Jorge F. Isah
Jorge F. Isah
Jorge
F. Isah
Recentemente, travei contato com a obra de
McCullers, por intermédio de outros autores do sul americano, como Faulkner e
Flannery O’Connor, e a minha primeira incursão foi no seu romance de 1941,
“Reflexos num olho dourado”.
É um livro pequeno, pouco mais de 140
páginas, mas de densidade claustrofóbica e com tantas nuances — tantas quanto
se possa achar. Boa parte da crítica o coloca como um livro “queer”, num
reducionismo irritante, pois, apesar de tocar no aspecto homossexual do
protagonista, não é nem de longe o foco da narrativa.
Gastei uns três dias, mas desde o início,
ainda na primeira página, percebi que não o podia tratar ligeira e
superficialmente. Havia muito a desenterrar em seus escombros. Ainda assim,
mesmo depois de concluído, decidi esperar um pouco para maturar as impressões e
esquadrinhar as que houvessem me escapado. Via de regra, não sou apressado em
fazer resenhas, mas, neste caso, a prudência era ainda mais necessária.
Antes de continuar, existe um filme
dirigido por John Huston e estrelado por Marlon Brando e Elizabeth Taylor,
baseado na obra. Tentei encontrá-lo em vários streamings, sem sucesso. Uma
pena, pois a ideia do trio trabalhar o texto de McCullers seria, no mínimo,
instigante.
À primeira vista, como já disse, parece
tratar de um triângulo amoroso onde o adultério e a homossexualidade, aliados à
hipocrisia e opressão social, parecem o âmago do tema. Mas não.
Há um gay não assumido, Capitão Penderton — casado
com a femme fatale, Leonora, amante do Major Langdon, vizinho e superior
do marido na base militar no sul dos EUA —,cujo segredo é protegido sob sua
autoridade oficial. O mesmo não se dá com a relação adúltera entre Langdon e
Leonora, a ponto de todo o “Campo” (não há nominação da base militar) sabê-la.
Leonora, especificamente, parece pouco interessada
em esconder a traição, e o seu descuido reforça a suspeita e confere ao rumor
um tom de tácita autenticidade. Logo, ela não se interessa pelos sentimentos
dos outros e quer, acima de tudo, provocar tensão e fazer as pessoas orbitarem
nela — o único apego real e sincero, se
é possível chegar a tanto, se dá em sua relação com o cavalo Firebird,
um puro-sangue sob a responsabilidade de um soldado, cuja participação será
tratada mais à frente.
Então, não se trata apenas de chocar a
sociedade ou discutir questões meramente
sexuais; sequer levantar alguma bandeira, seja ela qual for. Na história da
literatura, e muito antes de Carson, houve autores mais incisivos e explícitos
quanto ao assunto.
O “Campo” é um claustro, onde os desejos
se tornam obsessões, e as relações são levianas, superficiais e marcadas por
forte tensão, por conflitos violentos, apesar da “normalidade”. É nítido o
quanto os personagens sofrem, uma aflição nada intermitente, onde a superfície
camufla quase ineficientemente a angústia de suas almas. McCullers não parece
disposta a permitir um único minuto de paz e, certamente, nenhum deles sabe o
seu real significado — não há como procurar o que não se conhece e alcançar o
que não se vê.
Existe um código desonroso entre o núcleo principal,
que se relaciona em aparente amizade, com jantares, festas, recepções, de uma
gentileza forçosa e artificial, onde conversas e atitudes não refletem a raiva,
a indiferença e o desprezo que se tem um pelo outro. Poder-se-ia chamar essas
relações de parasitismo assimétrico, que definiria o quão prejudicial e danoso
podem ser certas “colaborações” entre os homens.
No grupo secundário, temos a esposa do
Major Langdon, Allison e o seu ajudante filipino, Anacleto; e ainda o soldado
misterioso e circunspecto, Williams, o cavalariço. Neste grupo, apesar de serem
igualmente disfuncionais, ao menos sabem o seu papel no mundo e na vida alheia,
ao contrário da outra tríade.
