Jorge F. Isah
Jorge F. Isah
Jorge F. Isah
Li o primeiro romance de Bowles, até então o único,
há um punhado de anos. Não me lembro ao certo, mas foi por volta de 1990: “O
Céu que nos espera”, publicado pela editora Rocco. Tenho a segunda edição, que
conservo, sem a ter tocado a não ser para trocar de lugar e tirar-lhe o pó.
Nunca ouvira falar de Paul Bowles até ver o filme de
Bertolucci, com John Malkovich e Debra Winger, de 1990. Na ficha técnica estava
lá: baseado no romance de Paul Bowles. Então, fui à caça para ver se encontrava
o livro, já que adorei o filme. Achei-o na Livraria Acaiaca, em BH.
Infelizmente, o tempo acaba por apagar as coisas menos significativas e, além
do conturbado relacionamento do casal de protagonistas, das belas imagens do
deserto e um clima claustrofóbico, pouca coisa me restou, tanto do livro como
do filme.
Recentemente, em um bazar de igreja, onde
havia dezenas de livros que ninguém se interessava em ver, encontrei um
exemplar de “Que venha a tempestade”. No geral, o estado dele era bom, mas como
eu poderia escolher qualquer item por uma ninharia, algo em torno de R$ 2,00
cada (havia baixado de 10 para 5, depois para 4 e, por fim, 2). Ao final do
bazar estavam doando para quem quisesse levar, já que ocupavam espaço e ninguém,
além de mim e um dono de banca de revistas próximo, se interessava.
Em idas e vindas, consegui alguns exemplares,
inclusive dois itens relativamente raros e que iriam parar no lixo ou seriam
vendidos no quilo. Esse é o motivo de eu não acreditar que este país tenha
jeito. As pessoas saem feito loucas atrás de um jeans ou moletom usados,
enquanto os livros são empilhados como se fossem entulhos, sem qualquer cuidado.
Vi exemplares com mofo, úmidos, rasgados, capas soltas, tudo porque o pessoal
simplesmente os jogaram num canto, sem lhes dar qualquer atenção, enquanto
alisavam roupas e lustravam bijuterias.
Bem, voltemos ao objeto deste texto. Logo
no início, aquele ar de vazio, de niilismo a perpassar a narrativa, me
incomodou. Não quanto à história, à futilidade dos personagens, mas, se em 1949
(data da publicação), o mundo já se encontrava contaminado com o sem-sentido, a
descrença e o relativismo, onde valores tradicionais e a verdade eram
sistematicamente desprezados, negando o absoluto, moral e ética, o que dirá
hoje, neste contexto esfacelado?
Veja o trecho:
“Havia
anos que ele seguia sem ser notado, sem notar a si mesmo, acompanhando os dias
mecanicamente, exagerando no cansaço e no tédio do dia para que lhe desse sono
à noite, e usando o sono para fornecer energia para encarar o dia seguinte. Não
era costume se dar ao trabalho de dizer a si mesmo: ‘Não há nada além disso; o
que faz valer a pena continuar?’, porque sentia que não tinha como responder à
pergunta. Mas no momento parecia-lhe que havia encontrado uma resposta simples:
a satisfação de ser capaz de viver o dia.”(pg. 180)
O fragmento simboliza bem todo o argumento
do livro: mecanicismo, automatismo e nenhuma transcendência ou metafísica. O
homem está “preso” no próprio destino — cabe a ele apenas resistir e viver um
dia de cada vez. Em princípio, a resistência e o viver dia a dia não têm nada
de errado — em alguns aspectos pode ser saudável não se preocupar em demasia
com o futuro e não se entregar à procrastinação e o desânimo. Porém, a ideia
aqui é: “faça o que fizer, pense o que pensar, aja como agir, nada disso tem
significado e a sua vida nenhum propósito”. Ainda que o autor esteja em busca
de uma resposta, e falha em encontrá-la (porque não está onde procura), ao não
ver solução, entrega-se à lógica do vazio. Por trás da aparência de reflexão
profunda está um reducionismo e superficialismo constrangedores.
Logo, o niilismo de Bowles o leva ao
fatalismo e vice-versa, pois onde não há sentido, quando o tem, torna-se
irrelevante; e onde não existe valor e apenas vazio, o conformismo e o
“dane-se!” não permitem mudanças, ou quando acontecem são meros impulsos, fruto
da irracionalidade.
Dostoiévski sabia muito bem sobre os danos e o
legado que o niilismo deixaria na Rússia. Em “O Idiota” e “Os Demônios”, ele os
combate com a sabedoria e o olhar “profético” sobre a construção de um mundo em ruínas — pois a negação da ordem moral e espiritual somente levaria o homem ao
primitivismo bárbaro e cruel. O niilismo é, sem sombra de dúvidas, o terreno
filosófico propício para toda a derrocada ocidental, do multiculturalismo ao
pós-modernismo, do relativismo às ideologias estatizantes. Neste aspecto, tudo
se traveste de condicional, enquanto os “dogmas” são absolutos e efetivos. Por
exemplo, a liberdade deixou de ser um conceito absoluto para se tornar em
“liberdade relativa”. Assim é a moral, a ética, o conhecimento, etc. Por isso,
tudo virou “narrativa”, seja de esquerda ou direita, sem qualquer objetividade,
permeada unicamente por delírios coletivos e insanidade individual.
Dizer que Dyar, o protagonista de “Que
venha a tempestade” (no original “Let it come down”, trecho de
Macbeth, de Shakespeare, dito pelos algozes de Banquo), é um homem vazio, mediano,
que chegou a Tânger e empreendeu uma queda brusca na direção da imoralidade,
antiética e se tornou incapaz de conviver com os efeitos das suas escolhas — esse poderia ser o resumo. Entretanto, a cada
passo em direção ao abismo, e convivendo com pessoas artificiais e fúteis, a
paranoia, o delírio e a irrealidade o levam a resultados ainda mais catastróficos.
Na busca de alívio ou “sentido”,
embriaga-se, começa a usar o Kif (mistura de tabaco com maconha e haxixe, muito
comum na cultura marroquina e no norte da África), e cada vez mais se vê
aprisionado na teia a afastá-lo do real e levá-lo ao êxtase sistêmico, onde a
euforia, o artificialismo se moldam ao ponto da histeria.
O livro tem várias outras camadas e
discussões, como a aversão completa dos muçulmanos aos cristãos, os conflitos
culturais, ocultismo, e, no terço último, uma narrativa lisérgica, com um final
tenso, perturbador e claustrofóbico.
“Que venha a tempestade” é a
derrocada do homem moderno, a descida ao abismo sem fim; e de nada adianta o
sol brilhar no céu azul... os olhos não podem ver e, na verdade, não querem
ver, habituados à escuridão.
