27 fevereiro 2018

Insight 1: Comentário a um comentário sobre soberania e liberdade



Jorge F. Isah


   De uma coisa eu sei: não há como eu, você, ou qualquer homem não reconhecer que os nossos atos foram nossos atos e, portanto, praticados, exercidos, executados, laborados por nós.

  No seu primeiro comentário você abordou a questão da "liberdade" que todos os homens, em maior ou menor grau, querem ter hoje. É o desespero de se ver livre de Deus, e um ato deliberado de rebeldia contra ele. Mas há também um sistema maligno de "tirar" do homem qualquer culpa que ele tenha, e transferi-la aos pais/família, igreja, sociedade, etc. 

   Ora, pais podem ser culpados pelo que fazem, mas os filhos não. A sociedade pode ser culpada pelos atos individuais dos seus membros, mas o indivíduo não. As instituições podem ser condenadas pelos erros cometidos, mas os seus membros não. Ou seja, visa-se inocentar o verdadeiro culpado para penalizar, e cobrar a conta, de quem não moveu um dedo para o mal produzido¹. É um esquema muito louco e doentio, que visa inocentar o homem e culpar a humanidade, tirando a realidade objetiva e transferindo-a a um ser "abstrato" que não pode ser culpado e condenado. A própria impraticabilidade de se julgar, demonstra a sua irrealidade e patologia. É mais uma prova do desespero e loucura humana (genérica à medida em que se vai instalando na mente de cada um de nós), mas também do próprio homem.

   Por isso, tenho a certeza de que, mesmo dentro do decreto divino, do soberano poder de Deus controlar e determinar todas as coisas, o homem não tem como se esquivar da sua responsabilidade, pois é ele quem os faz, através da sua vontade livre, mas jamais livre de coação interna e/ou externa, ou seja, a vontade é livre enquanto escolha individual, mas jamais livre no sentido de isenta de influência, coerção ou sujeição (o apelo à neutralidade, que via de regra, não pode produzir nada, nem o bem, nem o mal). Não há como desvinculá-la, desatrelá-la, da nossa condição pós-Queda, ao pecado. Ele exerce uma preponderância fundamental sobre a vontade, de maneira a conduzi-la ao seu bel-prazer, mas sempre na direção do mal, ao descumprimento da vontade e dos conselhos de Deus. 

    Contudo, como o homem foi criado à imagem e semelhança divina (mesmo o pecado exercendo forte corrupção à natureza originalmente criada em pureza), ninguém é 100% todo o tempo mau, pois há resquícios do Imago Dei a operar, ainda que minimamente, em suas decisões.

   Outro ponto a salientar é que Deus exerce o seu governo, através da providência, sobre todas as pessoas e coisas, coibindo o mal, impedindo que todos sejam exclusivamente nocivos, do contrário, certamente, a humanidade não mais existiria, se a natureza pecaminosa exercesse seu poderio em potência máxima. 

     De qualquer forma, a tentativa moderna de não reconhecer no homem o pecado, de "livrá-lo" da ideia de responsabilidade diante social, mas sobretudo, de Deus, de anistiá-lo da culpa pelos seus erros, de estimulá-lo a permanecer em estado de rebelião e desordem, de anular seus atos maléficos por meio de artifícios ideológicos, filosóficos, sociológicos, psicológicos, etc, imputando a outrem aquilo que lhe é condenatório, não surtirá efeito em tempo algum, pois, cedo ou tarde a justiça cobrará o seu preço, pela injustiça praticada, e acalentada. 

   Não se pode transferir a outros o que é responsabilidade estrita e individual de outrem. Assim como alguém não pode transferir para mim a responsabilidade pelo que fez, sem que seja acusado de injustiça, Deus cobrará, de cada um, o mal cultivado, e o bem não desejado e praticado. 

    Como a Bíblia sabiamente afirma, cada um dará conta de si mesmo diante de Deus (Rm 14.12).

Notas: 
1-Nesse caso, as instituições (igrejas, escolas, governo, etc) pagam pelos erros cometidos, implicando em ônus para o cidadão comum que será exigido a arcar com a conta, através dos impostos, quando ele não produziu ou desejou ou laborou para a construção do mal. Enquanto isso, especialmente no serviço público, raramente se vê a condenação ou punição do infrator, ressarcindo, na mesma medida, o mal praticado. Quase sempre, ele sairá impune, e não perderá os benefícios, mesmo sendo um péssimo agente público. 

2-Apenas o Senhor Jesus, por ser completamente Deus e homem, pode levar sobre si o mal e o pecado praticado pelos eleitos, a fim de redimi-los, livrando-os da condenação eterna. Mais do que isso (que já é gigantescamente maravilhoso), ele retirou, com o seu sacrifício, a barreira intransponível, para nós, que nos mantinha afastados de Deus, unindo-nos eternamente a ele. 
Estabeleceu a comunhão perdida, como a ponte, a única ponte, pelo qual o seu povo  finalmente achegou-se ao Pai.   










23 fevereiro 2018

Sermão em Tiago 4.7-8: Ao invés de encontrá-lo, é Cristo quem o achará! - Parte 2




Jorge F. Isah







INTRODUÇÃO:


- Não existe uma separação entre sagrado e profano, ao menos na vida cristã. Quem considera que ir ao culto, fazer evangelismo, tomar a ceia, são aspectos completamente diferentes do trabalho, estudo, convivência social, está muito enganado. 

- Para o crente, não há esse tipo de separação, visto que toda a sua vida, e todos os aspectos pertencentes a ela devem ser santos e sagrados. 

- Quem imagina poder cultuar a Deus na igreja, aos domingos, enquanto durante a semana participa de todas as formas carnais de satisfação, mentindo, furtando, cobiçando, etc, está ainda mais enganado. 

- A vida cristã é uma, e o que chamamos de aspectos seculares da vida não estão separados dos aspectos espirituais. Na verdade, a espiritualidade, ou a sua ausência, no sentido bíblico do termo é o norte, a guiar o homem em sua integralidade psíquica, corporal e espiritual. 

- O mesmo Paulo que costurava tendas ou barracas para sustentar-se era o mesmo que pregava o evangelho, foi apedrejado, espancado, e viu a Cristo no caminho de Damasco. 

- Entretanto, muitos confundem a dicotomia sagrado/profano, afirmando que o cristão pode fazer qualquer coisa, pois essa separação não existe. Este é o engano dos enganos, pois a Escritura nos mostra claramente que existe separação entre o bem e o mal, o santo e o profano, o azeite e a água, céu e inferno, vida e morte. 

- O cristão deve, portanto, buscar as coisas sublimes e sagradas, afastando-se das vis e maculadas. 

- O que alguns fazem é, porque o homem vive, em si mesmo, um estado dicotômico, em que o espírito digladia com a carne, acabar entendendo que isso é natural, inevitável, e não há como fugir dessa situação. 

