Jorge
F. Isah
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Elisa é a escritora menos famosa da
família Lispector. Os holofotes, na
maioria das vezes, são reservados para a irmã caçula, Clarice. E, convenhamos,
apesar do talento de Elisa, as homenagens à irmã não são exageradas ou
inflacionárias; o que, entretanto, não significa dizer que Elisa careça de
mérito ou seja uma autora desnecessária. E a prova está aqui, neste romance
autobiográfico em que a vida da família Lispector se mistura aos dramas e
expectativas do seu povo e nação: judeus e Israel.
À primeira vista, “No Exílio” pode
significar apenas mais uma saga de imigração, a busca de novos ares, a
sobrevivência e a concretização de sonhos. Porém, à medida que a narrativa
flui, a história dos refugiados se
mistura e entrelaça com a formação do novo estado israelense.
Vivendo na recém-fundada U.R.S.S, após a
revolução Bolchevique, os Lispectores (Pinkhas e Mania, pais; Elisa, Tania e
Clarice, filhas) são perseguidos, assim como outros tantos judeus, por vários
grupos revolucionários (pogroms), e a trágica perseguição, expropriação,
execução e massacre de vilas e cidades é consentida pelo governo soviético que,
direta ou indiretamente, colabora com o extermínio sistemático de comunidades
inteiras no território russo, indo além de suas fronteiras, como nas áreas
conquistadas durante a Guerra Civil. Tais acontecimentos proliferaram
massivamente na Ucrânia, país de origem da família de Elisa e uma das maiores
colônias de judeus da Europa. Odessa, por exemplo, chegou a ter, no início do
século XX, um terço da sua população composta por judeus.
O cotidiano era de incertezas, ameaças,
invasões e mortes sumárias, sem contar os inúmeros casos de chantagem, saques e
ataques generalizados às comunidades: destruição de sinagogas, da identidade
cultural e religiosa, profanação com a queima de rolos e pergaminhos da Torá,
outros textos sagrados e símbolos. Fica evidenciada uma “diáspora” naquele
momento, em que as pequenas localidades eram dizimadas e populações de judeus
se viram obrigados a fugir para as maiores cidades, a fim de se protegerem.
Eles eram acusados pelos monarquistas de bolcheviques, enquanto os bolcheviques
lhes imputavam monarquismo e burguesia.
Na primeira parte, Elisa descreve a
estrutura familiar, a sua infância, apreensões e anseios. Estamos diante da
luta pela sobrevivência, onde os valores morais, tanto à vida como ao
patrimônio, são sistematicamente destroçados. Ela relata incidentes com amigos
e vizinhos, e o banho de sangue que todas as revoluções se especializaram em
ostentar como marca registrada. A ideia
de que os judeus são usurpadores, enriquecem ilegitimamente, exploram o
semelhante, sempre foi o axioma para a extorsão, roubo e aniquilação. É uma
fonte de renda sem impedimentos ou
obstáculos e, via de regra, em vários momentos da história, foram implementadas
como solução.
Os incidentes soviéticos são referenciados
como “laboratório final” para a “solução” germânica do holocausto. De uma forma
até então inimaginável, salvo a inquisição, o “ensaio geral” revelou que o
genocídio semita seria “première” de estrondoso sucesso.
Nesse contexto, os Lispectores decidem se
mudar para a América, e as poucas reservas financeiras são gastas com
“coiotes”, aproveitadores sem quaisquer escrúpulos, sob a tutela de uma burocracia corrupta que
amealhava facilmente o seu quinhão. Engraçado notar que os mesmos a acusarem os
judeus de desonestos são a hipérbole da vilania.
Em meio a esse caos, Hitler e os nazistas começam a ascender
a cargos e postos na Alemanha, derrotada na Primeira Guerra, e o espírito
antissemita se alastra célere pela Europa.
Mas, talvez, em lugar nenhum antes dos campos de extermínio do 3º Reich,
os prenúncios do que viria a acontecer foram tão explícitos como na União
Soviética.