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Título: Que venha a tempestade
Autor: Paul Bowles
Editora: Alfaguara
Páginas: 305
Jorge F. Isah
Vamos falar um pouco sobre “Quarto de Despejo”,
escrito por Carolina Maria de Jesus.
Porém, antes de começar, é importante ressaltar alguns aspectos:
Uma obra, seja ela qual for, não pode ser avaliada
por emoções ou coisas alheias ao próprio ato criativo. Por exemplo, João usa
apenas calças roxas e blusas laranjas com bolinhas verdes. Ele não admite
vestir-se de outra forma. É visto por uma “figura”(safo). É descolado,
vibrante, alegre e todos o querem por perto. Mas João é pizzaiolo, e suas
pizzas são horríveis, mesmo que ele use uniforme roxo, laranja e bolinhas
verdes. Assim, ele é duplamente conhecido: por estar sempre à disposição e
entremeado aos clientes com seu estilo “caloroso”, mas ninguém quer uma
pizzazinha sequer. João sugere, insiste, lança um sabor novo a cada semana, mas
os clientes se contentam com os pacotinhos de chips e amendoim, enquanto
conversam e riem com o pizzaiolo, entre uma cerveja e outra.
Em seu “Diário de uma favelada”, Carolina não
pode ter a sua qualidade literária avaliada pelo fato de morar no “morro”,
tanto para o bem quanto para o mal. Esse é um elemento completamente
irrelevante no exame do seu trabalho.
Também, o fato de cursar até o 2º ano do ensino
fundamental não pode interferir na análise. Quanto mais o fato de ser
marginalizada e gostar de coisas que o brasileiro, em geral, desgosta: ler e
escrever. Existem muitos leitores, para todos os gêneros e interesses e
objetivos, e neles não há unanimidade, quanto mais vocação ou aspiração para a
escrita.
A condição social, financeira, educacional,
ideológica e pessoal do autor não deve ser ponto destacado em qualquer obra,
com o risco de prejudicar não somente o julgamento, mas também rebaixar o
talento e esforço a um mero “status quo”.
O mesmo vale para o fato de ser negra, mulher, mãe
solteira, recicladora e marginal, e pertencente a um grupo relegado à periferia
de São Paulo.
Não estou a falar também de toda a obra de Carolina,
pois li apenas o “Quarto”, e ele é o foco deste texto. E o excesso de cuidados
em deixar claro o meu propósito não deveria ser necessário se os tempos, e
alguns leitores, fossem mais perspicazes.
Posto isso, o livro é um diário, no qual ela relata
o dia a dia da sua vida, e de outros moradores, na favela do Canindé.
E o que dizer do livro?
A narrativa é direta, consideravelmente repetitiva,
e não há esmero ou preocupação na construção das frases. Ao menos, na maioria.
Óbvio que estamos a falar de uma realidade crua, muitas vezes desesperada e
incerta. A precariedade dos recursos, aliada à fome, doenças, desemprego, faz a
situação se agravar ainda mais. Se existe algo de virtuoso em Carolina é a sua
sinceridade ao expor seus dilemas, anseios e não “baixar a cabeça” diante dos
males a rodeá-la.
Bukowski, outro marginal mais talentoso, dizia que a
literatura era a razão de não enlouquecer. Ocorreu o mesmo com Carolina, onde
as letras, definitivamente, traziam alguma beleza, esperança e realização.
O diário, tal qual a confissão, é a forma mais
profunda de encarar a si mesmo e o mundo. Certamente, por isso, os floreios e
dissimulações não se enquadram no seu paiol de ideias. Ao mesmo tempo em que as
reflexões são brutais, é possível a ela se agradar do nascer do sol, do céu
azul, de jardins e a gentileza de uns poucos. Ela se desnuda e se expõe sem
rodeios. Não resta mais nada a não ser encarar a realidade e esperar um novo (re)começo.
Enquanto catava papel, plástico, metal ou qualquer
outra coisa a render uns trocados, a certeza de ser poeta e escritora não
deixava dúvidas nem mesmo aos seus vizinhos e conhecidos. A maioria a tratava
com despeito, aquele velho bordão: “O que isso lhe deu?”. No fundo, porém, havia
mesmo era inveja. Tenaz, teve o diário recusado pela “Reader’s Digest”, mas não
desistiu, e continuou a escrevê-lo, na esperança de um dia ser publicado.
É uma leitura ligeira; todas as informações estão na
primeira camada. À parte da luta pela sobrevivência, dela e dos filhos (3 no
total), o maior problema é Carolina sentir-se incomodada, deslocada na
comunidade, à qual pertencia contra a vontade. As inúmeras queixas de vizinhos,
brigas, discussões e o descaso público acentuavam ainda mais o infortúnio da
autora.
Nesse ínterim, Carolina repudia com veemência as
favelas e seus habitantes. Não faz como a maioria dos sociólogos, antropólogos,
cientistas políticos ou palpiteiros que enfeitam a vida nos morros e tentam
criar a áurea de falso glamour. Ela demonstra por “a mais b” que o ambiente é
insalubre, doentio, e nada de bom, a despeito de uma ou outra benignidade, pode
advir dali; a dignidade é o ressoar do abuso e indiferença. A favela é o
território perfeito para os políticos não quererem erradicá-la; os dividendos
para eles são inúmeros. Manter as pessoas na miséria é a melhor forma de
distanciar as “pontas do poder”; por isso, imagina o dia em que terá a sua casa
e abandonará para sempre a maloca.
É impossível não se comover com as situações
bizarras e degradantes. Somente quem morou ou mora na periferia (a falta de
educação dos brasileiros está se transformando em endemia, mesmo nos
condomínios luxuosos e bairros de classe média) pode aquilatar um pouco do que
ela vivenciou. Não é o melhor cenário para se desenvolver uma narrativa, mas
era o que tinha.
A primeira lembrança que me veio, foi a leitura de
“Vinhas da Ira”, de Steinbeck. A
linguagem crua, deformada, e a indigência dos personagens se assemelham. No
americano havia a recessão, o “Crash de 29” e as lutas de classes — mesmo que a
maior parte dos lavradores sequer soubesse do que se tratava — e a manipulação
política. No caso da “favela do Canindé”, os políticos apareciam somente às
vésperas das eleições... e a recessão é um “looping infinito”.
No final, a minha curiosidade foi satisfeita. A
edição preservou praticamente todos os erros gramaticais e, novamente, como em “Vinhas
da Ira”, isso me incomodou bastante; se nele foi algo planejado, composto, em “Quarto”
é orgânico e inato à autora. Houve, segundo o editor, o jornalista Audálio
Dantas, a preservação da escrita original, com todas as suas imperfeições
linguísticas, a fim de retratar fielmente o estilo da autora. A meu ver, a
deficiência não é o mesmo que estilo. Mas vá lá, em tempos onde o exotismo
disso e daquilo deve se sobrepor à ordem, harmonia e correção, o vício se
traveste de virtude. Depois de algumas dezenas de páginas, liguei o “dane-se” e
foquei no enredo.
