Jorge F. Isah
Na infância, lembro-me de um desenho, entre outros, que passava no horário nobre da tv, lá pelos idos dos anos 1970 (como o tempo voa!), onde eu, meu pai e meu irmão, assistíamos à gangue de gatos mais malandra e frustrada da história: “Top Cat” ou “Manda-Chuva”. Se não me engano, e a memória não me traí, passava às quartas-feiras, em horário nobre, e foi um campeão de audiência por longos anos. A série consistiu em 30 episódios repetidos exaustivamente por diversos canais, nas décadas seguintes, seguidas de várias edições em quadrinhos e aparições em outras séries animadas.
Estreou na América em 1961, criado pelos estúdios Hanna-Barbera, e vendidos posteriormente ao canal ABC; teve apenas uma temporada. Não sei dizer os motivos a levar à descontinuidade da série, mas o simples fato de estrelar o disputadíssimo horário nobre leva-me a crer em problemas com os custos de produção ou um certo esgotamento, já que se inspirara em outra sitcom, “The Phil Silvers Show”, exibida entre 1955 e 1959.
Basicamente, a trama se resumia à tentativa, sempre sem sucesso, dos gatos aplicarem golpes a fim de enriquecer e ganhar fama. Quando tudo parecia dar certo, eis que surgia um problema: normalmente a consciência a fazê-los desistir, ou a força da lei (o íntegro, atrapalhado e êmulo do bando, o guarda Belo), ou porque eram enganados por outros mais espertos e ardilosos.
Há quem entenda-o como uma crítica social, ao identificarem-no com pobres, desfavorecidos e os marginalizados dos guetos, algo comum e recorrente na Big Apple (Brasília, por aqui) ou em qualquer metrópole mundo afora. Seriam eles, e seus infortúnios, os perdedores de sempre? Entretanto, é uma visão reducionista e estereotipada, não somente da animação quanto à comparação social, visto os pobres em sua maioria não serem ociosos ou trambiqueiros, para dizer o mínimo. A meu ver, o aspecto moral está mais em evidência, e a mensagem de que, mesmo divertida e a suscitar cenas hilárias, a vadiagem e a patifaria caracterizadas nos episódios não levaria ninguém ao êxito; mesmo os mais ladinos acabariam acertando-se com a justiça.
Por outro lado, o probo guarda Belo, em sua inabalável integridade, não galgaria promoções, e ainda por cima se veria envolvido nas tramoias da turma... Mas eles desconheciam as intricadas esferas sempre muito bem lubrificadas dos cambalachos e manobras tupiniquins, do contrário, a temática e os resultados seriam muito, mas muito diferentes, bem ao estilo de House of Cards (mais apropriado, mas ainda aquém das “travessuras” brasileiras).
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PERSONAGENS:
a) Manda-Chuva - Malandro, líder da gangue; o primeiro a inventar e se meter em encrencas. No Brasil, foi dublado pelo ator Lima Duarte.
b) Batatinha - O mais amável dos gatos. Dócil, gentil e incapaz de fazer mal a quem quer que seja. Nunca age com malícia (uma espécie de consciência benigna do chefe, o “anjo bom”).
c) Chuchu - O gato cor-de-rosa e o braço direito do Manda-Chuva; também o mais alto; usa camisa branca de gola alta. Chuchu está sempre de vigia para ver se alguém se aproxima quando a turma está executando seus trambiques.
d) Espeto - De estilo próprio, ganhou o forte sotaque nordestino no Brasil (também dublado por Lima Duarte).
e) Bacana - O galã da turma, além de esbanjar classe. Sempre envolvido com o sexo oposto. É o namorado da gatinha Trixie.
f) Gênio - Baixinho, laranja e cujo nome contratava com a sua personalidade, já que era o mais bobo e ingênuo do bando.
g) Guarda Belo – Um policial de rua, amigo da vizinhança e que tenta, sem muito esforço, fazer com que Manda-Chuva pare com suas traquinagens (especialmente ao utilizar o telefone da polícia, frequente e gratuitamente, para os seus planos, fazer apostas e jogar conversa fora, deixando o guarda irritado e indócil).
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“Manda-Chuva” foi uma sitcom sofisticada e capaz de agradar a gregos e troianos, sem distinção. Mesmo sendo produzida há mais de 60 anos, é possível se identificar com um e outro personagem em sua universalidade tão característica.
Para muitos, diante dos noticiários, conspirações e trapaças perpetradas à luz do dia, sem que autores e colaboradores sequer se envergonhem, antes se exaltam no descaramento abjeto e cínico, parecerá cândido e recatado. Se nas telas de antigamente (e para os que assistem ainda hoje) era a mais pura diversão, os holofotes atuais não são capazes de denunciar as trevas e as particularidades obscuras do verdadeiro submundo, a atuar em recintos aparentemente garbosos, mas a exalar o enxofre dos infernos. Se os gatos do passado eram cômicos e faceiros, dos gatunos da atualidade não se pode dizer o mesmo, onde larápios e quadrilheiros se multiplicam mais do que cuspe de bêbado.
Resta-nos tão somente nos deliciar com a inocência e as trapalhadas dos felinos de ontem, porque os de hoje...
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