Jorge F. Isah
Jorge F. Isah
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Jorge F. Isah
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Folheto evangelístico:
ENTREI PARA O TRÁFICO AOS DEZESSEIS ANOS
Veredas Missionárias disponibiliza o folheto ENTREI PARA O TRÁFICO AOS DEZESSEIS ANOS. O material é na verdade um folder do tamanho de uma folha A4, com duas dobras (compondo seis páginas ou painéis). Sua mensagem é adequada para adolescentes e jovens adultos em risco de envolverem-se, ou já envolvidos, com o tráfico de drogas e a criminalidade em geral.
O folheto é disponibilizado em duas versões: Colorido e em preto-e-branco. Você pode imprimi-lo em sua impressora caseira, ou pode levar o arquivo a uma gráfica, e imprimir a quantidade que desejar. Isso mesmo: Liberamos o material para uso livre, e sem a necessidade de você pedir licença.
OBS.: Recomendamos sabedoria e discernimento ao utilizar este material.
OBS.2: O arquivo é “pesado” em virtude de estar em alta resolução, pronto para impressão profissional.
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Jorge
F. Isah
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Elisa é a escritora menos famosa da
família Lispector. Os holofotes, na
maioria das vezes, são reservados para a irmã caçula, Clarice. E, convenhamos,
apesar do talento de Elisa, as homenagens à irmã não são exageradas ou
inflacionárias; o que, entretanto, não significa dizer que Elisa careça de
mérito ou seja uma autora desnecessária. E a prova está aqui, neste romance
autobiográfico em que a vida da família Lispector se mistura aos dramas e
expectativas do seu povo e nação: judeus e Israel.
À primeira vista, “No Exílio” pode
significar apenas mais uma saga de imigração, a busca de novos ares, a
sobrevivência e a concretização de sonhos. Porém, à medida que a narrativa
flui, a história dos refugiados se
mistura e entrelaça com a formação do novo estado israelense.
Vivendo na recém-fundada U.R.S.S, após a
revolução Bolchevique, os Lispectores (Pinkhas e Mania, pais; Elisa, Tania e
Clarice, filhas) são perseguidos, assim como outros tantos judeus, por vários
grupos revolucionários (pogroms), e a trágica perseguição, expropriação,
execução e massacre de vilas e cidades é consentida pelo governo soviético que,
direta ou indiretamente, colabora com o extermínio sistemático de comunidades
inteiras no território russo, indo além de suas fronteiras, como nas áreas
conquistadas durante a Guerra Civil. Tais acontecimentos proliferaram
massivamente na Ucrânia, país de origem da família de Elisa e uma das maiores
colônias de judeus da Europa. Odessa, por exemplo, chegou a ter, no início do
século XX, um terço da sua população composta por judeus.
O cotidiano era de incertezas, ameaças,
invasões e mortes sumárias, sem contar os inúmeros casos de chantagem, saques e
ataques generalizados às comunidades: destruição de sinagogas, da identidade
cultural e religiosa, profanação com a queima de rolos e pergaminhos da Torá,
outros textos sagrados e símbolos. Fica evidenciada uma “diáspora” naquele
momento, em que as pequenas localidades eram dizimadas e populações de judeus
se viram obrigados a fugir para as maiores cidades, a fim de se protegerem.
Eles eram acusados pelos monarquistas de bolcheviques, enquanto os bolcheviques
lhes imputavam monarquismo e burguesia.
Na primeira parte, Elisa descreve a
estrutura familiar, a sua infância, apreensões e anseios. Estamos diante da
luta pela sobrevivência, onde os valores morais, tanto à vida como ao
patrimônio, são sistematicamente destroçados. Ela relata incidentes com amigos
e vizinhos, e o banho de sangue que todas as revoluções se especializaram em
ostentar como marca registrada. A ideia
de que os judeus são usurpadores, enriquecem ilegitimamente, exploram o
semelhante, sempre foi o axioma para a extorsão, roubo e aniquilação. É uma
fonte de renda sem impedimentos ou
obstáculos e, via de regra, em vários momentos da história, foram implementadas
como solução.
Os incidentes soviéticos são referenciados
como “laboratório final” para a “solução” germânica do holocausto. De uma forma
até então inimaginável, salvo a inquisição, o “ensaio geral” revelou que o
genocídio semita seria “première” de estrondoso sucesso.
