____________________
A política brasileira parece um grande maternal,
onde meninos mimados e birrentos se arranham, estapeiam e gritam por seus
carrinhos, bonecas e miniaturas de super-heróis, Barbies e pufes fofinhos. Os
mais sortudos agarram-se aos seus celulares, tablets e TVs, sempre a passar
freneticamente imagens e vídeos de coisas inalcançáveis às suas mentes, mas
suficientes para ensinar-lhes a não saber o caminho sem volta. Sem contar a
atenção e aprovação maternal, que pode ser de uma “tia”, “fessora” ou de um marmanjo
que se sinta “mamãe”, mesmo não tendo como dar de “mamá” ao pirralho.
Um ou outro, lá
pelo meio da existência, se deparará com as asneiras apreendidas, empreendidas
e propagadas, mas será um e outro; não raro, a maioria se considerará, até
depois da morte, estar certa e ser a detentora da imensurável e indizível
verdade relativa — imensurável e indizível porque existem em cérebros do
tamanho de uma ervilha, situados nos umbigos ou nos orifícios traseiros —, e o
estrago, a carcomer o tempo, jamais será revertido... quando muito, aplacado.
Ouvir audiências
no plenário de qualquer câmara legislativa é o mesmo que ser massacrado por um
bando de orcs e trolls, cada um a lançar o mais longe possível seus perdigotos
e impropérios, entre urros e carrancas, como se estivessem numa gincana do maternal,
sob efeito de alucinógenos e estimulantes sintéticos. Quem cuspir mais longe
ganha o troféu do ano.
O mesmo se dá,
com poucas variações, nas sessões das cortes secundárias e supremas, nos
gabinetes governamentais e, igualmente não raro, nas redações e estúdios
midiáticos. Os indispostos à verborrágica inutilidade reclinam-se nas
confortáveis poltronas e dormem o sono descabido. Depois, afastados dos olhares
digitais, se refestelam em tapinhas nas costas, suculentas costeletas de javali
e caudas de lagostas grelhadas na manteiga e ervas...
Nos salões ovais
e octogonais, reúnem-se a bebericar whiskies, champanhes e Manhattans sem a
menor cerimônia, rindo e escarnecendo dos mais tolos e dos mais espertos dos
contribuintes e espectadores. Não são todos, vá lá! Mas o circo é armado mesmo
que tenha um domador de leões, um faquir e um malabarista, a despeito da
maioria de palhaços.
A quase
totalidade não se presta mais sequer a esconder seus propósitos e a que veio;
nem mesmo aquele velho chavão: “estou aqui para servir ao povo” faz parte do
discurso e da grade digital. Não se furtam — e não é uma figura de linguagem —
nem escondem quais sejam seus propósitos: tirar o máximo e desfrutar de todas
as benesses burocráticas, sejam oficiais ou oficiosas, legais ou ilegais... o
descaramento, antiético e imoral, é o lema exposto debaixo dos holofotes e
pirotecnias.
Como macacos de
auditório, pulam, esperneiam, se rasgam, cantam loas a si e aos seus pares,
dizem fazer o que não fazem e fazem, petulantes, o que não dizem; alguns até
dizem e fazem, mas dizem que o fazem por amor e justiça, para o bem maior,
enquanto o bolso e a consciência batem palmas safardanas, certos de não se
saciarem, ávidos por conchavos, acordos e franquias propícias a si próprios e
seus negócios, às vezes ocultos, outras vezes descarados, mas sempre
justificados com as boas intenções do diabo e seus molejos embuçados.
A vigarice é
quase uma unanimidade nacional e, quanto a isso, pouco ou nada se pode fazer,
dada a leviandade arraigada às almas e instituições brasilis — não nessa ordem,
ou melhor, nessa desordem. De outra forma, como eu seria capaz de escrever este
artigo, publicá-lo e ainda assim encarar a mim mesmo como o paladino do oeste,
do leste, do norte e do sul? Só conservando a cara-de-pau, este abjeto mas
ingênito ardor nativo a pautar velhos e jovens, mortos e não nascidos, no
fulgor inato do “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, no decrépito das
maternidades e parteiras.
Só mesmo aquele
funk pancadão, as diatribes das focas e o silêncio histriônico dos cegos,
surdos e mudos, que veem o que não se vê, não veem o que se vê; ouvem o que não
se diz e não ouvem o que se diz — mas estão sempre dispostos a falar o que não
entendem — e esquecem-se de que até uma mula continuará mula, independentemente
da fantasia que use.
_________________________________
Nota: Texto publicado originalmente na Revista Bulunga
