01 janeiro 2026

Quarto de Despejo - Carolina Maria de Jesus

 




 

Jorge F. Isah

 

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Vamos falar um pouco sobre “Quarto de Despejo”, escrito por Carolina Maria de Jesus.  Porém, antes de começar, é importante ressaltar alguns aspectos:

Uma obra, seja ela qual for, não pode ser avaliada por emoções ou coisas alheias ao próprio ato criativo. Por exemplo, João usa apenas calças roxas e blusas laranjas com bolinhas verdes. Ele não admite vestir-se de outra forma. É visto por uma “figura”(safo). É descolado, vibrante, alegre e todos o querem por perto. Mas João é pizzaiolo, e suas pizzas são horríveis, mesmo que ele use uniforme roxo, laranja e bolinhas verdes. Assim, ele é duplamente conhecido: por estar sempre à disposição e entremeado aos clientes com seu estilo “caloroso”, mas ninguém quer uma pizzazinha sequer. João sugere, insiste, lança um sabor novo a cada semana, mas os clientes se contentam com os pacotinhos de chips e amendoim, enquanto conversam e riem com o pizzaiolo, entre uma cerveja e outra.

Em seu “Diário de uma favelada”, Carolina não pode ter a sua qualidade literária avaliada pelo fato de morar no “morro”, tanto para o bem quanto para o mal. Esse é um elemento completamente irrelevante no exame do seu trabalho.

Também, o fato de cursar até o 2º ano do ensino fundamental não pode interferir na análise. Quanto mais o fato de ser marginalizada e gostar de coisas que o brasileiro, em geral, desgosta: ler e escrever. Existem muitos leitores, para todos os gêneros e interesses e objetivos, e neles não há unanimidade, quanto mais vocação ou aspiração para a escrita.

A condição social, financeira, educacional, ideológica e pessoal do autor não deve ser ponto destacado em qualquer obra, com o risco de prejudicar não somente o julgamento, mas também rebaixar o talento e esforço a um mero “status quo”.

O mesmo vale para o fato de ser negra, mulher, mãe solteira, recicladora e marginal, e pertencente a um grupo relegado à periferia de São Paulo.

Não estou a falar também de toda a obra de Carolina, pois li apenas o “Quarto”, e ele é o foco deste texto. E o excesso de cuidados em deixar claro o meu propósito não deveria ser necessário se os tempos, e alguns leitores, fossem mais perspicazes. 

Posto isso, o livro é um diário, no qual ela relata o dia a dia da sua vida, e de outros moradores, na favela do Canindé.

E o que dizer do livro?




A narrativa é direta, consideravelmente repetitiva, e não há esmero ou preocupação na construção das frases. Ao menos, na maioria. Óbvio que estamos a falar de uma realidade crua, muitas vezes desesperada e incerta. A precariedade dos recursos, aliada à fome, doenças, desemprego, faz a situação se agravar ainda mais. Se existe algo de virtuoso em Carolina é a sua sinceridade ao expor seus dilemas, anseios e não “baixar a cabeça” diante dos males a rodeá-la.

Bukowski, outro marginal mais talentoso, dizia que a literatura era a razão de não enlouquecer. Ocorreu o mesmo com Carolina, onde as letras, definitivamente, traziam alguma beleza, esperança e realização.

O diário, tal qual a confissão, é a forma mais profunda de encarar a si mesmo e o mundo. Certamente, por isso, os floreios e dissimulações não se enquadram no seu paiol de ideias. Ao mesmo tempo em que as reflexões são brutais, é possível a ela se agradar do nascer do sol, do céu azul, de jardins e a gentileza de uns poucos. Ela se desnuda e se expõe sem rodeios. Não resta mais nada a não ser encarar a realidade e esperar um novo (re)começo.

Enquanto catava papel, plástico, metal ou qualquer outra coisa a render uns trocados, a certeza de ser poeta e escritora não deixava dúvidas nem mesmo aos seus vizinhos e conhecidos. A maioria a tratava com despeito, aquele velho bordão: “O que isso lhe deu?”. No fundo, porém, havia mesmo era inveja. Tenaz, teve o diário recusado pela “Reader’s Digest”, mas não desistiu, e continuou a escrevê-lo, na esperança de um dia ser publicado.

É uma leitura ligeira; todas as informações estão na primeira camada. À parte da luta pela sobrevivência, dela e dos filhos (3 no total), o maior problema é Carolina sentir-se incomodada, deslocada na comunidade, à qual pertencia contra a vontade. As inúmeras queixas de vizinhos, brigas, discussões e o descaso público acentuavam ainda mais o infortúnio da autora.

Nesse ínterim, Carolina repudia com veemência as favelas e seus habitantes. Não faz como a maioria dos sociólogos, antropólogos, cientistas políticos ou palpiteiros que enfeitam a vida nos morros e tentam criar a áurea de falso glamour. Ela demonstra por “a mais b” que o ambiente é insalubre, doentio, e nada de bom, a despeito de uma ou outra benignidade, pode advir dali; a dignidade é o ressoar do abuso e indiferença. A favela é o território perfeito para os políticos não quererem erradicá-la; os dividendos para eles são inúmeros. Manter as pessoas na miséria é a melhor forma de distanciar as “pontas do poder”; por isso, imagina o dia em que terá a sua casa e abandonará para sempre a maloca.

É impossível não se comover com as situações bizarras e degradantes. Somente quem morou ou mora na periferia (a falta de educação dos brasileiros está se transformando em endemia, mesmo nos condomínios luxuosos e bairros de classe média) pode aquilatar um pouco do que ela vivenciou. Não é o melhor cenário para se desenvolver uma narrativa, mas era o que tinha.

A primeira lembrança que me veio, foi a leitura de “Vinhas da Ira”, de Steinbeck.  A linguagem crua, deformada, e a indigência dos personagens se assemelham. No americano havia a recessão, o “Crash de 29” e as lutas de classes — mesmo que a maior parte dos lavradores sequer soubesse do que se tratava — e a manipulação política. No caso da “favela do Canindé”, os políticos apareciam somente às vésperas das eleições... e a recessão é um “looping infinito”.

No final, a minha curiosidade foi satisfeita. A edição preservou praticamente todos os erros gramaticais e, novamente, como em “Vinhas da Ira”, isso me incomodou bastante; se nele foi algo planejado, composto, em “Quarto” é orgânico e inato à autora. Houve, segundo o editor, o jornalista Audálio Dantas, a preservação da escrita original, com todas as suas imperfeições linguísticas, a fim de retratar fielmente o estilo da autora. A meu ver, a deficiência não é o mesmo que estilo. Mas vá lá, em tempos onde o exotismo disso e daquilo deve se sobrepor à ordem, harmonia e correção, o vício se traveste de virtude. Depois de algumas dezenas de páginas, liguei o “dane-se” e foquei no enredo.

Há alguns dias, ouvi de um autor, queridinho da intelligentsia, que, diante de uma lista dos grandes escritores do século XX, apontou Carolina como a maior. Ela bateu João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, entre outros. Sem precisar propor qualquer argumento ou discussão. Era ela e pronto!

