29 julho 2026

Mártires Modernos: Richard Wurmbrand

 




 Jorge F. Isah

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Quem foi Richard Wurmbrand?

Ele nasceu em Bucareste, Romênia, em 1909 e faleceu em Torrance, EUA, em 2001. Pertencia a uma família de origem judaica, e mudou-se para Istambul, Turquia, quando criança. Aos 9 anos, perdeu o pai, e apesar de não possuir uma educação formal refinada, era leitor voraz e, antes dos 10 anos, leu por completo todos os livros que havia em casa. Não recebeu, contudo, qualquer orientação religiosa, pois seus pais consideravam-se agnósticos e não pertenciam a nenhum grupo ou comunidade do gênero.

Aos 15 anos, com a sua família, retornou ao seu país natal, e  após a consolidação da revolução bolchevique, ainda adolescente, foi enviado a Moscou para estudar e tornar-se agente marxista na Romênia. Foi integrante do Comintern (organização internacional com o fim de expandir o comunismo pelo mundo, criada por Lenin) e era líder e agente designado e pago diretamente pelo governo de Moscou. Considerava-se, até aquele momento, agnóstico como seus pais.

Casou-se com Sabina Oster, em 1936. Converteram-se a Cristo em 1938, por meio do testemunho de um carpinteiro, o sr. Wolfke,  ativo participante da missão anglicana na Romênia. Richard estudou e foi ordenado pastor pelas igrejas Anglicana e Luterana. Em 1944, com a invasão soviética ao seu país e a implantação do regime comunista, Wurmbrand iniciou o ministério de pregação do evangelho junto aos soldados romenos e do exército vermelho. Uma das primeiras diretrizes do novo governo, e sempre ocorre em qualquer regime totalitário, é a necessidade de controlar a igreja através de leis, penalidades e indivíduos capazes de debelar, fiscalizar e restringir seus fundamentos e princípios, tornando-a em mero tentáculo ou apêndice do Estado. Com isso, Wurmbrandt e outros líderes cristãos foram obrigados a criar a “igreja subterrânea”, nos moldes da “igreja primitiva”, reunindo-se clandestinamente a fim de não se submeter à ingerência e intervenção estatal, ou seja, não se subordinar ao culto ideológico e idólatra de governantes e seu poder. A principal ameaça a pairar sobre a igreja não eram as perseguições, apropriações, torturas e mortes de seus membros, mas o tornar-se inócua, reles, como as diretrizes governamentais ansiavam e jamais conseguiram, por meio da criação e instalação de uma “igreja oficial”.

Muito desse período, inclusive os 14 anos em que permaneceu preso pelo governo nas masmorras comunistas, pode ser conhecido em seu livro “Torturado por Amor a Cristo”², no qual relata, em detalhes, os flagelos físicos e psicológicos; o sadismo dos carrascos, incapaz, entretanto, de enfraquecer a fé e o testemunho através dos quais muitos deles, soldados e torturadores, se converteram a Jesus Cristo.

A considerar-se, primeiramente, o fato do pr. Wurmbrand não ter a menor pretensão de escrever uma obra literária sofisticada, mas um testemunho de vida cristã. O livro é simples na linguagem e, de certa forma, em alguns aspectos, rústico, porém, a objetividade tem um significado: o de expressar correta e fielmente o período em que a Romênia esteve dominada pela ideologia marxista, e foi uma "colônia" soviética.

Os relatos de prisões arbitrárias, torturas, mortes, e das práticas mais cruéis de persuasão, a fim de os presos delatarem amigos, parentes e irmãos de fé — e a tentativa de "convertimento" ao comunismo — são dignas dos períodos mais bárbaros que a humanidade já presenciou.

Apenas como reflexão: não é interessante como tantos — e o número só vai crescendo — acusam os EUA de colonialista, enquanto a antiga URSS e os atuais países comunistas são tratados como centros democráticos e que não se interessam pela expansão de suas ditaduras mundo afora?...  Chame-se a isso também pelo seu nome real: hipocrisia.

Como alguém já disse: “acuse-os daquilo que você mesmo defende e é!”; assim o mundo vai se transformando, pouco a pouco, em um grande cárcere a céu aberto, onde nem mesmo o pensamento contrário é possível. Se uma única palavra for interpretada de maneira errônea ou equivocada por um” ouvinte”  — o famoso X9, delator ou “dedo -duro” —, o peso da mão arbitrária será sentido. Cada vez mais a humanidade vai se “homogeneizando” naquilo de pior e injusto a aflorar a insensibilidade e torpor. E toda unanimidade sendo burra — parodiando Nelson Rodrigues ­—,  as ideologias   insistem em tornar o  mundo o lugar mais tacanho que existe.

Segundo, os relatos da fé e do preço pago pelos cristãos por não se sujeitarem à ditadura — isso mesmo, cristãos são perseguidos em todos os lugares, exatamente por não se sujeitarem à idolatria Estatal, à "onipresença" da burocracia, como um "deus" a cuidar de todos os aspectos do indivíduo, tornando-o em menos do que um escravo, um objeto descartável e descartado ao bel-prazer do governante ou “sistema” —, pois um dos objetivos das ideologias é a criação de uma "nova sociedade", de "um mundo perfeito", e, para isso, a tradição judaico-cristã, a família, a propriedade privada, a moral, e tudo o que fundamentou a civilização ocidental, tem de ser destruído — afinal, o Estado não é laico, mas ateísta, diz não ser religioso, mas tem seus dogmas, culto e ídolos. O Cristianismo é o principal empecilho, já que os cristãos verdadeiros não terão como Senhor ninguém além de Cristo e, para os ideólogos de plantão, tal convicção é simplesmente inaceitável, um verdadeiro absurdo.

