22 abril 2022

A Humilhação, de Philip Roth

 





Jorge F. Isah



Um artista renomado, uma lenda viva do teatro, o último dos grandes atores, a figura emblemática, lendária e consagrada, este é Simon Axler, a história viva dos palcos americanos. O que poderia acontecer-lhe de pior? Perder o talento, a capacidade de interpretar? O sentido da vida? A própria vida? A saúde? O controle? O fracasso é inevitável? Ou seria possível suportar as perdas e reconstruir-se?... Já no primeiro parágrafo é possível se fazer essas e outras tantas perguntas, ao se ler:

“Ele perdera a magia. O impulso se esgotara. Ele nunca havia fracassado no teatro, tudo o que fizera sempre fora vigoroso e bem-sucedido, e então aconteceu esta coisa terrível: ele não conseguia representar. Subir ao palco tornou-se uma agonia.”

Philip Roth nos apresenta o principal dilema na vida do herói, um homem em declínio, nocauteado, a beijar a lona sem forças para se erguer, fustigado pelo passado glorioso, enquanto a encará-lo está o presente e futuro indignos.

“Humilhação” nos agarra inesperadamente, quase à força, e nos arrasta por suas páginas a conhecer o declínio, o crepúsculo do ícone entregue à própria incapacidade de se soerguer, de retomar o caminho ou, talvez, convergir a outro não tão glamoroso, mas ainda assim capaz de trazer-lhe a esperança de dias menos brilhantes mas viçosos e alentadores. Simon é um fatalista, niilista e, portanto, pessimista quanto ao seu destino. E não existem fatores externos a produzir desânimo e tristeza, pois a fonte das suas dores está em si mesmo, na negação, na autossabotagem, impedindo-o de recriar-se, de estabelecer novos vínculos e projetá-los para o amanhã. Resta-lhe então perder-se no passado, e colocar-se nele como fraude, embuste, nada do que viveu foi real, verdadeiro; e se sua vida constituiu-se de ensaios, atuações e prêmios, além de fama e reconhecimento, ele não viveu, não se realizou. A amargura assoma-o de tal maneira que não existe espaço para mais nada além da frustração de ter sido um “malogrado sucesso”.

Axler é um homem velho, solitário, e recusa qualquer ajuda, como um naufrago submergindo às ondas ciclópicas, nega-se ao socorro, afogado em seu orgulho, imerso em queixas, desprezo e autoestima, ainda que esta lhe traga vergonha e desgraça. É exatamente por não ser mais aquele grande homem do passado que está a negá-lo e a si mesmo. Teria a sua vida se misturado às dos seus personagens, em tantas tragédias, dramas, paródias e comédias? A torná-lo inábil, incapaz de se distinguir além das técnicas e arte? Aos sessenta e cinco anos, dores terríveis nas costas, chegando a imobilizar uma das pernas, sem família, sem amigos, não estaria em um palco, monólogo em curso, diante de uma plateia de cadeiras vazias? Permanentemente abandonado?... Esta foi a sua escolha, dentre tantos movimentos explícitos e furtivos de subjazer-se ao aparente, o seu adequado personagem valer-se do homem. Porém, o homem se rebela contra o personagem, e leva Simon ao sofrimento, à tristeza, ao desamparo, à quase loucura, a internar-se em uma clínica psiquiátrica; e para tanto é necessário o homem morrer e pôr fim às mentiras impostas pelo personagem.

No segundo ato, ele se reencontra com Peggeen, filha de amigos que viu nascer, e agora, aos quarenta anos, surge em sua vida como a tábua de salvação. Aqui, neste ponto, Axler tenta desesperadamente a redenção, ao mesmo tempo em que Peggeen também procura o recomeço, após viver uma relação homossexual frustrada, em que sua parceira decide, à sua revelia, transformar-se em um “homem” heterossexual, por meio de hormônios e cirurgias (digo, amputações: ou arrancar os seios seria o quê?). Duas personalidades erráticas se encontram, e nada pareceria mais improvável, ao mesmo tempo possível, do que a cooperação de almas aflitas e desconectadas da realidade, ou melhor, em um estado de hipérbole realista, onde parecem lançar-se para baixo, uma curva onde os focos são diferentes mas se vislumbra apenas a autodestruição. Se havia a confluência de escolhas e desejos, a aparentar solução dos dilemas, ele se mostrou frágil e efêmero, como um fio podre e quebradiço a conduzir as suas almas sobre o abismo. Enquanto Peggeen deixou-se modelar, reconstruir-se pelas mãos inseguras de Simon, este imaginou redimir-se no papel de “Criador”, ao transformar a amante, de homossexual no estilo “Joãozinho”, a uma heterossexual feminina e sedutora. A momentânea submissão de Peggeen se releva desesperadora, forçosa e débil, quase pantomímica; e a obstinação de Axler em reconduzi-la à naturalidade deixou-o inebriado com a sensação de controle, da situação exterior se refletir em equilíbrio ao seu interior arrasado pela descrença e ceticismo. Por um tempo, a esperança pareceu real, a expectativa vindoura de nova vida, novos rumos, a promessa de realização presumível.

A ideia do sexo e os necessários malabarismos e esquisitices a fim de sustentar o relacionamento provou-se frágil, enganosa, cuja escolha tornou-se ainda mais dolorosa, devastadora, quando extinguiu-se em si mesma, após alguns meses. Aqui temos o terceiro e último ato. Interessante que, no primeiro momento, o que se afigurava apenas apelativo e pretensioso (a narrativa de vários momentos de volúpia irrefreada) configurou-se em crítica, de Roth, ao vazio e insano valor que as pessoas dão aos desejos, ao irracionalismo, o verdadeiro “carrossel de emoções”, onde a gangorra da insegurança e desatinos não preenche as lacunas deixadas na alma, antes as põe a ferros, impenetráveis, sem a menor possibilidade de serem completadas ou satisfeitas. Constrói-se camadas e camadas de insatisfação e desgosto, ao ponto em que fugir, seja voltar-se à vida pregressa, no caso de Peggeen, ou aos planos interrompidos de Axler, tornam-se a única saída. O homem moderno, tão cheio de si, autossuficiente, a proclamar em bom som a sua autonomia, é presa fácil para o mundo cada vez mais pálido, inseguro, cinza e sem qualquer piedade aos maneirismos e vaidade, mais especificamente com aqueles dispostos a erguer um altar a si mesmos, e, no fim das contas, tornarem também a imolação, o sacrifício voluntário ao domínio da vontade; quando o preço a ser pago é a supressão da consciência, do fundamento, da vida. Então, restou a Simon ver suas forças exaurirem-se, e, por fim, ser completamente humilhado.

Ao final, até mesmo o personagem apagou-se. O esplendor fátuo entregou-o às sombras do tempo... no encerrar do último ato.

