Jorge
F. Isah
Recentemente, travei contato com a obra de
McCullers, por intermédio de outros autores do sul americano, como Faulkner e
Flannery O’Connor, e a minha primeira incursão foi no seu romance de 1941,
“Reflexos num olho dourado”.
É um livro pequeno, pouco mais de 140
páginas, mas de densidade claustrofóbica e com tantas nuances — tantas quanto
se possa achar. Boa parte da crítica o coloca como um livro “queer”, num
reducionismo irritante, pois, apesar de tocar no aspecto homossexual do
protagonista, não é nem de longe o foco da narrativa.
Gastei uns três dias, mas desde o início,
ainda na primeira página, percebi que não o podia tratar ligeira e
superficialmente. Havia muito a desenterrar em seus escombros. Ainda assim,
mesmo depois de concluído, decidi esperar um pouco para maturar as impressões e
esquadrinhar as que houvessem me escapado. Via de regra, não sou apressado em
fazer resenhas, mas, neste caso, a prudência era ainda mais necessária.
Antes de continuar, existe um filme
dirigido por John Huston e estrelado por Marlon Brando e Elizabeth Taylor,
baseado na obra. Tentei encontrá-lo em vários streamings, sem sucesso. Uma
pena, pois a ideia do trio trabalhar o texto de McCullers seria, no mínimo,
instigante.
À primeira vista, como já disse, parece
tratar de um triângulo amoroso onde o adultério e a homossexualidade, aliados à
hipocrisia e opressão social, parecem o âmago do tema. Mas não.
Há um gay não assumido, Capitão Penderton — casado
com a femme fatale, Leonora, amante do Major Langdon, vizinho e superior
do marido na base militar no sul dos EUA —,cujo segredo é protegido sob sua
autoridade oficial. O mesmo não se dá com a relação adúltera entre Langdon e
Leonora, a ponto de todo o “Campo” (não há nominação da base militar) sabê-la.
Leonora, especificamente, parece pouco interessada
em esconder a traição, e o seu descuido reforça a suspeita e confere ao rumor
um tom de tácita autenticidade. Logo, ela não se interessa pelos sentimentos
dos outros e quer, acima de tudo, provocar tensão e fazer as pessoas orbitarem
nela — o único apego real e sincero, se
é possível chegar a tanto, se dá em sua relação com o cavalo Firebird,
um puro-sangue sob a responsabilidade de um soldado, cuja participação será
tratada mais à frente.
Então, não se trata apenas de chocar a
sociedade ou discutir questões meramente
sexuais; sequer levantar alguma bandeira, seja ela qual for. Na história da
literatura, e muito antes de Carson, houve autores mais incisivos e explícitos
quanto ao assunto.
O “Campo” é um claustro, onde os desejos
se tornam obsessões, e as relações são levianas, superficiais e marcadas por
forte tensão, por conflitos violentos, apesar da “normalidade”. É nítido o
quanto os personagens sofrem, uma aflição nada intermitente, onde a superfície
camufla quase ineficientemente a angústia de suas almas. McCullers não parece
disposta a permitir um único minuto de paz e, certamente, nenhum deles sabe o
seu real significado — não há como procurar o que não se conhece e alcançar o
que não se vê.
Existe um código desonroso entre o núcleo principal,
que se relaciona em aparente amizade, com jantares, festas, recepções, de uma
gentileza forçosa e artificial, onde conversas e atitudes não refletem a raiva,
a indiferença e o desprezo que se tem um pelo outro. Poder-se-ia chamar essas
relações de parasitismo assimétrico, que definiria o quão prejudicial e danoso
podem ser certas “colaborações” entre os homens.
No grupo secundário, temos a esposa do
Major Langdon, Allison e o seu ajudante filipino, Anacleto; e ainda o soldado
misterioso e circunspecto, Williams, o cavalariço. Neste grupo, apesar de serem
igualmente disfuncionais, ao menos sabem o seu papel no mundo e na vida alheia,
ao contrário da outra tríade.
Penderton é um homem austero, ambicioso e
covarde, que mantém um casamento de fachada e despreza intensamente a sua
esposa. Leonora é uma mulher superficial, fútil e sedutora em sua beleza
crepuscular. Langdon é o seu amante, um homem ao estilo macho-alfa. Não existem
santos, muito menos inocentes. Todos são culpados por suas fraquezas e, em
algum nível, pela debilidade alheia.
Alguns apontam a isenção da autora em
evitar qualquer tipo de censura aos seus personagens, mas a maneira como ela os
descreve, seus rompantes e instintos, rebate fortemente essa premissa. A
incapacidade de comunicação, afetividade e compreensão, fruto da imoralidade
sem freios, os leva ao caos relacional — no fundo, tudo se resume ao poder
fragmentário e minguado.
Williams é um voyeur atormentado por
Leonora. Ele se entrega à compulsão de vigiá-la à noite e fazer incursões até o
quarto enquanto ela dorme. Ele é um adulto que se infantiliza diante da figura,
de uma imagem idealizada de Leonora, poderosa, magnética. Por falar nisso —
talvez, no futuro, escreva algo mais abrangente —, na maioria dos casos a
compulsão e os delírios sexuais, independente da monta, deficiências e
justificativas, originam-se na infantilização do indivíduo, a culminar na
infantilização do seu objeto de prazer, seja uma pessoa, animal ou qualquer
outra coisa a movê-los numa espécie de regressão psicocomportamental. Tal qual
a comilança, que parte do princípio da necessidade alimentar e descamba para a
glutonaria, o exagero e a submissão ao desejo. O descontrole sempre — ou quase,
vá lá! — terá por axioma o imoral e o antiético. Aqui, Carson parece entender
completamente isso: adultos que se portam como adolescentes ou púberes.
Penderton é atormentado pelo corpo nu do
soldado Williams e, como ele, é também um perseguidor. Procura os momentos para
aproximar-se, mas é incapaz de revelar a sua atração. E isso o torna instável e
vacilante.
Langdon passeia pela amante como um
carteiro pela rua. Nada além do seu apetite sexual a guiá-lo.
Leonora, como disse, esconde-se em sua
beleza; mas já a vislumbra perdida, em breve.
Allison é a esposa traída, que sabe da
amante do marido, mas sucumbe ao silêncio e no desejo irrealizável do divórcio.
Anacleto é o único amigo sincero, leal,
protetor. Filipino e afeminado, é para Allison o que o marido não consegue ser,
e, de uma maneira engraçada, serve de consciência para Langdon, na tentativa de
mostrar os seus equívocos e chamá-lo à realidade. Porém, o major o vê apenas um
“macaquinho” zombeteiro e provocador, uma figura exótica, a qual conserva
exclusivamente para “encobrir” suas negligências quanto a Allison, e ao servir
de única companhia.
Em última análise, o desfecho final não é
meramente acidente, como muitos presumem. McCullers, ainda que não cite uma
única vez algo transcendente, não absolve os seus personagens. Cada um, à sua
maneira, é condenado por seus pecados, desvios e ausência completa de virtudes.
Todos se verão culpados, e os seus desejos levam a consequências trágicas e
perturbadoras. Apenas o inofensivo Anacleto escapará dessa sina, como se a
consciência fugisse dos efeitos deletérios e não mais houvesse lugar para ela.
Os demais terão de conviver com suas escolhas — destruídos na desonra da
vontade e cobiça.
E o que para alguns simboliza a liberdade,
não é nada além de reflexos — o resultado de uma vida indireta — o desbotar num
olho dourado.
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Avaliação: (****)
Título: Reflexos num olho dourado
Autora: Carson McCullers
Editora: José Olympio
Páginas: 142
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