Há alguns dias, ouvi de um autor, queridinho da
intelligentsia, que, diante de uma lista dos grandes escritores do século XX,
apontou Carolina como a maior. Ela bateu João Cabral de Melo Neto, Ariano
Suassuna, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, entre outros. Sem precisar propor
qualquer argumento ou discussão. Era ela e pronto!
Mesmo reconhecendo a persistência, obstinação e o
vislumbre incessante do sonho; mesmo reconhecendo a denúncia social e política,
não há como reputar, do ponto de vista estético, estilístico e formal, o “Quarto” como obra de arte. Por muito menos, e bota
menos nisso, Dostoiévski foi acusado de ser um escritor ruim e desleixado.
Imagine, por exemplo, Nabokov e Hemingway — que culparam o russo de escrever mal — lendo Carolina.
Em “Quarto de Despejo”, a prosa é assimétrica. E
certamente não terá lugar em nenhum salão de festas, nem mesmo naquele
dormitório no porão. Ficam, contudo, os milagres operados pela literatura. Os
mesmos capazes de salvar Buck, Carolina, eu ou você.
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Título: Quarto de Despejo
Autora: Carolina Maria de Jesus
Editora: Ática
174 Páginas
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Jorge F. Isah
O que motivou uma geração de escritores americanos a
mudar-se para Paris? A “Cidade Luz” ofereceria algo que a “Big Apple”, ou
qualquer outra, não poderia? Qual o estímulo para atravessar o Atlântico e
adentrar uma nação ainda devastada pela Primeira Guerra Mundial? Esta é a
proposta de Ralph Schor em “Paris dos Escritores Americanos 1920-1939”:
elucidar as causas que levaram tantos estrangeiros ilustres a residir, ou ao
menos passar temporadas, em terras francesas.
A maioria pertencia à “Geração Perdida”, nascida
entre 1880 e 1890, que na década de 1920 não ultrapassava os 40 anos. Dentre
eles, talvez os mais brilhantes sejam Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway,
Thomas Wolfe, John Dos Passos, T. S. Eliot e Ezra Pound. Outros famosos, como
Sherwood Anderson, Henry Miller, Gertrude Stein, Dorothy Parker e Sinclair
Lewis, também se integravam ao grupo de “exilados”.
A “Geração Perdida” não era composta apenas por
escritores; incluía pintores, músicos, compositores, críticos, atores e
jornalistas. A obra em questão, porém, abrange exclusivamente autores
literários.
Os motivos eram variados, mas focaremos nos mais
comuns. Entretanto, não havia um consenso absoluto; nem todos os interesses os
despertavam em comum.
Após o fim da guerra, vários decidiram permanecer na
Europa. Alguns, ao retornarem à pátria, sentiram-se estrangeiros em sua própria
terra, e o regresso a Paris tornava-se inevitável. Alegavam que a América não
possuía uma cultura sólida e milenar como a francesa — era um país jovem
demais, ainda em seus cueiros, incapaz de oferecer um clima favorável ao
crescimento intelectual.
“Djuna Barnes, tendo voltado ao seu país em 1931, revelou sua impressão de haver voltado à infância, uma infância sem relação com a riqueza cultural da velha Europa.”
Aliada à questão cultural, havia a percepção de que
a sociedade americana se preocupava excessivamente com a materialidade: lucros,
máquinas, ascensão social e consumismo. Muitos a viam como um corpo sem alma.
“Scott Fitzgerald levava um de seus personagens,
orgulhoso de ser americano, a declarar: ‘O dinheiro é o poder [...], o dinheiro
fez este país’”(“Éclats du Paradis”; em português, “Pedaços do Paraíso”).
A ideia de que as obras de arte só tinham valor pelo aspecto mercadológico — quanto venderiam e lucrariam — era abominada pela maioria. Caso os autores não fossem hábeis em monetizar suas criações, eram considerados fracassos. Obviamente, autores populares e com grandes tiragens não revelavam, necessariamente, falta de talento. Mas a reverência ao número de exemplares vendidos como indicativo único de sucesso também era uma falácia. Para a maioria da “Geração Perdida”, o americano médio era medíocre em suas escolhas, e as editoras especializavam-se em publicar autores igualmente medianos e sem apelo criativo. Era um exagero, pois os mesmos proponentes dessa crítica foram descobertos e publicados por esses veículos.
O homem sempre está disposto a valorizar seus
desejos e negar virtudes quando não quer algo. Enquanto levas de imigrantes
partiam para os Estados Unidos em busca de oportunidades — muitas vezes fugindo
da miséria, guerras civis, perseguição e, não raro, escravidão —, a
intelectualidade americana rejeitava suas origens para viver em outras
paragens. Enquanto a maioria dos estrangeiros buscava usufruir do conforto e da
modernidade, construindo uma vida longe da penúria natal ou sistemas a
aprisioná-los, a elite negava os esforços sociais para gerar riqueza e
bem-estar àqueles dispostos a sacrifícios e muito, muito trabalho.
A elite abastada, com todas as facilidades modernas
ao toque dos dedos, frequentando as maiores e melhores universidades,
usufruindo das regalias fornecidas pela sociedade que tanto desprezava,
herdeira de bens, dotes, prestígio e status — coisas que o cidadão comum jamais
imaginaria possuir —, era hipócrita ao denunciar a hipocrisia alheia. Mas não
parecia disposta a tirar a trave dos próprios olhos enquanto apontava o cisco de
outrem. Sim, entediados em casa e deslumbrados em Paris, não precisavam “suar a
camisa” pelo pão de cada dia.
Havia exceções, claro. Hemingway, por exemplo, não
provinha de família rica; foi à Europa combater na guerra e conseguiu
instalar-se na França. Escrevia para um jornal alemão enquanto seus textos eram
rejeitados nos veículos americanos. Thomas Wolfe é um caso semelhante, mas suas
investidas no exterior eram temporárias; sempre voltava para casa, assim como
Scott Fitzgerald, o menos “deslumbrado com Paris”, ainda que aproveitasse todas
as suas facilidades.
Deve-se levar em conta também o fator monetário. O
custo de vida na América era três vezes maior do que em Paris, além de o dólar
ser muito mais valorizado que o franco. Na França, podia-se ter um padrão de
vida com ainda mais luxo, regalias e glamour, pagando quase uma ninharia.
