18 fevereiro 2019

A Cidadela - A. J. Cronin





Jorge F. Isah


    A primeira vez que ouvi falar de A. J. Cronin foi na minha adolescência (talvez eu tivesse entre 13 e 14 anos), no final dos anos 70, em uma série de T.V. que eu simplesmente adorava, “Os Waltons”. Havia um personagem, John “Boy”, vivido pelo ótimo, e nem sempre compreendido, “Richard Thomas”, com o qual eu me identificava grandemente, pelo mesmo desejo que ele tinha de se tornar em um escritor de ficção. Num dado momento em que ele havia se decidido a sair da fazenda onde morava, no interior dos EUA, para tentar a carreira jornalística em uma cidade grande (não me lembro agora qual era a cidade; afinal, se passaram quase 40 anos), ele citou A. J. Cronin, não somente por admirá-lo com autor, mas por desejar ser como ele, ao menos, escrever como ele. Nessa época, eu me aventurava , engatinhando, à literatura menos adolescente e mais adulta: já lia Dostoievski, Sartre, Machado de Assis, Gide, Hemingway, sem entender muito aquele universo, mas desejando vive-lo por meio dos livros. Não havia abandonado de todo Dumas, Verne e Twain (devo ter lido Tom Sawyer umas 15 vezes, no mínimo), mas havia uma transição natural entre estes e aqueles autores.

    Pois bem, passados quase 40 anos, somente agora pude ler A. J. Cronin e o seu mais famoso romance, “A Cidadela”. E o que dizer dele? Primeiro, gostei muito. Não é um romance genial, o que poucos são, mas é muito, muito bom. O estilo de Cronin é envolvente, daqueles em que você é fisgado já no início, pela disputa entre o bem e o mal, o moral e o imoral, o ético e o antiético, mas sobretudo por uma linguagem ao mesmo tempo simples e muito bem elaborada. Vá lá, alguém pode dizer que o romance é uma colcha de clichês, e de que a vida não é dicotômica como muitos autores defendem em suas obras. Mas “A Cidadela” está longe, muito longe, de ser uma teia de chavões ou estereótipos. Os personagens são reais, vívidos, com suas incongruências, lutas, dúvidas, certezas, idealismos e convicções. Cronin não descreveu um mundo em preto e branco, sem tons cinzas, pelo contrário, há nevoeiros, clarões, trevas e todos os elementos necessários para fazê-lo um grande romance, como de fato é. 

    O pano de fundo é a medicina, seus valores científicos ou não, dogmáticos ou não, ideológicos ou não, éticos ou não, morais ou não. É uma crítica feroz à medicina que vive, se sustenta e fomenta o mal, a doença, a dependência existencial do homem aos “senhores” de jalecos brancos, e que muitas vezes sequer sabem da existência de uma verdadeira medicina, aquela que se pode chamar de “medicina do bem ou da saúde”. Há críticas ao academicismo, à indústria dos diplomas, à medicina como um negócio qualquer, vulgar, cobiçoso, pelo desejo imoderado de fama e fortuna. Os conflitos são muitos entre médicos, pacientes, associações médicas, tribunais, e um esquema ou estratégia ou sistema que tornam os médicos em meros prescritores de remédios (atendendo os anseios da indústria farmacêutica, às comissões médicas, e a obrigatoriedade de se manter o paciente incurado, e recluso à servidão clínica); onde o bem quase nunca é um desejo, e o mal uma necessidade.

   Cronin, ele mesmo um médico formado, descreve com maestria como o idealismo profissional do recém-formado Andrew Manson, com seus títulos e honrarias, se transforma, rebaixando o humanismo em exploração e farsa, num farsante, abandonando o juramento de Hipócrates para se tornar em um mesquinho acumulador de dinheiro, por meio da trapaça e vigarice. Como apóstolo Paulo disse: “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1Tm 6.10). Muitos acham que o dinheiro é o mal supremo, mas não é. Em si mesmo, o dinheiro é algo inanimado, sem vontade e poder de decisão, não podendo ser o mal, a priori. Entretanto, o amor a ele, possível naquele que deseja e toma decisões, o é! Por isso, é preciso que Andrew perca quase tudo para voltar ao que era, e fazer o caminho de volta, começar de novo.