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Avaliação: (***)

Título: A Humilhação

Autor: Philip Roth


Páginas: 104

10 março 2022

O anti best-seller em "Grandes Esperanças", de Charles Dickens

 




Jorge F. Isah


É um livro fabuloso, em vários sentidos, e não poderia abarcar todos em uma simples resenha, talvez em um longo ensaio, mas não é este o objetivo. Quero ater-me à capacidade impressionante, e quase hipnótica, com a qual Dickens seduz e captura o leitor. De maneira que se torna impossível abandoná-lo, mesmo diante de quase mil páginas. Sim, é volumoso não apenas quanto ao número de laudas, mas quanto a profusão de personagens, lugares, descrições e sentimentos aflorados, expressos ou implícitos. Talvez, por isso, tenha me sido difícil sequer iniciar a escrita desta resenha, tal o grau de complexidade da narrativa se apresentava. Vinha-me tantas coisas à cabeça, ao mesmo tempo, que não sabia ao certo por onde começar. Porém, tudo tem um começo, e o meu se dá assim, em dizer ao caro leitor: escrevo não para desnudar a obra, mas apresentá-la do melhor jeito a fim de que se interesse em lê-la e desvendá-la.

Simplesmente, não há como ser ou ficar indiferente a uma só linha, a uma descrição, ação ou reação no enredo. Pode-se gostar ou não, e gosto não é, na maioria das vezes, a melhor forma de se avaliar um livro, música, filme ou qualquer outra coisa. Antes ele deve se subordinar ao caráter objetivo, intelectual e emoção à qual se está exposto. O crivo para a crítica jamais pode ser algo apenas questão de ânimo, simples paladar ou sensação, sem a habilidade e análise dedicada e criteriosa. Ou seja, literatura de qualidade não é apenas diversão, mas se mede com o equilíbrio da meditação e discernimento, o escrutínio de frases, parágrafos, capítulos, necessários à compreensão da mensagem, ou mensagens, entregue pelo autor. Não é uma ciência exata, algo a se imprimir rigor extremo, porém não pode tornar-se banalizada pelo capricho ou achismo, sem o exame íntimo, a capacidade de influenciar e alertar o leitor para as verdadeiras e essenciais questões a trazer sentido e revelação sobre a vida. Portanto, ao ler, ouvir ou ver qualquer obra de arte, não diga que é “bonitinha”, “engraçadinha” ou “legalzinha”, mesmo que a deteste profundamente, fuja do clichê, confronte-a consciente, e dê a definição, mesmo que não seja precisa e exata, do seu conteúdo, e o porquê de abominá-la.

Posto isso, o que dizer de “Grandes Esperanças”? Em muitos aspectos a temática do jovem órfão (tanto de Oliver Twist ou David Copperfield) está presente, com todos os aspectos trágicos, dolorosos e injustos aos quais os desamparados estão sujeitos. Não é diferente com “Pip”, sem pais e criado pela irmã, inflexível, severa e cruel, casada com Joe, um homem simples, ingênuo, bondoso e cujo coração é incapaz de revidar as agressões da mulher, habituada a tratá-lo com desprezo e violência física. Ele é uma alma terna, branda, benigna, e vê em Pip não o fardo ao qual a esposa se refere sempre, mas o amigo de infortúnios, cúmplice das mazelas pelas quais a vida arrocha. Ambos têm na comunhão, nos poucos momentos de solidão mútua, o descanso e alívio para o dia a dia conturbado, no qual esposa e irmã insiste em impor-lhes.

Quase todas as personagens à volta de Pip lhe são hostis, à exceção de Joe, como dito, Bitty, a amiga e professora, Herbert, futuro amigo de Londres, Wemmich e Magwitch, o “anjo da guarda” do órfão. Então, não é difícil imaginar as diversas situações em que o caráter de Pip é testado, diante de pessoas incapazes de agirem sem o desejo (mesmo inconsciente) de prejudicar e subjugar a pobre alma. E, entre elas, Dickens expõe as misérias sociais, mas também, e sobretudo, as moléstias e feridas individuais, sem as quais a sociedade não seria como era, ou não seria como é. Ou seja, ele fala, descreve, a humanidade, a nossa essência, de tal maneira que é possível, em um único ser, coabitar o mal e o bem, a mentira e a verdade, moral e cinismo, indiferença e arrependimento... Todos, não somente eles mas também nós, estamos diante dessa realidade, enquanto alguns satisfazem-se na perpetuação do mal, o descaso com o próximo, notabilizando-se naquilo a torná-los mais execráveis e hediondos, outros buscam a redenção, transformar, aperfeiçoar-se e serenar todas as guerras, em busca da paz interior, a despeito de haver ou não trégua do lado de fora.

Alguém pode aludir que esse estado de coisas nada mais é do que egoísmo disfarçado de superioridade, mas inquiro-o: é possível fazer a paz com o mundo se existisse a guerra no íntimo? O orgulho promove a guerra interna e externa, enquanto a caridade, em princípio, vê no outro aquilo a ser visto em si mesmo, com todas as suas implicações para o bem ou o mal. É entender o outro como deseja ser entendido, mesmo que não seja, e se não é possível o acordo e o fim das disputas, deve-se, no mínimo, não encorajá-la, antes esmorecê-la. Como Jesus diz: “Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem” (Mateus 5:44)... Desta forma, Pip descobre, com o passar dos anos, a verdadeira essência da vida, e de as “grandes esperanças” inicialmente vista como acaso ou sorte, se declarar providência e servir, ao mesmo tempo, de queda mas também de escada para compreender o seu lugar no mundo, e se relacionar saudavelmente com ele. Foi preciso adentrar a escuridão completa para desejar a luz e apreciá-la... Não é assim com todos, em maior ou menor grau?... Há, contudo, aqueles incapazes de anelar e perseguir a luz; para eles existem apenas breu e trevas, nada além da própria cegueira.

Algo notável em Pip é o fato de, em boa parte da infância, viver com o estigma do medo, da apreensão, à espera de castigos, reprimendas e sanções. À medida em que os anos se passavam, e sua vida se transformava radicalmente, persistiam medo e apreensão, não mais em relação aos outros, mas a si mesmo, de as grandes expectativas se transformarem em fracasso, de não alcançar aquilo que sempre desejou, de frustrar a si e suas promessas. Não é difícil notar o desregramento, a futilidade, a ingratidão, e o esforço estéril em fugir do passado, do presente, sem perceber o quão distante e improvável era-lhe as ambições futuras... O curso da vida sinalizava-lhe um horizonte nada auspicioso; talvez, por não levar a sério os alertas, optou em desprezá-los, não conseguindo suprimi-los ou derrotá-los.

Se você espera apenas se distrair, esqueça “Grandes Esperanças” ou qualquer outra obra de Dickens. Se busca um enredo histórico, saiba que ele transcende, em muito, a este detalhe. Se for uma trama de época, vale a mesma observação. Se for curiosidade, talvez se satisfaça, não pela curiosidade em si, mas pelo que ela o incitará a descobrir, ou, em outras palavras, descortinará de si mesmo enquanto lê; pois está a falar do âmago humano, do qual todos somos partícipes, uns mais outros menos, sem exceção.