Mesmo reconhecendo a persistência, obstinação e o vislumbre incessante do sonho; mesmo reconhecendo a denúncia social e política, não há como reputar, do ponto de vista estético, estilístico e formal, o “Quarto”  como obra de arte. Por muito menos, e bota menos nisso, Dostoiévski foi acusado de ser um escritor ruim e desleixado. Imagine, por exemplo, Nabokov e Hemingway — que culparam  o russo de escrever mal — lendo Carolina.

Em “Quarto de Despejo”, a prosa é assimétrica. E certamente não terá lugar em nenhum salão de festas, nem mesmo naquele dormitório no porão. Ficam, contudo, os milagres operados pela literatura. Os mesmos capazes de salvar Buck, Carolina, eu ou você.


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Título: Quarto de Despejo

Autora: Carolina Maria de Jesus

Editora: Ática

174 Páginas 

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16 dezembro 2025

A Paris da "Geração Perdida": paraíso?! - Ralph Schor

 




 

 

Jorge F. Isah

 

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O que motivou uma geração de escritores americanos a mudar-se para Paris? A “Cidade Luz” ofereceria algo que a “Big Apple”, ou qualquer outra, não poderia? Qual o estímulo para atravessar o Atlântico e adentrar uma nação ainda devastada pela Primeira Guerra Mundial? Esta é a proposta de Ralph Schor em “Paris dos Escritores Americanos 1920-1939”: elucidar as causas que levaram tantos estrangeiros ilustres a residir, ou ao menos passar temporadas, em terras francesas.

A maioria pertencia à “Geração Perdida”, nascida entre 1880 e 1890, que na década de 1920 não ultrapassava os 40 anos. Dentre eles, talvez os mais brilhantes sejam Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Thomas Wolfe, John Dos Passos, T. S. Eliot e Ezra Pound. Outros famosos, como Sherwood Anderson, Henry Miller, Gertrude Stein, Dorothy Parker e Sinclair Lewis, também se integravam ao grupo de “exilados”.

A “Geração Perdida” não era composta apenas por escritores; incluía pintores, músicos, compositores, críticos, atores e jornalistas. A obra em questão, porém, abrange exclusivamente autores literários.

Os motivos eram variados, mas focaremos nos mais comuns. Entretanto, não havia um consenso absoluto; nem todos os interesses os despertavam em comum.

Após o fim da guerra, vários decidiram permanecer na Europa. Alguns, ao retornarem à pátria, sentiram-se estrangeiros em sua própria terra, e o regresso a Paris tornava-se inevitável. Alegavam que a América não possuía uma cultura sólida e milenar como a francesa — era um país jovem demais, ainda em seus cueiros, incapaz de oferecer um clima favorável ao crescimento intelectual.

Djuna Barnes, tendo voltado ao seu país em 1931, revelou sua impressão de haver voltado à infância, uma infância sem relação com a riqueza cultural da velha Europa.”

Aliada à questão cultural, havia a percepção de que a sociedade americana se preocupava excessivamente com a materialidade: lucros, máquinas, ascensão social e consumismo. Muitos a viam como um corpo sem alma.

“Scott Fitzgerald levava um de seus personagens, orgulhoso de ser americano, a declarar: ‘O dinheiro é o poder [...], o dinheiro fez este país’”(“Éclats du Paradis”; em português, “Pedaços do Paraíso”).


    

A ideia de que as obras de arte só tinham valor pelo aspecto mercadológico — quanto venderiam e lucrariam — era abominada pela maioria. Caso os autores não fossem hábeis em monetizar suas criações, eram considerados fracassos. Obviamente, autores populares e com grandes tiragens não revelavam, necessariamente, falta de talento. Mas a reverência ao número de exemplares vendidos como indicativo único de sucesso também era uma falácia. Para a maioria da “Geração Perdida”, o americano médio era medíocre em suas escolhas, e as editoras especializavam-se em publicar autores igualmente medianos e sem apelo criativo. Era um exagero, pois os mesmos proponentes dessa crítica foram descobertos e publicados por esses veículos.

O homem sempre está disposto a valorizar seus desejos e negar virtudes quando não quer algo. Enquanto levas de imigrantes partiam para os Estados Unidos em busca de oportunidades — muitas vezes fugindo da miséria, guerras civis, perseguição e, não raro, escravidão —, a intelectualidade americana rejeitava suas origens para viver em outras paragens. Enquanto a maioria dos estrangeiros buscava usufruir do conforto e da modernidade, construindo uma vida longe da penúria natal ou sistemas a aprisioná-los, a elite negava os esforços sociais para gerar riqueza e bem-estar àqueles dispostos a sacrifícios e muito, muito trabalho.

A elite abastada, com todas as facilidades modernas ao toque dos dedos, frequentando as maiores e melhores universidades, usufruindo das regalias fornecidas pela sociedade que tanto desprezava, herdeira de bens, dotes, prestígio e status — coisas que o cidadão comum jamais imaginaria possuir —, era hipócrita ao denunciar a hipocrisia alheia. Mas não parecia disposta a tirar a trave dos próprios olhos enquanto apontava o cisco de outrem. Sim, entediados em casa e deslumbrados em Paris, não precisavam “suar a camisa” pelo pão de cada dia.

Havia exceções, claro. Hemingway, por exemplo, não provinha de família rica; foi à Europa combater na guerra e conseguiu instalar-se na França. Escrevia para um jornal alemão enquanto seus textos eram rejeitados nos veículos americanos. Thomas Wolfe é um caso semelhante, mas suas investidas no exterior eram temporárias; sempre voltava para casa, assim como Scott Fitzgerald, o menos “deslumbrado com Paris”, ainda que aproveitasse todas as suas facilidades.




Deve-se levar em conta também o fator monetário. O custo de vida na América era três vezes maior do que em Paris, além de o dólar ser muito mais valorizado que o franco. Na França, podia-se ter um padrão de vida com ainda mais luxo, regalias e glamour, pagando quase uma ninharia.

Outro aspecto motivador era a rigidez moral anglo-saxônica. O código de princípios de conduta regido por valores cristãos fazia-os torcer o nariz e ansiar por novas experiências e um estilo de vida mais, digamos, flexível. E, convenhamos, Paris era o destino certo. Em um período em que a Lei Seca vigorou de 1920 a 1933, e apesar da ilegalidade, o álcool proliferava clandestinamente por todo o território americano. Nos bares e cafés parisienses, estavam à disposição uma variedade de bebidas da melhor qualidade, a nata mundial, sem contar outros vícios menos comuns: ópio e cocaína, por exemplo, eram comercializados livremente, já que não havia proibição legal, embora existissem leis de contenção. Nomes célebres como Freud e Klaus Mann sucumbiram aos efeitos nocivos dos opiáceos e alcaloides.

Considerados grandes amantes, o sexo em Paris era algo mais “criativo”, menos escandaloso e sem a censura de olhares públicos. A liberdade era algo que não teriam na América provinciana, ao ver deles.

Natalie Barney, muito revoltada contra o puritanismo de seu país natal, dizia que as mulheres americanas haviam todas engolido uma bíblia ao nascerem.”