    Ao entregar-se a si mesmo, aos seus desejos mais sórdidos, sem que a consciência cauterizada o acordasse, ele certificava-se de que as escolhas só seriam realmente boas se a razão delas fosse, exclusivamente, o seu bem-estar financeiro e a sua projeção profissional, na Londres da década de 20. Não havia lugar para princípios morais, éticos, humanistas. Apenas o desejo de enriquecer de qualquer modo, à custa até mesmo do sofrimento e da dor alheia.

   Pois, é com maestria que Cronin descreve a perda do caminho, o enveredar-se nos desvios, e a retomada ao anseio original de Andrew, em que sua alma se viu morta por causa da sua cobiça e inveja, e foi renovada pelo amor à vida, e o sentido primeiro de servir ao invés de ser servido. Há uma nítida mensagem cristã por trás de toda a trama, contrapondo-se ao ceticismo do personagem principal, um obstinado antirreligioso, que, na sua imoralidade, imagina-se moral pela completa ausência de moralidade e religiosidade. Ou seja, a justificação dos seus atos antiéticos e imorais encontra respaldo na negação da ética e da moral. Para se autojustificar, não pode haver fundamentos para a justiça, quando a injustiça é o desejo a se realizar.

  O relativismo do século XX, em suas mais nefastas proposições, tornam irresponsáveis aqueles que deveriam, de alguma maneira, como ministros de Deus (juízes, governantes, médicos, professores, pais, etc), serem os guardiões da vida e não os proponentes da morte. 
Cronin revela o dilema que existe no homem desde o Éden, a escolha da vontade, e seus desdobramentos na vida daquele que escolhe, mas também daqueles mais próximos.

  É um livro no qual o autor poderia se perder completamente, fazendo-o um pastiche de uma denúncia, um panfleto inócuo, ou uma simples “rede de intrigas”, como muitos outros livros foram escritos e o são em profusão, na atualidade. Mas Cronin soube leva-lo à quase perfeição, senão de uma sinfonia, ao menos, de uma fuga. 

  Leitura recomendada.



                                   *****


SINOPSE DA EDITORA:

"Romance que consagrou Cronin no mundo literário. A cidadela marcou época ao ser transformado em filme por King Vidor. O escocês Archibald Joseph Cronin era médico e membro do Royal College of Physicians. respeitada associação da classe médica no Reino Unido. O autor descreve as condições de trabalho do início do século XX e relata de um modo estarrecedor as dificuldades e tragédias ocorridas nas minas de carvão inglesas. O protagonista é o jovem médico Andrew Manson. que inicia sua prática profissional numa pequena aldeia do País de Gales. Drineffy. Dr. Manson dedica-se de forma intensa aos seus doentes. pondo em prática todo o idealismo de um jovem médico. Casa-se com a professora Christine Barlow. e mais tarde o casal parte para Londres. Na cidade grande. Andrew entra em contato com a classe médica conceituada que atende exclusivamente aos mais ricos. O texto de Cronin evidencia o drama das escolhas éticas na prática da medicina. Um tema ainda muito atual: o confronto entre integridade profissional e as tentações materialistas."


INFORMAÇÕES: 

Autor: A. J. Cronin
Editora: Editora Best Seller
532 Páginas

11 fevereiro 2019

O problema do mundo




Jorge F. Isah


    O problema, no mundo, é que a maioria das pessoas são fanáticas por si mesmas (uma forma clara de autoidolatria, e quando alguém decide-se por negar a si, e seguir a Cristo, é tido por louco), ou por seus ídolos (sexo, drogas, ideologias, poder, dinheiro, fama, orgulho, autossuficiência, futebol, trabalho, ciência, etc) . No fundo, tudo isso não passa de uma rebeldia contra Deus (uma distração a afastá-lo do real significado da vida),e o mais tolo delírio, que é o culto a qualquer coisa que não seja o Deus bíblico.