Na segunda parte, Elisa descreve o périplo, onde a fuga era a
única saída e a esperança estava a além-mar, do outro lado do Atlântico. As comparações com o êxodo de Israel, do
Egito à Terra Prometida, ganham contornos de similaridade,
Aportam em Maceió, em 1922, e são
recebidos pelo irmão de Pinkhas, Samuel, e esposa, estabelecido como empresário
na capital alagoana. Por essa época, os nomes ucranianos foram substituídos por
correlatos: Pinkhas virou Pedro, Mania virou Marieta, Chaya virou Clarice.
Samuel não deu vida fácil ao irmão,
recém-chegado. De todas as formas, procurou explorá-lo, utilizando-se da
inexperiência e baixa comunicação dele entre os nativos. Por três anos, Pinkhas
foi aviltado, até que se cansou da situação e resolveu partir para Recife, em
novo êxodo, à busca da tão sonhada terra prometida.
Lá, trabalhou como vendedor, e abriu um pequeno
negócio de secos e molhados. Mas a penúria financeira da família era grande,
agravada pela doença degenerativa da matriarca, cujos cuidados ficaram a cargo
de Elisa. Ela também era responsável pelos afazeres da casa, do pai e das irmãs
menores. Havia uma ligação mais forte com Pinkhas, estudioso da cultura judaica
e escritor para jornais israelenses, e que estimulava a primogênita com conversas
sobre as mazelas do seu povo, os rumos políticos que o Ocidente tomava e a
necessidade de mudanças. O crescente antissemitismo na Europa era a predição de
dificuldades ainda maiores para o seu povo.
Elisa descreveu os seus obstáculos, desejos e
escolhas, como a de não se submeter ao casamento arranjado, mesmo reconhecendo
as boas intenções paternas. Formou-se na Escola Normal de Pernambuco e estudou
no Conservatório de Música, iniciando o magistério com crianças em Recife.
Por essa época, o 3º Reich tomava forma na
Alemanha, e Hitler se tornara um homem poderoso, líder carismático e populista,
assumindo o título de Chanceler em 1933. Dois anos depois, os Lispectores mudaram-se
para o Rio de Janeiro.
Não há, na obra, citações do
desenvolvimento educacional e artístico da irmã Clarice. As referências são
esparsas e econômicas, mais voltadas para o dia a dia da família. Isso se dá,
pois a autora se preocupa em relatar o seu próprio exílio, inclusive por não se
enquadrar no esquema rigoroso da cultura do seu povo. Também, ela foca no
exílio paterno, ao qual Pinkhas nunca se submeteu, e melancolicamente se
convencia do abandono dos concidadãos pelas nações; e em graduações diferentes,
da conivência e sustentação das políticas antissemitas e a favor dos muitos
“pogroms”.
Clarice, Tania e os demais membros foram
tratados perifericamente, à exceção da mãe, sua doença e suplício, que trazia
tanto desconforto à família, especialmente Pinkhas e Elisa, num nítido
paralelismo com a aflição do povo judeu.
Não entrarei em mais detalhes, para não
tirar o prazer do leitor em se debruçar sobre “No Exílio”. A linguagem
empregada pela autora é fluida, simples sem ser banal, formal sem ser
hermética. O estilo é quase linear, cronológico, com esparsas digressões e
baseado, majoritariamente, no pensamento e reflexões de Elisa e Pinkhas. E, como
disse no início, não se pode esquecer das constantes relações entre as
peripécias familiares e analogias com a situação de Israel naquele período — as
implicações entre ambas se entrelaçam, numa rede da qual, especialmente o
patriarca, não pôde se desvencilhar. Os dramas se cruzaram e se atravessaram
num quase permanente estado de angústia tricotômica.
Podemos conhecer um pouco mais da história
e do exílio individual e coletivo dos Lispectores e da comunidade judaica.
Não é um livro alegre. Não existe
esperança, porque o sofrimento de um é o sofrimento de todos, mesmo que nem
todos estejam em martírio. Restou a Elisa e os seus aceitarem o exílio, e
reconhecerem que não existe, neste mundo, uma terra prometida.
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Avaliação: (***)
Título: No Exílio
Autora: Elisa Lispector
Editora: José Olympio
Páginas: 210
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