Obviamente, houve escritores dispostos a estabelecer-se na Europa não devido às constantes festas, orgias, bebidas e drogas utilizadas sem comedimento, mas porque Paris era o centro cultural do mundo e, como tal, fervilhava com uma profusão de ideias, discussões, novidades e um solo fértil para investigação artística. Simpatizantes de várias correntes literárias e estilos intercambiavam-se; era normal e salutar. Por mais que houvesse divergências, por vezes acaloradas, as amizades não se rompiam, o ódio não se manifestava, e “matar” o adversário era puramente metafórico.

“Os escritores americanos de Paris ponderavam que viviam num local de criação único no mundo: conservatório de todas as artes e, ao mesmo tempo, laboratório onde nascia uma cultura nova. Por isso, Gertrude Stein podia assegurar que Paris e a França constituíam o ‘pano de fundo natural para a arte e a literatura do século XX’”.

Se é justo dizer que existiam facilidades e um estilo de vida muito diferente dos padrões aos quais estavam habituados, não é exagero afirmar que buscavam um ambiente considerado mais propício ao encontro — ou reencontro — com a arte incipiente ou perdida. Alguns a encontraram, outros não. Alguns se ressignificaram. Outros, não.

Ezra Pound se dirigira a Paris justamente para encontrar ali valores literários, morais e políticos que ele procurara em vão nos Estados Unidos e na Inglaterra. Seu objetivo era claramente o de desarrumar tudo o que existia.”




Porém, nem tudo eram flores. À medida que reconheciam as vantagens parisienses, os americanos não eram queridos; pelo contrário, os franceses não se mostravam simpáticos e acolhedores. Para eles, aqueles intrusos tinham apenas dinheiro e estavam destruindo a cidade, aumentando o custo de vida e tornando quase impossível ao cidadão comum dispor de benefícios que, agora, eram inexequíveis aos seus bolsos.

Por outro lado, os americanos também tinham suas ressalvas e consideravam-se mais parisienses que os próprios parisienses, já que os acusavam de renegar a própria identidade:

De fato, os estrangeiros destacavam os defeitos dos parisienses, sua estreiteza, sua frieza às vezes depreciativa, sua mentalidade rotineira, seu frequente desdém pelo conforto e pela higiene, seu gosto excessivo pelo lucro.”

Diferente de outros refugiados europeus — russos, alemães, armênios e espanhóis, fugitivos por perseguição política, que não podiam retornar às suas pátrias —, os americanos poderiam fazê-lo quando bem entendessem.

Esse foi, provavelmente, o último grande período artístico parisiense, onde alguns gênios amadureceram e forjaram seus estilos literários, conquistando lugar no panteão dos grandes autores do século XX. Ali, fomentou-se uma nova cultura, nova arte, a ganhar o mundo, alterar hábitos e estabelecer mudanças profundas, acentuadas nas décadas seguintes. Não é o objetivo discutir se essas ideias, muitas sedimentadas no espírito do século XXI, são legítimas, virtuosas ou meros efeitos da rebeldia humana. Fato é que Paris jamais será o que foi há 100 anos; hoje, é um espectro da caudalosa proficiência de ideias florescidas nos vários campos da cultura de então.

Ralph Schor, apesar da extensa bibliografia, construiu uma obra simples e objetiva, delineando a motivação e as consequências do êxodo intelectual americano no início do século passado. Para quem gosta de literatura, e de algumas fofocas, é um prato cheio.

 

*Nota: Todos os trechos pinçados entre aspas (“”) e itálico foram retirados do livro.

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Avaliação:(***)

Título: “Paris dos Escritores Americanos 1919–1939”

Autor: Ralph Schor

Editora: L&PM

Páginas: 232

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29 novembro 2025

Jack Lemmon: a felicidade não se compra

 





Jorge F. Isah
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Lembro-me de, ainda criança, esperar todos em casa dormirem para ligar a TV, uma Zenith valvulada de 24”, por volta das 22:30 h, para assistir à antiga “Sessão Coruja”, na Globo. Antes, observava se meus pais estavam dormindo, caso o velho não estivesse roncando, o que era facilmente perceptível quando ocorria. Depois, me dirigia à sala, ligava o transmissor, diminuía o volume e me encostava à tela, esperando um antigo clássico em preto e branco.

Raramente, mesmo tendo 11, 12 anos, dormia antes da madrugada. E assim, vivia a aventura de, furtivamente, desobedecer aos patriarcas e me deliciar com os grandes nomes do cinema, e seus filmes maravilhosos.

Um dos meus atores prediletos à época, e que se conservou, era Jack Lemmon. Em muitos aspectos, Lemmon me fazia lembrar os maneirismos de Ronald Golias, o Bronco (para mim, um dos maiores comediantes brasileiros), sem o exagero tão acentuado. Talvez, a minha admiração pelo americano estava intrinsecamente ligada à simpatia com o brasileiro, a quem conheci muito antes de sequer ouvir falar de Jack Lemmon.

Hoje, provavelmente a maioria o desconhece e, desgraçadamente, se priva de acompanhar um dos maiores atores de todos os tempos.

Mas, quem ele foi?

Jack Lemmon nasceu em 1925, em um elevador na cidade de Boston, Massachusetts. Diz a lenda, que a sua mãe, Mildred Burgess LaRue (casada com John Uhler Lemmon Jr.), quase em trabalho de parto, se recusou a abandonar uma partida de Bridge e, portanto, não houve tempo suficiente de instalá-la numa adequada sala hospitalar. Algo inusitado, mas com algum simbolismo, já que o recém-nascido, mesmo antes de vir ao mundo, “galgou” rapidamente o píncaro, e isto marcaria a sua ascensão ao estrelado cinematográfico.

Autodidata, aprendeu, ainda criança, a tocar piano, gaita, órgão, guitarra e contrabaixo. Formou-se em Ciências Políticas, na prestigiada Universidade de Harvard, mas, desde cedo, sempre almejou tornar-se ator, fato a acontecer tão logo terminou a sua participação, como voluntário, na Segunda Guerra. Começou na TV, em uma série intitulada “That Wonderful Guy”, em 1949.

O primeiro filme, em 1954, foi “Demônio de Mulher” e, já em 1955, aos 30 anos, ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante, com o filme “Mr. Roberts”, com direção de Richard Quine. Indicado 8 vezes, em 1973, ganhou a estatueta de Melhor Ator, em “Sonhos do Passado”.

Trabalhou com os maiores diretores de sua época, em especial se destacam as parcerias com Billy Wilder (7 filmes, entre eles os clássicos: “Quanto mais quente melhor”, “Se meu apartamento falasse” e “Irma La Dulce”), Richard Quine (5), Blake Edwards (3). Mais conhecido por suas comédias (também excelente ator dramático, vide as atuações em “Vício Maldito”, “Síndrome da China” e “Missing”, p. ex.), estão entre as melhores de todos os tempos, e de parcerias famosas com Marilyn Monroe, Tony Curtis, Shirley MacLaine, e a mais famosa foi, sem sombra de dúvidas, com Walter Matthau: participaram de 10 filmes, e Lemmon o dirigiu em “Ainda há fogo sob as cinzas” (1972). Nos anos 90, protagonizaram filmes onde se riam de si mesmos: “Dois velhos rabugentos” e “Dois velhos mais rabugentos”, onde contracenaram com outro grande ator, Burgess Meredith, o impagável “Pinguim” da série Batman, e o treinador de Rocky Balboa, nos filmes Rocky I, II, III e V.

