26 agosto 2026

A Convidada do Casamento - Carson McCullers

 



Jorge F. Isah

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Esta foi a minha segunda experiência com Carson McCullers; a primeira se deu com “Reflexos num olho dourado”, cuja análise pode ser lida utilizando a barra de pesquisa.

A Convidada do Casamento — em português, ganhou outros títulos: “A sócia do casamento”, “Frankie e o casamento” e até uma versão portuguesa com a tradução literal “O membro do casamento”, já que o título em inglês é “The Member of the Wedding” (1946). A expressão “member” pode significar membro ou sócio e, no contexto, acredito que as versões mais modernas acertam em utilizar o substantivo “convidada”, diferente das mais antigas.

Em princípio, pensei que o livro tratava de uma obsessão juvenil da personagem principal “Frankie”, uma garota de 12 anos que reside no sul americano, no estado da Geórgia. Mas, à medida que a leitura se desenvolvia, minha impressão inicial foi-se modificando.

Antes, quero pontuar que os personagens de McCullers, por mais que sejam comuns, desses que se pode encontrar em qualquer esquina, são estranhos e nunca parecem ser exatamente o que se vê — talvez, por nos vermos neles. Sempre existem várias camadas de personalidades conflitantes, angustiadas, fracassadas e entregues aos seus desejos ou destruídas por eles. É como se buscassem a todo custo uma felicidade e prazer — algo normal na natureza humana — mas se vissem sempre a caminhar na direção oposta. Por mais que lutem contra seus instintos, eles revelam-se dispostos a controlá-los — protagonistas e coadjuvantes — e, por que não, desiludi-los.


Posto isso, Frankie assume três nomes, no decorrer da trama. Primeiro, Frankie Addams, um apelido carinhoso mas infantil, que a identifica na família, mas também entre os seus conterrâneos. Depois, em uma tentativa de mudar a sua identidade e tornar-se madura, mas, sobretudo, ter as rédeas da própria vida, cria um nome que considera especial, sem que haja, contudo, um significado além do desejo de modificar as superfícies e forjar uma nova personalidade, F. Jasmine Addams. No terço final, assume o Frances Addams, o nome mais, digamos, formal e que, na cerimônia de casamento, é a senha do seu reconhecimento social.

Frankie, a despeito das tentativas de se transformar, era vista sempre do mesmo jeito pelos seus interlocutores mais próximos: Berenice, a empregada negra, que perdeu um olho após o ataque de um dos maridos — sempre tem um olho brilhando ou opaco nos enredos de Carson — sendo o “modelo” adulto da adolescente, e o primo John Henry, que a arrasta o tempo todo para a infância que quer abandonar. Um ou outro estranho, incapaz de perceber quem ela é — uma criança a ganhar o corpo de mulher — se ilude com a sua personalidade artificial, camuflada por vestidos, linguagem e uma incomum ‘maturidade’, e que esconde apenas o quão ingênua e inábil de fato é.

Há ainda a figura do pai, que gasta a maior parte do seu tempo com a relojoaria e, apesar do interesse meio relapso, deixa para Berenice a responsabilidade de educar e se dedicar à filha. Como o meu objetivo não é tocar em todos os aspectos do livro, faço apenas uma rápida menção aos atores secundários, sem penetrar em seus meandros.

Voltando à Frankie, a obstinação, o anseio de crescer, ter o controle da própria vida, e acreditar que mudanças simplistas e imediatas mudarão o seu destino, fazem-na reconhecer, mesmo a contragosto, o fracasso. É impossível forjar-se a si mesmo; antes, cada um é a soma de vários fatores, muitos — ou a maioria — completamente fora de controle. Com isso, não estou a falar de escolhas para o bem ou para o mal — nada a ver com o senso moral e ético — mas com a formação do ser.

Se para Frankie o apelido a irritava e diminuía — os laivos infantes — F. Jasmine se tornou a senha do fracasso. Abandonar ambos e assumir-se Frances insinuava um amadurecimento que, contudo, estava na forma, não na essência. E em seu desenvolvimento, a garota acreditou que finalmente era adulta — a despeito da cena bizarra e hilária ainda no casamento do irmão, uma última tentativa de integrar-se, mesmo desesperadamente, à nova realidade do casal, sem obter sucesso.  

Por falar em casamento, mais do que a admiração idólatra pelo irmão Jarvis — não confunda com o mordomo de Tony Stark — seria o passaporte para um novo mundo e a autonomia. O engraçado é que a independência de Frankie estava completamente atrelada à dependência do jovem casal. A adolescente, por mais que buscasse a transformação — um tipo de metamorfose onde a vida até então seria descartada e substituída por outra — estava apenas nos códigos e símbolos, já que o seu ensimesmamento e conturbadas emoções permaneciam inalteradas.

A nova vida de Jarvis e Janice — o casamento em que Jasmine é o terceiro “J” a incluí-la também em um novo modelo — faz com que a realidade vença as expectativas e remova Frankie da extravagância para a normalidade.

Carson McCullers com seus personagens comuns, situações comuns, e uma história aparentemente comum, desce aos abismos da alma para colocar, cada um de nós, em nossos devidos lugares. E também cada um, a seu jeito, que se vire onde está — mas sabendo que, mesmo nos limites, nenhuma esperança é vã. 

E, no fim, a convidada nunca é a estrela da festa. 

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Avaliação: (****)

Título: A Convidada do Casamento

Autora: Carson McCullers

Páginas: 232

Editora: Novo Século

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