Como nós, os holandeses primeiramente liberaram a maconha e outras drogas. Agora eles praticam o extermínio assistido ou eutanásia de idosos e doentes. E tudo isso porque, negar o Cristianismo e o Deus bíblico, é uma batalha interminável.
         Tudo começa com a falsa ideia de se garantir direitos individuais a partir do direito coletivo, para depois negar que o indivíduo tenha direitos. E como caminhamos para a legalização das drogas, do aborto, do homossexualismo, da pedofilia, zoofilia, etc, preparemo-nos para a eutanásia ou eugenia estatal. 
         Se Deus não tiver misericórdia, será apenas questão de tempo, como em outros países. Pois o mal é persistente, reinventa-se, e ilude muitos com uma “aparência “ de bem. Como disse o profeta: "Ai daquele que chama o bem de mal e mal de bem" (Isaías 5:20).


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31 julho 2020

Luz em Agosto: O mundo idiossincrático de Faulkner






Jorge F. Isah


Gastei um bom tempo lendo este livro. Para ser mais exato, quase um ano. E não foi uma leitura fácil. Em muitos momentos me vi refletindo em algo do texto, sem poder continuar. Um certo “peso” me fazia parar e buscar uma literatura mais digerível, menos estafante. Com isso não estou dizendo que não gostei de “Luz em Agosto”, pelo contrário, já estou engatilhando o próximo livro do autor.

Como Thomas Mann, Faulkner não é para leitores apressados, ao menos, é o que penso. Em um mundo onde a literatura se tornou refém das imagens, como subproduto criado para a TV ou Cinema, é possível afirmar que a maioria das pessoas não se interessará pelo livro. Alguns o considerarão difícil. Outros indesejado. Para muitos outros, ignorado. É o preço a se pagar por gerações e gerações de pessoas cada vez mais apequenadas em seu mundo tubular, de lcd ou led. Mesmo os e-readers pertencendo ao “mundo” dos LEDs, a grande massa ignora-os por completo.

 Faulkner tece a sua linguagem de forma minuciosamente orquestrada, onde cada palavra parece desempenhar uma função além do próprio significado. Ela transcende a si mesma, revelando um mundo muito mais vasto do que o sentido que se atribui. Como se fosse um tubo de imagem (os mais velhos saberão do que estou falando) a emitir uma explosão de ondas capazes de formar uma paisagem nem sempre nítida, nem sempre identificável, mas sempre abrangente. Ainda que os indivíduos tenham nome, endereço e cpf, qualquer um de nós pode se identificar ou identificar algum conhecido entre as figuras criadas pelo autor.  

Os personagens desfilam sua ordinariedade (no sentido trivial, comum), mas por meio de uma narrativa sofisticada e, por vezes, hermética. Penso que nenhum escritor deseja ser impenetrável ou complexo, mas são características que permeiam grandes nomes da literatura (James Joyce me parece o expoente entre todos). Eles gostam de “brincar” com o leitor, em um jogo de charadas intricadas, ou não tão reveladoras, deixando a cargo da imaginação e da intuição o complementar a informação. Há quem goste. Há quem desgoste. Há quem não se importe. O certo é que, uma mesma história pode ser contada de maneiras diferentes. Algumas afloram asco, outras indiferença, ainda outras encanto. Faulkner está no terceiro e último grupo, bastando a atenção necessária, e a paciência ainda mais primordial para degustá-la calma e parcimoniosamente.

O livro conta a história de Christmas (e não é por aqui que cessam as referências cristãs), um homem branco que se considerava negro. Desde a mais tenra idade, viveu o dilema de carregar um sangue que não refletia a cor da sua pele. Na verdade, na casa dos 30 anos, não se identificava com qualquer dos aspectos da sua origem. Apenas se sentia abandonado, jogado à própria sorte. Não se sentia branco, apesar de parecer; e atormentava-se com a negritude, a qual assumiu e alardeou aos quatro ventos, mas que o consumia. Na parte sul da América, onde a escravidão havia sido abolida, mas a segregação estava a pleno vapor, ser negro não era o melhor dos mundos. E Christmas parecia se autoflagelar, ou não ser capaz de escapar do estigma que supunha distingui-lo. Era uma espécie de autoexpiação, de purgar a si mesmo pelo que não tinha, enquanto abandonava o que lhe restava.