Charles Dickens, como a maioria dos autores do século XIX, escrevia seus romances em periódicos, semanalmente, e foi um dos mais famosos de seu tempo, se não o mais famoso. Alguns dizem ser o equivalente aos autores de best-seller da atualidade, em nível de popularidade e vendas. Não consigo, por mais esforço dispenda, encontrar um único autor líder de vendas que seja ao mesmo tempo simples e profundo, pessoal e universal, peculiar e geral, característico e abrangente, como Dickens. A expressão “best-seller” tornou-se sinônimo de vulgar, ruim, comercial e descartável ao longo do tempo, e se existe uma coisa da qual Dickens não pode ser acusado é disso. Reputá-lo também como um mero contador de históricas ou fazedor de tipos, seria reduzi-lo a algo que jamais foi ou será, bastando ler qualquer das suas obras para se certificar desse engano... Talvez, e somente talvez, haja um “torcer de nariz” por conta da linguagem acessível, límpida e fluída, elegante e refinada, quase poética, a compor o texto, sem hermetismos, dubiedades e pedantismos típicos a agradar boa parte dos críticos e vanguardistas das artes. Para esses, se uma obra não for ininteligível, confusa e estanque não é arte, mesmo que se disserte e delongue sobre o extenso vazio de sua concepção. No caso, Dickens não somente tem muito a dizer, mas o diz, para leigos e peritos, doutos, eruditos ou simples mortais. Qualquer um pode, na medida do possível, apreender e apropriar-se da diegese, da realidade a fluir das suas centenas de páginas.

Portanto, sem citar Estela, Miss Havisham, Mr. Jaggers, Drummie, Mr. Pumblechook e tantos outros vultos imprescindíveis à compreensão da história e repletos de humanidade, deixo ao leitor essas parcas impressões que, contudo, espero ser suficientes para aflorar o desejo de tomar esta obra em suas mãos, degustá-la (mesmo indigesta, em vários pontos), e então compreender toda a complexidade, íntima e abissal, do homem. E Dickens é um dos maiores embaixadores ou representantes do espírito e coração a emanar da nossa natureza.

Leitura recomendadíssima!


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Avaliação: (*****)

Título: Grandes Esperanças

Autor: Charles Dickens

Páginas: 704

Editora: Penguin

Sinopse: 

“Grandes Esperanças” é, sobretudo, um romance de redenção e perdão de seus protagonistas: Narra a história de Philip Pirrip, ou simplesmente Pip, órfão criado pela irmã EM um ambiente de pobreza, Pip vive na casa de sua irmã mais velha, casada com um ferreiro do vilarejo. São pobres, mas não miseráveis, porém, o que aflige Pip, e seu cunhado e único amigo Joe Gargery, é a truculência com que são tratados por Mrs. Joe"





21 fevereiro 2022

O Idiota, de Dostoievski: A rejeição do bem

 



Jorge F. Isah


A primeira vez que li “O Idiota” foi antes de completar meus dezoito anos; um exemplar emprestado à Biblioteca Pública de Minas Gerais, quando os livros eram realmente caros (ainda o são, mas não tanto como antes) e a possibilidade de tê-los, mesmo por um par de semanas, era através dos poucos e imprescindíveis acervos públicos, aos quais incluo o Sesc, Sesi, etc. Porém, em BH, nenhum deles tinha o conjunto de obras tão vasto e diverso quanto a B.P.E.M.G. Foi lá que tomei conhecimento de autores nunca citados, sequer ouvidos, como André Gide, Sinclair Lewis, Salinger, Dos Passos, Maupassant, Prost e Camus, entre outros. Boa parte da minha adolescência gastei-a em tardes vasculhando as estantes e a folhear quase todos os livros ao alcance dos olhos e das mãos. Podia-se levar apenas dois exemplares para casa, o que significava a ida duas ou mais vezes por semana a fim de devolver e pegar outros volumes. Com o tempo, e a experiência, comecei a tomar livros cada vez mais grossos, no intuito de ir não mais de uma vez por semana. Há de se entender que as condições de se arcar com o custo das passagens de ônibus, de casa ao centro, era algo oneroso para um ginasiano morador da periferia. Minha mãe se esforçava em custeá-las, mas não era justo expô-la a um sacrifício desnecessário. Por mais de vinte anos fui habitué daquela casa, ao lado do antigo Palácio do governo, na Praça da Liberdade. Posto isso, não o escrevo para me vitimar ou coisa que o valha, mas fazer o leitor entender a importância da literatura em minha vida; não fui o melhor leitor, com certeza, e nem sei se sou um bom leitor hoje, entretanto era-me, assim como é, algo indispensável.

Acalentava, havia algum tempo, o desejo de reler “O Idiota”, e apagar algumas das impressões absorvidas e que me fizeram, de certa forma, odiar o protagonista, príncipe Liév Míchkin. Vou explicar: naquele tempo, talvez a imaturidade ou arrogância, sei lá, o herói tinha de ser alguém capaz o suficiente de ser dono do próprio nariz, não quanto à sabedoria ou capacidade de escolhas lógicas e virtuosas, mas à rebeldia, a quebra dos padrões morais e institucionais (sim, a mentalidade revolucionária estava presente e atuante), e nem mesmo o amor poderia ser sacrificial, auto negador e cordial. Talvez a leitura de o “Apanhador no campo de centeio”, poucos dias antes, influenciou na aversão ao príncipe; pois, para mim, era impossível existir uma alma tão pura, benigna, tolerante e pacificadora como a dele... Haveria alguém assim no mundo? Dostoievski não estaria a construir um indivíduo utópico, insólito e extravagante? Quem se disporia a ser assim? Se angustiar e punir por não ser ainda melhor?... Em nada se parecia com o mimado e rebelde Holden, de Salinger. E isso pode ter pesado muito no meu desagravo.

         Havia ainda o fato de Míchkin ser uma personagem completamente despojada de vaidade, orgulho e, pode-se dizer, amor-próprio. A alcunha de “idiota” parecia cair-lhe bem demais, e a isso acabou por acostumar-se e, algumas vezes, reconhecer publicamente. Nem pessoas definitivamente asquerosas e perversas como Rogójin, Ippolit, Liébediev eram afastadas do seu convívio, tratando-as generosa e fraternalmente, perdoando-as mesmo sem que pedissem, enquanto tramavam às suas costas. Para mim, o pior de tudo era o príncipe saber quem eram e seus feitos, de não estar iludido quanto a qualquer um deles, e mesmo assim reservar-lhes clemência, misericórdia, compreensão. Se ao menos estivesse enganado ou desconhecesse suas índoles, ambições e condutas, eu entenderia; mas não era o caso, parecia que quanto mais íntimo de suas indignidades, mais permitia estarem à sua volta, rodeando-o à espreita.

         Pois bem, parte dessas sensações persistiram na segunda leitura, a diferença é que, tendo hoje uma cosmovisão cristã que não tinha à época, consigo entender os motivos pelos quais Dostoievski criou um personagem tão abnegado e altruísta. Ele é o molde, o exemplo de Cristo, e de muitos santos a permear a história. Nitidamente é padrão de santidade que o autor imprime, num momento histórico no qual as pessoas são cada vez mais interesseiras, egoístas e dispostas aos conflitos e vinganças. O príncipe Míchkin é um puro, de uma pureza quase ingênua mas sábia, incapaz de julgamentos apressados, de sentenças imediatas, de rancor e desforra. E assim, aos olhos dos homens comuns, não passa de idiota, incapaz de compreender as pessoas e suas ações, disposto a sacrificar-se pelos pecados alheios, sem qualquer esperança de ser reconhecido em seu esforço. Ele o faz por si mesmo, a sua ética e moral não estão associadas aos favores de outrem, mas exclusivamente pela sua incapacidade de aspirar o mal e ser incompreensível; como se ao presenciar a inaptidão das pessoas em decifrá-lo, em penetrar-lhe o íntimo, o insuflasse a entendê-los em suas desordem. Neste sentido, eles são os idiotas, em seus rompantes e desejos primitivos... Há de se lembrar também o fato do príncipe ter características do Dom Quixote de Cervantes, e até mesmo uma explícita alusão, apelidado por Aglaia, ao compará-lo com o “Cavaleiro Andante”; acabando por ser mais um motivo de zombaria e desprezo no seu círculo (a intenção de Aglaia não é de pilhéria, mas realçar características a tornarem o príncipe tão simpático e, talvez, romântico, aos seus olhos; entretanto, ninguém considera-o dessa forma).

