28 outubro 2021

Cristo venceu!









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"Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça" (Isaias 41.10)

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Ontem, comemorei o meu aniversário, agradecido a Deus por mais um ano de vida. Por isso, decidi republicar o texto abaixo, escrito em 06.05.2020, exatos 15 dias após uma internação de 36 dias. Para muitos foi apenas um drama com final feliz. Para outros, nada além das contingências da vida. Entretanto, para mim e aqueles mais próximos que acompanharam dia a dia o desenrolar daquele "drama", foi um milagre; por todas as expectativas e diagnósticos médicos, eu tinha uma doença terrivelmente mortal. Então, nada melhor do que, no momento de festividade, relembrar o quanto Deus foi e tem sido misericordioso comigo e meus queridos; de uma bondade e graça inexplicáveis, que não mereço, mas me deleito e aproveitarei, louvando ao meu Senhor por cada minuto aqui, e pelo tempo incontável na eternidade, fruto do amor incondicional do Filho, Jesus Cristo. 
A Ele, glória, honra e louvor!

Por fim, que esta leitura seja-lhe abençoada e abençoadora!

Um abraço fraterno.


Jorge F. Isah


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Foram 36 dias internado em três hospitais diferente: Odilon Behrens, Metropolitano e São Francisco. Internei-me no dia 15 de Março com suspeitas de problemas na vesícula biliar, tendo em vista uma icterícia que me acometeu de uma hora para outra, deixando-me igual a um dos personagens dos Simpson, completamente amarelo. Muitos exames, antibióticos, jejuns e litros de soro, descobriu-se que eu estava com um nódulo no pâncreas, e este comprimia a vesícula, impedindo que a bílis fluísse para o intestino, causando o amarelão. Havia a suspeita de neoplasia, de ser um tumor. 

Sempre soube que tumores no pâncreas eram os mais difíceis de serem tratados, e os que ocasionavam maior mortalidade. Ainda assim, o Senhor manteve-me calmo, esperançoso, confortando e fortalecendo-me em meio às dúvidas e incertezas médicas. Como testificou o apóstolo: “Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus” (Fp 4.6-7). 

Havia ainda um agravante: por causa do Coronavírus, estava isolado, distante da família, sem visitas ou acompanhamento. Mas Deus, em sua infinita misericórdia e amor, fez com que os médicos, enfermeiros, auxiliares, atendentes, copeiras e faxineiras cuidassem de mim de uma maneira tão especial que me sentia parte de suas famílias. Nesse ponto, pude testemunhar o cuidado divino, o seu amor gracioso e bondoso me envolvendo por todos os lados, de forma que não me encontrei abandonado um único instante; pelo contrário, o Senhor me carregou como a um recém-nascido, protegido, aquecido, alimentado, nos braços do Pai amoroso. 

Mesmo nos momentos de fome, senti-me alimentado; de frio, senti-me aquecido; cansado, repousado; fraco, fortalecido; preocupado, tranquilo... A maior parte do tempo estive em paz, não uma paz brotada da minha alma, mas a paz que somente o nosso Senhor pode dar, e ma deu. Em todos os momentos, a presença de Deus era diretamente viva, e, indiretamente, demostrada pelo cuidado, atenção, carinho e dedicação das diversas equipes dos hospitais. 

Também pude, durante a internação, aprender muitas coisas ensinadas pelo Senhor, como a humildade (dependia completamente de todos; e não havia nada que pudesse fazer por mim mesmo) e o amor ao próximo. Pude não somente me compadecer dos doentes com os quais convivi, mas a amá-los de uma maneira que o evangelho de Cristo nos ensina e o Espírito nos capacita a fazê-lo. Orei com alguns deles, falei de Jesus, e testemunhei a minha completa dependência dEle. 

Louvo a Deus por aqueles 36 dias, em que o Senhor se aproximou mais e mais de mim, e pude senti-lo como não O sentia há tempos. Entendi que havia um propósito claro e evidente para tudo aquilo, e dei graças ao bom Deus pelo que estava realizando em mim, para o meu aperfeiçoamento. 

A cirurgia, de grande porte, realizou-se na Sexta-feira da Paixão, 10 de Abril, e o nódulo não pode ser completamente retirado por causa da sua localização. Foram colhidas 5 amostras para análise; e quando fiquei sabendo da notícia, um certo abatimento me sobreveio. Novamente, o Senhor usou as pessoas ao meu redor para me animarem, e dois médicos em especial, do Hospital São Francisco, foram fundamentais: o Dr. Juan Soria e o Dr. Paulo Carvalho Goes, membros da equipe do Dr. Igor Michalick. 

