[1]
Entrevista ao programa “NewNight”, da BBC Two
Texto publicado originalmente na Revista Bulunga com o título: "O futuro é hoje"
Jorge F. Isah
[1]
Entrevista ao programa “NewNight”, da BBC Two
Texto publicado originalmente na Revista Bulunga com o título: "O futuro é hoje"
Jorge F. Isah
Jorge F. Isah
________________
A
expressão pastoral traz vários significados no campo religioso, musical e
literário. Mas sempre guarda um elo comum em cada um deles: evocar paz,
serenidade e acolhimento. A simplicidade, o bucólico e o lírico se misturam e,
em cada um desses aspectos, representam um estilo ou tipo de vida inocente,
confortável, organizado. Mas eis que entra em cena, Philip Roth e o seu
Pastoral, para estraçalhar, desconstruir a harmoniosa e pura vida social dos
Levov e da sociedade americana — ao menos era assim que imaginavam —, em busca
do sonhado paraíso terreno, que se rompe assim como se quebrou no Éden.
O
ingênuo Adão — ingênuo, não inocente — encontra o seu correspondente no Sueco,
Seymour Levov, um descendente de judeus, dono de uma fábrica de luvas femininas
que vê a importância do seu negócio diminuir com o final da elegância e
sofisticação nos Estados Unidos, e, por tabela, no mundo.
Se
na II Grande Guerra a América entrou como a “salvadora da pátria”, a despeito
de alguma resistência interna, a maioria apoiou os esforços dos Aliados em
derrotar o Eixo do mal, o mesmo não se pode dizer do envolvimento dos
americanos na Guerra da Coreia e posteriormente no Vietnã: a recém estabelecida
“maior nação do mundo” se transformou em um front interno. Não vou entrar em
questões de geopolítica para validar ou não as guerras. Interessa, muito mais,
as consequências humanas apontadas por Roth, e que não são poucas e
desprezíveis. Afinal, guerra é guerra, e nunca haverá consenso quanto a sua validação.
Sueco
é o americano de sucesso. Exímio atleta e astro juvenil do futebol, basquete,
baseball e de qualquer esporte onde se aventurasse; bonito, charmoso, alto e
atlético. Invejado por muitos, endeusado por outros, ele não tratava a fama
como algo superlativo — chegava mesmo a considerar a paparicação algo sem
propósito e exagerado. No fundo, era o arquétipo para muitos e o orgulho para
outros. Em certo momento, Seymour venceu o Sueco, ao resistir, diante das
propostas para se tornar astro profissional, e seguir a carreira do pai: tocar
a fábrica de luvas.
Conciliador,
tranquilo, simples, às vezes ingênuo, é incapaz de dizer não ao seu velho —
judeu que não admite ferir as raízes da tradição —, mas o faz uma única vez, na
escolha de Dawn — católica — por esposa. Contra a vontade do pai — que submete
a futura nora a um “inventário” religioso —, acabam por casarem-se.
O
pai, Lou — homem arraigado à sua ancestralidade — temia que a história da
família se perdesse; e os sinais de que nada do que fora antes se estenderia no
futuro, o tornava exageradamente crítico quanto aos rumos que as coisas
tomavam.
Eram
os anos 1960 e seus arredores.
No
começo, temos Zuckerman — alterego de Roth em vários dos seus romances — com a
incumbência de escrever um tributo ao pai do Sueco. Ele, porém, muda o foco
para o filho. Não o fez de fonte primária, mas colheu informações com parentes
e amigos, folheou álbuns e catálogos de fotos, visitou a fábrica, a casa, e o
que restou do antigo Correio. É impossível assegurar que tudo era verdadeiro e
confiável. O próprio Zuckerman imprimiu, como todo escritor, a sua parte de
“verdade” à história. É preciso lembrar que Zuckerman foi colega no ensino
médio de Jerry, que nutria certa inveja do irmão Seymour. Enquanto Zuckerman o
tinha por herói. Assim, como confiar nos eventos? Durante a maior parte do
tempo, a dúvida persiste.
O
que é real? O que não é? E ainda mais: é possível conhecer integralmente uma
pessoa? Ou temos somente pistas de quem ela foi ou é?