Em tempos de cristãos marxistas, cristãos direitistas, cristãos liberais, cristãos conservadores — e um leque ainda maior de “palavras compostas”—, podemos dizer que esses cristãos duplicados são realmente semelhantes e seguidores de Cristo? Ou apenas tentam legitimizar aquilo que, mesmo inconsciente, reputam por ilegítimo e imoral? Defender o indefensável, acreditando que o indefensável deve ser protegido e resguardado pelo discurso e não pelas ações, é sinal de que o cinismo se camuflou de compaixão para correr livremente.  

De maneira dissimulada, tem-se alastrado o chamado "evangelho social", uma porta para a entrada do radicalismo em suas formas mais hipócritas, artificiais e finórias, colocando cristãos contra cristãos, num mundo onde o discurso e não a evangelização ganha cada vez mais "relevância", essa palavra que surge sempre a sair da boca dos defensores de alguma causa enquanto a vida se torna um mero detalhe.

O número de testemunhos de fé e amor a Cristo, ao Evangelho e ao próximo, relatados pelo pr. Wurmbrand é comovente — e em muitos aspectos deixam-nos envergonhados —, e deveria servir de um "despertar" para a maioria de nós, cristãos, adormecidos e embalados por um discurso de acomodação e leniência em relação ao pecado, ao imoral, e a um Inferno cada vez mais cheio, onde as pessoas não têm a oportunidade de ouvir as verdadeiras “boas novas, contentando-se com uma diluição maligna da sua mensagem, em favor de "um mundo melhor", onde as vidas, via de regra, estão cada vez piores e mais afastadas de Deus.

Desde já, aconselho a cada cristão, e mesmo o não cristão, a comprar o livro e lê-lo, avaliando-se, a si mesmo, se é aquilo que imagina ser ou se está verdadeiramente sendo (de)formado por discursos, promessas e esperanças falsas, a levar “gato por lebre”, sem poder dizer, ao menos, ter sido engambelado.

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O pr. Richard Wurmbrand criou a missão “Voz dos Mártires”,³ em 1967, a fim de denunciar, auxiliar cristãos perseguidos pelo mundo, orar e levar as “Boas Novas” do evangelho de Cristo aos seus algozes.

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Alguns trechos:


1) Richard, conversando com um preso russo, na Romênia ocupada pelos nazistas, durante a II Grande Guerra:

"Era um trabalho dramático e muito comovente. Nunca me esquecerei do meu primeiro encontro com um prisioneiro russo. Ele me havia dito que era engenheiro. Perguntei-lhe se cria em Deus. Se ele houvesse dito "não", jamais me incomodaria tanto. É direito de cada homem crer ou descrer. Porém quando lhe perguntei se cria em Deus, ele levantou os olhos para mim, sem me entender, e disse: "Não tenho ordem militar para crer. Se eu tiver uma ordem, crerei".

“Lágrimas correram no meu rosto. Senti meu coração quebrantado. Diante de mim estava um homem com uma mente morta, um homem que havia perdido o maior dom que Deus dera à humanidade - o de ser um indivíduo. Ele havia passado por uma lavagem cerebral e se tornado um instrumento nas mãos dos comunistas, preparado para crer ou não em uma ordem. Não podia mais pensar por si próprio. Era um russo típico depois de todos esses anos de domínio comunista!"

2) Definindo a experiência sobre o poder comunista, em relação à experiência sobre o poder nazista (lembre-se, Wurmbrand é um nome judeu):

"A partir do dia 23 de agosto de 1944, um milhão de soldados russos entraram na Romênia e logo após os comunistas assumiram o poder do nosso pais. Então começou um pesadelo que fazia o sofrimento sob o Nazismo parecer nada."

3) Na cooptação da igreja:

"Desde que os comunistas assumiram o poder, cuidadosa e astutamente para os seus propósitos, têm seduzido a igreja".

4) Sobre o Congresso de cristãos, no Parlamento Romeno:

"Ali estavam quatro mil padres, pastores e ministros de todas as denominações. Esses quatro mil padres e pastores escolheram Joseph Stálin como presidente honorário do Congresso. Ao mesmo tempo era presidente do Movimento Mundial dos Ateus e assassinos dos cristãos. Um após outro, bispos e pastores se levantou ao nosso Parlamento e declararam que Comunismo e Cristianismo são fundamentalmente a mesma coisa e podem muito bem coexistir. Um após outro, os ministros ali presentes pronunciaram palavras laudatórias ao Comunismo e asseguraram ao novo governo a lealdade da igreja... Então me levantei e falei ao Congresso, exaltando não aos matadores de cristãos, mas a Cristo e Deus, e afirmei que nossa lealdade é devida em primeiro lugar ao Senhor... Depois tive de pagar por isto, mas valeu a pena!"

5) Sobre as traições:

"Aqueles que se tornaram servos do Comunismo, em lugar de servos de Cristo, começaram a denunciar os irmãos que os não acompanhavam".

6) Sobre as torturas na prisão:

“Crentes eram pendurados em cordas de cabeça para baixo e açoitados tão severamente que seus corpos balançavam de um lado para o outro sob a força das pancadas. Eram colocados em refrigeradores — “celas refrigerantes” — tão frias que se formava uma camada de gelo na parte interna da cela. Eu próprio fui jogado em uma dessas celas com bem pouca roupa. Médicos da prisão observavam-nos através de uma abertura, até verem sintomas de morte por congelamento. Nesse ponto davam sinal e os guardas nos tiravam e então éramos aquecidos. Quando já estávamos adquirindo calor, éramos imediatamente colocados de novo nas celas congeladoras, e isto repetidamente! Descongelar depois congelar até um ou dois minutos antes da morte, e então descongelar novamente. Isso continuava indefinidamente. Até hoje, algumas vezes não suporto abrir um refrigerador”.