Outro aspecto motivador era a rigidez moral
anglo-saxônica. O código de princípios de conduta regido por valores cristãos
fazia-os torcer o nariz e ansiar por novas experiências e um estilo de vida
mais, digamos, flexível. E, convenhamos, Paris era o destino certo. Em um
período em que a Lei Seca vigorou de 1920 a 1933, e apesar da ilegalidade, o
álcool proliferava clandestinamente por todo o território americano. Nos bares
e cafés parisienses, estavam à disposição uma variedade de bebidas da melhor
qualidade, a nata mundial, sem contar outros vícios menos comuns: ópio e
cocaína, por exemplo, eram comercializados livremente, já que não havia
proibição legal, embora existissem leis de contenção. Nomes célebres como Freud
e Klaus Mann sucumbiram aos efeitos nocivos dos opiáceos e alcaloides.
Considerados grandes amantes, o sexo em Paris era
algo mais “criativo”, menos escandaloso e sem a censura de olhares públicos. A
liberdade era algo que não teriam na América provinciana, ao ver deles.
“Natalie
Barney, muito revoltada contra o puritanismo de seu país natal, dizia que as
mulheres americanas haviam todas engolido uma bíblia ao nascerem.”
Obviamente, houve escritores dispostos a
estabelecer-se na Europa não devido às constantes festas, orgias, bebidas e
drogas utilizadas sem comedimento, mas porque Paris era o centro cultural do
mundo e, como tal, fervilhava com uma profusão de ideias, discussões, novidades
e um solo fértil para investigação artística. Simpatizantes de várias correntes
literárias e estilos intercambiavam-se; era normal e salutar. Por mais que
houvesse divergências, por vezes acaloradas, as amizades não se rompiam, o ódio
não se manifestava, e “matar” o adversário era puramente metafórico.
“Os escritores americanos de Paris ponderavam que
viviam num local de criação único no mundo: conservatório de todas as artes e,
ao mesmo tempo, laboratório onde nascia uma cultura nova. Por isso, Gertrude
Stein podia assegurar que Paris e a França constituíam o ‘pano de fundo natural
para a arte e a literatura do século XX’”.
Se é justo dizer que existiam facilidades e um
estilo de vida muito diferente dos padrões aos quais estavam habituados, não é
exagero afirmar que buscavam um ambiente considerado mais propício ao encontro
— ou reencontro — com a arte incipiente ou perdida. Alguns a encontraram,
outros não. Alguns se ressignificaram. Outros, não.
“Ezra Pound se dirigira a Paris justamente para
encontrar ali valores literários, morais e políticos que ele procurara em vão
nos Estados Unidos e na Inglaterra. Seu objetivo era claramente o de desarrumar
tudo o que existia.”
Porém, nem tudo eram flores. À medida que
reconheciam as vantagens parisienses, os americanos não eram queridos; pelo
contrário, os franceses não se mostravam simpáticos e acolhedores. Para eles,
aqueles intrusos tinham apenas dinheiro e estavam destruindo a cidade,
aumentando o custo de vida e tornando quase impossível ao cidadão comum dispor
de benefícios que, agora, eram inexequíveis aos seus bolsos.
Por outro lado, os americanos também tinham suas
ressalvas e consideravam-se mais parisienses que os próprios parisienses, já
que os acusavam de renegar a própria identidade:
“De fato, os estrangeiros destacavam os defeitos
dos parisienses, sua estreiteza, sua frieza às vezes depreciativa, sua
mentalidade rotineira, seu frequente desdém pelo conforto e pela higiene, seu
gosto excessivo pelo lucro.”
Diferente de outros refugiados europeus — russos,
alemães, armênios e espanhóis, fugitivos por perseguição política, que não
podiam retornar às suas pátrias —, os americanos poderiam fazê-lo quando bem
entendessem.
Esse foi, provavelmente, o último grande período
artístico parisiense, onde alguns gênios amadureceram e forjaram seus estilos
literários, conquistando lugar no panteão dos grandes autores do século XX.
Ali, fomentou-se uma nova cultura, nova arte, a ganhar o mundo, alterar hábitos
e estabelecer mudanças profundas, acentuadas nas décadas seguintes. Não é o
objetivo discutir se essas ideias, muitas sedimentadas no espírito do século
XXI, são legítimas, virtuosas ou meros efeitos da rebeldia humana. Fato é que
Paris jamais será o que foi há 100 anos; hoje, é um espectro da caudalosa
proficiência de ideias florescidas nos vários campos da cultura de então.
Ralph Schor, apesar da extensa bibliografia,
construiu uma obra simples e objetiva, delineando a motivação e as
consequências do êxodo intelectual americano no início do século passado. Para
quem gosta de literatura, e de algumas fofocas, é um prato cheio.
*Nota: Todos os trechos pinçados entre aspas (“”) e itálico
foram retirados do livro.
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Avaliação:(***)
Título: “Paris dos Escritores Americanos 1919–1939”
Autor: Ralph Schor
Editora: L&PM
Páginas: 232
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Algumas frases célebres:
"Minha carreira foi cheia de coincidências
notáveis que não têm nada a ver comigo."
"Ninguém merece muito dinheiro, certamente não
um ator."
“Algo, com certeza, vale a pena se não for fácil.
Se for, não deveria valer a pena.”
“Eu preferiria atuar em Hamlet sem ensaio do que
jogar golfe de TV.”
"É difícil escrever um bom drama, e muito mais
difícil escrever uma boa comédia, e mais difícil ainda escrever um drama com
comédia. Que é como a vida é."
“Morrer não é pecado. Não viver, é.”
“Falhas não param você. O que para é o medo de
falhar”.
“Não tinha desejo de estar no cinema. Todo o meu
treinamento foi para o teatro, graças a Deus.”
“A morte é o fim da vida, não um relacionamento.”
“Nunca perdi a paixão total pelo meu trabalho.”
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Jorge F. Isah
Li este livro em 2016,
mas, diante das guerras atuais, especialmente o embate entre os grupos
terroristas do Hamas, Hezbollah e outros, financiados pelo Irã contra Israel,
resolvi aprofundar-me mais em “Submissão” (que em árabe significa
Islã), o livro que trata exatamente da invasão muçulmana à França e o fim
iminente do que poderia se chamar Ocidente nas próximas décadas.
O autor, Houellebecq, já
foi acusado de praticamente tudo e, até mesmo, de ao fazer literatura com
nítido viés de aversão e rejeição às pautas humanitárias, ganhar milhares de
euros e dólares. A intenção seria causar terror, preconceito e perseguição aos
inocentes e bem-intencionados islamitas.
Muitos torcem o nariz,
outros o consideram frouxo em suas denúncias, e ainda há aqueles que o têm como
porta-voz da derrocada europeia atual.
Gosto de literatura e não
me importo se existem fatores à direita ou à esquerda, desde que escrita com
apuro e qualidade. Ao revelar os problemas e caminhos que o Ocidente está a
trilhar, ela se torna ainda mais necessária e ampla. E o multiculturalismo, com
todos os equívocos (e mínimos acertos), seja na Europa, América ou Brasil, é um
assunto sobre o qual deveríamos nos debruçar e analisar sem os clichês e
paixões nos quais o pensamento moderno se habituou e estagnou.
