Jorge F. Isah
Jorge F. Isah
Jorge F. Isah
Li o primeiro romance de Bowles, até então o único,
há um punhado de anos. Não me lembro ao certo, mas foi por volta de 1990: “O
Céu que nos espera”, publicado pela editora Rocco. Tenho a segunda edição, que
conservo, sem a ter tocado a não ser para trocar de lugar e tirar-lhe o pó.
Nunca ouvira falar de Paul Bowles até ver o filme de
Bertolucci, com John Malkovich e Debra Winger, de 1990. Na ficha técnica estava
lá: baseado no romance de Paul Bowles. Então, fui à caça para ver se encontrava
o livro, já que adorei o filme. Achei-o na Livraria Acaiaca, em BH.
Infelizmente, o tempo acaba por apagar as coisas menos significativas e, além
do conturbado relacionamento do casal de protagonistas, das belas imagens do
deserto e um clima claustrofóbico, pouca coisa me restou, tanto do livro como
do filme.
Recentemente, em um bazar de igreja, onde
havia dezenas de livros que ninguém se interessava em ver, encontrei um
exemplar de “Que venha a tempestade”. No geral, o estado dele era bom, mas como
eu poderia escolher qualquer item por uma ninharia, algo em torno de R$ 2,00
cada (havia baixado de 10 para 5, depois para 4 e, por fim, 2). Ao final do
bazar estavam doando para quem quisesse levar, já que ocupavam espaço e ninguém,
além de mim e um dono de banca de revistas próximo, se interessava.
Em idas e vindas, consegui alguns exemplares,
inclusive dois itens relativamente raros e que iriam parar no lixo ou seriam
vendidos no quilo. Esse é o motivo de eu não acreditar que este país tenha
jeito. As pessoas saem feito loucas atrás de um jeans ou moletom usados,
enquanto os livros são empilhados como se fossem entulhos, sem qualquer cuidado.
Vi exemplares com mofo, úmidos, rasgados, capas soltas, tudo porque o pessoal
simplesmente os jogaram num canto, sem lhes dar qualquer atenção, enquanto
alisavam roupas e lustravam bijuterias.
Bem, voltemos ao objeto deste texto. Logo
no início, aquele ar de vazio, de niilismo a perpassar a narrativa, me
incomodou. Não quanto à história, à futilidade dos personagens, mas, se em 1949
(data da publicação), o mundo já se encontrava contaminado com o sem-sentido, a
descrença e o relativismo, onde valores tradicionais e a verdade eram
sistematicamente desprezados, negando o absoluto, moral e ética, o que dirá
hoje, neste contexto esfacelado?
Veja o trecho:
“Havia
anos que ele seguia sem ser notado, sem notar a si mesmo, acompanhando os dias
mecanicamente, exagerando no cansaço e no tédio do dia para que lhe desse sono
à noite, e usando o sono para fornecer energia para encarar o dia seguinte. Não
era costume se dar ao trabalho de dizer a si mesmo: ‘Não há nada além disso; o
que faz valer a pena continuar?’, porque sentia que não tinha como responder à
pergunta. Mas no momento parecia-lhe que havia encontrado uma resposta simples:
a satisfação de ser capaz de viver o dia.”(pg. 180)
O fragmento simboliza bem todo o argumento
do livro: mecanicismo, automatismo e nenhuma transcendência ou metafísica. O
homem está “preso” no próprio destino — cabe a ele apenas resistir e viver um
dia de cada vez. Em princípio, a resistência e o viver dia a dia não têm nada
de errado — em alguns aspectos pode ser saudável não se preocupar em demasia
com o futuro e não se entregar à procrastinação e o desânimo. Porém, a ideia
aqui é: “faça o que fizer, pense o que pensar, aja como agir, nada disso tem
significado e a sua vida nenhum propósito”. Ainda que o autor esteja em busca
de uma resposta, e falha em encontrá-la (porque não está onde procura), ao não
ver solução, entrega-se à lógica do vazio. Por trás da aparência de reflexão
profunda está um reducionismo e superficialismo constrangedores.
Logo, o niilismo de Bowles o leva ao
fatalismo e vice-versa, pois onde não há sentido, quando o tem, torna-se
irrelevante; e onde não existe valor e apenas vazio, o conformismo e o
“dane-se!” não permitem mudanças, ou quando acontecem são meros impulsos, fruto
da irracionalidade.
Dostoiévski sabia muito bem sobre os danos e o
legado que o niilismo deixaria na Rússia. Em “O Idiota” e “Os Demônios”, ele os
combate com a sabedoria e o olhar “profético” sobre a construção de um mundo em ruínas — pois a negação da ordem moral e espiritual somente levaria o homem ao
primitivismo bárbaro e cruel. O niilismo é, sem sombra de dúvidas, o terreno
filosófico propício para toda a derrocada ocidental, do multiculturalismo ao
pós-modernismo, do relativismo às ideologias estatizantes. Neste aspecto, tudo
se traveste de condicional, enquanto os “dogmas” são absolutos e efetivos. Por
exemplo, a liberdade deixou de ser um conceito absoluto para se tornar em
“liberdade relativa”. Assim é a moral, a ética, o conhecimento, etc. Por isso,
tudo virou “narrativa”, seja de esquerda ou direita, sem qualquer objetividade,
permeada unicamente por delírios coletivos e insanidade individual.