Carismático, engraçado, gentil e cooperativo, levava a qualquer set de filmagem não somente o seu inegável talento, mas também a sua personalidade serena e cordial. Modesto, se definia como um “operário da arte cinematográfica”, a despeito dos inúmeros prêmios e depoimentos de críticos e colegas, que o reputavam um gênio das artes cênicas.

Certa vez, perguntaram a Billy Wilder o que era felicidade, e ele prontamente respondeu: “trabalhar com Jack Lemmon”.

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Algumas frases célebres:

 

"Não importa quão bem-sucedido você seja, sempre mande o elevador de volta."

"Minha carreira foi cheia de coincidências notáveis ​​que não têm nada a ver comigo."

"Ninguém merece muito dinheiro, certamente não um ator."

“Algo, com certeza, vale a pena se não for fácil. Se for, não deveria valer a pena.”

“Eu preferiria atuar em Hamlet sem ensaio do que jogar golfe de TV.”

"É difícil escrever um bom drama, e muito mais difícil escrever uma boa comédia, e mais difícil ainda escrever um drama com comédia. Que é como a vida é."

“Morrer não é pecado. Não viver, é.”

“Falhas não param você. O que para é o medo de falhar”.

“Não tinha desejo de estar no cinema. Todo o meu treinamento foi para o teatro, graças a Deus.”

“A morte é o fim da vida, não um relacionamento.”

“Nunca perdi a paixão total pelo meu trabalho.”

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20 novembro 2025

Submissão - Michel Houellebecq

 




Jorge F. Isah

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Li este livro em 2016, mas, diante das guerras atuais, especialmente o embate entre os grupos terroristas do Hamas, Hezbollah e outros, financiados pelo Irã contra Israel, resolvi aprofundar-me mais em “Submissão” (que em árabe significa Islã), o livro que trata exatamente da invasão muçulmana à França e o fim iminente do que poderia se chamar Ocidente nas próximas décadas.

O autor, Houellebecq, já foi acusado de praticamente tudo e, até mesmo, de ao fazer literatura com nítido viés de aversão e rejeição às pautas humanitárias, ganhar milhares de euros e dólares. A intenção seria causar terror, preconceito e perseguição aos inocentes e bem-intencionados islamitas.

Muitos torcem o nariz, outros o consideram frouxo em suas denúncias, e ainda há aqueles que o têm como porta-voz da derrocada europeia atual.

Gosto de literatura e não me importo se existem fatores à direita ou à esquerda, desde que escrita com apuro e qualidade. Ao revelar os problemas e caminhos que o Ocidente está a trilhar, ela se torna ainda mais necessária e ampla. E o multiculturalismo, com todos os equívocos (e mínimos acertos), seja na Europa, América ou Brasil, é um assunto sobre o qual deveríamos nos debruçar e analisar sem os clichês e paixões nos quais o pensamento moderno se habituou e estagnou.

Por mais que o considere um romance atual, pois trata da invasão cultural e, por que não, militar, algo que já foi decantado e alardeado há décadas por grandes intelectuais como Theodore Dalrymple, Roger Scruton, Olavo de Carvalho, entre outros, nunca é demais escrever sobre o assunto.

Por mais que trate do domínio islâmico no Velho Continente, os atentados, estupros, linchamentos e a implantação da Sharia na Inglaterra, França e Alemanha sejam uma realidade.

Por mais que fale da vitória de um partido, a Fraternidade Muçulmana (aliada ao Partido Socialista Francês), assumindo o poder político do país e rapidamente mudando a legislação e aplicando as suas leis.

Por mais que ele discuta algumas ideias em meio a uma descrença e niilismo do personagem principal, François, que se vê rapidamente cooptado pela liderança muçulmana; ainda assim, o livro de Houellebecq, apesar da propaganda alardeada de escritor polêmico, me pareceu aquém das expectativas.

Em meio às críticas de ser ultradireitista, chocante, divisionista, xenófobo, controverso etc., pela mídia esquerdista/liberal, suas alianças e intenções nada morais, e por aqueles que veem mas fingem não ver, esperava algo do tipo um desnudar, um escancarar da "colonização" islâmica na França, revelando suas táticas, violência e o nítido interesse de destruir a civilização ocidental, com a chancela de muitos cidadãos europeus. Em parte, a narrativa obteve êxito.

Contaminados por discursos década após década, o cidadão comum, e mesmo um “intelectual” tal qual François (leciona na Universidade de Paris, através do benefício de bolsas, e nunca teve um emprego de verdade), não é de se estranhar o escândalo e protestos gerados pelo livro. Anestesiados, não conseguem ver além do próprio nariz, enquanto ateiam fogo em si mesmos, na sua cultura e história.

Certa vez, vi a declaração de um ex-militar israelense (e aqui a razão de aprofundar o assunto de “Submissão”) de que, enquanto os muçulmanos querem o domínio, controle e conquista do Ocidente, o liberal cheio de "não me toques" e higiênico quer eleição, e será por ela que o Islã ganhará seus novos territórios. Alguém duvida? Várias cidades espalhadas na América e Europa têm o seu quinhão de governantes oriundos do Islã. A implosão se dá de dentro para fora, seja em metrôs, aviões, prédios ou nas urnas. A democracia tão venerada, frágil e ineficiente, é a mesma a suicidar-se ao dar lugar à teocracia.

François, após ser defenestrado da cadeira na universidade, foi cooptado em troca de se “converter” ao Islã, ganhando três vezes mais do que antes. E assim, boa parte da intelligentsia está disposta a se “sacrificar” por si mesma.

São também os mesmos progressistas que defendem o terror do Islã, encobrem os seus pecados mais hediondos, os crimes mais abomináveis, e demonizam Israel que, como a França de Houellebecq, é democrata e morrerá com a corda que pôs no próprio pescoço. É claro que não estou a falar de escatologia ou do Israel de Deus, mas analisando os fatos friamente. E eles estão aí para todos verem. Basta querer. E é nesse aspecto, ao descrever o protagonista como o homem moderno sem padrão, sem limites, sem domínio, sem sentido, que o autor se sobressai. François é a derrocada do Ocidente; o homem não somente dominado pelo poder político, mas pela própria fraqueza, imoralidade, maleabilidade para aceitar ou fazer vistas grossas ao mal. Isso vale para todos nós que repetimos diariamente a frase atribuída a Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Por essas e outras, não me simpatizo em nada com o liberalismo e o seu viés mais radical, o libertarianismo, que visa apenas o sucesso e conquista material, achando que um governo economicamente menos interventor é a solução de todos os problemas, enquanto “pregam” o relativismo moral e o fim dos padrões culturais, religiosos e tradicionais. O que recebem com uma mão acabam por dar com as duas. Tudo é "menos Estado", como se o entrave fossem as leis e não o tipo de leis, e cada um pudesse viver a seu bel-prazer, desde que não se prejudique ninguém... Tá, cara-pálida! Quando o despertador vai tocar?!... Acham que tudo se resolve com o voto, mas, e a qualidade desse voto?

Para resumir, basta uma olhada ao redor e ver onde o relativismo e os votos nos fizeram chegar; muito mais rápido do que alguém, em sã consciência, pudesse imaginar.

