28 março 2026

Reflexos num olho dourado - Carson McCullers

 



Jorge F. Isah

 


      Recentemente, travei contato com a obra de McCullers, por intermédio de outros autores do sul americano, como Faulkner e Flannery O’Connor, e a minha primeira incursão foi no seu romance de 1941, “Reflexos num olho dourado”.

      É um livro pequeno, pouco mais de 140 páginas, mas de densidade claustrofóbica e com tantas nuances — tantas quanto se possa achar. Boa parte da crítica o coloca como um livro “queer”, num reducionismo irritante, pois, apesar de tocar no aspecto homossexual do protagonista, não é nem de longe o foco da narrativa.

      Gastei uns três dias, mas desde o início, ainda na primeira página, percebi que não o podia tratar ligeira e superficialmente. Havia muito a desenterrar em seus escombros. Ainda assim, mesmo depois de concluído, decidi esperar um pouco para maturar as impressões e esquadrinhar as que houvessem me escapado. Via de regra, não sou apressado em fazer resenhas, mas, neste caso, a prudência era ainda mais necessária.

      Antes de continuar, existe um filme dirigido por John Huston e estrelado por Marlon Brando e Elizabeth Taylor, baseado na obra. Tentei encontrá-lo em vários streamings, sem sucesso. Uma pena, pois a ideia do trio trabalhar o texto de McCullers seria, no mínimo, instigante.

      À primeira vista, como já disse, parece tratar de um triângulo amoroso onde o adultério e a homossexualidade, aliados à hipocrisia e opressão social, parecem o âmago do tema. Mas não.

Há um gay não assumido, Capitão Penderton — casado com a femme fatale, Leonora, amante do Major Langdon, vizinho e superior do marido na base militar no sul dos EUA —,cujo segredo é protegido sob sua autoridade oficial. O mesmo não se dá com a relação adúltera entre Langdon e Leonora, a ponto de todo o “Campo” (não há nominação da base militar) sabê-la.

Leonora, especificamente, parece pouco interessada em esconder a traição, e o seu descuido reforça a suspeita e confere ao rumor um tom de tácita autenticidade. Logo, ela não se interessa pelos sentimentos dos outros e quer, acima de tudo, provocar tensão e fazer as pessoas orbitarem nela —  o único apego real e sincero, se é possível chegar a tanto, se dá em sua relação com o cavalo Firebird, um puro-sangue sob a responsabilidade de um soldado, cuja participação será tratada mais à frente.

      Então, não se trata apenas de chocar a sociedade ou discutir  questões meramente sexuais; sequer levantar alguma bandeira, seja ela qual for. Na história da literatura, e muito antes de Carson, houve autores mais incisivos e explícitos quanto ao assunto.

      O “Campo” é um claustro, onde os desejos se tornam obsessões, e as relações são levianas, superficiais e marcadas por forte tensão, por conflitos violentos, apesar da “normalidade”. É nítido o quanto os personagens sofrem, uma aflição nada intermitente, onde a superfície camufla quase ineficientemente a angústia de suas almas. McCullers não parece disposta a permitir um único minuto de paz e, certamente, nenhum deles sabe o seu real significado — não há como procurar o que não se conhece e alcançar o que não se vê.

Existe um código desonroso entre o núcleo principal, que se relaciona em aparente amizade, com jantares, festas, recepções, de uma gentileza forçosa e artificial, onde conversas e atitudes não refletem a raiva, a indiferença e o desprezo que se tem um pelo outro. Poder-se-ia chamar essas relações de parasitismo assimétrico, que definiria o quão prejudicial e danoso podem ser certas “colaborações” entre os homens.

      No grupo secundário, temos a esposa do Major Langdon, Allison e o seu ajudante filipino, Anacleto; e ainda o soldado misterioso e circunspecto, Williams, o cavalariço. Neste grupo, apesar de serem igualmente disfuncionais, ao menos sabem o seu papel no mundo e na vida alheia, ao contrário da outra tríade.

      Penderton é um homem austero, ambicioso e covarde, que mantém um casamento de fachada e despreza intensamente a sua esposa. Leonora é uma mulher superficial, fútil e sedutora em sua beleza crepuscular. Langdon é o seu amante, um homem ao estilo macho-alfa. Não existem santos, muito menos inocentes. Todos são culpados por suas fraquezas e, em algum nível, pela debilidade alheia.

      Alguns apontam a isenção da autora em evitar qualquer tipo de censura aos seus personagens, mas a maneira como ela os descreve, seus rompantes e instintos, rebate fortemente essa premissa. A incapacidade de comunicação, afetividade e compreensão, fruto da imoralidade sem freios, os leva ao caos relacional — no fundo, tudo se resume ao poder fragmentário e minguado.

      Williams é um voyeur atormentado por Leonora. Ele se entrega à compulsão de vigiá-la à noite e fazer incursões até o quarto enquanto ela dorme. Ele é um adulto que se infantiliza diante da figura, de uma imagem idealizada de Leonora, poderosa, magnética. Por falar nisso — talvez, no futuro, escreva algo mais abrangente ­—, na maioria dos casos a compulsão e os delírios sexuais, independente da monta, deficiências e justificativas, originam-se na infantilização do indivíduo, a culminar na infantilização do seu objeto de prazer, seja uma pessoa, animal ou qualquer outra coisa a movê-los numa espécie de regressão psicocomportamental. Tal qual a comilança, que parte do princípio da necessidade alimentar e descamba para a glutonaria, o exagero e a submissão ao desejo. O descontrole sempre — ou quase, vá lá! — terá por axioma o imoral e o antiético. Aqui, Carson parece entender completamente isso: adultos que se portam como adolescentes ou púberes.

      Penderton é atormentado pelo corpo nu do soldado Williams e, como ele, é também um perseguidor. Procura os momentos para aproximar-se, mas é incapaz de revelar a sua atração. E isso o torna instável e vacilante.

      Langdon passeia pela amante como um carteiro pela rua. Nada além do seu apetite sexual a guiá-lo.

      Leonora, como disse, esconde-se em sua beleza; mas já a vislumbra perdida, em breve.

      Allison é a esposa traída, que sabe da amante do marido, mas sucumbe ao silêncio e no desejo irrealizável do divórcio.

      Anacleto é o único amigo sincero, leal, protetor. Filipino e afeminado, é para Allison o que o marido não consegue ser, e, de uma maneira engraçada, serve de consciência para Langdon, na tentativa de mostrar os seus equívocos e chamá-lo à realidade. Porém, o major o vê apenas um “macaquinho” zombeteiro e provocador, uma figura exótica, a qual conserva exclusivamente para “encobrir” suas negligências quanto a Allison, e ao servir de única companhia.

      Em última análise, o desfecho final não é meramente acidente, como muitos presumem. McCullers, ainda que não cite uma única vez algo transcendente, não absolve os seus personagens. Cada um, à sua maneira, é condenado por seus pecados, desvios e ausência completa de virtudes. Todos se verão culpados, e os seus desejos levam a consequências trágicas e perturbadoras. Apenas o inofensivo Anacleto escapará dessa sina, como se a consciência fugisse dos efeitos deletérios e não mais houvesse lugar para ela. Os demais terão de conviver com suas escolhas — destruídos na desonra da vontade e cobiça.

      E o que para alguns simboliza a liberdade, não é nada além de reflexos — o resultado de uma vida indireta — o desbotar num olho dourado. 

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Avaliação: (****)

Título: Reflexos num olho dourado

Autora: Carson McCullers

Editora: José Olympio

Páginas: 142