01 janeiro 2026

Quarto de Despejo - Carolina Maria de Jesus

 




 

Jorge F. Isah

 

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Vamos falar um pouco sobre “Quarto de Despejo”, escrito por Carolina Maria de Jesus.  Porém, antes de começar, é importante ressaltar alguns aspectos:

Uma obra, seja ela qual for, não pode ser avaliada por emoções ou coisas alheias ao próprio ato criativo. Por exemplo, João usa apenas calças roxas e blusas laranjas com bolinhas verdes. Ele não admite vestir-se de outra forma. É visto por uma “figura”(descolado). É descolado, vibrante, alegre e todos o querem por perto. Mas João é pizzaiolo, e suas pizzas são horríveis, mesmo que ele use uniforme roxo, laranja e bolinhas verdes. Assim, ele é duplamente conhecido: por estar sempre à disposição e entremeado aos clientes com seu estilo “caloroso”, mas ninguém quer uma pizzazinha sequer. João sugere, insiste, lança um sabor novo a cada semana, mas os clientes se contentam com os pacotinhos de chips e amendoim, enquanto conversam e riem com o pizzaiolo, entre uma cerveja e outra.

Em seu “Diário de uma favelada”, Carolina não pode ter a sua qualidade literária avaliada pelo fato de morar no “morro”, tanto para o bem quanto para o mal. Esse é um elemento completamente irrelevante no exame do seu trabalho.

Também, o fato de cursar até o 2º ano do ensino fundamental não pode interferir na análise. Quanto mais o fato de ser marginalizada e gostar de coisas que o brasileiro, em geral, desgosta: ler e escrever. Existem muitos leitores, para todos os gêneros e interesses e objetivos, e neles não há unanimidade, quanto mais vocação ou aspiração para a escrita.

A condição social, financeira, educacional, ideológica e pessoal do autor não deve ser ponto destacado em qualquer obra, com o risco de prejudicar não somente o julgamento, mas também rebaixar o talento e esforço a um mero “status quo”.

O mesmo vale para o fato de ser negra, mulher, mãe solteira, recicladora e marginal, e pertencente a um grupo relegado à periferia de São Paulo.

Não estou a falar também de toda a obra de Carolina, pois li apenas o “Quarto”, e ele é o foco deste texto. E o excesso de cuidados em deixar claro o meu propósito não deveria ser necessário se os tempos, e alguns leitores, fossem mais perspicazes. 

Posto isso, o livro é um diário, no qual ela relata o dia a dia da sua vida, e de outros moradores, na favela do Canindé.

E o que dizer do livro?




A narrativa é direta, consideravelmente repetitiva, e não há esmero ou preocupação na construção das frases. Ao menos, na maioria. Óbvio que estamos a falar de uma realidade crua, muitas vezes desesperada e incerta. A precariedade dos recursos, aliada à fome, doenças, desemprego, faz a situação se agravar ainda mais. Se existe algo de virtuoso em Carolina é a sua sinceridade ao expor seus dilemas, anseios e não “baixar a cabeça” diante dos males a rodeá-la.

Bukowski, outro marginal mais talentoso, dizia que a literatura era a razão de não enlouquecer. Ocorreu o mesmo com Carolina, onde as letras, definitivamente, traziam alguma beleza, esperança e realização.

O diário, tal qual a confissão, é a forma mais profunda de encarar a si mesmo e o mundo. Certamente, por isso, os floreios e dissimulações não se enquadram no seu paiol de ideias. Ao mesmo tempo em que as reflexões são brutais, é possível a ela se agradar do nascer do sol, do céu azul, de jardins e a gentileza de uns poucos. Ela se desnuda e se expõe sem rodeios. Não resta mais nada a não ser encarar a realidade e esperar um novo (re)começo.

Enquanto catava papel, plástico, metal ou qualquer outra coisa a render uns trocados, a certeza de ser poeta e escritora não deixava dúvidas nem mesmo aos seus vizinhos e conhecidos. A maioria a tratava com despeito, aquele velho bordão: “O que isso lhe deu?”. No fundo, porém, havia mesmo era inveja. Tenaz, teve o diário recusado pela “Reader’s Digest”, mas não desistiu, e continuou a escrevê-lo, na esperança de um dia ser publicado.