Penderton é um homem austero, ambicioso e
covarde, que mantém um casamento de fachada e despreza intensamente a sua
esposa. Leonora é uma mulher superficial, fútil e sedutora em sua beleza
crepuscular. Langdon é o seu amante, um homem ao estilo macho-alfa. Não existem
santos, muito menos inocentes. Todos são culpados por suas fraquezas e, em
algum nível, pela debilidade alheia.
Alguns apontam a isenção da autora em
evitar qualquer tipo de censura aos seus personagens, mas a maneira como ela os
descreve, seus rompantes e instintos, rebate fortemente essa premissa. A
incapacidade de comunicação, afetividade e compreensão, fruto da imoralidade
sem freios, os leva ao caos relacional — no fundo, tudo se resume ao poder
fragmentário e minguado.
Williams é um voyeur atormentado por
Leonora. Ele se entrega à compulsão de vigiá-la à noite e fazer incursões até o
quarto enquanto ela dorme. Ele é um adulto que se infantiliza diante da figura,
de uma imagem idealizada de Leonora, poderosa, magnética. Por falar nisso —
talvez, no futuro, escreva algo mais abrangente —, na maioria dos casos a
compulsão e os delírios sexuais, independente da monta, deficiências e
justificativas, originam-se na infantilização do indivíduo, a culminar na
infantilização do seu objeto de prazer, seja uma pessoa, animal ou qualquer
outra coisa a movê-los numa espécie de regressão psicocomportamental. Tal qual
a comilança, que parte do princípio da necessidade alimentar e descamba para a
glutonaria, o exagero e a submissão ao desejo. O descontrole sempre — ou quase,
vá lá! — terá por axioma o imoral e o antiético. Aqui, Carson parece entender
completamente isso: adultos que se portam como adolescentes ou púberes.
Penderton é atormentado pelo corpo nu do
soldado Williams e, como ele, é também um perseguidor. Procura os momentos para
aproximar-se, mas é incapaz de revelar a sua atração. E isso o torna instável e
vacilante.
Langdon passeia pela amante como um
carteiro pela rua. Nada além do seu apetite sexual a guiá-lo.
Leonora, como disse, esconde-se em sua
beleza; mas já a vislumbra perdida, em breve.
Allison é a esposa traída, que sabe da
amante do marido, mas sucumbe ao silêncio e no desejo irrealizável do divórcio.
Anacleto é o único amigo sincero, leal,
protetor. Filipino e afeminado, é para Allison o que o marido não consegue ser,
e, de uma maneira engraçada, serve de consciência para Langdon, na tentativa de
mostrar os seus equívocos e chamá-lo à realidade. Porém, o major o vê apenas um
“macaquinho” zombeteiro e provocador, uma figura exótica, a qual conserva
exclusivamente para “encobrir” suas negligências quanto a Allison, e ao servir
de única companhia.
Em última análise, o desfecho final não é
meramente acidente, como muitos presumem. McCullers, ainda que não cite uma
única vez algo transcendente, não absolve os seus personagens. Cada um, à sua
maneira, é condenado por seus pecados, desvios e ausência completa de virtudes.
Todos se verão culpados, e os seus desejos levam a consequências trágicas e
perturbadoras. Apenas o inofensivo Anacleto escapará dessa sina, como se a
consciência fugisse dos efeitos deletérios e não mais houvesse lugar para ela.
Os demais terão de conviver com suas escolhas — destruídos na desonra da
vontade e cobiça.
E o que para alguns simboliza a liberdade,
não é nada além de reflexos — o resultado de uma vida indireta — o desbotar num
olho dourado.
