Há um exemplo marcante na Bíblia de como tratar essas
manifestações, e é o que aconteceu no trecho citado na última aula em
Atos 16, verso 16 em diante. Paulo e Silas estavam em Trôade, e
saiu-lhes ao encontro "uma jovem, que tinha espírito de adivinhação, a
qual, adivinhando, dava grande lucro aos seus senhores" [v. 16]. Alguns
pensam que essa jovem tinha apenas "distúrbios" psíquicos, que a faziam
acreditar no seu poder sobrenatural. Em outras palavras, querem
garantir que não havia nenhuma possessão ou influência maligna, mas
apenas uma doença física, que a fazia proferir doidices. Mas temos que,
para dar lucro aos seus senhores, era necessário, em algum momento, que
ela acertasse algumas das suas adivinhações. Senão, que credibilidade
ela teria para continuar suas previsões e gerar renda para seus
senhores? Logo, a hipótese de disfunção mental não procede, pois a
Escritura não deixa dúvidas quanto ao que fazia aquela jovem prever o
futuro.
Por dias, ela os seguiu, dizendo: "Este homens, que nos anunciam o
caminho da salvação, são servos do Deus Altíssimo" [v.17]. Em princípio,
não havia nada de errado no que ela falava. Ela não dizia nenhuma
mentira, nem os caluniava, nem os acusava de falsidade, injustiça ou
engano; pelo contrário, afirmava a verdade de que eram servos de Deus, e
que anunciavam a salvação. Fato semelhante aconteceu com o Senhor Jesus
diante de um espírito imundo que dominava um homem enquanto ele
ensinava na sinagoga em Cafarnaum, que disse-lhe:"Ah! que temos contigo,
Jesus Nazareno? Vieste destruir-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus"
[Mc 1.24]. Cristo, então, ordenou que se calasse e expulsou o espírito
do homem. Uma outra vez, um gardareno que era dominado por uma legião de
demônios,clamou: "Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo?
Conjuro-te por Deus que não me atormentes" [Mc 5.7]. Em ambos os casos,
parece que os espíritos imundos tentavam dissuadir o Senhor a não
expulsá-los, deixando-os em "paz" em seu trabalho de tormento das vidas
humanas. Ao afirmarem uma verdade, esperavam que Cristo se condoesse
deles, e permitisse que continuassem a assolar as vidas que controlavam.
No caso dos apóstolos é interessante notar que eles permitiram que a
jovem os seguissem por muitos dias, o que nos deixa encucados. Paulo
poderia, simplesmente, tê-la afastado desde o primeiro momento, ao invés
de deixá-la segui-los. Qual seria o seu intento? O momento exato de
libertá-la? De testemunhar o poder de Deus? Ou, simplesmente, ele queria
que, no tempo exato, todos soubessem que eles não tinham parte com ela,
e de que mesmo dizendo a verdade, a sua motivação não era verdadeira
pois provinha do inimigo. Certamente, como nos casos em que os
espíritos testificaram a filiação divina de Cristo, o espírito
adivinhador queria uma "trégua" ou "a paz" com os apóstolos, de maneira
que continuasse a sua dominação na vida da serva. Não sabemos ao certo o
porquê de Paulo e Silas permitiram que elas os seguissem, mas o fato é
que, no decorrer dos dias, Paulo ficou perturbado. A ideia é de que o
seu espírito mudou, saindo da serenidade para a agitação. E tão logo
isso aconteceu, ele voltou-se para a jovem e disse ao o espírito: "Em
nome de Jesus Cristo, te mando que saias dela. e na mesma hora saiu" [v.
18]. Temos aqui a certeza de que Paulo não estava falando apenas com
uma mulher que tinha um distúrbio mental, mas expulsa a um demônio. Não
há meio termo ou alegorias na passagem, mas uma ação direta. E o
apóstolo não gastou tempo conversando com o espírito, ridicularizando-o
ou exibindo-o como um troféu. Fez o que tinha de fazer, objetivamente,
para o bem da jovem, e para o bem do evangelho, confirmando a autoridade
pela qual foi investido por Deus como mensageiro das boas-novas. Mesmo
que a jovem estivesse proclamando uma verdade, o espírito que nela
habitava tencionava obter frutos para o seu senhor, mas Paulo teve o
discernimento exato de que aquilo não podia continuar, e de que toda
aquela encenação demoníaca deveria acabar, como acabou.
Graça e paz Jorge.
ResponderExcluirCreio que mesmo hoje esse dom seja de extrema importância, pois, apesar de termos uma teologia bem firmada o diabo continua atuando e sutilmente infiltrando falsos ensinos. E se não tivermos esse agir de em nós poderemos nos deixar levar pelo seu engano. O "bicho é rabudo" e sagaz e penso que sem a ajuda de Deus sejamos presas fáceis dos seus falsos ensinos.
Mas uma coisa é certa, onde não há firmeza na sã doutrina existe um excelente lugar de atuação do diabo. Aliás, ele já estará atuando em tal lugar.
Que o Senhor nos ajude a sermos vigilantes para não nos deixarmos ceder ao engano, mas que possamos expulsar o espírito maligno que aparentemente procede de Deus, assim como Paulo fez. Que o Senhor nos dê esse discernimento.
Fique na Paz!
Pr. Silas Figueira
Pr. Silas,
ResponderExcluircomo vai, meu irmão?
Sim, entendo que o discernimento do espírito, mais do que uma manifestação sobrenatural que visava testificar a revelação na Igreja Primitiva, caminha hoje em consonância com o Cânon Sagrado, mediante a atuação do Espírito Santo. Não somente no sentido de se entender a doutrina, mas de ser capaz de praticá-la, também.
Excluir a ação do Espírito não foi a minha intenção, e seria louco se o fizesse. Mas como temos pronta e acabada a Revelação Especial, como norma e regra de fé e vida cristã, não há mais a necessidade de alguns homens para corroborá-la, visto todos os crentes estarem aptos para tal [ao menos, em princípio].
Cabe à Igreja preservar a pureza e fidelidade do Evangelho, combatendo incessantemente os falsos mestres, profetas e suas heresias, fazendo a minha a sua oração.
Grande e forte abraço, meu irmão e amigo!
Cristo o abençoe e aos seus queridos.