É uma leitura ligeira; todas as informações estão na primeira camada. À parte da luta pela sobrevivência, dela e dos filhos (3 no total), o maior problema é Carolina sentir-se incomodada, deslocada na comunidade, à qual pertencia contra a vontade. As inúmeras queixas de vizinhos, brigas, discussões e o descaso público acentuavam ainda mais o infortúnio da autora.

Nesse ínterim, Carolina repudia com veemência as favelas e seus habitantes. Não faz como a maioria dos sociólogos, antropólogos, cientistas políticos ou palpiteiros que enfeitam a vida nos morros e tentam criar a áurea de falso glamour. Ela demonstra por “a mais b” que o ambiente é insalubre, doentio, e nada de bom, a despeito de uma ou outra benignidade, pode advir dali; a dignidade é o ressoar do abuso e indiferença. A favela é o território perfeito para os políticos não quererem erradicá-la; os dividendos para eles são inúmeros. Manter as pessoas na miséria é a melhor forma de distanciar as “pontas do poder”; por isso, imagina o dia em que terá a sua casa e abandonará para sempre a maloca.

É impossível não se comover com as situações bizarras e degradantes. Somente quem morou ou mora na periferia (a falta de educação dos brasileiros está se transformando em endemia, mesmo nos condomínios luxuosos e bairros de classe média) pode aquilatar um pouco do que ela vivenciou. Não é o melhor cenário para se desenvolver uma narrativa, mas era o que tinha.

A primeira lembrança que me veio, foi a leitura de “Vinhas da Ira”, de Steinbeck.  A linguagem crua, deformada, e a indigência dos personagens se assemelham. No americano havia a recessão, o “Crash de 29” e as lutas de classes — mesmo que a maior parte dos lavradores sequer soubesse do que se tratava — e a manipulação política. No caso da “favela do Canindé”, os políticos apareciam somente às vésperas das eleições... e a recessão é um “looping infinito”.

No final, a minha curiosidade foi satisfeita. A edição preservou praticamente todos os erros gramaticais e, novamente, como em “Vinhas da Ira”, isso me incomodou bastante; se nele foi algo planejado, composto, em “Quarto” é orgânico e inato à autora. Houve, segundo o editor, o jornalista Audálio Dantas, a preservação da escrita original, com todas as suas imperfeições linguísticas, a fim de retratar fielmente o estilo da autora. A meu ver, a deficiência não é o mesmo que estilo. Mas vá lá, em tempos onde o exotismo disso e daquilo deve se sobrepor à ordem, harmonia e correção, o vício se traveste de virtude. Depois de algumas dezenas de páginas, liguei o “dane-se” e foquei no enredo.

Há alguns dias, ouvi de um autor, queridinho da intelligentsia, que, diante de uma lista dos grandes escritores do século XX, apontou Carolina como a maior. Ela bateu João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, entre outros. Sem precisar propor qualquer argumento ou discussão. Era ela e pronto!

Mesmo reconhecendo a persistência, obstinação e o vislumbre incessante do sonho; mesmo reconhecendo a denúncia social e política, não há como reputar, do ponto de vista estético, estilístico e formal, o “Quarto”  como obra de arte. Por muito menos, e bota menos nisso, Dostoiévski foi acusado de ser um escritor ruim e desleixado. Imagine, por exemplo, Nabokov e Hemingway — que culparam  o russo de escrever mal — lendo Carolina.

Em “Quarto de Despejo”, a prosa é assimétrica. E certamente não terá lugar em nenhum salão de festas, nem mesmo naquele dormitório no porão. Ficam, contudo, os milagres operados pela literatura. Os mesmos capazes de salvar Buck, Carolina, eu ou você.


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Título: Quarto de Despejo

Autora: Carolina Maria de Jesus

Editora: Ática

174 Páginas 

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