“Na prisão de Tirgu-Ocna, havia um prisioneiro muito jovem chamado Matchevici. Estivera ali desde a idade de dezoito anos. Por causa das torturas, estava agora muito doente com tuberculose. Sua família descobriu de alguma forma o seu estado de saúde, e enviou-lhe cem vidros de estreptomicina, que poderiam lhe fazer a diferença entre a vida e a morte. O oficial político da cadeia chamou o prisioneiro e mostrou a encomenda. Disse-lhe: ‘Aqui está o remédio que pode salvar sua vida. Mas não é permitido receber encomendas da família. Pessoalmente, gostaria de ajudá-lo. Você é jovem. Não gostaria que morresse na prisão. Ajude-me a ajudá-lo! Dê-me informações contra seus companheiros na prisão, e isto me dará justificativa diante dos meus superiores por lhe ter entregado a encomenda’. Matchevici respondeu sem hesitar: ‘Não desejo permanecer vivo e ter vergonha de olhar no espelho, pois estaria vendo um traidor. Não posso aceitar tal condição. Prefiro morrer’. O oficial lhe estendeu a mão e disse: ‘Minhas congratulações. Não esperava que me desse qualquer outra resposta. Mas eu gostaria de fazer outra proposta. Alguns dos prisioneiros se tornaram informantes. Afirmam que são comunistas, e estão denunciando a você. Jogam dos dois lados. Não confiamos neles. Gostaríamos de saber até que ponto são sinceros. Para você foram traidores. Prejudicaram muito sua vida, informando-nos sobre suas palavras e ações. Compreendo que não queira trair seus companheiros. Mas dê-nos informações sobre estes que se lhe opõem, e assim salvará sua vida!‘. Matchevici respondeu com a mesma rapidez que tivera na primeira proposta. ‘Sou um discípulo de Jesus, e ele nos ensinou a amar até nossos inimigos. Estes homens que nos traem realmente nos prejudicam muito, mas não posso pagar o mal com mal. Não posso dar informação nem contra eles. Tenho pena deles, oro por eles, mas não desejo ter qualquer ligação com os comunistas’. Matchevici voltou desta conversa com o oficial e morreu na mesma cela onde eu estava. Estive ao seu lado quando morreu, e morreu louvando a Deus. O amor venceu até mesmo a sede natural pela vida.”

7) Sobre a fé em Jesus Cristo:

Uma grande lição permaneceu após todas as surras, torturas e carnificina infligidas pelos comunistas aos cristãos: o espírito é capaz de dominar o corpo. Muitas vezes, ao sermos torturados, sentíamos a dor, mas era como se fosse algo distante e bem dissociado do nosso espírito que estava tomado com a glória de Cristo e a sua presença conosco. Quando recebíamos uma fatia de pão por semana, e uma tigela de sopa de água suja por dia, decidimos que continuaríamos dando fielmente o “dízimo” mesmo nestas circunstâncias. De dez em dez semanas pegávamos a fatia de pão e a entregávamos a alguém que estava mais fraco como nossa oferta ao Mestre”.

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Notas: 1- Esta seção não visa revelar necessariamente “mártires” devidamente mortos por seus carrascos e verdugos, mas também aos que sofreram, por anos a fio, ameaças de morte, torturas e chegaram a “morrer” inúmeras vezes sem contudo entregarem seus espíritos. É mais uma homenagem e lembrança àqueles inocentes e devotados servos de Deus, que por motivos ideológicos tiveram parte ou o todo da sua vida ceifada pela crueldade e vilania de governos e seus comandantes.

2- O livro pode ser adquirido no site “Voz dos Mártires”, em inglês ou espanhol, já que a versão em português está esgotada há muito, e talvez possa ser encontrada somente em sebos, infelizmente.

3- Voz dos Mártires: https://www.vozdosmartires.pt/

25 julho 2026

Malemolência Tupiniquim

 


Jorge F. Isah


Tem coisas que somente os brasileiros fazem, dizem por aí. Existem hábitos (para alguns, manias) típicos e quase exclusivos nossos, tupiniquins. Um deles, e talvez o mais difícil de se entender, é o de comer pizza com talheres. Normalmente, mundo afora, come-se essa iguaria com as próprias mãos, aos moldes alimentares dos nossos queridos “hermanos” silvícolas. Para os “gringos” é abominável degustar tão saboroso (e gorduroso) alimento sem apalpá-lo, afagá-lo e apertá-lo entre os dedos. Chega a ser um fetiche. De nossa parte, esse negócio de comer pizza com as mãos deveria ser proibido e constar no código penal, com sentenças de 15 a 20 anos de prisão, sem direito a fiança e atenuação de pena. Deveria incluir trabalhos forçados; mas isso é sonhar demais, né!

Onde já se viu comer com as mãos? Ainda mais pizza? Já imaginou quantos micróbios e bactérias poderíamos ingerir?... E, depois, são esses “selvagens” a obrigar-nos ao uso de máscaras. Gente sem noção...

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Outro particular, é a existência de cesto de lixo nos banheiros. Lá fora, eles simplesmente jogam no vaso sanitário o papel higiênico junto com os seus dejetos. Parece lógico, já que conservar restos fecais em cestinhos não tem nada de civilizatório e higiênico. Seria o mesmo que manter o seu Título de Eleitor em um cofre forte enquanto espalha dinheiro e joias pelas mesas e cômodas da casa. Dizem que as eleições, mais do que um dever é um direito. Ah, se fosse assim, veríamos filas semanas adentro, verdadeiros acampamentos, nos portões das seções eleitorais. Mas essa atitude é típica dos fãs de estrelas do rock, dos consumidores loucos por promoções, ou dos psicóticos usuários de iPhone. Ninguém monta barraca, literalmente traz travesseiro, cobertor, cadeira de praia, garrafa térmica e biscoito amanteigado para votar. Nada mais justo do que abolir os cestinhos dos banheiros e qualquer esperança nos eleitores.

