15 fevereiro 2021

Deus é Vermelho: o Evangelho sem cor

 




Jorge F. Isah


O autor não é cristão. Está mais interessado no movimento de resistência ao comunismo na China do que propriamente com o Cristianismo, ainda que o Cristianismo tenha-lhe chamado a atenção como um "movimento de resistência". Ou seja, seus interesses são muito mais voltados para a política, sociologia e antropologia [e até mesmo a história do Cristianismo na China] do que o Cristianismo como a única fé bíblica. E isso é normal, pois qual interesse um descrente envolvido com a revolução à contrarrevolução teria com o Cristianismo?

Ainda que ele chame pastores, missionários e líderes cristãos de "ativistas" [um claro exemplo de como a mente revolucionária funciona], ele se permite relatar as declarações de fé que deveriam mover o cristão: Jesus Cristo como Senhor e Salvador do homem. São poucos esses momentos, tenho de convir, mas eles existem; e alguns são realmente tocantes, revelando o amor à verdade e a entrega em proclamá-la, mesmo com o risco de prisão e morte.

Ele se atém mais à questão do Cristianismo como movimento histórico que sobreviveu aos tempos de chumbo do governo Maoísta, mesmo diante da expropriação dos bens das igrejas, a perseguição aos cristãos professos, prisões, morte, tortura, e tudo o mais que envolve um regime totalitário onde o estado e o seu líder máximo são considerados "deuses", cultuados e venerados como se o fossem.

A revolução cultural de Mao foi apenas isso: uma tentativa de tornar todos os chineses em um só corpo e mente [o corpo rotundo de Mao, e a mente patológica do “estado chinês”], mas eles mesmos perceberam que a força não era capaz de destruir a fé do povo [ainda que a maioria campeou e se iludiu com os clichês revolucionários dos vermelhos]; por isso, criou-se uma igreja oficial e estatal, em que as regras eram ditadas pelo Partido Comunista, numa forma um pouco menos explícita de se corromper a alma, ainda que mantendo-se o mesmo objetivo.

Ele parece não entender como uma religião que chegou ao país há pouco mais de um século, que não tinha raízes na cultura milenar chinesa, sobreviveu a todas as tentativas de erradicação.

A criação de uma religião nacional e estatal, aos moldes da religião oficial do Nazismo, no III Reich¹, onde os cristãos eram obrigados a renegarem a sua fé em favor da fé no estado chinês, parecia resultar na destruição de qualquer influência cristã no império do centro. Mas, para a surpresa de muitos, e do próprio autor, ele encontrou uma igreja perseguida, à margem da sociedade, escondida em lares e cavernas, que floresceu e vem crescendo em meio ao maior país ateísta do mundo, ao menos em termos geográficos.

Sabemos que o Cristianismo vai muito além de "fenômenos" sociais e antropológicos, pois ele é fruto da ação sobrenatural e direta do próprio Deus. Liao não entende isso, e parece não se importar com isso. A descrição de prodígios é escassa, e o autor não parece se interessar muito por eles; os relatos, até aqui, do mover de Deus no meio do povo ocorrem na forma de uns poucos milagres que são narrados com nítida descrença.

Ele tenta relacionar o Cristianismo com outros movimentos religiosos que se opõem à igreja oficial chinesa, como se fossem quase a mesma coisa, diferindo apenas no tipo de "Deus" que cada um cultua, e na forma em que se rebelam. Mas há relatos comoventes de cristãos que foram perseguidos, presos, torturados e mortos pelo regime mais assassino do mundo em todos os tempos.

E, de certa forma, fico pensando que raios de cristãos são os que defendem a conciliação entre marxismo e o Cristianismo². É algo impossível e inimaginável para qualquer cristão que não se ilude com a mentira e falácia de que o marxismo é inofensivo. Por mais que a evidência históricas comprovem as atrocidades, perseguições, execuções e a tentativa de destruição da fé, alguns de nós não querem ver, ou teimam não ver, o quão maligno e anticristão são os fundamentos, e premissas, marxistas. De forma que o ateísmo somente pode ser substituído pela religião do estado, onde líderes são cultuados, venerados, como entes sobrenaturais, enquanto fazem apenas apontar para aquilo de mais depravado existe em seus íntimos desejos.

Liao escreveu um livro de leitura fácil, agradável, e que, a despeito de não tocar nos pontos em que mais nos interessam, a perseverança na fé cristã mesmo diante da mais virulenta e sangrenta perseguição, não deixam de ser relatos que fazem dos entrevistados testemunhas de Cristo, e de que o Evangelho continua a ser proclamado, a subsistir não pela força humana, mas pelo poder do Espírito.

Em princípio, penso que a leitura deste livro é o suficiente para que os cristãos verdadeiros fujam de qualquer aliança com o marxismo, ainda que seja apenas por simpatia, pois, como Paulo diz, que união há entre luz e trevas? Entre Cristo e Belial? A questão é, sem querer demonizá-lo, de o marxismo ser fruto do desejo de aniquilar qualquer traço divino na Criação, e qualquer traço divino no homem, feito à imagem de Deus. Para isso, há de se controlar não somente o corpo e alma mas também o espírito humano. E se isso não é diabólico em sua proposição, nada mais o é.  

