12 fevereiro 2026

Dom Quixote de la Mancha - Miguel de Cervantes: do cavaleiro de ideais aos delírios contemporâneos

 





 

Jorge F. Isah

 

      Havia algum tempo que precisava — e queria — reler Dom Quixote. A primeira investida se deu na adolescência, em uma condensação (algo comum, àquela época, para os ginasianos e, com o tempo, acabou por se tornar “referência” a muitos adultos indolentes, ao menos em relação aos clássicos), e, se não me falha a memória, realizada por Monteiro Lobato ou Carlos Drummond, ou qualquer outro grande literato.

Entre os dez e quinze anos, investi nos grandes volumes em versões resumidas. À época, foi a maneira das editoras estimularem, tal qual um aperitivo, as leituras densas e volumosas a fim de aguçar os novatos, vender e usá-las como chamariz para se chegar, em breve, aos originais. Não sei se funcionou com a maioria, penso que não. Comigo, muitos me chamaram a atenção e o desejo de tê-los na íntegra, outros, nem tanto.

      Lá pelos vinte anos, li Dom Quixote, mas não gostei. Na verdade, gostei, mas não foi apaixonante. Percebi o humor, a ironia de Cervantes e a crítica aos romances de cavalaria, mas não achei nada demais. Estava às voltas com existencialistas, e qualquer coisa que não fosse o sofrimento dos personagens, suas angústias, dúvidas e o sem sentido da vida, além da linguagem mais direta e menos caudalosa, não me seduziam.

      Isso me leva a refletir sobre a crítica à literatura fantasiosa e, por que não, fútil: nitidamente, Dom Quixote é um farsante não intencional, desapegado em obter lucros e dividendos para si. Mas, contaminado pela leitura compulsiva dos romances de cavaleiros, princesas e batalhas, tentou reconstruir, em suas andanças e aventuras, os mesmos padrões da ficção. Cervantes entende essa literatura como algo danosa, e, na boca de vários personagens, critica abertamente o gênero.

Porém, Quixote é um idealista, sonhador, homem de honra, intrépido e destemido, disposto a se sacrificar por qualquer um que esteja em perigo, não segundo a realidade, mas segundo as suas concepções de realidade. Não é difícil a comparação com o Cristo — e toda analogia tem suas fraquezas —, quando a mente de Cervantes materializa no seu protagonista algumas características do homem perfeito, especialmente na capacidade de sofrer abnegadamente, sem se ater aos seus desejos, em primeira instância, mas vislumbrando o próximo e seus dramas. Em algum sentido, Quixote é o mártir que vê o próprio sacrifício com esperança, de ser capaz de mudar vidas, corrigir desastres, empreender justiça e redimir condenados diante de um mundo cínico e em desordem. Era a visão de Unamuno, da qual compartilho.      

      Ele é, ao mesmo tempo, herói e anti-herói, lúcido e louco, fiel mas desajeitado, realista e visionário, homem do presente que escreve o futuro preso ao passado. É uma figura fantasticamente construída com tudo o que de bom e ruim a humanidade possui.

      Se Cervantes critica os folhetins romanescos de cavalaria, por outro lado também tece advertências quanto à falta de imagética, especialmente dos racionalistas, impedindo que emoções, outros conceitos e estruturas sejam transmitidos. Se Quixote está errado em seus delírios e arroubos, os racionalistas também estão em suas cadeias e caixas aparentemente lógicas e factuais. Este é um ponto.

      O segundo, se ao mesmo tempo em que o autor denuncia a obsessão pela literatura cavaleiresca (seria o equivalente ao “bestseller” atual), onde a padronização e a massiva exposição pública simplesmente impedia o surgimento de, digamos, a boa literatura. Entre batalhas memoráveis, dragões, monstros, exércitos sanguinários, mocinhos, donzelas e vilões poderosos, o cavaleiro andante, muitas vezes solitário, era a força a impedir a proliferação do mal. De certa forma, esse gênero afastava os letrados da época (algo em torno de 10% da população) e os mantinham alheios ao real conhecimento. O que dizer em pleno século XXI? Onde a literatura, e até mesmo a capacidade de ler e entender, tem se tornado desnecessária na visão de muitos?