____________________________________
Avaliação: (****)
Título: Reflexos num olho dourado
Autora: Carson McCullers
Editora: José Olympio
Páginas: 142
Jorge F. Isah
Jorge
F. Isah
Havia algum tempo que precisava — e queria
— reler Dom Quixote. A primeira investida se deu na adolescência, em uma
condensação (algo comum, àquela época, para os ginasianos e, com o tempo,
acabou por se tornar “referência” a muitos adultos indolentes, ao menos em
relação aos clássicos), e, se não me falha a memória, realizada por Monteiro
Lobato ou Carlos Drummond, ou qualquer outro grande literato.
Entre os dez e quinze anos, investi nos grandes
volumes em versões resumidas. À época, foi a maneira das editoras estimularem,
tal qual um aperitivo, as leituras densas e volumosas a fim de aguçar os
novatos, vender e usá-las como chamariz para se chegar, em breve, aos originais.
Não sei se funcionou com a maioria, penso que não. Comigo, muitos me chamaram a
atenção e o desejo de tê-los na íntegra, outros, nem tanto.
Lá pelos vinte anos, li Dom Quixote, mas
não gostei. Na verdade, gostei, mas não foi apaixonante. Percebi o humor, a
ironia de Cervantes e a crítica aos romances de cavalaria, mas não achei nada
demais. Estava às voltas com existencialistas, e qualquer coisa que não fosse o
sofrimento dos personagens, suas angústias, dúvidas e o sem sentido da vida,
além da linguagem mais direta e menos caudalosa, não me seduziam.
Isso me leva a refletir sobre a crítica à
literatura fantasiosa e, por que não, fútil: nitidamente, Dom Quixote é um
farsante não intencional, desapegado em obter lucros e dividendos para si. Mas,
contaminado pela leitura compulsiva dos romances de cavaleiros, princesas e
batalhas, tentou reconstruir, em suas andanças e aventuras, os mesmos padrões
da ficção. Cervantes entende essa literatura como algo danosa, e, na boca de
vários personagens, critica abertamente o gênero.
Porém, Quixote é um idealista, sonhador, homem de
honra, intrépido e destemido, disposto a se sacrificar por qualquer um que
esteja em perigo, não segundo a realidade, mas segundo as suas concepções de
realidade. Não é difícil a comparação com o Cristo — e toda analogia tem suas
fraquezas —, quando a mente de Cervantes materializa no seu protagonista
algumas características do homem perfeito, especialmente na capacidade de
sofrer abnegadamente, sem se ater aos seus desejos, em primeira instância, mas
vislumbrando o próximo e seus dramas. Em algum sentido, Quixote é o mártir que
vê o próprio sacrifício com esperança, de ser capaz de mudar vidas, corrigir
desastres, empreender justiça e redimir condenados diante de um mundo cínico e
em desordem. Era a visão de Unamuno, da qual compartilho.
Ele é, ao mesmo tempo, herói e anti-herói,
lúcido e louco, fiel mas desajeitado, realista e visionário, homem do presente
que escreve o futuro preso ao passado. É uma figura fantasticamente construída
com tudo o que de bom e ruim a humanidade possui.
Se Cervantes critica os folhetins
romanescos de cavalaria, por outro lado também tece advertências quanto à falta
de imagética, especialmente dos racionalistas, impedindo que emoções, outros conceitos
e estruturas sejam transmitidos. Se Quixote está errado em seus delírios e
arroubos, os racionalistas também estão em suas cadeias e caixas aparentemente
lógicas e factuais. Este é um ponto.
O segundo, se ao mesmo tempo em que o
autor denuncia a obsessão pela literatura cavaleiresca (seria o equivalente ao
“bestseller” atual), onde a padronização e a massiva exposição pública
simplesmente impedia o surgimento de, digamos, a boa literatura. Entre batalhas
memoráveis, dragões, monstros, exércitos sanguinários, mocinhos, donzelas e
vilões poderosos, o cavaleiro andante, muitas vezes solitário, era a força a
impedir a proliferação do mal. De certa forma, esse gênero afastava os letrados
da época (algo em torno de 10% da população) e os mantinham alheios ao real
conhecimento. O que dizer em pleno século XXI? Onde a literatura, e até mesmo a
capacidade de ler e entender, tem se tornado desnecessária na visão de muitos?