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Brasileiro gosta de banho. Ao contrário de boa parte do mundo, é costume nacional lavar-se diariamente. Há aqueles que não se limitam a um, mas tomam dois ou três. E veem depois falar em ecologia. Querem prender a senhorinha que esfrega o passeio uma vez por semana e o moleque que lava o carro quinzenalmente. Mas aqueles intermináveis 40 minutos de ducha, três vezes por dia, não causam qualquer impacto na natureza. É o típico cara a tirar o cisco do olho alheio enquanto mantém a trave no seu.

Aqui as coisas são tão estranhas que se criou o termostato de chuveiro, para impedir o excesso de tempo entre um enxague nos cabelos e outro nos pelos pubianos.

Essa mania se espalha a quase tudo, até mesmo nos altos escalões. Houve um tempo, não muito distante, onde se criou a “Operação Lava-Jato”, cujos efeitos foram tão rápidos e inócuos  — graças a artifícios interpretativos de certa Corte — que todos os "sujões” estão a emporcalhar o país de novo. Nem uma fonte de água sanitária molhando-os ininterruptamente daria cabo dessa bodega. Ou seja, não adiantam banhos, pois jamais seremos devidamente “limpinhos”.

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Talvez, por sermos tão “sui generis”, o mundo desconhece que “hablamos” português, e acreditam piamente que o Brasil é um país de língua espanhola. Não sei o que os lusitanos esperam e fariam, mas, se fosse eu, ficaria quietinho e deixaria toda a culpa para os hispanos.

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            Se você conhece outra mania, e quer “expô-la” publicamente, mande-nos o seu e-mail com a sugestão e um PIX para a conta do editor. 

20 julho 2026

Olhos de Fome - Michel Salomão

 



Jorge F. Isah

 

       

        Este livro foi lançado recentemente, em dezembro de 2025, mas sua gestação se deu ao longo dos últimos quarenta anos — um pouco mais ou menos: foi um parto programado e longo.

      Michel Salomão esteve às voltas com a burocracia, especialmente a ainda mais burocrata e menos eficiente, a justiça. Contudo, nada o impediu de sonhar, conceber e dar à luz ao seu projeto mais ambicioso e, por que não, mais ansiado — para o pequeno círculo de amigos que estavam a par da sua criação. Nesse período, o autor produziu muito do que está em suas páginas, com o vigor, desprendimento e convicção de que o seu processo criativo era, no mínimo, estranho e estranhamente real e imaginativo, sem a distinção de onde um começava e onde o outro terminava. A realidade pode muitas vezes ser impalpável, enquanto a imaginação pode ser, por seu lado, extremamente concreta. Cabe a uma e outra suas porções de evidências e mistérios.

      Pois, finalmente, “Olhos de Fome” está entre nós. Não como mais um livro, mas o livro dentro de tantos outros que a vida de Michel produziu e a maioria dos leitores não terá acesso. Se há um consolo é o de que, na personalidade surpreendente do autor — que se mistura à estranheza de suas criações — a possibilidade é real de encontrar traços e componentes que indiquem a saída do labirinto de sentimentos, afetos e paixões que personificam o ser humano, em maior ou menor grau, nos símbolos e camadas do texto.

      A obra é uma coletânea de contos escritos nas últimas décadas, sendo a maioria nos últimos três, quatro anos, com o advento da Revista Bulunga. Neles encontramos a mesma estética de surpreender o leitor com temas aparentemente banais, mas que causam desconforto e empatia, ao nos ver refletidos nas formas — ou “fôrmas” — e nos identificamos, por exemplo, com o funcionário medíocre, o megalomaníaco, o psicótico, o ranzinza, ou a mulher — do conto inicial que dá título ao livro — que, incapaz de intimidade, utiliza o sexo como forma de poder, tenta não repetir a herança violenta, mas apenas a ressignifica. Em nenhum momento, o livro é conciliador, reconfortante, ou apela para os clichês modernosos.

Ainda que não exista um nítido desejo de absolvição, os temas e personagens são apenas expostos, sem sentimentalismo ou pieguice, sem atenuar os conflitos ou descaracterizá-los. Se está a procura de literatura reconfortante ou conciliadora, em que os dilemas sejam apagados em um passe de mágica, vade retro, desista. Mas se quer realmente conhecer a alma humana, com todos os seus dramas — muitos, patéticos —, dúvidas e aquele deslocamento natural e sincero, é um prato cheio.

      Porém, não se esqueça: em quase todos os escritos de Michel, você sempre encontrará aquelas pitadas — em maior ou menor grau — do humor satírico, provocativo, irônico e, por vezes, deliberadamente hiperbólico e caricatural. É assim que funciona. É assim que deve ser. Tal qual Bukowski, Stanislaw Ponte Preta e Millôr Fernandes, capazes de transformar o feio, o banal e o rotineiro em algo intenso e, às vezes, belo e otimista.

      O mais engraçado, se me permite, é quando notamos o narrador a rir de si mesmo, a fazer do seu caráter, dogmas e conceitos, a base ideal para a autocaricatura e, assim, tirar sacadas e risos diante do espelho. É quando o riso do leitor ao personagem se volta ao narrador e, quase sempre, ao autor. Tem-se o círculo perfeito, inquestionável. E disso vive a boa literatura, desta capacidade autodepreciativa e nada ufanista.

      Para quem “torce o nariz”, atire a primeira pedra. Porém,

esteja consciente de que ela pode voltar como um bumerangue.

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Avaliação: (****)

Título: Olhos de Fome

Autor: Michel Salomão

Páginas: 245

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15 julho 2026

Estudo sobre a Confissão de Fé Batista de 1689 - Aula 48: Autoridade e Sustento Pastoral - Parte 2







Jorge F. Isah

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Continuando o nosso estudo sobre a biblicidade da autoridade e do sustento pastoral, primeiramente, façamos um esclarecimento: Não sou pastor, seminarista, nem recebo salário da igreja da qual sou membro.

