12 fevereiro 2026

Dom Quixote de la Mancha - Miguel de Cervantes: do cavaleiro de ideais aos delírios contemporâneos

 





 

Jorge F. Isah

 

      Havia algum tempo que precisava — e queria — reler Dom Quixote. A primeira investida se deu na adolescência, em uma condensação (algo comum, àquela época, para os ginasianos e, com o tempo, acabou por se tornar “referência” a muitos adultos indolentes, ao menos em relação aos clássicos), e, se não me falha a memória, realizada por Monteiro Lobato ou Carlos Drummond, ou qualquer outro grande literato.

Entre os dez e quinze anos, investi nos grandes volumes em versões resumidas. À época, foi a maneira das editoras estimularem, tal qual um aperitivo, as leituras densas e volumosas a fim de aguçar os novatos, vender e usá-las como chamariz para se chegar, em breve, aos originais. Não sei se funcionou com a maioria, penso que não. Comigo, muitos me chamaram a atenção e o desejo de tê-los na íntegra, outros, nem tanto.

      Lá pelos vinte anos, li Dom Quixote, mas não gostei. Na verdade, gostei, mas não foi apaixonante. Percebi o humor, a ironia de Cervantes e a crítica aos romances de cavalaria, mas não achei nada demais. Estava às voltas com existencialistas, e qualquer coisa que não fosse o sofrimento dos personagens, suas angústias, dúvidas e o sem sentido da vida, além da linguagem mais direta e menos caudalosa, não me seduziam.

      Isso me leva a refletir sobre a crítica à literatura fantasiosa e, por que não, fútil: nitidamente, Dom Quixote é um farsante não intencional, desapegado em obter lucros e dividendos para si. Mas, contaminado pela leitura compulsiva dos romances de cavaleiros, princesas e batalhas, tentou reconstruir, em suas andanças e aventuras, os mesmos padrões da ficção. Cervantes entende essa literatura como algo danosa, e, na boca de vários personagens, critica abertamente o gênero.

Porém, Quixote é um idealista, sonhador, homem de honra, intrépido e destemido, disposto a se sacrificar por qualquer um que esteja em perigo, não segundo a realidade, mas segundo as suas concepções de realidade. Não é difícil a comparação com o Cristo — e toda analogia tem suas fraquezas —, quando a mente de Cervantes materializa no seu protagonista algumas características do homem perfeito, especialmente na capacidade de sofrer abnegadamente, sem se ater aos seus desejos, em primeira instância, mas vislumbrando o próximo e seus dramas. Em algum sentido, Quixote é o mártir que vê o próprio sacrifício com esperança, de ser capaz de mudar vidas, corrigir desastres, empreender justiça e redimir condenados diante de um mundo cínico e em desordem. Era a visão de Unamuno, da qual compartilho.      

      Ele é, ao mesmo tempo, herói e anti-herói, lúcido e louco, fiel mas desajeitado, realista e visionário, homem do presente que escreve o futuro preso ao passado. É uma figura fantasticamente construída com tudo o que de bom e ruim a humanidade possui.

      Se Cervantes critica os folhetins romanescos de cavalaria, por outro lado também tece advertências quanto à falta de imagética, especialmente dos racionalistas, impedindo que emoções, outros conceitos e estruturas sejam transmitidos. Se Quixote está errado em seus delírios e arroubos, os racionalistas também estão em suas cadeias e caixas aparentemente lógicas e factuais. Este é um ponto.

      O segundo, se ao mesmo tempo em que o autor denuncia a obsessão pela literatura cavaleiresca (seria o equivalente ao “bestseller” atual), onde a padronização e a massiva exposição pública simplesmente impedia o surgimento de, digamos, a boa literatura. Entre batalhas memoráveis, dragões, monstros, exércitos sanguinários, mocinhos, donzelas e vilões poderosos, o cavaleiro andante, muitas vezes solitário, era a força a impedir a proliferação do mal. De certa forma, esse gênero afastava os letrados da época (algo em torno de 10% da população) e os mantinham alheios ao real conhecimento. O que dizer em pleno século XXI? Onde a literatura, e até mesmo a capacidade de ler e entender, tem se tornado desnecessária na visão de muitos?

