29 julho 2019

Judas, o Obscuro: O autonomismo por um fio




Jorge F. Isah



Judas é um tipo literário muito próximo de Jó, o personagem bíblico, em suas agruras, aflições e dor. Se ao passo em que Jó sofre exatamente por sua fidelidade a Deus, e pelo desejo sincero de retidão e justiça (o que acaba por despertar a maldade objetiva de Satanás), Judas deseja apenas se ver livre das amarras sociais, numa espécie de autonomismo e independência, acreditando que suas decisões cabem apenas e exclusivamente a si mesmo, sem se importar, ou vislumbrar, com as consequências dos seus atos. A liberdade de Judas é pueril e enganadora. E arrasta-o para dentro do “Mal”, que acredita jamais tocá-lo.

O livro de Thomas Hardy (um entusiasta apaixonado pelas ideias de Darwin) foi escrito em 1895, e carregado do naturalismo em voga, que não deixou de influenciar a literatura. De tal forma que Judas, por mais que tente, ao seu jeito, fugir do destino que lhe é traçado, sucumbe à sua inexorabilidade. 

Como não sou de fazer resumo dos livros, também não o farei neste. Apontarei, contudo, o que mais me chamou a atenção, sem fazer spoilers, e sem desestimular o futuro leitor: 

1) Judas tenta “mudar” o seu destino, algo que os naturalistas, e, em especial Hardy, não crê possível. Para ele, Judas será o que é, nascido um pária, morrerá como tal. 

2) Ciente do que lhe espera, Judas apela para um autonomismo impossível, como se pudesse viver no mundo alheio ao mundo, sem que seus atos trouxessem consequências para si e seus queridos. Especialmente, pouco a pouco, no decorrer da história, parte para a negação de Deus, fazendo do Cristianismo o “bode expiatório” do seu sofrimento. Em uma sociedade cristã, a culpa de todas as convenções e males se deve portanto ao Cristianismo, num apelo transloucado à razão, como sendo-a santa, pura e perfeita, de maneira que, se todos os homens a aplicassem por completo, negando suas crenças e fé, todos seriam felizes. Acaba-se por criar e defender um dualismo “fé x razão” no enredo, o que é, no mínimo, reducionista. 

3) Hardy não escreveu uma única linha em que não destilasse a sua aversão ao Cristianismo, se não explicitamente (como em muitos diálogos e pensamentos), deixou-os subliminarmente evocados em ações e comportamentos. Porém, o Cristianismo descrito pelo autor é o que podemos chamar de “cristianismo secular” ou “nominal”, onde a aparência cristã é utilizada para justificar o farisaísmo e a hipocrisia do homem. Veja bem, farisaísmo e hipocrisia não são, nem de longe, aspectos do verdadeiro Cristianismo, mas a “máscara” daqueles que o próprio Senhor Jesus denunciou a seu tempo. Talvez, por isso mesmo, o autor escolheu o nome “Judas” para o seu protagonista que, mesmo vivendo por mais de três ano na companhia do Cristo, não se furtou a traí-lo

4) Ao fugir das convenções e de aspectos morais que “regulavam” o convívio social, se viu pagando um preço alto, vivendo como um “cigano” juntamente com a sua família. O capricho de não querer se enquadrar ao escopo da sociedade, colocou-o na situação mais miserável que o enquadramento social lhe destinaria. Em sua rebeldia juvenil e ingênua, acreditava possível passar ileso, sem traumas, quebrando regras. Judas acredita no inimigo a destruir-lhe a felicidade: a sociedade; enquanto ele mesmo acaba por cavar para si, e os seus, um caminho para a ruina. Este é um aspecto. 

5) Outro, antecedente ou derivado, é de que não se pode negar haver nele, e em sua esposa, Sue, o orgulho e a presunção de, ao não se curvarem aos hábitos da sua época, serem superiores aos seus concidadãos. A prova estava nas inúmeras vezes em que exaltavam suas inteligências, raciocínios e um apelo à razão como a essência de todas as virtudes. 

6) Nem mesmo o sacrifício pessoal, como o do prof. Richard, parece um ato isento de soberba, de autoexaltação obstinada, dominada pela “pureza” racional. 

7) Entretanto, não há como não se compadecer da “má-sorte” com que os rumos das suas vidas tomaram. Ao ponto em que, sem qualquer esperança, sobram-lhes a loucura e o definhamento. 