Seymour
descobrirá que tudo em que acreditava, e para o qual se entregou, a família, o
trabalho, o casamento, a paternidade, não são exatamente o que se configurava.
Havia fumaça, muito antes do fogo começar.
E
Zuckerman se contamina — e em algum ponto sai chamuscado — na fogueira em que a
vida amplia e, ao mesmo tempo, reduz os Levov.
Em
suas mais de quinhentas páginas, Roth revela o desastre do sonho americano, mas
antes a catástrofe pessoal e familiar — o American Way of Live desmorona,
porque as pessoas são como um castelo de cartas na tempestade —, expondo as
fissuras, abismos e rupturas nas relações e no modo de encarar a vida.
O
Seymour fez tudo certo. Exemplar em tudo o que se propôs. Bom filho. Bom
atleta. Bom aluno. Bom marido. Bom pai. Bom empresário. O cais onde as
turbulências muitas vezes cessavam — sua mãe o considerava um “porto seguro”.
Mas, nem assim, a vida funciona. Não da forma idealizada por ele mesmo. E tal
qual Adão, ele tentou se absolver na culpa dos outros. Mas nos momentos mais
lúcidos, ou menos turvos, não fugia da acusação: fui o culpado?
Uma
bomba explode em um mercadinho na provinciana Old Rimrock, New Jersey, e desencadeia
uma sucessão de eventos que tornará a vida até então irreconhecível. Nesse
momento, entra Merry, a filha do Sueco. E o que o tempo se encarregaria de
resolver com amor e paciência — pensava Seymour —, se transforma em tragédia de
proporções imperscrutáveis.
Creio
que a principal pergunta seja: o que levou aquelas pessoas, aquele país, ao
caos? A guerra? A ideologia? O desprezo? O cansaço?... Há nítido desgaste;
enquanto o futuro se revela delicado e quebradiço, o presente arde em chamas, e
o passado é o acelerante a tocar fogo em tudo.
Restará
apenas cinzas?
A
guerra é transportada para as ruas, cidades e campos americanos, sem que
ninguém consiga impedir; sem que ninguém saia ileso. Ela é o estopim. Mas a
causa, ou causas, pode estar naquilo que o Éden mostrou: Adão tentou transferir
a culpa para a mulher, depois para Deus, mas não foi absolvido. A Queda se
repetiu, e a América não podia mais resistir ao seu próprio pecado: não se
despir da fantasia diante do espelho. Foi preciso arrancá-la, mas enquanto
resistia, se viu nua, com todos os defeitos que o tempo e o afastamento da
verdade produziram.
E
a verdade hesitante e dúbia é a mentira convicta. A ela se apegaram. Por ela, se
estilhaçaram.
O
Sueco se descobre, na meia idade, um homem inseguro, incontido, confuso e
perplexo.
Roth
não nos dá respostas. Ainda que se possa chegar a uma ou outra. Ele nos mostra
a ação, entre a calma aparente, a detonação, a ruína e as sequelas. A Pastoral
Americana são escombros.
“Porque
és pó e em pó te tornarás”.
Jorge F. Isah
Este é um livro que meio caiu no meu colo sem que esperasse. Não sou
uma enciclopédia, nem tenho pretensões de ser, mas não são poucas as vezes que
me surpreendo ao tropeçar em um autor ou título — e depois desse encontro
inesperado, não o tirar da cabeça. Assim foi com “Morrer...”. E tudo começou com uma pesquisa de romances
cujo palco era Berlim. Foi quando me deparei, pela primeira vez, com Hans
Fallada.
De cara, o título remeteu-me ao fim e à solidão. Não sabemos ainda de
quem, se um, dois ou mais; mas até que ponto se morre sozinho?
Existe uma máxima popular: “O homem nasce sozinho e morre sozinho!”,
mas até onde isso é verdade? Pode ser tratado como uma metáfora ou algo
literal? Se é uma analogia existencialista, de que o homem vive solitário mesmo
rodeado de pessoas, vá lá! Mas, se for ao pé da letra, hum... é aquela dose de
niilismo na veia.
