Jorge
F. Isah
Havia algum tempo que precisava — e queria
— reler Dom Quixote. A primeira investida se deu na adolescência, em uma
condensação (algo comum, àquela época, para os ginasianos e, com o tempo,
acabou por se tornar “referência” a muitos adultos indolentes, ao menos em
relação aos clássicos), e, se não me falha a memória, realizada por Monteiro
Lobato ou Carlos Drummond, ou qualquer outro grande literato.
Entre os dez e quinze anos, investi nos grandes
volumes em versões resumidas. À época, foi a maneira das editoras estimularem,
tal qual um aperitivo, as leituras densas e volumosas a fim de aguçar os
novatos, vender e usá-las como chamariz para se chegar, em breve, aos originais.
Não sei se funcionou com a maioria, penso que não. Comigo, muitos me chamaram a
atenção e o desejo de tê-los na íntegra, outros, nem tanto.
Lá pelos vinte anos, li Dom Quixote, mas
não gostei. Na verdade, gostei, mas não foi apaixonante. Percebi o humor, a
ironia de Cervantes e a crítica aos romances de cavalaria, mas não achei nada
demais. Estava às voltas com existencialistas, e qualquer coisa que não fosse o
sofrimento dos personagens, suas angústias, dúvidas e o sem sentido da vida,
além da linguagem mais direta e menos caudalosa, não me seduziam.
Isso me leva a refletir sobre a crítica à
literatura fantasiosa e, por que não, fútil: nitidamente, Dom Quixote é um
farsante não intencional, desapegado em obter lucros e dividendos para si. Mas,
contaminado pela leitura compulsiva dos romances de cavaleiros, princesas e
batalhas, tentou reconstruir, em suas andanças e aventuras, os mesmos padrões
da ficção. Cervantes entende essa literatura como algo danosa, e, na boca de
vários personagens, critica abertamente o gênero.
Porém, Quixote é um idealista, sonhador, homem de
honra, intrépido e destemido, disposto a se sacrificar por qualquer um que
esteja em perigo, não segundo a realidade, mas segundo as suas concepções de
realidade. Não é difícil a comparação com o Cristo — e toda analogia tem suas
fraquezas —, quando a mente de Cervantes materializa no seu protagonista
algumas características do homem perfeito, especialmente na capacidade de
sofrer abnegadamente, sem se ater aos seus desejos, em primeira instância, mas
vislumbrando o próximo e seus dramas. Em algum sentido, Quixote é o mártir que
vê o próprio sacrifício com esperança, de ser capaz de mudar vidas, corrigir
desastres, empreender justiça e redimir condenados diante de um mundo cínico e
em desordem. Era a visão de Unamuno, da qual compartilho.
Ele é, ao mesmo tempo, herói e anti-herói,
lúcido e louco, fiel mas desajeitado, realista e visionário, homem do presente
que escreve o futuro preso ao passado. É uma figura fantasticamente construída
com tudo o que de bom e ruim a humanidade possui.
Se Cervantes critica os folhetins
romanescos de cavalaria, por outro lado também tece advertências quanto à falta
de imagética, especialmente dos racionalistas, impedindo que emoções, outros conceitos
e estruturas sejam transmitidos. Se Quixote está errado em seus delírios e
arroubos, os racionalistas também estão em suas cadeias e caixas aparentemente
lógicas e factuais. Este é um ponto.
O segundo, se ao mesmo tempo em que o
autor denuncia a obsessão pela literatura cavaleiresca (seria o equivalente ao
“bestseller” atual), onde a padronização e a massiva exposição pública
simplesmente impedia o surgimento de, digamos, a boa literatura. Entre batalhas
memoráveis, dragões, monstros, exércitos sanguinários, mocinhos, donzelas e
vilões poderosos, o cavaleiro andante, muitas vezes solitário, era a força a
impedir a proliferação do mal. De certa forma, esse gênero afastava os letrados
da época (algo em torno de 10% da população) e os mantinham alheios ao real
conhecimento. O que dizer em pleno século XXI? Onde a literatura, e até mesmo a
capacidade de ler e entender, tem se tornado desnecessária na visão de muitos?