      Terceiro, se havia fadas, bruxas, duendes, capirotos, gigantes e fantasmas no século XVI, e, por isso, era um tipo de subliteratura, não estariam vários títulos da atualidade enquadrados nesse escopo? Cinco, seis séculos depois? Onde a pretensa racionalidade é cada vez mais substituída pela irracionalidade, por narrativas e achismos que vão dos maiores exageros até os mais frívolos?

      Quarto, por que os leitores, ou cinéfilos, gibimaníacos, noveleiros, voyeurs digitais, condenam tão veementemente religiosos e não as suas preferências? Se ao ver deles, os religiosos se apegam às “fantasias” e prestam um desserviço ao mundo, que raios de bem eles trazem com suas mágicas e poderes sobrenaturais? Ou apenas ao homem é permitido tê-los, mesmo imageticamente, e Deus (ou deuses) não? Por que a religião não pode difundir seus valores enquanto as várias formas artísticas podem, sem restrições? O que dizer de alguém com quarenta ou mais anos chorar a morte do Homem de Ferro, abraçado à miniatura da Mulher Maravilha?

      É fácil ver palpiteiros tecerem críticas e exigirem o cerceamento de cristãos, por exemplo, alegando os danos que o “ópio do povo” pode trazer às massas. Mas eles e seus seguidores se esbaldam em cores, barulhos, efeitos e o culto a personagens e heróis de mentirinha, enquanto enfrentam longas filas para o novo filme da Marvel ou o “dízimo” da Netflix. Chega a ser constrangedor, no mínimo; pois é, na verdade, a transposição do mundo quixotesco para o atual, onde os dois problemas se misturam simultaneamente: pessoas que se dizem racionais, mas utilizam o mesmo escapismo dos leitores medievais, e substituem a cosmologia transcendente por mitologias seculares — e se consideram superiores e mais dignos do que religiosos. Se Cervantes vivesse hoje, constataria que pouca coisa mudou.

      No Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura e seu fiel escudeiro, Sancho Pança, a imaginação e realidade nos faz rir, chorar, sonhar e encher-nos de brio, honra, coragem e amor desinteressado. Não vou me ater a detalhes da obra, pois talvez o faça na releitura do livro II... talvez. O importante é falar que Miguel de Cervantes Saavedra construiu um dos personagens mais emblemáticos e influentes da literatura mundial. Não sem razão, é apontado como o maior romance de todos os tempos. Adorado por Faulkner, que o relia ano a ano, e por tantos outros que escreveram sobre ele: Dostoiévski, C. S. Lewis,  Nabokov, Borges, Turgueniev, entre outros.

      Deixo a empreitada, portanto, para os gigantes de verdade — a de analisá-lo com a profundidade merecida. De minha parte, identifico-me demais com Sancho, capaz de ver o seu mestre como ele era, com seus defeitos, teimosia e delírios, mas também de admirá-lo para além do que os seus olhos viam.


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Nota: 1- Ah, mesmo a tradução do Visconde de Castilho, de 1876, é saborosa e nada difícil de ler. Claro que existem expressões e termos não usuais hoje em dia, mas nada que dificulte o entendimento da obra. No momento, estou lendo a tradução do Ernani Ssó, pela Editora Penguin. Tenho as traduções do Milton Amado, do Aquilino Ribeiro e uma edição “fac-símile”, provavelmente de Francisco Gouveia de Morais, já que não encontrei referências. Falta-me a do Sérgio Molina, pela Editora 34. Portanto, procure qualquer uma e não faça outra coisa antes de lê-la.

2- Este ensaio refere-se ao Vol. 1, de Dom Quixote, perfazendo o total de 545 páginas. O Vol. 2, logo que o termine, valerá outra análise por aqui. 

      



21 janeiro 2026

Cada macaco no seu galho

 





  Jorge F. Isah

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Ao assistir erraticamente a um programa na TV, deparei-me com uma ambientalista a defender ferrenhamente o fim dos testes e experimentos de vacinas, medicamentos e cosméticos em animais. Para ela, os pobres e indefesos bichinhos não podem pagar a conta pela solução dos nossos problemas. Chegou mesmo a dizer que a culpa dessa situação estava no patriarcado, capitalismo e no machismo estruturais — não nessa ordem — e as leis e a ética científica tinham de ser urgentemente revisionadas, seja lá o que isso signifique, do ponto de vista prático.

