25 fevereiro 2026

Roleta Russa

 





 

Jorge F. Isah




Um caso inusitado aconteceu, há uns dias, em Inacionópolis, no interior do Ceará. Cidadezinha de pouco mais de 3.000 habitantes, segundo os dados do IBGE. Na realidade, não passava de 229.

Apenas duas ruas asfaltadas ligavam os pontos extremos do município, fundado em 1988, a primeira cidade planejada do estado. Projetada para 12.968 pessoas, encontrava-se em franca decadência, pois a migração para a capital, e outros grandes centros, era a única esperança do agreste. Ali, salvo raríssimas exceções, não havia futuro para ninguém, especialmente os jovens. Seria uma cidade -fantasma, tão logo o último dos velhos chegasse a óbito.

Tentou-se várias formas de impulsionar o turismo, o comércio e a indústria, com maciço investimento federal, mas ao cabo de quase duas décadas, somente as famigeradas ruas, já citadas, ganharam asfalto. Outras vinte e cinco permaneciam de terra batida ou nem tanto; eram descampados onde a poeira dominava. Não se implantou um mercado distrital, fábrica, plantação ou outra fonte de expandir o lugarejo. Nem mesmo a famigerada água, a ser obtida pela perfuração de diversos poços artesianos, alcançou logro. À boca miúda, era outro ardil para desviar recursos públicos e enriquecer uns poucos.

Entretanto, quando menos se esperava, surgiu algo a deixar todos otimistas. Não foi a aparição do Chapolin Colorado, uma grande tempestade a inundar os açudes ressequidos, a descoberta de jazidas de nióbio ou petróleo... Não, nada disso. No sorteio da loteria, o primeiro prêmio saiu para um bilhete da cidade. Logo se divulgou que ele, provavelmente nativo, encarregaria de investir a fortuna na região: criar empregos, furar os poços, asfaltar as ruas e dinamizar a economia mambembe de Inacionópolis. Os botecos se encheram, foguetes foram soltos, buzinas de bicicletas, urros de alegria e latidos ensandecidos dos cães invadiram a cidade de eufóricas perspectivas. O filho amado traria novamente a glória que nunca tivera, e o sucesso prometido e jamais cumprido.

Entretanto, ninguém sabia quem era o sortudo e felizardo. Por mais que as pessoas abandonassem seus afazeres à caça de alguma evidência ou indício, ninguém descobriu a identidade do felizardo. Especulou-se, inferiu-se, idealizou-se esse ou aquele mais cotado nas pesquisas de opinião, mas o segredo conservou-se inabalável.

Dias depois, na capital, na entrega do cheque simbólico, o ganhador, para a surpresa geral, fantasiou-se de “Mumm-ra” , o vilão do desenho animado “Thundercats”, frustrando todas as expectativas de Inacionópolis, ávidos diante das tv’s e rádios, em ver e ouvir finalmente o sigilo quebrado.

- Qual a razão da fantasia? – Perguntou o mestre de cerimônias.

- Para os meus parentes não me descobrirem! – Pronunciou-se sem constrangimento, perante espectadores atônitos.

Havia motivos para se resguardar. O país era próspero em roubos, assaltos, sequestros e golpes dos mais variados; mas, proteger-se dos familiares?... Pareceu exagero, aos olhos alheios, especialmente porque, em Inacionópolis qualquer um poderia pertencer ao círculo familiar do pé-quente.

A indignação foi pública e ostensiva. Não havia outro assunto: quem era ele? E por que o anonimato? Onde estava a gratidão e retribuição à família? Já que todos em Inacionópolis eram uma grande e unida família?

Os dias se passaram. As semanas se passaram. Sem mudanças. Sem investimentos. Sem veredito, e a lista crescente de suspeitos. Qualquer iniciativa, ação, reação, mudança, mesmo as mais espontâneas e estúpidas, algo a indicar a progenitura do milionário, era vista com presunção, e o infeliz era primeiro sabatinado, caso resistisse, xingado, às vezes capturado e surrado. Alguns chegaram a morrer em decorrência dos ataques, sem acusação ou indício de culpados.

Ninguém estava imune às investidas raivosas das ruas e interiores.

