Este é um livro que meio caiu no meu colo sem que esperasse. Não sou
uma enciclopédia, nem tenho pretensões de ser, mas não são poucas as vezes que
me surpreendo ao tropeçar em um autor ou título — e depois desse encontro
inesperado, não o tirar da cabeça. Assim foi com “Morrer...”. E tudo começou com uma pesquisa de romances
cujo palco era Berlim. Foi quando me deparei, pela primeira vez, com Hans
Fallada.
De cara, o título remeteu-me ao fim e à solidão. Não sabemos ainda de
quem, se um, dois ou mais; mas até que ponto se morre sozinho?
Existe uma máxima popular: “O homem nasce sozinho e morre sozinho!”,
mas até onde isso é verdade? Pode ser tratado como uma metáfora ou algo
literal? Se é uma analogia existencialista, de que o homem vive solitário mesmo
rodeado de pessoas, vá lá! Mas, se for ao pé da letra, hum... é aquela dose de
niilismo na veia.
Antes mesmo de tê-lo em mãos, essas questões me assaltavam. Não cheguei
a conclusões definitivas, apenas vislumbrava as pessoas se tornando — boa parte
delas — solitárias e céticas pelo descuido com que tratam a si e ao próximo. Se
os valores essenciais à sociedade, ao homem como um ser grupal, são
desacreditados, não nos resta outra máxima: a de “se quiser bem feito, faça
você mesmo”. Ao excluir a cooperação mútua, não é de se admirar que o
isolamento seja uma epidemia global. Não falo de ajuntamentos ou multidões,
onde as pessoas se comunicam apenas no extravasar dos sentidos. Ou
sobrevivência. Bando é ajuntar-se por interesse comum, como uma alcateia, mas a
vida vai muito além das necessidades orgânicas.
O homem está só, um tanto porque quer, outro tanto pela descrença de
que as relações resultarão em benefícios pessoais. Antes, “melhor só do que...
acompanhado”. Se do ponto de vista imanente a coisa degringola
assustadoramente, imagine na questão transcendente? Por isso, o solitário, na
maioria das vezes, se isola para não sofrer, e sofre por se isolar. É um samba
do crioulo doido.
Voltemos a Berlim. 1940. Os nazistas parecem ganhar a guerra. Otto e
Anna Quangel, um casal de meia-idade, levam uma vida prosaica. Ele é um
encarregado de marcenaria, um homem que se dedicou a exercer a arte de
confeccionar objetos em madeira e agora se vê às voltas com a construção de
caixões para os compatriotas mortos em combate. Homem reservado, de poucas
palavras, aparentemente frio, mas que tem muitos dos seus demônios sussurrando
em boa parte do tempo. Anna, por outro lado, se alegra nos relacionamentos —
poucos, diga-se —, não confronta o marido, e sente-se tão ou mais solitária do
que ele, em um casamento monossilábico, quase silencioso. Então, a tragédia: o
filho do casal, Ottinho, morre no campo de batalha. E se até aquele momento
evitavam se envolver em questões políticas, cientes de não poderem alterar o
curso das coisas, começa a surgir o desejo de resistir, denunciar o assassinato
de tantos jovens iludidos e enganados pelo poder e as promessas de um governo
ladino e ardiloso — o Estado-deus: um deus sem misericórdia nem compaixão.
Não se associam a grupos, não planejam atentados, sequestros ou coisas
mirabolantes. Na simplicidade e sutileza dos pensamentos, decidem escrever
cartões com denúncias ao Führer, espalhando um a cada semana. Parece algo sem
sentido, mas foi o plano de vingança. Se deu certo ou não, você terá de ler.
Garanto que será uma experiência e tanto, especialmente se levar em conta que a
história se baseia em fatos reais. Algo que aconteceu e movimentou a capital do
Reich nos anos 1940.
Pode-se chamar “Morrer...”
de um livro sobre vingança? Sim, mas seria uma conclusão insuficiente. De amor?
Claro, também. De terror? Sim, com certeza. Injustiça? Idem... A lista poderia
continuar. Há de tudo um pouco. Óbvio não se tratar de um amor juvenil, de
terror gótico, ou vingança hollywoodiana. Estamos em guerra, uma das piores
entre as piores. Sob um governo tirânico, opressivo, desumano, como um dos
piores entre os piores. A guerra não se resume ao front, mas está nas ruas,
prédios, casas e por toda a cidade. Na consciência de uns, na trapaça de
outros. Por todo o país. Os inimigos são muitos e estão ao redor: sorrindo,
especulando, difamando, caguetando. Há, também, aqueles que, mesmo na podridão,
tentam não se contaminar. Um ex-juiz que aconselha e acolhe. Um maestro que
divide a sua paixão por livros, música e revela um lado desconhecido a Otto.
Mas a verdade é que os atos têm consequências. E ninguém está livre da acusação
de conspirar, mesmo sendo a ovelhinha mais dócil do rebanho.
Otto descobrirá que a sua vingança — diferente do que imaginou —
alcançará o seu pequeno círculo familiar e íntimo, que desconhecia e não
partilhava da sua estratégia, mas sucumbira à loucura e ao desespero por causa
dela.
Cada uma dessas vítimas tem uma única percepção: a morte é inevitável,
num sistema onde se tenta fazer a purificação com sangue, muito sangue, e não
há sangue suficiente para tirar aquela imensa nódoa.
Isso me fez lembrar do Cristo que, apenas com o seu sangue, limpou o
pecado, trouxe vida. A morte que deu vida. E não milhões de vidas entregues à
morte.
Fallada talvez queira alertar sobre o desastre da solidão, do faça você
mesmo, e dizer que a cooperação é possível. Até mesmo em uma sociedade
traiçoeira e colaboracionista. Entre o silêncio e a passividade, eles, mais
cedo ou mais tarde, sucumbirão também, independente de qual estratégia seguiram
diante de um sistema que tem tudo e todos por inimigo. Muito mais comum do que
se pensa, aqueles que sustentam o sistema acabaram também por se tornar suas
vítimas.
Entretanto, nem tudo são espinhos, feridas e armadilhas.
No final, Kuno, o filho bastardo ou não — o pai, Emil, tem sérias
dúvidas e o próprio Kuno também — de um dos mais sórdidos personagens, é
redimido. Eva, ex-funcionária dos Correios, que perdeu dois filhos — um no
front, outro para as fileiras da SS — adota-o, e ele conhece finalmente o que
são os laços familiares.
Em meio a tanta
ruína, Fallada nos dá um gostinho de esperança. De que o homem não está
completamente perdido. De que morrer só em Berlim, ou qualquer outro lugar,
pode ser mais uma escolha do que destino.
Jorge F. Isah
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