Segundo, muitos dirão: "Veja quantos pastores profissionais existem, que sugam tudo o que podem dos fiéis, extorquindo-os com falsas promessas de bênçãos enquanto se empanturram de dinheiro, gastando-o da forma mais mundana possível, em bens materiais e suntuosidade". Reconheço, é verdade. Há muitos líderes que "vendem" o Evangelho, tratando-o não menos que um produto rentável. Mas isso representa dizer que todos são mercenários? Que estão buscando o que lhes é próprio ao invés da glória de Deus? Não! E a despeito de todos os falsos mestres (os quais estão sob a ira de Deus), a Bíblia exorta a igreja a suprir as necessidades dos que pregam a palavra.

Terceiro, nossa igreja é pequena e de poucos recursos; auxiliamos o nosso pastor em seu sustento, contudo, ele trabalha secularmente seis dias por semana, 10 horas por dia, para suprir as necessidades de sua família. E percebo que se ele fosse um pastor de tempo integral dedicado à igreja, tanto os membros como os trabalhos evangelísticos seriam fortalecidos.

Quarto, não quero generalizar, mas, normalmente, os que atacam o sustento pastoral são aqueles que se acham dignos de serem crentes, desde que não tenham de sacrificar nenhuma parte dos seus bens. De certa forma, o que move os "mercadores da fé" é o mesmo que os move: a avareza, o amor ao dinheiro.

Quinto, há os que tentam espiritualizar o que não é espiritual. O Evangelho de Cristo é espiritual, porém, proclamado fisicamente pelo pregador, pela impressão de Bíblias (por mãos incrédulas, muitas vezes), em suma: por meios humanos. Tentar provar que a pregação do Evangelho não é trabalho (seja remunerado ou não) é contradizer o próprio tratamento dado à questão por Jesus (Jo 4.38, 5.17), e Paulo (1Co 3.8, 15.58; Cl 1.29; Hb 6.10).

Feito os esclarecimentos, analisemos alguns versículos que tratam do assunto:

1) "Quem jamais milita à sua própria custa? Quem planta a vinha e não come do seu fruto? Ou quem apascenta o gado e não se alimenta do leite do gado?" (1Co 9.7).

O que o apóstolo está dizendo? Aqueles que pregam o Evangelho que vivam do Evangelho (1Co 9.14). Paulo reinvindica o direito de ser sustentado em seu ministério pela igreja. Como afirma: "Ou só eu e Barnabé não temos direito de deixar de trabalhar?" (1Co 9.6). Provavelmente os coríntios acusavam Paulo de "mercadejar" o Evangelho, de procurar o benefício próprio, de pregar o Evangelho por motivos mundanos. Porém, revela-lhes que tanto ele como os demais apóstolos têm o direito de terem o sustento para si e suas famílias, e de que essa responsabilidade cabe à igreja (1Co 9.4-5). Não é o que parece ao afirmar "Esta é minha defesa para com os que me condenam" (1Co 9.3)? E "Digo eu isto segundo os homens?" (1Co 9.8). Ao que arremata: "Ou não diz a lei também o mesmo?" (1Co 9.8).

Paulo prossegue a argumentação protestando que, aquele que lavra e debulha (ou seja, aquele que trabalha), lavra e debulha com esperança de ser participante (1Co 9.10). E continua: "Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito que de vós recolhamos as carnais?" (1Co 9.11). O apóstolo declara que esperava colher muito menos dos coríntios do que lhes tinha dado, mas ainda assim, esperava obter o necessário para a sua subsistência.

A sequência à qual Paulo expõe o seu pensamento é extremamente lógica, e impossível de não entendê-la, a menos que seja lida com premissas falhas. É o que muitos dirão, justificando-o com o v. 12: "Se outros participam deste poder sobre vós, por que não, e mais justamente, nós? Mas nós não usamos deste direito; antes suportamos tudo, para não pormos impedimento algum ao evangelho de Cristo".

Atentamos que o verso fala de um "direito" que o apóstolo possuía, o qual era o de ser mantido pela igreja. Porém, diante das dúvidas levantadas pelos coríntios, e da própria resistência da igreja em ajudá-lo, ele não "usou" esse direito, para que a descrença dos coríntios não aumentasse, e fosse "impedimento" para a proclamação do Evangelho. Dizer que Paulo censurou os ministros que são sustentados pela igreja é distorcer completamente o sentido daquilo que ele próprio diz.

Resumindo: Paulo não pregava o Evangelho por causa das recompensas, por aquilo que a igreja iria lhe dar; ele pregava o Evangelho por amor a Cristo e aos eleitos (2Tm 2.10), contudo, esperava que, como igreja, os irmãos suprissem as suas necessidades.

2) "Outras igrejas despojei eu para vos servir, recebendo delas salário; e quando estava presente convosco, e tinha necessidade, a ninguém fui pesado" (2Co 11.8).

Qual de nós, vendo o irmão em necessidade, vira-lhe as costas? Foi o que os coríntios fizeram em relação a Paulo. E ele os exorta com tristeza, sabendo que negligenciaram o seu compromisso para consigo; porém com o nítido objetivo de não somente apontar-lhes o erro, mas de levá-los ao arrependimento e correção. Senão, por que tocar no assunto?

Há quem entenda que Paulo está condenando os que recebem salário, como alguém que é "pesado" à igreja, um usurpador (ao contrário, o que ele diz dos coríntios é que suas atitudes eram usurpadoras, eles é que "roubavam" dos macedônios ao receber o Evangelho de graça, sem nenhum sacrifício).