Nesse contexto, os Lispectores decidem se
mudar para a América, e as poucas reservas financeiras são gastas com
“coiotes”, aproveitadores sem quaisquer escrúpulos, sob a tutela de uma burocracia corrupta que
amealhava facilmente o seu quinhão. Engraçado notar que os mesmos a acusarem os
judeus de desonestos são a hipérbole da vilania.
Em meio a esse caos, Hitler e os nazistas começam a ascender
a cargos e postos na Alemanha, derrotada na Primeira Guerra, e o espírito
antissemita se alastra célere pela Europa.
Mas, talvez, em lugar nenhum antes dos campos de extermínio do 3º Reich,
os prenúncios do que viria a acontecer foram tão explícitos como na União
Soviética.
Na segunda parte, Elisa descreve o périplo, onde a fuga era a
única saída e a esperança estava a além-mar, do outro lado do Atlântico. As comparações com o êxodo de Israel, do
Egito à Terra Prometida, ganham contornos de similaridade,
Aportam em Maceió, em 1922, e são
recebidos pelo irmão de Pinkhas, Samuel, e esposa, estabelecido como empresário
na capital alagoana. Por essa época, os nomes ucranianos foram substituídos por
correlatos: Pinkhas virou Pedro, Mania virou Marieta, Chaya virou Clarice.
Samuel não deu vida fácil ao irmão,
recém-chegado. De todas as formas, procurou explorá-lo, utilizando-se da
inexperiência e baixa comunicação dele entre os nativos. Por três anos, Pinkhas
foi aviltado, até que se cansou da situação e resolveu partir para Recife, em
novo êxodo, à busca da tão sonhada terra prometida.
Lá, trabalhou como vendedor, e abriu um pequeno
negócio de secos e molhados. Mas a penúria financeira da família era grande,
agravada pela doença degenerativa da matriarca, cujos cuidados ficaram a cargo
de Elisa. Ela também era responsável pelos afazeres da casa, do pai e das irmãs
menores. Havia uma ligação mais forte com Pinkhas, estudioso da cultura judaica
e escritor para jornais israelenses, e que estimulava a primogênita com conversas
sobre as mazelas do seu povo, os rumos políticos que o Ocidente tomava e a
necessidade de mudanças. O crescente antissemitismo na Europa era a predição de
dificuldades ainda maiores para o seu povo.
Elisa descreveu os seus obstáculos, desejos e
escolhas, como a de não se submeter ao casamento arranjado, mesmo reconhecendo
as boas intenções paternas. Formou-se na Escola Normal de Pernambuco e estudou
no Conservatório de Música, iniciando o magistério com crianças em Recife.
Por essa época, o 3º Reich tomava forma na
Alemanha, e Hitler se tornara um homem poderoso, líder carismático e populista,
assumindo o título de Chanceler em 1933. Dois anos depois, os Lispectores mudaram-se
para o Rio de Janeiro.
Não há, na obra, citações do
desenvolvimento educacional e artístico da irmã Clarice. As referências são
esparsas e econômicas, mais voltadas para o dia a dia da família. Isso se dá,
pois a autora se preocupa em relatar o seu próprio exílio, inclusive por não se
enquadrar no esquema rigoroso da cultura do seu povo. Também, ela foca no
exílio paterno, ao qual Pinkhas nunca se submeteu, e melancolicamente se
convencia do abandono dos concidadãos pelas nações; e em graduações diferentes,
da conivência e sustentação das políticas antissemitas e a favor dos muitos
“pogroms”.
Clarice, Tania e os demais membros foram
tratados perifericamente, à exceção da mãe, sua doença e suplício, que trazia
tanto desconforto à família, especialmente Pinkhas e Elisa, num nítido
paralelismo com a aflição do povo judeu.
Não entrarei em mais detalhes, para não
tirar o prazer do leitor em se debruçar sobre “No Exílio”. A linguagem
empregada pela autora é fluida, simples sem ser banal, formal sem ser
hermética. O estilo é quase linear, cronológico, com esparsas digressões e
baseado, majoritariamente, no pensamento e reflexões de Elisa e Pinkhas. E, como
disse no início, não se pode esquecer das constantes relações entre as
peripécias familiares e analogias com a situação de Israel naquele período — as
implicações entre ambas se entrelaçam, numa rede da qual, especialmente o
patriarca, não pôde se desvencilhar. Os dramas se cruzaram e se atravessaram
num quase permanente estado de angústia tricotômica.
Podemos conhecer um pouco mais da história
e do exílio individual e coletivo dos Lispectores e da comunidade judaica.