- Paulo alerta os gálatas quanto a essa distinção na vida cristã: 

“Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor.
Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.
Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros.
Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne.
Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis.
Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei.
Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, fornicação, impureza, lascívia,
Idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias,
Invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus.
Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança.
Contra estas coisas não há lei.
E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências.
Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.
Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros.”

- Como está escrito, nem tudo nos é permitido. O próprio Paulo diz, em outro verso: 

“Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus?
Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.
E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus.
Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma.”

- E o que Tiago tem a nos dizer sobre o assunto?


UM OU DOIS SENHORES? 

- A Escritura nos diz que não podemos servir a dois senhores, pois amaremos a um e odiaremos o outro, agradaremos a um e desprezaremos o outro. Não dá para servir a um e outro (Lc 16.13). 

- Mas muitas pessoas acreditam que podem levar uma vida dupla, e assim enganar a Deus. Usando a desculpa de que, por ainda convivermos com a natureza pecaminosa, devemos reservar a santidade apenas para os lugares santos, já que o mundo jaz no maligno, e não podemos fugir dele, então devemos nos conformar e cumprir as regras que nos são possíveis cumprir, ao menos nos trabalhos religiosos. 

- Isso é uma outra maneira de se viver uma falsa religiosidade. Aquela que é incapaz de mudar a vida, aproximando-o de Deus e afastando-o do mal e do pecado. 

- Outro ponto interessante no que Tiago diz, é que existe Satanás ou o diabo. E de que ele está a nos fustigar, influenciar, a fim de satisfazermos os seus desejos perversos. 

- A ideia moderna de que o diabo é um conceito cultural, e de que ele é apenas o mal que o homem faz a si mesmo, como uma simples alegoria para o estado do homem sem Deus, mas nunca foi um ser real, com identidade, vontade e atitudes que o colocam em oposição a Deus e os homens (quanto aos homens, de maneira geral, visto que ele é o nosso principal inimigo, como a Bíblia nos diz, ele é o opositor, que se opõe à Deus, à verdade, à vida, à santidade, ao bem; mesmo que arregimente aqui e acolá homens a fim de servi-lo, os quais servem também ao seu propósito odioso de os destruir). 

- Portanto, não há como servir a Deus e ao pecado ou diabo, ao mesmo tempo. Como a minha avó dizia: 

“Não dá para acender uma vela para Deus e outra para o demônio!” 

- E quem serve ao pecado, não serve a Deus. É o que o Senhor nos diz no trecho a seguir: 

"Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos;
E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.
Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?
Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado."

- E complementa um pouco mais à frente: 

"Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.
Mas, porque vos digo a verdade, não me credes."

- O que muitos de nós fazem é tentar viver as duas esferas da vida espiritual, quando é impossível. Ou se crê verdadeiramente no Filho de Deus, e deseja-se honrá-lo e glorifica-lo, ou não. 


TEMOS UM ADVOGADO 

- Com isso, não estou dizendo que o cristão não pecará, não é isso. Convivemos com a natureza caída e pecaminosa, mas somos novas criaturas, pelo poder do Espírito. Portanto, não podemos nos conformar com as quedas, nem com os pecados cometidos. Eles devem nos encher de tristeza, nos fazer arrepender, e buscar no Senhor a força e a graça necessária para não mais cairmos, nem sermos seduzidos pelo pecado. 

- Sabendo que temos um Advogado diante do Pai, o Filho Eterno, que nos limpa de todas as máculas e transgressões, pelo seu sangue derramado na cruz, e somente por ele. 

- É o que João escreve em sua primeira carta: 

"Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo.
E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.
E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos.
Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade.
Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele.
Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou."

- Não somos totalmente perfeitos para não pecarmos. Ainda teremos de nos entristecer, amargar, e clamar por perdão, pelas transgressões que ainda cometeremos; porque a obra de Deus está em curso, transformando-nos dia a dia à semelhança de Cristo. 

- A perfeição completa acontecerá somente naquele glorioso dia, quando estivermos face a face com o Senhor, e não mais haverá dúvidas, nem mais nada perguntaremos. Seremos perfeitos como perfeito é o Senhor Jesus; sem chance de pecarmos, porque seremos santos como ele, e o pecado não exercerá mais nenhuma influência sobre nós. 

- Mas isso não pode representar uma passividade ou conivência com o pecado; se assim agimos, não somos filhos, mas bastardos. 

- Uma coisa é o Senhor nos aperfeiçoar, nos humilhar, nos perdoar, e nos levar à estatura do Filho. Outra coisa é eu entender isso como um salvo-conduto para o pecado, para uma vida devassa e destrutiva. Não. O que nos temos é a constatação de uma realidade, na qual o bom Deus se utilizará inclusive do pecado para nos aperfeiçoar, e nos levar à santificação. Mas em contrapartida temos também a ordem de resistir ao pecado, resistir a satanás, e eles, se afastarão de nós. 

- Porque a ordem divina, claramente revelada para o seu povo, é: 

"Como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância;
Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver;
Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo."

- Na próxima semana, concluiremos esta exposição em Tiago 4, tendo mostrar como aplicar estes ensinamentos em nosso dia-a-dia, a fim de servirmos corretamente a Deus, aproximando-nos dele e fugindo rechaçando o diabo e o pecado. 

Notas: 

1-Para ouvir o primeiro sermão desta série, clique AQUI

2- Sermão ministrado no Tabernáculo Batista Bíblico. Visite a página AQUI  


23 janeiro 2018

Sermão em Tiago 4.7-8: Ao invés de encontrá-lo, é Cristo quem o achará! - Parte 1





Jorge F. Isah






“Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.

Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós. Alimpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purificai os corações.”




INTRODUÇÃO

- Este é um dos trechos mais famosos da Escritura. Até mesmo quem lê pouco a Bíblia (talvez por ouvi-la em pregações e estudos), certamente já se deparou com estes versos. 

- Em um mundo onde cada vez mais o pecado é transigido e considerado uma “criação social”, na qual a tradição judaico-cristã é acusada de provocar o sofrimento e a dor do homem através da culpa pela infração de um código de normas autoritário e opressivo, ouvir a exortação de Tiago parece ser algo fora do tempo e desnecessário. 

- Para um mundo onde o egoísmo, o narcisismo e o hedonismo parecem ser a única saída em direção à felicidade, onde o materialismo tem sido uma normatização dos valores sociais, cuja filosofia quer, a todo custo, proclamar a “morte de Deus”, e manter o homem em um estado de completo abandono existencial, espiritual e, por conseguinte, torna-lo em um simples reverberador de um esquema coletivo de anulação individual (em vários aspectos da consciência e responsabilidade) e adestramento maciço (onde a consciência e a responsabilidade são coletivas, ainda que firam e aniquilem o indivíduo); falar em negar-se, em suprimir o lado negro da alma, e entregar-se à vontade divina, é coabitar com os loucos. 

