19 maio 2020

Prefácio de Fábio Ribas ao livro "Esconderijo de Dias Intangíveis"





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“O mistério é assimilar,

por que Deus se fez homem,

viveu e se ofereceu

aos inimigos?”

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Todo livro é um encontro. Um encontro não meramente com seu autor, mas com todas as vozes, lugares e tempos proporcionados pela narrativa que lemos. E a poesia de Jorge Isah me trouxe ao encontro de inúmeros personagens, sujeitos dispersos, que, senti eu, o autor arrancava de dentro de si. Como se percorrêssemos 20.000 léguas para dentro do mar sem fim desse universo criado pelo autor, mas o capitão tem mão segura e, assim, verso a verso, leva-nos numa cadência existencial que nos coloca diante de nós mesmos.

Encontrei-me com um poeta que, além das narrativas, amadurece e domina a métrica, o ritmo e a rima de forma cada vez mais precisa. Um poeta que desapossa de si sua poesia e nos oferece um encontro conosco também, porque é de nossos vãos e recônditos, da nossa carne e da nossa espera por intervenção divina que nos deparamos com a nossa humanidade. As lutas, os devaneios, as indagações e o desespero dos personagens de Jorge Isah são os mesmos de todos nós. Estamos sempre nos esbarrando com estes sujeitos múltiplos - este vaso que caiu das mãos da criada descuidada e se fez em mil pedaços - e nos surpreendemos ouvindo tantas vozes. Eu me assombrei quando li a voz que também sempre ouço: “Calma, ninguém nunca quer”! 

A poesia anseia um dia ver o perfeito face a face e a obra de Isah é uma obra de santidade, pois relembra que a divindade ou, melhor dizendo, o Espírito Santo, é quem reunirá os sujeitos dispersos e nos dará, um dia plenamente, mas, aqui neste front de guerra, a cada dia e todo dia, o ajuntamento necessário e preciso dos nossos cacos, dos nossos pedaços, até que nos olhemos no espelho e possamos ver, em nós, Jesus, o Cristo, completo.

Todavia, ainda seguimos tateando o velho arcano. E os versos são os campos de batalha, porque todo poeta também necessita ser santo. Fugindo da religiosidade, embora se deparando com ela todo dia, o poeta força a palavra como quem força a vida no intuito de recriar a criação. E o que seria do ourives sem sua prata e seu ouro? E o que seria do poeta sem suas palavras? A árdua disputa do poeta contra seu verso se faz necessária, porque fomos chamados para dominar a natureza dos signos e o universo dos significados. É um embate, é mesmo uma guerra de conquista, por isso o verdadeiro poeta sabe que o texto - fruto desse esforço espiritual e físico - é símbolo de sua terra definitiva. Finalizado e dominado no espaço exato da forma, todo poema é para seu autor sua terra prometida: nossa escritura é nossa pátria! 

Eu quero convidar você a ler estas páginas com a reverência necessária - o respeito pelo sagrado - que nossa geração perdeu, mas que tanto carece, ainda que não consiga discernir isso na confusão da nossa decadente modernidade.  

 

Fábio Ribas

 

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Livro: Esconderijo de Dias Intangíveis

Autor: Jorge F. Isah

Editora: Kálamos

No. Páginas: 162

Sinopse: "Este livro promove um encontro não meramente com seu autor, mas com todas as vozes, lugares e tempos proporcionados pela narrativa. Os poemas apresentam inúmeros personagens, sujeitos dispersos, que o autor parece arrancar de dentro de si. No mar deste universo criado pelo autor, o capitão tem mão segura, verso a verso conduzindo a uma cadência existencial que coloca o leitor diante de si mesmo."



06 maio 2020

Cristo venceu










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"Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça" (Isaias 41.10)

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Jorge F. Isah



Foram 36 dias internado em três hospitais diferente: Odilon Behrens, Metropolitano e São Francisco. Internei-me no dia 15 de Março com suspeitas de problemas na vesícula biliar, tendo em vista uma icterícia que me acometeu de uma hora para outra, deixando-me igual a um dos personagens dos Simpson, completamente amarelo. Muitos exames, antibióticos, jejuns e litros de soro, descobriu-se que eu estava com um nódulo no pâncreas, e este comprimia a vesícula, impedindo que a bílis fluísse para o intestino, causando o amarelão. Havia a suspeita de neoplasia, de ser um tumor. 

Sempre soube que tumores no pâncreas eram os mais difíceis de serem tratados, e os que ocasionavam maior mortalidade. Ainda assim, o Senhor manteve-me calmo, esperançoso, confortando e fortalecendo-me em meio às dúvidas e incertezas médicas. Como testificou o apóstolo: “Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus” (Fp 4.6-7). 