François é este homem: vazio, oco, como T. S. Eliot escreveu em seu famoso poema. Um “maria-vai-com-as-outras”, desde que lhe sejam concedidas algumas vantagens. E se vender bem é, no final das contas, a melhor jogada. Com isso, em seu niilismo, multiculturalismo, relativismo, anticristianismo e tudo o mais de fétido que a modernidade construiu, ele se “converte” ao Islã, pensando no gordo salário e nas mulheres com quem se casará. Não é difícil imaginá-lo a rezar o “salat”... submisso e conformado.

Ao terminar a leitura, fiquei me perguntando se aquela descrição e alerta resultariam em um abrir de olhos do leitor: sinceramente, fiquei em dúvida.

Os mais otimistas o viram como um promotor de ideias e, como tal, achei-as, em algum sentido, perdidas em sua própria denúncia. Como um livro polêmico (talvez para a sociedade pós-cristã e ocidental, como a francesa, mas ainda distante da brasileira), pareceu-me quase inofensivo em sua denúncia escandalosa.

Na verdade, não gostei mesmo da narrativa; ela se desenvolve meio sôfrega e não me cativou na maior parte do tempo. Chego a concluir que é um livro mal escrito, não é uma porcaria, evidente, mas está longe dos grandes autores e clássicos. Pareceu-me frio, distante, mas entre o frio e o morno, que não é uma coisa nem outra, é preferível a contenção da geladeira. Esperava mais, sobretudo pela crítica favorável ao estilo e prosa de Houellebecq, e também sobre o enredo proposto.

No final das contas, talvez se eu não tivesse ouvido falar tanto de "Submissão", sem uma expectativa de que leria uma obra incomum, muito superior ao que se tem escrito mundo afora, seria possível o livro me agradar mais. A propaganda, neste caso, não funcionou a contento.

Resumindo: "Submissão" não é um livro ruim, longe disso, mas não é tudo o que dizem. Ele abarca muitos elementos existenciais, culturais e políticos que levam à reflexão. Porém, ficou um gostinho de "quero mais", que o autor pode corresponder em sua próxima obra ou, quem sabe, em uma releitura.


Avaliação: (★★★)

Título: Submissão
Autor: Michel Houellebecq
Editora: Alfaguara
Páginas: 256


03 novembro 2025

Jim Jones - Jeff Guinn

 





Jorge F. Isah

  

      Já ouviu de Jim Jones?...

      Se pudesse resumir a figura de Jim Jones em uma frase: ele foi um vigarista!... Não, um apóstata!... Um psicopata!...  Um assassino!... Talvez essas e mais outras tantas o retratariam, mas fato é que Jim Jones, passados  quase 50 anos do massacre em Jonestown,  permanece um enigma. Para alguns foi um líder socialista. Outros, o próprio deus reencarnado. Ainda outros, esperança. Foi cabo-eleitoral. Ativista de direitos das minorias. Mensageiro de uma nova ordem. Porém, quem era mesmo?

      Nascido James Warren Jones, em Randolph, Indiana, aos 13 de maio de 1931, filho de James Thurman Jones e Lynetta Putnan. O pai foi ex-combatente na 1ªGrande Guerra e sofreu com as sequelas das trincheiras, tendo sérios problemas nos pulmões que o debilitavam e impediam de executar tarefas físicas. Tornou-se alcoólatra e um pária que dependia da assistência estatal e do salário da esposa, apesar de vir de uma família rural e financeiramente estável. Lynetta era um caso à parte. Trocou várias vezes o próprio nome, se dizia descendente dos Cherokees, e vivia enaltecendo a sua origem, empregos e feitos que nada tinham a ver com a realidade. Fantasiava a fim de satisfazer-se e de minimizar o próprio autodesprezo: uma forma de não ser obrigada a aceitar o que todos viam, mas se recusava a ver.

      Com isso, Jim vivia a perambular pelas ruas; era alimentado pelos vizinhos; muitos o recebiam durante o dia enquanto a mãe estava no trabalho e o pai no boteco. Algo que a pequeno vilarejo de Lynn se dispôs a fazer, mesmo a família Jones sendo vista como esquisita. O pai era vítima da guerra, um combatente necessitado de piedade e, por isso, ganhou a simpatia de todos. Lynetta, pelo contrário, era arrogante, desbocada e grosseira, as vezes estúpida, falava o que lhe dava na teia e não raro exaltava a sua sinceridade, quando na verdade era apenas insolente e rude. Os Jones também não frequentavam nenhuma igreja e não professavam nenhuma fé, algo inusitado em uma comunidade maciçamente cristã.

      Aos domingos, a mãe de Jim ficava em casa, o pai era visto no mesmo bar, enquanto os demais moradores se distribuíam nas congregações da região.

Jim, desde pequeno, tinha uma obceção pela morte, e fazia questão de frequentar todos os cultos, em todas as igrejas. Era possível vê-lo saindo de uma em direção a outra e assim sucessivamente. Chegou a se batizar em várias delas. Reunia os amiguinhos para sepultar animais mortos, momento em que pregava e entrega as suas almas. Com o tempo, passou a matá-los, e seus longos sermões afastaram de vez a assistência.

Desde a adolescência, leu muito sobre socialismo, comunismo e nazismo, tendo Lenin, Stalin e Hitler como seus ídolos, e Mao Tsé-Tung por herói. Cada vez mais se interessava por assuntos ligados ao racismo, à pobreza, e acreditava que o objetivo de Jesus era trazer a igualdade entre todos os homens; com isso, o alvo das suas “pregações” eram os pobres e miseráveis e negros e índios, cujas expectativas Jim queria suprir. A ideia de um mundo igualitário não era uma armadilha para apanhar incautos, no início, mas no decorrer da trajetória “messiânica” ele simplesmente os manipulava ao seu bel-prazer, com o fim de sustentar o seu poder e o culto pessoal.


   Se antes havia uma “sinceridade” propositiva, de auxiliar os mais necessitados, a sua moral deturpada, a falta de noção do pecado, a confusão e desordem quanto ao conhecimento de Deus e o valor da santidade, aliado ao ensino e vida de seus ídolos, levou-o às concepções e táticas mais ditatoriais e manipulatórias vistas por um prócer religioso. Na verdade, em entrevista em 1977, Jones afirmou categoricamente nunca ter acreditado em Deus, de Cristo ser o promotor do socialismo e somente isso lhe interessava. Os relatos dos dissidentes e sobreviventes do massacre na Guiana não deixam dúvida: a religião do “Templo do Povo” era apenas a fachada para a insurreição socialista na América. Estava criado o “socialismo apostólico”.








      
     Arregimentou centenas de adeptos com sua figura carismática, os falsos milagres, e profecias que anunciavam um ataque nuclear soviético iminente em 1967. A ideia era lançar o terror, o medo, e assim cooptar novos membros e manter os fiéis. Enquanto isso, atacava outra frente, ao unir-se a movimentos negros, distribuir refeições gratuitas diariamente, e controlar asilos no estado de Indiana. Além das doações, quando defendia que os membros deviam abrir mão de todos os seus pertences em favor do “Templo”, boa parte das receitas baseavam-se nos auxílios previdenciários de aposentados. Os cheques dos seguros sociais eram entregues diretamente para ele.

