10 junho 2026

Buster Keaton: A sacralidade da comédia

 




Jorge F. Isah

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Em um mundo onde a expressão “gênio” se banalizou e serve de referência para qualquer artista “meia-boca”, desdentado, e alguns incapazes de digerir a própria nulidade, Buster Keaton foi, na acepção da palavra, um dentre os poucos gênios da comédia. Nos primórdios do cinema, ainda mudo, em preto e branco, utilizando equipamentos rudimentares e técnicas ainda não exploradas — muitas em uso ainda hoje —, ele, juntamente com Chaplin e, talvez, apenas talvez, Harold Lloyd, formaram a tríade ou a nata do humor. Eles criaram gêneros, estilos e aperfeiçoaram o que artistas posteriormente copiaram e adaptaram — uns com sucesso, outros, sem talento, foram incapazes de reproduzir.

Antes que me esqueça, há uma cena no filme “Luzes da Ribalta”(1952), de Chaplin, onde o ator britânico contracena com Keaton em uma espécie de recital: Buster ao piano e Charles ao violino. A ação é impagável!.. Sempre houve uma certa “disputa” entre os fãs de Keaton e Chaplin quanto a quem seria o maior entre eles. Nessa época, o americano estava meio esquecido em Hollywood, e o inglês estava no auge da fama. Chaplin, a fim de reconhecer o talento do “rival” e trazê-lo de novo às luzes, convidou-o pessoalmente a integrar o projeto. Além de um gesto digno e generoso, Charles foi justo em sua homenagem. 


Uma lástima, para a grande massa, Keaton não ser conhecido além do grupo de aficionados e estudiosos; e muito se deve, apesar do seu talento superlativo, ao fato de nunca ter sido um bom marqueteiro, e de algumas péssimas escolhas para a carreira, quando estava no auge da fama.

Ator, trapezista, diretor, produtor, roteirista e mais uma gama de outras habilidades a desempenhar com elevada aptidão, Joseph Frank Keaton nasceu em 1895, em Piqua, Kansas. Filho de pais que trabalhavam no vaudeville itinerante, sua mãe, Myra Keaton, iniciou o trabalho de parto do bebê no palco. A sua ligação com a arte estava definitivamente consolidada, e perduraria até a sua morte.

A estreia se deu aos 3 anos, contracenando com os pais, em 1899. O espetáculo se chamava “Os três Keatons”. A primeira aparição no cinema se deu pelas mãos do diretor Roscoe “Fatty” Arbuckle, em 1917. Era uma ponta, mas a sua atuação foi tão impressionante e natural que se tornou impossível continuar a produção sem ele. Daí em diante, foram 14 curtas até o início da década de 1920, todos em parceria com Arbuckle.

Ainda em 1920, participou do seu primeiro longa, criou a sua própria produtora e detinha o completo domínio sobre as suas produções. Iniciava-se a época de áurea, que perduraria até a assinatura de contrato com a MGM... mas essa é outra história.

Ao contrário de muitos artistas do gênero, Keaton privilegiava a ação, os movimentos, ao instaurar a comédia por meio da linguagem cinematográfica utilizando-se de objetos, acrobacias, quedas, saltos, fugas e o cuidado detalhista com os cenários, tomadas e enquadramentos, numa espécie de “comédia física”, se assim podemos chamar. Nada era improvisado em termos de roteiro e produção. Meticuloso e perfeccionista, Buster se esmerava em cada minúcia, a trazer à realidade aquilo gerado em sua imaginação. Não existe paralelo na história cinematográfica; e qualquer um a contestar, pode se convencer do contrário, bastando assistir um dos seus filmes. Se Chaplin concebeu a sua “magnum opus” em “Tempos Modernos” e o “Grande Ditador”, a obra de Keaton tem de ser avaliada em seu todo, da mesma forma que em seus filmes ele privilegiava também o todo e não apenas a atuação. Mesmo sendo o centro, o personagem principal, é quase impossível não notar o esmero com que coadjuvantes, direção, produção, cenas e cenários se encontram em unidade indissolúvel: nenhum detalhe pode ser prescindido, nada pode ser acrescentado — e o humor está exatamente na relação desajustada e hiperbólica entre personagens/objetos/cenários.