Terceiro, se havia fadas, bruxas, duendes,
capirotos, gigantes e fantasmas no século XVI, e, por isso, era um tipo de
subliteratura, não estariam vários títulos da atualidade enquadrados nesse
escopo? Cinco, seis séculos depois? Onde a pretensa racionalidade é cada vez
mais substituída pela irracionalidade, por narrativas e achismos que vão dos maiores
exageros até os mais frívolos?
Quarto, por que os leitores, ou cinéfilos,
gibimaníacos, noveleiros, voyeurs digitais, condenam tão veementemente
religiosos e não as suas preferências? Se ao ver deles, os religiosos se apegam
às “fantasias” e prestam um desserviço ao mundo, que raios de bem eles trazem
com suas mágicas e poderes sobrenaturais? Ou apenas ao homem é permitido
tê-los, mesmo imageticamente, e Deus (ou deuses) não? Por que a religião não
pode difundir seus valores enquanto as várias formas artísticas podem, sem
restrições? O que dizer de alguém com quarenta ou mais anos chorar a morte do
Homem de Ferro, abraçado à miniatura da Mulher Maravilha?
É fácil ver palpiteiros tecerem críticas e
exigirem o cerceamento de cristãos, por exemplo, alegando os danos que o “ópio
do povo” pode trazer às massas. Mas eles e seus seguidores se esbaldam em
cores, barulhos, efeitos e o culto a personagens e heróis de mentirinha, enquanto
enfrentam longas filas para o novo filme da Marvel ou o “dízimo” da Netflix.
Chega a ser constrangedor, no mínimo; pois é, na verdade, a transposição do
mundo quixotesco para o atual, onde os dois problemas se misturam
simultaneamente: pessoas que se dizem racionais, mas utilizam o mesmo escapismo
dos leitores medievais, e substituem a cosmologia transcendente por mitologias
seculares — e se consideram superiores e mais dignos do que religiosos. Se
Cervantes vivesse hoje, constataria que pouca coisa mudou.
No Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura e
seu fiel escudeiro, Sancho Pança, a imaginação e realidade nos faz rir, chorar,
sonhar e encher-nos de brio, honra, coragem e amor desinteressado. Não vou me
ater a detalhes da obra, pois talvez o faça na releitura do livro II... talvez.
O importante é falar que Miguel de Cervantes Saavedra construiu um dos
personagens mais emblemáticos e influentes da literatura mundial. Não sem
razão, é apontado como o maior romance de todos os tempos. Adorado por Faulkner,
que o relia ano a ano, e por tantos outros que escreveram sobre ele:
Dostoiévski, C. S. Lewis, Nabokov,
Borges, Turgueniev, entre outros.
Deixo a empreitada, portanto, para os
gigantes de verdade — a de analisá-lo com a profundidade merecida. De minha
parte, identifico-me demais com Sancho, capaz de ver o seu mestre como ele era,
com seus defeitos, teimosia e delírios, mas também de admirá-lo para além do
que os seus olhos viam.
_______________________________
Nota: 1- Ah, mesmo a tradução do Visconde de
Castilho, de 1876, é saborosa e nada difícil de ler. Claro que existem
expressões e termos não usuais hoje em dia, mas nada que dificulte o
entendimento da obra. No momento, estou lendo a tradução do Ernani Ssó, pela
Editora Penguin. Tenho as traduções do Milton Amado, do Aquilino Ribeiro e uma
edição “fac-símile”, provavelmente de
Francisco Gouveia de Morais, já que não encontrei referências. Falta-me a do
Sérgio Molina, pela Editora 34. Portanto, procure qualquer uma e não faça outra
coisa antes de lê-la.