- Por outro lado, para o homem, cada vez mais arraigado à sua natureza, corrompida pela Queda, em que o importante é fazer o que quiser, sem se preocupar em dar satisfação de nada a ninguém, a sujeição a Deus parece outro tipo de escravidão qualquer; para muitos, é sair de uma algema para outra, de uma prisão para outra. Mas, será verdade?

- Para o homem que vive nas trevas e não conhece a luz, somente Cristo pode revelar-lhe onde realmente está, e para onde deve ir. Por isso, infelizmente, muitos não acreditam nos próprios tropeços, quedas, ferimentos e lesões aos quais estão submetidos, sem saber o porquê, nem onde se feriu; e mesmo agonizando, às portas da morte, considera-se, erroneamente, um iluminado. 

- Na igreja, também há aqueles que, caminhando em meio à escuridão, acreditam que o pecado é apenas um meio pelo qual a graça se manifesta; e, ao invés de se envergonharem e buscarem arrependimento, exaltam-se e o têm por honraria. 

- No fim-das-contas, estará a exortação de Tiago ultrapassada? Ela servia apenas para o seu tempo, onde o homem ainda não havia se libertado das tradições, do patriarcalismo, da barbárie social e institucional?

- Ou a exortação é válida tanto para os leitores e ouvintes de Tiago, dois mil anos atrás, como é válida também para hoje e para as gerações futuras?



A AUTONOMIA DO PECADO

- O autonomismo faz com que o homem se iluda na pretensão de que ele é dono do seu destino, e de que poderá muda-lo ao seu bel-prazer, quando quiser, se quiser. 

- Ora, sabemos que todos os homens estão condenados, e de que o seu destino inevitável é o inferno, já que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus (Rm 3.23). 

- Vamos caminhar um passo de cada vez: 

- Primeiro, todo homem já nasce condenado: 

“Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias.
Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado.
Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim.
Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares.
Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.” (Salmos 51:1-5)

- Davi não disse que o pecado o encontrou na mocidade ou na vida adulta, mas que ele nasceu em iniquidade, e de que a sua mãe o concebera em pecado. 

- Ele não diz que o parto é um pecado, muito menos a concepção. São atos que Deus havia estabelecido para homens e mulheres, pois os criou assim, com todas as condições de conceber. Então, não é o ato de nascer um pecado; mas Davi diz que em pecado foi formado. No sentido de ter ele herdado a natureza de Adão; de juntamente com Adão, Davi, e todos nós, termos caídos da graça, da pureza inicial, para a corrupção. 

- É o que Deus disse a Adão: 

“E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente,
Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

- O relato bíblico não diz que Adão comeu do fruto primeiro que Eva, foi ela quem comeu e depois ofereceu ao marido. Contudo, como Deus falou diretamente a Adão, e antes de haver criado a Eva, era necessário que ele comesse para que o pecado contaminasse toda a humanidade. 

- Se Adão tivesse permanecido resoluto em seu estado de obediência a Deus, não comendo do fruto, nenhum de nós herdaria o pecado, e, talvez, até mesmo Eva pudesse ser absolvida do seu erro, ou não. 

- Fato é que Adão cai, pecando contra Deus, e todos nós também caímos. Nesse sentido, não será o que fizermos em nossa vida que determinará se seremos ou não salvos, mas a quem servimos.

- E será a quem servimos, que determinará o que fazemos em nossa vida: se a Deus, glorificando-o e louvando-o por tudo, enquanto ganhamos dele, cada dia mais, as características santas e perfeitas do seu Filho Amado; e nisso consiste a liberdade de todo aquele que foi resgatado das trevas: servir ao Senhor da sua vida, o que antes era impossível e inimaginável. 

- Se ao pecado e o diabo, nos embrenharmos cada vez mais nas masmorras do inferno, sendo dominado pelo mal, desejando o mal, vivendo pelo mal, pois tudo aquilo que não seja viver no eterno e supremo Bem, o será para a destruição e morte. 

- O irmão(a) pode me dizer: “Você está errado! A Bíblia diz que Deus julgará por aquilo que fazemos, e pelo que não fazemos”. 

- Sim. Você está certo, mas não completamente. 

- Se o estado do homem é de inclinação para o pecado, e por causa do mal que habita em nós, a condenação está a bater na porta; se somos criminosos diante de Deus, e esses crimes nos levará à morte, como alguns atos aparentemente bons poderão me absolver?

- Na verdade, a maioria das pessoas pensa assim: 

“Deus colocará o que fiz de bom de um lado da balança, e o que fiz de mal do outro lado. O lado da balança que pesar mais é que determinará se me salvarei ou não. 

- Existem várias ilusões e falácias neste esquema: 

1) De que o mérito na salvação é exclusivamente humano. Dependerá daquilo que você faz. 

2) Neste sentido, por que Cristo morreu na cruz? Se a salvação depende de mim, e somente de mim, não há sentido no Filho de Deus encarnar, viver, morrer e ressuscitar, certo?

3) Quem é bom diante de Deus? Em Marcos 10.17-22, lemos: 

“E, pondo-se a caminho, correu para ele um homem, o qual se ajoelhou diante dele, e lhe perguntou: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?
E Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom senão um, que é Deus.
Tu sabes os mandamentos: Não adulterarás; não matarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; não defraudarás alguém; honra a teu pai e a tua mãe.
Ele, porém, respondendo, lhe disse: Mestre, tudo isso guardei desde a minha mocidade.
E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me.
Mas ele, pesaroso desta palavra, retirou-se triste; porque possuía muitas propriedades.”

- O Senhor diz que: 

1) Somente Deus é bom. 

- Equivocadamente, os TJ’s, e outros grupos unitaristas, afirmam que somente Deus é bom, e como Jesus questionou o jovem rico, por chama-lo de bom, logo não era Deus porque não era bom. Ora, quanta ignorância quanto à verdade e ao que a Escritura declara. Cristo apenas quis ter certeza de que o jovem sabia a seriedade da sua afirmação, e de que estava realmente ciente de que estava falando diretamente com o bom Deus (Ah, maravilha das maravilhas! Quantos tiveram esse privilégio, e o desprezaram. Glória a Deus, por seu Filho! Porque, por ele, estaremos eternamente na sua presença, e falaremos e o veremos face a face!). 

- A pergunta de Jesus é muito mais retórica, no sentido de que o jovem se acercasse de que fala com Cristo, e de que Cristo tinha não somente a autoridade para instrui-lo quanto á salvação, mas também de salvá-lo. É o que veremos a seguir. 

- Em nenhum momento, o jovem desmentiu ou desdisse o que havia afirmado.

- Em nenhum momento, Cristo disse que não era Deus, e de que o jovem estava equivocado, quanto ao que dissera. 

2) Jesus então lhe pergunta se ele sabe os mandamentos. Em outras palavras, o Senhor lhe pergunta se ele sabia e conhecia a Lei. 