Uma boa intenção à princípio levou Jim a gradualmente extorquir e se apoderar dos recursos dos membros, com o mote de criar um paraíso terreno, já que não existia o celestial. A sua capacidade não pode ser desprezada, já que não alcançava apenas a ralé social, mas incorporou ao seu séquito contadores, engenheiros, médicos, jornalistas, políticos e ocupou cargos na prefeitura de Indianápolis e São Francisco. Foi bajulado por candidatos à promotoria, câmaras legislativas e, até mesmo, pela esposa do futuro presidente Jimmy Carter, Rosalynn, e o candidato a vice, Walter Mondale.

Era ferrenho defensor do grupo “Panteras Negras”(de viés marxista-leninista), que, em meio ao discurso de justiça e promoção dos direitos sociais, tornava-se mais e mais violento e agressivo, a ponto de torturar e matar desafetos. Eles foram a inspiração para Jim Jones, que se tornava também cada vez mais paranoico, acreditando que o governo americano o perseguia, a criar a sua própria segurança armada, um pequeno exército a serviço do pavor e coação. Segundo os critérios do próprio líder, que não precisava de provas ou investigação para transformar um aliado em inimigo, qualquer um podia ser “abordado” pela tropa, num claro sinal de ameaça.

Em certo momento, no início dos anos 1960, Jim quis migrar o templo para o Brasil, e escolheu Belo Horizonte para sede (em uma lista das cidades mais seguras do mundo, para o caso de haver um ataque nuclear). Veio com a esposa e braço direito, Marceline, os filhos naturais e adotivos (a “família arco-íris” se compunha de crianças de origem coreana, indígena e negra, além dos legítimos). Contudo, se no país natal era um líder em ascensão, em meio ao espírito naturalmente bagunçado do brasileiro, que não tinha qualquer ligação com as pautas sociais e políticas americanas, viu-se apenas como mais um missionário. Não conseguiu apoio do governo, políticos, e muito menos da elite mineira. Desiludido, dois anos depois foi para o Rio de Janeiro onde também passou ileso, a não ser por prostituir-se, com o consentimento ainda que consternado de Marceline (sua esposa), ao dormir com uma ricaça e levantar fundos de US $ 5.000,00 para um orfanato. É aquela história pragmática dos meios justificarem os fins, quando a amoralidade encontra a melhor, talvez a mais oportuna, justificativa para o desejo intolerável.

De volta, criou uma comuna, em Mendocino, na Califórnia.  O local era quase um campo de concentração: havia toque de recolher, as visitas não eram permitidas, sair somente com autorização; a correspondência dos membros era vigiada e, se necessário, censurada; os telefonemas eram rigorosamente controlados; a ordem era trabalhar e se dedicar integralmente às atividades da comuna e, nos “sermões”, Jones sempre batia na tecla do “nós contra eles”, algo facilmente discernível hoje nos movimentos progressistas (infelizmente, por um tipo de osmose, muitos “conservadores e de direita” também têm utilizado o mesmo ardil. E a máxima de Goebbels se espalha como peste: “Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”).

Por essa época, Jones resolveu ter uma amante fixa entre seus “súditos”, mas, para efeitos públicos, a fidelidade a Marceline permanecia. À medida que o seu apetite sexual, associado ao vício alcoólico e posteriormente a drogas mais pesadas, os relacionamentos com mulheres e homens tornou-se notório entre os membros do Templo. O surreal, para não dizer outra coisa, era a proibição aos demais membros de serem libertinos e poligâmicos, bêbados, drogados e gays. A máxima do “faça o que eu digo, não faça o que faço”, mostrava o nível de hipocrisia a pairar no Templo do Povo.

Se a membresia tinha de se sujeitar a trabalhos extenuantes e forçosos, além das rações alimentícias insuficientes para suprir as demandas físicas, e praticamente viverem amontoados em quartos com outros doze ou treze colegas, Jones reservava a si mesmo um estilo de vida quase nababesco: permitia levar a família (com a amante junto) em férias anuais, viagens e passeios esporádicos, idas a cinemas, McDonalds, e utilizar roupas de grife. Foi por essa época que adotou o indefectível óculos escuros, e nunca estava em público sem eles. 


   Certa vez, em um cinema, abordou um policial disfarçado no banheiro, convidando-o à sua intimidade. Preso, após ligar para o advogado pagou fiança e foi solto; mas enquanto não conseguiu, por meios “diplomáticos”, destruir o prontuário, não teve sossego. O medo da informação vazar para a impressa e o público não o deixavam dormir.

Dali, sairia, em 1974, para uma aventura na Guiana Inglesa, país onde o socialismo governava e a comunicação não seria impecílio. No meio da selva inóspita, o Templo do Povo poderia, finalmente, se ver livre das perseguições americanas e proteger-se de um futuro ataque nuclear. Com o aval do primeiro-ministro Burnham, que via na comuna a saída para as constantes ameaças de invasão da Venezuela na fronteira, destinou-lha uma área na região de Port Kaituma. A colônia agrícola de americanos talvez fizesse o governo venezuelano ponderar nas consequências de ataque a cidadãos da maior nação do mundo, e isso refrearia o seu espírito expansionista e belicoso.

Por dois anos, um grupo de 50 membros foi responsável por construir as instalações a fim de receber os cerca de 600 postulantes inicialmente cogitados por Jones. À medida que denúncias se espalhavam na imprensa, reforçada pela dissidência de membros leais, a fuga para a América do Sul se tornava mais real e próxima. O temor das acusações ganharem o apoio popular e do governo, e futuras investigações devassarem o Templo do Povo, suas práticas, finanças e atividades explicitamente ilegais, deixavam a liderança apreensiva, perturbada, e a exposição da realidade poria fim ao movimento.

Jones e Marceline possuíam cerca de 32 milhões de dólares no exterior, enquanto o “Pai” e a “Mãe”(assim chamados carinhosamente pelos súditos) convocavam os adeptos a mais e mais sacrifícios, empenho e volição no sentido de suprir as necessidades comuns.

É possível que Jim quisesse usar os fundos para implementar o seu ideal socialista fora da América. Poderia ser, também, uma reserva para si e seus familiares em caso de o culto extinguir-se. A verdade, porém, é que Jones já especulava o suicídio coletivo, e o chamou de “revolucionário e socialista”, portanto, não somente fazia parte dos seus planos como algo aceitável, mas assumiria o caráter desejável e necessário à causa,  validaria os discursos de rejeitar o capitalismo e apoiar incondicionalmente o socialismo. Seria a maneira dos membros  tomarem nas mãos o próprio destino, repetia em cada reunião.

Na verdade, alguns se dispuseram a morrer pela “causa”, mas muitos não queriam e foram obrigados, à força, receber o “suicídio revolucionário” como bênção e não assassinato. O relato dos sobreviventes deixa notório o fato de muitos estarem cansados com tudo aquilo, e a morte ser melhor do que ouvir e participar das maluquices alopradas de Jim. Mas estou me adiantando um pouco... e Jones, diversas vezes, como um “bom” psicopata, preparou os acólitos encenando o envenenamento, a fim de avaliar o grau de obediência.  