Havia ainda um agravante: por causa do Coronavírus, estava isolado, distante da família, sem visitas ou acompanhamento. Mas Deus, em sua infinita misericórdia e amor, fez com que os médicos, enfermeiros, auxiliares, atendentes, copeiras e faxineiras cuidassem de mim de uma maneira tão especial que me sentia parte de suas famílias. Nesse ponto, pude testemunhar o cuidado divino, o seu amor gracioso e bondoso me envolvendo por todos os lados, de forma que não me encontrei abandonado um único instante; pelo contrário, o Senhor me carregou como a um recém-nascido, protegido, aquecido, alimentado, nos braços do Pai amoroso. 

Mesmo nos momentos de fome, senti-me alimentado; de frio, senti-me aquecido; cansado, repousado; fraco, fortalecido; preocupado, tranquilo... A maior parte do tempo estive em paz, não uma paz brotada da minha alma, mas a paz que somente o nosso Senhor pode dar, e ma deu. Em todos os momentos, a presença de Deus era diretamente viva, e, indiretamente, demostrada pelo cuidado, atenção, carinho e dedicação das diversas equipes dos hospitais. 

Também pude, durante a internação, aprender muitas coisas ensinadas pelo Senhor, como a humildade (dependia completamente de todos; e não havia nada que pudesse fazer por mim mesmo) e o amor ao próximo. Pude não somente me compadecer dos doentes com os quais convivi, mas a amá-los de uma maneira que o evangelho de Cristo nos ensina e o Espírito nos capacita a fazê-lo. Orei com alguns deles, falei de Jesus, e testemunhei a minha completa dependência dEle. 

Louvo a Deus por aqueles 36 dias, em que o Senhor se aproximou mais e mais de mim, e pude senti-lo como não O sentia há tempos. Entendi que havia um propósito claro e evidente para tudo aquilo, e dei graças ao bom Deus pelo que estava realizando em mim, para o meu aperfeiçoamento. 

A cirurgia, de grande porte, realizou-se na Sexta-feira da Paixão, 10 de Abril, e o nódulo não pode ser completamente retirado por causa da sua localização. Foram colhidas 5 amostras para análise; e quando fiquei sabendo da notícia, um certo abatimento me sobreveio. Novamente, o Senhor usou as pessoas ao meu redor para me animarem, e dois médicos em especial, do Hospital São Francisco, foram fundamentais: o Dr. Juan Soria e o Dr. Paulo Carvalho Goes, membros da equipe do Dr. Igor Michalick. 

Fiquei apenas 2 dias no C.T.I., indo para a enfermaria, mas tive a estadia prolongada por causa de uma infecção intestinal, que me debilitou bastante. 

Pois bem, após 15 dias de alta médica, ontem fui ao oncologista para saber o resultado da biopsia e o meu estado geral. E contra todos os prognósticos, suspeitas e afirmativas médicas, o nódulo era benigno, e não precisarei passar por nenhum outro procedimento. Terei consultas médicas a cada 3 meses, para acompanhamento. Mais uma vez, pude experimentar o amor de Cristo me envolvendo de maneira maravilhosa, inexplicável. Percebi que a bondade do Senhor se estendeu aos meus familiares e amigos e irmãos que estavam aflitos, agoniados, e puderam respirar aliviados, e agradecer a Deus pelo milagre e graça recebida. 

Quero agradecer a todos que oraram e pediram por minha cura e vida: sou-lhes eternamente devedor. Peço que continuem orando, pois ainda estou em convalescença, e para Deus extirpar o restante do nódulo que não pode ser retirado. Ele é o Deus único e verdadeiro, o Deus dos milagres e do impossível, e me rendo completamente ao Seu senhorio, sabendo que, em todas as minhas fraquezas, dúvidas e temores, Ele é a força, a certeza, esperança e o destemor com o qual me conduzirá na caminhada cristã, ou seja, no aperfeiçoamento, na obra de santificação, moldando-me à semelhança do Seu Amado Filho. 

Como o salmista escreveu: “O SENHOR é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é a força da minha vida; de quem me recearei?” (Salmos 27.1) 

Para terminar, gostaria de deixar um trecho das “Confissões”, de Santo Agostinho, que muito melhor do que eu, soube expressar o seu amor por Deus: 

“Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Tinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz” 

- Santo Agostinho, Confissões, livro X, 27, “Tarde te amei!...” - 


Cristo é a vida, mesmo na morte... E a vida venceu!

Glória somente a Deus!