Dizer que Dyar, o protagonista de “Que
venha a tempestade” (no original “Let it come down”, trecho de
Macbeth, de Shakespeare, dito pelos algozes de Banquo), é um homem vazio, mediano,
que chegou a Tânger e empreendeu uma queda brusca na direção da imoralidade,
antiética e se tornou incapaz de conviver com os efeitos das suas escolhas — esse poderia ser o resumo. Entretanto, a cada
passo em direção ao abismo, e convivendo com pessoas artificiais e fúteis, a
paranoia, o delírio e a irrealidade o levam a resultados ainda mais catastróficos.
Na busca de alívio ou “sentido”,
embriaga-se, começa a usar o Kif (mistura de tabaco com maconha e haxixe, muito
comum na cultura marroquina e no norte da África), e cada vez mais se vê
aprisionado na teia a afastá-lo do real e levá-lo ao êxtase sistêmico, onde a
euforia, o artificialismo se moldam ao ponto da histeria.
O livro tem várias outras camadas e
discussões, como a aversão completa dos muçulmanos aos cristãos, os conflitos
culturais, ocultismo, e, no terço último, uma narrativa lisérgica, com um final
tenso, perturbador e claustrofóbico.
“Que venha a tempestade” é a
derrocada do homem moderno, a descida ao abismo sem fim; e de nada adianta o
sol brilhar no céu azul... os olhos não podem ver e, na verdade, não querem
ver, habituados à escuridão.
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Título: Que venha a tempestade
Autor: Paul Bowles
Editora: Alfaguara
Páginas: 305
Jorge F. Isah
Vamos falar um pouco sobre “Quarto de Despejo”,
escrito por Carolina Maria de Jesus.
Porém, antes de começar, é importante ressaltar alguns aspectos:
Uma obra, seja ela qual for, não pode ser avaliada
por emoções ou coisas alheias ao próprio ato criativo. Por exemplo, João usa
apenas calças roxas e blusas laranjas com bolinhas verdes. Ele não admite
vestir-se de outra forma. É visto por uma “figura”(safo). É descolado,
vibrante, alegre e todos o querem por perto. Mas João é pizzaiolo, e suas
pizzas são horríveis, mesmo que ele use uniforme roxo, laranja e bolinhas
verdes. Assim, ele é duplamente conhecido: por estar sempre à disposição e
entremeado aos clientes com seu estilo “caloroso”, mas ninguém quer uma
pizzazinha sequer. João sugere, insiste, lança um sabor novo a cada semana, mas
os clientes se contentam com os pacotinhos de chips e amendoim, enquanto
conversam e riem com o pizzaiolo, entre uma cerveja e outra.
Em seu “Diário de uma favelada”, Carolina não
pode ter a sua qualidade literária avaliada pelo fato de morar no “morro”,
tanto para o bem quanto para o mal. Esse é um elemento completamente
irrelevante no exame do seu trabalho.
Também, o fato de cursar até o 2º ano do ensino
fundamental não pode interferir na análise. Quanto mais o fato de ser
marginalizada e gostar de coisas que o brasileiro, em geral, desgosta: ler e
escrever. Existem muitos leitores, para todos os gêneros e interesses e
objetivos, e neles não há unanimidade, quanto mais vocação ou aspiração para a
escrita.
A condição social, financeira, educacional,
ideológica e pessoal do autor não deve ser ponto destacado em qualquer obra,
com o risco de prejudicar não somente o julgamento, mas também rebaixar o
talento e esforço a um mero “status quo”.
O mesmo vale para o fato de ser negra, mulher, mãe
solteira, recicladora e marginal, e pertencente a um grupo relegado à periferia
de São Paulo.
Não estou a falar também de toda a obra de Carolina,
pois li apenas o “Quarto”, e ele é o foco deste texto. E o excesso de cuidados
em deixar claro o meu propósito não deveria ser necessário se os tempos, e
alguns leitores, fossem mais perspicazes.
Posto isso, o livro é um diário, no qual ela relata
o dia a dia da sua vida, e de outros moradores, na favela do Canindé.
E o que dizer do livro?
A narrativa é direta, consideravelmente repetitiva,
e não há esmero ou preocupação na construção das frases. Ao menos, na maioria.
Óbvio que estamos a falar de uma realidade crua, muitas vezes desesperada e
incerta. A precariedade dos recursos, aliada à fome, doenças, desemprego, faz a
situação se agravar ainda mais. Se existe algo de virtuoso em Carolina é a sua
sinceridade ao expor seus dilemas, anseios e não “baixar a cabeça” diante dos
males a rodeá-la.
Bukowski, outro marginal mais talentoso, dizia que a
literatura era a razão de não enlouquecer. Ocorreu o mesmo com Carolina, onde
as letras, definitivamente, traziam alguma beleza, esperança e realização.