O estilo Keaton imprimiu influência diversificada no mundo da arte e entretenimento, ao ponto de personagens de quadrinhos — Pernalonga e Papa-Léguas — surgirem a partir do seu humor absurdo e improvável. Não é difícil também apontar a sua influência em outros humoristas: Oscarito e Jackie Chan, p. ex., e desembocar em diretores como Jacques Tati e Wes Anderson, entre outros.

Buster Keaton não utilizava dublês. Ele mesmo se encarregava de fazer as cenas perigosas. Em algumas delas, colocou a sua vida em risco. Citarei três.

No filme “A General”— assim como para ele, e para mim, era o melhor dos seus filmes. Se ainda não assistiu, não perca tempo! —, na cena antológica em que a locomotiva sulista está se deslocando, Keaton assenta-se em uma parte que movimenta as rodas do trem, fazendo-o subir e descer lentamente. As chances de falhas na composição não eram poucas, e o ator poderia ser lançado para longe e machucar-se seriamente, mas não parece afligir o espectador, tal a sincronia entre máquina e homem no desenrolar da cena — ainda que o improvável pudesse se tornar factível e não apenas cogitado.


Em “As três idades”, Keaton tem de pular de um prédio para outro, entre uma rua. Ele calculou erroneamente a distância e, por pouco, não ocorreu uma fatalidade. Ao chocar-se com a parede do prédio, caiu em uma rede de proteção e ficou no estaleiro por alguns dias. Na versão final, é possível ver a cena, pois Buster sempre ordenava aos câmeras nunca pararem de rodar, a despeito dos acidentes que pudessem ocorrer.

No longa “Marinheiro de Encomenda”, talvez a mais inesquecível, Keaton arrisca-se em uma cena incrivelmente magnífica: no meio de um temporal, o vento arrasta e derruba pessoas e destrói casas. Quando o personagem de Buster, descuidado e inconsciente do perigo, para diante de uma casa, a parede desaba inteiramente sobre ele, que escapa incólume, graças a uma janelinha no sótão, suficiente para salvá-lo. Nessa cena, milimetricamente estudada e executada, Keaton marcou o lugar com um prego no chão e não poderia se mover sequer alguns centímetros, sob o risco de ser esmagado pela estrutura de duas toneladas. Todas essas cenas foram produzidas sem qualquer truque ou efeito visual — era o próprio ator desafiando os elementos. 


A sua pior decisão profissional aconteceu em 1928, quando assinou com a MGM. Ali estava decretada a sua “prisão” criativa e intelectual, já que não controlava mais o processo cinematográfico ao qual estava habituado: a construção desde os roteiros até a edição final. Um mega estúdio preocupava-se muito mais com o lucro e a fama do que inovação e engenhosidade. Ele jamais imaginou ser um mero ator, ao sabor e dessabor de projetos massivos e artificiais. Nunca mais seria o mesmo, apesar de conseguir sobreviver em apresentações na Europa, onde instalou-se por anos, e podia colocar uma fração do seu gênio. Entretanto não era cinema — a sua maior paixão — e ele acabava por perder uma parte de si mesmo.

Não é possível, infelizmente, tocar nos inúmeros aspectos da sua vida tumultuada, criativa e singular, tanto no aspecto pessoal como profissional. Não é este o objetivo. Contudo, ressaltar a importância do artista que Buster Keaton foi, e ainda é, para a arte e seus fãs. Eu o reputo como o maior humorista de todos os tempos, em uma galeria de nomes notáveis: Chaplin, Laurel & Hardy, Harold Lloyd, Jacques Tati, Cantiflas, Jerry Lewis, Woody Allen, Mel Brooks, Steve Martin, Peter Sellers, Lucille Ball, Grande Otelo, Oscarito, Golias, Irmãos Marx, entre outros. E sua marca ou impressão digital pode ser detectável em praticamente quase todas as comédias cinematográficas, desde que surgiu nos primórdios do cinema. De um talento singular, exercia cada um dos processos criativos, concebia e realizava películas como se fossem um órgão vital de si.

Morreu em 1966, em Los Angeles. Cidade onde o mundo viu surgir uma lenda ou, para muitos, o “deus da comédia”.





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