Toda essa ligação religiosa com o cristianismo tem a finalidade de combater o niilismo, sendo aquele o antídoto para este. Em vários momentos, o príncipe discorre sobre o assunto postulando ao cristianismo a superioridade em relação a outros sistemas, em especial a única maneira de combater e erradicar o niilismo das terras russas. Talvez, por isso, em um mundo onde as correntes apontavam para uma existência sem sentido, onde tudo era infundado e reduzido ao materialismo imediato, ele defendia valores incompreendidos e impossíveis numa sociedade viciada pelas aparências e a confusão dos sentidos. Para ele, nada podia ser meramente aparente; nada poderia ser desconectado da essência humana que, em não poucos sentidos se ligava a Deus. Atacado por todos os lados, tentou resistir, mas até mesmo alguém desprendido e generoso se perde em suas dúvidas; não que elas se relacionassem à corrupção ou imperfeição do bem, mas se ele era capaz de consegui-la pelos seus próprios meios e esforços, se não havia nada mais que pudesse fazer a fim de colaborar para a manifestação das mais sublimes virtudes. Ele desejava ser bom não porque isso traria benefícios a si mesmo, mas os direcionava ao próximo, e era o fundamento da natureza humana.

A cena final do livro, em que ele afaga piedosamente a cabeleira de Rogójin, após este cometer desatino movido por vingança e orgulho, demonstra o quanto o príncipe se compadecia, e até certo ponto entendia, o sofrimento e as consequências de vidas tresloucadas, firmadas no individualismo, no egoísmo, na crença de nada ser importante, de não haver fundamentos, se não se pode alcançar... E se o alcança, qual a razão para se tê-lo? Resta, no fim, a loucura, os pecados, a transformar semelhantes em explícitos inimigos. E Míchkin enlouquece, não por si mesmo, mas pela incompreensão que, via de regra, leva-o a não entender a si; e os seus “sacrifícios” são mistérios, quando não ignorados são tratados com preconceito e violência.

Reler, portanto, O Idiota, fez-me encontrar elementos e pontos não identificáveis ou esquecidos nos longínquos anos da primeira leitura. Não é um livro fácil. Suas mais de 700 páginas não devem, contudo, tornar-se empecilho ou entrave para o leitor se privar de um livro magistralmente escrito, onde não se encontra o homem ideal, aos moldes ideológicos e comportamentais planejado neste tempo, como um quebra-cabeças planificado, montado com apenas um modelo de peças, sem se encaixar em nenhuma outra e produzir a imagem geral da humanidade. Dostoievski não produz mentes seriais, clones de um mesmo doador, mas destrincha, investiga, extrai o de mais verdadeiro, e também falso, a habitar este ser dual: indivíduos e suas gentes. Por isso, e o deleite de ver-se, de alguma forma e em alguma proporção, nas personagens  do velho e bom Fiodor somente pode trazer o conhecimento, a intimidade, da qual as gerações posteriores a ele se especializaram em negar, a privar-se; e, assim, como muitos se especializaram, criar um arquétipo de si mesmo, confundir-se e ignorar quem seja e o que seja.

Leitura imprescindível.   

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Avaliação: (*****)

Título: O Idiota

Autor: Fiodor Dostoievski

Tradutor: José Geraldo Vieira

No. Páginas: 712 

Editora: Martin Claret

Sinopse: "O idiota é uma das obras mais comoventes de Fiódor Dostoiévski. Abstrusa para os contemporâneos do escritor, mas atual e compreensível para quem a conhecer em nossos dias, ela conta a história de um jovem aristocrata russo que se atreve a defender o sublime ideal humanista numa sociedade regida pelas leis do livre comércio. Ovelha negra da alta-roda de São Petersburgo, o príncipe Míchkin é tachado de idiota em virtude das suas qualidades morais e acaba perdendo de fato o juízo."




15 fevereiro 2022

Sermão em 2Coríntios 1.3-10: O Deus que consola!

 



Jorge F. Isah


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INTRODUÇÃO


“1. PAULO, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à igreja de Deus, que está em Corinto, com todos os santos que estão em toda a Acaia.”


Paulo afirma três coisas:

- Ele é apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus; ou seja, foi chamado por Cristo especificamente para o apostolado. A palavra apóstolo, do grego απόστολος (apóstolos), significa enviado, aquele escolhido diretamente por Jesus e encarregado de levar as “boas novas” aos perdidos. Portanto, não é possível haver apóstolos nominados como tais em nossos dias, já que nenhum deles foi “diretamente” chamado a esse ministério pelo Filho. Qualquer um que se autodenomine “apóstolo” está usurpando o direito exclusivo do nosso Senhor, ferindo a sua autoridade.

- Ele nomeia como testemunha de tudo o que relatará na carga a Timóteo, a quem se refere como irmão;

- E a carta se destina à Igreja de Deus que está em Corinto, mas não somente lá, na cidade, mas em toda a região da Acaia. Para situar os irmãos, Acaia era uma província romana onde hoje é a Grécia Central, e Corinto era a segunda cidade em importância da região, perdendo apenas para Atenas. Havia em Corinto dois portos movimentadíssimos, fazendo dela uma cidade rica, próspera e de intenso comércio.

- Paulo escreveu esta carta por volta do ano 55 ou 56 D.C.


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“2. Graça a vós e paz da parte de Deus nosso Pai, e da do Senhor Jesus Cristo.”

- Paulo saúda os irmãos a expressão equivalente a do A.T., quando os autores se referiam ao Senhor como o “Deus de Abraão, Isaque e Jacó”. Assim, no N.T. temos os autores felicitando os irmãos com a expressão “Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”, ressaltando a divindade de Cristo e a sua geração eterna pelo Pai.


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“3. Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus de toda a consolação;”

- Paulo louva, glorifica a Deus, utilizando-se da expressão “bendito” que significa “aquele que só faz o bem; aquele que é todo o bem”.

- Antes de relatar as tribulações e lutas, ele exalta a Deus, ao nomeá-lo o Pai das misericórdias ou misericordioso, indicando que Deus não é somente cheio de misericórdia, mas ele é a fonte, a origem de toda a misericórdia.

- Igualmente ele é o Deus de toda a consolação; não há nada nem alguém a suplantá-lo no conforto, na paz e alegria concedidas.



DESENVOLVIMENTO


“4. Que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, com a consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus.”

- Entramos agora no cerne da nossa meditação: o Deus que consola.

- Primeiro, somos consolado porque somos afligidos, atribulados, entristecidos, perseguidos, torturados. Só haverá consolo se houver tristeza e dor; do contrário, qual o motivo da conforto?

- Segundo, a relação é sempre de Deus para os seus filhos. Assim como amamos porque Deus nos amou primeiro, somos capazes de consolar porque ele nos consola. E neste sentido, sendo o Senhor governante de toda a Criação, podemos compreender que o sofrimento faz parte do plano divino, sendo nós quem infligimos a dor ao nosso próximo.