É claro que há casos e casos. Aqueles que se utilizam da posição de liderança no ministério para o enriquecimento, a abastança material, o deleite carnal, o consumismo desenfreado, e o apego sórdido ao dinheiro (seja pastor ou não) comete pecado, e é injusto. Em outras palavras, quem age assim sequer é convertido. Porém, o fato de muitos agirem desta forma (e, infelizmente, parece que o pastoreio se tornou num novo "toque de Midas" o qual transforma tudo o que põe a mão em ouro), não representa que o princípio da subsistência ministerial seja antibíblico.

Novamente, Paulo escreve aos coríntios dando-lhes "um puxão de orelhas", entre outras coisas dizendo que eles deveriam agir e viver como igreja. Havia muita divisão entre eles, muito sectarismo; e para a sua tristeza, especialmente por que plantara a igreja, eles o desprezavam em detrimento aos falsos apóstolos (2Co 11.1215) os quais, certamente, eram os que o caluniavam junto ao povo.

Ele defende-se de que, em nada é menor do que os demais apóstolos e, portanto, tem o mesmo direito que os demais tinham, inclusive o de viajar com sua família, como Pedro fazia (2Co 11.5). Mesmo solteiro, Paulo reivindica esse direito, o de constituir uma família e poder viajar com ela no seu ministério.

Temos de entender que o fato de Paulo pregar de graça aos coríntios, e os coríntios o receberem sem se preocupar com as suas necessidades, é motivo de glória para o apóstolo e de "desglória" para a igreja de Corínto, ainda que isso não os impediu de serem abençoados pela pregação do Evangelho. É o que ele diz: "Pequei, porventura, humilhando-me a mim mesmo, para que vós fôsseis exaltados, porque de graça vos anunciei o evangelho de Deus?" (v. 7).

À frente, no capítulo 12, vem-nos a confirmação: "Pois, em que tendes vós sido inferiores às outras igrejas, a não ser que eu mesmo vos não fui pesado? Perdoai-me este agravo... Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado" (2Co 12.13,15 - grifo meu). Parece-me que Paulo coloca os coríntios em pé de igualdade com as demais igrejas, a não ser pelo fato dele não ter sido "pesado" a ela. Em outras palavras, os coríntios estavam numa posição "inferior", em débito, por não terem com essa beneficência demonstrado "amor" ao apóstolo. É assim que Paulo os retrata: enquanto o seu amor por eles aumentava a ponto dele se sacrificar para pregar-lhes o Evangelho (o que implica em passar necessidades), a igreja de Corinto não se dispunha a auxiliá-lo em seu sustento, como prova de amor.

No fim das contas, o que importa é isso: o amor a Cristo e Seu Evangelho, o que resulta em obediência. 

Apêndice: De certa forma, o mesmo sectarismo que Paulo aponta entre os coríntios, vemo-lo hoje. A Igreja está tão dividida, inclusive pelos que pregam unidade, pelos sem "placas" nem "nomes", pelos que se julgam filhos "exclusivos" de Deus, pelos que se consideram "libertos" mas estão presos ao pior farisaísmo existente, e acabam por se esquecer do principal: pregar o Evangelho de Cristo crucificado (1Co 2.2).

Perdemos tempo com "outros" evangelhos, e negligenciamos o que realmente importa. Com isso, não quero jogar para "debaixo do tapete" os problemas da igreja, muito menos pregar o evangelho ecumênico. Longe de mim cometer estes pecados. Mas, se ao invés de gastar o precioso tempo de que dispomos tentando "corrigir" os erros de outras igrejas e denominações, preocupássemos conosco, nossos irmãos e igreja certamente estaríamos "salvando" a nós mesmos e aos nossos queridos... Um minuto! Não confunda uma frase hiperbólica com salvação de verdade, a qual apenas o nosso Senhor Jesus Cristo é capaz de realizar. Quero dizer é que, nos preocupamos em "salvar" os outros (pelo menos nos enganamos com essa idéia), quando na verdade o nosso objetivo é "revelar" o quanto estão errados e desviados do caminho; e assim nós mesmos acabamos nos desviando do caminho, substituindo o amor pelo legalismo, a mera acusação, e a autoexaltação. E, por favor, não confundam essa declaração com a condenação à disciplina bíblica, pois a disciplina é atributo da igreja, do corpo local, e não de irmãos isolados que falam por si só, como se fossem a própria voz de Deus (estes, se forem eleitos, são alvos da disciplina divina).

Deus levantará segundo a Sua santa vontade irmãos que farão o trabalho apologético, defendendo a fé bíblica apontando o erro daqueles que são antievangelho, e mesmo dos cristãos que "deslizaram" em um princípio ou outro. Mas, infelizmente, o que acontece é que, de uma hora para a outra, a maioria se arrogou e arvorou apologista, e saiu "atirando" para todos os lados, como uma metralhadora descontrolada.

Enquanto isso, sorrateiramente, o diabo planta dentro do corpo local suas heresias, mas como nossos olhos estão voltados para os erros alheios (de outras denominações e outros irmãos denominacionais, cuja disciplina não está ao nosso alcance), permitimos que a nossa omissão e desleixo corrompa-nos também.

O pior é que muitos nem sequer participam do corpo local, acreditando num cristianismo solitário e individualista, numa clara rebeldia aos princípios bíblicos que dizem defender. No fundo, se consideram superiores e melhores do que os mandamentos de Cristo; e sentam-se confortavelmente em suas torres de observação, desprezando-a, ridicularizando-a, pois sequer passa-lhes pela cabeça submeter-se à autoridade com que o Senhor investiu-a.

São "livres" para bater à vontade, contudo, esquecem-se de que, caso sejam eleitos, a mão disciplinadora de Deus está sobre eles. Se não forem, não há disciplina, mas a condenção eterna os aguarda.

A melhor forma de se pregar o Evangelho de Cristo é pregando o Evangelho de Cristo, e não combatendo o antievangelho. Qualquer um pode combater (pois nem mesmo argumentos precisa-se ter, apenas vontade, disposição), mas poucos são capacitados a viver o Evangelho, pois para isso é preciso ser convertido por Cristo, regenerado e lavado no Seu sangue.

