Aqui e acolá, assisto a um e outro jogo da Copa, e
algo que salta aos olhos é como os torcedores se mostram festeiros e animados —
quase chego a dizer felizes — antes e durante os jogos... claro, até aquele gol
adversário.
Países com problemas econômicos, sociais,
políticos e, quiçá, existenciais, na América são representados por cidadãos
saudáveis, bonitos e eufóricos, todos com seus Galaxys Ultra e iPhones Pro Max erguidos
como troféus olímpicos à caça dos três segundos de eternidade no feed.
Cá estou eu com o meu Moto G, me
perguntando se não seria hora de arriscar tudo em um carnê de vinte e quatro
prestações e ter a minha parcela de alegria. Mas então me lembro: alegria de
pobre dura pouco.
É tanta gente bonita que chego a
desconfiar de IA ou coisa que o valha. Esqueço a fila do SUS, os odores do
metrô e as matérias orgânicas das calçadas.
A festa não estaria completa sem os
narradores e comentaristas, que disputam a tapas os espectadores — como se sofressem
de hipoacusia severa. Entre a publicidade de cerveja e casa de aposta, temos a
certeza de que se a Copa fosse mensal ninguém mais teria fome ou boletos.
Convenhamos, é um fenômeno e tanto. O país
para. Em dia de jogo, ninguém pensa em mais nada. Famintos, desempregados e
endividados se unem em comoção pelas cores verde e amarela — bandeiras, camisetas,
faixas... ruas, muros e fachadas. Nada de lembrar da luz atrasada. Mas a assinatura da Tevê está em dia. O resto
que se dane.
Seja na eliminação precoce ou não, daqui a
duas semanas tudo voltará ao normal. E os momentos de comunhão quase espiritual
— entre odes e hinos e unção coletiva — darão lugar às filas, engarrafamentos, xinglings
roubados para uma cervejinha. Afinal, ninguém é de ferro... até as eleições...
quando bufantes e histriônicos, os eleitores darão a sua parcela de caviar e
mansão em Miami para os escolhidos.
Em quatro anos, verá tudo de novo... mesmo que os seus olhos insistam em dizer o contrário, e você acredite.
Jorge F. Isah
____________________________
Nota: Publicado originalmente na Revista Bulunga
Nenhum comentário:
Postar um comentário