Antes, e a narrativa principia daí, temos uma jovem grávida, Lena, prestes a conceber, que atravessa metade do país em busca do pai do seu filho, o qual prometera se casar, mas fugiu, deixando pistas ambíguas do seu paradeiro. Ela viaja solitária, contando com a ajuda de estranhos para alimentar-se e cruzar os territórios à caça do aspirante a marido.

Talvez a figura mais marcante e atormentada seja a do pastor Hightower, homem confuso quanto a sua fé, o relacionamento com Deus, e as lembranças de sua esposa nada sincera. Ele faz várias reflexões, sem contudo chegar a alguma conclusão. Passa boa parte do tempo se torturando com as lembranças e o próprio rumo que a sua vida tomou, quando não está a desgraçar os outros. Não somente através dele, e pelo viés de outros personagens, Faulkner utiliza-se das descrições de lugares, situações e ações para “filosofar”, e trazer um certo aspecto racional, ou intelectual, à profusão de sentimentos. Enigmas que precisam ser desvendados, na busca da verdade, mas que são abandonados pelos dilemas cotidianos. Apenas como aperitivo, transcreverei dois trechos em que Hightower pondera:


“‘Mas no céu e na terra há outras coisas além da verdade’, pensa... ‘Muitas outras coisas’, refletindo em que a inteligência foi, segundo parece, dada ao homem para, nos momentos de crise, ele poder proporcionar a si mesmo formas e sons com que defender-se da verdade” (Pg. 390). 

“‘Talvez tivessem razão em introduzir o amor nos livros’, pensava Hightower. ‘Talvez ele não pudesse viver em nenhuma outra parte’” (Pg. 392)

Não falarei mais sobre a obra em si, dado o meu desprazer em escrever resumos e estragar a curiosidade e o divertimento do futuro leitor.

“Luz em Agosto” não pretende iluminar a vida dos personagens, como se viesse reabilitá-los. Não existe a pretensão de tirá-los da escuridão, na qual todos parecem estar imersos, de uma forma ou de outra. Apenas reconhece-os como são, com todos os seus pecados, dúvidas e as complexidades da natureza humana, permeadas por um mundo tão humano e, por isso, idiossincrático em suas relações. Não há heróis. Há, sim, indiferença, ódio, conflitos, mas também bondade ingênua, como a de Burch. Se existe desapego de um lado, há obstinação do outro. E nem mesmo o desapego sobrevive ao crivo do apego, teimoso.

Este é um livro altamente recomendado para não preguiçosos, e que buscam uma leitura “quase idílica”.



_________________________ 

Avaliação: (****)

Livro: Luz em Agosto

Autor: William Faulkner

No. Páginas: 448

Editora: Cosac & Naify

Edição: 3a, 2015


Sinopse: "Este livro de William Faulkner em nova tradução é um romance de arquitetura complexa. A ruptura com a linearidade desconcerta o leitor. O tempo é estilhaçado e é pela valorização dos estilhaços que Faulkner multiplica os pontos de vista, iluminando figuras sublimes e grotescas. Da atmosfera de violência e horror do Mississippi surgem personagens profundamente humanas. Mas a história não termina aí. Toda a maestria da construção de "Luz Em Agosto" se confirma no último capítulo, numa reviravolta narrativa que o consagrou definitivamente. O leitor, guiado pelo autor, encerra o livro em estado de assombro. Viveu intensamente o horror, tomou contato com os recônditos da alma. Percebeu o passado como um inimigo que não dá trégua. Será assombrado por imagens poderosas. Um livro que não tem fim."







