19 outubro 2026

Juventude sem Deus – de Ödön von Horváth

 




Numa daquelas visitas à Amazon, deparei-me com o título: Juventude sem Deus, de Ödön von Horváth. Na capa, crianças e adolescentes em fardamento militar, marchavam com a Suástica estampada nos ombros. Do que se trata? É uma crítica ao mundo sem Deus? É a apologia a um conceito filosófico-religioso? Ou algo que suprime o transcendente e foca no imanente?

Não quis pesquisar. Nunca faço pesquisas prévias dos livros que leio. Às vezes, o critério é o título, o autor, ou até mesmo uma capa. Calha de ser os três. Neste caso, em especial, a capa é sugestiva mas não tem apelo artístico. O título pode sugerir algo mais simples, mas também não resulta em apelo imediato. O autor: nunca vira mais gordo. Demorou alguns meses para realizar a compra. Ficou no meu carrinho semanas e semanas a fio. Pois o preço também não era nada convidativo.

Era um tiro no escuro.

Após comprá-lo e começar a leitura, não parei. Foi compulsão pura. Acho que li em vinte e quatro horas. Não conseguia largar. E isso se deve à linguagem fluída e simples de Ödön. Não raro, via-o em uma competição contra o tempo, na ânsia de cruzar a linha de chegada o mais rapidamente possível. Parecia uma prova de cem metros rasos. Porém, em nada, isso afetou a leitura. O autor provavelmente quis imprimir essa “vertiginosidade” à narrativa.

E qual o assunto?

Bem, não é fácil definir o cerne do texto, mas diria que é a busca pela verdade em um mundo — Alemanha do Nacional-Socialismo — onde os princípios se tornaram a corrupção e inversão da moral, seguindo a cartilha absoluta do Estado, como matéria prima. E por busca, não é preciso dar a volta ao mundo para encontrá-la. Estava ali, bem debaixo das barbas dos alemães, assim como está das nossas. As pessoas abandonaram a crença em Deus, mas não se esqueceram de cultuar um deus, no caso os arranjos e promessas de glória, prosperidade e, porque não, a imortalidade estatal. O Reich de mil anos era algo sedutor para uma nação estropiada e que imaginava renascer das cinzas se lançando de novo no fogo.

Mas vamos por partes.

O narrador é um professor inominado que, diante das afirmações dos alunos, percebe o abismo moral em que estão. Ao identificá-los pelas iniciais, o “A”, os “B’s”, e por aí afora, revela o quanto a ideologia — e, penso eu, qualquer uma — despersonaliza o indivíduo e o torna em um número ou peça na engrenagem. Se não serve para a máquina funcionar, descarta-a e a substitui.

Ao repreender um aluno, que afirmou serem os negros inferiores, ganha a ira paterna de “N” e a desconfiança da direção da escola. Seria um detrator do sistema? Um crítico do Reich? Um revolucionário? Ninguém sequer aventa a hipótese de lucidez e razoabilidade. 

Se inicialmente o professor está “em cima do muro”, aos poucos vai reconhecendo que a neutralidade também é uma escolha moral; no caminhar na indiferença acaba por se aliar — ainda que passivamente — à imoralidade. O confronto com o aluno, o pai, a diretoria, o faz afastar-se da isenção, e assimila, sem compreender, que não resistir e não condenar o mal é associar-se a ele — princípio que permeiam várias passagens bíblicas.

O tom de ironia e sarcasmo vai, progressivamente, tomando formas mais diretas. A partir de situações absurdas se vê o declínio de um país, mas especialmente das pessoas, que tratam o abjeto como natural. Ele zomba do sistema educacional, da atitude dos alunos, de como os interesses pessoais são cooptados pelo Estado — e o cotidiano algo intragável, difícil de digerir, mas ainda comestível. O suficiente para não morrer à mingua.

O professor se vê pouco a pouco questionar o seu ceticismo, a partir daquela velha formulação de Ivan a Alyocha, personagens de Dostoievski: “Se Deus não existe, tudo é permitido”, o que leva o irmão ilegítimo, Smerdiákov, a assassinar o patriarca Karamazov.

Em dado momento, ofuscado por sua covardia e omissão, o professor omite fatos que tornam uma investigação injusta. Alguém iria pagar o pato.

Em dado momento, ao entrar em uma tabacaria, ele ouve do proprietário a seguinte afirmação: Deus habita onde ainda não foi esquecido, e todo aquele imbróglio era consequência do afastamento do homem de Deus. Para o Professor é como uma epifania. E a resposta ao seu dilema: deve tomar uma decisão que acarretará sérios problemas para si: confessar a verdade, sem recuar. Motivado pelo seu exemplo, algumas correções acontecem, mesmo que a plausibilidade delas não fosse certeza. Importa fazer o certo, ainda que ninguém reconheça e seja punido.

A sua atitude corrige e repara um grande erro.

Como na filosofia clássica, a moral não é individual, no sentido de cada um possuir uma, mas parte-se do geral, do universal, daquilo que se chama a “Imago Dei”, para o indivíduo. O professor reconhece isso e abandona o que seria, do ponto de vista pessoal, o mais cômodo e benéfico. Disposto a sofrer as consequências, quer levar ordem a si mesmo e às pessoas ao seu redor.

No final, parece haver uma reconciliação.

Juventude sem Deus, sem ser um tratado teológico — e está anos-luz disso —  nos revela que, quando o homem se investe de si mesmo e seus interesses, as chances de as coisas desandarem é grande. E se para Deus, e por tabela aqueles que o professam, o próximo é tão importante, as chances serão mais propícias, e o mel não se camuflará de radicchio.

O que antes era um nada — um tipo de niilismo que o levava ao “dane-se”—, se tornou tudo.

E quando se vê tudo — aquilo que realmente importa e pelo qual se vive: bem, graça, virtude, compaixão... — fica menos difícil decidir.

Até mesmo morrer por isso.


Jorge F. Isah






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