3) O jovem responde que não somente sabe, mas a cumpre. 

4) Cristo disse-lhe: “Falta-te uma coisa”

5) Aquele jovem acreditava que deveria cumprir o código legal dado por Deus a Moisés para se salvar. Entretanto, ainda assim, ele tinha dúvidas quanto a sua salvação, por isso a pergunta ao Senhor. 

6) Ainda que ele fosse um cumpridor da Lei (e Cristo não nega que ele fosse), ela não era suficiente para salvá-lo. Faltava-lhe ainda uma coisa. 

7) E qual é essa coisa?

8) Primeiro, vender tudo o que possuía. Por que? A tradição judaica afirmava que a riqueza era um sinal de bênção divina, e de que ao possuí-la, significava que aquele homem era agradável a Deus, e dele se agradava, e de que os favores do Senhor estavam sobre ele. Por isso os discípulos perguntaram: Quem poderá, pois, salvar-se? (v. 26). 

Entretanto, a riqueza em si mesma, ter muito dinheiro e bens, não é pecado, nem por isso faz alguém pecador. A questão à qual Cristo quer chamar a atenção daquele jovem é quanto ao apego, ao culto, ao ídolo que ele tinha quanto ao que possuía. 

De alguma maneira, o jovem colocava a sua “possível” salvação em sua riqueza, como a tradição dizia. Era necessário que ele a perdesse (no sentido de abrir mão dela), para reconhecer verdadeiramente a fonte da verdadeira salvação. 

9) Segundo, não podemos negligenciar que o pedido de Jesus foi uma maneira de testar o jovem, e até que ponto ele estava sinceramente desejoso da vida eterna. Era algo ao qual o jovem se apegara, do qual não queria abrir mão, e não estava disposto a se sacrificar. 

- Não é assim também conosco, meus irmãos! Será que podemos fazer uma analogia da riqueza daquele jovem com ofensas, calúnias, mentiras e desprezo, que nossos lábios proferem todos os dias contra o próximo? Com aquilo que cobiçamos, ilicitamente, todos os dias, e não nos pertence? Com os vícios aos quais nos apegamos para a morte? Com as distrações que nos impedem de ter comunhão com Deus e servi-lo? 

- Muitos de nós não querem abrir mão do seu prazer, daquilo que ele acalenta e guarda com estimação. O dinheiro para aquele jovem era o seu ídolo, assim como a mentira, a inveja, a arrogância, e tantos outros pecados “menores” são nossos ídolos. 

- Estamos realmente dispostos a rejeitar os nossos desejos, de abdicar daquilo que nos mantém distante do verdadeiro tesouro, e negar-nos a nós mesmos para vivermos para Deus?

- Aquele jovem era prisioneiro do seu desejo, da sua idolatria; e pelo menos, naquele momento, permaneceu cativo a ele (Fiz uma outra análise deste texto, aqui mesmo, no Kálamos, há alguns anos. Em uma abordagem mais afeita à soberania de Deus. Ele pode ser lido em “Jovem rico: condenado?”

10) Terceiro, Cristo disse: “segue-me”, não sem que antes tomasse a própria cruz. 

- O ponto central não era o dinheiro, mas o seguir a Jesus. Para isso, ele teria de abrir mão do que o mantinha preso, do que o escravizava, para, livre, então seguir o Mestre. 

- Se ele não estivesse disposto a isso, era sinal de que a sua pergunta, ainda que sincera, não era realmente o que de mais importante havia para ele. 

- Era necessário que o jovem confiasse em Cristo para responder positivamente à sua ordem ou pedido. Abrindo mão da sua fortuna, ele demonstraria estar verdadeiramente interessado em sua salvação, 



AS MASMORRAS DO PECADOR: UMA ANALOGIA

- Vamos a uma analogia, para melhor entender a narrativa do Senhor. Temos um muro que divide dois lados: à direita, o bem, a santidade e a vida, enquanto à esquerda, o mal, o pecado e a morte. Nesse quadro, temos um homem natural. Muitos pensarão que ele está em cima do muro, observando um lado e outro, prestes a se decidir onde ficar. Se seus atos forem bons, ele poderá então pular para a direita, onde está a vida. Se seus atos forem maus, ele pulará à esquerda, onde está a morte. Mas mesmo que ele caia à esquerda, se quiser e tiver vontade, ele poderá escalar novamente o muro e pular para o outro lado. A isso se chama “livre-arbítrio”. 

- Essa ideia é fictícia, não somente por entender, equivocadamente, que o homem está sobre o muro, em um lugar de neutralidade, e que dali ele pode escolher para qual dos lados irá, como, estando no lado “negro” ele tem meios, em si mesmo, para pular para o outro lado. 

- A questão da balança pendendo para cá ou para lá, pelos esforços, mérito e vontade humana de se aperfeiçoar, é falso, como nota de três reais. Se há algo em que o homem se aperfeiçoa, por si mesmo, é em caminhar e adentrar cada vez mais nas trevas. 

- Na verdade, o homem já nasce do lado mal, onde existe apenas a morte, e ele mesmo já está morto espiritualmente, porque não tem comunhão com Deus. E quanto mais experimentar de si mesmo, mais ele se entregará ao distanciamento, ao afastamento de Deus. 

- Por seus próprios meios, não pode subir o muro, e, na verdade, não quer, nem gostaria de fazê-lo. Ele se sente bem onde está: fingindo ver na densa escuridão; fingindo viver nos sepulcros; fingindo ser puro, quando de suas mãos escorrem o veneno do pecado; fingindo ser digno do céu, quando merece apenas o inferno. As mãos do verdugo estão sobre ele, arrastando-o para os calabouços mais profundos da alma moribunda. 

- A autonomia do pecado, no homem não redimido, significa servi-lo e sujeitar-se a ele, fazer-se escravo, chama-lo de Senhor e adorá-lo. 



CONCLUSÃO

- E tudo isso, se deve ao pecado, ao desejo do homem em não se afastar de si mesmo e buscar a Deus. Porque foi ele mesmo quem disse: 

“Buscar-me-ei, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração” (Jeremias 29.13)

- Dizer que se busca a Deus, mas quer satisfazer apenas aos seus desejos, e não daquele a quem se busca; busca-lo as vezes, em períodos espaçados, enquanto diariamente se entrega ao seu prazer escuso; busca-lo, mas não desejar servi-lo, nem satisfazer a sua vontade; busca-lo superficialmente, sem que o coração exploda de desejo de encontra-lo; busca-lo, e trocá-lo por um prato de lentilhas como o fez Esaú, é enganar-se na busca. 

Se todo o coração não estiver à procura do Deus vivo e verdadeiro, não busca, nem existe sentido em busca-lo. 

Porém, se todo o seu coração estiver no encalço dele, saiba que o que prometeu, cumprirá. E, ao invés de encontra-lo, é ele quem o achará.


