17 junho 2026

O Silêncio, de Don DeLillo

 



Jorge F. Isah

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O Silêncio, como boa parte da obra de Don DeLillo é um livro estranho, ou como o amigo Michel Salomão gosta de definir: esquisito. Ele parece ter uma fixação com o apocalipse, o fim dos tempos, e muitas vezes parece indicar que, quanto mais tecnológico e avançado, mais a humanidade se coloca em risco. Seus personagens são gente comum, que levam uma vidinha medíocre, mas têm pensamentos e atitudes que beiram a anomalia. Ao descrevê-los em seus ambientes comuns, em suas relações comuns, permeadas por ações comuns, o autor imerge-os numa normalidade moderna e extremamente imanente, porém, reserva-lhes as suas parcelas de excentricidade e quase demência.

      Em O Silêncio, uma novela (há quem a repute um romance, mas vai que cola) temos o encontro de dois casais de amigos e um ex-aluno, numa noite em Nova York em que a atenção está voltada para a final do SuperBowl — DeLillo utiliza o evento como se fosse um objeto de culto, um altar coletivo, onde os torcedores e espectadores seguem à risca a liturgia estabelecida pelas normas sociais. O que os personagens não percebem é o fato de que o esporte, o trabalho, o sexo, entre outras práticas modernas, se inserem no rol dos “substitutos” visíveis, a tentativa de escorarem a vida nos mecanismos imanentes.

Nesse ínterim, ocorreu um colapso nas redes de comunicação, internet, ocasionando uma espécie de apagão digital. O pânico se forma de maneira irreversível, enquanto as pessoas estão assustadas, pois a vida como conhecem está num estado de interrupção, sem que se saiba a causa e por quanto tempo durará. Com isso, vem a insegurança e incerteza em relação aos rumos que o mundo tomará, ao menos naquele momento. 

O silêncio das telas, rádios e comunicadores simboliza o desamparo e o estado de estupefação em que as pessoas se encontram, tornando-as formigas diante do fogo. Os pensamentos são divagantes e disruptivos. No fundo, as pessoas não estão preparadas para o silêncio ou a escuridão, mesmo que vivam neles; é necessário haver brilho e sons artificiais para distraí-los da intimidade perigosa de suas naturezas.

Enquanto bebem, dormem, entre diálogos inconstantes, os olhares se fixam na tela escura que, em última instância, é o reflexo de suas consciências confusas e anestésicas. O apagão revela aquilo que não podem ver, muito mais do que aquilo que podem. É como se o mundo não perdesse significado mas, simplesmente, estava além da possibilidade de eles apreenderem-no. A vida se esvazia ao ponto em que o silêncio anseia por tagarelice, e serve para indicar aquilo que nunca se teve e, contudo, não se quer perder. É o nonsense existencial, onde a falta de bits e pixels, isolam as pessoas dos verdadeiros significados e as deixam à deriva sem os seus manuais de instruções.

A literatura de DeLillo não tem aspectos transcendentes e, talvez, por isso, ela reproduza tão bem a inadequação humana perante a realidade. Para ele, a perda de sentido e ordem não necessitam de grandes eventos, catástrofes naturais ou cósmicas. Basta a perda do conforto ou uma ameaça pueril para fazer o homem voltar à caverna, assustado com o brilho e estrondo de um relâmpago.

Ele revela a fragilidade humana e o quão incapaz é de controlar não somente os eventos mas a própria existência. E, por isso, não é difícil encontrar respostas, mesmo em um mundo que insiste obstinadamente em não as encontrar.

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Avaliação: (***)

Título: O Silêncio

Autor: Don DeLillo

Editora: Cia das Letras

Páginas: 112




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