28 julho 2020

Sermão em Atos 4.8-12: A exclusividade de Cristo





              Por Jorge F. Isah



“Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” 



INTRODUÇÃO: 

- Pedro e João foram presos e estavam sendo julgados pelo Sinédrio, o Tribunal sacerdotal, por pregarem sobre Jesus, curarem um paralítico e levar multidões à conversão. 

- O objetivo dos judeus era calar os apóstolos, impedindo-os de proclamar o evangelho e curar em nome de Cristo (Atos 3.1-9). 

- O mesmo lugar onde Jesus fora escarnecido, zombado e condenado era agora o local onde Pedro e João também seriam julgados. 

- Da mesma forma que o Senhor foi perseguido, agora os seus discípulos também seriam. Confirmando o que o próprio Senhor havia falado a respeito: 

“19. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia. 20. Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa.”(João 15.19-20) 

- A promessa se cumpria na vida dos apóstolos, e também há de cumprir em nossas vidas, se somos realmente servos do Senhor e proclamamos o seu santo Evangelho. 



A FÉ QUE VEM DE CRISTO E RETORNA A ELE EM LOUVOR:

- Aquele homem paralítico queria dinheiro ou comida ou roupas, ou algo que pudesse ser útil em sua subsistência. Se atentarmos para a tradição judaica, alguém que estivesse doente, tivesse uma deficiência ou fosse pobre assim o era por causa do seu pecado, e por não ser abençoado por Deus. 

- O exemplo de Jó (Jó 1.8-11) é o mais claro. Enquanto teve riqueza, gado, casa, tesouros e servos, foi um homem respeitado, estimado. Até mesmo Satanás compreendia que ele era fiel a Deus porque Deus o cobria de mimos e cuidados. Na visão de Satanás, se Deus lhe tirasse tudo, Jó não teria motivos para permanecer fiel. Em outras palavras, a fé era consequência daquilo que ele recebia, e não de Deus que a sustentava. 

- Pedro não tinha dinheiro ou bens para aquele homem, mas o que tinha, a fé em Cristo para curá-lo ele deu. Eles estavam na porta do Templo, e uma multidão, que conhecia aquele paralítico que diariamente estava ali esmolando, maravilhou-se, correndo para junto dos apóstolos. 

- Pedro, notando que estavam perplexos com o milagre, e acreditando que o poder era deles, disse: 

“12. Homens israelitas, por que vos maravilhais disto? Ou, por que olhais tanto para nós, como se por nosso próprio poder ou santidade fizéssemos andar este homem? 13. O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a seu filho Jesus, a quem vós entregastes e perante a face de Pilatos negastes, tendo ele determinado que fosse solto. 14. Mas vós negastes o Santo e o Justo, e pedistes que se vos desse um homem homicida. 15. E matastes o Príncipe da vida, ao qual Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas. 16. E pela fé no seu nome fez o seu nome fortalecer a este que vedes e conheceis; sim, a fé que vem por ele, deu a este, na presença de todos vós, esta perfeita saúde.”. 

- Aqui cabe um adendo: a fé não pode ser uma fé qualquer. De se crer em qualquer coisa ou feito por meio de outra pessoa. Não. A fé verdadeira é aquela depositada exclusivamente em Cristo e em seus méritos. A fé em si mesma, em outros deuses, santos ou qualquer outra coisa ou objeto, ainda que produza resultados, não é capaz de louvar e honrar o único merecedor da nossa fé: Cristo! 

- Em outras palavras, mesmo que milagres aconteçam em nome de outra pessoa ou objeto, ele não glorificará o Senhor, e, portanto, é um evento cuja origem está em Deus, mas a reputamos a outrem, tirando a glória de Deus. 

- Nesse sentido, o mesmo desprezo que os israelitas tiveram ao escolher um assassino, Barrabás, e condenarem Cristo à crucificação é reprisado. Não dar glórias a Deus pelo que somente Deus faz é desmerecê-lo. Sendo Cristo o único a nos ligar ao Pai, menosprezamos e desdenhamos dele. 