2- Este ensaio refere-se ao Vol. 1, de Dom Quixote, perfazendo o total de 545 páginas. O Vol. 2, logo que o termine, valerá outra análise por aqui.
Jorge F. Isah
Jorge F. Isah
Li o primeiro romance de Bowles, até então o único,
há um punhado de anos. Não me lembro ao certo, mas foi por volta de 1990: “O
Céu que nos espera”, publicado pela editora Rocco. Tenho a segunda edição, que
conservo, sem a ter tocado a não ser para trocar de lugar e tirar-lhe o pó.
Nunca ouvira falar de Paul Bowles até ver o filme de
Bertolucci, com John Malkovich e Debra Winger, de 1990. Na ficha técnica estava
lá: baseado no romance de Paul Bowles. Então, fui à caça para ver se encontrava
o livro, já que adorei o filme. Achei-o na Livraria Acaiaca, em BH.
Infelizmente, o tempo acaba por apagar as coisas menos significativas e, além
do conturbado relacionamento do casal de protagonistas, das belas imagens do
deserto e um clima claustrofóbico, pouca coisa me restou, tanto do livro como
do filme.
Recentemente, em um bazar de igreja, onde
havia dezenas de livros que ninguém se interessava em ver, encontrei um
exemplar de “Que venha a tempestade”. No geral, o estado dele era bom, mas como
eu poderia escolher qualquer item por uma ninharia, algo em torno de R$ 2,00
cada (havia baixado de 10 para 5, depois para 4 e, por fim, 2). Ao final do
bazar estavam doando para quem quisesse levar, já que ocupavam espaço e ninguém,
além de mim e um dono de banca de revistas próximo, se interessava.
Em idas e vindas, consegui alguns exemplares,
inclusive dois itens relativamente raros e que iriam parar no lixo ou seriam
vendidos no quilo. Esse é o motivo de eu não acreditar que este país tenha
jeito. As pessoas saem feito loucas atrás de um jeans ou moletom usados,
enquanto os livros são empilhados como se fossem entulhos, sem qualquer cuidado.
Vi exemplares com mofo, úmidos, rasgados, capas soltas, tudo porque o pessoal
simplesmente os jogaram num canto, sem lhes dar qualquer atenção, enquanto
alisavam roupas e lustravam bijuterias.
Bem, voltemos ao objeto deste texto. Logo
no início, aquele ar de vazio, de niilismo a perpassar a narrativa, me
incomodou. Não quanto à história, à futilidade dos personagens, mas, se em 1949
(data da publicação), o mundo já se encontrava contaminado com o sem-sentido, a
descrença e o relativismo, onde valores tradicionais e a verdade eram
sistematicamente desprezados, negando o absoluto, moral e ética, o que dirá
hoje, neste contexto esfacelado?
Veja o trecho:
“Havia
anos que ele seguia sem ser notado, sem notar a si mesmo, acompanhando os dias
mecanicamente, exagerando no cansaço e no tédio do dia para que lhe desse sono
à noite, e usando o sono para fornecer energia para encarar o dia seguinte. Não
era costume se dar ao trabalho de dizer a si mesmo: ‘Não há nada além disso; o
que faz valer a pena continuar?’, porque sentia que não tinha como responder à
pergunta. Mas no momento parecia-lhe que havia encontrado uma resposta simples:
a satisfação de ser capaz de viver o dia.”(pg. 180)
O fragmento simboliza bem todo o argumento
do livro: mecanicismo, automatismo e nenhuma transcendência ou metafísica. O
homem está “preso” no próprio destino — cabe a ele apenas resistir e viver um
dia de cada vez. Em princípio, a resistência e o viver dia a dia não têm nada
de errado — em alguns aspectos pode ser saudável não se preocupar em demasia
com o futuro e não se entregar à procrastinação e o desânimo. Porém, a ideia
aqui é: “faça o que fizer, pense o que pensar, aja como agir, nada disso tem
significado e a sua vida nenhum propósito”. Ainda que o autor esteja em busca
de uma resposta, e falha em encontrá-la (porque não está onde procura), ao não
ver solução, entrega-se à lógica do vazio. Por trás da aparência de reflexão
profunda está um reducionismo e superficialismo constrangedores.