Em 1977, quando as coisas estavam insuportáveis na California, Jones, os filhos, o harém de amantes (fixas e giratórias) e centenas de membros partiram, finalmente, para o paraíso tropical em meio à Floresta Amazônica. Nos Estados Unidos, a esposa Marceline ficou responsável por representar o Templo do Povo, a captação e envio de dinheiro, a compra e transporte de insumos para o projeto na Guiana.

Nesse ínterim, Jones vivia sobre os efeitos de drogas e álcool, expunha as pessoas a trabalhos forçados 14, 15, 16 horas por dia, sob o sol escaldante e o calor asfixiante da selva, e incursionava no que ficou denominado “noites brancas”, onde todos eram obrigados a ouvir nos vários alto-falantes espalhados em dormitórios, corredores e pátios, horas fio, as vezes terminando com o raiar da manhã, a parolagem ideológica e alucinógena do “Pai”. Aquilo ia minando a resistência física e emocional da população. No auge do acampamento havia cerca de 900 moradores em Jonestown, a cidade de Jones, como foi batizada.

Enquanto isso, as denúncias de ex-membros, as investigações de parte da imprensa (a maioria simplesmente não quis ouvir os delatores), e a entrada no circuito do congressista Leo Ryan (notório por farejar situações onde pudesse ganhar fama e fazer o seu marketing pessoal), chamaram a atenção da opinião pública e das autoridades. As acusações de sequestro, trabalho escravo, fraudes, além de extorsão, ameaças (houve relatos de desaparecimentos e mortes de desafeto; nada foi provado, seja pela intervenção de aliados, seja pela inexistência de fatos) e lavagem de dinheiro.  Discutia-se se o Templo do Povo era verdadeiramente uma igreja, já que nada remetia a uma, sequer havia mensagem religiosa, ou um movimento ideológico, político e social. Neste caso, não faria jus à isenção de impostos.

À medida que o cerco apertava, Jim Jones convencia os moradores de que estava em negociações com o embaixador soviético em Georgetown e, em breve, mudariam e se instalariam em uma região ainda não escolhida pelo governo. Poderia ser apenas delírio, se antes não fosse uma trapaça para manter o ânimo da “tropa”.

Mesmo se opondo, Jones consentiu com visitas de algumas comissões da embaixada americana de Georgetown e do governo guianês. Estudava-se a ida de uma comissão do Congresso Americano, encabeçada por Ryan, para uma inspeção em Jonestown. Por meses, Jim se recusou a recebê-los, e as pressões sobre a comuna aumentavam proporcionalmente às exigências de Washington. Descontrolado, Jim Jones intensificou as “noites brancas” e a ideia do fim. Para ratificar o argumento, descrevia à exaustão o relato ocorrido em Masada, 73 D.C., quando 960 judeus sicários cometeram suicídio coletivo, diante da iminente conquista e escravidão pelos romanos. Para ele, não havia saída a não ser o sacrifício, já que os Estados Unidos, tal qual os romanos, estavam em vias de invadir, prender e escravizar pessoas que buscavam apenas viver em paz o socialismo. Rapidamente a maioria se convenceu de estar em iminente ataque, e a solução final não era mais vista com ceticismo.

Depois de Marceline convencer Jim a receber a comitiva de Ryan, após semanas de tentativas, alegando que o Templo não tinha nada a esconder de ninguém, e a visita poria fim aos falsos rumores, o “Pai” ouviu a “Mãe”, mesmo a contragosto, e autorizou.  Se quisesse continuar a tocar o negócio, teria de fazer concessões ou as doações e ofertas, à míngua, cessariam.

Leo Ryan e sua comitiva, acrescida de jornalistas e repórteres, chegaram em novembro de 1978 em Georgetown. Várias reuniões com a embaixada, o governo guianês, membros e porta-vozes do Templo do Povo, se estenderam por dias, enquanto Jim relutava em recebê-los. Foi novamente Marceline quem o demoveu e intermediou o impasse. Mas a tensão e o clima pesado pairava no ar, e somente Ryan, ocupado com o seu espetáculo, e os políticos da capital sentiam que tudo acabaria bem e, ao final, todos estariam satisfeitos. No geral, havia apreensão e muitas dúvidas quanto ao sucesso da inspeção.

No dia anterior ao massacre, Ryan, assessores, repórteres e os “Parentes Preocupados”, grupo de ex-membros e familiares de membros aflitos com as advertências e relatos acerca da autoridade severa,  métodos no mínimo anormais e controle exacerbado de Jones, chegou a Jonestown, recebidos por uma escolta paramilitar. Logo depois, o próprio líder apresentou-se e trocou poucas palavras com os visitantes. Quem fez o papel de cicerone foi Marceline, sempre afável e disposta a apagar qualquer má impressão.

Membros foram entrevistados; acomodações, obras em andamento e a infraestrutura vistoriados, e, praticamente, tudo foi aprovado. A conclusão era de não haver motivos para duvidar da legitimidade e intensões de Jim Jones. Contudo, não sabiam que nos eventos onde estranhos compareciam o esforço em arranjar as coisas e transparecer ordem, fartura, alegria e produtividade, faziam parte da “máscara coletiva”. Nada denunciava o racionamento de alimentos, às vezes água, medicamentos e outras coisas cruciais para a sobrevivência na selva.

No primeiro dia, alguns membros do templo solicitaram à comitiva o retorno aos Estados Unidos. Leo Ryan intermediou, junto a Marceline, a saída de cerca de 15 pessoas. Na verdade, ao chegar, imaginou que o número de desertores seria maior, na casa dos cem. Marceline, novamente, interveio junto ao esposo, que esbravejou e chamou os dissidentes de traidores. Por fim, concordou. Ela ponderou serem apenas 15, ou seja, pouco mais de um por cento. Não havia porquê impedir, ainda que ela mesma tenha tentado dissuadi-los. Aos mais íntimos porém, Jones disse que hoje são 15, amanhã 30, e depois... No fundo, ele não permitiria isso.

Quando o grupo se preparava para abandonar o acampamento, uma tempestade desabou sobre a vila, impossibilitando a partida até o aeródromo de Kaituma. A estrada rapidamente ficou intransitável. Todos tiveram de se acomodar e esperar o dia seguinte, caso a torrente parasse.

Pouco antes, enquanto os moradores eram entrevistados, um grupo dissidente fugiu, aproveitando-se do tumulto provocado pela visita. À noite, após uma inspeção, Marceline descobriu a ausência de alguns membros, reportou isso a Jones que fez as contas de mais 11 traidores, totalizando 26. Ryan não foi informado da fuga, mas Jones havia decidido colocar um ponto final naquela situação.

Na manhã seguinte, 18 de novembro, após mais duas ou três adesões ao grupo que ansiava retornar à pátria, um membro desferiu um golpe de faca em Ryan que por pouco não foi fatal. Aquilo o assustou e aos demais, enquanto Jones permanecia impassível e com um risinho sarcástico. A comitiva e os “traidores” embarcaram no caminhão de volta à Kaituma, e de avião iriam para Georgetown.

A história já vai longe, então, resumirei.

Enquanto Jones executava os planos traçados anteriormente de envenenamento, outro plano se desenvolvia (as transcrições das conversas gravadas entre Jim e os membros são estarrecedoras. Não as farei aqui. Você pode ouvi-las e ver muitas imagens no Youtube ou, por exemplo, ao ler “Jim Jones”, de Jeff Guinn, a principal fonte desta matéria).