Judas, o obscuro, é um livro pessimista, áspero, quase inóspito. Mesmo nos momentos mais ternos e belos a angústia, dúvidas e desespero estão entranhados nas palavras, sentimentos e reações dos personagens. Não é um livro fácil de se ler, pois os lampejos de esperança são quase imediatamente dizimados por uma realidade sufocante e cruel, pela teimosia de não mudar ou ceder. 

Entretanto, é possível encontrar momentos de ternura, elegância, acabando por tornar verossímil os personagens e o enredo como um todo. A linguagem é simples, sem rebuscamentos. A narrativa parece se arrastar um pouco, especialmente na primeira metade do livro. Contudo, em sua bissecção final, ela flui sem delongas. 

Judas, o obscuro é um bom livro? Sim, sem dúvidas. Para estar no rol dos melhores de todos os tempos, como comumente é apontado entre as grandes listas? Tenho dúvidas. Talvez eu precise ruminar ainda um bom tempo a história, e, quem sabe, fazer uma nova leitura, no futuro. Certo é que, tirando a defesa “intransigente” do racionalismo e a “aversão” ao Cristianismo (criando um estereótipo), o livro se sai bem.


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Livro: Judas, o Obscuro

Autor: Thomas Hardy

Editora: Abril

No. Páginas: 464

Nota: (***)

Sinopse da Editora: 


"Um livro que retrata uma época onde a ascensão social era quase impossível, a não ser por golpes de sorte. Judas passa sua juventude estudando e sonhando em sair de seu povoado para ir para Christminster City, local que acredita concentrar grandes estudiosos. Sem recursos, sem ajuda, sem guia, sem escola e sem apoio. Mas Judas é obstinado e estuda sozinho, guarda tudo que ganha para comprar livros e os lê e relê sozinho. Aprende outras línguas (sozinho). O roteiro de uma história como essa geralmente mostra o protagonista conseguindo superar as adversidades e ser reconhecido pelo seu esforço e talento. Aqui temos uma realidade mais dura e mais próxima do mundo no final do século XIX. Judas acaba se envolvendo com uma mulher somente interessada em arranjar um marido e não em compartilhar de seus sonhos (grande erro de muitos casamentos, aliás). E é esorraçado em todas as suas tentativas de ser admitido em universidades. Decepções seguidas e críveis, que tornam o livro pesado, sofrido. Li com o coração oprimido pelo sentimento de impotência contra o mundo. Judas se afasta de tudo que ama em busca de tudo que sonha."


23 julho 2019

A Estrada: Luz em meio as trevas







Jorge F. Isah






Este é um daqueles livros que, após terminá-lo, gastamos um bom tempo ruminando...

Tenho a mania de tentar resumi-los, ao final, em, no máximo, uma palavra ou frase. Pode ser interpretado como uma heresia para muitos, mas, no meu caso, a síntese demonstra o quanto compreendi ou não deles... Quanto mais palavras, mais distante do entendimento. 

Quebrei a cabeça com A "Estrada", e ao estilo de McCarthy, suscito, não pude desvencilhar-me do termo "esperança". Mesmo nas situações mais dramáticas (e o livro é um grande drama a perpassar por cada uma das páginas) há um sussurro, quase inaudível, a lembrar personagens e leitores de que nem tudo está perdido. 

Como vocês sabem, não sou de contar a história, senão alguns poucos detalhes, para não tirar o gosto e o prazer do futuro leitor; no caso deste livro, posso dizer que pai e filho, os personagens centrais da história (os quais não são nominados, e cujo passado é minimamente revelado nas lembranças do "homem"), vivem em um mundo apocalíptico, onde a vida foi praticamente extinta... Não há animais, plantações, as instituições se desfizeram, o canibalismo está em voga, a barbárie se apresenta como o único estilo de vida, onde a moral não passa de um entrave à sobrevivência, tão dependente da destruição alheia e do próximo (se o mundo pós-moderno fosse uma construção real, os relativistas se vergariam, no primeiro instante, diante da realidade; associando-se, ou sendo posto fora dela pelo extermínio). 

O mundo é um campo minado; e as pessoas, inimigos terríveis, dos quais se deve afastar e temer. O homem se encontra despido de qualquer sentimento que não seja o de não sucumbir, pouco importando os meios pelos quais isso aconteça. É o mundo do vale-tudo; onde o mal não tem freios nem pode ser freado. 