O CHAMADO AO ARREPENDIMENTO:

- Temos esta vida para nos arrepender. Não haverá qualquer chance de arrependimento após a nossa morte. Este é o momento de colocar diante de Deus todos os nossos pecados, inclusive os cometidos diretamente contra ele. Sim, há pecados cometidos diretamente contra o Senhor, e existem pecados que, mesmo não cometidos diretamente contra o Senhor, também o atingem. 

- Exemplos: 

1 – Dar honra e glória a outro deus, ou anjo, ou santo, ou a si mesmo, ou à ciência, ou à natureza, ou a qualquer outra coisa que não seja o Deus Trino, é pecado. 

2 - Furtar ou cobiçar o que não nos pertence mas está na posse de outra pessoa, é um pecado cometido diretamente contra essa pessoa, contudo, o Senhor como Legislador e Juiz é ofendido com o nosso ato, e pecamos também contra ele. Todo o pecado é contra Deus. Tanto que nos 10 mandamentos, os primeiros 5 pecados são cometidos diretamente contra Deus: p. ex. Êxodos 20.3-5a 

2¹- Os demais 5 mandamentos se referem à relação entre os homens, mas ao infringir a lei, criada pelo próprio Deus, tem por objetivo atacar a sua santidade: p. ex. Êxodos 20.12-16 

- Pedro, ao chamar o povo ao arrependimento, não o faz somente em relação aos pecados cometido uns contra os outros, mas o faz, sobretudo, pelo pecado de não honrarem a Cristo como o Filho de Deus, quebrando assim os primeiros 5 mandamentos da lei que eles diziam reverenciar e obedecer. 

“19. Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e para que venham assim os tempos do refrigério pela presença do Senhor” (Atos 3.19) 

- Portanto, arrepender-se de uma mentira ou cobiça desprezando Cristo e não lhe dando a honra devida, é o mesmo que não se arrepender. Jesus tem de ser a razão do nosso arrependimento, pois foi ele, e mais ninguém, que morreu na cruz, carregando sobre si as nossas iniquidades, os nossos pecados, todos eles, para nos levar ao Pai e fazer-nos seus filhos adotivos. 



CRISTO A PEDRA DE ESQUINA:

“Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina” (v.11) 

- Pedra angular, como o próprio nome define, é a primeira pedra a ser assentada em uma construção. Ela é colocada exatamente na esquina (ou quina) entre duas paredes, formando um ângulo de 90 graus. É a partir dela que se constrói o restante do edifício. 

- Pedro está citando o Salmos 118.22. Ele afirma que os judeus, os construtores, rejeitaram a pedra de esquina, Jesus Cristo, e por isso todo o “edifício” espiritual e da fé construido não se sustentaria. Em outras palavras, ao rejeitarem Jesus como o Messias, o Filho de Deus, toda a fé judaica estava firmada em nada, ou seja, estava prestes a ruir. 

- De nada serviriam os seus sacrifícios (encerrados em 70 d.c., na destruição do Templo); o apego à lei, à salvação por obras; a tradição; seus códigos e doutrina, porque tudo se desmoronaria e viria abaixo, porque estavam fundados em mentiras e na negação de Cristo, como Senhor e Salvador. 

- Da mesma forma, muitos de nós acabam por desprezar o fundamento da fé e do relacionamento com Deus, o Pai, entregando a todo o tipo de sincretismo, sacrifícios, esforços próprios que invalidam exatamente o encontro com Deus. 

- Sem Jesus, não existe qualquer possibilidade de redenção, de aproximação de Deus; e ninguém, seja uma pessoa, uma instituição, uma religião, um amuleto, ou qualquer outra coisa, pode ligar o homem a Deus. Somente Cristo, e por meio do seu sacrifício vicário na cruz, podemos nos achegar a Deus, e sermos chamados verdadeiramente de filhos. 



CRISTO O ÚNICO NOME A SALVAR: 

“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos”(v.12) 

- Pedro reafirma os méritos de Jesus, ao novamente afirmar que em nenhum outro há salvação. A salvação é algo que não pode ser conquistada pelo homem. Ninguém pode se salvar a si mesmo por meio de boas obras, de sacrifícios, cumprindo rituais, pagando promessas, ou participando desta ou daquela igreja, desta ou daquela religião. 

