Jorge
F. Isah
O céu era de um azul embaçado, salpicado de
aves e seus voos alheios ao mover das ondas, em águas esverdeadas até atingirem
os bancos de areia e se transformarem num verde camuflado, enquanto o sol
tentava curar um pileque e recuperar as forças. Pisquei os olhos e senti os
nervos se distenderem, mas a visão permaneceu escorregadia...Alguns na areia...
um cão ou outro... a maioria em guias e correias... o calçamento de atletas
semanais e diários, cada um em seu próprio esforço, numa corrida contra o
tempo, na tentativa de barrá-lo em velocidade moderada... Havia bancos de
madeira vazios àquela hora, em que a preguiça não movia quase ninguém à
admiração e descanso. Passei a mão na superfície e grãos de areia caíram...
alguns se prenderam à pele... esfreguei uma na outra e a ranhura libertou-a... Aquele
era o mundo de Deus, criado para o nosso deleite... mesmo que o homem tenha deixado
nele feridas — algumas cauterizadas, outras expostas — era possível vê-las, mas
nem assim ocultavam as geniais e múltiplas facetas de vida a transpor o
espaço... Sim, ele era original e criativo, e a manhã, talvez um pouco menos
exuberante, indicava a majestade do artífice... Um quê de saudade sobreveio.
Baixei a cabeça, olhos cerrados, e repeti algumas vezes: “obrigado”!... Esperei.
O sol aquecia a face esquerda, e um reconfortante calor irradiou para o
pescoço. O medo do bronze dividir o rosto me pôs em movimento. Caminhei
lentamente. Retive o odor do mar. O balanço da maré. O azul pálido. O verde
encardido. Retive o vaguear de urubus e gaivotas. O catar dos pombos. A solidão
vadia pelos caminhos... Eu era o estranho no ninho. Com minha calça jeans,
tênis e a camiseta da nova coleção do Galo. Entre shorts, bermudas e regatas,
deveria atrair alguma atenção, mas os poucos olhares se revelaram acasos... Depois
da temporada em São Paulo, voltar à cidade dos últimos anos trouxe a nostalgia...
Quando parti de Belo Horizonte, queria uma vida menos agitada, e a praia
configurou-se o destino. Mas, depois... Veio-me a analogia: havia saído do
purgatório, estava em direção ao paraíso e, subitamente me vi cair no fogo do
inferno. Foi uma via-profana... onde o céu era o limite, mas tive de me
contentar na companhia dos demônios... A imagem fez-me mover os lábios, num minúsculo
espasmo “a la Duchenne”... Um homem fumava. Mantinha o cigarro à altura da
boca, o cotovelo apoiado no joelho, e o pé esquerdo sobre um dos bancos. Ao
passar, desejei “bom dia”, sem resposta... à frente, um casal e seus cães.
Senti-me um ET quando nossos olhares se cruzaram. Balancei a cabeça, mas logo
vi que eram reféns dos mascotes e contrapeso dos seus músculos... Um ciclista,
depois corredores, e a etiqueta não era suficiente para tirar a casca deles.
Quando muito, atiravam-na aos meus pés, na esperança de me ver no chão... A
grama aparada. Arbustos podados. Sanitários recém-instalados. Tudo pronto para
receber turistas e nativos, até mesmo fezes e urina que o tempo e a faxina
ainda não deram conta... Os quiosques estavam em feira. Cadeiras, mesas,
guarda-sóis. O gelo triturado. O tilintar dos utensílios. Caixas e latas
rilhando. Um comando aqui e outro ali. Passos silenciados na areia... A qual
mundo está o prisioneiro na caixa?... Novo banco. Areia. Gestos. Sentei... Por
mais estático ou em movimento, o olhar é o que definia as coisas...Se seus
olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se forem maus, todo o teu corpo
será tenebroso... E não havia como escapar dessa sentença... Olhar o horizonte
diminuía o desejo de olhar abaixo ou os lados... A visão perdida no silêncio
distante, na imobilidade, na expectativa de que quanto menos se move mais
próximo da perfeição está... o movimento tem muitos riscos... Caminhei. Entrei
em ruas ainda sonolentas... apenas o vento a mover as copas e espalhar os
papéis e plásticos a lugares incertos... Dobrei à direita. Na esquina contrária
havia três velhinhas, na casa dos setenta e tantos, a rodear o muro. Uma delas
ainda estava de pijama. Apontavam. Conversavam. À distância não distingui a
razão. Foi quando vi um portão de garagem enjambrado. Aberto como uma lata de sardinhas pela metade.
Não foi difícil imaginar o estrago do pé-de-cabra. As mulheres apontavam para
lá e depois para cá. Uma viatura chegou, e uma delas disse “mas que demora!”,
não sem antes se certificar de os guardas estarem na posição de não ouvirem o
reclame. Pelo andar da dupla de mulheres, nem se ela tivesse sussurrado em seus
ouvidos modificaria o seu estado... Continuei. Um ciclista veio de encontro,
passou rente a mim: “Lá vai o buraco de bala”... Soltei um riso amarelo... O
que era aquilo?... Piada, ameaça, loucura?... Um cão manquejava na calçada...
Havia algo de triste... enquanto outros, bravos e megalômanos, entre grades e
chapas, latiam... cada um com o seu destino... Um andarilho me pediu ajuda...
Não além dos dois metros de distância... Fiz sinal de me aproximar, mas não
esperou. Levantou o braço e fez o gesto de “deixa pra lá!”: “Não quero lorota
de crente!”
Tinha sido a Bíblia suficiente para irritá-lo?...
Estava duro, era verdade. Havia dias não tinha dinheiro... Mas ele não queria
contato... Não valia o pão com margarina... Vi montes de lixos, móveis
queimados nas esquinas, tudo revirado que nem os cães se arriscavam a mexer.
Mas a Serra imponente ao fundo apontava para um dia onde tudo seria restaurado,
e nada de feiura, sujeira ou pobreza... Também não haveria ostentação e
desperdício... a medida certa, sem faltar ou sobrar...
Ouvi a métrica e simetria impecáveis... as
notas do órgão... e o refrão: “Santo, Santo, Santo...”.
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Nota: texto publicado originalmente na Revista Amplitude
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