Neste contexto, encontramos no "filho" um coração ingênuo, puro, amoroso e fraterno (uma referência de Cormac ao Cristo, o Filho Unigênito do Pai?), o qual é o "freio" do homem (a sua consciência perdida; o imago dei a lembrá-lo de quem é), disposto a tudo para salvaguardar a própria vida e a do seu rebento. O garoto, diante de um universo frio, cruel, egoísta e sanguinário, não se adapta as consequências naturais do "novo mundo", por não entender ser necessário abrir mão, por completo, da compaixão, da piedade. Ele vai na contramão, no caminho inverso em que todos os demais parecem se dirigir; e, nesse aspecto, apresenta uma força interior muito maior do que a do Pai, o qual reage como o protetor, disposto a fazer o preciso para sobreviverem, mas como uma reação natural da própria debilidade. 

Talvez, por isso, o menino seja descrito como uma alma agoniada, inconformada com a perversidade, sempre a questionar (respeitosamente, diga-se de passagem) as atitudes dos outros e, mesmo, do seu pai. Em muitos momentos, as respostas lacônicas e pouco interessadas do homem não o satisfazem, mas ele se resigna as vezes, ou reage através do choro e da tristeza para fazer o pai ver, mesmo minimamente, a beleza quase impossível das relações humanas. O desejo arraigado de conhecer os "homens bons", de acreditar na existência deles, se encontrado, seria o bálsamo a provar ao pai que nem tudo precisa ser do jeito que é. 

Não há como não se emocionar ao vê-lo conduzir o homem a mudanças de atitudes, quebrando-lhe a rudeza e deixando-lhe brotar sentimentos de fraternidade; ainda que se perceba um certo agastamento nele, em algumas situações. 

O mundo está cheio de almas aflitas, perdidas, deslocadas em meio à selvageria, mas dispostas a tudo para manterem-se livres dela. Não há providência, nem algo a se construir; sobram apenas os movimentos repetitivos como os de uma aranha tecendo a sua teia. 

Podemos chamá-lo de um "livro de emoções"; e elas brotam a cada página, numa simplicidade nada reducionista, mas enxuta, onde não há lugar para o supérfluo, o verborrágico, mas a concisão. 

A descrição do novo mundo é como assistir a "Mad Max", mas, de alguma maneira, a realidade entre pai e filho está mais próxima do "Senhor dos Anéis", onde há uma luta pelo bem, a fim de fazer o homem ressurgir das cinzas. 

Há redenção. Há esperança. Há solidariedade. Há uma força conduzindo o caos para a ordem, assim como em José do Egito, o mal se tornará em bem, pelas mãos de Deus. 

A morte do homem não está decretada, nem ele sucumbirá à própria depravação; e o filho, assim como o verdadeiro Filho, é o único capaz de juntar os pedaços, emanando bondade, e tornando zumbis em homens de verdade; fazê-los voltar à vida. 

E essa me parece a conclusão de McCarthy, a despeito de sua ligação com as trevas; uma vítima da Síndrome de Estocolmo, na qual o ofendido nutre um afeto doentio pelo ofensor. Mas entendo McCarthy, e o admiro por isso, pois ele é capaz de ver a luz em meio a mais densa escuridão. 

Leitura altamente recomendada



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Avaliação: (****)
Livro: A Estrada
Autor: Cormac McCarthy
Editora Alfaguara

240 Páginas

19 julho 2019

Uma curva no rio






Jorge F. Isah

Muitos consideram este livro o novo "Coração das Trevas", de Conrad. Bem, entendo que preciso ler novamente o "Coração...". Tenho cá comigo que fiz uma análise rápida, superficial e, mesmo, incompreensível do livro. Estava tão envolvido com o debate ideológico, que vi ideologia por todo os lados, o que é, no mínimo, sinal de deficiência cognitiva, ao qual faço o meu "mea-culpa". 

Se em Conrad existe a denúncia do colonialismo europeu, em parte, e da ignorância, servilismo e jogo de interesses dos nativos africanos (lembre-se de que a minha impressão pode não ser a melhor, por causa do que disse no primeiro parágrafo), na obra de Naipaul existe uma denúncia ainda maior da leniência, indolência dos nativos para com os seus "senhores". Em especial, o presidente/ditador do "Domínio", uma faixa de terra subjugada pela guerra civil, a tirania governamental, o culto idólatra ao líder, e a passividade da população, dividida entre a exploração e à veneração doentia ao caudilho. 

O pano de fundo, portanto, é a África Tropical, dominada pela ignorância e pela rixa entre suas tribos e povos, até as raias do ódio mais insano. Em um momento no qual o continente via os últimos estertores dos colonizadores e havia um espírito de independência, tantos os brancos como outros imigrantes (indianos, árabes, etc) eram vistos como inimigos, causadores de todas as mazelas dos nativos, e, por causa disso, deveriam ser perseguidos e mortos. Havia um levante, um insuflar governamental para que os pretos não somente sufocassem mas destruíssem os brancos, para assim serem libertos, ou a fim de manterem a "liberdade". 