A conversa se seguiu por uns 40 minutos, sem que qualquer uma das participantes, três além da entrevistada, fizesse um único questionamento acerca da sua proposta. Lá estavam elas, aplaudindo, tecendo loas, inflando o ego umas das outras e, em especial, da “verdinha”. Uma delas chegou às lágrimas quando, no discurso final, a defensora dos bichinhos partiu para o ataque e afirmou a “necessidade de proibir essa injustiça e instituir a pena de morte aos infratores”. E ia mais além: “Os carnívoros, irracionais e bestiais em suas exigências alimentares, deveriam pagar mais impostos, multas e sofrer sanções como a perda de aposentadoria e outros benefícios sociais, caso insistam na prática nefasta e fascistóide de torturar, matar e consumir um inocente”.

Lá pelas tantas, quando estava prestes a desligar a TV e jogá-la no meio da rua, durante o seu discurso (sim, aquilo se tornou palanque), ela me saiu com a ideia brilhante de os experimentos necessários a garantir a eficiência de vacinas e cosméticos serem testados em humanos. Cocei a cabeça: “Quem, em sã consciência, se arriscaria a tomar um remédio experimental com o risco de ficar parecido com um crocodilo, um macaco-narigudo ou um aye-aye?”. E completou: “A humanidade que resolva os seus próprios imbróglios!”.

Mas, estaria ela disposta a se candidatar a cobaia de laboratório? Ou deixar filhos e parentes serem inoculados por elementos não testados minimamente? Ou estes riscos cairiam no colo dos miseráveis, seja por dinheiro, por imposição estatal ou até mesmo sem a devida consciência? E participar do teste de um novo suco de laranja, quando se é preá de urânio, rádio ou césio?

Essas mentes superdotadas, via de regra, defendem mudanças profundas com a segurança de quem jamais será convocado para pagar a conta — nem no cartão de crédito, nem em transfusões, nem em efeitos colaterais — sentados em seus sofás e sob a supervisão constante do ar-condicionado e controle remoto. Vivem a alardear ideias — desde as mais ocas até as ainda mais ocas que as ocas — sem serem questionados, desobrigados do ônus de provar seus salamaleques, desde que haja “voluntários” suficientes para realizar a operação. E, sejamos sinceros, no mundo com mais de 7 bilhões de “sofistas de algibeira” não será difícil encontrar candidatos às baciadas.

Então, da próxima vez que você se colocar nas fileiras de defesa dos saguis e ornitorrincos ou outro bicho qualquer, em detrimento da sua própria espécie, tenha certeza de que foi cooptado instintivamente ao corporativismo “Callithrix”, p.ex.

E trate logo de pular de galho em galho, na árvore mais próxima, pois é bem provável que uma fila de candidatos esteja pronta a tomar o seu lugar.

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Nota: Texto publicado originalmente na Revista Bulunga, e posteriormente adaptado para esta edição. 



13 janeiro 2026

Que venha a tempestade - Paul Bowles

 





Jorge F. Isah

 

     

Li o primeiro romance de Bowles, até então o único, há um punhado de anos. Não me lembro ao certo, mas foi por volta de 1990: “O Céu que nos espera”, publicado pela editora Rocco. Tenho a segunda edição, que conservo, sem a ter tocado a não ser para trocar de lugar e tirar-lhe o pó.

Nunca ouvira falar de Paul Bowles até ver o filme de Bertolucci, com John Malkovich e Debra Winger, de 1990. Na ficha técnica estava lá: baseado no romance de Paul Bowles. Então, fui à caça para ver se encontrava o livro, já que adorei o filme. Achei-o na Livraria Acaiaca, em BH. Infelizmente, o tempo acaba por apagar as coisas menos significativas e, além do conturbado relacionamento do casal de protagonistas, das belas imagens do deserto e um clima claustrofóbico, pouca coisa me restou, tanto do livro como do filme.

      Recentemente, em um bazar de igreja, onde havia dezenas de livros que ninguém se interessava em ver, encontrei um exemplar de “Que venha a tempestade”. No geral, o estado dele era bom, mas como eu poderia escolher qualquer item por uma ninharia, algo em torno de R$ 2,00 cada (havia baixado de 10 para 5, depois para 4 e, por fim, 2). Ao final do bazar estavam doando para quem quisesse levar, já que ocupavam espaço e ninguém, além de mim e um dono de banca de revistas próximo, se interessava.