      Terceiro, se havia fadas, bruxas, duendes, capirotos, gigantes e fantasmas no século XVI, e, por isso, era um tipo de subliteratura, não estariam vários títulos da atualidade enquadrados nesse escopo? Cinco, seis séculos depois? Onde a pretensa racionalidade é cada vez mais substituída pela irracionalidade, por narrativas e achismos que vão dos maiores exageros até os mais frívolos?

      Quarto, por que os leitores, ou cinéfilos, gibimaníacos, noveleiros, voyeurs digitais, condenam tão veementemente religiosos e não as suas preferências? Se ao ver deles, os religiosos se apegam às “fantasias” e prestam um desserviço ao mundo, que raios de bem eles trazem com suas mágicas e poderes sobrenaturais? Ou apenas ao homem é permitido tê-los, mesmo imageticamente, e Deus (ou deuses) não? Por que a religião não pode difundir seus valores enquanto as várias formas artísticas podem, sem restrições? O que dizer de alguém com quarenta ou mais anos chorar a morte do Homem de Ferro, abraçado à miniatura da Mulher Maravilha?

      É fácil ver palpiteiros tecerem críticas e exigirem o cerceamento de cristãos, por exemplo, alegando os danos que o “ópio do povo” pode trazer às massas. Mas eles e seus seguidores se esbaldam em cores, barulhos, efeitos e o culto a personagens e heróis de mentirinha, enquanto enfrentam longas filas para o novo filme da Marvel ou o “dízimo” da Netflix. Chega a ser constrangedor, no mínimo; pois é, na verdade, a transposição do mundo quixotesco para o atual, onde os dois problemas se misturam simultaneamente: pessoas que se dizem racionais, mas utilizam o mesmo escapismo dos leitores medievais, e substituem a cosmologia transcendente por mitologias seculares — e se consideram superiores e mais dignos do que religiosos. Se Cervantes vivesse hoje, constataria que pouca coisa mudou.

      No Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura e seu fiel escudeiro, Sancho Pança, a imaginação e realidade nos faz rir, chorar, sonhar e encher-nos de brio, honra, coragem e amor desinteressado. Não vou me ater a detalhes da obra, pois talvez o faça na releitura do livro II... talvez. O importante é falar que Miguel de Cervantes Saavedra construiu um dos personagens mais emblemáticos e influentes da literatura mundial. Não sem razão, é apontado como o maior romance de todos os tempos. Adorado por Faulkner, que o relia ano a ano, e por tantos outros que escreveram sobre ele: Dostoiévski, C. S. Lewis,  Nabokov, Borges, Turgueniev, entre outros.

      Deixo a empreitada, portanto, para os gigantes de verdade — a de analisá-lo com a profundidade merecida. De minha parte, identifico-me demais com Sancho, capaz de ver o seu mestre como ele era, com seus defeitos, teimosia e delírios, mas também de admirá-lo para além do que os seus olhos viam.


_______________________________

Nota: 1- Ah, mesmo a tradução do Visconde de Castilho, de 1876, é saborosa e nada difícil de ler. Claro que existem expressões e termos não usuais hoje em dia, mas nada que dificulte o entendimento da obra. No momento, estou lendo a tradução do Ernani Ssó, pela Editora Penguin. Tenho as traduções do Milton Amado, do Aquilino Ribeiro e uma edição “fac-símile”, provavelmente de Francisco Gouveia de Morais, já que não encontrei referências. Falta-me a do Sérgio Molina, pela Editora 34. Portanto, procure qualquer uma e não faça outra coisa antes de lê-la.

2- Este ensaio refere-se ao Vol. 1, de Dom Quixote, perfazendo o total de 545 páginas. O Vol. 2, logo que o termine, valerá outra análise por aqui. 

      



Nenhum comentário:

Postar um comentário