Alguém, contudo, elaborara um plano infalível; por que não pensou nisso antes? Era muito simples: bastaria saber quem estava ausente da cidade no momento da entrega do prêmio. Através da empresa de viação, seria facilmente possível identificar o mal-agradecido. Dito e feito.

Ao se deparar com o nome do ganhador, todos se assustaram: ele, nem mesmo diante da morte, depois de ser sovado violentamente, declinou a façanha. No momento final, até mesmo alguns da parentela, suspeitando das suas últimas atitudes, surpreendeu-se quando disse as palavras derradeiras:

- Perdeu, manés!

No testamento, deixou a fortuna para a Ong “Flato”, empenhada em substituir pápeis higiênicos por lenços umedecidos em comércios e residências.

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Publicado originalmente na Revista Bulunga

12 fevereiro 2026

Dom Quixote de la Mancha - Miguel de Cervantes: do cavaleiro de ideais aos delírios contemporâneos

 





 

Jorge F. Isah

 

      Havia algum tempo que precisava — e queria — reler Dom Quixote. A primeira investida se deu na adolescência, em uma condensação (algo comum, àquela época, para os ginasianos e, com o tempo, acabou por se tornar “referência” a muitos adultos indolentes, ao menos em relação aos clássicos), e, se não me falha a memória, realizada por Monteiro Lobato ou Carlos Drummond, ou qualquer outro grande literato.

Entre os dez e quinze anos, investi nos grandes volumes em versões resumidas. À época, foi a maneira das editoras estimularem, tal qual um aperitivo, as leituras densas e volumosas a fim de aguçar os novatos, vender e usá-las como chamariz para se chegar, em breve, aos originais. Não sei se funcionou com a maioria, penso que não. Comigo, muitos me chamaram a atenção e o desejo de tê-los na íntegra, outros, nem tanto.

      Lá pelos vinte anos, li Dom Quixote, mas não gostei. Na verdade, gostei, mas não foi apaixonante. Percebi o humor, a ironia de Cervantes e a crítica aos romances de cavalaria, mas não achei nada demais. Estava às voltas com existencialistas, e qualquer coisa que não fosse o sofrimento dos personagens, suas angústias, dúvidas e o sem sentido da vida, além da linguagem mais direta e menos caudalosa, não me seduziam.

      Isso me leva a refletir sobre a crítica à literatura fantasiosa e, por que não, fútil: nitidamente, Dom Quixote é um farsante não intencional, desapegado em obter lucros e dividendos para si. Mas, contaminado pela leitura compulsiva dos romances de cavaleiros, princesas e batalhas, tentou reconstruir, em suas andanças e aventuras, os mesmos padrões da ficção. Cervantes entende essa literatura como algo danosa, e, na boca de vários personagens, critica abertamente o gênero.

Porém, Quixote é um idealista, sonhador, homem de honra, intrépido e destemido, disposto a se sacrificar por qualquer um que esteja em perigo, não segundo a realidade, mas segundo as suas concepções de realidade. Não é difícil a comparação com o Cristo — e toda analogia tem suas fraquezas —, quando a mente de Cervantes materializa no seu protagonista algumas características do homem perfeito, especialmente na capacidade de sofrer abnegadamente, sem se ater aos seus desejos, em primeira instância, mas vislumbrando o próximo e seus dramas. Em algum sentido, Quixote é o mártir que vê o próprio sacrifício com esperança, de ser capaz de mudar vidas, corrigir desastres, empreender justiça e redimir condenados diante de um mundo cínico e em desordem. Era a visão de Unamuno, da qual compartilho.      

      Ele é, ao mesmo tempo, herói e anti-herói, lúcido e louco, fiel mas desajeitado, realista e visionário, homem do presente que escreve o futuro preso ao passado. É uma figura fantasticamente construída com tudo o que de bom e ruim a humanidade possui.

      Se Cervantes critica os folhetins romanescos de cavalaria, por outro lado também tece advertências quanto à falta de imagética, especialmente dos racionalistas, impedindo que emoções, outros conceitos e estruturas sejam transmitidos. Se Quixote está errado em seus delírios e arroubos, os racionalistas também estão em suas cadeias e caixas aparentemente lógicas e factuais. Este é um ponto.