Em idas e vindas, consegui alguns exemplares, inclusive dois itens relativamente raros e que iriam parar no lixo ou seriam vendidos no quilo. Esse é o motivo de eu não acreditar que este país tenha jeito. As pessoas saem feito loucas atrás de um jeans ou moletom usados, enquanto os livros são empilhados como se fossem entulhos, sem qualquer cuidado. Vi exemplares com mofo, úmidos, rasgados, capas soltas, tudo porque o pessoal simplesmente os jogaram num canto, sem lhes dar qualquer atenção, enquanto alisavam roupas e lustravam bijuterias.

      Bem, voltemos ao objeto deste texto. Logo no início, aquele ar de vazio, de niilismo a perpassar a narrativa, me incomodou. Não quanto à história, à futilidade dos personagens, mas, se em 1949 (data da publicação), o mundo já se encontrava contaminado com o sem-sentido, a descrença e o relativismo, onde valores tradicionais e a verdade eram sistematicamente desprezados, negando o absoluto, moral e ética, o que dirá hoje, neste contexto esfacelado?

Veja o trecho:

Havia anos que ele seguia sem ser notado, sem notar a si mesmo, acompanhando os dias mecanicamente, exagerando no cansaço e no tédio do dia para que lhe desse sono à noite, e usando o sono para fornecer energia para encarar o dia seguinte. Não era costume se dar ao trabalho de dizer a si mesmo: ‘Não há nada além disso; o que faz valer a pena continuar?’, porque sentia que não tinha como responder à pergunta. Mas no momento parecia-lhe que havia encontrado uma resposta simples: a satisfação de ser capaz de viver o dia.”(pg. 180)

      O fragmento simboliza bem todo o argumento do livro: mecanicismo, automatismo e nenhuma transcendência ou metafísica. O homem está “preso” no próprio destino — cabe a ele apenas resistir e viver um dia de cada vez. Em princípio, a resistência e o viver dia a dia não têm nada de errado — em alguns aspectos pode ser saudável não se preocupar em demasia com o futuro e não se entregar à procrastinação e o desânimo. Porém, a ideia aqui é: “faça o que fizer, pense o que pensar, aja como agir, nada disso tem significado e a sua vida nenhum propósito”. Ainda que o autor esteja em busca de uma resposta, e falha em encontrá-la (porque não está onde procura), ao não ver solução, entrega-se à lógica do vazio. Por trás da aparência de reflexão profunda está um reducionismo e superficialismo constrangedores.

      Logo, o niilismo de Bowles o leva ao fatalismo e vice-versa, pois onde não há sentido, quando o tem, torna-se irrelevante; e onde não existe valor e apenas vazio, o conformismo e o “dane-se!” não permitem mudanças, ou quando acontecem são meros impulsos, fruto da irracionalidade.

Dostoiévski sabia muito bem sobre os danos e o legado que o niilismo deixaria na Rússia. Em “O Idiota” e “Os Demônios”, ele os combate com a sabedoria e o olhar “profético” sobre a construção de um mundo em ruínas — pois a negação da ordem moral e espiritual somente levaria o homem ao primitivismo bárbaro e cruel. O niilismo é, sem sombra de dúvidas, o terreno filosófico propício para toda a derrocada ocidental, do multiculturalismo ao pós-modernismo, do relativismo às ideologias estatizantes. Neste aspecto, tudo se traveste de condicional, enquanto os “dogmas” são absolutos e efetivos. Por exemplo, a liberdade deixou de ser um conceito absoluto para se tornar em “liberdade relativa”. Assim é a moral, a ética, o conhecimento, etc. Por isso, tudo virou “narrativa”, seja de esquerda ou direita, sem qualquer objetividade, permeada unicamente por delírios coletivos e insanidade individual.

      Dizer que Dyar, o protagonista de “Que venha a tempestade” (no original “Let it come down”, trecho de Macbeth, de Shakespeare, dito pelos algozes de Banquo), é um homem vazio, mediano, que chegou a Tânger e empreendeu uma queda brusca na direção da imoralidade, antiética e se tornou incapaz de conviver com os efeitos das suas escolhas —  esse poderia ser o resumo. Entretanto, a cada passo em direção ao abismo, e convivendo com pessoas artificiais e fúteis, a paranoia, o delírio e a irrealidade o levam a resultados ainda mais catastróficos.

      Na busca de alívio ou “sentido”, embriaga-se, começa a usar o Kif (mistura de tabaco com maconha e haxixe, muito comum na cultura marroquina e no norte da África), e cada vez mais se vê aprisionado na teia a afastá-lo do real e levá-lo ao êxtase sistêmico, onde a euforia, o artificialismo se moldam ao ponto da histeria.