Não é um livro alegre. Não existe
esperança, porque o sofrimento de um é o sofrimento de todos, mesmo que nem
todos estejam em martírio. Restou a Elisa e os seus aceitarem o exílio, e
reconhecerem que não existe, neste mundo, uma terra prometida.
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Avaliação: (***)
Título: No Exílio
Autora: Elisa Lispector
Editora: José Olympio
Páginas: 210
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Jorge F. Isah
Este mês, motivado pela ausência da minha esposa,
pois estava a visitar seus parentes em B.H., resolvi assistir a uma das novas
séries da Netflix — não sei se nova para a grade ou apenas para mim, já que
raramente me arrisco a séries atuais, salvo indicação de amigos confiáveis. Sim,
sou arredio com as novidades por vários motivos. E podem me chamar de velho e
antiquado, porque não estou nem aí, e não faço qualquer questão de ser
moderninho ou descolado — e, digamos, me surpreendi.
A princípio, chamou-me a atenção a
presença de Jon Bernthal, ator acima da média. Esse foi o principal chamariz.
E, também a possibilidade de não me ver maratonando por horas a fio, algo que
não tenho me entregado desde que descobri “Downton Abbey”— talvez seja o maior
estímulo: uma minissérie em seis capítulos.
A história não tem nada de novo: um crime,
seguido de outro crime, e outro, um detetive que era amante da primeira vítima,
um casal em crise, amizades tóxicas, garotas perversas, hipocrisia, etc, etc, e
toda aquela lenga-lenga da qual já estamos acostumados.
As pistas, inicialmente, se voltam para
Anna — interpretada pela mediana para baixo, Tessa Thompson — esposa do
detetive Jack Harper — Bernthal —, que também é um dos primeiros suspeitos. O
roteiro privilegia os clichês, não tem personagens profundos e bem
caracterizados, muitas cenas soam artificiais ou incoerentes — como as de
Harper soltando provas para todos os lados, enquanto realiza inquéritos nos
balcões de bares e estacionamentos — mas a direção consegue manter o clima de
suspense e a produção não precisou criar nada mirabolante para suster a
atenção.
Harper é o marido traído, com o casamento
destruído pela morte da filha recém-nascida, mora com a irmã alcoólatra e tem
uma sobrinha pequena. Quer mais?... Anna é uma jornalista que perdeu o cargo de
âncora na TV, pelo sumiço de um ano sem deixar rastros, após a morte da bebê.
Mesmo assim, é readmitida na emissora e começa a trabalhar no caso dos
assassinatos imediatamente, protegida do chefão Jim Pruss, personagem criado
apenas para respaldar a nova ascensão na carreira de Anna.
Como em todo suspense policial, as pistas
apontam ora para um, ora para outro, ora para aquele, e, sabemos, no fim,
haverá uma reviravolta e aquele personagem que ninguém imagina é o verdadeiro
criminoso. Tudo se encaminha para Catherine, mas quando o desfecho acontece e
percebe-se que ainda faltam quase trinta minutos da série, a pergunta vem: qual
será a surpresa mirabolante para enganar o espectador?
Nos livros e na dramaturgia, salvo raras
exceções, as pistas levam quase inevitavelmente ao algoz e, no final, temos
confirmada a autoria. Bons escritores e dramaturgos não estão preocupados com
“final apocalíptico”, mas com o enredo, em produzir bons personagens, em
desenvolver a trama de tal maneira que ela sustente o livro ou peça, sem
precisar de malabarismos e invenções. Não sei quando as coisas mudaram e a
necessidade de uma reviravolta épica — na maioria das vezes sem sentido, como a
explosão do carrinho de cachorro-quente no parque de diversões espalha pétalas
e balõezinhos coloridos ao invés de salsicha e molho de tomate.
Aqui, a despeito de haver alguns bons
atores — Bernthal, Crystal R. Fox, Marin Ireland — o roteiro é tão pobre e a
caracterização tão superficial que escorregam, e o chão é o lugar de todos.
Tentarei não dar spoiler, mas não sei se conseguirei.
Alice, uma anciã com Alzheimer, aparece
secundariamente na história. Aquele drama pessoal e familiar da protagonista,
Anna, que, contudo, não a impede de negligenciá-lo, preocupada com a carreira e
as disputas internas no trabalho. Em momento algum, existe empatia entre mãe e
filha, e a importância da relação se dá apenas pelas sequelas do passado.
Como disse, lá em cima, os clichês são abundantes.