- O batismo não salva. Unção com óleo não salva. Orar no alto do monte não salva. Ir à igreja não salva. Participar da ceia ou comunhão não salva. O sinal da cruz não salva. Carregar uma cruz não salva. Nem um culto ou missa fúnebre salva. Nem as bênçãos do pastor ou padre salvam. 

- Em um sentido primário, nem mesmo ler a Bíblia salva. Ela é instrumento divino para a instrução, revelando-nos a nossa condição de inimizade com Deus, os nossos pecados, e necessidade urgente de reconciliarmos com Ele. Mas ela, por si só, não salva. Se fosse assim, muitos leitores da Bíblia não estariam no inferno. 

- Apenas Jesus Cristo salva. Ele sim é o Redentor, Senhor e Justificador do homem. E é isto o que Pedro diz: 

“debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos”. 

- É urgente que você, caso creia em alguma outra maneira de salvação, reveja os seus conceitos e, à luz da Palavra de Deus, arrependa-se dos seus pecados e se coloque inteiramente nas mãos daquele que tudo fez, inclusive pagar sofrer na cruz a pena que nos era devida, quitando-a, e tornando-nos santos como Ele é santo. 

- Cristo foi quem saldou a nossa dívida; e ela não existe mais, extinguiu-se e fomos libertos da condenação e separação eterna de Deus. Não porque fiz isso ou aquilo, acreditei nisso ou naquilo, mas porque Cristo o fez em meu lugar, e agora me chamou para estar eternamente com Ele, e pregar o seu Evangelho de vida, a outros que, como eu, e você, estávamos mortos em nossos delitos e pecados. Mortos para Deus. 

- Ele é o único capaz de nos levar à vida, à vida com Deus. 



CONCLUSÃO: 

- Portanto, neste momento, oro para que cada um de nós faça uma reflexão, busque em seu interior as razões pelas quais ainda não entregamos a nossa vida em suas mãos santas, puras, eternas e perfeitas. Por que resistimos, crendo que o “poder” de salvar está em nós. Por que nos iludimos com a tradição, práticas pagãs, com a ideia de sermos salvos por uma igreja ou religião, ou mesmo por outrem, seja deus, anjo ou santo, e rejeitamos a Cristo. 

- Sim, quando não reconhecemos a suficiente da sua obra, depositando-a em qualquer outra coisa ou pessoa, rejeitamos o único que pode salvar, e efetivamente salva. 

Como está escrito: 

“23. Disse-lhe Jesus: Teu irmão há de ressuscitar. 24. Disse-lhe Marta: Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia. 25. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; 26. E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca irá morrer. Crês tu isto? 27. Disse-lhe ela: Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo.” (João 11.23-27) 

- O Senhor nos capacite a crer somente nEle; e nos livre das tentações e distrações que nos afastam de uma vida plena em salvação e graça.

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Nota: Para ouvir o áudio da pregação, clique em Tabernáculo Batista Bíblico


08 julho 2020

O Encontro Marcado e Desmarcado em Eduardo





Jorge F. Isah



A primeira coisa que me chamou a atenção foi a fluidez da narrativa, quase uma corrida tresloucada empreendida pelo autor para “prender” o leitor. Há uma profusão de imagens, diálogos e cenas a se atropelarem umas sobre as outras, como se estivessem a competir entre si; tal qual o personagem principal Eduardo Marciano (um alterego de Sabino?) fazia enquanto atleta da natação. Há também cortes abruptos e “finais” sem fim, para que o próximo ato não se perdesse em meio às superficialidades narrativas. Mais do que uma apreciação, e menos do que uma censura, o fato é que dá para ler “Encontro Marcado” de uma sentada só. Nesse aspecto, temos um ponto a favor. 