- Com isso, não estou a dizer que cada um de nós, em sã consciência, batalhamos para fazer os outros sofrerem, não é isso.

- Entretanto, não podemos descartar as consequências da Queda, da desobediência a Deus, e da qual participamos juntamente com Adão, sendo prometido a ele e a nós os efeitos e resultados das nossas transgressões.

(Ler Gênesis 3:11-19 – Discorrer rapidamente sobre o resultado do pecado)

- Ou seja, o mal e todas as suas sequelas são oriundas do pecado, e somente podem ser produzidos pela criaturas caídas, homens e demônios. E essa é a única e verdadeira explicação para o mal, as tristezas, as tribulações neste mundo. E não devemos esquecê-las, no sentido de não florear ou escorregar para desculpas e falsas definições: o mal e a dor são responsabilidade nossa, e imputá-las a Deus é elevar-nos a nossa injustiça ao mais alto nível de pecado e iniquidade.

- Por isso Paulo, em momento algum, reputa a Deus a origem dos males que o assolaram, o sofrimento ao qual foi exposto como mensageiro das boas novas do evangelho de Cristo.

- Podíamos vê-lo se rebelar, lamuriar, maldizer aos céus contra as adversidades e reveses da vida, mas não. Ele não somente glorifica a Deus, mas reputa a ele toda a bondade e misericórdia e consolo com que foi agraciado, fortalecido, e sustentado.

- Veja bem, o apóstolo nos fala de graça sobre graça, algo não merecido e recebido apenas como favor e bondade divinas. Nada mais. Nenhum mérito de Paulo. Nenhum arranjo de Paulo. Nenhum sacrifício de Paulo. Apenas o amor infinito com Deus o amou desde antes da fundação do mundo. Graça imerecida, e por isso, graça apenas, mas também graça completa e plena emanada do bom Deus.

- Nos fala ainda de sermos consolados somos capazes de consolar. Aqui existe claramente a lição de ser o consolo aprendido, algo experimentado e então possível de ser distribuído. Entretanto, não é um consolo fracionado, imperfeito, mas um dom concedido a Deus para cada um disposto a aprender e se submeter ao ensino divino, e, então, levar exatamente o que recebeu; entregar ao próximo aquilo com que foi presenteado, gratuita e amigavelmente, como nos foi dado.



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“5.Porque, como as aflições de Cristo são abundantes em nós, assim também é abundante a nossa consolação por meio de Cristo. 6. Mas, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação; ou, se somos consolados, para vossa consolação e salvação é, a qual se opera suportando com paciência as mesmas aflições que nós também padecemos; ”

- Vivemos um mundo hedonista, em que se busca o máximo de prazer em coisas fugazes, seja o sexo, os vícios, o dinheiro, aventuras, ou qualquer outra coisa. O homem moderno busca incessantemente o prazer a qualquer preço, e por isso, por não conseguir se satisfazer plenamente apesar de buscar de todas as formas o gozo, temos milhares, senão milhões de pessoas afogadas nos vícios, em salas de terapeutas que pouco ou nada podem fazer para ajudá-los, entupindo-se com antidepressivos, ansiolíticos, e tantas outras coisas para aplacar, de alguma forma, as frustrações da vida.

- Outra prova de aceitação do conceito hedonista é a Teologia da Prosperidade, a defender propagar o equívoco de que o cristão não sofre, e se sofre é porque não tem fé, pois a tendo, ele viverá neste mundo quase como um Midas, a tornar ouro tudo o que toca. Esse é um grande erro, pois distorce e nega os princípios entregues por Cristo e os apóstolos, ao afirmarem exatamente o contrário:

- Aos cristãos, o Senhor disse que seríamos afligidos, mas jamais derrotados, porque ele venceu o mundo: “Mas não estou só, porque o Pai está comigo. Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” — João 16.32-33

- O que o Senhor está a dizer? Que ele e o Pai são um, e de que o Pai está sempre com ele, consolando-o e confortando-o, mesmo quando todos fugiram e o abandonaram, ele jamais esteve só. Da mesma forma, Cristo estará sempre conosco, independente de sermos abandonados ou estarmos solitários; porque, se estamos nele jamais nos faltará paz, mesmo nas piores batalhas, nas lutas mais cruéis.

- E isto não pode ser apenas um conceito ou dogma, algo apenas intelectual pois, desta maneira, não seríamos capazes de auxiliar e confortar os aflitos. É algo real, a mover a nossa alma na direção de Deus e por ele ser amparado, protegido.

- Claro que, nenhum de nós quer sofrer, sentir dores ou ser afligido por castigos e perseguições. É óbvio que em nossa humanidade a angustia e lágrimas não deveriam fazer parte da vida. O Cristianismo não defende o masoquismo ou o sadismo, distúrbios psicológicos nos quais o homem sente prazer com o suplício e o martírio de si próprio ou do próximo. Não é isso.

- Mas, certamente, você já se deparou com doenças, a morte, a destruição de pessoas e lares pelo vício, a perseguição no trabalho, o desemprego, a fome ou qualquer ou desgosto e tragédia. Podemos simplesmente lamentar e rebelar quando for pessoal; podemos ignorar ou evitar quando for o próximo; mas esta seria a realidade a qual Deus nos chamou?

- Sendo sal e luz neste mundo, devemos propagar o sabor e o brilho de Cristo. E a mensagem dele não é um placebo, como os céticos afirmam, mas factual, efetiva e terapêutica, no sentido de ser o único remédio eficaz para a dor e o sofrimento.

- Se somos participantes das aflições de Cristo também o seremos da consolação.

- Se o próprio Senhor sofreu, por que não sofreríamos também? Ele, justo, santo e perfeito, em sua humanidade passou por inúmeras dores e aflições, seria justo não passarmos também?

- Aqui encontramos o princípio de Cristo ter padecido para ser capaz, também, de consolar. Como está escrito:

“Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote, mas aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, Hoje te gerei. Como também diz, noutro lugar: Tu és sacerdote eternamente, Segundo a ordem de Melquisedeque. O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu. E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem”(Hb 5.5-9)



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“8. Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a nossa tribulação que nos sobreveio na Ásia, pois que fomos sobremaneira agravados mais do que podíamos suportar, de modo tal que até da vida desesperamos. 9. Mas já em nós mesmos tínhamos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos. 10. O qual nos livrou de tão grande morte, e livra; em quem esperamos que também nos livrará ainda”

- O apóstolo então começa a descrever os infortúnios e ameaças sofridas na Ásia. Para ele, Ásia significava a Ásia Menor ou Turquia, local onde ficavam as sete igrejas das cartas do Senhor Jesus no livro de Apocalipse, cuja capital era Éfeso.

- Paulo relata aos irmãos ter passado por grande tribulação. A ideia não é se vitimar ou queixar-se e chamar sobre si a atenção da igreja, a se vangloriar dos sofrimentos infligidos.

- A ideia é antes de tudo mostrar que sendo apóstolo de Cristo sofria como Cristo sofreu, e se ele era capaz de suportar, pela graça de Deus, tamanho sofrimento, também os crentes não estavam isentos da dor e angústia.