E o fim é o ápice deles. De uma inverossimilhança patética e irrealizável, com
justificativas saídas da boca de um infante assustado com a história do
“Chapeuzinho Vermelho” — escrita por Perrault e não a versão dos Irmãos Grimm —
e que decidiu estragá-la completamente.
Lembrou-me, um pouco, Tarantino, “o rei da
vingança” — mas com talento — onde nada importa, apenas pagar com a mesma
moeda, se possível, com juros. E os laços entre mãe e filha se reatam ou se
amarram em um final feliz, sorridente, sem culpas ou desculpas.
Talvez, esteja se perguntando: “por que
raios, no início, você se surpreendeu?”
Vou lhe dizer claramente: percebi o quanto
a minha esposa faz falta. Peguei o telefone, liguei para ela, e ordenei o seu
retorno imediato, ou faria uma besteira. Quando ela me perguntou qual besteira,
disse que, além de cancelar a assinatura da Netflix, iria desaparafusar a TV da
parede e jogá-la no lixo.
No dia seguinte, estávamos juntos, e
assistimos “Ele & Ela”. E não é que gostei?
Jorge F. Isah
Frases polêmicas, mas nem tanto...
Jorge F. Isah
Jorge
F. Isah
Recentemente, travei contato com a obra de
McCullers, por intermédio de outros autores do sul americano, como Faulkner e
Flannery O’Connor, e a minha primeira incursão foi no seu romance de 1941,
“Reflexos num olho dourado”.
É um livro pequeno, pouco mais de 140
páginas, mas de densidade claustrofóbica e com tantas nuances — tantas quanto
se possa achar. Boa parte da crítica o coloca como um livro “queer”, num
reducionismo irritante, pois, apesar de tocar no aspecto homossexual do
protagonista, não é nem de longe o foco da narrativa.
Gastei uns três dias, mas desde o início,
ainda na primeira página, percebi que não o podia tratar ligeira e
superficialmente. Havia muito a desenterrar em seus escombros. Ainda assim,
mesmo depois de concluído, decidi esperar um pouco para maturar as impressões e
esquadrinhar as que houvessem me escapado. Via de regra, não sou apressado em
fazer resenhas, mas, neste caso, a prudência era ainda mais necessária.
Antes de continuar, existe um filme
dirigido por John Huston e estrelado por Marlon Brando e Elizabeth Taylor,
baseado na obra. Tentei encontrá-lo em vários streamings, sem sucesso. Uma
pena, pois a ideia do trio trabalhar o texto de McCullers seria, no mínimo,
instigante.
À primeira vista, como já disse, parece
tratar de um triângulo amoroso onde o adultério e a homossexualidade, aliados à
hipocrisia e opressão social, parecem o âmago do tema. Mas não.
Há um gay não assumido, Capitão Penderton — casado
com a femme fatale, Leonora, amante do Major Langdon, vizinho e superior
do marido na base militar no sul dos EUA —,cujo segredo é protegido sob sua
autoridade oficial. O mesmo não se dá com a relação adúltera entre Langdon e
Leonora, a ponto de todo o “Campo” (não há nominação da base militar) sabê-la.
Leonora, especificamente, parece pouco interessada
em esconder a traição, e o seu descuido reforça a suspeita e confere ao rumor
um tom de tácita autenticidade. Logo, ela não se interessa pelos sentimentos
dos outros e quer, acima de tudo, provocar tensão e fazer as pessoas orbitarem
nela — o único apego real e sincero, se
é possível chegar a tanto, se dá em sua relação com o cavalo Firebird,
um puro-sangue sob a responsabilidade de um soldado, cuja participação será
tratada mais à frente.
Então, não se trata apenas de chocar a
sociedade ou discutir questões meramente
sexuais; sequer levantar alguma bandeira, seja ela qual for. Na história da
literatura, e muito antes de Carson, houve autores mais incisivos e explícitos
quanto ao assunto.
O “Campo” é um claustro, onde os desejos
se tornam obsessões, e as relações são levianas, superficiais e marcadas por
forte tensão, por conflitos violentos, apesar da “normalidade”. É nítido o
quanto os personagens sofrem, uma aflição nada intermitente, onde a superfície
camufla quase ineficientemente a angústia de suas almas. McCullers não parece
disposta a permitir um único minuto de paz e, certamente, nenhum deles sabe o
seu real significado — não há como procurar o que não se conhece e alcançar o
que não se vê.