A segunda coisa que me chamou a atenção foi a futilidade ou melhor, a falta de propósitos de uma geração, especialmente dos autores mineiros. Em meio ao “Estado Novo”, a 2ª Guerra Mundial, a “Guerra Fria”, e a ascensão comunista na Europa, Eduardo e seus amigos Hugo e Mauro (a tríade etílica mais que literária), se consumia em porres homéricos, sexo fortuito, intrigas, arruaças, e uma busca existencialista, quase niilista, que os levava à angustia e ao desespero. Mesmo sabendo que a juventude é palco para as aspirações menos “nobres” e dignas da vida, eles se aplicavam a superar, em muito, o vulgar e ordinário. Ainda que tudo parecesse uma “farra”, onde os desejos eventuais se pareciam vícios, no desequilíbrio de uma rotina nociva e autodestrutiva, Eduardo, um católico não praticante, atormentado pelas dúvidas em relação a Deus, apegava-se à invocação carnal, intelectual, como remédio para a insatisfação espiritual. E não se pode livrar de um problema com o tratamento para outro problema. Na verdade, a baixa disposição moral, o orgulho exacerbado e pretensa superioridade faziam agravar ainda mais a insatisfação existencial, à medida em que o tempo passava e nada daquilo a que se propunham chegava a bom termo. 

A terceira coisa, foi a nítida impressão de um livro escrito “às pressas”, de aparente superficialidade, mas que, na verdade, discute, e, quando não o faz, apresenta os temas mais importantes da humanidade e que torna o homem no que ele é, um ser ambíguo, duplo, quebradiço, instável. A modernidade fez, no sentido do ceticismo, hiperbolizar essas características ao ponto de perder-se tal qual o cego buscando a agulha em um palheiro. 

Portanto, não se iluda com a linguagem pretensamente despojada, porque ela guarda muitas surpresas ao leitor atento. 

Com o mote de um “encontro marcado” entre os amigos, no futuro (coisa que quase todo mundo prometeu fazer mas não cumpriu), temos na verdade a busca pela realização e o encontro com uma realidade nada idealizada. Eduardo, por exemplo, buscava sempre a ideia brilhante para um grande romance despontar, e nunca acontecia. Se dispunha a sacrifícios em prol da arte da escrita, mas ela se lhe apresentava ingrata e nula. Apesar dos artigos, contos e poemas esporadicamente publicados na imprensa, a sua obra notável permanecia irrealizada, inédita. Persistia, contudo, a busca pelo sentido; e este cada vez mais se mostrava distante da vida burguesa a qual se propunha, regada a “sexo, drogas e rock”. 

Interessante notar que, pelas vias biográficas, a história nos mostra que o homem sempre esteve às voltas com a distração; os prazer carnais e intelectuais seriam a “ponte de salvação” para a humanidade, mas se mostrou, em todos os casos, apenas devastadora e falaz. Enquanto o homem busca, em si mesmo, a razão para a “vida”, seus esforços serão menos do que insensatos e mais do que tolos. Existe no homem a necessidade de Deus, e ela não pode ser preenchida por nada além do próprio Deus. Por isso o homem ergue ao “patamar de Deus” o conhecimento, a ciência, o sexo, os vícios, o dinheiro, o poder, o trabalho, e qualquer outro ídolo a substituí-lo, sem, contudo, se sentir plenamente realizado e satisfeito. Eduardo é assim. Na busca de sentido, perdeu-o em alheação e descuido. Restou-lhe a solidão e os vícios a tentar preenchê-la. 

Algo nele está a apontar para Deus, na forma da religião ou tradição religiosa, mas ele não a busca verdadeiramente, até se ver por completo alijado do mundo construído à sua volta (este sim, à custa dos seus esforços), e restar-lhe os conselhos do amigo monge. Ainda assim, não existe disposição para encarar a realidade da sua auto-insuficiência, e seus questionamentos parecem mais uma satisfação à sua (in)consciência, sem a pretensão ou o desejo de encontrar respostas às perguntas. Não parece haver sinceridade, apenas desespero. Nem uma busca real, mas o despiste e a negação da razão. Sim, interpelar-se significava acomodar a consciência, em uma fuga contingente, sem o objetivo de alcançá-la. Nesse sentido, o “encontro é desmarcado”, e suas buscas infrutíferas e não desejadas. 