- Poucos homens passaram por tantas provações em seu ministério como o apóstolo. Um pouco mais à frente, neste livro, ele relata:

“22. São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São descendência de Abraão? Também eu. 23. São ministros de Cristo? (Falo como fora de mim) Eu ainda mais: em trabalhos, muito mais; em açoites, mais do que eles; em prisões, muito mais; em perigo de morte, muitas vezes. 24. Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um. 25. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo; 26. Em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos; 27. Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejum muitas vezes, em frio e nudez. 28. Além das coisas exteriores, me oprime cada dia o cuidado de todas as igrejas. 29. Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu me não abrase? 30. Se convém gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza.”

- Além dos perigos físicos, perseguições, torturas, atentados e tantos outros perigos, Paulo se afligia com o cuidado da Igreja, com as lutas dos irmãos, a fim de cumprir completamente o ministério recebido do nosso Senhor, sabendo que ele era quem o sustentava.

- Ele entendia que o sofrimento era parte da vida cristã; E que Deus usava-o com dois objetivos:

a) Disciplinar, conforme nos diz o próprio apóstolo:

“E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, E não desmaies quando por ele fores repreendido; Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho. Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? (Hb 12.5-7)


b) Ensino, aprendizado; e este é o teor deste capítulo da epístola, revelar que somente aquele que sofre e é consolado pode consolar o próximo em seu sofrimento.

- Paulo diz que ele sofreu de maneira insuportável, na Ásia. Quanto a isso, não existe consenso entre os eruditos. A maioria aponta para o incidente descrito no livro de Atos 19.23-41, quando, insuflados por Demétrio, um ourives, toda a cidade de Éfeso se levantou contra Paulo, por causa da deusa Diana.

- O apóstolo não foi específico quanto ao incidente, podendo ser esse ou outro, mas talvez a reunião de todos eles, como descreveu no capítulo 11.

- E ele fala de “sentença de morte” contra ele, de maneira que a vida se lhe tornou desgostosa. E uma sentença tão terrível, quase as portas da morte, que ele compara o livramento, a libertação de Deus daquele sofrimento, como a ressurreição dos mortos. Ele não está a falar na ressurreição no fim dos tempos, quando todos seremos renovados, ganharemos novos corpos, e seremos santos e perfeitos como é o Senhor Jesus. Mas ele equipara a “salvação” divina daquela morte como a ressurreição, tala forma como ela se apresentava para ele, inexorável, inevitável.

- Mas havia uma razão, e sempre existe, para nos sentirmos frágeis e incapazes diante das contingências da vida: porque não somos nada sem a graça de Deus.

- Sim, é a graça divina operando em nós que nos torna fortes e capazes de vencer as lutas; na verdade, vencemos porque, como o Senhor Jesus disse, ele venceu e nos deu a vitória a nós. A vitória é sempre dele, e é por ele que alcançamos êxito nos piores momentos, nas piores crises, para não depositarmos a confiança em algo indeciso e hesitante: nós!

- Por isso, a ordem é para confiar em Deus, e somente nele depositarmos todas as nossas esperanças, porque ele prometeu cuidar de nós, como Pai zeloso; ele nos prometeu jamais nos abandonar, e de sermos um com ele; e descansarmos, repousarmos em sua segurança e poder e amor.

- Paulo, certa vez, pediu ao Senhor para tirar-lhe um espinho na carne, e por três vezes orou; qual foi a resposta de Deus? “A minha graça te basta!” (2 Co 12.7-9).

- Entendamos isso de uma vez por todas, a graça de Deus é tudo, e ela não somente deve mas tem de nos bastar, mesmo que afligidos, como o apóstolo por um incômodo, doloroso e vergonhoso espinho na carne. E Deus usou esse flagelo para aperfeiçoar, para fortalecer Paulo, fazendo com que o poder de Cristo habitasse nele.


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10. "O qual nos livrou de tão grande morte, e livra; em quem esperamos que também nos livrará ainda"

- Por fim, para concluir este estudo, é-nos dito pelo apóstolo, na esperança e certeza das promessas divinas, que o livrou, no passado, aquela morte líquida e certa de que foi salvo; e livra, significando que no presente, naquele momento em que Paulo escrevia a epístola, Deus o estava libertando de outros perigos, de novas ameaças; e ainda de futuras, pois havia a certa de que Deus o livrará novamente.


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CONCLUSÃO

- Evidente que, em certo momento, as perseguições e perigos alcançaram o apóstolo de tal maneira que Deus não o livrou. O preço do pecado é a morte; e mesmo santificado, resgatado e expiado pelo sacrifício de Cristo, Paulo morreria, como morreu. Preso pelos romanos, foi a julgamento e condenado à decapitação, como a História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia, relatou.

- Mas, certamente, a morte definitiva não o alcançou. A separação eterna de Deus havia sido anulada pela graça e o sacrifício de Cristo; e a promessa de estar com ele por toda a eternidade se cumpriu fielmente naquele dia, quando teve o pescoço decepado. Já não mais haveria sofrimento, ou dor, ou ameaças contra ele. Usando as palavras do Senhor Jesus, Paulo poderia dizer: está consumado, pelo amor e graça do meu Senhor.

- Foi ele pois, um homem de dores como era também Cristo, que escreveu:

“33. Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. 34. Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e o que também intercede por nós. 35. Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? 36. Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; somos reputados como ovelhas para o matadouro. 37. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. 38. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, 39. Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Rm 8.33-39)

- Para o próprio Paulo concluir com mais outro escrito:

“55.Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?... 57. Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo.” (1Co 15.55; 57)

- Honra, glória e louvor ao nosso Senhor Jesus Cristo!

- Que ele nos fortaleça e capacite a, assim como somos consolados em nossas tribulações, também consolemos aqueles que estão sofrendo, sempre com a verdade e boas novas e promessas do Evangelho de nosso Senhor!

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Notas: 1 - Sermão ministrado no Tabernaculo Batista Bíblico

2- Para ouvir o áudio da pregação, clique no link   

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31 janeiro 2022

Prefácio ao livro "Debaixo de um carvalho em Ofra", de Luiz Guilherme Libório

 




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Foi com muita alegria, logo após concluir “Debaixo de um carvalho em Ofra”, saber da disposição do poeta e irmão, Luiz Libório, em ler e prefaceá-lo.

Tomei conhecimento desse nobre e talentoso escritor pelos meios mais triviais possíveis, em nosso tempo: as redes sociais. Por um daqueles “milagres”, raras vezes disponibilizados pelo Facebook, tive acesso às suas poesias, diga-se de passagem, são lavras da melhor estirpe (aconselho, a quem ainda não leu, fazê-lo sem perda de tempo); então, primeiramente conheci a obra, e depois o seu autor.

Para não deixar esta introdução longa, resumirei a minha sensação e reação ao receber o prefácio, disponibilizado abaixo: senti-me honrado, feliz e, sobretudo, penhorado, pela generosidade, beleza e sensibilidade com a qual analisou o livro. Como costumo dizer aos amigos mais íntimos, tenho certeza de, muitas vezes, a melhor parte dos meus livros serem de “terceiros”, sem nenhuma falsa modéstia. E este é o sentimento ao ler o preâmbulo de Libório. Portanto, sem mais delongas, dou-lhe as suas palavras , antes me dadas, mas que agora são também de você, doadas pela sublimidade de alguém que ama a arte, e tira dela algo não apenas melhor, mas esplêndido.   

 

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O tempo e seu contrário, a poesia

  

O que em nós está fora do tempo? Não sei o que um dicionário diria, se algo ele pudesse dizer, mas lendo “Debaixo de um Carvalho de Ofra”, livro do caro irmão Jorge F. Isah, e lendo-o à luz do livro universal de toda a criação incalculável, o que em nós está fora do tempo é a poesia (isto é: a eternidade).

