Jorge F. Isah
Vamos falar um pouco sobre “Quarto de Despejo”,
escrito por Carolina Maria de Jesus.
Porém, antes de começar, é importante ressaltar alguns aspectos:
Uma obra, seja ela qual for, não pode ser avaliada
por emoções ou coisas alheias ao próprio ato criativo. Por exemplo, João usa
apenas calças roxas e blusas laranjas com bolinhas verdes. Ele não admite
vestir-se de outra forma. É visto por uma “figura”(descolado). É descolado,
vibrante, alegre e todos o querem por perto. Mas João é pizzaiolo, e suas
pizzas são horríveis, mesmo que ele use uniforme roxo, laranja e bolinhas
verdes. Assim, ele é duplamente conhecido: por estar sempre à disposição e
entremeado aos clientes com seu estilo “caloroso”, mas ninguém quer uma
pizzazinha sequer. João sugere, insiste, lança um sabor novo a cada semana, mas
os clientes se contentam com os pacotinhos de chips e amendoim, enquanto
conversam e riem com o pizzaiolo, entre uma cerveja e outra.
Em seu “Diário de uma favelada”, Carolina não
pode ter a sua qualidade literária avaliada pelo fato de morar no “morro”,
tanto para o bem quanto para o mal. Esse é um elemento completamente
irrelevante no exame do seu trabalho.
Também, o fato de cursar até o 2º ano do ensino
fundamental não pode interferir na análise. Quanto mais o fato de ser
marginalizada e gostar de coisas que o brasileiro, em geral, desgosta: ler e
escrever. Existem muitos leitores, para todos os gêneros e interesses e
objetivos, e neles não há unanimidade, quanto mais vocação ou aspiração para a
escrita.
A condição social, financeira, educacional,
ideológica e pessoal do autor não deve ser ponto destacado em qualquer obra,
com o risco de prejudicar não somente o julgamento, mas também rebaixar o
talento e esforço a um mero “status quo”.
O mesmo vale para o fato de ser negra, mulher, mãe
solteira, recicladora e marginal, e pertencente a um grupo relegado à periferia
de São Paulo.
Não estou a falar também de toda a obra de Carolina,
pois li apenas o “Quarto”, e ele é o foco deste texto. E o excesso de cuidados
em deixar claro o meu propósito não deveria ser necessário se os tempos, e
alguns leitores, fossem mais perspicazes.
Posto isso, o livro é um diário, no qual ela relata
o dia a dia da sua vida, e de outros moradores, na favela do Canindé.
E o que dizer do livro?
A narrativa é direta, consideravelmente repetitiva,
e não há esmero ou preocupação na construção das frases. Ao menos, na maioria.
Óbvio que estamos a falar de uma realidade crua, muitas vezes desesperada e
incerta. A precariedade dos recursos, aliada à fome, doenças, desemprego, faz a
situação se agravar ainda mais. Se existe algo de virtuoso em Carolina é a sua
sinceridade ao expor seus dilemas, anseios e não “baixar a cabeça” diante dos
males a rodeá-la.
Bukowski, outro marginal mais talentoso, dizia que a
literatura era a razão de não enlouquecer. Ocorreu o mesmo com Carolina, onde
as letras, definitivamente, traziam alguma beleza, esperança e realização.
O diário, tal qual a confissão, é a forma mais
profunda de encarar a si mesmo e o mundo. Certamente, por isso, os floreios e
dissimulações não se enquadram no seu paiol de ideias. Ao mesmo tempo em que as
reflexões são brutais, é possível a ela se agradar do nascer do sol, do céu
azul, de jardins e a gentileza de uns poucos. Ela se desnuda e se expõe sem
rodeios. Não resta mais nada a não ser encarar a realidade e esperar um novo (re)começo.
Enquanto catava papel, plástico, metal ou qualquer
outra coisa a render uns trocados, a certeza de ser poeta e escritora não
deixava dúvidas nem mesmo aos seus vizinhos e conhecidos. A maioria a tratava
com despeito, aquele velho bordão: “O que isso lhe deu?”. No fundo, porém, havia
mesmo era inveja. Tenaz, teve o diário recusado pela “Reader’s Digest”, mas não
desistiu, e continuou a escrevê-lo, na esperança de um dia ser publicado.