05 janeiro 2018

Sermão em Ezequiel 33.30-32: "Honram com os lábios, desprezam com o coração!" - Parte 1





Jorge F. Isah





“Quanto a ti, ó filho do homem, os filhos do teu povo falam de ti junto às paredes e nas portas das casas; e fala um com o outro, cada um a seu irmão, dizendo: Vinde, peço-vos, e ouvi qual seja a palavra que procede do Senhor.
E eles vêm a ti, como o povo costumava vir, e se assentam diante de ti, como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza.
E eis que tu és para eles como uma canção de amores, de quem tem voz suave, e que bem tange; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra.”
Ezequiel 33:30-32


INTRODUÇÃO

- Ezequiel foi contemporâneo de Jeremias e de Daniel. 

- Os Caldeus invadiram Israel e Judá. E sitiaram e controlaram Jerusalém. 

- Houve uma primeira leva de judeus cativos e que foram levados para a Babilônia.

- Houve uma segunda leva de judeus cativos levados à Babilônia, por Nabucodonosor. Ezequiel estava nessa segunda leva de judeus levados ao cativeiro caldeu (cerca de dez mil homens), juntamente com o Rei Joaquim (Jeoaquim), em 597 a.c., para Tel-Abibe. 

- 2 Rs 24.10-18:

“Naquele tempo subiram os servos de Nabucodonosor, rei de babilônia, a Jerusalém; e a cidade foi cercada.
Também veio Nabucodonosor, rei de babilônia, contra a cidade, quando já os seus servos a estavam sitiando.
Então saiu Joaquim, rei de Judá, ao rei de babilônia, ele, sua mãe, seus servos, seus príncipes e seus oficiais; e o rei de babilônia o tomou preso, no ano oitavo do seu reinado.
E tirou dali todos os tesouros da casa do Senhor e os tesouros da casa do rei; e partiu todos os vasos de ouro, que fizera Salomão, rei de Israel, no templo do Senhor, como o Senhor tinha falado.
E transportou a toda a Jerusalém como também a todos os príncipes, e a todos os homens valorosos, dez mil presos, e a todos os artífices e ferreiros; ninguém ficou senão o povo pobre da terra.
Assim transportou Joaquim à babilônia; como também a mãe do rei, as mulheres do rei, os seus oficiais e os poderosos da terra levou presos de Jerusalém à babilônia.
E todos os homens valentes, até sete mil, e artífices e ferreiros até mil, e todos os homens destros na guerra, a estes o rei de babilônia levou presos para babilônia.
E o rei de babilônia estabeleceu a Matanias, seu tio, rei em seu lugar; e lhe mudou o nome para Zedequias.
Tinha Zedequias vinte e um anos de idade quando começou a reinar, e reinou onze anos em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Hamutal, filha de Jeremias, de Libna."


- Por meio de sucessivos reis perversos, a nação de Israel havia se desviado dos caminhos do Senhor, rejeitando-o, entregues à idolatria, ao culto a outros deuses, mergulhados em pecados e em uma espiritualidade superficial e diabólica. 

- Deus conclamava o povo ao arrependimento, através dos seus profetas, para voltarem-se para ele e abandonarem os falsos deuses; mas o povo permanecia entorpecido, com suas consciências cauterizadas e servindo ao próprio ventre. 

- Enquanto isso, no meio do povo, se levantavam falsos profetas, homens que não eram enviados de Deus, e que diziam falar em seu nome, adulando o povo rebelde com promessas de que eles herdariam a terra prometida, garantindo-lhes que voltariam, em breve, para o seu país. 

- Deus levantou a Ezequiel, para que ele dissesse a verdade ao povo: tão cedo não se livrariam do jugo caldeu, e tão cedo não regressariam à sua terra. Ou seja, o cativeiro se prolongaria por muito tempo. 

- Ezequiel afirmou ainda que Jerusalém seria completamente destruída, significando que os judeus em exílio não teriam para onde voltar. 


O RECRUDESCIMENTO DO POVO

- Jerusalém cai sob as mãos de Nabucodonosor:

“E sucedeu que, no ano duodécimo do nosso cativeiro, no décimo mês, aos cinco do mês, veio a mim um que tinha escapado de Jerusalém, dizendo: A cidade está ferida."
Ezequiel 33:21


- Deus revela a Ezequiel o que acontecerá com o seu povo:

“Ora, a mão do Senhor estivera sobre mim pela tarde, antes que viesse o que tinha escapado; e ele abrira a minha boca antes que esse homem viesse ter comigo pela manhã; e abriu-se a minha boca, e não fiquei mais calado.
Então veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:
Filho do homem, os moradores destes lugares desertos da terra de Israel falam, dizendo: Abraão era um só, e possuiu esta terra; mas nós somos muitos, esta terra nos foi dada em possessão.
Dize-lhes portanto: Assim diz o Senhor DEUS: Comeis a carne com o sangue, e levantais os vossos olhos para os vossos ídolos, e derramais o sangue! Porventura possuireis a terra?
Vós vos estribais sobre a vossa espada, cometeis abominação, e cada um contamina a mulher do seu próximo! E possuireis a terra?
Assim lhes dirás: Assim disse o Senhor DEUS: Vivo eu, que os que estiverem em lugares desertos, cairão à espada, e o que estiver em campo aberto o entregarei às feras, para que o devorem, e os que estiverem em lugares fortes e em cavernas morrerão de peste.
E tornarei a terra em desolação e espanto e cessará a soberba do seu poder; e os montes de Israel ficarão tão desolados que ninguém passará por eles.
Então saberão que eu sou o Senhor, quando eu tornar a terra em desolação e espanto, por causa de todas as abominações que cometeram.”
Ezequiel 33:22-29

- Deus aplicava sobre a sua nação desobediente o castigo por ter insistido em se rebelar, e contender com Deus, praticando o mal: idolatria; sacrifício de crianças, assassinatos, e outras agressões ao próximo. 

- Temos que, quanto mais distante do Senhor, mais o coração do homem se inclinará ao pecado, maquinará o mal, satisfará a sanha maligna, rejeitando a bondade e o favor divino, rejeitando a sua Lei, e entregando-se de corpo e ao desejo perverso de rebelião deliberada. 

- Assim como aqueles falsos profetas, que incitavam o povo à permanecerem na desobediência, acalentando o mau coração que tinham com falsas promessas, mantendo-os iludidos com a perspectiva de que não seriam castigados, e de que estavam agradando a Deus e o servindo, assim também, no mundo de hoje, muitos falsos mestres e profetas incitam os homens a continuarem em suas vidas rebeldes, contaminadas pelo pecado, sem a necessidade de arrependimento, sem a necessidade do perdão divino; vivendo como se Cristo houvesse vindo ao mundo desnecessariamente. Quando muito, para dar exemplo de abnegação, de entrega, mas morrendo inutilmente na cruz, porque o homem pode, por si mesmo alcançar os favores e a graça do Pai: esse homem se acha merecedor da graça de Deus. 