A melhor forma de se lutar contra a fraude e a heresia é expondo a verdade bíblica. De nada adianta refutar a heresia se não se obedece aos mandamentos do Senhor, e assim fazendo-o, demonstra não amá-lO (Jo 14.15) e, "em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens" (Mc 7.7).

Portanto, é urgente que antes de se entrar numa "caça às bruxas", que se viva o Evangelho, testemunhando a Cristo nosso Senhor. Fim do apêndice. 

Finalizando, transcrevo mais uma vez as palavras do apóstolo Paulo: "Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina; porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário" (1Tm 5.17-18); porque "se alguém também milita, não é coroado se não militar legitimamente. O lavrador que trabalha deve ser o primeiro a gozar dos frutos. Considera o que digo, e o Senhor te dê entendimento em tudo" (2Tm 2.5-7).

Timóteo ouviu.

E, nós?

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ÁUDIO DA AULA:


Nota: 1- Aula realizada na EBD do Tabernáculo Batista Bíblico  




10 julho 2026

Copa, carnê e caviar

 



  

          Aqui e acolá, assisto a um e outro jogo da Copa, e algo que salta aos olhos é como os torcedores se mostram festeiros e animados — quase chego a dizer felizes — antes e durante os jogos... claro, até aquele gol adversário.

     Países com problemas econômicos, sociais, políticos e, quiçá, existenciais, na América são representados por cidadãos saudáveis, bonitos e eufóricos, todos com seus Galaxys Ultra e iPhones Pro Max erguidos como troféus olímpicos à caça dos três segundos de eternidade no feed.

      Cá estou eu com o meu Moto G, me perguntando se não seria hora de arriscar tudo em um carnê de vinte e quatro prestações e ter a minha parcela de alegria. Mas então me lembro: alegria de pobre dura pouco.

      É tanta gente bonita que chego a desconfiar de IA ou coisa que o valha. Esqueço a fila do SUS, os odores do metrô e as matérias orgânicas das calçadas.

      A festa não estaria completa sem os narradores e comentaristas, que disputam a tapas os espectadores — como se sofressem de hipoacusia severa. Entre a publicidade de cerveja e casa de aposta, temos a certeza de que se a Copa fosse mensal ninguém mais teria fome ou boletos.

      Convenhamos, é um fenômeno e tanto. O país para. Em dia de jogo, ninguém pensa em mais nada. Famintos, desempregados e endividados se unem em comoção pelas cores verde e amarela — bandeiras, camisetas, faixas... ruas, muros e fachadas. Nada de lembrar da luz atrasada.  Mas a assinatura da Tevê está em dia. O resto que se dane.

      Seja na eliminação precoce ou não, daqui a duas semanas tudo voltará ao normal. E os momentos de comunhão quase espiritual — entre odes e hinos e unção coletiva — darão lugar às filas, engarrafamentos, xinglings roubados para uma cervejinha. Afinal, ninguém é de ferro... até as eleições... quando bufantes e histriônicos, os eleitores darão a sua parcela de caviar e mansão em Miami para os escolhidos.

      Em quatro anos, verá tudo de novo... mesmo que os seus olhos insistam em dizer o contrário, e você acredite.

 

Jorge F. Isah

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Nota: Publicado originalmente na Revista Bulunga



06 julho 2026

Noventa minutos de patriotismo

 




Jorge F. Isah

 

"O Brasil ganhou!... O Brasil ganhou!”

Seja lá o que isso representa. Foi um jogo contra os japoneses, que já não são os mesmos. Na Segunda Guerra, endureceram muito mais a peleja do que hoje. Tudo bem, os motivos são outros, mas a idolatria é a mesma.

No Japão, o esporte mais popular é o Baseball, depois vem a competição de hashis nas feiras de Tóquio.  O futebol deve vir logo após o “Torneio nacional de organizar filas”.

Não sei de você, mas o foguetório, gritos e palavrões em brados efusivos lembraram-me a comoção da queda do Muro de Berlim, a vitória do Miss Universo por um LGBTQ+ , e a eleição do presidente mais honesto que já existiu. Ninguém se lembra dos preços nos supermercados e da prestação atrasada.

Veja o caso do juiz que resolveu apitar depois da partida e marcou penalti contra certa empresa por não haver mulher em cargo de gerência. Se a moda pega, a próxima Copa começará e terminará sem futebol. Pois o lema é:

“Não ao futebol. Mais igualdade social”.

Susete e Geni para os lugares de Messi e Vozinha. E Marciele no de Ancelloti.

Um juiz pode dizer como administrar uma empresa privada, mas, por que raios o Estado está falido?... Vai ver, acham que a competência discrimina. Como pode privilegiar quem faz o certo e melhor?

Viva os “pernas-de-pau”!

Enquanto as vitórias chegarem, não existe povo mais patriótico. Já a primeira derrota e aquele país de “m...” será cantado aos quatro ventos, no refrão inédito do crooner, enquanto balança as nádegas no banheiro.

Se quatro anos passam rápidos, o espírito nacional anda em marcha a ré. Até os próximos noventa minutos, com chance de prorrogação.

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Nota: Texto publicado originalmente na Revista Bulunga


30 junho 2026

Como ser um idiota em três passos

 




Jorge F. Isah

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Primeiro, acredite no governo. Vote, defenda, brigue e se sujeite às maiores loucuras a fim de proteger o seu político de carteirinha. Nunca se esqueça do que ele diz: “eu cuido de você!”. Escreva em um bloquinho — caso saiba escrever — a frase da sua vida, dita pelo seu chefe: “sem mim, nada podeis fazer”. E então, se possível e a grana deixar, cole na parede do quarto um grande pôster do seu político sorrindo, acenando e demonstrando, “espontaneamente”, o quanto é confiável e quer o seu bem. Ah, ia me esquecendo: jamais conteste ou duvide das atitudes dele e, se confrontado, repita em alto e bom som: “Não permito que fale assim do meu papai ou mamãe”. Afinal, isso, a ingratidão, é coisa de filho bastardo, não é?

