Numa
daquelas visitas à Amazon, deparei-me com o título: Juventude sem Deus, de Ödön
von Horváth. Na capa, crianças e adolescentes em fardamento militar, marchavam
com a Suástica estampada nos ombros. Do que se trata? É uma crítica ao mundo
sem Deus? É a apologia a um conceito filosófico-religioso? Ou algo que suprime
o transcendente e foca no imanente?
Não
quis pesquisar. Nunca faço pesquisas prévias dos livros que leio. Às vezes, o
critério é o título, o autor, ou até mesmo uma capa. Calha de ser os três.
Neste caso, em especial, a capa é sugestiva mas não tem apelo artístico. O
título pode sugerir algo mais simples, mas também não resulta em apelo
imediato. O autor: nunca vira mais gordo. Demorou alguns meses para realizar a
compra. Ficou no meu carrinho semanas e semanas a fio. Pois o preço também não
era nada convidativo.
Era
um tiro no escuro.
Após
comprá-lo e começar a leitura, não parei. Foi compulsão pura. Acho que li em
vinte e quatro horas. Não conseguia largar. E isso se deve à linguagem fluída e
simples de Ödön. Não raro, via-o em uma competição contra o tempo, na ânsia de
cruzar a linha de chegada o mais rapidamente possível. Parecia uma prova de cem
metros rasos. Porém, em nada, isso afetou a leitura. O autor provavelmente quis
imprimir essa “vertiginosidade” à narrativa.
E
qual o assunto?
Bem,
não é fácil definir o cerne do texto, mas diria que é a busca pela verdade em
um mundo — Alemanha do Nacional-Socialismo — onde os princípios se tornaram a
corrupção e inversão da moral, seguindo a cartilha absoluta do Estado, como
matéria prima. E por busca, não é preciso dar a volta ao mundo para
encontrá-la. Estava ali, bem debaixo das barbas dos alemães, assim como está
das nossas. As pessoas abandonaram a crença em Deus, mas não se esqueceram de
cultuar um deus, no caso os arranjos e promessas de glória, prosperidade e,
porque não, a imortalidade estatal. O Reich de mil anos era algo sedutor para
uma nação estropiada e que imaginava renascer das cinzas se lançando de novo no
fogo.
Mas
vamos por partes.
O
narrador é um professor inominado que, diante das afirmações dos alunos,
percebe o abismo moral em que estão. Ao identificá-los pelas iniciais, o “A”,
os “B’s”, e por aí afora, revela o quanto a ideologia — e, penso eu, qualquer
uma — despersonaliza o indivíduo e o torna em um número ou peça na engrenagem.
Se não serve para a máquina funcionar, descarta-a e a substitui.
Ao
repreender um aluno, que afirmou serem os negros inferiores, ganha a ira
paterna de “N” e a desconfiança da direção da escola. Seria um detrator do
sistema? Um crítico do Reich? Um revolucionário? Ninguém sequer aventa a
hipótese de lucidez e razoabilidade.
Se
inicialmente o professor está “em cima do muro”, aos poucos vai reconhecendo
que a neutralidade também é uma escolha moral; no caminhar na indiferença acaba
por se aliar — ainda que passivamente — à imoralidade. O confronto com o aluno,
o pai, a diretoria, o faz afastar-se da isenção, e assimila, sem compreender,
que não resistir e não condenar o mal é associar-se a ele — princípio que
permeiam várias passagens bíblicas.
O
tom de ironia e sarcasmo vai, progressivamente, tomando formas mais diretas. A
partir de situações absurdas se vê o declínio de um país, mas especialmente das
pessoas, que tratam o abjeto como natural. Ele zomba do sistema educacional, da
atitude dos alunos, de como os interesses pessoais são cooptados pelo Estado —
e o cotidiano algo intragável, difícil de digerir, mas ainda comestível. O
suficiente para não morrer à mingua.
O
professor se vê pouco a pouco questionar o seu ceticismo, a partir daquela
velha formulação de Ivan a Alyocha, personagens de Dostoievski: “Se Deus não
existe, tudo é permitido”, o que leva o irmão ilegítimo, Smerdiákov, a
assassinar o patriarca Karamazov.
Em
dado momento, ofuscado por sua covardia e omissão, o professor omite fatos que
tornam uma investigação injusta. Alguém iria pagar o pato.
Em
dado momento, ao entrar em uma tabacaria, ele ouve do proprietário a seguinte
afirmação: Deus habita onde ainda não foi esquecido, e todo aquele imbróglio
era consequência do afastamento do homem de Deus. Para o Professor é como uma
epifania. E a resposta ao seu dilema: deve tomar uma decisão que acarretará
sérios problemas para si: confessar a verdade, sem recuar. Motivado pelo seu
exemplo, algumas correções acontecem, mesmo que a plausibilidade delas não
fosse certeza. Importa fazer o certo, ainda que ninguém reconheça e seja
punido.
A
sua atitude corrige e repara um grande erro.
Como
na filosofia clássica, a moral não é individual, no sentido de cada um possuir
uma, mas parte-se do geral, do universal, daquilo que se chama a “Imago Dei”,
para o indivíduo. O professor reconhece isso e abandona o que seria, do ponto
de vista pessoal, o mais cômodo e benéfico. Disposto a sofrer as consequências,
quer levar ordem a si mesmo e às pessoas ao seu redor.
No
final, parece haver uma reconciliação.
Juventude
sem Deus, sem ser um tratado teológico — e está anos-luz disso — nos revela que, quando o homem se investe de
si mesmo e seus interesses, as chances de as coisas desandarem é grande. E se
para Deus, e por tabela aqueles que o professam, o próximo é tão importante, as
chances serão mais propícias, e o mel não se camuflará de radicchio.
O
que antes era um nada — um tipo de niilismo que o levava ao “dane-se”—, se
tornou tudo.
E
quando se vê tudo — aquilo que realmente importa e pelo qual se vive: bem,
graça, virtude, compaixão... — fica menos difícil decidir.
Até
mesmo morrer por isso.
Jorge F. Isah

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