Jorge F. Isah
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O
Silêncio, como boa parte da obra de
Don DeLillo é um livro estranho, ou como o amigo Michel Salomão gosta de
definir: esquisito. Ele parece ter uma fixação com o apocalipse, o fim dos
tempos, e muitas vezes parece indicar que, quanto mais tecnológico e avançado,
mais a humanidade se coloca em risco. Seus personagens são gente comum, que
levam uma vidinha medíocre, mas têm pensamentos e atitudes que beiram a
anomalia. Ao descrevê-los em seus ambientes comuns, em suas relações comuns,
permeadas por ações comuns, o autor imerge-os numa normalidade moderna e
extremamente imanente, porém, reserva-lhes as suas parcelas de excentricidade e
quase demência.
Em O Silêncio, uma novela (há quem
a repute um romance, mas vai que cola) temos o encontro de dois casais de
amigos e um ex-aluno, numa noite em Nova York em que a atenção está voltada
para a final do SuperBowl — DeLillo utiliza o evento como se fosse um objeto de
culto, um altar coletivo, onde os torcedores e espectadores seguem à risca a
liturgia estabelecida pelas normas sociais. O que os personagens não percebem é
o fato de que o esporte, o trabalho, o sexo, entre outras práticas modernas, se
inserem no rol dos “substitutos” visíveis, a tentativa de escorarem a vida nos
mecanismos imanentes.
Nesse ínterim, ocorreu um colapso nas redes de
comunicação, internet, ocasionando uma espécie de apagão digital. O pânico se
forma de maneira irreversível, enquanto as pessoas estão assustadas, pois a
vida como conhecem está num estado de interrupção, sem que se saiba a causa e
por quanto tempo durará. Com isso, vem a insegurança e incerteza em relação aos
rumos que o mundo tomará, ao menos naquele momento.
O silêncio das telas, rádios e comunicadores
simboliza o desamparo e o estado de estupefação em que as pessoas se encontram,
tornando-as formigas diante do fogo. Os pensamentos são divagantes e disruptivos.
No fundo, as pessoas não estão preparadas para o silêncio ou a escuridão, mesmo
que vivam neles; é necessário haver brilho e sons artificiais para distraí-los
da intimidade perigosa de suas naturezas.
Enquanto bebem, dormem, entre diálogos inconstantes,
os olhares se fixam na tela escura que, em última instância, é o reflexo de
suas consciências confusas e anestésicas. O apagão revela aquilo que não podem
ver, muito mais do que aquilo que podem. É como se o mundo não perdesse
significado mas, simplesmente, estava além da possibilidade de eles
apreenderem-no. A vida se esvazia ao ponto em que o silêncio anseia por
tagarelice, e serve para indicar aquilo que nunca se teve e, contudo, não se
quer perder. É o nonsense existencial, onde a falta de bits e pixels,
isolam as pessoas dos verdadeiros significados e as deixam à deriva sem os seus
manuais de instruções.
A literatura de DeLillo não tem aspectos
transcendentes e, talvez, por isso, ela reproduza tão bem a inadequação humana
perante a realidade. Para ele, a perda de sentido e ordem não necessitam de
grandes eventos, catástrofes naturais ou cósmicas. Basta a perda do conforto ou
uma ameaça pueril para fazer o homem voltar à caverna, assustado com o brilho e
estrondo de um relâmpago.
Ele revela a fragilidade humana e o quão incapaz é
de controlar não somente os eventos mas a própria existência. E, por isso, não
é difícil encontrar respostas, mesmo em um mundo que insiste obstinadamente em
não as encontrar.
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Avaliação:
(***)
Título:
O Silêncio
Autor:
Don DeLillo
Editora:
Cia das Letras
Páginas:
112
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