Contudo, há de se fazer justiça ao autor, Liao Yiwu, o que equivale dizer que a minha crítica inicial foi parcialmente injusta, após refletir um pouco mais em pontos e narrativas que sucumbiram à minha própria avaliação. Ainda que a sua atenção esteja voltada para o Cristianismo como movimento contrarrevolucionário na China, ele abre espaço para o testemunho pessoal e de fé, com relatos de conversão, de mudança de vida e propósitos, bem diferente do ufanismo e triunfalismo atual, especialmente presente na teologia da prosperidade e no neopentecostalismo. Nesse aspecto, ele construiu um relato, se não totalmente fiel à igreja chinesa, ao menos não omitiu a marca mais evidente da fé cristã: a transformação do homem, de criatura a filho de Deus, de pecador a santo, de escravo a liberto, de perverso a amoroso.

Relatos como o do Dr. Sun que foi um dos mais renomados e influentes médicos chineses, e que abandonou todo o "status" que a sua profissão poderia lhe dar [como dinheiro, poder, etc] para se arriscar à ajuda humanitária nos grotões chineses [a quem poderíamos chamar de um "médico ambulante" ou itinerante], onde não havia serviços públicos e o povo vivia em miséria absoluta, proclamando o Evangelho de Cristo, é de fazer qualquer um de nós, cristãos ocidentais, queimar de vergonha.

Outro relato contundente e pungente é o do filho do mártir cristão, o pr. Wang Zhiming, condenado unicamente por sua fé em Cristo, à qual teve a oportunidade de renegar por diversas vezes, e se manteve firme, assim com sua família, que assistiu à brutal e injusta execução de um inocente. Curiosamente, mais de uma década depois da morte do pr. Zhiming, ele foi inocentado pelo próprio governo que o assassinou.

Por essas e outras exposições, "Deus é vermelho"³ faz-se necessário, mesmo para aqueles que estão acostumados com o "modus operandi" esquerdista. Nossa fé, de certa forma, é colocada à prova diante dos testemunhos inimagináveis dos verdadeiros e fiéis servos de Cristo que, perseguidos, humilhados, execrados e, muitas vezes, mortos, permanecem firmes na Rocha, recusando-se a negar aquele que os amou eternamente, e se fez maldição para que o seu povo fosse bendito.

***

Notas: 1- As similaridades entre Comunismo e Nazismo não param aí, no endeusamento dos seus líderes, que assumem um caráter "messiânico", de salvadores da nação e do povo. Existem outras tantas semelhanças que os tornam quase gêmeos; esta porém, o culto ao líder, é o elemento "religioso" a uni-las.

2- É um movimento crescente na igreja reformada, especificamente entre os proponentes da TMI e outras vertentes liberais.

3- Na verdade, Deus não é vermelho. O autor quis afirmar algo impensável até mesmo para o adepto mais pessimista do comunismo, e até para o fiel mais otimista entre os cristãos, de que Deus não abandonou o seu povo sob a égide marxista na China (a alusão à cor dos símbolos da esquerda é evidente). Nesse sentido, Deus é sim, vermelho. 

4- O livro encontra-se esgotado até mesmo em sebos. Não consegui uma única cópia, mesmo fazendo uma pesquisa detalhada na web. Normalmente não indico baixar ebooks gratuitos, a não ser livros em domínio público. Neste caso, contudo, deixarei o link de uma página que disponibiliza o exemplar em epub, pdf ou mobi: Lê Livros


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Avaliação: (***)

Título: Deus é Vermelho

Autor: Liao Yiwu

Editora: Mundo Cristão (esgotado)

No. Páginas: 240

Sinopse: "Na China comunista, sob o regime de Mao Tsé-tung, todas as práticas religiosas foram banidas. O comunismo tornou-se a religião nacional e Mao foi entronizado, deificado e adorado. Apenas a igreja oficial era permitida, mas em seus cultos, apenas palavras de honra e louvor ao regime e ao líder Mao. Mas debaixo de tanta opressão, a semente do cristianismo brotou e floresceu. Deus é vermelho percorre pequenos vilarejos e grandes cidades, trazendo narrativas emocionantes e assombrosas sobre dezenas de milhões de cristãos chineses que vivem a fé debaixo do duro regime socialista. Indo de casa em casa, reunindo-se porões e sótãos, vivendo à margem da religião oficial do Estado, assim caminham os cristãos chineses. Correndo perigo de prisão, castigos e até morte, assim vivem os que desafiam o regime para manter e cultivar a fé em Jesus Cristo. Conversas sussurradas, códigos cifrados, bíblias e material evangelístico contrabandeados, assim o evangelho é pregado cotidianamente. Deus é vermelho é o relato tocante e desafiador de uma Igreja viva que cresce e floresce no regime mais fechado do planeta. Liao Yiwu traz nesta obra uma perspectiva nova sobre a força e a importância do Evangelho para pessoas simples e abnegadas, mas que morrerão sem negar o Autor de sua fé. Escritor chinês censurado na China e exilado na Alemanha, onde vive desde que conseguiu fugir do regime, Liao Yiwu escreveu este livro para nos revelar uma China diferente, com uma Igreja cristã pujante e vigorosa. O autor do poema Massacre, que lhe custou anos de cadeia, nos conta a história secreta de como o cristianismo sobreviveu e floresceu na China comunista."




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