20 setembro 2019

SOBRE OPINIÃO VERDADEIRA, FALSA E OUTRAS COISAS






Jorge F. Isah


Sócrates, discorrendo acerca de verdadeiras e falsas opiniões, ligadas diretamente ao fato de se conhecer e reconhecer ou não a realidade, aponta ao sábio e ao tolo, sem confundi-los, em diálogo com o jovem Teeteto (a alusão de Sócrates à cera, refere-se ao ato de, antigamente, uma pessoa imprimir a sua marca em uma borra de cera aquecida, ficando nela, o dístico que a identifica):

"Sócrates - Em resumo: acerca do que nunca se soube nem nunca se percebeu, não é possível, me parece, nem enganar-se, nem formar opinião falsa, se for realmente saudável nossa proposição. Mas justamente nas coisas que sabemos e que percebemos é que a opinião vira e se muda, ficando, a revezes, falsa e verdadeira; quando ela ajusta direta e exatamente a cada objeto o cunho e sua imagem, é verdadeira; será falsa, quando os a de través e obliquamente.

Teeteto - Tudo isso, Sócrates, não está maravilhosamente exposto?

Sócrates - Falarás com maior entusiasmo, ainda, quando ouvires o seguinte. Pensar com acerto é belo; pensar erroneamente é feio.

Teeteto - Como não?

Sócrates - A diferença entre ambos, dizem, provém disto: quando a cera que se tem na alma é profunda e abundante, branda e suficientemente amassada, tudo o que se transmite pelo canal das sensações vai gravar-se no coração da alma, como diz Homero, aludindo a sua semelhança com a cera, saindo puras as impressões ai deixadas, bastante profundas e duradouras os indivíduos com semelhante disposição aprendem facilmente e de tudo se recordam e sempre formam pensamentos verdadeiros, sem virem jamais a confundir as marcas de suas sensações. Sendo nítidas e bem espaçadas todas as impressões, com facilidade põem em relação cada imagem com a correspondente marca, as coisas reais, como lhes chamam. São esses os denominados sábios. Não te parece que está certo?

Teeteto - Maravilhosamente certo.

Sócrates - Quando o coração de alguém é veloso, qualidade decantada pelo poeta sapientíssimo, ou de cera carregada de impurezas, ou muito úmida ou muito seca, as pessoas de coração úmido, aprendem depressa mas esquecem facilmente, e ao revés disso as de coração por demais seco. As de coração veloso, áspero e pedrento, devido à mistura de terra e de espurcícia, recebem impressões pouco claras, por carecerem de profundidade.
Igualmente pouco nítidas são as de coração úmido; por se fundirem umas com as outras, em pouco tempo ficam irreconhecíveis. E se além de tudo isso, por exiguidade de espaço, ficarem amontoadas, mais indistintas se tomarão; os indivíduos desse tipo são propensos a emitir juízos falsos, pois quando veem ou ouvem ou pensam, falta-lhes agilidade para relacionar de imediato cada coisa com sua marca peculiar; são morosos, trocam as coisas, veem e ouvem mal e, no mais das vezes, pensam errado. Daí serem chamado ignorantes e dizer-se que sempre se enganam com a realidade". 
(Fonte: Teeteto, de Platão)

Agora, eu:
Durante anos, vivi assim, como o ignorante mais cego da própria ignorância e condição de tolo, mas desde a minha conversão, posso dizer que Cristo tem me aproximado da verdade, ainda que eu claudique e insista, por vezes, em permanecer na irrealidade.

A Ele, honra e glória eternas!


14 setembro 2019

Teeteto: A imagem de Deus neutralizando o mal






Jorge F. Isah


Sócrates descreveu como exceção, para todos os tempos, mas tornou-se regra nos últimos cem ou mais alguns anos, e é quase unanimidade nos dias atuais, seja por dolo, seja por ignorância e incapacidade de muitos percebê-lo; seja por descuido, apatia ou o desejo de copiar o "espírito" do senso comum. Vamos, então, a ela!

Ao mesmo tempo em que afirmou o "Imago Dei" no homem, ele também descreveu que, quanto mais o homem se afasta de Deus e de sua santidade, mais o "Imago Dei" se esvanece e sucumbe à natureza pecaminosa. Ou seja, aquilo que Agostinho reproduziu séculos depois, e que foi afirmado por profetas, apóstolos, pela igreja em geral e, especial e necessariamente por Cristo, era uma ideia compartilhada com o filósofo gregos.

Evidente que o povo de Deus tem a melhor resposta, na verdade, a única resposta: pois o Deus bíblico e pessoal, na pessoa do Pai, Filho e Espírito Santo é o único Deus. Todos que se aproximarem dele, verdadeiramente (não vale a adesão nominal, quando o coração está voltado e focado no serviço ao pecado), estarão mais distantes dos efeitos noéticos, e do mal a sucedê-lo.

Infelizmente os tolos pensam que não pagarão pelos seus desvios, enquanto um bando de medrosos alisam sua própria vaidade, distraídos o suficiente para não se aperceberem tolos e ludibriados pelo próprio orgulho e presunção.