Antes mesmo de tê-lo em mãos, essas questões me assaltavam. Não cheguei
a conclusões definitivas, apenas vislumbrava as pessoas se tornando — boa parte
delas — solitárias e céticas pelo descuido com que tratam a si e ao próximo. Se
os valores essenciais à sociedade, ao homem como um ser grupal, são
desacreditados, não nos resta outra máxima: a de “se quiser bem feito, faça
você mesmo”. Ao excluir a cooperação mútua, não é de se admirar que o
isolamento seja uma epidemia global. Não falo de ajuntamentos ou multidões,
onde as pessoas se comunicam apenas no extravasar dos sentidos. Ou
sobrevivência. Bando é ajuntar-se por interesse comum, como uma alcateia, mas a
vida vai muito além das necessidades orgânicas.
O homem está só, um tanto porque quer, outro tanto pela descrença de
que as relações resultarão em benefícios pessoais. Antes, “melhor só do que...
acompanhado”. Se do ponto de vista imanente a coisa degringola
assustadoramente, imagine na questão transcendente? Por isso, o solitário, na
maioria das vezes, se isola para não sofrer, e sofre por se isolar. É um samba
do crioulo doido.
Voltemos a Berlim. 1940. Os nazistas parecem ganhar a guerra. Otto e
Anna Quangel, um casal de meia-idade, levam uma vida prosaica. Ele é um
encarregado de marcenaria, um homem que se dedicou a exercer a arte de
confeccionar objetos em madeira e agora se vê às voltas com a construção de
caixões para os compatriotas mortos em combate. Homem reservado, de poucas
palavras, aparentemente frio, mas que tem muitos dos seus demônios sussurrando
em boa parte do tempo. Anna, por outro lado, se alegra nos relacionamentos —
poucos, diga-se —, não confronta o marido, e sente-se tão ou mais solitária do
que ele, em um casamento monossilábico, quase silencioso. Então, a tragédia: o
filho do casal, Ottinho, morre no campo de batalha. E se até aquele momento
evitavam se envolver em questões políticas, cientes de não poderem alterar o
curso das coisas, começa a surgir o desejo de resistir, denunciar o assassinato
de tantos jovens iludidos e enganados pelo poder e as promessas de um governo
ladino e ardiloso — o Estado-deus: um deus sem misericórdia nem compaixão.
Não se associam a grupos, não planejam atentados, sequestros ou coisas
mirabolantes. Na simplicidade e sutileza dos pensamentos, decidem escrever
cartões com denúncias ao Führer, espalhando um a cada semana. Parece algo sem
sentido, mas foi o plano de vingança. Se deu certo ou não, você terá de ler.
Garanto que será uma experiência e tanto, especialmente se levar em conta que a
história se baseia em fatos reais. Algo que aconteceu e movimentou a capital do
Reich nos anos 1940.
Pode-se chamar “Morrer...”
de um livro sobre vingança? Sim, mas seria uma conclusão insuficiente. De amor?
Claro, também. De terror? Sim, com certeza. Injustiça? Idem... A lista poderia
continuar. Há de tudo um pouco. Óbvio não se tratar de um amor juvenil, de
terror gótico, ou vingança hollywoodiana. Estamos em guerra, uma das piores
entre as piores. Sob um governo tirânico, opressivo, desumano, como um dos
piores entre os piores. A guerra não se resume ao front, mas está nas ruas,
prédios, casas e por toda a cidade. Na consciência de uns, na trapaça de
outros. Por todo o país. Os inimigos são muitos e estão ao redor: sorrindo,
especulando, difamando, caguetando. Há, também, aqueles que, mesmo na podridão,
tentam não se contaminar. Um ex-juiz que aconselha e acolhe. Um maestro que
divide a sua paixão por livros, música e revela um lado desconhecido a Otto.
Mas a verdade é que os atos têm consequências. E ninguém está livre da acusação
de conspirar, mesmo sendo a ovelhinha mais dócil do rebanho.
Otto descobrirá que a sua vingança — diferente do que imaginou —
alcançará o seu pequeno círculo familiar e íntimo, que desconhecia e não
partilhava da sua estratégia, mas sucumbira à loucura e ao desespero por causa
dela.
