13 janeiro 2026

Que venha a tempestade - Paul Bowles

 





Jorge F. Isah

 

     

Li o primeiro romance de Bowles, até então o único, há um punhado de anos. Não me lembro ao certo, mas foi por volta de 1990: “O Céu que nos espera”, publicado pela editora Rocco. Tenho a segunda edição, que conservo, sem a ter tocado a não ser para trocar de lugar e tirar-lhe o pó.

Nunca ouvira falar de Paul Bowles até ver o filme de Bertolucci, com John Malkovich e Debra Winger, de 1990. Na ficha técnica estava lá: baseado no romance de Paul Bowles. Então, fui à caça para ver se encontrava o livro, já que adorei o filme. Achei-o na Livraria Acaiaca, em BH. Infelizmente, o tempo acaba por apagar as coisas menos significativas e, além do conturbado relacionamento do casal de protagonistas, das belas imagens do deserto e um clima claustrofóbico, pouca coisa me restou, tanto do livro como do filme.

      Recentemente, em um bazar de igreja, onde havia dezenas de livros que ninguém se interessava em ver, encontrei um exemplar de “Que venha a tempestade”. No geral, o estado dele era bom, mas como eu poderia escolher qualquer item por uma ninharia, algo em torno de R$ 2,00 cada (havia baixado de 10 para 5, depois para 4 e, por fim, 2). Ao final do bazar estavam doando para quem quisesse levar, já que ocupavam espaço e ninguém, além de mim e um dono de banca de revistas próximo, se interessava.

Em idas e vindas, consegui alguns exemplares, inclusive dois itens relativamente raros e que iriam parar no lixo ou seriam vendidos no quilo. Esse é o motivo de eu não acreditar que este país tenha jeito. As pessoas saem feito loucas atrás de um jeans ou moletom usados, enquanto os livros são empilhados como se fossem entulhos, sem qualquer cuidado. Vi exemplares com mofo, úmidos, rasgados, capas soltas, tudo porque o pessoal simplesmente os jogaram num canto, sem lhes dar qualquer atenção, enquanto alisavam roupas e lustravam bijuterias.

      Bem, voltemos ao objeto deste texto. Logo no início, aquele ar de vazio, de niilismo a perpassar a narrativa, me incomodou. Não quanto à história, à futilidade dos personagens, mas, se em 1949 (data da publicação), o mundo já se encontrava contaminado com o sem-sentido, a descrença e o relativismo, onde valores tradicionais e a verdade eram sistematicamente desprezados, negando o absoluto, moral e ética, o que dirá hoje, neste contexto esfacelado?

Veja o trecho:

Havia anos que ele seguia sem ser notado, sem notar a si mesmo, acompanhando os dias mecanicamente, exagerando no cansaço e no tédio do dia para que lhe desse sono à noite, e usando o sono para fornecer energia para encarar o dia seguinte. Não era costume se dar ao trabalho de dizer a si mesmo: ‘Não há nada além disso; o que faz valer a pena continuar?’, porque sentia que não tinha como responder à pergunta. Mas no momento parecia-lhe que havia encontrado uma resposta simples: a satisfação de ser capaz de viver o dia.”(pg. 180)

      O fragmento simboliza bem todo o argumento do livro: mecanicismo, automatismo e nenhuma transcendência ou metafísica. O homem está “preso” no próprio destino — cabe a ele apenas resistir e viver um dia de cada vez. Em princípio, a resistência e o viver dia a dia não têm nada de errado — em alguns aspectos pode ser saudável não se preocupar em demasia com o futuro e não se entregar à procrastinação e o desânimo. Porém, a ideia aqui é: “faça o que fizer, pense o que pensar, aja como agir, nada disso tem significado e a sua vida nenhum propósito”. Ainda que o autor esteja em busca de uma resposta, e falha em encontrá-la (porque não está onde procura), ao não ver solução, entrega-se à lógica do vazio. Por trás da aparência de reflexão profunda está um reducionismo e superficialismo constrangedores.

      Logo, o niilismo de Bowles o leva ao fatalismo e vice-versa, pois onde não há sentido, quando o tem, torna-se irrelevante; e onde não existe valor e apenas vazio, o conformismo e o “dane-se!” não permitem mudanças, ou quando acontecem são meros impulsos, fruto da irracionalidade.

Dostoiévski sabia muito bem sobre os danos e o legado que o niilismo deixaria na Rússia. Em “O Idiota” e “Os Demônios”, ele os combate com a sabedoria e o olhar “profético” sobre a construção de um mundo em ruínas — pois a negação da ordem moral e espiritual somente levaria o homem ao primitivismo bárbaro e cruel. O niilismo é, sem sombra de dúvidas, o terreno filosófico propício para toda a derrocada ocidental, do multiculturalismo ao pós-modernismo, do relativismo às ideologias estatizantes. Neste aspecto, tudo se traveste de condicional, enquanto os “dogmas” são absolutos e efetivos. Por exemplo, a liberdade deixou de ser um conceito absoluto para se tornar em “liberdade relativa”. Assim é a moral, a ética, o conhecimento, etc. Por isso, tudo virou “narrativa”, seja de esquerda ou direita, sem qualquer objetividade, permeada unicamente por delírios coletivos e insanidade individual.

      Dizer que Dyar, o protagonista de “Que venha a tempestade” (no original “Let it come down”, trecho de Macbeth, de Shakespeare, dito pelos algozes de Banquo), é um homem vazio, mediano, que chegou a Tânger e empreendeu uma queda brusca na direção da imoralidade, antiética e se tornou incapaz de conviver com os efeitos das suas escolhas —  esse poderia ser o resumo. Entretanto, a cada passo em direção ao abismo, e convivendo com pessoas artificiais e fúteis, a paranoia, o delírio e a irrealidade o levam a resultados ainda mais catastróficos.

      Na busca de alívio ou “sentido”, embriaga-se, começa a usar o Kif (mistura de tabaco com maconha e haxixe, muito comum na cultura marroquina e no norte da África), e cada vez mais se vê aprisionado na teia a afastá-lo do real e levá-lo ao êxtase sistêmico, onde a euforia, o artificialismo se moldam ao ponto da histeria.

      O livro tem várias outras camadas e discussões, como a aversão completa dos muçulmanos aos cristãos, os conflitos culturais, ocultismo, e, no terço último, uma narrativa lisérgica, com um final tenso, perturbador e claustrofóbico.

      “Que venha a tempestade” é a derrocada do homem moderno, a descida ao abismo sem fim; e de nada adianta o sol brilhar no céu azul... os olhos não podem ver e, na verdade, não querem ver, habituados à escuridão.

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Título: Que venha a tempestade

Autor: Paul Bowles

Editora: Alfaguara

Páginas: 305





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