Logo, o niilismo de Bowles o leva ao
fatalismo e vice-versa, pois onde não há sentido, quando o tem, torna-se
irrelevante; e onde não existe valor e apenas vazio, o conformismo e o
“dane-se!” não permitem mudanças, ou quando acontecem são meros impulsos, fruto
da irracionalidade.
Dostoiévski sabia muito bem sobre os danos e o
legado que o niilismo deixaria na Rússia. Em “O Idiota” e “Os Demônios”, ele os
combate com a sabedoria e o olhar “profético” sobre a construção de um mundo em ruínas — pois a negação da ordem moral e espiritual somente levaria o homem ao
primitivismo bárbaro e cruel. O niilismo é, sem sombra de dúvidas, o terreno
filosófico propício para toda a derrocada ocidental, do multiculturalismo ao
pós-modernismo, do relativismo às ideologias estatizantes. Neste aspecto, tudo
se traveste de condicional, enquanto os “dogmas” são absolutos e efetivos. Por
exemplo, a liberdade deixou de ser um conceito absoluto para se tornar em
“liberdade relativa”. Assim é a moral, a ética, o conhecimento, etc. Por isso,
tudo virou “narrativa”, seja de esquerda ou direita, sem qualquer objetividade,
permeada unicamente por delírios coletivos e insanidade individual.
Dizer que Dyar, o protagonista de “Que
venha a tempestade” (no original “Let it come down”, trecho de
Macbeth, de Shakespeare, dito pelos algozes de Banquo), é um homem vazio, mediano,
que chegou a Tânger e empreendeu uma queda brusca na direção da imoralidade,
antiética e se tornou incapaz de conviver com os efeitos das suas escolhas — esse poderia ser o resumo. Entretanto, a cada
passo em direção ao abismo, e convivendo com pessoas artificiais e fúteis, a
paranoia, o delírio e a irrealidade o levam a resultados ainda mais catastróficos.
Na busca de alívio ou “sentido”,
embriaga-se, começa a usar o Kif (mistura de tabaco com maconha e haxixe, muito
comum na cultura marroquina e no norte da África), e cada vez mais se vê
aprisionado na teia a afastá-lo do real e levá-lo ao êxtase sistêmico, onde a
euforia, o artificialismo se moldam ao ponto da histeria.
O livro tem várias outras camadas e
discussões, como a aversão completa dos muçulmanos aos cristãos, os conflitos
culturais, ocultismo, e, no terço último, uma narrativa lisérgica, com um final
tenso, perturbador e claustrofóbico.
“Que venha a tempestade” é a
derrocada do homem moderno, a descida ao abismo sem fim; e de nada adianta o
sol brilhar no céu azul... os olhos não podem ver e, na verdade, não querem
ver, habituados à escuridão.
_____________________________________
Título: Que venha a tempestade
Autor: Paul Bowles
Editora: Alfaguara
Páginas: 305
Jorge F. Isah
Vamos falar um pouco sobre “Quarto de Despejo”,
escrito por Carolina Maria de Jesus.