Por mais que o considere
um romance atual, pois trata da invasão cultural e, por que não, militar, algo
que já foi decantado e alardeado há décadas por grandes intelectuais como
Theodore Dalrymple, Roger Scruton, Olavo de Carvalho, entre outros, nunca é demais
escrever sobre o assunto.
Por mais que trate do
domínio islâmico no Velho Continente, os atentados, estupros, linchamentos e a
implantação da Sharia na Inglaterra, França e Alemanha sejam uma realidade.
Por mais que fale da
vitória de um partido, a Fraternidade Muçulmana (aliada ao Partido Socialista
Francês), assumindo o poder político do país e rapidamente mudando a legislação
e aplicando as suas leis.
Por mais que ele discuta
algumas ideias em meio a uma descrença e niilismo do personagem principal,
François, que se vê rapidamente cooptado pela liderança muçulmana; ainda assim,
o livro de Houellebecq, apesar da propaganda alardeada de escritor polêmico, me
pareceu aquém das expectativas.
Em meio às críticas de
ser ultradireitista, chocante, divisionista, xenófobo, controverso etc., pela
mídia esquerdista/liberal, suas alianças e intenções nada morais, e por aqueles
que veem mas fingem não ver, esperava algo do tipo um desnudar, um escancarar
da "colonização" islâmica na França, revelando suas táticas,
violência e o nítido interesse de destruir a civilização ocidental, com a
chancela de muitos cidadãos europeus. Em parte, a narrativa obteve êxito.
Contaminados por
discursos década após década, o cidadão comum, e mesmo um “intelectual” tal
qual François (leciona na Universidade de Paris, através do benefício de
bolsas, e nunca teve um emprego de verdade), não é de se estranhar o escândalo
e protestos gerados pelo livro. Anestesiados, não conseguem ver além do próprio
nariz, enquanto ateiam fogo em si mesmos, na sua cultura e história.
Certa vez, vi a
declaração de um ex-militar israelense (e aqui a razão de aprofundar o assunto
de “Submissão”) de que, enquanto os muçulmanos querem o domínio, controle
e conquista do Ocidente, o liberal cheio de "não me toques" e
higiênico quer eleição, e será por ela que o Islã ganhará seus novos
territórios. Alguém duvida? Várias cidades espalhadas na América e Europa têm o
seu quinhão de governantes oriundos do Islã. A implosão se dá de dentro para
fora, seja em metrôs, aviões, prédios ou nas urnas. A democracia tão venerada,
frágil e ineficiente, é a mesma a suicidar-se ao dar lugar à teocracia.
François, após ser
defenestrado da cadeira na universidade, foi cooptado em troca de se
“converter” ao Islã, ganhando três vezes mais do que antes. E assim, boa parte
da intelligentsia está disposta a se “sacrificar” por si mesma.
São também os mesmos
progressistas que defendem o terror do Islã, encobrem os seus pecados mais
hediondos, os crimes mais abomináveis, e demonizam Israel que, como a França de
Houellebecq, é democrata e morrerá com a corda que pôs no próprio pescoço. É claro
que não estou a falar de escatologia ou do Israel de Deus, mas analisando os
fatos friamente. E eles estão aí para todos verem. Basta querer. E é nesse
aspecto, ao descrever o protagonista como o homem moderno sem padrão, sem
limites, sem domínio, sem sentido, que o autor se sobressai. François é a
derrocada do Ocidente; o homem não somente dominado pelo poder político, mas
pela própria fraqueza, imoralidade, maleabilidade para aceitar ou fazer vistas
grossas ao mal. Isso vale para todos nós que repetimos diariamente a frase
atribuída a Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus,
mas o silêncio dos bons”. Por essas e outras, não me simpatizo em nada com
o liberalismo e o seu viés mais radical, o libertarianismo, que visa apenas o
sucesso e conquista material, achando que um governo economicamente menos
interventor é a solução de todos os problemas, enquanto “pregam” o relativismo
moral e o fim dos padrões culturais, religiosos e tradicionais. O que recebem
com uma mão acabam por dar com as duas. Tudo é "menos Estado",
como se o entrave fossem as leis e não o tipo de leis, e cada um pudesse viver
a seu bel-prazer, desde que não se prejudique ninguém... Tá, cara-pálida!
Quando o despertador vai tocar?!... Acham que tudo se resolve com o voto,
mas, e a qualidade desse voto?
Para resumir, basta uma
olhada ao redor e ver onde o relativismo e os votos nos fizeram chegar; muito
mais rápido do que alguém, em sã consciência, pudesse imaginar.
François é este homem:
vazio, oco, como T. S. Eliot escreveu em seu famoso poema. Um “maria-vai-com-as-outras”,
desde que lhe sejam concedidas algumas vantagens. E se vender bem é, no final
das contas, a melhor jogada. Com isso, em seu niilismo, multiculturalismo,
relativismo, anticristianismo e tudo o mais de fétido que a modernidade
construiu, ele se “converte” ao Islã, pensando no gordo salário e nas mulheres
com quem se casará. Não é difícil imaginá-lo a rezar o “salat”... submisso e
conformado.
Ao terminar a leitura,
fiquei me perguntando se aquela descrição e alerta resultariam em um abrir de
olhos do leitor: sinceramente, fiquei em dúvida.
Os mais otimistas o viram
como um promotor de ideias e, como tal, achei-as, em algum sentido, perdidas em
sua própria denúncia. Como um livro polêmico (talvez para a sociedade
pós-cristã e ocidental, como a francesa, mas ainda distante da brasileira),
pareceu-me quase inofensivo em sua denúncia escandalosa.
Na verdade, não gostei
mesmo da narrativa; ela se desenvolve meio sôfrega e não me cativou na maior
parte do tempo. Chego a concluir que é um livro mal escrito, não é uma
porcaria, evidente, mas está longe dos grandes autores e clássicos. Pareceu-me
frio, distante, mas entre o frio e o morno, que não é uma coisa nem outra, é
preferível a contenção da geladeira. Esperava mais, sobretudo pela crítica
favorável ao estilo e prosa de Houellebecq, e também sobre o enredo proposto.
No final das contas,
talvez se eu não tivesse ouvido falar tanto de "Submissão", sem
uma expectativa de que leria uma obra incomum, muito superior ao que se tem
escrito mundo afora, seria possível o livro me agradar mais. A propaganda, neste
caso, não funcionou a contento.
Resumindo: "Submissão" não
é um livro ruim, longe disso, mas não é tudo o que dizem. Ele abarca muitos
elementos existenciais, culturais e políticos que levam à reflexão. Porém,
ficou um gostinho de "quero mais", que o autor pode corresponder em
sua próxima obra ou, quem sabe, em uma releitura.