Cada uma dessas vítimas tem uma única percepção: a morte é inevitável,
num sistema onde se tenta fazer a purificação com sangue, muito sangue, e não
há sangue suficiente para tirar aquela imensa nódoa.
Isso me fez lembrar do Cristo que, apenas com o seu sangue, limpou o
pecado, trouxe vida. A morte que deu vida. E não milhões de vidas entregues à
morte.
Fallada talvez queira alertar sobre o desastre da solidão, do faça você
mesmo, e dizer que a cooperação é possível. Até mesmo em uma sociedade
traiçoeira e colaboracionista. Entre o silêncio e a passividade, eles, mais
cedo ou mais tarde, sucumbirão também, independente de qual estratégia seguiram
diante de um sistema que tem tudo e todos por inimigo. Muito mais comum do que
se pensa, aqueles que sustentam o sistema acabaram também por se tornar suas
vítimas.
Entretanto, nem tudo são espinhos, feridas e armadilhas.
No final, Kuno, o filho bastardo ou não — o pai, Emil, tem sérias
dúvidas e o próprio Kuno também — de um dos mais sórdidos personagens, é
redimido. Eva, ex-funcionária dos Correios, que perdeu dois filhos — um no
front, outro para as fileiras da SS — adota-o, e ele conhece finalmente o que
são os laços familiares.
Em meio a tanta
ruína, Fallada nos dá um gostinho de esperança. De que o homem não está
completamente perdido. De que morrer só em Berlim, ou qualquer outro lugar,
pode ser mais uma escolha do que destino.
Jorge F. Isah
Jorge
F. Isah
O céu era de um azul embaçado, salpicado de
aves e seus voos alheios ao mover das ondas, em águas esverdeadas até atingirem
os bancos de areia e se transformarem num verde camuflado, enquanto o sol
tentava curar um pileque e recuperar as forças. Pisquei os olhos e senti os
nervos se distenderem, mas a visão permaneceu escorregadia...Alguns na areia...
um cão ou outro... a maioria em guias e correias... o calçamento de atletas
semanais e diários, cada um em seu próprio esforço, numa corrida contra o
tempo, na tentativa de barrá-lo em velocidade moderada... Havia bancos de
madeira vazios àquela hora, em que a preguiça não movia quase ninguém à
admiração e descanso. Passei a mão na superfície e grãos de areia caíram...
alguns se prenderam à pele... esfreguei uma na outra e a ranhura libertou-a... Aquele
era o mundo de Deus, criado para o nosso deleite... mesmo que o homem tenha deixado
nele feridas — algumas cauterizadas, outras expostas — era possível vê-las, mas
nem assim ocultavam as geniais e múltiplas facetas de vida a transpor o
espaço... Sim, ele era original e criativo, e a manhã, talvez um pouco menos
exuberante, indicava a majestade do artífice... Um quê de saudade sobreveio.
Baixei a cabeça, olhos cerrados, e repeti algumas vezes: “obrigado”!... Esperei.
O sol aquecia a face esquerda, e um reconfortante calor irradiou para o
pescoço. O medo do bronze dividir o rosto me pôs em movimento. Caminhei
lentamente. Retive o odor do mar. O balanço da maré. O azul pálido. O verde
encardido. Retive o vaguear de urubus e gaivotas. O catar dos pombos. A solidão
vadia pelos caminhos... Eu era o estranho no ninho. Com minha calça jeans,
tênis e a camiseta da nova coleção do Galo. Entre shorts, bermudas e regatas,
deveria atrair alguma atenção, mas os poucos olhares se revelaram acasos... Depois
da temporada em São Paulo, voltar à cidade dos últimos anos trouxe a nostalgia...
Quando parti de Belo Horizonte, queria uma vida menos agitada, e a praia
configurou-se o destino. Mas, depois... Veio-me a analogia: havia saído do
purgatório, estava em direção ao paraíso e, subitamente me vi cair no fogo do
inferno. Foi uma via-profana... onde o céu era o limite, mas tive de me
contentar na companhia dos demônios... A imagem fez-me mover os lábios, num minúsculo
espasmo “a la Duchenne”... Um homem fumava. Mantinha o cigarro à altura da
boca, o cotovelo apoiado no joelho, e o pé esquerdo sobre um dos bancos. Ao
passar, desejei “bom dia”, sem resposta... à frente, um casal e seus cães.