Mas é, contudo, a imagem de Deus que neutraliza o mal, segundo Sócrates. O que, mesmo não sendo dito dessa maneira pelo Cristianismo, acaba por ser uma percepção cristã: mais próximo de Deus, mais distante do mal. Mais distante de Deus, mais próximo do mal. 


Vale a pena a reprodução do trecho do livro:

"Sócrates: As demais aparências de habilidade e de sabedoria, quando se mostram no exercício do poder público, são conhecimentos grosseiros, nas artes, vulgaridade. Assim, quando alguém é injusto ou ímpio, por ações ou palavras, será melhor não conceder-lhe que todo o seu êxito se baseia na astúcia, pois esse indivíduo se envaideceria com o reparo, muito ancho por ter ouvido dizer, segundo crê, que não é néscio ou fardo inútil sobre a terra, porém homem como terão de ser os que melhor sabem vencer na vida pública. A esses tais é preciso dizer-lhes a verdade: que são tanto mais o que julgam não ser, quanto menos sabem o que são. De fato, todos eles desconhecem qual seja o castigo da injustiça, o que menos do que tudo não se pode ignorar. Não é o que todos pensam; castigos corporais e morte, de que os malfeitores muitas vezes escapam, sendo penalidade a que ninguém se exime.

Teodoro: A que penalidade te referes?

Sócrates: Na própria ordem das coisas, amigo, há dois paradigmas: um divino e bem-aventurado; outro, contrário a Deus e miserabilíssimo. Porém nada disso eles percebem; a enfatuação e a demência em grau máximo os impedem de sentir que com suas ações injustas eles se aproximam do segundo e cada vez mais se afastam do primeiro. São castigados pela vida que levam, conforme ao modelo de sua preferência. E se lhes dizemos que se não renunciarem àquela habilidade, depois de mortos não serão recebidos no local estreme de maldades e aqui em baixo terão de levar vida conforme seu caráter; os maus convivendo com a maldade; tudo isso eles escutam, sabidíssimos e astuciosos, como palavreado vazio, de pessoas desprezíveis"

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Livro "Teeteto"

Autor: Platão

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09 setembro 2019

Frankenstein ou o Prometeu Derrotado




Jorge F. Isah


Frankenstein, ou o prometeu moderno, é um exemplar romantista, escrito por Mary Shelley e publicado em 1818, quando tinha 19 anos. 

Especialmente por suas longas descrições, sejam de ambientes, lugares, pensamentos, pessoas, motivações, etc, que caracterizam o estilo literário "romântico", Frankenstein é um exemplar típico desse movimento. Para os não iniciados, pode parecer enfadonho e desnecessário, mas os detalhes auxiliam na compreensão e no clima de suspense/tensão da narrativa. Não o classificaria como um livro de terror; parece-me muito mais um grande drama, uma tragédia, remetendo à literatura grega clássica, a começar pelo subtítulo.

A história começa com o Dr. Victor Frankenstein (muitos imaginam ser o nome da criatura e não do criador) construir um “monstro” a partir de partes e pedaços de corpos. Após dois anos de intensos estudos, descobre a fórmula de dar vida à sua criatura, causando-lhe aversão e asco, levando-o a abandoná-la. Pararei por aqui, na descrição, para não estragar o ânimo do futuro leitor, e me aterei ao que mais me chamou a atenção no enredo.

Como disse, é um livro com inúmeras descrições, pormenores e detalhes que podem cansar o leitor não acostumado com a literatura romântica, ou romantismo. Parecem se arrastar e se repetir em muitos momentos, mas são necessários para criar um vínculo, ou melhor, uma sintonia do leitor com o relato. É notória a repetição das descrições sobre a “criatura” especialmente por Victor, que não se cansa de chamá-la de “monstro” e “demoníaca”.

Aspectos morais e éticos são abordados pela autora, em especial as consequências das escolhas, mormente as ruins, notadamente o mal a acometer inocentes que em nada colaboraram para as decisões equivocadas. Frankenstein e sua criação travam um embate onde ninguém próximo sairá ileso, nem eles próprios. Algo que Shelley vislumbrou há 200 anos, como um desastre de grandes proporções se continuado, paira sobre a humanidade com os inúmeros experimentos genéticos em curso. Até que ponto, podemos brincar de Deus? Sem que a nossa “criação” se volte contra nós mesmos?

Se no racionalismo a razão é a mãe e explicação para todos os eventos e comportamentos e decisões, no naturalismo sobram sentimentos sem qualquer explicação racional. Por que Victor desejou fazer-se Deus e criar um monstro? Por que abandonou a sua criação? Perdendo o aparente controle sobre ela? E a criatura, desprezada e hostilizada, experimentou o mal que não conhecia?... Leva-me à Queda, quando o homem rejeita o Bem-Supremo para viver no inferno interior, tão vil que se propaga ao seu redor, como uma peste, corrompendo e infectando quase tudo. Se a criatura é o mal, Victor é o impotente homem incapaz de combate-la, antes faz apenas “excitá-la” a produzir ainda mais o caos, desordem, dor e morte.