Avaliação: (★★★)
Título: Submissão
Autor: Michel Houellebecq
Editora: Alfaguara
Páginas: 256
Jorge F. Isah
Já ouviu de Jim Jones?...
Se pudesse resumir a figura de Jim Jones
em uma frase: ele foi um vigarista!... Não, um apóstata!... Um
psicopata!... Um assassino!... Talvez
essas e mais outras tantas o retratariam, mas fato é que Jim Jones,
passados quase 50 anos do massacre em
Jonestown, permanece um enigma. Para
alguns foi um líder socialista. Outros, o próprio deus reencarnado. Ainda
outros, esperança. Foi cabo-eleitoral. Ativista de direitos das minorias.
Mensageiro de uma nova ordem. Porém, quem era mesmo?
Nascido James Warren Jones, em Randolph,
Indiana, aos 13 de maio de 1931, filho de James Thurman Jones e Lynetta Putnan.
O pai foi ex-combatente na 1ªGrande Guerra e sofreu com as sequelas das
trincheiras, tendo sérios problemas nos pulmões que o debilitavam e impediam de
executar tarefas físicas. Tornou-se alcoólatra e um pária que dependia da
assistência estatal e do salário da esposa, apesar de vir de uma família rural
e financeiramente estável. Lynetta era um caso à parte. Trocou várias vezes o
próprio nome, se dizia descendente dos Cherokees, e vivia enaltecendo a sua
origem, empregos e feitos que nada tinham a ver com a realidade. Fantasiava a
fim de satisfazer-se e de minimizar o próprio autodesprezo: uma forma de não
ser obrigada a aceitar o que todos viam, mas se recusava a ver.
Com isso, Jim vivia a perambular pelas
ruas; era alimentado pelos vizinhos; muitos o recebiam durante o dia enquanto a
mãe estava no trabalho e o pai no boteco. Algo que a pequeno vilarejo de Lynn
se dispôs a fazer, mesmo a família Jones sendo vista como esquisita. O pai era
vítima da guerra, um combatente necessitado de piedade e, por isso, ganhou a
simpatia de todos. Lynetta, pelo contrário, era arrogante, desbocada e
grosseira, as vezes estúpida, falava o que lhe dava na teia e não raro exaltava
a sua sinceridade, quando na verdade era apenas insolente e rude. Os Jones
também não frequentavam nenhuma igreja e não professavam nenhuma fé, algo
inusitado em uma comunidade maciçamente cristã.
Aos domingos, a mãe de Jim ficava em casa,
o pai era visto no mesmo bar, enquanto os demais moradores se distribuíam nas
congregações da região.
Jim, desde pequeno, tinha uma obceção pela morte, e
fazia questão de frequentar todos os cultos, em todas as igrejas. Era possível
vê-lo saindo de uma em direção a outra e assim sucessivamente. Chegou a se
batizar em várias delas. Reunia os amiguinhos para sepultar animais mortos,
momento em que pregava e entrega as suas almas. Com o tempo, passou a matá-los,
e seus longos sermões afastaram de vez a assistência.
Desde a adolescência, leu muito sobre socialismo,
comunismo e nazismo, tendo Lenin, Stalin e Hitler como seus ídolos, e Mao
Tsé-Tung por herói. Cada vez mais se interessava por assuntos ligados ao
racismo, à pobreza, e acreditava que o objetivo de Jesus era trazer a igualdade
entre todos os homens; com isso, o alvo das suas “pregações” eram os pobres e
miseráveis e negros e índios, cujas expectativas Jim queria suprir. A ideia de
um mundo igualitário não era uma armadilha para apanhar incautos, no início, mas
no decorrer da trajetória “messiânica” ele simplesmente os manipulava ao seu
bel-prazer, com o fim de sustentar o seu poder e o culto pessoal.
Uma boa intenção à princípio levou Jim a
gradualmente extorquir e se apoderar dos recursos dos membros, com o mote de
criar um paraíso terreno, já que não existia o celestial. A sua capacidade não
pode ser desprezada, já que não alcançava apenas a ralé social, mas incorporou
ao seu séquito contadores, engenheiros, médicos, jornalistas, políticos e ocupou
cargos na prefeitura de Indianápolis e São Francisco. Foi bajulado por
candidatos à promotoria, câmaras legislativas e, até mesmo, pela esposa do
futuro presidente Jimmy Carter, Rosalynn, e o candidato a vice, Walter Mondale.
Era ferrenho defensor do grupo “Panteras Negras”(de
viés marxista-leninista), que, em meio ao discurso de justiça e promoção dos
direitos sociais, tornava-se mais e mais violento e agressivo, a ponto de
torturar e matar desafetos. Eles foram a inspiração para Jim Jones, que se tornava
também cada vez mais paranoico, acreditando que o governo americano o
perseguia, a criar a sua própria segurança armada, um pequeno exército a
serviço do pavor e coação. Segundo os critérios do próprio líder, que não
precisava de provas ou investigação para transformar um aliado em inimigo,
qualquer um podia ser “abordado” pela tropa, num claro sinal de ameaça.
Em certo momento, no início dos anos 1960, Jim quis
migrar o templo para o Brasil, e escolheu Belo Horizonte para sede (em uma
lista das cidades mais seguras do mundo, para o caso de haver um ataque nuclear).
Veio com a esposa e braço direito, Marceline, os filhos naturais e adotivos (a “família
arco-íris” se compunha de crianças de origem coreana, indígena e negra, além
dos legítimos). Contudo, se no país natal era um líder em ascensão, em meio ao
espírito naturalmente bagunçado do brasileiro, que não tinha qualquer ligação
com as pautas sociais e políticas americanas, viu-se apenas como mais um
missionário. Não conseguiu apoio do governo, políticos, e muito menos da elite
mineira. Desiludido, dois anos depois foi para o Rio de Janeiro onde também
passou ileso, a não ser por prostituir-se, com o consentimento ainda que
consternado de Marceline (sua esposa), ao dormir com uma ricaça e levantar
fundos de US $ 5.000,00 para um orfanato. É aquela história pragmática dos
meios justificarem os fins, quando a amoralidade encontra a melhor, talvez a
mais oportuna, justificativa para o desejo intolerável.
De volta, criou uma comuna, em Mendocino, na
Califórnia. O local era quase um campo
de concentração: havia toque de recolher, as visitas não eram permitidas, sair
somente com autorização; a correspondência dos membros era vigiada e, se
necessário, censurada; os telefonemas eram rigorosamente controlados; a ordem
era trabalhar e se dedicar integralmente às atividades da comuna e, nos
“sermões”, Jones sempre batia na tecla do “nós contra eles”, algo facilmente
discernível hoje nos movimentos progressistas (infelizmente, por um tipo de
osmose, muitos “conservadores e de direita” também têm utilizado o mesmo ardil.
E a máxima de Goebbels se espalha como peste: “Uma mentira dita mil vezes
torna-se verdade”).