É uma leitura ligeira; todas as informações estão na
primeira camada. À parte da luta pela sobrevivência, dela e dos filhos (3 no
total), o maior problema é Carolina sentir-se incomodada, deslocada na
comunidade, à qual pertencia contra a vontade. As inúmeras queixas de vizinhos,
brigas, discussões e o descaso público acentuavam ainda mais o infortúnio da
autora.
Nesse ínterim, Carolina repudia com veemência as
favelas e seus habitantes. Não faz como a maioria dos sociólogos, antropólogos,
cientistas políticos ou palpiteiros que enfeitam a vida nos morros e tentam
criar a áurea de falso glamour. Ela demonstra por “a mais b” que o ambiente é
insalubre, doentio, e nada de bom, a despeito de uma ou outra benignidade, pode
advir dali; a dignidade é o ressoar do abuso e indiferença. A favela é o
território perfeito para os políticos não quererem erradicá-la; os dividendos
para eles são inúmeros. Manter as pessoas na miséria é a melhor forma de
distanciar as “pontas do poder”; por isso, imagina o dia em que terá a sua casa
e abandonará para sempre a maloca.
É impossível não se comover com as situações
bizarras e degradantes. Somente quem morou ou mora na periferia (a falta de
educação dos brasileiros está se transformando em endemia, mesmo nos
condomínios luxuosos e bairros de classe média) pode aquilatar um pouco do que
ela vivenciou. Não é o melhor cenário para se desenvolver uma narrativa, mas
era o que tinha.
A primeira lembrança que me veio, foi a leitura de
“Vinhas da Ira”, de Steinbeck. A
linguagem crua, deformada, e a indigência dos personagens se assemelham. No
americano havia a recessão, o “Crash de 29” e as lutas de classes — mesmo que a
maior parte dos lavradores sequer soubesse do que se tratava — e a manipulação
política. No caso da “favela do Canindé”, os políticos apareciam somente às
vésperas das eleições... e a recessão é um “looping infinito”.
No final, a minha curiosidade foi satisfeita. A
edição preservou praticamente todos os erros gramaticais e, novamente, como em “Vinhas
da Ira”, isso me incomodou bastante; se nele foi algo planejado, composto, em “Quarto”
é orgânico e inato à autora. Houve, segundo o editor, o jornalista Audálio
Dantas, a preservação da escrita original, com todas as suas imperfeições
linguísticas, a fim de retratar fielmente o estilo da autora. A meu ver, a
deficiência não é o mesmo que estilo. Mas vá lá, em tempos onde o exotismo
disso e daquilo deve se sobrepor à ordem, harmonia e correção, o vício se
traveste de virtude. Depois de algumas dezenas de páginas, liguei o “dane-se” e
foquei no enredo.
Há alguns dias, ouvi de um autor, queridinho da
intelligentsia, que, diante de uma lista dos grandes escritores do século XX,
apontou Carolina como a maior. Ela bateu João Cabral de Melo Neto, Ariano
Suassuna, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, entre outros. Sem precisar propor
qualquer argumento ou discussão. Era ela e pronto!
Mesmo reconhecendo a persistência, obstinação e o
vislumbre incessante do sonho; mesmo reconhecendo a denúncia social e política,
não há como reputar, do ponto de vista estético, estilístico e formal, o “Quarto” como obra de arte. Por muito menos, e bota
menos nisso, Dostoiévski foi acusado de ser um escritor ruim e desleixado.
Imagine, por exemplo, Nabokov e Hemingway — que culparam o russo de escrever mal — lendo Carolina.
Em “Quarto de Despejo”, a prosa é assimétrica. E
certamente não terá lugar em nenhum salão de festas, nem mesmo naquele
dormitório no porão. Ficam, contudo, os milagres operados pela literatura. Os
mesmos capazes de salvar Buck, Carolina, eu ou você.
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Título: Quarto de Despejo
Autora: Carolina Maria de Jesus
Editora: Ática
174 Páginas
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