Eduardo é a personificação de uma geração, digo, de muitas gerações de artistas, em épocas e lugares diferentes, envolvidas pelo fracasso. Tinham todos os recursos para se destacarem em seu tempo, mas preferiram a permanência em uma “zona de desconforto”, no qual a insatisfação e a autovitimização encarregaram de derrotá-los. O ego exacerbado e o orgulho jogaram uma pá de cal no talento e na disposição natural, levando-os ao fiasco. Não apenas como artistas, mas como homens. 

Fernando Sabino trata desse homem, o homem perdido e não encontrado. O homem buscado e nunca achado. O homem de intentos, mas sem sentido. Os sentimentos prevalecendo sobre a razão. Cada vez mais ressentido, contristado, combalido. E o tempo passa, e nada muda. Porque o sentimento verdadeiro se perdeu em meio à algazarra de todos os espíritos consternados, aflitos. De uma aflição artificial, feita a fórceps, e por isso ainda mais desordenada e letal. 

Este livro foi uma grata surpresa, especialmente porque, na minha adolescência, havia lido alguns livros de Sabino, e não guardava nada daquelas leituras. Abriu-me o apetite em reler, e ler, outras de suas obras.

 

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Avaliação: (***)

Título: O Encontro Marcado

Autor: Fernando Sabino

Editora: Record

Número de Páginas: 296

Sinopse: "Esta é a história de um jovem em desesperada procura de si mesmo e da verdadeira razão de sua vida. Quase absorvido por uma brilhante boêmia intelectual, seu drama interior evolui subterraneamente, expondo os equívocos fundamentais que vinham frustrando sua existência e sufocando sua vocação. O encontro marcado é a história de Fernando Sabino? Sim, mas não se trata de uma autobiografia. É a história atormentada de toda uma geração, naquilo que ela tem de essencialmente dramático. Em meio às confusões da vida, procura-se um valor que dê sentido à desconcertante experiência pessoal de quem trava um duelo de morte com a vocação furtiva. História de adolescência e juventude, de prazeres fugidios, desespero, cinismo, desencanto, melancolia, tédio, que se acumulam no espírito do jovem escritor Eduardo Marciano, um homem que amadurece num mundo desorientado. Ele vê seu matrimônio quebrar-se quando já não pode abdicar; por força de sua própria experiência, o suicídio deixa de ser uma solução. Nessa paisagem atormentada, ele deve renunciar a si mesmo, para comparecer ao encontro com uma antiga verdade." 





23 junho 2020

Um jardim quase real em "Flores Artificiais"






Jorge F. Isah



Este é o primeiro livro de Luis Ruffato que li. Se considerar que “Eram muitos Cavalos” passou por duas tentativas, mas foi impossível conclui-la, “Flores Artificiais” é o meu livro de estreia no universo “Ruffatoniano”. Aquele era um livro por demais experimental, na pior concepção do termo (travado, caótico, impermeável), e que não consegui prosseguir. Ainda penso em uma terceira investida, mas não sei quando se dará ou se dar-se-á.

Em “Flores Artificiais”, o texto flui, porque existe uma história, ainda que a narrativa não seja convencional. Nada de novo debaixo do céu, mas sem invencionices estilísticas e herméticas que mais afastam do que aproximam o leitor, existe uma sobreposição de relatos. Alguém pode considerar que a minha experiência é a de um leitor comum, mas comum ou incomum (não sei a que os termos se referem), certos livros são chatos, demasiadamente chatos, pretenciosos, e não contam uma boa história, se é que contam.