Por essa época, Jones resolveu ter uma amante fixa
entre seus “súditos”, mas, para efeitos públicos, a fidelidade a Marceline
permanecia. À medida que o seu apetite sexual, associado ao vício alcoólico e
posteriormente a drogas mais pesadas, os relacionamentos com mulheres e homens
tornou-se notório entre os membros do Templo. O surreal, para não dizer outra
coisa, era a proibição aos demais membros de serem libertinos e poligâmicos,
bêbados, drogados e gays. A máxima do “faça o que eu digo, não faça o que faço”,
mostrava o nível de hipocrisia a pairar no Templo do Povo.
Se a membresia tinha de se sujeitar a trabalhos
extenuantes e forçosos, além das rações alimentícias insuficientes para suprir
as demandas físicas, e praticamente viverem amontoados em quartos com outros
doze ou treze colegas, Jones reservava a si mesmo um estilo de vida quase
nababesco: permitia levar a família (com a amante junto) em férias anuais,
viagens e passeios esporádicos, idas a cinemas, McDonalds, e utilizar roupas de
grife. Foi por essa época que adotou o indefectível óculos escuros, e nunca estava
em público sem eles.
Dali, sairia, em 1974, para uma aventura na Guiana
Inglesa, país onde o socialismo governava e a comunicação não seria impecílio.
No meio da selva inóspita, o Templo do Povo poderia, finalmente, se ver livre
das perseguições americanas e proteger-se de um futuro ataque nuclear. Com o
aval do primeiro-ministro Burnham, que via na comuna a saída para as constantes
ameaças de invasão da Venezuela na fronteira, destinou-lha uma área na região
de Port Kaituma. A colônia agrícola de americanos talvez fizesse o governo
venezuelano ponderar nas consequências de ataque a cidadãos da maior nação do
mundo, e isso refrearia o seu espírito expansionista e belicoso.
Por dois anos, um grupo de 50 membros foi
responsável por construir as instalações a fim de receber os cerca de 600
postulantes inicialmente cogitados por Jones. À medida que denúncias se
espalhavam na imprensa, reforçada pela dissidência de membros leais, a fuga
para a América do Sul se tornava mais real e próxima. O temor das acusações
ganharem o apoio popular e do governo, e futuras investigações devassarem o
Templo do Povo, suas práticas, finanças e atividades explicitamente ilegais,
deixavam a liderança apreensiva, perturbada, e a exposição da realidade poria
fim ao movimento.
Jones e Marceline possuíam cerca de 32 milhões de
dólares no exterior, enquanto o “Pai” e a “Mãe”(assim chamados carinhosamente
pelos súditos) convocavam os adeptos a mais e mais sacrifícios, empenho e
volição no sentido de suprir as necessidades comuns.
É possível que Jim quisesse usar os fundos para
implementar o seu ideal socialista fora da América. Poderia ser, também, uma
reserva para si e seus familiares em caso de o culto extinguir-se. A verdade,
porém, é que Jones já especulava o suicídio coletivo, e o chamou de
“revolucionário e socialista”, portanto, não somente fazia parte dos seus
planos como algo aceitável, mas assumiria o caráter desejável e necessário à
causa, validaria os discursos de
rejeitar o capitalismo e apoiar incondicionalmente o socialismo. Seria a
maneira dos membros tomarem nas mãos o
próprio destino, repetia em cada reunião.
Na verdade, alguns se dispuseram a morrer pela
“causa”, mas muitos não queriam e foram obrigados, à força, receber o “suicídio
revolucionário” como bênção e não assassinato. O relato dos sobreviventes deixa
notório o fato de muitos estarem cansados com tudo aquilo, e a morte ser melhor
do que ouvir e participar das maluquices alopradas de Jim. Mas estou me
adiantando um pouco... e Jones, diversas vezes, como um “bom” psicopata, preparou os acólitos encenando o envenenamento, a fim de avaliar o grau de obediência.
Em 1977, quando as coisas estavam insuportáveis na
California, Jones, os filhos, o harém de amantes (fixas e giratórias) e
centenas de membros partiram, finalmente, para o paraíso tropical em meio à
Floresta Amazônica. Nos Estados Unidos, a esposa Marceline ficou responsável
por representar o Templo do Povo, a captação e envio de dinheiro, a compra e
transporte de insumos para o projeto na Guiana.
Nesse ínterim, Jones vivia sobre os efeitos de
drogas e álcool, expunha as pessoas a trabalhos forçados 14, 15, 16 horas por
dia, sob o sol escaldante e o calor asfixiante da selva, e incursionava no que
ficou denominado “noites brancas”, onde todos eram obrigados a ouvir nos vários
alto-falantes espalhados em dormitórios, corredores e pátios, horas fio, as
vezes terminando com o raiar da manhã, a parolagem ideológica e alucinógena do
“Pai”. Aquilo ia minando a resistência física e emocional da população. No auge
do acampamento havia cerca de 900 moradores em Jonestown, a cidade de Jones,
como foi batizada.
Enquanto isso, as denúncias de ex-membros, as
investigações de parte da imprensa (a maioria simplesmente não quis ouvir os
delatores), e a entrada no circuito do congressista Leo Ryan (notório por
farejar situações onde pudesse ganhar fama e fazer o seu marketing pessoal),
chamaram a atenção da opinião pública e das autoridades. As acusações de
sequestro, trabalho escravo, fraudes, além de extorsão, ameaças (houve relatos
de desaparecimentos e mortes de desafeto; nada foi provado, seja pela
intervenção de aliados, seja pela inexistência de fatos) e lavagem de
dinheiro. Discutia-se se o Templo do
Povo era verdadeiramente uma igreja, já que nada remetia a uma, sequer havia
mensagem religiosa, ou um movimento ideológico, político e social. Neste caso,
não faria jus à isenção de impostos.
À medida que o cerco apertava, Jim Jones convencia
os moradores de que estava em negociações com o embaixador soviético em
Georgetown e, em breve, mudariam e se instalariam em uma região ainda não
escolhida pelo governo. Poderia ser apenas delírio, se antes não fosse uma
trapaça para manter o ânimo da “tropa”.
Mesmo se opondo, Jones consentiu com visitas de
algumas comissões da embaixada americana de Georgetown e do governo guianês.
Estudava-se a ida de uma comissão do Congresso Americano, encabeçada por Ryan,
para uma inspeção em Jonestown. Por meses, Jim se recusou a recebê-los, e as
pressões sobre a comuna aumentavam proporcionalmente às exigências de
Washington. Descontrolado, Jim Jones intensificou as “noites brancas” e a ideia
do fim. Para ratificar o argumento, descrevia à exaustão o relato ocorrido em
Masada, 73 D.C., quando 960 judeus sicários cometeram suicídio coletivo, diante
da iminente conquista e escravidão pelos romanos. Para ele, não havia saída a
não ser o sacrifício, já que os Estados Unidos, tal qual os romanos, estavam em
vias de invadir, prender e escravizar pessoas que buscavam apenas viver em paz
o socialismo. Rapidamente a maioria se convenceu de estar em iminente ataque, e
a solução final não era mais vista com ceticismo.