Salim é um muçulmano de origem indiana (ele considera a sua família mais hindu do que muçulmana, em suas tradições e comportamento), que tinha por servo (escravo mesmo, no sentido exato da palavra) um africano de nome Metty, um garoto que chegou à casa da família de Salim, no literal, e quando este partiu para o interior, para um tipo de independência, em busca da sua própria identidade, Metty seguiu-o. A despeito de Salim desejar a todo custo "dar" a liberdade a Metty, ele, mesmo com seus melífluos desejos, não queria abandonar a proteção do seu senhor. 

Sobre o assunto da escravidão, Naipaul escreveu: 
"A escravidão na costa leste não era como a escravidão na costa oeste. Lá, ninguém era embarcado para grandes plantações no além-mar. A maioria daqueles que deixavam nosso litoral ia para casas árabes, para o serviço doméstico. Alguns se tornavam membros da família a que se haviam agregado; uns poucos se tornavam poderosos em seu próprio direito. Para um africano, uma cria da floresta, uma pessoa que caminhara centenas de quilômetros do interior para a costa e que estava distante de sua vila e sua tribo, a proteção de uma família estrangeira era preferível à solidão entre africanos estranhos e inamistosos. Essa era a razão pela qual o comércio escravo se mantivera até bem depois de proscrito pelos poderes europeus; também por isso, no tempo em que os europeus comerciavam com certo tipo de borracha, meu avô ainda conseguia negociar com um tipo diferente daquele. Pela mesma razão, uma escravidão secreta perdurou no litoral até recentemente. Os escravos, ou as pessoas que poderiam ser consideradas escravas, desejavam continuar como estavam."

Boa parte do livro se envolve com os conflitos, o assassínio de brancos (muitos deles amavam os africanos), como o padre Huismans, morto por jovens universitários negros, legionários do "Grande Homem", e que viam na revolução (diga-se morte em profusão dos opositores, sejam brancos ou negros) uma forma de libertação da alma e do espírito aprisionado do africano tropical. Havia uma guerra cultural, étnica, ideológica, na qual o ditador comunista, e seu governo, insuflava o povo a destronar os imperialistas. Curiosamente, Salim nos remete às suas memórias, na verdade, uma única história de família: 

"Lembro-me de ouvir meu avô contar que certa vez expedira um barco de escravos como se a carga fosse borracha. Não sabia dizer quando fizera isso. O fato simplesmente estava lá, em sua memória, flutuando, sem data e sem outras associações, um evento incomum numa vida pacata. Ele não falava disso como de um ato cruel, uma trapaça ou piada; apenas contava a história como algo incomum que houvesse feito — não o fato de não embarcar os escravos, mas o de descrevê-los como borracha. E, sem minha própria lembrança da história do velho, suponho que ela teria se perdido para sempre. Creio, de acordo com minhas leituras posteriores, que a ideia da borracha lhe teria ocorrido antes da Primeira Guerra, quando a borracha se tornara um negócio graúdo — e mais tarde um grande escândalo — na África Central. Há coisas familiares para mim que permaneceram ocultas ou desinteressantes para meu avô.
De todo aquele período de conflitos na África — a expulsão dos árabes, a expansão da Europa, a divisão do continente —, essa é a única história de família que possuo. Essa era a nossa feição. Tudo o que conheço de nossa história e da história do oceano Índico recebi de livros escritos por europeus. Se digo que em sua época nossos árabes eram grandes aventureiros e escritores; que nossos marinheiros deram ao Mediterrâneo a vela latina que tornou possível a descoberta das Américas; que um piloto indiano guiou Vasco da Gama da África Ocidental até Calcutá; que a palavra cheque foi primeiro usada por nossos mercadores persas; se digo todas essas coisas é porque as encontrei em livros europeus. Elas não faziam parte do nosso conhecimento ou do nosso orgulho. Sem os europeus, sinto que todo o nosso passado teria se apagado, como as pegadas dos pescadores na praia de nossa cidade."

A guerra cultural, ou de classes, é a estupidez suprema daqueles que se amam menos do que odeiam os outros. O ódio é a motriz a levá-los para além da imoralidade, da estupidez, da destruição; não há amor em si mesmo, nem uma ínfima chama a compreender que o homem só pode ser inimigo se antes for-lhe o hostil. 