Senti-me um ET quando nossos olhares se cruzaram. Balancei a cabeça, mas logo
vi que eram reféns dos mascotes e contrapeso dos seus músculos... Um ciclista,
depois corredores, e a etiqueta não era suficiente para tirar a casca deles.
Quando muito, atiravam-na aos meus pés, na esperança de me ver no chão... A
grama aparada. Arbustos podados. Sanitários recém-instalados. Tudo pronto para
receber turistas e nativos, até mesmo fezes e urina que o tempo e a faxina
ainda não deram conta... Os quiosques estavam em feira. Cadeiras, mesas,
guarda-sóis. O gelo triturado. O tilintar dos utensílios. Caixas e latas
rilhando. Um comando aqui e outro ali. Passos silenciados na areia... A qual
mundo está o prisioneiro na caixa?... Novo banco. Areia. Gestos. Sentei... Por
mais estático ou em movimento, o olhar é o que definia as coisas...Se seus
olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se forem maus, todo o teu corpo
será tenebroso... E não havia como escapar dessa sentença... Olhar o horizonte
diminuía o desejo de olhar abaixo ou os lados... A visão perdida no silêncio
distante, na imobilidade, na expectativa de que quanto menos se move mais
próximo da perfeição está... o movimento tem muitos riscos... Caminhei. Entrei
em ruas ainda sonolentas... apenas o vento a mover as copas e espalhar os
papéis e plásticos a lugares incertos... Dobrei à direita. Na esquina contrária
havia três velhinhas, na casa dos setenta e tantos, a rodear o muro. Uma delas
ainda estava de pijama. Apontavam. Conversavam. À distância não distingui a
razão. Foi quando vi um portão de garagem enjambrado. Aberto como uma lata de sardinhas pela metade.
Não foi difícil imaginar o estrago do pé-de-cabra. As mulheres apontavam para
lá e depois para cá. Uma viatura chegou, e uma delas disse “mas que demora!”,
não sem antes se certificar de os guardas estarem na posição de não ouvirem o
reclame. Pelo andar da dupla de mulheres, nem se ela tivesse sussurrado em seus
ouvidos modificaria o seu estado... Continuei. Um ciclista veio de encontro,
passou rente a mim: “Lá vai o buraco de bala”... Soltei um riso amarelo... O
que era aquilo?... Piada, ameaça, loucura?... Um cão manquejava na calçada...
Havia algo de triste... enquanto outros, bravos e megalômanos, entre grades e
chapas, latiam... cada um com o seu destino... Um andarilho me pediu ajuda...
Não além dos dois metros de distância... Fiz sinal de me aproximar, mas não
esperou. Levantou o braço e fez o gesto de “deixa pra lá!”: “Não quero lorota
de crente!”
Tinha sido a Bíblia suficiente para irritá-lo?...
Estava duro, era verdade. Havia dias não tinha dinheiro... Mas ele não queria
contato... Não valia o pão com margarina... Vi montes de lixos, móveis
queimados nas esquinas, tudo revirado que nem os cães se arriscavam a mexer.
Mas a Serra imponente ao fundo apontava para um dia onde tudo seria restaurado,
e nada de feiura, sujeira ou pobreza... Também não haveria ostentação e
desperdício... a medida certa, sem faltar ou sobrar...
Ouvi a métrica e simetria impecáveis... as
notas do órgão... e o refrão: “Santo, Santo, Santo...”.
______________________
Nota: texto publicado originalmente na Revista Amplitude
Jorge F. Isah
____________________
A política brasileira parece um grande maternal,
onde meninos mimados e birrentos se arranham, estapeiam e gritam por seus
carrinhos, bonecas e miniaturas de super-heróis, Barbies e pufes fofinhos. Os
mais sortudos agarram-se aos seus celulares, tablets e TVs, sempre a passar
freneticamente imagens e vídeos de coisas inalcançáveis às suas mentes, mas
suficientes para ensinar-lhes a não saber o caminho sem volta. Sem contar a
atenção e aprovação maternal, que pode ser de uma “tia”, “fessora” ou de um marmanjo
que se sinta “mamãe”, mesmo não tendo como dar de “mamá” ao pirralho.