Fiquei apenas 2 dias no C.T.I., indo para a enfermaria, mas tive a estadia prolongada por causa de uma infecção intestinal, que me debilitou bastante. 

Pois bem, após 15 dias de alta médica, ontem fui ao oncologista para saber o resultado da biopsia e o meu estado geral. E contra todos os prognósticos, suspeitas e afirmativas médicas, o nódulo era benigno, e não precisarei passar por nenhum outro procedimento. Terei consultas médicas a cada 3 meses, para acompanhamento. Mais uma vez, pude experimentar o amor de Cristo me envolvendo de maneira maravilhosa, inexplicável. Percebi que a bondade do Senhor se estendeu aos meus familiares e amigos e irmãos que estavam aflitos, agoniados, e puderam respirar aliviados, e agradecer a Deus pelo milagre e graça recebida. 

Quero agradecer a todos que oraram e pediram por minha cura e vida: sou-lhes eternamente devedor. Peço que continuem orando, pois ainda estou em convalescença, e para Deus extirpar o restante do nódulo que não pode ser retirado. Ele é o Deus único e verdadeiro, o Deus dos milagres e do impossível, e me rendo completamente ao Seu senhorio, sabendo que, em todas as minhas fraquezas, dúvidas e temores, Ele é a força, a certeza, esperança e o destemor com o qual me conduzirá na caminhada cristã, ou seja, no aperfeiçoamento, na obra de santificação, moldando-me à semelhança do Seu Amado Filho. 

Como o salmista escreveu: “O SENHOR é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é a força da minha vida; de quem me recearei?” (Salmos 27.1) 

Para terminar, gostaria de deixar um trecho das “Confissões”, de Santo Agostinho, que muito melhor do que eu, soube expressar o seu amor por Deus: 

“Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Tinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz” 

- Santo Agostinho, Confissões, livro X, 27, “Tarde te amei!...” - 


Cristo é a vida, mesmo na morte... E a vida venceu!

Glória somente a Deus!

26 outubro 2021

A vida de David Brainerd: A vida realmente com propósito

 


Jorge F. Isah



    Estou relendo este livro pela terceira vez. 

    A primeira, foi logo no início da minha conversão, em 2004. Talvez dois anos após. Causou-me um grande impacto descobrir o quanto David Brainerd fora um servo humilde, dedicado e confiante no Senhor. Durante o seu ministério, findo aos 29 anos, ele buscou com todas as poucas forças físicas que lhe restavam cumprir a vontade divina, fazendo-a com o seu melhor. Ainda que debilitado pela tuberculose, não se esquivou a fazer aquilo que era o foco e o alvo da sua vida: pregar o evangelho a fim de salvar as almas perdidas. 

    Foi estabelecer-se na divisa dos EUA com o Canadá, passando pelas agruras de uma vida sem conforto e sujeita às intempéries climáticas. Para uma pessoa que tem pulmões fracos, nada pior do que o frio congelante daquelas paragens. Estávamos em pleno século XVIII. 

    Mas nada o demoveria do seu objetivo, de seu divino chamado. Nem mesmo a iminente morte (basta lembrar que, à sua época, a tuberculose equivalia a um câncer terminal). A sentença de morte era uma realidade fustigante e assídua. 

    Em seu diário temos os seus pensamentos a respeito de si mesmo, um pecador miserável como se identificava; entregava-se a longos momentos de oração e na leitura das Escrituras; clamando pelas almas pagãs, especialmente dos índios. 

    O livro relata em detalhes as aflições, dúvidas, insegurança em relação ao seu ministério, mas a certeza de ter sido separado por Deus para levar o Evangelho de Cristo a quem o ouvisse. De maneira geral, não se considerava um bom pregador, nem um bom pastor, depositando todas as suas fraquezas no poder do Espírito a fim de ser utilizado como instrumento para conversões e bênçãos aos indígenas, em especial. 

    Ao ler as páginas escritas por David Brainerd, que quase foi genro de Jonathan Edwards (estava prometido a sua filha), nos deparamos com uma mente moldada por Cristo, disposta a sofrer injustiças, tribulações, dores, solidão e desprezo para servir a Deus. Para amar o próximo. E servi-lo também. 