Em suma, uma "Curva no rio" trata das questões de identidade, onde os homens se perdem em suas próprias concepções do que sejam, mas não estão dispostos a assumir aquilo que deveriam ser. Na África, especialmente, as pessoas se perdem entre os clichês, os estereótipos daquilo que são mas não se adaptam naquilo que desejam ser e lhes é impossível, e no passado, aquilo que foram, e os assombra. Restam-lhes a tentativa alucinada de negar tudo, não desejar nada, e submeterem-se ao infortúnio de deixarem essa decisão para alguém que apenas os conduz segundo os interesses do Estado, na forma do "Grande Homem". Ele é o personagem que não tem nome, mas se faz quase onipresente na vida de todos os súditos. Mas nem ele mesmo resistirá, e, no final das contas, resta em todos o medo e a infelicidade de reconhecerem trabalhar em uma causa perdida, em que o futuro nada mais é do que as ânsias de um passado revivido, catastroficamente mortal e amplificado em sua crueza. 

E sem identidade, como alguém pode saber o seu lugar no mundo? 

Salim parte novamente para um mundo ao qual não pertence, talvez desejoso de nunca ter aportado na África, para dela sair, como se nunca tivesse nela vivido e existido.


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Título: Uma Curva no Rio
Autor: V. S. Naipaul
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 320

Avaliação: (***)

Sinopse da editora: 


"O muçulmano Salim é um imigrante indiano que se estabelece num país africano recém-desocupado pelos colonizadores britânicos. Protagonista e narrador de Uma curva no rio, ele assiste à lenta degradação dessa sociedade depois que o Grande Homem, um líder populista e corrupto, assume o poder. Atrás do balcão de seu armazém, num lugarejo imaginário localizado na curva de um rio, na Costa Leste da África, Salim testemunha o destino dos vários personagens que habitam a região: a "bruxa" Zabeth e seu filho Ferdinando, o padre católico, o intelectual branco da cidade e sua sofisticada mulher. 
Comparado a O coração das trevas, de Joseph Conrad, Uma curva no rio examina com muita ironia o impacto da herança colonial e do fervor nacionalista no interior profundo do continente africano. O autor explora as contradições do contexto social e político da África pós-colonial por meio de um microcosmo que ilustra a dificuldade dos povos africanos em criar uma identidade coesa e forte."

05 julho 2019

Preso na própria armadilha - II





Jorge F. Isah



A maioria das pessoas diz confiar em Deus quando não há disposição de entregar-se ao seu senhorio, de dobrar-se à sua vontade, como forma de gratidão por toda a sorte de bênçãos recebidas. Via de regra, afirma-se crer nele, mas entrega-se exclusivamente ao próprio autogoverno, sem o desejo de ser guiada e dirigida pelo Criador. 

Boa parte das teologias e filosofias existentes afirmam a soberania do homem sobre si, chegando ao ponto de a vontade humana se sobrepor à vontade divina. Há uma clara inversão de valores na qual a vontade humana tem de ser preservada e, em seu favor, a vontade divina deve estar sujeita, submissa. E a desculpa sempre é a mesma: Deus, em sua soberania, entregou ao homem os seus desígnios, de tal forma que Deus não pode ser Deus se o homem não quiser (a ideia equivocada do livre-arbítrio; quase sempre significa independência de Deus). Em outras palavras, a vontade divina, no fim das contas, dependerá sempre da vontade humana para se manifestar, do contrário, ela é suprimida, prevalecendo a da criatura em detrimento a do Criador. 

Como o homem é supostamente livre, em sua natureza e vontade, ele se utiliza dessa liberdade para rejeitar o conselho divino, não se entregando ao seu senhorio. O que acontece, na verdade, é que ele não pode fazê-lo, pois sua natureza está em oposição a Deus, e sua vontade é contrária à de Deus. Não é uma questão de escolha, mas de não poder escolher o bem, o certo, o que agradaria ao Senhor. Para complicar ainda mais esse contexto, o homem que diz conhecer a Deus, não conhece a sua vontade, e sem conhecer a sua vontade, como poderia conhece-lo? E se a vontade divina está expressa em sua palavra revelada, a Bíblia, a qual o homem natural não está afeito, ou em completo desinteresse, como pode conhece-lo? Através de uma imagem formulada em sua mente e alheia à verdade? Por indução? Ou intuição? 

Por isso, o homem que diz conhecer a Deus não o conhece, antes criou para si mesmo um espantalho, um ídolo, no qual diz acreditar e confiar, sem se questionar sobre o real estado em que se encontra, de estar sendo pego em sua própria armadilha, cujo laço a apertá-lo foi colocado e puxado por ele mesmo.

Nesse aspecto, o homem é livre, em seu desejo de autodestruição.