      O segundo, se ao mesmo tempo em que o autor denuncia a obsessão pela literatura cavaleiresca (seria o equivalente ao “bestseller” atual), onde a padronização e a massiva exposição pública simplesmente impedia o surgimento de, digamos, a boa literatura. Entre batalhas memoráveis, dragões, monstros, exércitos sanguinários, mocinhos, donzelas e vilões poderosos, o cavaleiro andante, muitas vezes solitário, era a força a impedir a proliferação do mal. De certa forma, esse gênero afastava os letrados da época (algo em torno de 10% da população) e os mantinham alheios ao real conhecimento. O que dizer em pleno século XXI? Onde a literatura, e até mesmo a capacidade de ler e entender, tem se tornado desnecessária na visão de muitos?

      Terceiro, se havia fadas, bruxas, duendes, capirotos, gigantes e fantasmas no século XVI, e, por isso, era um tipo de subliteratura, não estariam vários títulos da atualidade enquadrados nesse escopo? Cinco, seis séculos depois? Onde a pretensa racionalidade é cada vez mais substituída pela irracionalidade, por narrativas e achismos que vão dos maiores exageros até os mais frívolos?

      Quarto, por que os leitores, ou cinéfilos, gibimaníacos, noveleiros, voyeurs digitais, condenam tão veementemente religiosos e não as suas preferências? Se ao ver deles, os religiosos se apegam às “fantasias” e prestam um desserviço ao mundo, que raios de bem eles trazem com suas mágicas e poderes sobrenaturais? Ou apenas ao homem é permitido tê-los, mesmo imageticamente, e Deus (ou deuses) não? Por que a religião não pode difundir seus valores enquanto as várias formas artísticas podem, sem restrições? O que dizer de alguém com quarenta ou mais anos chorar a morte do Homem de Ferro, abraçado à miniatura da Mulher Maravilha?

      É fácil ver palpiteiros tecerem críticas e exigirem o cerceamento de cristãos, por exemplo, alegando os danos que o “ópio do povo” pode trazer às massas. Mas eles e seus seguidores se esbaldam em cores, barulhos, efeitos e o culto a personagens e heróis de mentirinha, enquanto enfrentam longas filas para o novo filme da Marvel ou o “dízimo” da Netflix. Chega a ser constrangedor, no mínimo; pois é, na verdade, a transposição do mundo quixotesco para o atual, onde os dois problemas se misturam simultaneamente: pessoas que se dizem racionais, mas utilizam o mesmo escapismo dos leitores medievais, e substituem a cosmologia transcendente por mitologias seculares — e se consideram superiores e mais dignos do que religiosos. Se Cervantes vivesse hoje, constataria que pouca coisa mudou.

      No Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura e seu fiel escudeiro, Sancho Pança, a imaginação e realidade nos faz rir, chorar, sonhar e encher-nos de brio, honra, coragem e amor desinteressado. Não vou me ater a detalhes da obra, pois talvez o faça na releitura do livro II... talvez. O importante é falar que Miguel de Cervantes Saavedra construiu um dos personagens mais emblemáticos e influentes da literatura mundial. Não sem razão, é apontado como o maior romance de todos os tempos. Adorado por Faulkner, que o relia ano a ano, e por tantos outros que escreveram sobre ele: Dostoiévski, C. S. Lewis,  Nabokov, Borges, Turgueniev, entre outros.

      Deixo a empreitada, portanto, para os gigantes de verdade — a de analisá-lo com a profundidade merecida. De minha parte, identifico-me demais com Sancho, capaz de ver o seu mestre como ele era, com seus defeitos, teimosia e delírios, mas também de admirá-lo para além do que os seus olhos viam.


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Nota: 1- Ah, mesmo a tradução do Visconde de Castilho, de 1876, é saborosa e nada difícil de ler. Claro que existem expressões e termos não usuais hoje em dia, mas nada que dificulte o entendimento da obra. No momento, estou lendo a tradução do Ernani Ssó, pela Editora Penguin. Tenho as traduções do Milton Amado, do Aquilino Ribeiro e uma edição “fac-símile”, provavelmente de Francisco Gouveia de Morais, já que não encontrei referências. Falta-me a do Sérgio Molina, pela Editora 34. Portanto, procure qualquer uma e não faça outra coisa antes de lê-la.

2- Este ensaio refere-se ao Vol. 1, de Dom Quixote, perfazendo o total de 545 páginas. O Vol. 2, logo que o termine, valerá outra análise por aqui.