Continuando, enquanto em Jonestown 900 pessoas eram mortas por livre vontade ou coagidas, a segurança do acampamento abriu fogo na pista de pouso em Kaituma, matando 5 pessoas e ferindo outras tantas. Entre os mortos estava o congressista Leo Ryan e sua secretária. Curiosamente, quatro soldados guianeses, responsáveis pela escolta do grupo, não interviram no ataque, apenas observando as cenas brutais. Havia o temor de envolverem-se e causar um conflito internacional, pois eram americanos matando americanos.  


    Descrever a negligência e o pouco caso com que os Estados Unidos e a Guiana trataram o assunto, antes da tragédia acontecer, é desnecessário perante os fatos. Depois, cada um tratou de salvar a própria pele.

É como escavar um lixão, quanto mais se mexe, mais lixo aparece.

Jim Jones, com todo o seu carisma, charme e apelo popular, ficará mesmo marcado na história como um frio, louco e desmedido assassino. Em seu orgulho, blasfêmia e falta de afeto natural, tinha aparência de piedade, mas negava-a.

Casos assim nos enche de compaixão e tristeza, e pode ainda ser mais triste, pois, neste mundo, os exemplos, ao invés de servirem de alerta, tornam-se causa e motivação para repeti-los. Se há cinquenta anos, quase mil pessoas foram exterminadas pela cegueira própria ou pela fraqueza moral, pessoas como Jim Jones são o sinal de que nas trevas sempre é possível surgir homens tenebrosos e cruéis.

Que Jim Jones, a despeito da sua crença na reencarnação, esteja definitivamente morto.

E nada, ou alguém, reivindique o seu trono.

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Bibliografia: Jim Jones

Autor: Jeff Guinn

Editora: DarkSide

Páginas: 544

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Li materiais avulsos e assisti a vídeos no youtube. A maioria das informações estavam em harmonia, confirmando, especialmente as fontes primárias (e muitas delas estão vivas), o assombroso e terrível desfecho das loucuras psicóticas e socialistas de Jones, descritos por Guinn.  Por isso, não me referi a ele como pastor e seu culto por igreja, já que as características do Templo do Povo não tinham nada a ver com religiosidade, não no sentido cristão do termo. Era mais um politburo. E um chamariz para atrair incautos.

27 outubro 2025

Maus de Art Spiegelman... e os ilegíveis





Jorge F. Isah

 

 

               Tenho vários parentes e amigos que não gostam de livros. E não gostam porque a leitura é algo chato. Então, os livros são chatos. Silogismo à parte, seja irregular, regular ou outro qualquer,  revela o quanto ler está fora de moda. Até mesmo aqueles que reputam o hábito da leitura necessário e proveitoso não leem. Conheço universitários que concluíram seus cursos e não se esquivaram de afirmar jamais terem lido nada além de trechos dos vários tratados e manuais e artigos e teses, e apenas esporadicamente. E se orgulham da façanha, balançando o diploma no ar. É mais uma vitória do jeitinho brasileiro, aquele capaz de desplugar qualquer possibilidade de luz enquanto se aventura a lutar junto às trevas.

      Ao meu jeito, tento estimular um e outro, aqui e acolá, a desenvolver algum tipo de leitura, desde crianças e adolescentes até adultos e anciões. Mas, convenhamos, é uma tarefa árdua, dada a concorrência dos TikToks da vida.

      Bem, tentei uma última cartada com um associado. Pensei: “é bem possível que a pessoa se interesse, já que tem desenhos e a história se desenvolve também por imagens, não apenas textos”. Pareceu-me brilhante. Depois da compra, falei com os meus botões:  “talvez o meu consumismo tivesse me enganado e, assim, ao invés de comprar o livro para presente, estava pondo mais um exemplar na minha estante, já que as chances de sucesso não eram muitas, talvez uns 20%”.

      Quando chegou, corri, e, após um breve discurso, mostrei-lhe o exemplar: “Maus”, de Art Spiegelman.

      — O que é isso?! — disse entre surpreso e quase indignado — Pensei que fosse um par de meias ou o retrato emoldurado da vovó...

      — Veja bem, pegue, vamos... tem muitos desenhos... é uma história em quadrinhos e os textos são poucos... você vai gostar... anda, pega!

      Fez cara de nojo, como se estivesse a colocar meleca ou santinho de candidato na mão. Relutante, recebeu o livro. E balançou-o.

      — Puxa, como é pesado!... Não, não quero. Vou acabar tendo bursite ou tendinite.

      A verdade é que deixei a Graphic Novel e esperei alguns dias.

      Na véspera do fim de semana, cheguei em casa e “Maus” estava sobre a mesa, com a mensagem: “Tentei, mas não deu.”. Peguei o volume, estava intacto, como se nunca fora manuseado. Não vou dizer que não fiquei decepcionado. Mesmo com as chances mínimas, não esperava fracassar.

      Sentei-me desolado, o exemplar à frente, o símbolo da derrocada da civilização. Nada me tirava da cabeça que, em breve, os homens estariam gruindo pelas ruas e a lambuzar as paredes com os seus excrementos... Ops! Isso já não era novidade... Os sinais, aterradores. E Darwin estava completamente equivocado, ao menos quanto à humanidade: em franca involução.

      Abri o livro e comecei a ler. Não parei até a última página. A história era, à primeira vista, sobre nazistas, judeus e o holocausto. Era mais que uma denúncia. A história também tratava do relacionamento entre pai e filho, Vladek e Art, e sobre o próprio livro. Veio-me a parábola do Filho Pródigo; o que era mais curiosidade em saber sobre a mãe, Anja, suicida quando Art tinha 20 anos, transformou-se em admiração e respeito pelo pai, mesmo com todos os impulsos mesquinhos e avaros. Era também uma história de amor entre Vladek e Anja, que não se extinguiu mesmo entre os horrores. Era a história de perdas, e não foram poucas, e, após décadas, ganhou contornos de vitória. Seja nos campos de concentração, nas vilas e cidades, no pós-guerra, ou depois, quando até mesmo as memórias se desarraigavam.

      Quantas pessoas se beneficiariam do livro, caso se dispusessem a dedicar algumas horas? Quanto se pode ganhar? Conhecer? Entender?

      Não sou afeito a HQ’s. Em décadas, esse foi o primeiro. Havia um preconceito de não se fazer boa literatura a partir de quadrinhos. Porém, agora, reconheço: a ignorância em conhecer o gênero e manter-me distante foi a razão verdadeira. E assim como posso me privar de outras experiências, sendo um leitor usual, imagino os que se abstêm por completo.

      Não sei se farei a resenha de “Maus”; talvez sim, talvez não... Mas já não é mais por preconceito ou por desconhecimento. A pergunta é: alguém lerá? Como o Fábio Ribas certa vez me disse: “se você não fizer, quem o fará?”.

      Então, farei e não farei... continuarei a tentar, e ler, e escrever... Porque alguém só pode falar daquilo que o coração está cheio[1], e o meu transborda palavras.

 



[1] Paráfrase ao que Jesus disse em Mateus 12:34 e Lucas 6:45.


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