Depois de Marceline convencer Jim a receber a
comitiva de Ryan, após semanas de tentativas, alegando que o Templo não tinha
nada a esconder de ninguém, e a visita poria fim aos falsos rumores, o “Pai”
ouviu a “Mãe”, mesmo a contragosto, e autorizou. Se quisesse continuar a tocar o negócio, teria
de fazer concessões ou as doações e ofertas, à míngua, cessariam.
Leo Ryan e sua comitiva, acrescida de jornalistas e
repórteres, chegaram em novembro de 1978 em Georgetown. Várias reuniões com a
embaixada, o governo guianês, membros e porta-vozes do Templo do Povo, se
estenderam por dias, enquanto Jim relutava em recebê-los. Foi novamente
Marceline quem o demoveu e intermediou o impasse. Mas a tensão e o clima pesado
pairava no ar, e somente Ryan, ocupado com o seu espetáculo, e os políticos da
capital sentiam que tudo acabaria bem e, ao final, todos estariam satisfeitos. No
geral, havia apreensão e muitas dúvidas quanto ao sucesso da inspeção.
No dia anterior ao massacre, Ryan, assessores, repórteres
e os “Parentes Preocupados”, grupo de ex-membros e familiares de membros
aflitos com as advertências e relatos acerca da autoridade severa, métodos no mínimo anormais e controle
exacerbado de Jones, chegou a Jonestown, recebidos por uma escolta paramilitar.
Logo depois, o próprio líder apresentou-se e trocou poucas palavras com os
visitantes. Quem fez o papel de cicerone foi Marceline, sempre afável e
disposta a apagar qualquer má impressão.
Membros foram entrevistados; acomodações, obras em
andamento e a infraestrutura vistoriados, e, praticamente, tudo foi aprovado. A
conclusão era de não haver motivos para duvidar da legitimidade e intensões de
Jim Jones. Contudo, não sabiam que nos eventos onde estranhos compareciam o
esforço em arranjar as coisas e transparecer ordem, fartura, alegria e produtividade,
faziam parte da “máscara coletiva”. Nada denunciava o racionamento de
alimentos, às vezes água, medicamentos e outras coisas cruciais para a
sobrevivência na selva.
No primeiro dia, alguns membros do templo solicitaram
à comitiva o retorno aos Estados Unidos. Leo Ryan intermediou, junto a
Marceline, a saída de cerca de 15 pessoas. Na verdade, ao chegar, imaginou que
o número de desertores seria maior, na casa dos cem. Marceline, novamente, interveio
junto ao esposo, que esbravejou e chamou os dissidentes de traidores. Por fim,
concordou. Ela ponderou serem apenas 15, ou seja, pouco mais de um por cento.
Não havia porquê impedir, ainda que ela mesma tenha tentado dissuadi-los. Aos
mais íntimos porém, Jones disse que hoje são 15, amanhã 30, e depois... No
fundo, ele não permitiria isso.
Quando o grupo se preparava para abandonar o
acampamento, uma tempestade desabou sobre a vila, impossibilitando a partida
até o aeródromo de Kaituma. A estrada rapidamente ficou intransitável. Todos
tiveram de se acomodar e esperar o dia seguinte, caso a torrente parasse.
Pouco antes, enquanto os moradores eram
entrevistados, um grupo dissidente fugiu, aproveitando-se do tumulto provocado
pela visita. À noite, após uma inspeção, Marceline descobriu a ausência de
alguns membros, reportou isso a Jones que fez as contas de mais 11 traidores,
totalizando 26. Ryan não foi informado da fuga, mas Jones havia decidido
colocar um ponto final naquela situação.
Na manhã seguinte, 18 de novembro, após mais duas ou
três adesões ao grupo que ansiava retornar à pátria, um membro desferiu um
golpe de faca em Ryan que por pouco não foi fatal. Aquilo o assustou e aos
demais, enquanto Jones permanecia impassível e com um risinho sarcástico. A
comitiva e os “traidores” embarcaram no caminhão de volta à Kaituma, e de avião
iriam para Georgetown.
A história já vai longe, então, resumirei.
Enquanto Jones executava os planos traçados
anteriormente de envenenamento, outro plano se desenvolvia (as transcrições das
conversas gravadas entre Jim e os membros são estarrecedoras. Não as farei
aqui. Você pode ouvi-las e ver muitas imagens no Youtube ou, por exemplo, ao
ler “Jim Jones”, de Jeff Guinn, a principal fonte desta matéria).
Continuando, enquanto em Jonestown 900 pessoas eram
mortas por livre vontade ou coagidas, a segurança do acampamento abriu fogo na
pista de pouso em Kaituma, matando 5 pessoas e ferindo outras tantas. Entre os
mortos estava o congressista Leo Ryan e sua secretária. Curiosamente, quatro
soldados guianeses, responsáveis pela escolta do grupo, não interviram no
ataque, apenas observando as cenas brutais. Havia o temor de envolverem-se e
causar um conflito internacional, pois eram americanos matando americanos.
É como escavar um lixão, quanto mais se mexe, mais
lixo aparece.
Jim Jones, com todo o seu carisma, charme e apelo
popular, ficará mesmo marcado na história como um frio, louco e desmedido
assassino. Em seu orgulho, blasfêmia e falta de afeto natural, tinha aparência
de piedade, mas negava-a.
Casos assim nos enche de compaixão e tristeza, e
pode ainda ser mais triste, pois, neste mundo, os exemplos, ao invés de
servirem de alerta, tornam-se causa e motivação para repeti-los. Se há
cinquenta anos, quase mil pessoas foram exterminadas pela cegueira própria ou
pela fraqueza moral, pessoas como Jim Jones são o sinal de que nas trevas
sempre é possível surgir homens tenebrosos e cruéis.
Que Jim Jones, a despeito da sua crença na
reencarnação, esteja definitivamente morto.
E nada, ou alguém, reivindique o seu trono.
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Bibliografia: Jim Jones
Autor: Jeff Guinn
Editora: DarkSide
Páginas: 544
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Li materiais avulsos e assisti a vídeos no
youtube. A maioria das informações estavam em harmonia, confirmando,
especialmente as fontes primárias (e muitas delas estão vivas), o assombroso e
terrível desfecho das loucuras psicóticas e socialistas de Jones, descritos por
Guinn. Por isso, não me referi a ele
como pastor e seu culto por igreja, já que as características do Templo do Povo
não tinham nada a ver com religiosidade, não no sentido cristão do termo. Era
mais um politburo. E um chamariz para atrair incautos.