      O livro tem várias outras camadas e discussões, como a aversão completa dos muçulmanos aos cristãos, os conflitos culturais, ocultismo, e, no terço último, uma narrativa lisérgica, com um final tenso, perturbador e claustrofóbico.

      “Que venha a tempestade” é a derrocada do homem moderno, a descida ao abismo sem fim; e de nada adianta o sol brilhar no céu azul... os olhos não podem ver e, na verdade, não querem ver, habituados à escuridão.

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Título: Que venha a tempestade

Autor: Paul Bowles

Editora: Alfaguara

Páginas: 305





01 janeiro 2026

Quarto de Despejo - Carolina Maria de Jesus

 




 

Jorge F. Isah

 

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Vamos falar um pouco sobre “Quarto de Despejo”, escrito por Carolina Maria de Jesus.  Porém, antes de começar, é importante ressaltar alguns aspectos:

Uma obra, seja ela qual for, não pode ser avaliada por emoções ou coisas alheias ao próprio ato criativo. Por exemplo, João usa apenas calças roxas e blusas laranjas com bolinhas verdes. Ele não admite vestir-se de outra forma. É visto por uma “figura”(safo). É descolado, vibrante, alegre e todos o querem por perto. Mas João é pizzaiolo, e suas pizzas são horríveis, mesmo que ele use uniforme roxo, laranja e bolinhas verdes. Assim, ele é duplamente conhecido: por estar sempre à disposição e entremeado aos clientes com seu estilo “caloroso”, mas ninguém quer uma pizzazinha sequer. João sugere, insiste, lança um sabor novo a cada semana, mas os clientes se contentam com os pacotinhos de chips e amendoim, enquanto conversam e riem com o pizzaiolo, entre uma cerveja e outra.

Em seu “Diário de uma favelada”, Carolina não pode ter a sua qualidade literária avaliada pelo fato de morar no “morro”, tanto para o bem quanto para o mal. Esse é um elemento completamente irrelevante no exame do seu trabalho.

Também, o fato de cursar até o 2º ano do ensino fundamental não pode interferir na análise. Quanto mais o fato de ser marginalizada e gostar de coisas que o brasileiro, em geral, desgosta: ler e escrever. Existem muitos leitores, para todos os gêneros e interesses e objetivos, e neles não há unanimidade, quanto mais vocação ou aspiração para a escrita.

A condição social, financeira, educacional, ideológica e pessoal do autor não deve ser ponto destacado em qualquer obra, com o risco de prejudicar não somente o julgamento, mas também rebaixar o talento e esforço a um mero “status quo”.

O mesmo vale para o fato de ser negra, mulher, mãe solteira, recicladora e marginal, e pertencente a um grupo relegado à periferia de São Paulo.

Não estou a falar também de toda a obra de Carolina, pois li apenas o “Quarto”, e ele é o foco deste texto. E o excesso de cuidados em deixar claro o meu propósito não deveria ser necessário se os tempos, e alguns leitores, fossem mais perspicazes. 

Posto isso, o livro é um diário, no qual ela relata o dia a dia da sua vida, e de outros moradores, na favela do Canindé.

E o que dizer do livro?




A narrativa é direta, consideravelmente repetitiva, e não há esmero ou preocupação na construção das frases. Ao menos, na maioria. Óbvio que estamos a falar de uma realidade crua, muitas vezes desesperada e incerta. A precariedade dos recursos, aliada à fome, doenças, desemprego, faz a situação se agravar ainda mais. Se existe algo de virtuoso em Carolina é a sua sinceridade ao expor seus dilemas, anseios e não “baixar a cabeça” diante dos males a rodeá-la.

Bukowski, outro marginal mais talentoso, dizia que a literatura era a razão de não enlouquecer. Ocorreu o mesmo com Carolina, onde as letras, definitivamente, traziam alguma beleza, esperança e realização.

O diário, tal qual a confissão, é a forma mais profunda de encarar a si mesmo e o mundo. Certamente, por isso, os floreios e dissimulações não se enquadram no seu paiol de ideias. Ao mesmo tempo em que as reflexões são brutais, é possível a ela se agradar do nascer do sol, do céu azul, de jardins e a gentileza de uns poucos. Ela se desnuda e se expõe sem rodeios. Não resta mais nada a não ser encarar a realidade e esperar um novo (re)começo.