Porém, antes de começar, é importante ressaltar alguns aspectos:
Uma obra, seja ela qual for, não pode ser avaliada
por emoções ou coisas alheias ao próprio ato criativo. Por exemplo, João usa
apenas calças roxas e blusas laranjas com bolinhas verdes. Ele não admite
vestir-se de outra forma. É visto por uma “figura”(safo). É descolado,
vibrante, alegre e todos o querem por perto. Mas João é pizzaiolo, e suas
pizzas são horríveis, mesmo que ele use uniforme roxo, laranja e bolinhas
verdes. Assim, ele é duplamente conhecido: por estar sempre à disposição e
entremeado aos clientes com seu estilo “caloroso”, mas ninguém quer uma
pizzazinha sequer. João sugere, insiste, lança um sabor novo a cada semana, mas
os clientes se contentam com os pacotinhos de chips e amendoim, enquanto
conversam e riem com o pizzaiolo, entre uma cerveja e outra.
Em seu “Diário de uma favelada”, Carolina não
pode ter a sua qualidade literária avaliada pelo fato de morar no “morro”,
tanto para o bem quanto para o mal. Esse é um elemento completamente
irrelevante no exame do seu trabalho.
Também, o fato de cursar até o 2º ano do ensino
fundamental não pode interferir na análise. Quanto mais o fato de ser
marginalizada e gostar de coisas que o brasileiro, em geral, desgosta: ler e
escrever. Existem muitos leitores, para todos os gêneros e interesses e
objetivos, e neles não há unanimidade, quanto mais vocação ou aspiração para a
escrita.
A condição social, financeira, educacional,
ideológica e pessoal do autor não deve ser ponto destacado em qualquer obra,
com o risco de prejudicar não somente o julgamento, mas também rebaixar o
talento e esforço a um mero “status quo”.
O mesmo vale para o fato de ser negra, mulher, mãe
solteira, recicladora e marginal, e pertencente a um grupo relegado à periferia
de São Paulo.
Não estou a falar também de toda a obra de Carolina,
pois li apenas o “Quarto”, e ele é o foco deste texto. E o excesso de cuidados
em deixar claro o meu propósito não deveria ser necessário se os tempos, e
alguns leitores, fossem mais perspicazes.
Posto isso, o livro é um diário, no qual ela relata
o dia a dia da sua vida, e de outros moradores, na favela do Canindé.
E o que dizer do livro?
A narrativa é direta, consideravelmente repetitiva,
e não há esmero ou preocupação na construção das frases. Ao menos, na maioria.
Óbvio que estamos a falar de uma realidade crua, muitas vezes desesperada e
incerta. A precariedade dos recursos, aliada à fome, doenças, desemprego, faz a
situação se agravar ainda mais. Se existe algo de virtuoso em Carolina é a sua
sinceridade ao expor seus dilemas, anseios e não “baixar a cabeça” diante dos
males a rodeá-la.
Bukowski, outro marginal mais talentoso, dizia que a
literatura era a razão de não enlouquecer. Ocorreu o mesmo com Carolina, onde
as letras, definitivamente, traziam alguma beleza, esperança e realização.
O diário, tal qual a confissão, é a forma mais
profunda de encarar a si mesmo e o mundo. Certamente, por isso, os floreios e
dissimulações não se enquadram no seu paiol de ideias. Ao mesmo tempo em que as
reflexões são brutais, é possível a ela se agradar do nascer do sol, do céu
azul, de jardins e a gentileza de uns poucos. Ela se desnuda e se expõe sem
rodeios. Não resta mais nada a não ser encarar a realidade e esperar um novo (re)começo.
Enquanto catava papel, plástico, metal ou qualquer
outra coisa a render uns trocados, a certeza de ser poeta e escritora não
deixava dúvidas nem mesmo aos seus vizinhos e conhecidos. A maioria a tratava
com despeito, aquele velho bordão: “O que isso lhe deu?”. No fundo, porém, havia
mesmo era inveja. Tenaz, teve o diário recusado pela “Reader’s Digest”, mas não
desistiu, e continuou a escrevê-lo, na esperança de um dia ser publicado.
