03 junho 2026

Macho não chora... coça.

 




 

Jorge F. Isah

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Algumas pessoas dizem que estou ficando piegas... Não sei se é verdade, mas ultimamente tenho me pegado limpando uma lágrima furtiva aqui e acolá, ou esfregando os olhos marejados, e quando me perguntam o que foi, digo: “É alergia...”.

Sempre mantive a pose de durão, machão — não confunda machão com machismo, pois apesar de ambas derivarem do termo “macho”, o oposto da fêmea, não têm o mesmo sentido... mas não serei eu a ensiná-lo —, e deixava os momentos de sensibilidade para o travesseiro ou o espelho no banheiro, afinal, macho que é macho não chora em público nem se deixa derreter em frente das pessoas. Ainda assim, talvez por conta dos anos chegando, as coisas simples da vida têm me embevecido, emocionado, e vez ou outra me vejo naquele choro alegre de felicidade, compaixão ou empatia. Pode ser o Concerto No. 2 de Rachmaninoff, a Quinta Sinfonia de Beethoven ou a Quarta de Tchaikovsky; o céu azul de brigadeiro, um canteiro de flores, uma ameixa saborosa; um livro de Mishima, Dostoievski, Faulkner ou Tolstói; um filme clássico ou o olhar cúmplice da minha esposa... ou mesmo uma das muitas tragédias diárias, cada vez mais a tornar o espectador em mero audiente, quase um bloco de mármore empedernido. Sei, muitos dirão que estou ficando frouxo, amarelando ou metido a frescuras. Outros especularão do meu orgulho, vaidade e propensão a me fazer superior e bom moço. Pode ser, mas não é. Ao menos, espero que não seja. Porque se for... você já sabe... Rá, rá, rá!... Sabe nada, inocente!

Tudo isso me remete a Deus, a inundar-nos com fontes e fontes de prazer e alegria para os sentidos, a mente e o espírito. Alguém pode alegar Deus não ter nada a ver com isso, pois são produtos da natureza e da genialidade humana. Tolinho! Quando o homem se mete a fazer coisas por si mesmo, sabemos muito bem no que dá: funk, guerras, berimbau, torcidas organizadas, ideologia de gênero, tráfico de drogas e leis transigentes. Sem falar em passeatas, abortos, urnas eletrônicas e máscaras descartáveis (inúteis, no geral, mas ao menos livra-nos dos feios e mal-ajeitados) e teatro de horror das tatuagens, piercing e alargadores de orelhas, silicones e regatas.

Dias desses, assisti dois filmes: Here Today, com o Billy Cristal, e Indiscretion of an American Wife (Quando a mulher erra), com Montgomery Clift e Jennifer Jones. Muitos os considerariam ultrapassados e sentimentalóides. Em ambos, a imagem central é: o amor, a despeito de todos os problemas, salva o mundo. Mas o salva de quê? De mim, de você?... Ah, acho que não, pois cultivo o cavanhaque grisalho, para desgosto da minha esposa, e você, certamente, anda a passear com o seu “filho” de quatro patas emporcalhando as calçadas e gramados.




Diante do amor, Here Today (2021) e Indiscretion, de Vittorio De Sica (1953) têm altas doses de amargura, sofrimento e dúvidas, quanto ao presente e ainda mais quanto ao futuro. Montgomery Clift e Jennifer Jones são atores infinitamente melhores do que Billy Cristal e Tiffany Haddish a despeito das boas interpretações e da química do último casal. A densidade dramática daqueles supera em muito qualquer grande estrela de hoje, salvo raríssimas exceções. No misto de dor e alegria, prazer e entejo, é possível sentir na própria pele as emoções com que ambos transbordam a tela — e a direção do italiano Vittorio de Sica contribui em muito para o desenrolar da tragédia... Não há lacração, apenas decisões e suas consequências, para o bem ou o mal. E, por essas e outras, me peguei em um ou dois momentos (ah, vá lá!, quatro ou cinco, tá bom!) a sentir como se minha a comoção do casal, especialmente Giovanni Doria (Clift) que, apesar do amor avassalador por Mary Forbes (Jones), demonstra insegurança, timidez e certo pessimismo com o desenlace da situação. Por mais que se esforce, parece-lhe inevitável a perda da amada. E mesmo assim tenta ser um herói, malfadado é verdade, para a sua cinderela.




Here Today (A Vida é Agora) tem boas e corretas interpretações (Billy Cristal está muito bem, e como disse, a química com Haddish funciona), é divertido, engraçado e pode levá-lo a refletir sobre amizades, família e a vida. Parece um ponto fora da curva de Hollywood, especializada em fazer filmes voltados à NOM, à quebra dos valores tradicionais e a reconstrução social, diga-se, lacrar até o último desfecho patético. Ainda assim, Here Today não foge ao esquema: se for falar de Deus, insulte-o! Se for falar de Deus, fale mal! Se for falar de Deus, nunca diga nada de bom!... Além do velho chavão materialista (não é de hoje, andou a viajar por séculos, desde os primórdios gregos, mas sem muito sucesso até os últimos 150 anos, mais ou menos): a vida é aqui, e não existe nada após ela. E depois me chamam de reducionista... durma-se com tamanho barulho.

A verdade é que são dois bons filmes (70 anos de existência faz Indiscretion ganhar de balaiada, enquanto o mais recente será esquecido daqui uns cinco anos, se muito). Um mais completo do que outro. Mais bem dirigido do que outro. Mais bem interpretado do que o outro. Melhor argumento e enredo do que outro. E filmes preto e branco têm um charme todo especial, não é!

Se Indiscretion quase me fez chorar, Here Today não chegou nem perto. Garanto que me lembrarei do primeiro por longos anos, enquanto o segundo...

Por falar nisso, se me ver com os olhos vermelhos, marejados, um suspiro ou soluço aqui e acola, saiba que não é o que parece... Apenas e tão somente é mais uma crise de alergia.
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Obs: (1) Indiscretion of an American Wife está disponível gratuitamente no Youtube. - Avaliação (****)
(2) Here Today está disponível em várias plataformas de streaming. - Avaliação (***)