    Ao nos defrontar com o relato, sentirmo-nos ainda mais miseráveis e inúteis não é escolha, mas uma certeza. Aquele homem, ainda que sendo chamado para a glória jovem (morreu aos 29 anos, vítima da tuberculose, como já disse), teve momentos tão intensos com o Espírito de Deus, e serviu-o tão abnegadamente, sem a esperança de qualquer recompensa terrestre, que sentir-nos desgraçadamente improdutivos, fúteis e presunçosos em nosso orgulho, é inevitável. 

    Não sei o porquê de os cristãos não lerem mais biografias, especialmente daqueles homens que viveram e morreram para servir a Deus naquilo em que tinham de melhor: vasos para a glória de Cristo, e a missão de levar as “boas novas” até onde o Senhor desejasse. Uma geração de crentes que nunca leu ou ouviu falar de Brainerd, Edwards, Pink, Bunyam, Spurgeon, Livingstone, Carey, entre outros, é uma geração que desconhece o passado e, certamente, compromete o próprio futuro. O futuro da igreja e o pessoal. Esses homens, e tantos outros, devem servir de exemplo; e suas histórias nos mover a ser mais servos e menos “senhores”, inclusive de nossas vidas. Eles amaram, se dedicaram, viveram e morreram para glorificar o nome do nosso Senhor. 

    O Diário de David Brainerd é um livro fundamental. E, não atoa, foi publicado após a sua morte, pelo seu futuro (e agora ex) sogro, o pr. Jonathan Edwards. E tem sido instrumento, ainda hoje, para mover jovens e adultos ao desejo sincero de servir e dedicar-se a Deus de todo o coração. E à sua obra com fervor. 

    Livro imprescindível!


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Avaliação: (*****)

Livro: A Vida de David Brainerd

Autor: Jonathan Edwards

Editora: Fiel

No. Páginas: 328 

Edição: 2a

Sinopse: "Quando voltei a ler este livro, depois de 40 anos no campo missionário, pude ver por que a sua leitura teve tão grande influência em minha vida como jovem. No mundo onde existem poucos a seguir, tenho encontrado em Brainerd uma luz nas trevas. - Pr. Ricardo Denham, fundador e diretor da Editora Fiel. Ao ler o diário de Brainerd, compreendi melhor o valor da biografia de um cristão. Gozei de muita doçura (usando a linguagem de Brainerd) lendo sobre os últimos meses de sua vida... Senti-me muito encorajado ao refletir sobre uma vida de santidade, à luz da possibilidade de uma morte precoce. - Jim Elliot, um dos cinco jovens missionários martirizados pelos índios Aucas, no Equador. Que cada pregador leia atentamente sobre a vida de Brainerd. Que sejamos seus imitadores, assim como ele o era de Cristo, em absoluta devoção pessoal, sem dar ouvidos ao mundo e em fervente amor a Deus e aos homens. - John Wesley, fundador do Metodismo."




11 outubro 2021

Paris é uma Festa - Ernest Hemingway

 



Por Jorge F. Isah


Este é um livro nostálgico, por dois motivos: o primeiro, havia muito que não lia nada do autor, desde a adolescência e a fase posterior e, se não me equivoco, o último foi por volta dos 23 anos, e a obra era O Velho e o Mar. Apesar de ser uma novela e quase basicamente relatar a “vitória dos caçadores”, a sensação atual é de não ter gostado dele à época, sem saber muito bem o porquê, deixando-me o desejo de revisitá-lo novamente.

                Segundo, já na primeira página sou arrebatado pela escrita fluída e memorialista de Hemingway, levando-me à compulsão de concluir a leitura em 3 dias. E a nostalgia em que tece as peripécias na Paris dos anos 1920 são feitas de maneira delicada porém direta, como é o seu estilo. É um livro crepuscular, não no sentido da escrita, mas do autor, às portas de completar 60 anos e mais interessado ou conectado ao passado do que ao presente, a se lhe afigurar distendido da alma, corrosivo. Muitos afirmam ter ele perdido a genialidade após os anos 30, e de lá até a sua morte, escreveu obras apenas medianas, sem a criatividade e engenho das anteriores. Apesar de ser um livro longo, meio distante dos padrões “hernestinianos”, Por quem os Sinos Dobram parece-me o título mais próximo de uma obra-prima que algo possa chegar; e escrito no final dos anos 30.