Se antes a vida de Frankenstein era permeada pela completa ordem familiar, profissional, acadêmica, amorosa, fraternal, após a “liberdade” do monstro tudo vai se desvanecendo rapidamente; resta apenas o remorso e o ardente desejo de vingança a consumi-lo. Vê-lo perder a harmonia, fruto do seu egoísmo, orgulho e fraqueza, permite-lhe apenas uma saída: enfrentar o monstro. Entretanto, como combater e vencer algo maior e mais forte? Por onde passa, o "monstro" leva-o de roldão, um caminho repleto de desgraças.

A analogia com o pecado, e seu poder sedutor e controlador é inevitável, e deve nos colocar em estado de alerta, a fim de não sucumbirmos ao seu poder. Pois, depois de instalado, resta-nos a sujeição, feito escravos; e a aversão, o nojo, culpa e escrúpulos não são suficientes para derrota-lo, pelo contrário, faz com que se ria, e delicie-se, ainda mais de nós e da nossa moral, não muito distante dos "trapos de imundície". É melhor não cogitar ou aventar a hipótese do "monstro", para não se ver aterrorizado, encurralado, ou destruído por sua "força".  

No fim das contas, o "monstro" vence, ainda que ele mesmo seja vítima do seu desejo pérfido, e pague, a seu tempo, a conta por seus crimes.

Um livro que vai muito além da mera diversão, para levar-nos do sossego a inquietação, com toda a complexidade da vida.


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Avaliação: (***)

Livro: Frankenstein ou o Prometeu Moderno

Autora: Mary Shelley

No. Páginas: 304

Editora: DarkSide

Sinopse: "No aniversário de duzentos anos de sua criação, FRANKENSTEIN volta a caminhar entre nós, numa edição monstruosa como só a DarkSide® Books poderia lançar. A obra-prima de Mary Shelley merece. Seu livro de estreia é um marco do romance gótico, verdadeiro ícone do terror e influência fundamental para o surgimento da ficção científica. A criatura de Frankenstein é considerada o primeiro mito dos tempos modernos.Para compor sua bem-sucedida experiência literária, Shelley costurou influências diversas, que vão do livro do Gênesis a Paraíso Perdido, da Grécia Antiga ao Iluminismo. O resultado é uma daquelas histórias eternas, maiores do que a vida. Leitura obrigatória em países de língua inglesa, FRANKENSTEIN é muitas décadas anterior à obra de Poe, Bram Stoker ou H.G. Wells, e vem sendo publicado ininterruptamente desde 1818. Pouco menos de dois anos antes, a criatura nascia numa noite de tempestade à beira do lago Genebra.No verão de 1816, Mary e um grupo de escritores ingleses ― seu marido, Percy Shelly, o poeta Lord Byron e John William Polidori ― dividiam uma casa na villa Diodatti, na Suíça. Entusiasmados pela leitura de uma edição francesa de Fantasmagoriana ― coletânea de histórias sobre aparições, espectros, sonhos e fantasmas ―, os quatro aceitaram o desafio de escrever um conto de terror cada. Mary concebeu a origem de FRANKENSTEIN. E curiosamente, Polidori escreveu o que viria a ser O Vampiro, romance que serviria de inspiração para Drácula, de Bram Stoker. A história de Victor Frankenstein seria reinterpretada incontáveis vezes. Ainda no século XIX, era levada com sucesso ao teatro. A primeira aparição no cinema data de 1910, mas foi em 1931 que Boris Karloff deu um rosto definitivo à criatura no imaginário popular. O livro de Shelley, assim como o filme de Karloff, serviria de inspiração para a imaginação de artistas como Tim Burton, Clive Barker, Wes Craven, Mel Brooks, Alice Cooper, Roger Corman. As referências estão em todas as partes: nos monstros da Universal Studios e da Hammer Films, na comédia musical de horror The Rocky Horror Picture Show, em filmes como Reanimator, inspirado no conto de H.P. Lovecraft, em álbuns como Yellow Submarine, no universo das HQs da Marvel e da DC Comics, em games como Castlevania, e em séries e desenhos clássicos como A Família Addams e Scooby-Doo.A lista é interminável. São tantas versões que é quase impossível não estar familiarizado com a história: Victor é um cientista que dedica a juventude e a saúde para descobrir como reanimar tecidos mortos e gerar vida artificialmente. O resultado de sua experiência, um monstro que o próprio Frankenstein considera uma aberração, ganha consciência, vontade, desejo, medo. Criador e criatura se enfrentam: são opostos e, de certa forma, iguais. Humanos! Eis a força descomunal de um grande texto.Mas quando foi a última vez que você teve a chance de entrar em contato com a narrativa original desse que é um dos romances mais influentes dos últimos dois séculos? Que tal agora, na tradução de Márcia Xavier de Brito?"