Digo isso porque os poemas que neste livro são temporais apresentam-se tanto ao relatar algumas personagens sem nome (como a garota de "Suplício de uma saudade") como outras personagens nomeadas (Rita Hayworth em "tempo das amoras silvestres", por exemplo). Assim, haver nome, não haver, são referências que cabem apenas ao lapso de cada momento: à poesia importa que todos que passam se chamem eternidade.

E, como se também fosse um nome de personagem, “Debaixo de um Carvalho de Ofra” relata-nos a ambiguidade de estar no tempo e falar do que está fora. O carvalho, como sabemos, é uma árvore longeva (pode atingir um milênio de vida) e sentar-se sob sua sombra para guardar-se do sol forte ao meio-dia é sentar-se à sombra da eternidade para não ser queimado pelo sol dos dias que passam.

O posfácio, como integrante da obra, revela-nos outro movimento coerente com a temporalidade que marca a pele destes poemas: Jorge esteve internado por 36 dias logo antes de terminar este livro, 36 dias esteve separado dos seus amigos e familiares por conta da proibição de visitas durante a pandemia de Covid-19. Estar, durante tanto tempo, longe das referências amorosas da vida pode enlouquecer o tino espiritual de uma pessoa. A não ser que esteja sob a sombra de um carvalho em Ofra, isto é, sentado à sombra da eternidade.

“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei. Porque ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa. Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas te confiarás; a sua verdade será o teu escudo e broquel. Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia, nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia.”  (Salmos 91:1-6)

Desta forma, o tempo de angústia trouxe à luz este livro que evidencia, mais do que a tristeza passada, o cuidado de Deus no momento triste; como se uma saciedade infinita só pudesse vir de uma necessidade maior, porque conhecemos o valor daquele que cuida no momento que precisamos desse cuidado.

Se nunca ficássemos com sede, por exemplo, não conheceríamos o prazer de beber água depois de horas caminhando. Do mesmo modo, se não tivéssemos problemas, não conheceríamos o prazer da solução deles e nem a saciedade que há em agradecer a Deus por isso.

Assim, esta obra atesta o valor de reconhecermos a grande importância do alimento no tempo da fome – ou, como dito no poema "O Liame do Regalo",  “que é a comida, senão o prato vazio?”

Há tempos de alegria, há tempos de tristeza; mas a vida, em Cristo, é eterna.

“Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida.” (João 5:24)

 

                                  Luiz Guilherme Libório Alves da Silva*

 

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*Página do autor: https://www.facebook.com/luizliborioalves 


24 janeiro 2022

Anna Kariênina - Leon Tolstói: Em busca de sentido

 



Jorge F. Isah


Depois de tantos anos, somente agora decidi-me a ler um livro de Tolstói. E não comecei pelo mais famoso, “Guerra e Paz”, mas pelo não menos famoso “Ana Kariênina”. Algo que sempre me desmotivou a lê-lo foram dois "entraves". O primeiro, não sei por que isto sempre me veio à cabeça, imaginei que ele fosse um "rival" literário de Dostoievski, assim como o Piquet foi rival do Senna na F1 (sic), e por aí afora (de alguma maneira, a juventude tem em mente dividir tudo em disputas; uma pena, já que a vida vai muito além do reducionismo tolo, em qualquer idade). Leio o "Dosty" desde a adolescência, e nutri durante anos um certo desprezo por Tolstói; o que acabou por agravar-se a partir da descoberta de Charles Bukowiski que também não gostava do Leon, e reputava o “Fiodor” o maior entre todos os escritores em todos os tempos, esse é o segundo motivo. Parecendo confirmar minhas suspeitas de "rivalidade" entre os dois gigantes da literatura russa; e a me isolar, por décadas, de Liev (um tipo de privação literária...). 

O fato é que esquivei-me o quanto pude daquele, até o derradeiro momento. Penso que, hoje, certos autores não são "ilegíveis", e não há como fugir da necessidade, e por que não o prazer, de lê-los. Tolstói é um deles, clássico, como o é Balzac ou Dickens, por exemplo, e para citar apenas dois contemporâneos do russo.

Falando de Anna Kariênina, a narrativa é fluída e de leitura agradável. No início, pensei, logo após as primeiras páginas: é continuar e esperar para ver o que o russo tem guardado na manga... E tem de ser coisa muito boa, pois mais de 800 páginas de “enrolação”, somente o “Dosty” consegue fazer com maestria. Contudo, a despeito da imensa habilidade do autor, há momentos em que a trama parece-se muito com as novelas românticas dos escritores de best-sellers (é claro, estou hiperbolizando, pois não é possível, nem de longe comparar um e outros), onde há ingredientes para todos os gostos. Há excessos de palavreado e descrições em profusão, algumas desnecessárias, em situações que poderiam ser resumidas. Entendo que ele queira deixar mais claro do que água, de maneira inapelável, o caráter de suas personagens e dos eventos nos quais participam; existe, porém, uma forma excessiva, quase repetitiva, em repisar e asseverar essas informações. O grande número de personagens secundários deixá-a delongada, encompridada, não diria arrastada, mas o leitor comum pode, certamente, ficar um pouco impaciente.

Não direi que os tais “excessos” tornam a leitura pouco proveitosa, de uma forma geral, posto a familiaridade e o interesse para com os personagens diminuir sensivelmente essa sensação. Talvez, e apenas talvez, um corte de 10% no volume final do texto representaria maior fluidez, diretamente ligada a uma objetividade igualmente maior; mas quem sou eu para ensinar escrita a um dos maiores gênios literários de todos os tempos?... É apenas a reflexão de um leitor preocupado com a sonegação desta geração, e das futuras, em se privar de experiências tão marcantes e profundas ao negar-se ler um dos clássicos.

Tostói tem muitos méritos, inclusive da descrição e apresentação minuciosa de suas personagens, o que nos possibilita conhecê-las profundamente e, até mesmo, manter certa intimidade e cumplicidade com elas. Esse é, com certeza, um dos maiores méritos das grandes obras, nos tornar em parceiros, quase comparsas, da trama. Ocorre um pequeno “problema”, não sei dizer se posso chamar de problema, no desenrolar do livro: não há surpresas, já que muito do que acontece pode ser vislumbrado pelo leitor atento, a revelar a universalidade da história, ou histórias, em suas mais triviais particularidades, e mostrar o quão humana são as vidas das personagens, em suas tragédias, dramas, vivacidades e sutilezas.

Outro virtude é apresentar-nos várias discussões iniciadas naquele século e a perdurar até os nosso dias, revelando o quão é previsível o homem em sua tolice, excepcionalmente quando se considera imprevisível. Temas de cunho filosófico, teológico, moral, político, cultural são pontuados com boas análises e conclusões, ainda que sejam apenas o mote para se avaliar o caráter de uma e outra personagem.

Penso haver dicotomias sem a menor razão de ser, como a disputa “religião x ciência”, onde a verdadeira religião e a verdadeira ciência não se digladiam, mas se complementam; mas o que para mim pode ser líquido e certo, para Tolstói e outros leitores é motivo de dúvidas e especulações, algo sincero e em nada desabonador, mesmo, no fim das contas, não existindo oposição.