Ruffato parece se preocupar com a linguagem e o estilo mais do que a narrativa, ao menos foi uma das primeiras impressões que tive com essas duas obras. Não há nada de mal, mas muitas vezes compromete o relato. Ainda sou daqueles que apreciam uma boa história e bem contada, aos moldes de Dickens, Machado, Dostoievski, Faulkner e Mann, para citar alguns. Quando o estilo ou a forma prevalecem sobre o relato, é sinal de uma história ruim embalada em uma prosápia.

O livro é basicamente composto de histórias dentro de uma história. O personagem principal, Dório, é um funcionário do Banco Mundial, sem residência fixa, um “homem do mundo”, sem identidade, sem pátria, sem um porto seguro. Vive de trabalhar em vários continentes (nunca sabemos ao certo o que faz), e acaba por descrever a vida das figuras que o cercam. Seria um “voyeur”, a viver a vida através das vidas alheias. Ao menos, quanto ao objetivo de narrá-las, ou um “resumo” de vida.

Tudo começou quando, por conselho da sua psiquiatra, decidiu escrever suas “memórias”, a fim de colaborar no tratamento da solidão ou isolamento. Na meia-idade, solteiro, sem amigos ou parentes, encontrava-se em estado de letargia; então a resolução em compilar muitas das histórias que presenciou, e faziam parte da sua própria história. Por isso, disse, que este era um livro de histórias dentro da história. Na verdade, pouco se sabe sobre o personagem em si, porque a narrativa se atém mais ao que ele vê, e interage, do que propriamente seus sentimentos e pensamentos.

Com o material em mãos, envia-o ao autor (Ruffato?) para aprimorá-las e dá-las um toque final, romanesco; ciente da incompetência em escrevê-las, do ponto de vista literário. Prova é que, na introdução, o autor diz não ter aproveitado nem metade do material enviado.

Não o classificaria como um romance, ainda que o façam. Se aproximaria mais de um livro de contos, já que as narrativas não têm conexão, a não ser na figura do intérprete ou narrador.

Quanto a Dório, ainda que o autor tente convencer o leitor da sua existência, como um personagem real e não fictício, não há como não entender a sua presença longe do escopo virtual. Dório é criação de Ruffato, fruto da sua imaginação, ainda que jure não ser.

E o livro, como ficção, é bom, mas nada além do comum, porque Ruffato quer comunicar o comum, a vida comum, pessoas comuns, mesmo com algum malabarismo estilístico e formal. E consegue, as vezes, manter o equilíbrio entre elas. Criando um jardim quase real de flores artificiais. 



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Avaliação: (***)

Título: Flores Artificiais

Autor: Luiz Ruffato

Editora: Cia das Letras

No. Páginas: 152

Sinopse: 

"O escritor Luiz Ruffato recebe em sua casa a correspondência de um desconhecido. Trata-se de um manuscrito, uma compilação de memórias que Dório Finetto, funcionário graduado do Banco Mundial, redigiu a partir de suas muitas viagens de trabalho. Como consultor de projetos na área de infraestrutura, Finetto percorreu meio mundo numa sucessão de simpósios, reuniões e congressos. A mente de engenheiro, no entanto, esconde um observador arguto e sensível, uma dessas pessoas capazes de se misturar com naturalidade num grupo de desconhecidos. De Beirute a Havana, passando por Hamburgo, Timor Leste, Buenos Aires e incontáveis lugares mundo afora, Finetto colecionou grandes histórias e pequenos acontecimentos. Foi tão capaz de se misturar à vida local quanto de saber a hora exata em que o prudente é tomar distância e não se envolver. Por alguns momentos, fez parte da vida dessas pessoas. Em outros, foi protagonista involuntário do drama alheio. Às vezes, assistiu a essas realidades quase como de um periscópio. Foi a partir dessas observações que Finetto compôs seu Viagens à terra alheia, o manuscrito que mandou ao conterrâneo Luiz Ruffato. E é este livro dentro do livro que Ruffato irá transformar no romance Flores artificiais. Partindo de um esqueleto ficcional, Ruffato - o autor, e não o personagem do próprio livro - irá embaralhar as fronteiras entre ficção e realidade, sem jamais perder de vista a força literária que é a grande marca de sua obra."