Enquanto catava papel, plástico, metal ou qualquer outra coisa a render uns trocados, a certeza de ser poeta e escritora não deixava dúvidas nem mesmo aos seus vizinhos e conhecidos. A maioria a tratava com despeito, aquele velho bordão: “O que isso lhe deu?”. No fundo, porém, havia mesmo era inveja. Tenaz, teve o diário recusado pela “Reader’s Digest”, mas não desistiu, e continuou a escrevê-lo, na esperança de um dia ser publicado.

É uma leitura ligeira; todas as informações estão na primeira camada. À parte da luta pela sobrevivência, dela e dos filhos (3 no total), o maior problema é Carolina sentir-se incomodada, deslocada na comunidade, à qual pertencia contra a vontade. As inúmeras queixas de vizinhos, brigas, discussões e o descaso público acentuavam ainda mais o infortúnio da autora.

Nesse ínterim, Carolina repudia com veemência as favelas e seus habitantes. Não faz como a maioria dos sociólogos, antropólogos, cientistas políticos ou palpiteiros que enfeitam a vida nos morros e tentam criar a áurea de falso glamour. Ela demonstra por “a mais b” que o ambiente é insalubre, doentio, e nada de bom, a despeito de uma ou outra benignidade, pode advir dali; a dignidade é o ressoar do abuso e indiferença. A favela é o território perfeito para os políticos não quererem erradicá-la; os dividendos para eles são inúmeros. Manter as pessoas na miséria é a melhor forma de distanciar as “pontas do poder”; por isso, imagina o dia em que terá a sua casa e abandonará para sempre a maloca.

É impossível não se comover com as situações bizarras e degradantes. Somente quem morou ou mora na periferia (a falta de educação dos brasileiros está se transformando em endemia, mesmo nos condomínios luxuosos e bairros de classe média) pode aquilatar um pouco do que ela vivenciou. Não é o melhor cenário para se desenvolver uma narrativa, mas era o que tinha.

A primeira lembrança que me veio, foi a leitura de “Vinhas da Ira”, de Steinbeck.  A linguagem crua, deformada, e a indigência dos personagens se assemelham. No americano havia a recessão, o “Crash de 29” e as lutas de classes — mesmo que a maior parte dos lavradores sequer soubesse do que se tratava — e a manipulação política. No caso da “favela do Canindé”, os políticos apareciam somente às vésperas das eleições... e a recessão é um “looping infinito”.

No final, a minha curiosidade foi satisfeita. A edição preservou praticamente todos os erros gramaticais e, novamente, como em “Vinhas da Ira”, isso me incomodou bastante; se nele foi algo planejado, composto, em “Quarto” é orgânico e inato à autora. Houve, segundo o editor, o jornalista Audálio Dantas, a preservação da escrita original, com todas as suas imperfeições linguísticas, a fim de retratar fielmente o estilo da autora. A meu ver, a deficiência não é o mesmo que estilo. Mas vá lá, em tempos onde o exotismo disso e daquilo deve se sobrepor à ordem, harmonia e correção, o vício se traveste de virtude. Depois de algumas dezenas de páginas, liguei o “dane-se” e foquei no enredo.

Há alguns dias, ouvi de um autor, queridinho da intelligentsia, que, diante de uma lista dos grandes escritores do século XX, apontou Carolina como a maior. Ela bateu João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, entre outros. Sem precisar propor qualquer argumento ou discussão. Era ela e pronto!

Mesmo reconhecendo a persistência, obstinação e o vislumbre incessante do sonho; mesmo reconhecendo a denúncia social e política, não há como reputar, do ponto de vista estético, estilístico e formal, o “Quarto”  como obra de arte. Por muito menos, e bota menos nisso, Dostoiévski foi acusado de ser um escritor ruim e desleixado. Imagine, por exemplo, Nabokov e Hemingway — que culparam  o russo de escrever mal — lendo Carolina.

Em “Quarto de Despejo”, a prosa é assimétrica. E certamente não terá lugar em nenhum salão de festas, nem mesmo naquele dormitório no porão. Ficam, contudo, os milagres operados pela literatura. Os mesmos capazes de salvar Buck, Carolina, eu ou você.


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Título: Quarto de Despejo

Autora: Carolina Maria de Jesus

Editora: Ática

174 Páginas 

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