                Alguns apontam Paris é uma Festa como um livro de memórias. Outros, crônicas. Ainda outros, ficção. Para mim, é um livro indefinível pois todos os elementos dos três estilos encontram-se presentes. Não exclusivamente memorialista, ainda que seja. Nem ficcional, ainda que também o seja. Há um pouco de tudo e, talvez, esse seja um dos atrativos da publicação. Outro chamariz é o fato dele tratar de literatura, seja no trabalho e na vida da famosa “geração perdida” (título que Ernest detestava por considerá-lo reducionista e injusto) ou em discussões sobre autores do passado (no caso, não tão no passado), como Tostói, Tchekhov, Turgueniev, Dostoieviski entre outros. Portanto, é um livro sobre literatura, sobre literatos; um prato cheio, ao menos, para mim.  

                Hemingway descreve os loucos anos 20, estabelecendo-se juntamente com a esposa, Hadley, e o filho na Cidade Luz. Vive basicamente de contos publicados em revistas alemãs, levando uma vida quase miserável. Existe o charme e o glamour da cidade, mas ele precisava colocar comida à mesa; e mesmo tendo o seu gênio reconhecido, não era suficiente para garantir sempre o sustento familiar. Ele cita a proprietária de uma livraria, Sylvia Beach, que além de fornecer-lhe gratuitamente livros, fazia também empréstimos (pode-se dizer, doações) nos momentos mais difíceis. Travou-se uma amizade que garantiu-lhe prazer e subsistência. E aí temos algo interessante: como a providência garantiu-lhe meios de viver apenas da literatura ou, ao menos, poder dedicar-se integralmente a ela até que os frutos pudessem ser colhidos.

                Nesse ínterim, travou conhecimento com vários nomes famosos da época e que permanecem até hoje, como T. S. Eliot, James Joyce e Picasso. Alguns, nem tanto, os quais nunca ouvira falar e descobri durante a leitura: Harold Stearns, Katherine Mansfield,  Evan Shipman, Pascin e outros que são apenas citados ou têm descrições a partir de impressões iniciais do autor; poucos como Madox Ford e Ralph Dunning receberam mais do que citações.

                Entrementes, três do seu círculo particular, Gertrude Stein, Ezra Pound e Scott Fitzgerald (este considerado por Hemingway seu grande amigo) ganham ares de protagonistas ainda que a literatura seja, a meu ver, a grande personagem do livro; nem mesmo Hem é páreo a ela.  Não serei estraga prazeres a descrever as impressões e análises sobre o temperamento, comportamento e o relacionamento deles com Hem; a leitura se encarregará de satisfazer a curiosidade do leitor. Posso, contudo, assegurar que são análises e descrições a cativar até mesmo aquele pouco afeito a desbravar as qualidades e defeitos de autores renomados, ou seja, o caráter humano para além ou aquém do bem e do mal. Ele gasta boa parte do terço final em detalhar a sua amizade com Scott Fitzgerald e a relação tempestuosa e destrutiva dele com a sua esposa Zelda, segundo Hemingway uma bêbada enciumada com o talento e sucesso de Francis, e se esforça em afastá-lo diariamente para festas intermináveis, noite após noite.

                Ao mesmo tempo em que critica com acidez algumas personalidades, descreve outras com compaixão, carinho e gratidão, com aquele espírito “másculo”, meio seco, quase obrigatório, sem deixar contudo as entrelinhas falarem por si.

                Realmente, como disse anteriormente, o livro foi uma grata surpresa. O estilo franco, sincero, faz-se presente, mas é possível vislumbrar uma sensibilidade quase emotiva, em alguns momentos quase calorosa, perto de um quebrantamento. Sim, Paris é uma Festa, mas para Hem, entre foguetório, egos inflados e vozerio, existe apenas barulho; e como outro escritor disse: é “muito barulho por nada”!


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Avaliação: (****)

Título: Paris é uma Festa

Autor: Ernest Hemingway

Páginas: 178

Editora: Círculo do Livro

Sinopse: 

"Ernest Hemingway foi sempre contrário ao sentimentalismo. Seus contos e romances mostram o homem em busca de si próprio, descobrindo-se nos momentos de dor, perigo ou derrota. Nenhum idealismo diante da vida: ela deve ser enfrentada como um desafio, e vencida sem arrogância ou perdida sem lamúrias. Paris é uma festa mostra-nos um Hemingway diferente, o escritor e o homem fazendo uma viagem sentimental à década de 1920, quando o mundo se abria diante dele e seus companheiros eram a gente anônima das ruas e gente famosa como Gertrude Stein, James Joyce, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald."