Jorge F. Isah
Um caso inusitado aconteceu, há uns dias, em Inacionópolis, no interior do Ceará. Cidadezinha de pouco mais de 3.000 habitantes, segundo os dados do IBGE. Na realidade, não passava de 229.
Apenas duas ruas asfaltadas ligavam os pontos extremos do município, fundado em 1988, a primeira cidade planejada do estado. Projetada para 12.968 pessoas, encontrava-se em franca decadência, pois a migração para a capital, e outros grandes centros, era a única esperança do agreste. Ali, salvo raríssimas exceções, não havia futuro para ninguém, especialmente os jovens. Seria uma cidade -fantasma, tão logo o último dos velhos chegasse a óbito.
Tentou-se várias formas de impulsionar o turismo, o comércio e a indústria, com maciço investimento federal, mas ao cabo de quase duas décadas, somente as famigeradas ruas, já citadas, ganharam asfalto. Outras vinte e cinco permaneciam de terra batida ou nem tanto; eram descampados onde a poeira dominava. Não se implantou um mercado distrital, fábrica, plantação ou outra fonte de expandir o lugarejo. Nem mesmo a famigerada água, a ser obtida pela perfuração de diversos poços artesianos, alcançou logro. À boca miúda, era outro ardil para desviar recursos públicos e enriquecer uns poucos.
Entretanto, quando menos se esperava, surgiu algo a deixar todos otimistas. Não foi a aparição do Chapolin Colorado, uma grande tempestade a inundar os açudes ressequidos, a descoberta de jazidas de nióbio ou petróleo... Não, nada disso. No sorteio da loteria, o primeiro prêmio saiu para um bilhete da cidade. Logo se divulgou que ele, provavelmente nativo, encarregaria de investir a fortuna na região: criar empregos, furar os poços, asfaltar as ruas e dinamizar a economia mambembe de Inacionópolis. Os botecos se encheram, foguetes foram soltos, buzinas de bicicletas, urros de alegria e latidos ensandecidos dos cães invadiram a cidade de eufóricas perspectivas. O filho amado traria novamente a glória que nunca tivera, e o sucesso prometido e jamais cumprido.
Entretanto, ninguém sabia quem era o sortudo e felizardo. Por mais que as pessoas abandonassem seus afazeres à caça de alguma evidência ou indício, ninguém descobriu a identidade do felizardo. Especulou-se, inferiu-se, idealizou-se esse ou aquele mais cotado nas pesquisas de opinião, mas o segredo conservou-se inabalável.
Dias depois, na capital, na entrega do cheque simbólico, o ganhador, para a surpresa geral, fantasiou-se de “Mumm-ra” , o vilão do desenho animado “Thundercats”, frustrando todas as expectativas de Inacionópolis, ávidos diante das tv’s e rádios, em ver e ouvir finalmente o sigilo quebrado.
- Qual a razão da fantasia? – Perguntou o mestre de cerimônias.
- Para os meus parentes não me descobrirem! – Pronunciou-se sem constrangimento, perante espectadores atônitos.
Havia motivos para se resguardar. O país era próspero em roubos, assaltos, sequestros e golpes dos mais variados; mas, proteger-se dos familiares?... Pareceu exagero, aos olhos alheios, especialmente porque, em Inacionópolis qualquer um poderia pertencer ao círculo familiar do pé-quente.
A indignação foi pública e ostensiva. Não havia outro assunto: quem era ele? E por que o anonimato? Onde estava a gratidão e retribuição à família? Já que todos em Inacionópolis eram uma grande e unida família?
Os dias se passaram. As semanas se passaram. Sem mudanças. Sem investimentos. Sem veredito, e a lista crescente de suspeitos. Qualquer iniciativa, ação, reação, mudança, mesmo as mais espontâneas e estúpidas, algo a indicar a progenitura do milionário, era vista com presunção, e o infeliz era primeiro sabatinado, caso resistisse, xingado, às vezes capturado e surrado. Alguns chegaram a morrer em decorrência dos ataques, sem acusação ou indício de culpados.
Ninguém estava imune às investidas raivosas das ruas e interiores.
Alguém, contudo, elaborara um plano infalível; por que não pensou nisso antes? Era muito simples: bastaria saber quem estava ausente da cidade no momento da entrega do prêmio. Através da empresa de viação, seria facilmente possível identificar o mal-agradecido. Dito e feito.
Ao se deparar com o nome do ganhador, todos se assustaram: ele, nem mesmo diante da morte, depois de ser sovado violentamente, declinou a façanha. No momento final, até mesmo alguns da parentela, suspeitando das suas últimas atitudes, surpreendeu-se quando disse as palavras derradeiras:
- Perdeu, manés!
No testamento, deixou a fortuna para a Ong “Flato”, empenhada em substituir pápeis higiênicos por lenços umedecidos em comércios e residências.
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Publicado originalmente na Revista Bulunga
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