    O cristão nega esse individualismo, ao escolher honrar a Deus, pregar o seu Evangelho, vivê-lo (ainda que com todas as possíveis quedas), e proclamá-lo, com o fim de levar alguns outros ao arrependimento, e a se reconciliaram com Deus. Como Paulo disse, Cristo é escândalo e loucura para este mundo : "Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus." (1 Coríntios 1:18).

    Por isso o cristão bíblico é visto como um inimigo, e hostilizado por aqueles que, na verdade, são inimigos de Deus, e nos fazem também seus inimigos, quando a nossa relação com eles é de amor: o amor primeiro, que levou o Pai a entregar seu Filho, a sacrifica-lo, por nós!

*Pintura "A Crucificação", de Rembrandt.

05 fevereiro 2019

Duas Narrativas Fantásticas - Fiodor Dostoieviski





Jorge F. Isah


   “Duas narrativas fantásticas” é um livro que pode parecer, à primeira vista, tratar de temas irreais e utópicos. Engana-se quem assim pensa. Poderia chama-lo de “expectação suprarreal” tal a realidade (e também humanidade) dos temas abordados. O livro se compõe de dois contos: “A Dócil” e “Sonho de um homem ridículo”, onde o assunto “suicídio” está presente, em ambos. 

   No primeiro, temos um homem de 40 anos aproximadamente, casando-se com uma jovem recém-saída da adolescência. Ela é criada por duas tias que pretendem uni-la em matrimônio com um homem asqueroso e rude; mas acaba por conhecer, e por fim casar-se, com um negociante, dono de uma loja de penhores. Ele fora militar; sendo desligado da corporação por se recusar a duelar com um companheiro de farda, que o insultou. Por isso, ficou com a pecha de “covarde, o que o atormentou, de certa forma, por toda a vida. 

  Ele se apaixonou pela garota, por sua beleza, meiguice e a docilidade do título. Ela, para se livrar do brucutu com o qual as tias queriam uni-la, aceitou o pedido de casamento do negociante, e acabaram juntos. 

  No início, às mil maravilhas; porém, com o passar do tempo, ele vai se tornando controlador, exigente, individualista, e a mantém distante de si. Eles pouco ou nada dialogam. Não têm uma vida compartilhada além do local onde moram. Isso faz com que a relação frágil se torne ainda mais débil e perigosa (ele fugindo da solidão, e ela de um casamento indesejado), tornando-os, enfim, amargos e quase inimigos. 

  Ela abandona a docilidade para se tornar em uma mulher sediciosa, provocadora e adúltera. Numa clara tentativa de autodestruição, de desprezo a si mesma (ainda que respaldada pelo desprezo ao cônjuge), frustrada, e em estado de beligerante vingança.
 
  Ele, ao perceber a traição e a rejeição, e o desprezo da esposa, obriga-se a uma reação de autoridade, como se suficiente para transformar o caos existencial de ambos em ordem, no retorno à harmonia perdida. 

   O ponto é: duas vontades, aparentemente boas e benéficas, podem descambar para a beligerância e a destruição? Entre a rigidez de um relacionamento formal e conveniente, e o sonho de perfeição, romântico e singelo, está o homem e sua humanidade, disposto a frustrar os dois esquemas, revelando que a vida é muito mais complexa do que uma suposta unidade de interesses possa contê-la; a vida toma rumos desconhecidos, ainda que muitos previsíveis, se o homem não deixar de olhar para si mesmo tão somente, e observar o próximo com cuidado, generosidade e caridade. A perfeição não pode ser exigida, nem mesmo no amor, se não houver uma disposição ao sacrifício, a entrega voluntária do seu orgulho, desejos, ambições e egoísmo em favor do outro, de tal forma que, mesmo pessoas diferentes e com vontades distintas, se harmonizarão do mútuo anseio de privilegiar aquele que é o alvo do seu amor. Se não acontece... 