O diário, tal qual a confissão, é a forma mais
profunda de encarar a si mesmo e o mundo. Certamente, por isso, os floreios e
dissimulações não se enquadram no seu paiol de ideias. Ao mesmo tempo em que as
reflexões são brutais, é possível a ela se agradar do nascer do sol, do céu
azul, de jardins e a gentileza de uns poucos. Ela se desnuda e se expõe sem
rodeios. Não resta mais nada a não ser encarar a realidade e esperar um novo (re)começo.
Enquanto catava papel, plástico, metal ou qualquer
outra coisa a render uns trocados, a certeza de ser poeta e escritora não
deixava dúvidas nem mesmo aos seus vizinhos e conhecidos. A maioria a tratava
com despeito, aquele velho bordão: “O que isso lhe deu?”. No fundo, porém, havia
mesmo era inveja. Tenaz, teve o diário recusado pela “Reader’s Digest”, mas não
desistiu, e continuou a escrevê-lo, na esperança de um dia ser publicado.
É uma leitura ligeira; todas as informações estão na
primeira camada. À parte da luta pela sobrevivência, dela e dos filhos (3 no
total), o maior problema é Carolina sentir-se incomodada, deslocada na
comunidade, à qual pertencia contra a vontade. As inúmeras queixas de vizinhos,
brigas, discussões e o descaso público acentuavam ainda mais o infortúnio da
autora.
Nesse ínterim, Carolina repudia com veemência as
favelas e seus habitantes. Não faz como a maioria dos sociólogos, antropólogos,
cientistas políticos ou palpiteiros que enfeitam a vida nos morros e tentam
criar a áurea de falso glamour. Ela demonstra por “a mais b” que o ambiente é
insalubre, doentio, e nada de bom, a despeito de uma ou outra benignidade, pode
advir dali; a dignidade é o ressoar do abuso e indiferença. A favela é o
território perfeito para os políticos não quererem erradicá-la; os dividendos
para eles são inúmeros. Manter as pessoas na miséria é a melhor forma de
distanciar as “pontas do poder”; por isso, imagina o dia em que terá a sua casa
e abandonará para sempre a maloca.
É impossível não se comover com as situações
bizarras e degradantes. Somente quem morou ou mora na periferia (a falta de
educação dos brasileiros está se transformando em endemia, mesmo nos
condomínios luxuosos e bairros de classe média) pode aquilatar um pouco do que
ela vivenciou. Não é o melhor cenário para se desenvolver uma narrativa, mas
era o que tinha.
A primeira lembrança que me veio, foi a leitura de
“Vinhas da Ira”, de Steinbeck. A
linguagem crua, deformada, e a indigência dos personagens se assemelham. No
americano havia a recessão, o “Crash de 29” e as lutas de classes — mesmo que a
maior parte dos lavradores sequer soubesse do que se tratava — e a manipulação
política. No caso da “favela do Canindé”, os políticos apareciam somente às
vésperas das eleições... e a recessão é um “looping infinito”.
No final, a minha curiosidade foi satisfeita. A
edição preservou praticamente todos os erros gramaticais e, novamente, como em “Vinhas
da Ira”, isso me incomodou bastante; se nele foi algo planejado, composto, em “Quarto”
é orgânico e inato à autora. Houve, segundo o editor, o jornalista Audálio
Dantas, a preservação da escrita original, com todas as suas imperfeições
linguísticas, a fim de retratar fielmente o estilo da autora. A meu ver, a
deficiência não é o mesmo que estilo. Mas vá lá, em tempos onde o exotismo
disso e daquilo deve se sobrepor à ordem, harmonia e correção, o vício se
traveste de virtude. Depois de algumas dezenas de páginas, liguei o “dane-se” e
foquei no enredo.
Há alguns dias, ouvi de um autor, queridinho da
intelligentsia, que, diante de uma lista dos grandes escritores do século XX,
apontou Carolina como a maior. Ela bateu João Cabral de Melo Neto, Ariano
Suassuna, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, entre outros. Sem precisar propor
qualquer argumento ou discussão. Era ela e pronto!
Mesmo reconhecendo a persistência, obstinação e o
vislumbre incessante do sonho; mesmo reconhecendo a denúncia social e política,
não há como reputar, do ponto de vista estético, estilístico e formal, o “Quarto” como obra de arte. Por muito menos, e bota
menos nisso, Dostoiévski foi acusado de ser um escritor ruim e desleixado.
Imagine, por exemplo, Nabokov e Hemingway — que culparam o russo de escrever mal — lendo Carolina.
Em “Quarto de Despejo”, a prosa é assimétrica. E
certamente não terá lugar em nenhum salão de festas, nem mesmo naquele
dormitório no porão. Ficam, contudo, os milagres operados pela literatura. Os
mesmos capazes de salvar Buck, Carolina, eu ou você.
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Título: Quarto de Despejo
Autora: Carolina Maria de Jesus
Editora: Ática
174 Páginas
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