Existe um código desonroso entre o núcleo principal,
que se relaciona em aparente amizade, com jantares, festas, recepções, de uma
gentileza forçosa e artificial, onde conversas e atitudes não refletem a raiva,
a indiferença e o desprezo que se tem um pelo outro. Poder-se-ia chamar essas
relações de parasitismo assimétrico, que definiria o quão prejudicial e danoso
podem ser certas “colaborações” entre os homens.
No grupo secundário, temos a esposa do
Major Langdon, Allison e o seu ajudante filipino, Anacleto; e ainda o soldado
misterioso e circunspecto, Williams, o cavalariço. Neste grupo, apesar de serem
igualmente disfuncionais, ao menos sabem o seu papel no mundo e na vida alheia,
ao contrário da outra tríade.
Penderton é um homem austero, ambicioso e
covarde, que mantém um casamento de fachada e despreza intensamente a sua
esposa. Leonora é uma mulher superficial, fútil e sedutora em sua beleza
crepuscular. Langdon é o seu amante, um homem ao estilo macho-alfa. Não existem
santos, muito menos inocentes. Todos são culpados por suas fraquezas e, em
algum nível, pela debilidade alheia.
Alguns apontam a isenção da autora em
evitar qualquer tipo de censura aos seus personagens, mas a maneira como ela os
descreve, seus rompantes e instintos, rebate fortemente essa premissa. A
incapacidade de comunicação, afetividade e compreensão, fruto da imoralidade
sem freios, os leva ao caos relacional — no fundo, tudo se resume ao poder
fragmentário e minguado.
Williams é um voyeur atormentado por
Leonora. Ele se entrega à compulsão de vigiá-la à noite e fazer incursões até o
quarto enquanto ela dorme. Ele é um adulto que se infantiliza diante da figura,
de uma imagem idealizada de Leonora, poderosa, magnética. Por falar nisso —
talvez, no futuro, escreva algo mais abrangente —, na maioria dos casos a
compulsão e os delírios sexuais, independente da monta, deficiências e
justificativas, originam-se na infantilização do indivíduo, a culminar na
infantilização do seu objeto de prazer, seja uma pessoa, animal ou qualquer
outra coisa a movê-los numa espécie de regressão psicocomportamental. Tal qual
a comilança, que parte do princípio da necessidade alimentar e descamba para a
glutonaria, o exagero e a submissão ao desejo. O descontrole sempre — ou quase,
vá lá! — terá por axioma o imoral e o antiético. Aqui, Carson parece entender
completamente isso: adultos que se portam como adolescentes ou púberes.
Penderton é atormentado pelo corpo nu do
soldado Williams e, como ele, é também um perseguidor. Procura os momentos para
aproximar-se, mas é incapaz de revelar a sua atração. E isso o torna instável e
vacilante.
Langdon passeia pela amante como um
carteiro pela rua. Nada além do seu apetite sexual a guiá-lo.
Leonora, como disse, esconde-se em sua
beleza; mas já a vislumbra perdida, em breve.
Allison é a esposa traída, que sabe da
amante do marido, mas sucumbe ao silêncio e no desejo irrealizável do divórcio.
Anacleto é o único amigo sincero, leal,
protetor. Filipino e afeminado, é para Allison o que o marido não consegue ser,
e, de uma maneira engraçada, serve de consciência para Langdon, na tentativa de
mostrar os seus equívocos e chamá-lo à realidade. Porém, o major o vê apenas um
“macaquinho” zombeteiro e provocador, uma figura exótica, a qual conserva
exclusivamente para “encobrir” suas negligências quanto a Allison, e ao servir
de única companhia.
Em última análise, o desfecho final não é
meramente acidente, como muitos presumem. McCullers, ainda que não cite uma
única vez algo transcendente, não absolve os seus personagens. Cada um, à sua
maneira, é condenado por seus pecados, desvios e ausência completa de virtudes.
Todos se verão culpados, e os seus desejos levam a consequências trágicas e
perturbadoras. Apenas o inofensivo Anacleto escapará dessa sina, como se a
consciência fugisse dos efeitos deletérios e não mais houvesse lugar para ela.
Os demais terão de conviver com suas escolhas — destruídos na desonra da
vontade e cobiça.
E o que para alguns simboliza a liberdade,
não é nada além de reflexos — o resultado de uma vida indireta — o desbotar num
olho dourado.
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Avaliação: (****)
Título: Reflexos num olho dourado
Autora: Carson McCullers
Editora: José Olympio
Páginas: 142
Jorge F. Isah