Jorge F. Isah
Tenho
assistido a muitas séries antigas, aquelas dos anos 60, 70 e 80 que apenas os
velhos se interessam. Eu não vivi esses tempos, mas de alguma forma tenho
saudades do não visto e vivido em relação ao que vejo e vivo por estas bandas
tupiniquins. As razões são, sem ordem de importância:
1-
Nostalgia, pura e simples (nem Freud explica);
2-
Fugir da loucura e psicopatia dos filmes e
séries atuais (com raríssimas exceções), e acabam por refletir uma vida de
delírios, mulas sem cabeças e unicórnios a povoar as mentes e as línguas de
muitos;
3-
Avaliar a veracidade quanto ao nível de opressão
e falta de liberdade no passado, onde, segundo os ideólogos e especialistas de
plantão, as pessoas andavam em correntes e jaulas enquanto eram marcadas a
ferrete;
4-
Constatar os valores perdidos ou a se perder,
hoje e amanhã;
5-
Entender a razão de tanto ódio a uma existência
mais simples e menos combativa e belicosa (quero dizer, lacradora);
6-
E, por fim, divertir sem me sentir culpado por
dar risadas frugais ou derramar aquela lágrima emotiva.
Bem, pode
parecer muito, mas a verdade é que raras coisas na atualidade me motivam o
interesse, e muitas vezes fazem-me sentir como se estivesse em um hospício a
céu aberto, cercado de loucos por todos os lados. Fico a imaginar um(a) “militante
politicamente correto” assistindo, por exemplo, um capítulo de “A Feiticeira”
ou “Jeannie é um gênio”. No primeiro caso, uma mulher literalmente “empoderada”,
pois possui poderes sobrenaturais para satisfazer praticamente todos os seus
desejos, se submeter alegremente a uma vida simplória e trivial de esposa e
mulher do lar. Por amor ao seu marido, James, Samantha deseja se tornar a
melhor esposa, mãe e dona de casa. Nem sempre consegue, mas é o seu objetivo de
vida. Imagino o(a) militante quebrando a tv, a amaldiçoar Elizabeth Montgomery
e Dick York por toda a vida... e nem preciso entrar nos detalhes.
No segundo
caso, Jeannie é uma figura dos contos de fadas, capaz de realizar qualquer
desejo do seu “amo”, o Coronel Nelson, que a encontrou em uma garrafa em uma
ilha deserta. Ela pode fazer tudo, mas quer apenas e tão somente o amor e a
atenção do seu amo, e a sua maneira desastrada e ingênua cria situações
hilárias ao colocar em apuros o alvo do seu amor. Qualquer militante exemplar,
daqueles que usam carteirinha e botton de “chato de galocha”, seria incapaz de
se divertir com as peripécias de Samantha e Jeannie, pelo simples fato de
imaginar aqui e acolá elementos claramente discriminatórios, opressores e
estereotipados das mulheres. A ideia dos produtores e diretores e atores era
apenas divertir o maior número de pessoas, arrancar delas risadas e momentos de
descontração. Mas a militância não vê nada além de culpados e réus confessos, a
difundir o domínio e a hegemonia do patriarcado. O pensamento dessa turma é
linear, como uma extensa área inóspita e estéril no deserto, onde não se pode
produzir nada de bom.
Ontem,
assisti ao quase último filme de Clint Eastwood, “Cry Macho”, título irônico
mas capaz de desagradar uma boa parte de espectadores, porque não tem muita
ação, nem reviravoltas mirabolantes, ou sangue e células espalhadas em paredes,
pisos e adereços. O filme nos dá a ideia do quanto Eastwood se divertiu ao
produzir, dirigir e protagonizar a película. E é impossível, ao menos o foi
para mim, não se divertir também. O roteiro é simples, a trama não é
intrincada, não existem discussões ou defesas de pautas das agendas
progressistas (sic), porque é um filme igualmente simples, a falar da vida,
para a maioria das pessoas e não para um grupo minúsculo de iluminados,
ansiosos por um Mickey gay, um Super-Homem trans ou um Padre Brown a usar
linguagem neutra. Em suas obstinações por fazerem-se ouvir, não ouvem ninguém,
na verdade, não se interessam em ouvir nada além da própria voz e o ecoar em
seus pares, em patrulhar a vida alheia como se fossem membros da Gestapo, KGB
ou CIA. Enquanto os fofoqueiros do passado especializavam-se em não serem
descobertos ao disseminarem seus fuxicos — muitas vezes apenas por simples diversão —,
as novas patrulhas de fofoqueiros querem a censura, a prisão e em alguns casos
a morte dos acusados. E qual o crime?... Pensar fora da caixa oca ou um saco
cheio de...