Terceiro, se havia fadas, bruxas, duendes,
capirotos, gigantes e fantasmas no século XVI, e, por isso, era um tipo de
subliteratura, não estariam vários títulos da atualidade enquadrados nesse
escopo? Cinco, seis séculos depois? Onde a pretensa racionalidade é cada vez
mais substituída pela irracionalidade, por narrativas e achismos que vão dos maiores
exageros até os mais frívolos?
Quarto, por que os leitores, ou cinéfilos,
gibimaníacos, noveleiros, voyeurs digitais, condenam tão veementemente
religiosos e não as suas preferências? Se ao ver deles, os religiosos se apegam
às “fantasias” e prestam um desserviço ao mundo, que raios de bem eles trazem
com suas mágicas e poderes sobrenaturais? Ou apenas ao homem é permitido
tê-los, mesmo imageticamente, e Deus (ou deuses) não? Por que a religião não
pode difundir seus valores enquanto as várias formas artísticas podem, sem
restrições? O que dizer de alguém com quarenta ou mais anos chorar a morte do
Homem de Ferro, abraçado à miniatura da Mulher Maravilha?
É fácil ver palpiteiros tecerem críticas e
exigirem o cerceamento de cristãos, por exemplo, alegando os danos que o “ópio
do povo” pode trazer às massas. Mas eles e seus seguidores se esbaldam em
cores, barulhos, efeitos e o culto a personagens e heróis de mentirinha, enquanto
enfrentam longas filas para o novo filme da Marvel ou o “dízimo” da Netflix.
Chega a ser constrangedor, no mínimo; pois é, na verdade, a transposição do
mundo quixotesco para o atual, onde os dois problemas se misturam
simultaneamente: pessoas que se dizem racionais, mas utilizam o mesmo escapismo
dos leitores medievais, e substituem a cosmologia transcendente por mitologias
seculares — e se consideram superiores e mais dignos do que religiosos. Se
Cervantes vivesse hoje, constataria que pouca coisa mudou.
No Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura e
seu fiel escudeiro, Sancho Pança, a imaginação e realidade nos faz rir, chorar,
sonhar e encher-nos de brio, honra, coragem e amor desinteressado. Não vou me
ater a detalhes da obra, pois talvez o faça na releitura do livro II... talvez.
O importante é falar que Miguel de Cervantes Saavedra construiu um dos
personagens mais emblemáticos e influentes da literatura mundial. Não sem
razão, é apontado como o maior romance de todos os tempos. Adorado por Faulkner,
que o relia ano a ano, e por tantos outros que escreveram sobre ele:
Dostoiévski, C. S. Lewis, Nabokov,
Borges, Turgueniev, entre outros.
Deixo a empreitada, portanto, para os
gigantes de verdade — a de analisá-lo com a profundidade merecida. De minha
parte, identifico-me demais com Sancho, capaz de ver o seu mestre como ele era,
com seus defeitos, teimosia e delírios, mas também de admirá-lo para além do
que os seus olhos viam.
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Nota: 1- Ah, mesmo a tradução do Visconde de
Castilho, de 1876, é saborosa e nada difícil de ler. Claro que existem
expressões e termos não usuais hoje em dia, mas nada que dificulte o
entendimento da obra. No momento, estou lendo a tradução do Ernani Ssó, pela
Editora Penguin. Tenho as traduções do Milton Amado, do Aquilino Ribeiro e uma
edição “fac-símile”, provavelmente de
Francisco Gouveia de Morais, já que não encontrei referências. Falta-me a do
Sérgio Molina, pela Editora 34. Portanto, procure qualquer uma e não faça outra
coisa antes de lê-la.
2- Este ensaio refere-se ao Vol. 1, de Dom Quixote, perfazendo o total de 545 páginas. O Vol. 2, logo que o termine, valerá outra análise por aqui.