É uma leitura ligeira; todas as informações estão na
primeira camada. À parte da luta pela sobrevivência, dela e dos filhos (3 no
total), o maior problema é Carolina sentir-se incomodada, deslocada na
comunidade, à qual pertencia contra a vontade. As inúmeras queixas de vizinhos,
brigas, discussões e o descaso público acentuavam ainda mais o infortúnio da
autora.
Nesse ínterim, Carolina repudia com veemência as
favelas e seus habitantes. Não faz como a maioria dos sociólogos, antropólogos,
cientistas políticos ou palpiteiros que enfeitam a vida nos morros e tentam
criar a áurea de falso glamour. Ela demonstra por “a mais b” que o ambiente é
insalubre, doentio, e nada de bom, a despeito de uma ou outra benignidade, pode
advir dali; a dignidade é o ressoar do abuso e indiferença. A favela é o
território perfeito para os políticos não quererem erradicá-la; os dividendos
para eles são inúmeros. Manter as pessoas na miséria é a melhor forma de
distanciar as “pontas do poder”; por isso, imagina o dia em que terá a sua casa
e abandonará para sempre a maloca.
É impossível não se comover com as situações
bizarras e degradantes. Somente quem morou ou mora na periferia (a falta de
educação dos brasileiros está se transformando em endemia, mesmo nos
condomínios luxuosos e bairros de classe média) pode aquilatar um pouco do que
ela vivenciou. Não é o melhor cenário para se desenvolver uma narrativa, mas
era o que tinha.
A primeira lembrança que me veio, foi a leitura de
“Vinhas da Ira”, de Steinbeck. A
linguagem crua, deformada, e a indigência dos personagens se assemelham. No
americano havia a recessão, o “Crash de 29” e as lutas de classes — mesmo que a
maior parte dos lavradores sequer soubesse do que se tratava — e a manipulação
política. No caso da “favela do Canindé”, os políticos apareciam somente às
vésperas das eleições... e a recessão é um “looping infinito”.
No final, a minha curiosidade foi satisfeita. A
edição preservou praticamente todos os erros gramaticais e, novamente, como em “Vinhas
da Ira”, isso me incomodou bastante; se nele foi algo planejado, composto, em “Quarto”
é orgânico e inato à autora. Houve, segundo o editor, o jornalista Audálio
Dantas, a preservação da escrita original, com todas as suas imperfeições
linguísticas, a fim de retratar fielmente o estilo da autora. A meu ver, a
deficiência não é o mesmo que estilo. Mas vá lá, em tempos onde o exotismo
disso e daquilo deve se sobrepor à ordem, harmonia e correção, o vício se
traveste de virtude. Depois de algumas dezenas de páginas, liguei o “dane-se” e
foquei no enredo.
Há alguns dias, ouvi de um autor, queridinho da
intelligentsia, que, diante de uma lista dos grandes escritores do século XX,
apontou Carolina como a maior. Ela bateu João Cabral de Melo Neto, Ariano
Suassuna, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, entre outros. Sem precisar propor
qualquer argumento ou discussão. Era ela e pronto!
Mesmo reconhecendo a persistência, obstinação e o
vislumbre incessante do sonho; mesmo reconhecendo a denúncia social e política,
não há como reputar, do ponto de vista estético, estilístico e formal, o “Quarto” como obra de arte. Por muito menos, e bota
menos nisso, Dostoiévski foi acusado de ser um escritor ruim e desleixado.
Imagine, por exemplo, Nabokov e Hemingway — que culparam o russo de escrever mal — lendo Carolina.
Em “Quarto de Despejo”, a prosa é assimétrica. E
certamente não terá lugar em nenhum salão de festas, nem mesmo naquele
dormitório no porão. Ficam, contudo, os milagres operados pela literatura. Os
mesmos capazes de salvar Buck, Carolina, eu ou você.
______________________________________
Título: Quarto de Despejo
Autora: Carolina Maria de Jesus
Editora: Ática
174 Páginas
___________________________________