Eastwood não
fez um filme para ganhar o Oscar e encher páginas de jornais e sites
especializados em cinema de lorota e lenga-lenga ideológica ou intelectualóide.
Do alto dos seus mais de 90 anos, quis fazer algo divertido e no qual se
divertisse. Evidente ser um filme de qualidade, afinal, é possível se divertir
sem abrir mão do talento e habilidade, e talento e habilidade podem aumentar em
muito a diversão... E quanto menos pretensioso, maior a chance de dar certo,
como é o caso em questão. Não entendo a queixa dos detratores, e mesmo a falta
de argumentos. Uma rápida pesquisa na web e verá a maioria dos comentadores
falarem da idade do Clint, do andar titubeante, de já passar da hora de se
aposentar, e variações do tema. Quase não existe a análise da obra em si, e
quais seriam os pontos favoráveis e negativos. Parece um fetiche com a idade
provecta do astro, capaz de ainda produzir, dirigir e protagonizar sem criar um
pastiche de si mesmo ou de sua obra, enquanto a maioria dos “mortais” anseia
aposentar-se aos cinquenta e não fazer mais nada na vida. Isso deve dar uma
inveja e uma dor de cotovelo danada... e certamente tem tudo a ver com a
longevidade artística de Eastwood.
Esta geração
— tão acostumada a zumbis e vampiros, monstros e heróis de vidro, enquanto
vivem a irrealidade do Meta Verso, RPG e um mundo onde poderiam tomar altas
doses de adrenalina em amostra grátis — não me parece treinada para a vida
real, para as coisas elementares e fundamentais, para a simplicidade, a
fraternidade, gestos ingênuos e despretensiosos, atitudes delicadas, suaves e
acolhedoras, tudo isso sem uma lei por detrás ou o discurso inflamado da última
“bolacha do pacote”. “Cry Macho” ultrapassa em muito a caricatura na qual se
transformou Hollywood e seu discurso panfletário e hipócrita — com raríssimas exceções, como neste caso —: as
pessoas são comuns, os problemas são comuns, as soluções nem sempre são
perfeitas e absolutas, mas existe lugar para a verdadeira empatia,
identificação, sem a necessidade de se ditar regras e fórmulas a se repetir
pela ação da epinefrina, especialmente na área da língua e cordas vocais e
quase nada no intelecto dos replicadores de patrulhas.
Por falar em
galos — sei, ninguém tocou nisso por aqui —, a prova das intenções de Eastwood
estão evidenciadas no fato de o herói, no sentido audacioso e intrépido do
termo, ser o galo “Macho”, do pequeno Rafa (Eduardo Minett), o garoto a quem
Mike (Clint) foi buscar no México para entregá-lo ao pai, no Texas. Ao receber
“Macho” como presente, Mike promete cuidar do herói, numa alusão à cumplicidade
e a troca de experiências; o “Macho” de Mike não é o mesmo de Rafa, mas não é
impossível compartilhá-lo e, até mesmo, discutir sua importância, sem que para
isso sejam forçados ao inexorável antagonismo.
Infelizmente,
hoje em dia nada é inocente, ingênuo ou honesto. Sempre existe um culpado ou
culpados pelo não dito e pelo não feito, mas supostamente dito e feito na mente
dos inquisidores modernos, dispostos a — via de regra, e à revelia¹ — imputar e
culpar qualquer um a contrariar-lhes delírios e incoerências mentais, desde que
não seja a si mesmo e seus análogos. Faz parte da guerra; e se não há inimigos
é preciso criá-los de qualquer maneira, nem que seja forjando conflitos,
trincheiras e barreiras onde sequer eram imagináveis. Orwell acertou em cheio
ao descrever a novilíngua destes tempos, a Stasi a dominar consciências e
objetivos nada lúcidos e realistas.
Voltando ao
seriado “A Feiticeira”, em uma cena onde Stevens e Tate conversam sobre a
suposta gravidez de Samantha, ouve-se o seguinte diálogo:
- O que você
espera, James? – Diz Larry.
- Ora, menino
ou menina! – Responde Stevens.
Se fosse
hoje, provavelmente em uma sala de aula, consultórios terapêuticos ou em
ambientes descolados — a minoria da
minoria minoritária — a resposta seria um daqueles antigos catálogos
telefônicos... E ai de quem não estiver atualizado com as últimas novidades e
modelos listados e se esquecer de um deles: a Gestapo o enviará ao Gulag mais
próximo.
_____________
Nota: 1- uso o termo não a designar simplesmente qualquer um,
mas qualquer um não alinhado, se me entende.
2- Texto publicado originalmente na Revista Bulunga

Nenhum comentário:
Postar um comentário