- Quantas pessoas procuram uma igreja ou religião apenas para satisfazerem a si mesmas, imaginando que, com suas devoções, sacrifícios, penitências, estarão satisfazendo a Deus?

- Quantas pessoas querem, verdadeiramente, procurar a Deus pelo que ele é, agradecendo-o por tudo que tem feito em seu favor? Ao contrário, eles acham que são capazes de dar-lhe algo, procuram-no para molestá-lo com os seus egos, numa clara atitude de autoexaltação, como se pudessem dar mais a Deus do que dele receber.

- Buscam, no fim-das-contas, uma autojustificação, considerando-se merecedores dos cuidados de Deus, ao invés de humilharem-se, arrependendo-se, buscando nele o perdão. 

- Essa é a religião dos homens, em que cada um busca satisfazer-se a si mesmo, considerando os louros pelo esforço pessoal, enganando-se a si e a muitos outros, pondo a sua fé em um ídolo, um embusteiro. 

- No Éden, Adão e Eva acreditaram possível descumprir uma ordem , um preceito, dada por Deus e ainda assim permanecerem agradáveis aos seus olhos. 

- Pior, acharam que poderiam ser como Deus, caindo nas esparrelas e lorotas da serpente. 

- Mas o que lhes sucedeu após pecarem?

- Veja bem, todos os envolvidos na Queda, na tragédia do Éden, foram punidos; 

· A serpente: Gn 3.14-15.

· A mulher: Gn 3.16.

· O homem: Gn 3.17.

· A terra não ficou incólume ou foi inocentada (aquela que sustentou a árvore, que a alimentaria, de onde sairia o fruto do bem e do mal): Gn 3.17b.

- Claro que a terra não teve uma participação direta na Queda, mas por causa da quebra da mordomia de Adão, o qual era responsável e zelador da criação, ela também foi afetada pelo pecado, e agora produziria ervas daninhas, espinhos, cardos e pragas. Gn 3.18

- Assim como Adão e Eva não se arrependeram do que fizeram (pela gravidade das suas decisões, caso houvesse arrependimento, o Senhor o deixaria registrado nas Escrituras, levando-me a crer que o casal primevo não se arrependeu de seus atos), Israel também não se arrependeu, pelo contrário, insistiam obstinadamente em pecarem sucessivamente contra Deus, mesmo que Deus lhes tenha dado todos os avisos, e esperado pacientemente que o povo se reconciliasse consigo. 

- Demonstrando o que havia em seus corações, o povo, diante dos insistentes alertas de Ezequiel, como agia?

Na próxima semana, analisaremos mais detidamente esta e outras questões proclamadas pelo Senhor, pela boca do seu profeta Ezequiel. 


Nota: Sermão ministrado no Tabernáculo Batista Bíblico


26 dezembro 2017

SERMÃO EM MARCOS 10.43-44: AQUELE QUE SERVE!





Jorge F. Isah








“Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal;

E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos.” Marcos 10:43,44



INTRODUÇÃO:

- Vivemos em um mundo onde o poder, a influência, a dominação, o sucesso, e o controle são características vistas como desejáveis, como meta a ser perseguida.
- O homem, desde o Éden, se considera não somente o senhor da sua vida, mas também dos outros.
- Filosofias como o utilitarismo e o pragmatismo, que afirmam os fins justificarem os meios, e o êxito em qualquer empreitada, ou ação, como a prova da verdade. Ou seja, a verdade somente pode ser medida como tal se ela obtiver sucesso prático, ou for útil para se alcançar a felicidade.
- Em linha gerais, seria verdade tudo aquilo que, de alguma maneira, colabore ou contribua para determinado objetivo pelo êxito ou sucesso, ou que leve à felicidade.
- É claro que os critérios de êxito, sucesso e felicidade são algo subjetivos dentro da posmodernidade e do poscristianismo ao qual o mundo tem se embrenhado.
- Muito disso decorre do fato de não ser crer em uma verdade, ou na verdade, mas de que o conceito de verdade é completamente íntimo, e algo pode ser verdadeiro para um, mas não para outro.
- As pessoas, de um modo geral, tendem a reduzir o sucesso e a felicidade ao seu caráter material, de que aquilo que se pode ver, tocar, possuir ou comprar é a prova ou não do sucesso e felicidade.
- Para muitos, a exposição na mídia, o acumulo de riquezas, e o poder para controlar um maior número de pessoas, são as diretrizes que identificarão se uma pessoa alcançou ou não o sucesso e a felicidade.  
- O materialismo, aquela velha ideia de que tudo pode ser medido apenas pelo que se vê ou se toca, de que a realidade, e suas nuances, somente podem ser explicadas pela matéria.
- Fama, dinheiro e poder normalmente são os elementos materiais que identificarão aquele que deu certo, caso as consiga, ou aquele que deu errado, caso não as alcance.
- Por causa dessa visão distorcida e diabólica, a maioria dos crimes são praticados; e eles suscitam tanto a inveja, o orgulho, a cobiça, como o roubo e o assassínio.
- O mundo, portanto, caminha na contramão da vida, ao dar importância a um conjunto de substâncias que, antes de promove-la, tratam de aniquilá-la.


OS PRIMÓRDIOS DA HUMANIDADE



“E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor.

E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta.

Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante.

E o Senhor disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante?
Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar.
E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou.”


- O primeiro exemplo, do conflito permanente entre os homens, se deu no início da humanidade. Como lemos no relato de Gênesis, Caim se irou, e matou, o seu irmão Abel por pura inveja, por se sentir desprezado.
- Sendo arrogante, orgulhoso e vaidoso, não suportou a rejeição de Deus à sua oferta; não aceitou os méritos do seu irmão em agradar a Deus, e, por esse sentimento de insatisfação, de revolta, e insubordinação a Deus (não são esses os elementos a marcarem o “vitimista” moderno, assim como marcou o “vitimista” pós-Éden?), deu cabo da vida do seu irmão.
- Antes de entender a sua missão, de agradar a Deus, preocupou-se em ser reconhecido (e este parecia o seu objetivo), em alcançar os méritos sem se preocupar, efetivamente, em cumprir correta e adequadamente a sua tarefa; achava-se tão autossuficiente em si mesmo, que a ideia da vitória, ou seja, ser reconhecido por Deus (ao invés de querer agradá-lo), levou-o a produzir deficitariamente, não cumprindo o real intento da sua vocação ou chamado. Cheio de si, olhava para si, e considerava suficiente o seu amor-próprio para alcançar os louros divinos.
- Entretanto, o fim de todo o homem é glorificar a Deus, sendo esta a mais sublime de todas as vocações, de todos os desejos, o real significado da vida. Qualquer homem que prive a si mesmo dessa busca, está morto. Qualquer homem que não veja isso como a meta primordial e necessária da sua existência, não vive, e está fadado ao fracasso.
- Caim não aceitou o fracasso; em sua soberba, e não servindo o fracasso como experiência, aprendizado, a fim de compreender, mas de também corrigir os erros, e aperfeiçoar-se, preferiu matar Caim, e encobrir o seu insucesso.
- Creio que o pensamento de Caim foi o seguinte: se não posso ter o sucesso que o meu irmão Abel, ele também não o desfrutará!
- Na verdade, Caim se considerava injustiçado por Deus, e de que merecia o seu reconhecimento. Deus havia falhado em aceitar a oferta de Abel, e ele, Caim, estava disposto a reparar esse erro: se não podia ser honrado, Abel também não. Afinal, o direito lhe pertencia muito mais do que ao seu irmão.
- O caráter humano passou a ser moldado pela ambição.