  Quanto ao suicídio, bem, leia a história e saiba como terminou.

  O outro conto, “Sonho de um homem ridículo”, muitas vezes é compreendido como se fosse um sonho ridículo, quando o título nos remete a um homem ridículo, que necessariamente não tem um sonho ridículo. Pela grandiosidade da narrativa dostoieviskiana, alguns imaginam que o sonho daquele homem não passa de um delírio, uma utopia infinitamente distante da realidade humana, quando, o que o autor nos revela é exatamente a essência dessa realidade, a humanidade em todos os seus detalhes, ainda que relatados em uma porção de páginas. 

  Sem fazer um spoiler do livro (o que, infelizmente, acabei por fazer no comentário ao outro conto), "Dosty" (desculpe-me a intimidade, mas sou leitor do russo desde a adolescência,  então me permito certas liberdades) revela que a esperança não pode estar em um homem, ou mesmo em muitos homens, deste ou de outro mundo, pois mais cedo ou mais tarde a sua inclinação para o pecado, para a subversão e a incitação ao mal, aflorará. Um único homem pode pôr tudo a perder, ao incitar outros a trilharem o mesmo caminho de morte no qual transita. 

  A referência ao Éden e à Queda, descritos no livro de Gênesis, é clara, trazendo, na trama, as mesmas consequências para a humanidade advindas da rebeldia do casal primevo. O homem inclina-se para o mal, a despeito de todo o bem que está a cerca-lo, da bondade divina e que lhe foi entregue também na obra da Criação. 

  Contudo, existe redenção, existe perdão, se houver sincero arrependimento dos seus pecados, é possível ver a luz, e vislumbrá-la por toda a eternidade. Este me parece o cerne, digamos, a parte otimista em toda a narrativa de "Dosty", desde "Crime e Castigo" até mesmo nesse singelo, mas fantástico conto. 

  Ah, sobre o suicídio, que falei no primeiro comentário, e que está presente em ambos os contos, deixarei para que você mesmo leia o livro, e se certifique do que estou falando, como o apontar a direção.

Livro curto, belo, em descrever a miséria humana, mas com os eflúvios eternos do porvir.


                                    *****

FICHA TÉCNICA:

"Duas Narrativas Fantásticas" 
Fiodor Dostoieviski
Editora 34
128 Páginas

Sinopse: 
"Designadas pelo próprio autor como "narrativas fantásticas", as duas novelas aqui reunidas foram publicadas pela primeira vez nas páginas do Diário de um escritor, publicação mensal redigida por Dostoiévski entre 1876 e 1881. 
Em A dócil, um homem desesperado refaz, diante do cadáver da mulher, a história de seu relacionamento, tentando compreender passo a passo as razões que a levaram ao suicídio. Já em O sonho de um homem ridículo, o narrador, a ponto de acabar com a própria vida, adormece na poltrona diante do revólver carregado. Principia então um dos sonhos mais extraordinários da história da literatura, durante o qual Dostoiévski anuncia a possibilidade de uma vida utópica em outro planeta antes de seus habitantes serem contaminados pelo veneno da autoconsciência. 
Ambas as narrativas partilham da mesma "introspecção verrumante" que Boris Schnaiderman apontou no protagonista de Memórias do subsolo, livro com o qual estas obras mantêm grande afinidade. Tanto lá como aqui, o escritor russo submete a forma do monólogo a tal intensidade dramática, que o resultado ultrapassa as fronteiras daquilo que nos acostumamos a chamar de literatura."