21 janeiro 2026

Cada macaco no seu galho

 





  Jorge F. Isah

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Ao assistir erraticamente a um programa na TV, deparei-me com uma ambientalista a defender ferrenhamente o fim dos testes e experimentos de vacinas, medicamentos e cosméticos em animais. Para ela, os pobres e indefesos bichinhos não podem pagar a conta pela solução dos nossos problemas. Chegou mesmo a dizer que a culpa dessa situação estava no patriarcado, capitalismo e no machismo estruturais — não nessa ordem — e as leis e a ética científica tinham de ser urgentemente revisionadas, seja lá o que isso signifique, do ponto de vista prático.

A conversa se seguiu por uns 40 minutos, sem que qualquer uma das participantes, três além da entrevistada, fizesse um único questionamento acerca da sua proposta. Lá estavam elas, aplaudindo, tecendo loas, inflando o ego umas das outras e, em especial, da “verdinha”. Uma delas chegou às lágrimas quando, no discurso final, a defensora dos bichinhos partiu para o ataque e afirmou a “necessidade de proibir essa injustiça e instituir a pena de morte aos infratores”. E ia mais além: “Os carnívoros, irracionais e bestiais em suas exigências alimentares, deveriam pagar mais impostos, multas e sofrer sanções como a perda de aposentadoria e outros benefícios sociais, caso insistam na prática nefasta e fascistóide de torturar, matar e consumir um inocente”.

Lá pelas tantas, quando estava prestes a desligar a TV e jogá-la no meio da rua, durante o seu discurso (sim, aquilo se tornou palanque), ela me saiu com a ideia brilhante de os experimentos necessários a garantir a eficiência de vacinas e cosméticos serem testados em humanos. Cocei a cabeça: “Quem, em sã consciência, se arriscaria a tomar um remédio experimental com o risco de ficar parecido com um crocodilo, um macaco-narigudo ou um aye-aye?”. E completou: “A humanidade que resolva os seus próprios imbróglios!”.

Mas, estaria ela disposta a se candidatar a cobaia de laboratório? Ou deixar filhos e parentes serem inoculados por elementos não testados minimamente? Ou estes riscos cairiam no colo dos miseráveis, seja por dinheiro, por imposição estatal ou até mesmo sem a devida consciência? E participar do teste de um novo suco de laranja, quando se é preá de urânio, rádio ou césio?

Essas mentes superdotadas, via de regra, defendem mudanças profundas com a segurança de quem jamais será convocado para pagar a conta — nem no cartão de crédito, nem em transfusões, nem em efeitos colaterais — sentados em seus sofás e sob a supervisão constante do ar-condicionado e controle remoto. Vivem a alardear ideias — desde as mais ocas até as ainda mais ocas que as ocas — sem serem questionados, desobrigados do ônus de provar seus salamaleques, desde que haja “voluntários” suficientes para realizar a operação. E, sejamos sinceros, no mundo com mais de 7 bilhões de “sofistas de algibeira” não será difícil encontrar candidatos às baciadas.

Então, da próxima vez que você se colocar nas fileiras de defesa dos saguis e ornitorrincos ou outro bicho qualquer, em detrimento da sua própria espécie, tenha certeza de que foi cooptado instintivamente ao corporativismo “Callithrix”, p.ex.

E trate logo de pular de galho em galho, na árvore mais próxima, pois é bem provável que uma fila de candidatos esteja pronta a tomar o seu lugar.

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Nota: Texto publicado originalmente na Revista Bulunga, e posteriormente adaptado para esta edição. 



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