O QUE PLEITEARAM OS APÓSTOLOS DE CRISTO?

- Voltemos ao texto de Marcos 10.32-45. Do que ele trata?
- Resumidamente, o Senhor Jesus fala aos seus discípulos do que o aguardava, do sofrimento que estava por vir, e de que ele sofreria.
- Sendo o Filho de Deus, ele não deveria passar por isso, certo?
- Errado! Ele mostrava a eles que mesmo sendo o Filho de Deus estava disposto a se sacrificar pelo seu povo. Estava disposto a padecer. A se humilhar. Ser rejeitado. E condenado como um criminoso.
- Sendo ele santo, perfeito e imaculado, se sujeitaria a cumprir a vontade do Pai, por amor a ele, e por amor às suas ovelhas.
- É o que ele diz nos versos 33 em diante:



“Eis que nós subimos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e o condenarão à morte, e o entregarão aos gentios.

E o escarnecerão, e açoitarão, e cuspirão nele, e o matarão; e, ao terceiro dia, ressuscitará.”




- Ele afirma que será zombado, desprezado, açoitado, cuspido, maltratado e morto.
- Mas, a despeito de tudo, ele ressuscitará ao terceiro dia, mostrando que a morte não exerce poder sobre ele.
- Então, como se nada do que ele estivesse dizendo importasse ou comovesse Tiago e João, eles se aproximam e lhe perguntam:



“Mestre, queremos que nos faças o que te pedirmos.

E ele lhes disse: Que quereis que vos faça?

E eles lhe disseram: Concede-nos que na tua glória nos assentemos, um à tua direita, e outro à tua esquerda.”


  - Parece estranho que os apóstolos, após a descrição do que esperava o Senhor, no futuro, tenham se preocupado estritamente consigo mesmos, e não atentaram para o que viria a acontecer com o Senhor. Parece insensibilidade, descaso, mas é apenas o egoísmo humano, o desejo de destacarem-se, como se houvesse neles mérito para ocuparem lugares de destaque no Reino de Cristo.
- Outro ponto interessante é que o pedido é quase uma ordem: “queremos que faças o que te pedirmos”, tem o caráter de uma imposição, de uma exigência, como se o homem pudesse se aproximar de Deus e dizer o que ele deve ou não fazer.
- Nessa situação, parece que os apóstolos estão muito distantes de compreenderem a missão de Cristo e a deles próprios, ao colocarem-se diante do Senhor com tamanha arrogância e presunção.
- É claro que não há de se demonizar os dois apóstolos, no sentido de que eles não tivessem se apercebido da honra que teriam caso ocupassem esses postos. O problema é que não deixaram essa decisão para o Senhor, mas arvoraram-se a pleiteá-la, reivindicando-a imperiosamente, ordenando-lhe o que fazer, quando não lhes pertencia essa prerrogativa, ainda mais da maneira desonrosa contida nela.
- Cristo os inqueriu, e respondeu, pacientemente:



“Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis; podeis vós beber o cálice que eu bebo, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?

E eles lhe disseram: Podemos. Jesus, porém, disse-lhes: Em verdade, vós bebereis o cálice que eu beber, e sereis batizados com o batismo com que eu sou batizado;

Mas, o assentar-se à minha direita, ou à minha esquerda, não me pertence a mim concedê-lo, mas isso é para aqueles a quem está reservado.”


- Primeiro, Cristo pergunta se eles beberão do mesmo cálice que ele beber, significando o sofrimento, dor e humilhação que advirão, ao que respondem com um “podemos”; e se serão batizados com o mesmo batismo em que ele será batizado, significando a morte, para a glória de Deus, o que respondem: “podemos”.
- Não sei se Tiago e João compreendiam corretamente as implicações daquilo que afirmavam, do que os esperava, as dores e angustias e perseguições que sofreriam no futuro. Cristo afirma eles não saberem o que estão a pedir. Por isso, penso que não. Que suas respostas continham um elemento de orgulho incapaz de reconhecer o perigo a que estariam expostos, em breve.
- Segundo, Cristo afirma que eles beberão e serão batizados da mesma forma que ele beberá e será batizado. O Senhor não nega a afirmação deles, ainda que eles não tenham a real compreensão daquilo que estão dizendo.
-Terceiro, ele diz que a prerrogativa de determinar quem estará à sua direita ou esquerda compete ao Pai. E de que já está determinado, ou em suas palavras, reservado, àqueles que o Pai escolher.
- Do ponto de vista prático, Tiago e João tiveram o seu pedido negado; não alcançaram o que almejavam, como se o Reino de Cristo fosse equiparado a um reino terreno, onde os homens têm preeminência e ascendência sobre outros homens, numa nítida disputa de poder.
- Estavam equivocados em relação ao mérito pessoal, às suas exigências, e quanto ao modelo de Reino que Cristo lhes apresentava.
- Ao invés de poder, honrarias e triunfos, dentro de uma visão humanizada, eles, para alcançar o Reino, teriam de se sujeitar a Deus, e à guerra protagonizada contra Satanás, seus demônios e servos.


 A REAÇÃO DOS DEMAIS APÓSTOLOS

- Entendendo que ali, no circulo do Senhor Jesus, estava a igreja, diante da pretensão de Tiago e Pedro, como os demais apóstolos agiram?
- O trecho nos revela:



“E os dez, tendo ouvido isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João.”



- A palavra indignação significa irar-se, revoltar-se, zangar-se, indispor-se, revelando que eles ficaram muito bravos com a atitude dos dois.
- Eles perceberam a presunção, arrogância, orgulho, e superioridade deles. Entenderam que Tiago e João se consideravam melhores do que os demais, e seguindo esse espírito, sentiram-se traídos pelos “filhos do trovão”. Era como se, adiantando-se em reivindicarem ao Senhor uma posição de destaque no Reino, estivessem “passando a perna” nos demais apóstolos.
- Tal qual os dois, os outros dez, agindo carnal e impensadamente, hostilizaram Tiago e João. É provável que os tenham xingados.
- É assim que se deve agir na vida, de um modo geral, e na igreja de maneira especial? Claro que não!
- Como está escrito (Rm 12.9-21):



“O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem.

Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros.

Não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor;

Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração;
Comunicai com os santos nas suas necessidades, segui a hospitalidade;
Abençoai aos que vos perseguem, abençoai, e não amaldiçoeis.
Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram;
Sede unânimes entre vós; não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes; não sejais sábios em vós mesmos;
A ninguém torneis mal por mal; procurai as coisas honestas, perante todos os homens.
Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens.
Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor.
Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça.
Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.”


- As exortações são claras, no sentido de apartamos do mal, mas de não reagirmos na exata medida do mal, vingando-nos da ofensa sofrida.
- Os dez tinham todo o direito de se exasperarem e tirarem satisfações com os outros dois, mas agindo assim demonstravam apenas terem, em si mesmos, a aptidão tão comum ao homem natural, aquela a revelar o homem carnal, que deseja fazer justiça com as próprias mãos, e por tudo a termo alheio à vontade de Deus, mas satisfazendo-se a sua natureza caída.
- O Senhor, chamando-os para junto de si, repreende-os:



“Mas Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios, deles se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre eles;

Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal;

E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos.”


- Ele nega a ideia de Tiago e João de que o Reino de Cristo seja comparado a um reino terreno, onde as autoridades e governantes dominam, subjugam e conquistam o povo.
- A mesma passagem é descrita por Lucas, no cap. 22.25:



“Mas eis que a mão do que me trai está comigo à mesa.

E, na verdade, o Filho do homem vai segundo o que está determinado; mas ai daquele homem por quem é traído!

E começaram a perguntar entre si qual deles seria o que havia de fazer isto.

E houve também entre eles contenda, sobre qual deles parecia ser o maior.
E ele lhes disse: Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores.
Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve.
Pois qual é maior: quem está à mesa, ou quem serve? Porventura não é quem está à mesa? Eu, porém, entre vós sou como aquele que serve.
E vós sois os que tendes permanecido comigo nas minhas tentações.
E eu vos destino o reino, como meu Pai mo destinou,
Para que comais e bebais à minha mesa no meu reino, e vos assenteis sobre tronos, julgando as doze tribos de Israel.


- Durante a última ceia, antes da crucificação, o Senhor diz que seria entregue aos seus algozes por um dos doze. Então, os apóstolos se perguntaram, entre si, qual seria ele, dentre eles.
- Em seguida, a partir da inquirição de quem seria o traidor, eles passam para qual deles seria o maior. Sem obterem a resposta para a primeira dúvida, abandonam-na, e passam para a disputa orgulhosa de qual deles é o maior, como a nova disputa anulasse a primeira.
- O Senhor então mostra-lhes que o Reino de Cristo é diferente do que eles imaginam, e daquilo que o mundo estabeleceu como honraria e sucesso.
- Ao invés de dominar, o crente deve ser dominado; ao invés de ser servido, o crente deve servir; ao invés de mandar, o crente deve obedecer; ao invés de ser o maior, ser o menor; ao invés da pompa, de gabar-se e honrar-se a si mesmo, ele deveria humilhar-se.
- O Reino de Cristo era feito por servos, sendo ele, o Filho de Deus aquele que mais serviu.
- Por isso, ele os exorta a seguirem o seu exemplo; servindo, seja na vida, seja na morte, a fim de que Deus seja glorificado em cada um deles, mesmo nas situações mais angustiantes, dolorosas, mesmo nas piores perdas.
- Um parênteses:
- Uma das doutrinas bíblicas mais desprezadas, a da expiação limitada, é anunciada aqui pelo Senhor, ao final do verso 45, quando ele diz que veio para servir, “e para dar a sua vida em resgate de muitos”.
- A morte de Cristo não é uma mera possibilidade, uma hipótese improvável de que o homem pode colaborar, de alguma forma, com a sua salvação. A morte de Cristo não deu “uma chance” ao homem de ser salvo, como muitos afirmam, e de que a morte de Cristo criou a possibilidade de o homem vir a se salvar, precisando que ele “aceite” a salvação.
- Assim, tem-se em voga hoje o conceito de que Cristo morreu por todos, mas nem todos serão alcançados por sua morte, pois muitos serão condenados e irão para o inferno. Ao ver deles, Cristo criou a condição para que todo homem se salve, não houve a salvação efetiva, de fato, por ato, significando que a maioria se perderá, a despeito do esforço do Filho de Deus.
- Se essa afirmação não é uma blasfêmia, o simples fato do Senhor afirmar que veio para servir e dar a sua vida em resgate de muitos, não significando todos, anula-a.
- A morte de Cristo tem de ser efetiva, resgatadora, em todos os seus objetivos, pois do contrário ele não poderia afirmar: está consumado!! Dependeria ainda de cada um, a seu bel-prazer, querer ser salvo ou não.
- Não entrarei em todos os pormenores deste debate; este não é o caso, nem o texto se propõe a isso, no momento, mas para o leitor se aperceber de inexorabilidade da doutrina da Expiação Limitada. Qualquer afirmativa contrária significará o universalismo, se não em princípio, o será em finalidade, como consequência.
- Fecha-se o parênteses.


CONCLUSÃO:

- Os apóstolos disputavam, entre si, a primazia que cada um exigia receber no Reino de Cristo. Achavam que o certo seria um se sobrepor ao outro, exercendo o seu poder e dominação como os reis, príncipes e autoridades o fazem.
- Por não terem a real compreensão do Reino divino, julgavam que o lugar a ocuparem no Reino era fruto dos méritos pessoais de cada um, e de que cada um tinha mais méritos que o outro; quando, na verdade, o Reino de Cristo é uma dádiva, uma concessão, um presente de Deus para os seus eleitos.
- Não alcançado pelo esforço humano, mas pela obra divino-humana do Filho de Deus. Apenas Cristo poderia fazer entrar pecadores em seu celestial reino, ao fazê-los santos, resgatando-os, transformando-os, e tornando-os semelhantes a si.
- Então, como ele serviu, aqueles que são chamados de cristãos (semelhantes, seguidores de Cristo) são ordenados a servirem a Deus,  e ao próximo, colocando-o acima de si mesmo.
- Para terminar, o texto em Filipenses 2.3-11:



“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.

Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros.

De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,

Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus,
Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;
E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.
Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome;
Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra,
E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.




- O Pai nos abençoe, capacite e fortaleça, a fim de que o sirvamos, tal qual o seu Filho o serviu, para que o seu nome seja glorificado e exaltado acima de tudo, mas especialmente por nossa sujeição e obediência, em fazê-lo crescer enquanto diminuímos, em glorifica-lo enquanto nos humilhamos, por amor do seu nome. 

Amém!