Jorge
F. Isah
Conheci Pär Lagerkvist recentemente e, até
então, era-me um completo desconhecido. Talvez, tivesse visto o seu nome quando
criança, pois gostava de ler a lista dos “nóbeis”, assim como lia a das
seleções campeãs de futebol, dos “óscares” e dos homens mais altos do mundo.
Era um garoto de listas e nada melhor do que verificar todos aqueles a
escreverem seus nomes na história, ainda que não fizesse a menor ideia de quem
fossem.
Assim como os olhos passavam pelas listas,
Lagerkvist também passou por eles, sem deixar lembranças.
Por conta da indicação de um amigo,
comprei o livro “A morte de Ahasverus”, da editora Sator. Infelizmente, ele se perdeu em
minha lista caótica de leituras, que está sempre a mudar e lançar novas
aquisições para o “limbo” até que paguem as suas penas.
Então,
em um sebo, vi uma edição lindíssima da Opera Mundi, de Barrabás, e resolvi
fazer jus ao sueco.
Todos
sabemos quem foi Barrabás. E Pär traça uma história fictícia, desde os momentos
da crucificação de Jesus até a morte do protagonista, décadas depois. Assim
como ele, Lagerkvist é econômico na escrita, feita de silêncios — nada
barulhenta — quase seca, sem floreios, mas inquietante e reveladora.
É uma
história de substituição, quando o bandido é salvo da morte pelo Santo.
Barrabás não entende a razão de não ser ele o crucificado, já que Jesus era
inocente e puro. Ele não crê — e não há qualquer fé na divindade de Cristo —
mas ainda assim reputa injusta a morte do puro. Contudo, algo o inquieta: por
que tantas pessoas creem em um homem que se diz Deus mas morre miseravelmente
como escravo? E, por que ele, um criminoso, foi poupado?
A partir
desse evento, quem conhecia Barrabás, incluindo a amante, nota diferenças em
seu comportamento. Ele não é o mesmo. Algo o impulsiona a conhecer mais do
homem e o porquê de tantos venerarem quem o substituiu na cruz. Esse tipo de
morte era o mais infame e humilhante entre todos: ao ponto de não ser aplicada
a nenhum cidadão romano. Como o profeta poderia ser então o Filho de Deus?...
Esse é o cerne do livro. Não se refere à pessoa de Barrabás, mas porque ele não
crê, tenta crer, e, ainda assim, as dúvidas não se dissipam, não importando a
sua condição momentânea. Ele é um homem de incertezas, muito mais do que se
imagina.
Ele
segue cristãos, tenta aproximar-se, mas sempre paira sobre ele o estigma de ser
o culpado pela morte do mestre. E isso, cada vez mais, cai sobre os ombros como
a única convicção.
Quando
livre, sente-se preso ao destino. Quando escravo, há apenas resignação. E se
busca compreender aquele fato — o divisor da sua vida — nada parece fazer
sentido, nem mesmo quando a fé alheia põe à prova o seu ceticismo.
Não é
questão de hipóteses metafísicas, onde a mente passeia sem pisar em terra
firme, mas de sentido onde a razão é um fio de cabelo solto na ventania.
E,
talvez, os verdadeiros grilhões sejam a impossibilidade de fé, e dela
arrastá-lo como um trapo na lama.
Ele, o
liberto, está mais preso do que nunca. O vivo, está morto. Enquanto o
crucificado vive. Ainda que na alma de uma multidão de súditos, dispostos a
morrer para manterem-se escravos. Qual a lógica?... Está muito além da sua
compreensão. Mas, no íntimo, como gostaria de prová-la.
Lagerkvist
não culpa ou absolve Barrabás[1]. Revela a sua humanidade:
do homem caído, sem rumo, e cujo coração, moldado pela descrença, não sabe no
que crê, ou melhor, se recusa a crer... Nada de amigos, cúmplices, deuses e,
nem ele mesmo. A medalha com os dizeres: “Christos Iesus” feita pelo colega,
Sabak — um cristão — e posteriormente riscada —com uma cruz — pelo governador
romano, a quem serviam, era mais um emblema de maldição do que graça.
Diante
da morte, Barrabás apostata, sem nunca na verdade ter se convertido, enquanto
Sabak permanece firme em sua fé, e, por ela, é condenado à morte.
No fim,
o homem a quem Barrabás perseguiu mas jamais alcançou, trouxe-lhe à mente as
suas últimas palavras:
— A ti
entrego a minha alma.
E não
sabemos se a verdade enfim o salvou... Apesar da morte.
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