Jorge F. Isah
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Esta
foi a minha segunda experiência com Carson McCullers; a primeira se deu com
“Reflexos num olho dourado”, cuja análise pode ser lida utilizando a barra de
pesquisa.
A
Convidada do Casamento — em português, ganhou outros títulos: “A sócia do
casamento”, “Frankie e o casamento” e até uma versão portuguesa com a tradução
literal “O membro do casamento”, já que o título em inglês é “The Member of the
Wedding” (1946). A expressão “member” pode significar membro ou sócio e, no
contexto, acredito que as versões mais modernas acertam em utilizar o
substantivo “convidada”, diferente das mais antigas.
Em
princípio, pensei que o livro tratava de uma obsessão juvenil da personagem
principal “Frankie”, uma garota de 12 anos que reside no sul americano, no
estado da Geórgia. Mas, à medida que a leitura se desenvolvia, minha impressão
inicial foi-se modificando.
Antes,
quero pontuar que os personagens de McCullers, por mais que sejam comuns,
desses que se pode encontrar em qualquer esquina, são estranhos e nunca parecem
ser exatamente o que se vê — talvez, por nos vermos neles. Sempre existem
várias camadas de personalidades conflitantes, angustiadas, fracassadas e
entregues aos seus desejos ou destruídas por eles. É como se buscassem a todo
custo uma felicidade e prazer — algo normal na natureza humana — mas se vissem
sempre a caminhar na direção oposta. Por mais que lutem contra seus instintos,
eles revelam-se dispostos a controlá-los — protagonistas e coadjuvantes — e, por que não, desiludi-los.
Posto
isso, Frankie assume três nomes, no decorrer da trama. Primeiro, Frankie Addams,
um apelido carinhoso mas infantil, que a identifica na família, mas também
entre os seus conterrâneos. Depois, em uma tentativa de mudar a sua identidade
e tornar-se madura, mas, sobretudo, ter as rédeas da própria vida, cria um nome
que considera especial, sem que
haja, contudo, um significado além do desejo de modificar as superfícies e
forjar uma nova personalidade, F. Jasmine Addams. No terço final, assume o
Frances Addams, o nome mais, digamos, formal e que, na cerimônia de casamento,
é a senha do seu reconhecimento social.
Frankie,
a despeito das tentativas de se transformar, era vista sempre do mesmo jeito pelos
seus interlocutores mais próximos: Berenice, a empregada negra, que perdeu um
olho após o ataque de um dos maridos — sempre tem um olho brilhando ou opaco
nos enredos de Carson — sendo o “modelo” adulto da adolescente, e o primo John Henry, que a arrasta o tempo todo para a infância que quer abandonar. Um ou outro
estranho, incapaz de perceber quem ela é — uma criança a ganhar o corpo de
mulher — se ilude com a sua personalidade artificial, camuflada por vestidos,
linguagem e uma incomum ‘maturidade’, e que esconde apenas o quão ingênua e inábil
de fato é.
Há
ainda a figura do pai, que gasta a maior parte do seu tempo com a relojoaria e,
apesar do interesse meio relapso, deixa para Berenice a responsabilidade de
educar e se dedicar à filha. Como o meu objetivo não é tocar em todos os
aspectos do livro, faço apenas uma rápida menção aos atores secundários, sem
penetrar em seus meandros.
Voltando
à Frankie, a obstinação, o anseio de crescer, ter o controle da própria vida, e
acreditar que mudanças simplistas e imediatas mudarão o seu destino, fazem-na
reconhecer, mesmo a contragosto, o fracasso. É impossível forjar-se a si mesmo;
antes, cada um é a soma de vários fatores, muitos — ou a maioria —
completamente fora de controle. Com isso, não estou a falar de escolhas para o
bem ou para o mal — nada a ver com o senso moral e ético — mas com a formação
do ser.
Se
para Frankie o apelido a irritava e diminuía — os laivos infantes — F. Jasmine
se tornou a senha do fracasso. Abandonar ambos e assumir-se Frances insinuava
um amadurecimento que, contudo, estava na forma, não na essência. E em seu
desenvolvimento, a garota acreditou que finalmente era adulta — a despeito da
cena bizarra e hilária ainda no casamento do irmão, uma última tentativa de
integrar-se, mesmo desesperadamente, à nova realidade do casal, sem obter
sucesso.
Por
falar em casamento, mais do que a admiração idólatra pelo irmão Jarvis — não
confunda com o mordomo de Tony Stark — seria o passaporte para um novo mundo e
a autonomia. O engraçado é que a independência de Frankie estava completamente
atrelada à dependência do jovem casal. A adolescente, por mais que buscasse a
transformação — um tipo de metamorfose onde a vida até então seria descartada e
substituída por outra — estava apenas nos códigos e símbolos, já que o seu
ensimesmamento e conturbadas emoções permaneciam inalteradas.
A
nova vida de Jarvis e Janice — o casamento em que Jasmine é o terceiro “J” a
incluí-la também em um novo modelo — faz com que a realidade vença as
expectativas e remova Frankie da extravagância para a normalidade.
Carson
McCullers com seus personagens comuns, situações comuns, e uma história
aparentemente comum, desce aos abismos da alma para colocar, cada um de nós, em
nossos devidos lugares. E também cada um, a seu jeito, que se vire onde está —
mas sabendo que, mesmo nos limites, nenhuma esperança é vã.
E,
no fim, a convidada nunca é a estrela da festa.
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Avaliação: (****)
Título: A Convidada do Casamento
Autora: Carson McCullers
Páginas: 232
Editora: Novo Século
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