Jorge F. Isah
Nelson Rodrigues é um dos maiores, senão o maior dramaturgo moderno do Brasil. Escreveu de tudo um pouco: artigos, contos, romances, crônicas, mas, especialmente, peças de teatro. Foi nessa seara que se notabilizou e ganhou fama. Visto por uns como conservador, por outros liberal, às vezes um maluco indomável, e, para muitos que não leram seus livros e assistiram às suas peças, não passava de um imoral, depravado e grotesco, quando não vulgar e sensacionalista. Havia quem o amava e aqueles a destilar-lhe ódio. Havia quem o lesse às claras, e havia leitores ocultos. Contudo, quem era realmente Nelson Rodrigues?
Nascido em 1912, em Recife, mudou-se com a família ainda criança, aos 5 anos, para o Rio de Janeiro. O pai, Mario Rodrigues, fundou em 1925 o jornal “Manhã”, posteriormente o “Crítica”, e Nelson, aos 14 anos, iniciou a carreira de repórter policial. Algumas tragédias depois, o assassinato do irmão Roberto Rodrigues em 1929 (era ilustrador e pintor), pela escritora Sylvia Seraphim, após a reportagem sobre o seu adultério (apoiada por feministas e parte da imprensa contrária ao jornal Critica, Sylvia foi absolvida do crime); o pai enveredar no alcoolismo e morrer em 1930, o “Critica” foi censurado e fechado pelo então presidente Getúlio Vargas.
Em 1936, outro irmão de Nelson morreu vítima de tuberculose, doença que o afligiria também por várias anos.
Talvez, por isso, migrou gradativamente para as colunas esportivas, mormente o futebol, onde descrevia os jogos como batalhas épicas, exacerbando ao máximo jogadas e jogadores, muitos deles retratados heróis. A experiência jornalística aliada à vida suburbana na parte norte carioca, foram os elementos de formação da sua carreira literária.
Em 1941, ocorre o seu debut teatral com a peça “A mulher sem pecado”. Entretanto, o sucesso viria em 1943 com “Vestido de noiva”, encenada no Teatro Municipal e dirigida pelo polonês Ziembinski, à frente do grupo “Os comediantes”. Tornou-se um marco no teatro brasileiro, pela maneira pouco usual de se fazer dramas. Era a oxigenação, ou melhor, a renovação definitivamente incorporada aos palcos nacionais.
Teve peças censuradas: “Álbum de família”, em 1946, por causa do tema polêmico do incesto, e “Casamento” em 1966.
Escreveu folhetins sob o pseudônimo “Susana Flag”, em publicações para os Diários Associados, nos anos 1940, alavancando as vendas dos jornais da organização pelo Brasil.
Casou-se com Elza Bretanha, colega de redação, em 1940, com quem teve 2 filhos. Era mulherengo e homem de muitas amantes e filhos de relações extraconjugais, bem ao estilo dos seus personagens: adúlteros, amorais e hedonistas. Por fim, ironicamente, retornou ao casamento com Elza após a promulgação da lei que legitimou o divórcio, e assim viveu os últimos dias, numa espécie de “autorredenção”.
Foi ainda crítico cultural, comentarista de futebol no rádio e TV, e editor em vários momentos de sua carreira.
O gênio dado à autopromoção, polêmicas e temática que o próprio Nelson qualificava de “desagradável”, chocou plateias e, se levou à admiração, também promoveu aversão e furor: jamais atitudes apáticas ou desinteressadas.
Morreu em 1980, aos 68 anos, e definiu-se assim:
“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino).”
Um menino travesso, diga-se de passagem.
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Frases polêmicas, mas nem tanto...
“Invejo a burrice, porque é eterna.”
“Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista.”
“Só o inimigo não trai nunca.”
“A liberdade é mais importante do que o pão.”
“A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.”
“A plateia só é respeitosa quando não está a entender nada.”
“A televisão matou a janela.”
“Amar é dar razão a quem não tem.”
“Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.”
“Qualquer indivíduo é mais importante do que toda a Via Láctea.”
“Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.”
“Deus está nas coincidências”
“Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.”
“Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem.”
“Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.”
“Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia.”
“Jovens: envelheçam rapidamente!.”
“Nem toda mulher gosta de apanhar. Só as normais.”
“Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias.”
“O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.”
“O biquíni é uma nudez pior do que a nudez.”
“O brasileiro é um feriado.”
“O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.”
“O morto esquecido é o único que repousa em paz.”
“Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas.”
“Se os fatos são contra mim, pior para os fatos.”
“Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta.”
“Amar é ser fiel a quem nos trai.”
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