Segundo, acredite na mídia. Leia, ouça, não se canse de ler e ouvi-la, seja TV, rádio, YouTube, X, ou a plataforma da sua preferência. Eles são imparciais e, como os políticos, existem por você, para deixá-lo a par dos últimos benefícios do governo e fazê-lo entender que o mal é bem, e o bem mal; de que pé de galinha e salsicha são os melhores alimentos do mundo… e, pensando em seu bem-estar, abriram mão de comê-los em troca dos inapropriados e nocivos filés, lagostas e caviares. Se possível, assista a todas as edições dos telejornais e ria na cara de quem, por algum motivo, duvide da lisura e independência da emissora. Afinal, por que acreditar nos próprios olhos se existem outros mais confiáveis — mesmo escondidos entre saias e calças — onde depositar a esperança, não é?

Terceiro, acredite que não é gado e não faz parte de um rebanho. No fundo, isso é coisa de bolsominion ou lulalarápio. E se você está de um lado, o gado está do outro, e vice-versa. Chame o outro de gado enquanto muge. Chame-o de idiota enquanto é utilitário. E jamais se esqueça de que a verdade está do seu lado, a despeito de não crer em verdade absoluta. Se possível, defeque enquanto caminha atrás do líder, cuspa, vomite, e, por onde passar, deixe a sua marca: pinche paredes, faça desenhos obscenos, xingue a mãe dos outros como se não tivesse uma, ameace matar sicranos e fulanos, erga o punho alto o suficiente, berre além do suficiente, conclame outros a fazer o mesmo, e depois de muito esforço e cansaço, deite-se para ruminar.

Você é um perfeito, ou quase perfeito…
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Nota: Texto publicado originalmente no portal Bulunga



25 junho 2026

Tania e o bordel: Patty Hearst e o SLA

 




Jorge F. Isah

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Você já ouviu falar de Patricia Campbell Hearst? Não? E Tania? Sabe quem foi? Ou foram? Pois bem, vou explicar: Patty Hearst, para os íntimos, é neta do bilionário das comunicações americanas William Randolph Hearst, o mesmo retratado por Orson Wells em “Cidadão Kane”, de 1941. Se quiser saber um pouco sobre a vida e os métodos jornalísticos do vovô Will, assista à película, ganhadora do Oscar de melhor roteiro, e considerado pela crítica mundial como o melhor filme de todos os tempos — há quem duvide... muitos negam... mas a maioria das pessoas sequer sabe da existência deste e de outros excelentes filmes, especialmente quando se está enfeitiçado, ou melhor, abduzido, pelos produtos da Marvel e D.C. Comic.


Retro Review: Citizen Kane - Geeks Under Grace  Wells como Hearst


Patty, em 1974, aos 20 anos, foi sequestrada pelo grupo revolucionário/marxista americano chamado Exército Simbionês de Libertação — a nota engraçada é que se autodenominavam “libertação” mas faziam mesmo era roubar, sequestrar, assassinar e cometer outras violações da liberdade — cuja bandeira era o fim do racismo, da monogamia e do sistema penitenciário — alguma semelhança com boa parte da plataforma dos partidos brasileiros?. Como não existe coerência e lógica entre revolucionários, o primeiro assassinato foi, por incrível que pareça, de um negro. Sim, o professor Marcus Foster, o primeiro negro a ocupar o cargo de superintendente das escolas em Oakland, Califórnia, morreu a tiros em 1973.


Homem de terno e gravata

Descrição gerada automaticamente  Marcus Foster assinado pelo SLA


Durante o cativeiro, Patty simpatizou-se com seus algozes (Síndrome de Estocolmo), mudou o nome para Tania (homenagem a uma das namoradas de Che Guevara), e participou de incursões criminosas, mais notadamente o assalto ao Hiberna Bank, em São Francisco, e ao SLA de Crocker National Bank , em Carmichael, quando a cliente grávida, Myrna Opsahl, foi morta à queima-roupa por Emily Harris, enquanto fazia

Desenho de um homem

Descrição gerada automaticamente  Myrna Opsahl morta pelo SLA

 

um depósito. Segundo relatos dos próprios integrantes do SLA — o símbolo era uma cobra de 7 cabeças — Harris afirmou ter matado a mulher por ela ser burguesa, branca e apenas um efeito colateral. Por 19 meses, Hearst atuou disparando suas armas contra civis e policiais até ser presa e condenada em 1975 (em 1979, Jimmy Carter - só podia ser ele - comutou a pena e Patty ganhou liberdade).

 

Foto em preto e branco de homem com arma na mão

Descrição gerada automaticamente com confiança média  

Tania em assalto a banco


Patricia Hearst afirma, ainda hoje, ter sofrido lavagem cerebral durante o sequestro, e por isso não se considera responsável por seus atos. Parece uma boa tática... Muitos brasileiros certamente poderão aderir a esse discurso, afinal, dia e noite são bombardeados por todos os tipos de mensagens explícitas ­ — não se preocupam mais em fazê-las subliminares — a fim de fugirem da realidade e lutarem por um paraíso terreno. Enquanto cada um colabora com o seu quinhão para tornar mais satânica a terra do Dr. No... Bem, se não nasceu aqui, certamente se naturalizou e faz as suas estripulias por todo lado, de norte a sul, de leste a oeste, seja de terno, toga, farda ou camiseta regata.

Infelizmente, não existe um James Bond para combatê-los... Existir até existe, mas ele está confinado a um bordel ultrassecreto... e de lá não quer sair.        

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