Um ou outro, lá
pelo meio da existência, se deparará com as asneiras apreendidas, empreendidas
e propagadas, mas será um e outro; não raro, a maioria se considerará, até
depois da morte, estar certa e ser a detentora da imensurável e indizível
verdade relativa — imensurável e indizível porque existem em cérebros do
tamanho de uma ervilha, situados nos umbigos ou nos orifícios traseiros —, e o
estrago, a carcomer o tempo, jamais será revertido... quando muito, aplacado.
Ouvir audiências
no plenário de qualquer câmara legislativa é o mesmo que ser massacrado por um
bando de orcs e trolls, cada um a lançar o mais longe possível seus perdigotos
e impropérios, entre urros e carrancas, como se estivessem numa gincana do maternal,
sob efeito de alucinógenos e estimulantes sintéticos. Quem cuspir mais longe
ganha o troféu do ano.
O mesmo se dá,
com poucas variações, nas sessões das cortes secundárias e supremas, nos
gabinetes governamentais e, igualmente não raro, nas redações e estúdios
midiáticos. Os indispostos à verborrágica inutilidade reclinam-se nas
confortáveis poltronas e dormem o sono descabido. Depois, afastados dos olhares
digitais, se refestelam em tapinhas nas costas, suculentas costeletas de javali
e caudas de lagostas grelhadas na manteiga e ervas...
Nos salões ovais
e octogonais, reúnem-se a bebericar whiskies, champanhes e Manhattans sem a
menor cerimônia, rindo e escarnecendo dos mais tolos e dos mais espertos dos
contribuintes e espectadores. Não são todos, vá lá! Mas o circo é armado mesmo
que tenha um domador de leões, um faquir e um malabarista, a despeito da
maioria de palhaços.
A quase
totalidade não se presta mais sequer a esconder seus propósitos e a que veio;
nem mesmo aquele velho chavão: “estou aqui para servir ao povo” faz parte do
discurso e da grade digital. Não se furtam — e não é uma figura de linguagem —
nem escondem quais sejam seus propósitos: tirar o máximo e desfrutar de todas
as benesses burocráticas, sejam oficiais ou oficiosas, legais ou ilegais... o
descaramento, antiético e imoral, é o lema exposto debaixo dos holofotes e
pirotecnias.
Como macacos de
auditório, pulam, esperneiam, se rasgam, cantam loas a si e aos seus pares,
dizem fazer o que não fazem e fazem, petulantes, o que não dizem; alguns até
dizem e fazem, mas dizem que o fazem por amor e justiça, para o bem maior,
enquanto o bolso e a consciência batem palmas safardanas, certos de não se
saciarem, ávidos por conchavos, acordos e franquias propícias a si próprios e
seus negócios, às vezes ocultos, outras vezes descarados, mas sempre
justificados com as boas intenções do diabo e seus molejos embuçados.
A vigarice é
quase uma unanimidade nacional e, quanto a isso, pouco ou nada se pode fazer,
dada a leviandade arraigada às almas e instituições brasilis — não nessa ordem,
ou melhor, nessa desordem. De outra forma, como eu seria capaz de escrever este
artigo, publicá-lo e ainda assim encarar a mim mesmo como o paladino do oeste,
do leste, do norte e do sul? Só conservando a cara-de-pau, este abjeto mas
ingênito ardor nativo a pautar velhos e jovens, mortos e não nascidos, no
fulgor inato do “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, no decrépito das
maternidades e parteiras.
Só mesmo aquele
funk pancadão, as diatribes das focas e o silêncio histriônico dos cegos,
surdos e mudos, que veem o que não se vê, não veem o que se vê; ouvem o que não
se diz e não ouvem o que se diz — mas estão sempre dispostos a falar o que não
entendem — e esquecem-se de que até uma mula continuará mula, independentemente
da fantasia que use.
_________________________________
Nota: Texto publicado originalmente na Revista Bulunga