Como em todo livro temos aqueles homens e mulheres de que gostamos e os de que não gostamos. Especialmente, nutro uma simpatia por Kitty e Levine (mesmo este considerando-se ateu), enquanto não posso afirmar o mesmo de Ana e Vroski... Interessante que a mentalidade revolucionária/alienada, via marxismo, já se disseminava rapidamente mesmo em uma sociedade ainda não desenvolvida como a russa (praticamente rural), onde Tolstói já vislumbrava o que haveria de acontecer décadas depois com Lenin, Trotsky e os bolcheviques.

Tolstói não chega a ser um Dostoievski (espera lá, caro leitor, não vá apedrejar-me; entenda existir um quê de “torcida” a favor deste, sem necessariamente haver demérito àquele; algo momentâneo e que pode mudar no futuro), mas é um grande escritor, que sabe pegar o leitor não com um espalhafatoso início, mas com o desenrolar da narrativa, em uma crescente de emoções, considerações e descobertas, pela qual somos seduzidos e "hipnotizados" em sua arte superlativa.

Um trecho que exemplifica em parte o dito acima, sobre o vislumbre do mundo atual a partir da realidade russa, o qual selecionei e copiei abaixo: acontecia na Rússia do sec. XIX o que está hegemonicamente disseminado no Brasil do sec. XXI. Tostói não era profeta (apesar da aparência negar), mas vislumbrou a massificação da ignorância no mundo, em progressão geométrica, a despeito dos avanços tecnológicos; senão, vejamos a fala de um marchand a respeito de um pintor em ascensão, Mikailov:

"Filho, segundo ouvi dizer, de um mordomo moscovita, não sabe o que seja educação. Depois de frequentar a Escola de Belas Artes e de ter adquirido certa reputação, quis instruir se, pois não é nenhum tolo. Para isso recorreu àquilo que se lhe afigurou a fonte de toda a ciência, isto é, aos jornais e às revistas. Outrora, quando alguém queria instruir se, por exemplo, um francês, que fazia ele? Estudava os clássicos, os teólogos, os dramaturgos, os historiadores, os filósofos. Estão a ver o trabalho que o esperava. No nosso país é tudo muito mais simples: basta uma pessoa atirar-se à literatura subversiva para muito rapidamente assimilar um extracto completo de tal ciência. Há uns vinte anos, ainda esta literatura mostrava vestígios da sua luta contra as tradições seculares, o quanto bastava para ensinar que tais coisas existiam, mas agora nem mesmo se dá ao trabalho de combater o passado, contenta se em negar francamente: tudo é evolution, selecção, luta pela vida".

É ou não é um retrato fiel dos nossos tempos?

Tolstoi aborda uma boa gama de problemas e dilemas que afligem a humanidade desde sempre. Temas como amor, traição, fidelidade, honradez, malícia, hipocrisia, ingenuidade, fé, etc, são ingredientes do palco de Anna Kariênina. Como já disse (e não canso de repetir), ele delineia minuciosamente as suas personagens, de maneira que as conhecemos profundamente. Muitas discussões iniciadas no sex XIX perduram até os nossos dias, como também já disse, mas algo evidente, e merece ser reforçada é a reflexão sobre a queda intelectual e moral da sua época, o emburrecimento daqueles que deveriam defender e perpetuar a alta cultura e os princípios judaico-cristãos na sociedade. De forma que entre os aristocratas e letrados é-se possível perceber o que seria "regra": o desprezo ao conhecimento e à moral, e a exaltação dos instintos ao nível do irracional. Anna é um bom exemplo disso: viveu e morreu pelos seus prazeres e sensações (uma hedonista empedernida, viciada ao ponto da loucura e desespero), muitos equivocados, muitos a exaltar-lhe o egoísmo e o narcisismo, muitos falsos e irreais, que culminaram numa segunda realidade, existindo apenas em sua mente.

Mesmo sendo rejeitada pela sociedade, de maneira geral, seus pecados eram amenizados ou esquecidos por conta da sua beleza e sensualidade, onde os homens adoravam-na enquanto as mulheres desprezavam e invejavam-na (nisso há uma semelhança entre Karenina e “Nastasya Filippovna”, de Dostoievski – preciso mesmo reler o Idiota, em breve). Pouquíssimos são os exemplos morais num mundo infestado pela imoralidade, mas até mesmo estes reconheciam sua condição miserável e indigna, como a amante do irmão de Levine. A própria Anna reconhece a desgraça em que se lançara, mas a idéia de uma felicidade amorosa e verdadeira e duradoura com Vroski era uma espécie de recompensa a todo o mal que ela havia produzido (o fetiche e suas prisões da alma). Temos as figuras dos ídolos, aqueles pelos quais se manifestam o desejo humano de deificação, seja o amor proibido ou qualquer forma de rebelião ao natural; pois, como criaturas imperfeitas e necessitadas poderiam gerar relações perfeitas e suficientes?

Interessante notar que o senso moral está presente, é reconhecido mas não aceito, como se acatá-lo significasse algum tipo de escravidão, e a sua rejeição consciente uma liberdade. Ao contrário dos nossos dias, onde a moral, ética e os valores nobres do homem são desprezados por não serem reconhecidos como tais (o relativismo torna impossível qualquer verdade absoluta, entregando-se a irrealidade e contradição da verdade relativa); lá, ao tempo de Tostói, o homem se entregava ao erro pela impossibilidade de não vivê-lo, mesmo sendo reconhecido como tal, como erro; não havia a exaltação dos pecados e vícios; era simplesmente o inevitável, algo de que não se conseguia fugir, sem ser contudo objeto de caça. Esta é, via de regra, a condição natural do homem, o bem e o mal e a escolha entre eles; ao passo que, atualmente, a ideia do mal estar misturada de tal forma à do bem, que o mal se faz bem e o bem mal, para a desgraça completa de boa parte da humanidade.

Tostói é conservador nesse aspecto, e dá ao seu livro um caráter nitidamente existencial (ainda que o termo não existisse ao seu tempo com o conceito de hoje) e metafísico no desfecho final. Interessante as implicações metafísicas serem respostas diretamente tiradas da realidade, como atestam as reflexões finais de Levine.

O livro é um achado, e sua leitura pode surpreender, não como estamos acostumados a ser surpreendidos: o espanto e o susto gratuitos, ou reviravoltas malabarísticas (próprias de boa parte dos autores modernos; a maioria "sem pé nem cabeça"), levando-nos a meditar sobre questões cruciais ao ser humano, como a vida e a morte, por exemplo, e sempre.

Leitura recomendadíssima.


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Avaliação: (****)

Título: Anna Kariênina

Autor: Liev Tosltói

Página: 808


Sinopse:
                "Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida é feita de sombra e de luz”, escreve Liev Tolstói no romance que Fiódor Dostoiévski definiu como “impecável”. Publicado originalmente em forma de fascículos entre 1875 e 1877, antes de finalmente ganhar corpo de livro em 1877, Anna Kariênina continua a causar espanto. Como pode uma obra de arte se parecer tanto com a vida? Com absoluta maestria, Tolstói conduz o leitor por um salão repleto de música, perfumes, vestidos de renda, num ambiente de imagens vívidas e quase palpáveis que têm como pano de fundo a Rússia czarista. Nessa galeria de personagens excessivamente humanos, ninguém está inteiramente a salvo de julgamento..."